A
influência do Iluminismo no Brasil deu-se principalmente pela vertente
francesa, a menos bem sucedida das três ideologias iluministas!
O leitor por certo já tem um certo conhecimento com o Iluminismo, movimento filosófico surgido no século 17, com René Descartes (31 de março de 1596 – 11 de fevereiro de 1650) e Isaac Newton (25 Dezembo 1642 – 20 Março 1727), e que tomou a Europa (mas não só ela) no correr do século 18, por isso chamado Século das "Luzes" (falsas luzes, conforme 2 Coríntios 11,14), e estabeleceu um novo pacto social onde foi influente. Os historiadores franceses tradicionalmente colocam o período do Iluminismo entre 1715 (o ano em que Luís XIV morreu) e 1789 (o início da Revolução Francesa). Alguns historiadores recentes, no entanto, defendem o período da década de 1620, com o início da Revolução Científica.
Até que eclodisse, as sociedades europeias eram sujeitas ao
domínio da nobreza e da igreja, situação que viria a se modificar a partir do
desenvolvimento cultural propiciado pelo Renascimento e pela influência
crescente da burguesia, resvalando para o Iluminismo, a Revolução Industrial, a
Revolução Francesa e a Revolução Americana. O
absolutismo monárquico como forma de governo, o domínio do conhecimento pelo
clero e o mercantilismo na economia seriam postos em xeque pelas ideias
iluministas de Denis Diderot, de John Locke, de Voltaire, de Montesquieu, de
Jean-Jacques Rousseau, de Adam Smith, para citar os
principais.
O apelo à razão, baseado nas descobertas relativas ao mundo
físico, vinham colocar a ciência em oposição à religião católica, então
dominante no mundo ocidental; o desejo do desenvolvimento e das melhores
condições de vida da população indicavam uma mudança nas formas de governo; o
mercantilismo, entendido apenas como troca de bens, estaria sob desafio do
liberalismo econômico, valorizando a produção primária que era vista
diferentemente, como geradora da riqueza. O
Iluminismo traria profundas modificações para a organização econômica, social e
política da maioria das nações mais ricas de então, e de suas relações umas com
as outras ou com suas colônias. A
Religião e a Ciência disputariam no campo do conhecimento, ainda que alguns
filósofos, mais tarde (como Herbert Spencer), defendessem uma conciliação, em
que cada uma guardasse sua influência própria e tivessem um objetivo
comum.
As sociedades buscariam, por meio da razão, formas de governo em
que os benefícios da riqueza pudessem alcançar o maior número de pessoas, e os
governos limitassem sua atuação às ações mais próprias e necessárias. Haveria a
separação entre Igreja e Estado. O absolutismo estava sob fogo cerrado. Foi uma
enorme transformação, se pensarmos que, até a Idade Média, os monarcas
dispunham do poder de vida e morte sobre os súditos, e a Igreja, via da
Inquisição, tinha a faculdade até de punir com martírio e morte os ditos
hereges.
O Iluminismo impactou alguns monarcas (ditos déspotas
esclarecidos) como Frederico II, da Prússia, Catarina II da Rússia, e o português
Marquês de Pombal, que, não satisfeito de separar Igreja e Estado, acabou por
expulsar os jesuítas de Portugal. E chegou até nossas
plagas, influenciando, por exemplo, a Inconfidência Mineira.
Ainda hoje, no Ocidente, é largamente
adotada a repartição dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, tal
como preconizado por Montesquieu, embora por vezes haja invasão da seara de um
poder pelos dois outros, que é extremamente
incômodo, mas não raro de se ver!
A premiada historiadora americana Gertrude Himmelfarb
(1922-2019), entre outras especialidades uma estudiosa do período vitoriano
inglês, postulava que não existiu um Iluminismo, mas três:
-O francês, que ela batiza de “Ideologia da Razão”,
-O Inglês, que chama de “Sociologia da Virtude”,
-E o americano, como a “Política da Liberdade”.
Não se pode negar razão à estudiosa! Embora as ideias
iluministas fossem comuns nas três nações, os matizes de sua implantação seriam
um tanto diferentes. Os franceses adotaram em suas mudanças políticas e sociais
um rumo francamente racional, afastando a influência da religião, das tradições
e da economia. Já nas transformações da
Inglaterra, não se perdiam de vista as virtudes da tradição, da vida familiar e
da vida em sociedade, os usos e costumes tradicionais. E
os americanos fundariam seu desenvolvimento, a partir das primeiras ideias
constitucionais, no primado da liberdade.
Qual das três vertentes do iluminismo melhor resultou para sua
sociedade?
1)- Iluminismo francês: Republicano e "teoricamente!"
adepto da liberdade, igualdade e fraternidade!
A vertente iluminista francesa, caracterizada pela crença de que
a solução para os problemas sociais residia apenas no raciocínio, não levava
em conta a realidade histórica e antropológica do homem (ferido pelo pecado
original). Teorizava sobre liberdade, igualdade, e
fraternidade, entrou em confronto direto com a religião: “Esmagar a
infame (religião)”, dizia Voltaire.
Menosprezou, por outro lado as pessoas
comuns (chamadas, pelos iluministas franceses, de “canaille” — ralé), vistas
como incapazes de usar, elevadamente, a razão e de serem devidamente educadas. Esse
movimento produziria a Revolução Francesa, marca mais famosa do Iluminismo, o
Terror e finalmente Napoleão, uma espécie de volta ao “Ancien Regime”. Pouco
restou além da separação da igreja do estado e a divisão dos poderes em
legislativo, executivo, e judiciário.
2)- Iluminismo inglês: de caráter mais conservador!
Já o Iluminismo inglês teve na
religião (principalmente no Metodismo) um aliado para a melhoria das condições
de vida da população, considerava o senso moral como pertinente a todas as
pessoas, por mais comuns que fossem, e pensava na tradição familiar e nas
virtudes da convivência como meio de elevação social. Essa
crença, sem dúvida, contribuiu para a estabilidade institucional inglesa, e
esses valores republicanos formaram as bases para outra variante iluminista, a norte americana!
O esforço
dos representantes das “Luzes” britânicos não era somente evidenciar a “razão”
como arma de combate a monarquia absolutista!
A monarquia havia sofrido um abalo significativo com a reforma
política advinda das Revoluções Inglesas que no século XVII firmaram o
Parlamento como instituição liberal-democrática em combate ao crescimento do
absolutismo real.
Conforme Stone (2000), o Parlamento inglês era uma instituição política tradicional de herança feudal, na qual os diversos setores sociais – como Clero, nobreza e burguesia – tinham participação, embora o poder real tentasse interferir em suas decisões.
Nesse sentido, para o autor, a Revolução Puritana (1640-1660) foi
o grande movimento contrário ao absolutismo de Carlos I que, de maneira
arbitrária, tentava reestabelecer o direito divino dos reis como prática de
governo ao invés de atender os anseios dos diferentes grupos sociais, como da
antiga nobreza e da gentry.
O movimento revolucionário, que resultou em uma guerra civil violenta e na execução do Rei, representou também um processo de corrosão da ordem estabelecida fundamental a manutenção do poder absolutista, como a dissolução da alta câmara do Parlamento de apoio ao Monarca, no enfraquecimento da igreja submetida ao Estado (a Igreja Anglicana), na diminuição dos privilégios e poder da nobreza e no rompimento de instituições que sustentavam a monarquia absolutista. No período em que se desenvolveu a Revolução Puritana notamos na realidade inglesa, conforme Hill (1985, p.109):
"a destruição de um tipo de Estado e a introdução de uma nova
estrutura política dentro da qual o capitalismo podia desenvolver-se
livremente”.
Vemos, segundo o mesmo autor (1985, p.108), que esse processo fora completado com a segunda revolução, a Revolução Gloriosa (1688), que significou o completo rompimento com o absolutismo ao expulsar Jaime II, que ameaçava restabelecer “a antiga monarquia absolutista”.
Nesses termos, as duas revoluções conseguiram conter as pretensões
do absolutismo, favorecendo mudanças substanciais – nos campos político,
jurídico, econômico, religioso e filosófico – que imprimiram à Inglaterra um
dinamismo econômico, cultural e científico.
Acreditamos
que nessa condição circunstancial os pensadores ingleses, diferente dos
franceses, deram menos ênfase ao tema absolutismo no século XVIII
Contudo, não queremos dizer que o Iluminismo britânico não debatesse
ou não se preocupasse com o absolutismo monárquico. No Segundo tratado sobre o
governo civil, o inglês John Locke (1632-1704) promoveu uma crítica contra o
absolutismo ao defender a liberdade natural, a liberdade civil e a liberdade
política, demonstrando assim uma visão bastante parecida com a de Diderot na
França. Acreditamos que existia uma confluência de ideias entre os pensadores
ingleses e franceses no contexto de desenvolvimento da Ilustração, mas é
preciso pontuar que o precursor do pensamento ilustrado britânico viveu em
período anterior aos filósofos franceses. Desse modo, a crítica desenvolvida
por John Locke ao absolutismo se refere ao incomodo que esse poder causava na
sociedade inglesa no contexto das Revoluções Inglesas e não no contexto do
século XVIII, quando os franceses que viviam outra realidade histórica fizeram
sua crítica.
3)- Iluminismo americano: priorizava a liberdade!
O Iluminismo americano, por sua vez, estabeleceu
uma ordem política sobre o primado da liberdade, em consonância com a ideia
inglesa do cultivo das virtudes públicas como sustentáculo social. Haveria uma
separação constitucional entre Igreja e Estado, mas a organização social
americana seria claramente pro-religião. E
a liberdade ainda hoje é a grande inspiração do povo americano! Foi quem melhor
proveito tirou do arejamento cultural e social do Iluminismo.
Influências das três correntes iluministas no Brasil
A influência do Iluminismo
no Brasil deu-se principalmente pela vertente francesa, a menos bem sucedida
das três, pois o destino dos abastados da Colônia sempre era
Paris!
A Inconfidência Mineira da década de 1780 e a Revolução Pernambucana de 1817 são exemplos dessa influência iluminista no Brasil.
A própria Proclamação
da República deu-se inteiramente sob a marca do positivismo, movimento francês
de Augusto Comte, derivado precisamente do Iluminismo francês, professado
e assumido pelos militares e republicanos brasileiros de então.
Fonte -
https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/contraponto/iluminismo-americano-radicalizou-a-ideia-de-liberdade-o-frances-influenciou-o-brasil
As influências do Iluminismo em Portugal
O Iluminismo foi iniciado em Portugal a partir do ano de 1688. As ideias Iluministas sobreviveram até 1820. Portugal tinha necessidade de manter ligações com o restante da Europa. Essas alianças garantiam prestígios à Corte e movimentavam os espaços culturais. A adesão ao racionalismo também era um fator crescente em toda aquela região. A postura de Portugal fez com que o movimento cultural passasse a refletir sobre como envolver a consciência dos indivíduos a procurarem viver dias marcantes, com críticas e combate ao preconceito de qualquer ordem.
O uso da Razão estava acima de todos os preceitos e recomendações!
Toda essa efervescência tinha raízes na França, com suas
academias e salões debatedores de ideias. Marquês de Pombal, em Portugal,
acabou sendo principal motivador de ideais Iluministas. Ele morou em Londres
por um período longo e trouxe várias influências para a gestão do rei D. João
V.
Causas precursoras do Iluminismo Português
O século XVIII representou para Portugal um período de
evolução e de prosperidade no campo material e cultural. O ouro do Brasil
marcou o crescimento econômico, e a absorção dos ideais do Iluminismo fez
avultar a importância cultural.
A figura dominante do período é o Marquês de Pombal,
ministro de D. José I (1750 – 1777). Modelo de déspota esclarecido, impõe
transformações significantes nos setores administrativo e educacional.
O Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil e
retirou a educação da alçada exclusivamente religiosa, estimulando a divulgação das idéias iluministas, e introduzindo as primeiras escolas públicas.
1º)- Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire – um projeto iluminista1
1 Iluminismo no conceito de Rouanet (1989, p.28) - tendência intelectual não limitada a qualquer época específica, que combate o mito e o poder a partir da razão.
por Verbena Laranjeira Pereira - Professora Adjunto de Metodologia do Trabalho Científico da Universidade Estadual de Feira de Santana – Bahia, Ph.D em Educação pela Universidade de Sherbrooke-Quèbec-Canadá.
“O pensamento crítico exige hoje que se tome partido pelos últimos resíduos de liberdade...” (Adorno/Horkheimer)
Esse texto apresenta o pensamento
de Paulo Freire no que ele traduz de perspectiva iluminista quando se interessa
pela transformação de uma sociedade tendo como ponto de foco a libertação do
homem oprimido. Essa mudança proposta contempla um conteúdo revolucionário que
busca, nas contradições da sociedade capitalista dependente, apontar a opressão
e a desigualdade da maioria da população. Na sua concepção paradigmática de uma
nova pedagogia, a educação deve ocupar um lugar primordial na sociedade. Assim
pensando ele desconstrói paradigmas das pedagogias tradicional e liberal,
anunciando uma pedagogia emancipatória que se realiza sustentada em três
elementos: opção radical e revolucionária pelo oprimido; o diálogo
problematizador e o resgate do sujeito no oprimido através da conscientização e
respeito à experiência histórica e existencial do oprimido.
Seu imaginário de uma nova realidade para a sociedade brasileira contém os pilares do pensamento da modernidade quando projeta o futuro com a racionalidade iluminista.
l. O projeto humanista freireano
A Pedagogia do Oprimido inscreve-se numa imersão particular de um educador sobre sua realidade transversalisada pela sua prática e pela sua sensibilidade. No caso de Paulo Freire questiona-se como absorveu e mergulhou na sociedade brasileira, tecendo suas inquietações inseridas no contexto histórico da realidade brasileira nas décadas de 40, 50 e 60. Reportemo-nos ao tempo-espaço do Brasil rural, marcado por uma economia dependente, reflexa, mas uma sociedade em mutação. Esse dado é significativo, vez que, mesmo de forma incipiente, o país passava por um processo urbano industrial.
Nele observa-se o movimento de novas relações de
produção responsáveis por alterações nas regras sociais; estilos de vida;
substituição de escalas de valores enfim, há elementos outros para a formação
de mentalidades. Nesse contexto, o Nordeste, onde nasceu o pedagogo Paulo
Freire, está subtraído. A estrutura social e econômica dessa região é de
permanência de uma economia colonial. Imerso nessa realidade o pensador
substancia sua análise sensível diante da marcante desigualdade e opressão que
pouco se distingue da sociedade escravocrata do século XVII.
O camponês nordestino representante da maioria populacional dessa região encarna a condição subumana nos tempos da modernidade. Mesmo assim, nosso educador entende que o Brasil vivia a passagem de uma para outra época. (Freire, 1968, p. 46).
A energia que flui na intelectualidade nacional tem em Freire um representante histórico. O desejo de uma outra configuração para as relações dos homens, no seu entender, passa pela prática do próprio homem construindo uma mentalidade com certa rebeldia, no sentido mais humano da expressão. (Freire. 1968. p. 90).
Freire faz parte de uma vanguarda implicada com as bandeiras políticas da: democracia; participação popular; liberdade; educação; propriedade; autoridade; com novos significados que definem a sociedade brasileira em trânsito, intensamente cambiante e contraditória (Freire, 1968. p.57).
Para ele, a percepção da totalidade social do educador, como sujeito participante é decisivo, afirmando ser impossível viver uma sociedade um clima histórico cultural como este sem que se desencadeassem forças intensamente emocional. (Freire, 1968, p. 56).
Seus escritos datam de uma das décadas da história política nacional de participação popular radicalizada.
A efervescência do momento, mesmo que desarticulado e confuso, expressa a crença e a frustração do sonho de uma geração de intelectuais e de uma juventude estudantil, numa revolução socialista. Suas impressões sobre esse tempo lhe fizeram afirmar que Esta sociedade rachou-se. Sentíamos que o Brasil marchava para a tragédia do recuo. (Freire, 1968. p.49-52).
Sua visão critica das sociedades capitalistas aponta problemas básicos para o encaminhamento da revolução necessária: se há algo intrinsecamente mau que deve ser radicalmente transformado e não simplesmente reformado é o sistema capitalista. Esclarecendo que A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida. (Freire, 1977, p.201).
Observa-se que, apesar do seu humanismo cristão, presente na sua fé na revolução libertadora como um ato de amor, ele acredita ser necessário à ação revolucionária ações radicais, mesmo violentas!
O projeto de educação de Freire está engendrado ao seu projeto de sociedade que reclama ser mais autêntica, valorizadora das potencialidades nacionais, na organização e na força do seu próprio povo. Afirmando que tal força só poderá emergir do homem sujeito consciente de sua realidade para optar pelo seu aonde ir. Assim, para essa transição, a educação das massas teria seu papel fundamental. Uma educação que possibilitasse a discussão corajosa da sua problemática. De uma inserção nesta problemática. (Freire, 1977, p. 89). Pensar a educação, construir novas relações, acreditar numa outra prática pedagógica passou a ser a opção de vida de Freire. Para esse educador qualquer revolução tem um caráter eminentemente pedagógico, encontrando como raiz de uma educação libertadora, sua futuridade revolucionária uma vez que é profética e esperançosa. Portanto, reinventa-la é tomar como ponto de partida subverter sua organicidade: A Pedagogia do Oprimido que busca a restauração da intersubjetividade se apresenta como a pedagogia do homem. (Freire, 1977, p. 43). Sua proposta pedagógica requer relações interativas que nunca deve ser confundida com passividade ou atitude de espectador. Ressalta o processo humano de criar e recriar, portanto, o homem interfere em suas relações com o mundo impregnando-as de sentido conseqüente. O homem está, não só no mundo, mas com ele. Sua tese sobre o diálogo problematizador corajoso tem como base a fé nos homens. Na sua compreensão o processo dialógico com as massas seria uma exigência radical de toda a revolução autêntica. (Freire, 1977, p. 49). Os princípios do pensamento de Paulo Freire nos remetem a reflexão dos ideais iluministas, com valores inovadores e portadores de esperanças, projetando outro futuro para a humanidade.
Outras
vanguardas revolucionárias (ocidente séc. XVIII) construíram, com concepções
racionalistas, teorias e postulados éticos para um novo processo civilizatório.
Afirma Rouanet (1989) que apesar de tudo o Iluminismo foi a proposta mais
generosa de emancipação oferecida ao gênero humano. (p.27). 5 Na perspectiva
humanista, esse projeto da modernidade que no conceito de Subiratis (1991,
p.12) é configurado pela idéia de ruptura radical com a história e o começo de
uma nova era onde o triunfo absoluto da razão faria valer as idéias de justiça
social e de paz e por último a fé em um progresso indefinido.
Essas novas sensações de potência para projetar o futuro desligado da predestinação do mundo dado, mergulharam o mundo ocidental no fervilhar da vida moderna. Firmaram-se paradigmas positivistas que atropelaram, impulsionaram e angustiaram o homem, aguçando o sentido crítico e irônico dos pensadores do seu tempo. Entre eles Nietzsche (apud Berman, 1992, p. 22), como representante crítico dessa vivência moderna anunciava-a como perigosa; no entanto, entendendo-a como único estímulo que efetivamente nos comove o infinito, o incomensurável. Mesmo designando o homem moderno como semibárbaro, faz seu ato de fé no homem de amanhã e do dia depois de amanhã - colocando-se em oposição ao seu hoje. A percepção desse novo homem, na projeção futurista é o impulso audacioso do homem moderno. A realidade injusta, construída pelo projeto burguês, desvendada em suas contradições pela teoria socialista de inspiração iluminista que, desde o início desse século, foi paradigma movedor de aglutinação popular para transformações radicais. A futuridade manifesta nos princípios e valores humanistas da modernidade foram incorporados pelo projeto de sociedade socialista democrática que estava por ser construído. Os macro-modelos contemporâneos, capitalismo x socialismo, foram cristalizados em práticas políticas paradigmáticas. A possível igualdade, racionalizada pelo modelo socialista, compartilhado por Freire, demarcou referencias críticos que se contrapunham ao modelo modernizador. Perseguindo a essência dessas contradições, Paulo Freire dirigiu sua crítica à realidade de injustiças e exclusões na sociedade brasileira. Sua prática requereu do 6 pedagógico o espaço mediador no processo de transição para promover a libertação do oprimido.
Nos anos 60, sua pedagogia fez parte do projeto político nacional quando o governo acenava para uma nova ordem social. O discurso de João Goulart, de perfil socialista, naquele momento, representou o desejo coletivo – utopia que motivou a emoção do brasileiro. Guardadas as singularidades das vivências de Paulo Freire, essa experiência político-educacional está concretamente reproduzida em suas produções.
A Pedagogia do Oprimido propõe conscientização através da construção do conhecimento!
Para ele a emancipação do homem se dá na ação comunicativa, onde o pedagógico se dá em uma situação gnoseológica entre educador e educando, sujeitos cognoscentes, exercerão a cognoscibilidade (1971, p. 15-25). Para Freire a passagem da consciência intransitiva para transitividade ocorre quando o educando se envolve com o mundo dinâmico de forma crítica.
Segundo Paulo Freire consciência intransitiva é a mera apreensão da presença do fato. Já no processo de transitividade o sujeito ultrapassa o fato colocando-o num sistema de sistema de relações dentro da totalidade em que se deu – é a conscientização. A ação pedagógica propiciaria o exercício do direito de participar conscientemente na transformação sócio-histórica de sua sociedade. Para ele, cada sujeito educando, no caso o oprimido, faz parte da ação coletiva para efetivar as descontinuidades históricas. Sua pedagogia dialógica é reconhecida como o discurso da esperança em sua linguagem da possibilidade combinada com a linguagem crítica. Freire compreende que para o educador transformar e recriar o mundo é uma possibilidade combinada com a linguagem crítica.
Sendo assim o educador transformar e recriar o mundo é uma possibilidade histórica. O discurso de fé na humanização e na libertação do oprimido só será possível, na concepção de Freire, se o diálogo durar. A afirmação do sujeito está assegurada quando não há renúncia ao direito à participação e à liberdade. Princípios esses proclamados pela modernidade e identificados em Kant (s/d, p.49) quando expressou que, para o Iluminismo, tudo o que é necessário é a liberdade.
A visão de mundo de Paulo Freire nega a homogeneização do homem, visão essa constante nos projetos políticos/sociais dos intelectuais progressistas do século XX. Berman (1992) concluiu sobre tais produções que, diferente dos pensadores do século XIX, foram na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas.
Nosso educador superou modelos de práticas políticas sectárias ao respeitar o ethos cultural, a particularidade do mundo vivido de cada sujeito, seu sistema de referências, isto é, sua trajetória individual – sua subjetividade.
Para Freire, o processo de consciência de apreensão e transformação da realidade, deverá partir do interior do homem objeto se fazendo sujeito. Na sua concepção se há saber que só se incorpora ao homem experimentalmente, existencialmente este é o saber democrático, (1968, p.92) sendo assim, para ele a democracia, o processo emancipatório, a mudança, o pedagógico estão em conexão num processo coletivo, mas passando pelo acontecer individual. Encontro nessa conexão um sinal da contemporaneidade da concepção da Pedagogia do Oprimido, um projeto produzido há quatro décadas. A luz da modernidade apagou ou está sendo reabastecida pelas contradições perturbadoras do espírito moderno? As produções passam pelo que caracteriza o contexto-crítico e desconstrução, reafirmando que o movimento conduz a novas programações onde a idéia de diferença e pluralidade está em pauta. Freire, nesse novo contexto, é permanência no circuito educacional nacional e internacional. Algumas das suas categorias de análises, guardadas suas especificidades, contêm elementos ricos em potências esclarecedoras da realidade contemporânea. Esses dados reafirmam a impossibilidade de destruição do construído tempo da modernidade. Benjamin (1990) o considerou inacabado, pois, para ele, a continuidade do novo é de responsabilidade ética das novas gerações; devemos estar atentos que: é irrecuperável toda imagem do passado que ameaça desaparecer com qualquer presente que nela se não reconhece refletido. (p.25)
Fonte - https://acervoapi.paulofreire.org/server/api/core/bitstreams/83a5e52a-1348-4d3a-b00e-43d49e14d671/content
Controvérsias e Críticas a Paulo Freire
Filósofos como Martin Heidegger e Jean Paul Sartre, Gabriel Marcel e Karl Jaspers desenvolvem pensamentos existencialistas, cujos princípios se encontram em Kierkegaard e influenciam efetivamente Paulo Freire (MENDONÇA, 2006). As propostas de abordagem político-educacionais tecidas por Paulo Freire são consideradas controversas e têm sido alvo de críticas e objeções por parte de correntes discordantes. Desde os anos 1960, Paulo Freire recebeu muitos rótulos, incluindo “nacional desenvolvimentista”, “escolanovista”, “indutivista”, “não-diretivo”, “neo-anarquista católico”, entre outros. Paulo Freire, diante de tais críticas evitava polêmicas, assumindo suas ingenuidades. Contudo, não tolerava críticas em relação a uma suposta indecisão quanto à sua ótica de classe. Segundo os críticos, em seus estudos executados no período compreendido entre os anos de 1960 a 1964, Paulo Freire, negava a sociedade opressora e a sua dominação, mas não esclarecia suficientemente como superar os problemas apontados, não revelando objetivamente o tipo de revolução que se poderia desencadear e as bases socioeconômicas que deveriam dar suporte à nova estrutura do poder. Deste modo, Paulo Freire podia ser visto nesses estudos como um idealista e liberal, não negando o sistema capitalista. (Menezes, Germana Alves; Gonçalves, Luiz Gonzaga - 2018. Paulo Freire: a favor ou contra, pequeno inventário de críticas, confrontos e contribuições. Revista Brasileira de Educação de Jovens e Adultos.)
A INFLUÊNCIA DE OLAVO DE CARVALHO NO PENSAMENTO BRASILEIRO ATUAL
Morreu, no último dia 24 de janeiro de 2022 Olavo de Carvalho. Em toda imprensa, duas são as abordagens recorrentes à sua figura. Os meios que apoiam o governo de Jair Bolsonaro, ou os que se denominam conservadores, o chamam de um dos maiores pensadores brasileiros da história, um filósofo de renome mundial, o responsável por renovar a cultura brasileira e há, até mesmo, adeptos que querem canonizá-lo. Entre os opositores, Olavo é chamado de louco, negacionista, obscurantista, guru de uma massa de idiotas que saíram do armário.
Nosso objetivo, neste artigo, não é agregar um par de novos adjetivos nessa contenda estéril. A pergunta que deve ser respondida, em primeiro lugar, é como uma figura como Olavo de Carvalho ganhou tamanha projeção no Brasil? A tal ponto que, em sua morte, seja para louvá-lo ou para criticá-lo, milhões sentem a necessidade de se pronunciar a respeito?
A
crise brasileira na obra de Olavo de Carvalho
por *Tomás Paixão Borges
Ao menos desde o início dos anos 2000, grupos de uma suposta e rotulada perjorativamente de "extrema-direita" já perfilavam digitalmente em uma marcha às avessas dos ideais consagrados na Constituição de 1988. As comunidades do Orkut e fóruns, em especial, facilitaram a formação de uma curiosa coalizão de jovens fundamentalistas cristãos, anticomunistas e conspiracionistas descrentes na política, que logo encontrariam morada na obra de uma gama de autores representativos do pensamento conservador brasileiro. Entre eles, Olavo de Carvalho ocupa um lugar especial, tornando-se referência para uma “nova direita brasileira” que chegaria ao Palácio do Planalto dez anos mais tarde (Rocha, 2021).
Nesse sentido, a obra de Olavo de Carvalho é fonte importante para compreender as visões de mundo dos ditos reacionários. Independentemente da originalidade das contribuições do autor, seu diagnóstico sobre a conjuntura política brasileira e crise do mundo moderno continua sendo mobilizado, em conjunto com outras influências, para dar forma ao imaginário político dos reacionários.
Longe de ter fim com sua morte, quer gostem ou não, tudo indica que o olavismo prosseguirá influenciando a política brasileira nos próximos anos!
Seguindo o passo de diversos autores que vêm analisando a “nova direita brasileira”,1 nos debruçaremos sobre tal imaginário político a partir da análise do diagnóstico que Olavo de Carvalho fará da história e conjuntura brasileira no pós-ditadura. Para isso, abordamos primeiramente a trajetória de Olavo, enfatizando a sua relação conflituosa com espaços de sociabilidade da intelligentsia brasileira.
Ao mesmo tempo, trazer luz à sua trajetória
evidencia os sentidos que Carvalho dará à filosofia, à história e à cultura,
afastando-se de concepções comumente abordadas nas ciências sociais.
Enfatizaremos,
ainda, a proximidade e divergências da cosmovisão de Olavo com os reacionários
culturalistas (Lynch et al., 2022). Se, por um lado, compartilhará o
diagnóstico de crise da modernidade com seus representantes, as influências
tradicionalistas levarão o autor a imaginar soluções distintas para a retomada
de uma tradição ocidental. Dos tradicionalistas, também retirará o conceito de
inversão, que percorre toda sua obra. No último capítulo, utilizaremos tais
bases do pensamento de Olavo para compreender a leitura que Olavo fará da
história brasileira e dos atores responsáveis pela sua crise: o PT e o Foro de
São Paulo.
Trajetória
e fundamentos do pensamento de Olavo
À
primeira vista, a tarefa de desvelar o pensamento do autor de obras como
“Aristóteles em Nova Perspectiva” e “Jardim das Aflições” parece espinhosa. O
mar de referências ainda pouco estudadas na academia brasileira e a linguagem
farta de histórias pouco conhecidas do público, afinal, ajudam a construir a
imagem de erudição e enigmatismo do autor. Ao lado disso, a figura polêmica e a
influência das ideias de Olavo sobre os acontecimentos recentes que fizeram
chacoalhar a República também davam o tom de um autor com características
particulares.
O caminho para a compreensão, entretanto, é dado pelas próprias recomendações de Olavo. É preciso “mostrar toda a cosmovisão que [o autor] traz de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras” (Carvalho, 1999). Para Olavo, tal empreitada deve ser realizada a partir da investigação sobre as origens das ideias, que permitirá observar todas as camadas de poder que exerceram influência sobre nossas opiniões e aspirações mais profundas.
Nessa busca, as forças culturais e sociais que exercem influência sobre nós se desnudam e abrem caminho em direção ao verdadeiro pensamento livre!
O exercício individual
permitiria que cheguemos as nossas “ideias verdadeiras”, fugindo das
manipulações das ideologias e da aceitação inconsciente das ideias de outros.
Se
a recomendação falha no sentido de fornecer um aparato metodológico claro para
abordarmos o pensamento político do autor, os trechos apontam para dois
caminhos para iniciar a investigação: a análise de sua trajetória e a relação
particular de Olavo de Carvalho com a filosofia e a verdade. Ambos trarão
elementos importantes para a compreensão do diagnóstico de crise do contexto
brasileiro e evidências para o idealismo total de Olavo.
Comecemos pelo primeiro dos convites: a trajetória do chamado “arquiteto intelectual da direita radical”.2
Nascido no seio de uma família católica no interior de São
Paulo, Olavo inicia sua formação na Faculdade de Filosofia da PUC no início dos
anos 70. Com o fechamento do curso, decidiria, em suas próprias palavras, não
prosseguir seus estudos, já que “os outros cursos do país eram demasiado
ruins”.3 Nessa época, diz ainda ter participado do Partido Comunista
Brasileiro, atividade que se arrependeria posteriormente. Nos anos 80, Olavo
torna-se figura pública, escrevendo como articulista nos principais jornais do
país, como a Folha de São Paulo e O Globo. Abordava temáticas tão variadas
quanto cultura, política e astrologia, esta última seu foco nos anos iniciais
de sua carreira. Como escritor, lançaria 4 livros na área, entre eles sua
primeira obra, “A Imagem do Homem na Astrologia”, em 1980, e “Astros e
Símbolos”, em 1985, que alcançaria grande sucesso editorial à época.4
A
influência de Olavo nos estudos esotéricos e de religião comparada e simbólica
tradicional se devem sobretudo aos trabalhos de René Guénon e Frithjof Schuon,
este último cuja tariqa frequentou no final dos anos 80.5 Dos autores, a quem
se deve a expansão das ideias tradicionalistas ou perenialistas na Europa durante
o século XX, Olavo de Carvalho retirará a parte mais reacionária de seu
pensamento. Ao lado de tais influências, a linguagem polêmica e a forte atuação
pública de Olavo teria inspiração do neoconservadorismo americano de autores
como William Buckley e Irving Kristol, que serão reforçadas após a mudança para
os Estados Unidos em 2005 (Chaloub et al., 2016, 2018).
No início dos anos 2000, Olavo cria o blog Mídia sem Máscara e passa a dedicar-se à sua atuação na internet!
Nas redes, as ideias de Olavo começam a ser difundidas a partir da formação de “contra-públicos” (Rocha, 2018). No auge do governo Lula, a produção de Olavo se colocava especialmente em contrário a uma suposta hegemonia cultural de esquerda, capitaneada pelo PT e que estaria colocando a “inteligência brasileira ladeira abaixo”. Alimentava-se de um caldo de ressentimento ancorado em exclusões do aparato educacional e da impossibilidade de reconhecimento de um espaço à direita no sistema político brasileiro, que atingia jovens insatisfeitos com o progressismo dos petistas (Avelar, 2021). A Olavo, caberia o papel de demonstrar-lhes os caminhos para retornar “às correntes milenares e mais altas da vida espiritual do mundo, a fazer, em suma, com que o Brasil, em vez de se olhar no espelho estreito da modernidade, consiga se enxergar na escala do drama humano ante o universo e a eternidade” (Carvalho, 1997). De que correntes Olavo estaria falando?
As
correntes e conceitos-chave: filosofia, história e cultura
O
pensamento de Olavo de Carvalho remete sempre à decadência e à crise do mundo
moderno. Se, como veremos, sua forma de ler a história ganhará contornos novos
a partir das transformações ocorridas no século XXI, ela também possui uma
longa tradição no pensamento político brasileiro. Florescendo inicialmente nos
círculos católicos ultramontanos, a visão crítica à modernidade e seus produtos
é um dos principais traços do reacionarismo culturalista. Como ideologia
política, o reacionarismo sempre opõe algum tipo de processo transformador no
interior de uma sociedade, que deve ser revertido. Com tom apocalíptico,
desenvolve uma linguagem agressiva contra a ideologia progressista (não contra o progresso), e aqueles que o defendem.
Diferentemente do pensamento conservador, entretanto, age de maneira a
restaurar uma ordem estabelecida, com vistas a atingir uma sociedade que foi
perdida no passado (Chaloub et al., 2018; Lynch et al., 2022). De maneira
bem-humorada, João Camilo Torres traça uma linha clara de distinção entre o
conservadorismo clássico e o reacionarismo:
“A
distinção entre conservadorismo, reacionarismo, imobilismo e progressismo
torna-se mais clara se compararmos a posição respectiva em face das reformas.
Os imobilistas nada querem reformar – a casa pode estar em ruínas, mas abrigou
nossa infância, foi construída por nossos pais – ficará assim para sempre, não
se mudando o lugar de um móvel, não substituindo qualquer instalação. O
reacionário é capaz de construir um castelo medieval em Brasília, e andaria de
armaduras ou calções de veludo em Copacabana, se isto fosse possível – se assim
não faz, com relação a roupas, não deixa de fazê-lo com relação às ideias”
(TORRES, 1958).
Há um fundo de verdade na brincadeira de João Camilo. Na visão de mundo dos reacionários, a Idade Média constitui como a era de ouro a ser restaurada. Nesses tempos áureos, a estabilidade de princípios e continuidade das tradições antigas garantiria a defesa contra a legitimidade do Estado em atuar sobre as hierarquias naturais, da Igreja, da família e das comunidades (Lynch et al., 2022). A ausência de tais hierarquias levaria a mediocrização da humanidade. No mundo atual, como aponta Gustavo Corção, “as diferenças se apagam, as arestas se embotam, as cores desaparecem, e a mulher parece homem, o homem parece mulher, a velha parece menina e a menina parece velha”.
E completa: “há uma
legião de imbecis que chama isto de progresso, quando um mínimo de reflexão nos
mostra que só há progresso no mundo da vida e do espírito quando passamos do
menos diferenciado para o mais diferenciado, isto é, quando as qualidades se
exaltam” (Corção, 1978, p. 580).
Diferentemente
de parte dos reacionários católicos, entretanto, Olavo incorpora novo elemento
esotérico ao seu discurso. Na sua obra, a validade das tradições históricas não
reside apenas na experiência cristã, mas comprovada pela presença de “perfeita
homogeneidade das estruturas e conteúdos da experiência mística entre os
grandes espirituais de todas as religiões, em épocas e civilizações as mais
distantes e diversas” (Carvalho, 1999, p. 58 apud Silva, 2021). Para Teitelbaum
(2021), essa abordagem coloca Olavo como representante de uma corrente
tradicionalista ou perenialista.6 representada por nomes como Ananda K.
Coomaraswamy e René Guénon. Segundo o autor, tal grupo compartilharia
características como a busca por uma tradição perene perdida, a radical
rejeição à modernidade e a visão de decadência da civilização ocidental.
Incorporam ainda a crença em um tempo histórico cíclico, que opõe o presente
trágico a um passado mítico. Sobre ele, Olavo afirma a existência de dois
ciclos, um próximo e um distante:7
“O
primeiro desses ciclos é aquele em que a consciência humana vai se destacando
do ventre obscuro do discurso coletivo para se afirmar como portadora de uma
luz autônoma, que flui diretamente de verdades universais. O segundo vai no
sentido precisamente inverso: assinala o retorno do discurso coletivo ao
estatuto de autoridade suprema, investida do direito de subjugar e esmagar a
consciência individual. O ciclo de emergência da consciência individual
autônoma manifesta-se entre o apogeu dos Impérios egípcio e babilônico (2000 a.
C.) e o advento do Cristianismo. O ciclo da sua retração começa mais ou menos
no reinado de Henrique VIII na Inglaterra (1509-1547) e, mais veloz que o
primeiro, está próximo de chegar a um apogeu na hora em que vivemos” (Carvalho,
1997, p. 136).
Retomar
o ciclo da “consciência individual autônoma” é o caminho para acessar as
tradições perdidas, pois:
“[…]
Só no plano do indivíduo autoconsciente é que o conhecimento pode adquirir
validade: só na consciência individual vivente se realiza a prova apodíctica,
só o indivíduo tem acesso efetivo às verdades universais, enquanto a
coletividade deve se contentar com fórmulas mais ou menos convencionais – ou
consensuais – de uma verdade meramente potencial” (Carvalho, 2016).
Na obra de Olavo, é apenas no plano da individualidade que a verdade pode ser atingida!
Para tal, o indivíduo deve estar autoconsciente, ou seja, conhecer os fins particulares de sua própria crença. A filosofia seria o caminho que o levaria a essa autoconsciência e sempre estaria engajada em um fim específico.8 Nem por isso a verdade estaria sempre sujeita a relativismos: há, de fato, verdades universais.
Não são, entretanto, os filósofos modernos que teriam respondido
melhor às questões eternas, mas sim a filosofia grega e a tradição escolástica
medieval. Com autores como São Tomás de Aquino, Olavo compartilhará a defesa da
necessidade de conexão, elo “essencial entre o espiritual e o sensível”, ou
seja, entre a moral e os fins:
“Temível
sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda
assentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código
público, uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e
mecânica, que dispense a autoconsciência, a responsabilidade e a sinceridade
como adornos subjetivos. É a coisificação da verdade – o conceito acima
resumido da autoconsciência como fundamento da moral, e da moral como
fundamento” (Carvalho, 1995, p. 49).
O
cientificismo acadêmico rompeu os caminhos da longa tradição filosófica
ocidental que se iniciara nos gregos ao quebrar o elo entre a autoconsciência e
o conhecimento. Construída a partir de fórmulas consensuais, tornara-se “sem
outro valor científico que não o meramente convencional”. Produzia-se uma
ciência que é, no fim, inconsciente dos fundamentos da sua própria
ininteligibilidade e, com isso, torna-se nada mais que um instrumento
massificante, “inimiga das consciências humanas e a raiz de todas as tragédias
do século XX: comunismo, racismo, neonazismo, alienação etc.”.9 A falta de
confiança na própria autoconsciência reduziria “a humanidade a um rebanho de
animais dóceis, incapazes de entendimento pessoal e necessitados sempre do aval
da autoridade científica” (Carvalho, 1999, p. 68-69 apud Silva, 2021). A
decadência teria se intensificado sobretudo no pós-Iluminismo:
“A
linha ascensional dessa tendência, cada vez mais nítida, assinala na verdade um
descenso: ao longo desde dois séculos, estamos descendo do topo onde nos havia
conduzido a evolução que vai dos dos profetas hebreus, passando pela filosofia
grega, até o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Estamos perdendo as
prerrogativas da consciência individual autônoma e nos submetendo, na teoria e
na prática, às exigências de uma sociedade autodivinizada que, sob pretextos
modernos, científicos e progressistas, só promete em última instância nos
devolver a um estado de sujeição mental em que a massa indistinta não consiga
conceber nada além do que lhe seja ditado pelo discurso de um governante
todo-poderoso” (Carvalho, 2009, p. 151).
Ao
lado disso, a maneira como concebemos a história também teria criado uma
barreira para entendermos as verdades universais.10 Ao menos desde a obra de
Karl Marx, a historicidade teria passado a ser explicada em termos dos
contextos e restrita às forças sociais e culturais que se impõem sobre os
homens, com a História se tornando “uma força motor que modela o mundo à sua
imagem: a imagem de um fluxo temporal absolutizado, que desgasta a significação
das ideias até fazer delas simples resíduos do fato consumado” (Carvalho, 1997,
p. 87). Afastamo-nos, portanto, “daqueles tempos em que Sto. Tomás podia ler os
textos de Aristóteles tal como fossem de edição recente, para separar neles o
verdadeiro e o falso, o melhor e o pior” (Carvalho, 1997, p. 87).
Junto aos significados de filosofia e história, a cultura também desempenha papel fundamental na obra de Olavo!
Para Lynch et al. (2022, p. 78), a cultura é concebida de maneira “petrificada, indicando um saber verdadeiro e eterno de origem divina, cujo inimigo seria o progresso e a revolução, associados ao casuísmo e à subversão”. A origem de tal cultura poderia ser encontrado nos rincões mais distantes do país, onde ainda estaria preservado o estado natural das coisas. Esse “Brasil profundo” remeteria a uma “replicação imaginária do Velho Oeste americano” em solo brasileiro (Lynch et al., 2022; Teitelbaum, 2021),11 onde as lealdades das hierarquias senhoriais, das Igrejas e das comunidades locais eram estabelecidas como os principais vínculos de sociabilidade dos indivíduos. Tal cultura, entretanto, estaria constantemente ameaçada de extinção. Se é petrificada, correria o risco de extinção e substituída por uma “falsa cultura” produzida por uma elite intelectual, com prejuízos terríveis a toda a sociedade. Como espaço de criação e seleção de valores, essa falsa cultura poderia limitar ou propulsar as transformações da História ao bel-prazer daqueles que têm poder.12
Nesse sentido, as transformações históricas não são avaliadas como resultado da interlocução entre os atores e suas circunstâncias sociais, mas frutos do papel consciente e de manipulações de uma elite intelectual que buscaria impor sua visão de mundo como a verdade.
Como o espaço privilegiado de produção da intelectualidade brasileira, a universidade seria um dos loci de formação de técnicas de manipulação, que teriam sido “as causas primordiais dos acontecimentos históricos; e, no entanto, nossos historiadores continuam a as ignorar” (Carvalho, 2009, p. 52). As conspirações dão tom à marcha histórica na obra de Olavo de Carvalho. Como toda teoria conspiratória, apresenta uma explicação sobre um evento passado, presente ou futuro a partir das intenções e ações de pessoas poderosas, que ludibriam a opinião pública. Simultaneamente, se opõe às afirmações das autoridades epistemológicas em dado momento, retratando a existência de um grande complô (Uscinski, 2020). À população atingida, Olavo oferece o retrato de uma peça movida de acordo com interesses maiores. Aos opositores, a visão de Kasparovs e Carlsens que calculam com perfeição cada jogada que está adiante.
Nos últimos 500 anos, portanto, a marcha histórica poderia ser resumida na luta constante de agentes da secularização contra o mundo espiritual.
Não
à toa, Olavo retratará seus inimigos com vocábulos de matiz religiosa. Os
fenômenos do mundo, como apontará Lynch et al. (2022), são estruturados
basicamente a partir da dicotomia entre o bem (a tradição e a verdade) e o mal
(a modernidade e a mentira). Os filósofos brasileiros estariam fazendo
“bruxaria e feitiçaria” com o povo. A visão de Maquiavel é “diabólica”. Hegel
estaria a serviço da política do Anticristo sobre a Terra. Em outras partes, é
até mais explícito: o Estado moderno “nasceu de uma farsa demoníaca e, fiel de
sua origem, bebeu o sangue de inocentes” (Carvalho, 1998, p. 150). Não à toa,
produções recentes de herdeiros do pensamento de Olavo apontarão à necessidade
de uma “nova Cruzada”.13 É nessa chave que ele interpretará a crise brasileira.
Olavo de Carvalho: A máquina de propaganda gramsciana
Nos
últimos anos, muitos autores têm se dedicado a explorar o avanço da importância
dada às pautas culturais no debate brasileiro. Tais trabalhos destacaram a
maneira pela qual a guerra cultural tornara-se a chave máxima de interpretação
da realidade brasileira para a “nova direita”(Avelar, 2021; Castro Rocha,
2021). A obra de Olavo de Carvalho marcará um impulso importante para essa
concepção. Em meio à sua compreensão totalizante da cultura sobre a política e
sobre a história, verá no marxismo cultural “o fato mais relevante da história
nacional dos últimos 30 anos” (Carvalho, 1994 apud Chaloub et al., 2018). No
livro “A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci”,
Olavo deixa ainda mais claro como a conjuntura nacional pode ser resumida a
partir do pensamento de Antonio Gramsci:
“Quem
deseje reduzir a um quadro coerente o aglomerado caótico de elementos que se
agitam na cena brasileira, tem de começar a desenhá-lo tomando como centro um
personagem que nunca esteve aqui, do qual a maioria dos brasileiros nunca ouviu
falar, e que ademais está morto há mais de meio século, mas que, desde o reino
das sombras, dirige em segredo os acontecimentos nesta parte do mundo.
Refiro-me ao ideólogo italiano Antonio Gramsci” (Carvalho, 1994, p. 46).
O Gramsci que Olavo de Carvalho comentará está de acordo com as descrições do inimigo abordadas no capítulo anterior. Para Burgos (2021), a “direita anti-gramsciana ‘brasileira” terá uma face dupla frente ao pensador italiano: é tanto demônio quanto maestro. Para Olavo, a obra de Gramsci será o principal responsável pelo rebaixamento e mediocrização do debate nacional brasileiro, reduzindo tudo “a meros slogans e estereótipos e, pior, induzindo as novas gerações a crer que a paixão ideológica é uma forma legítima de atividade intelectual e uma expressão superior dos sentimentos morais”. Na leitura do “guru”, o “historicismo absoluto” gramsciano “reduziria toda atividade cultural, artística e científica à expressão dos desejos coletivos de cada época, abolindo os cânones de avaliação objetiva dos conhecimentos e instaurando em lugar deles o critério da utilidade política e da oportunidade estratégica”.14 A obra de Gramsci é sinônimo de manipulação e propaganda. Sua obra magna, “Memórias do Cárcere” teria oferecido à esquerda a ferramenta principal para chegar ao poder de maneira sutil: a revolução passiva. No imaginário de Carvalho, se a história da modernidade deveria ser contada através das tecnologias de manipulação desenvolvidas pelas elites de cada época, a crise brasileira é um longo processo que será constantemente acelerado pelo marxismo cultural. A longo prazo, tal ferramenta seria “mais perigosa que toda a artilharia do Exército Vermelho” (Carvalho, 1994, p. 36), nos levando a um momento de trevas onde perderíamos a capacidade do livre-pensar (a autoconsciência, como vimos anteriormente) e ficaríamos à mercê da autoridade dos especialistas ideologizados e lobotomizados. A infiltração do pensamento gramsciano e dos “agentes comunistas” nas esferas culturais do país já teria se iniciado na década de 70. A estratégia da esquerda15 era simples: primeiro dominar os meios culturais para depois obter a hegemonia no campo político. Os governos militares não teriam percebido a extensão dessa estratégia:
“O
governo militar se ocupou de combater a guerrilha, mas não de combater o
comunismo na esfera cultural, social e moral. Havia a famosa teoria da panela
de pressão, do general Golbery do Couto e Silva. Ele dizia: “Não podemos tampar
todos os buraquinhos e fazer pressão, porque senão ela estoura”. A válvula que
eles deixaram para a esquerda foram as universidades e o aparato cultural. Na
mesma época, uma parte da esquerda foi para a guerrilha, mas a maior parte dela
se encaixou no esquema pregado por Antonio Gramsci, que é a revolução cultural,
a penetração lenta e gradual em todas as instituições de cultura, mídia etc.
Foi a facção que acabou tirando vantagem de tudo isso – até da derrota, porque
a derrota lhes deu uma plêiade de mártires” (Carvalho, 2009, p. 2).16
O
resultado disso seria a marginalização completa no pós-1988 das elites
conservadoras do país, que passaram a ser tratadas como “um bando de caipiras,
um bando de fanáticos que não tem respeitabilidade intelectual”. Findo o
governo militar, “só quem era conservador no Brasil era o povão mudo,
desprovido de canais para fazer valer suas opiniões...A direita saiu da
política nacional com a complacência dos militares” (Carvalho, 2012, p. 52). A
República de 1988, nesse sentido, seria para Olavo muito mais ditatorial que a
própria ditadura militar ao permitir o espaço para a oposição17. Estaríamos
caminhando para ditaduras disfarçadas: do politicamente correto, do
progressismo, do feminismo e do globalismo.
A inversão é um elemento constante na obra de Olavo quando diagnostica a conjuntura brasileira!
A democracia vira ditadura. O progresso material e científico traz a pobreza espiritual do povo. Enquanto tudo o que realmente importa está em declínio, os indivíduos supõem de maneira insensata o progresso. Nessa chave também são interpretadas as conquistas relativas aos direitos humanos.
Para Olavo, a substância de todo direito é a obrigação que conferirá à outra pessoa. Nesse sentido, mesmo que pareça ser o oposto, os avanços dos direitos abririam o caminho para o Estado avançar sua tirania, “destruindo a liberdade em nome dos quais os direitos foram proclamados”. Consequentemente:“Que importam o racismo, a pobreza, a injustiça social, a corrupção dos políticos, se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana, a abolição da consciência, a redução das massas a um rebanho de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo [a liberdade] que, uma vez perdido, é irrecuperável para sempre” (Carvalho, 1995, p. 65).
Para Olavo, a Constituição de 1988 é um marco importante frente a uma longa sequência de equívocos históricos (Chaloub et al., 2016) que estariam levando o país no caminho do comunismo!
No Império, a elite era maçônica e anticatólica, impedindo que o Brasil se cristianizasse de fato. Na República, apesar de alguns avanços e surgimento de nomes da intelectualidade católica militante como Amoroso Lima e Corção, a mentalidade moderna já teria corrompido a religião moderna. Na década de 60, a fragilidade das crenças católicas teria permitido que elas se mesclassem com o marxismo e a ideologia da “Nova Era”. Distanciados da busca das verdades universais personificadas nos gregos e na escolástica, o panorama espiritual do povo brasileiro era pobre, e nossas contribuições ao mundo também o seriam.
Não à toa, o pensamento brasileiro
teria apenas quatro intelectuais dignos de entrarem no hall da intelectualidade
mundial: Gilberto Freyre, Miguel Reale, Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira
dos Santos (Carvalho, 1997, p. 202-203).
Formar uma elite de direita era um passo fundamental para a batalha espiritual brasileira. Seguindo o pensamento de Guénon (2001), esse grupo privilegiado de pessoas seria a ponta de lança para reverter a tendência de decadência da sociedade. Em post no Facebook em 2016, Olavo chegaria a afirmar que:
“seus alunos já estão criando a nova alta cultura do Brasil, que jogará na lata de lixo do esquecimento toda a subcultura universitária e jornalística das três ou quadro últimas décadas”18 (Castro Rocha, 2021, p. 79).
Na guerra cultural
brasileira, o inimigo deveria ser extirpado, e a transigência era sinônimo de
fraqueza:
“Na
vida há obstáculos que não podem ser “vencidos”: só podem ser DESTRUÍDOS! Chega de guerra assimétrica! Denuncie cada filho da puta, atire na cara
dele, em público, todo o mal que ele representa e personifica. Recuse-lhe
amizade, tolerância ou respeito, mesmo em pensamento. Esses canalhas vivem da
generosidade das suas vítimas! Discrimine quem o discrimina, oprima quem o
oprime, achincalhe quem o achincalha! Nunca esqueça: cada comunista trama
dia e noite a morte de quem atravesse, mesmo por descuido, o caminho da maldita
revolução. Chamar um comunista de assassino é redundância” (Carvalho, 2013 apud
Lynch et al. 2022, p. 81).
A
naturalização de uma retórica do ódio e contra o politicamente correto no
debate público brasileiro passa diretamente pelo impacto da obra de Olavo de
Carvalho (Castro Rocha, 2021). Dois serão os alvos principais, especialmente
após as manifestações de 2013: o Partido dos Trabalhadores e o Foro de São
Paulo.
Os
agentes da crise: PT e o Foro de São Paulo
Na retórica de Olavo de Carvalho, o Partido dos Trabalhadores é a face mais visível do inimigo a ser combatido. Nos anos 80, as elites do PT teriam sido as principais responsáveis pela montagem das estratégias que levariam à extirpação do espaço político da direita e consequente infiltração do “modo de pensar comunopetista entre as classes falantes do país”.
A hegemonia dos intelectuais petistas dos anos 90 seria tamanha, que a concorrência política passaria a ser disputada apenas entre frações da esquerda, sem ter, entretanto, nenhuma divergência séria no terreno ideológico ou mesmo estratégico. Transformando a cultura política brasileira, a disputa partidária e o cenário público poderia a partir de então ser resumido em uma mera troca de cadeiras. A estratégia de associar o Partido dos Trabalhadores ao status quo é um dos traços fundamentais que marcará o pensamento de Olavo e de outros atores das chamadas novas direitas.19 Os intelectuais petistas teriam contaminado todo o sistema político tradicional pelas pechas da “subversão comunista e corrupção, ambos os conceitos opostos a certa ideia de restauração da ordem” (Chaloub et al., 2018, p. 13). A partir das eleições de 1994, ao defender um governo de “democracia popular” e “aperfeiçoamento do capitalismo pela via do socialismo”, o PT não conseguiria nem mais esconder seu plano comunista:
“O
PT, seguindo a lição de Hitler, não se dá sequer o trabalho de ocultar o que
pretende fazer: anuncia seus planos abertamente, contando com a certeza de que
o wishful thinking popular dará às suas palavras um sentido atenuado e
inocente, sem enxergar qualquer periculosidade, mesmo nas ameaças mais
explícitas. Afinal, quanto mais assoberbado de males se encontra um povo, mais
ansioso fica de crer em alguma coisa e menos disposto a encarar com realismo a
iminência de males ainda maiores. Nessas horas, a maneira mais segura de
ocultar uma intenção maligna é proclamá-la cinicamente, para que, tomada como
inverossímil em seu sentido literal, seja interpretada metaforicamente e aceita
por todos com aquela benevolência compulsiva que nasce do medo de ter medo.
Quando Hitler prometeu dar um fim aos judeus, também foi interpretado em
sentido metafórico” (Carvalho, 1994, p. 78).
O Partido dos Trabalhadores encarnaria o moderno príncipe de Gramsci, ou seja, o partido que teria por objetivo a formação de um novo Estado através da direção política e cultural, com vistas a construir uma “nova vontade coletiva” (Neres, 2012). O PT, nesse sentido, é o elemento capaz de dar unidade e coesão à luta pela construção hegemônica (Puglia, 2018). Algumas provas para tal atuação seriam a presença de ex-seguidores declarados do filósofo italiano, como Marco Aurélio Nogueira e Francisco Weffort, e em falas retiradas de Congressos e planos de governos petistas. Se no Brasil, o Partido dos Trabalhadores levaria à cabo as estratégias para a revolução comunista, o Foro de São Paulo era a expressão máxima das forças tirânicas na América Latina. Ele era, nas palavras de Olavo, a mais relevante organização comunista surgida no mundo depois da desintegração do Bloco Soviético. A ela, caberia “coordenação estratégica da política comunista no continente, no sentido de amparar e salvar do naufrágio os regimes e movimentos comunistas moribundos espalhados por toda parte” (Carvalho, 1997). Não à toa, grande parte de seus artigos na mídia se dedicariam ao tema de desvelar a atuação perversa do Foro.20
O
Foro de São Paulo é uma organização criada em 1990 por representantes e
partidos de esquerda da América Latina e Caribe. Sua criação ocorre em meio à
dissolução da União Soviética, partindo da necessidade de articulação dos
partidos de discutirem alternativas às chamadas políticas “neoliberais” que
avançavam na região. Na leitura de Olavo, entretanto, a organização adquire o
tom de uma organização “paramilitar e estratégica, destinada a tomar o poder em
todos os países do continente, no que já fora bem-sucedida, pois em 2007 ela
dominaria o governo de nove países” (Chaloub et al., 2018, p. 27).
A organização latino-americana estaria agindo também por meio de outras instituições!
O Foro Social Mundial seria um laboratório da subversão, a
serviço das delegações da Cuba comunista, das FARC, do Partido Comunista do
Brasil e do MST.21 Em tempos mais recentes, a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL)
seria apenas uma fachada do Foro de São Paulo.22 A Organização dos Estados
Americanos (OEA) seria, na verdade, um “escritório de advocacia a serviço do
castro-chavismo, do narcotráfico e de tudo o que pode existir de antiamericano”
nas Américas.23 O seu poder seria tal que a ele caberia organizar todas as
forças do continente:
Releia
os nomes de pessoas e organizações citadas neste artigo, examine as conexões e
verá que um só esquema de poder desce dos altos escalões do globalismo e do
petismo até o submundo do crime, por intermédio do Foro de São Paulo e das
Farc, passando, a meio caminho, por ilustres representantes do empresariado
bancário local – e, de modo geral, da “classe dominante” –, que talvez não
tenham a menor ideia de onde estão se metendo com isso. O conjunto forma uma
malha tão complexa e indeslindável de interesses e comprometimentos mútuos, que
mexer num ponto é mexer no todo. Nela estão bem costurados um ao outro o
Estado, os organismos internacionais, as grandes fortunas, o Foro de São Paulo,
as Farc e, no extremo mais obscuro, o PCC e outras entidades do gênero. Muitas
dessas partes, é claro, se ignoram umas às outras, mas o Foro de São Paulo
conhece a todas e sabe mantê-las unidas de modo que nenhuma possa fazer dano
substancial às outras e todas concorram para a consolidação do poder petista
(Carvalho, 2007).24
O diagnóstico da vitória da estratégia grams¬ciana petista e do impacto do Foro de São Paulo será compartilhado por parte importante da nova direita brasileira25 a partir do início dos anos 2000 e intensificado pela crise de 2013 (Rocha, 2021).
Em nomes como o economista Rodrigo Constantino, o antropólogo Flávio Gordon e, mais recentemente, o chanceler Ernesto Araújo, a interpretação olavista da crise brasileira atingia espaços mais amplos.
Nas editoras e jornais, até mesmo futuros críticos como Felipe Moura e Reinaldo Azevedo ajudariam a tornar seus livros best-sellers na seção de política e filosofia. Aos poucos, o sistema de crenças olavista auxilia a fornecer uma cola importante que une personagens tão distintos quanto libertários, conservadores religiosos e reacionários (Avelar, 2021; Castro Rocha, 2021). Com a chegada no poder do bolsonarismo, secretários e ministros são indicados a partir da recomendação de Olavo. O seu reacionarismo culturalista chegava a instituições importantes, como o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação...Entre os reacionários, as frases de “Olavo tem razão” ecoavam por todo o Brasil. Acusações ao Foro de São Paulo, teorias conspiratórias e críticas à democracia eram alguns dos traços que compartilhavam entre si...vídeos do guru estimulavam a ação radical dos convertidos.26 Ainda que seja difícil mensurar sua influência sobre o avanço do reacionarismo do país, as ideias de Olavo certamente tiveram impacto no rumo da história do Brasil. Longe de estar no fim com a morte de Olavo de Carvalho, o imaginário às avessas da marcha progressista continuará a estar presente no pensamento de uma parte significativa dos brasileiros por um bom tempo.
Considerações
finais
No texto, buscamos analisar o diagnóstico que Olavo de Carvalho oferece à história e conjuntura brasileira no pós-ditadura. Para tal, abordamos inicialmente alguns conceitos centrais que perpassam toda a obra do autor. Em primeiro lugar, demonstramos que a história é retratada a partir do diagnóstico de crise e decadência do mundo moderno. Tal leitura teria uma forte influência dos escritos de Schuon e Guénon. A decadência poderia ser resumida no fato de que a modernidade teria nos afastado da busca individual pelas verdades universais, ou seja, da filosofia e da religião. Sem confiar mais na nossa própria autoconsciência, a humanidade ficaria aos poucos reduzida a um rebanho de animais dóceis, incapazes de entendimento pessoal e necessitados sempre do aval da autoridade dos especialistas. Nesse sentido, as transformações históricas não são avaliadas por Olavo como resultado da interlocução entre os atores e suas circunstâncias sociais, mas frutos do papel consciente e de manipulações de uma elite intelectual que buscaria impor sua visão de mundo como a verdade. A história da modernidade, portanto, é vista sob a lógica de uma luta entre um povo manipulável e uma elite implacável que quer ampliar seu poder a partir da ocupação dos espaços produtores de “especialistas”: as mídias, a universidade, as artes, entre outros. Tais locais seriam o locus de formação de técnicas de manipulação, que teriam sido as causas primordiais dos acontecimentos históricos.
O caso brasileiro é interpretado a partir de tal visão da história. A conjuntura nacional contemporânea poderia ser resumida no uso do pensamento de Antonio Gramsci por parte das elites petistas. Sua obra magna, “Memórias do Cárcere”, teria oferecido à esquerda a ferramenta principal para se chegar ao poder de maneira sutil: a revolução passiva.
No imaginário de Olavo, se a história da
modernidade deveria ser contada através das tecnologias de manipulação
desenvolvidas pelas elites de cada época, a crise brasileira é um longo
processo que será constantemente acelerado pelo marxismo cultural. A
infiltração do pensamento gramsciano e dos “agentes comunistas” nas esferas
culturais do país já teria se iniciado na década de 70. A efetividade da ação
da esquerda seria tão forte que, findo o governo militar, haveria uma hegemonia
completa na intelectualidade brasileiras. As elites conservadoras passariam a
ser tratadas como “um bando de caipiras, um bando de fanáticos que não tem
respeitabilidade intelectual”.
Nos anos 80, as elites do PT teriam sido as principais responsáveis pela montagem da estratégia gramsciana!
A hegemonia dos intelectuais petistas dos anos 90
seria tamanha, que a concorrência política passaria a ser disputada apenas
entre frações da esquerda, sem ter, entretanto, nenhuma divergência séria no
terreno ideológico ou mesmo estratégico. Transformando a cultura política
brasileira, a disputa partidária e o cenário público poderiam ser resumidos
como uma mera “troca de cadeiras”. Se no Brasil, o Partido dos Trabalhadores
levaria à cabo as estratégias para a revolução comunista, o Foro de São Paulo
era a expressão máxima das forças tirânicas na América Latina.
Em
última instância, a cultura é o terreno onde se trava uma longa guerra entre
uma esquerda demoníaca e a direita defensora dos valores tradicionais. Durante
toda sua obra, a conjuntura brasileira é interpretada nessa chave. Formar uma
elite de direita, portanto, era um passo fundamental para a batalha espiritual
brasileira. Essa será uma das principais contribuições práticas da obra de
Olavo, que se torna responsável pela indicação de diversos ex-alunos para
ministérios durante o governo Bolsonaro.
Os
resultados apresentados ao longo deste texto apontam outros caminhos de
investigação. Em primeiro lugar, a radicalização do discurso de Olavo em 2013
pode indicar a existência de uma transformação mais profunda em seu imaginário
no momento que se intensificava a crise de legitimidade política no país. Além
disso, será interessante analisar o pensamento político de alguns dos
indivíduos que farão parte do reacionarismo culturalista brasileiro, como
Gustavo Corção e Tristão de Ataíde, apontando suas aproximações e distanciamentos
do pensamento de Olavo de Carvalho. Tais contribuições poderão ser úteis para
uma compreensão mais ampla do imaginário da nova direita brasileira.
*Tomás Paixão Borges - é mestrando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ)
NOTAS
DE RODAPÉ
1.
Entre as diversas contribuições recentes ao campo, destaco as obras de Chaloub
e Perlatto (2016, 2018), Cêpeda (2018), Puglia (2018), Rocha (2018, 2021a,
2021b), Avelar (2021), Prado (2021), Castro Rocha (2021), Silva (2021) e Lynch
e Cassimiro (2022).
2.
Retirado de
https://oglobo.globo.com/politica/arquiteto-intelectual-da-direita-radical-olavo-de-carvalho-se-tornou-guru-do-governo-bolsonaro-25366585.
Acesso em 24 de fevereiro de 2023.
3.
Retirado de https://olavodecarvalho.org/o-brasil-tem-filosofo/. Acesso em 24 de
fevereiro de 2023.
4.
Retirado de
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2022/01/25/A-trajet%C3%B3ria-e-as-ideias-do-guru-bolsonarista-Olavo-de-Carvalho.
Acesso em 23 de fevereiro de 2023.
5.
No Jardim das Aflições, Olavo chega a afirmar que Schuon e Guénon foram alguns
dos maiores intelectuais do século XX. Para o autor, em material publicado no
seu blog, Schuon e Guénon foram fundamentais para “a subjugação das camadas
mais altas da elite intelectual e política europeia ao culto da superioridade
intelectual do Oriente em todas as áreas decisivas, fora as ciências naturais e
a tecnologia”. A intelligentsia europeia, entretanto, teria fechado aos olhos
para o impacto de ambos e presenciado estupefata a “descristianização radical”
e o “expansionismo islâmico” em solo europeu. Retirado de
https://olavodecarvalho.org/influencias-discretas. Acesso em 23 de fevereiro de
2023.
6.
Apesar de reconhecer a influência das obras tradicionalistas em sua filosofia,
Carvalho já afirmou em diversas oportunidades que é um erro o filiar ao grupo.
Para Carvalho (2017), a “insuperável distância crítica que me separa de todo
‘perenialismo’ guénoniano-schuoniano” consistiria na defesa da existência de
contatos diretos do catoliscismo “com as fontes da Tradição primordial” no
século XX, expressa em sinais como as aparições de Fátima e os milagres do
Padre Pio. Acesso em: https://olavodecarvalho.org/tag/olavo-de-carvalho/. O
Oriente contra o Ocidente.
7.
Olavo já afirmou, porém, que “nunca acreditou na teoria guénoniana dos ciclos.
De acordo com ele, os movimentos na história “são relativos e não há um só que
simultaneamente coexista com o seu oposto”.
https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2019/07/10/10-7-2019/
8.
Para o autor, toda filosofia “é uma intervenção de longo prazo e larga escala
no mundo dos acontecimentos humanos”. Sobre a sua própria filosofia e
consequente exposição no Curso Online de Filosofia, Olavo afirmaria que teria
por objetivo a formação de uma elite intelectual capaz de perceber o atual
estado de coisas decadente do Brasil: Se do ponto de vista de utilidade para o
indivíduo o objetivo desse curso é o desenvolvimento da sua inteligência, do
ponto de vista social, cultural, o objetivo do curso seria fornecer gente para
uma futura elite intelectual verdadeira. Retirado de:
https://olavodecarvalho.org/inteligencia-e-verdade
9.
Retirado de Entrevista de Olavo de Carvalho ao Embaixador Caius Traian Dragomir
– SAPIENTIAM AUTEM NON VINCIT MALITIA. Acesso em 23 de fevereiro de 2023.
10
Retirado de
https://olavodecarvalho.org/o-problema-da-verdade-e-a-verdade-do-problema/ e
https://olavodecarvalho.org/a-ambicao-filosofica/. Acesso em 24 de fevereiro de
2022.
11.
Na obra de Olavo de Carvalho, os Estados Unidos é apresentado sobre duas
chaves: por um lado, as comunidades rurais americanas (cujo espírito uniria
solidariedade com o próximo junto com a defesa intransigente das liberdades
individuais) poderiam contribuir junto às cristãs para a reversão da decadência
do Ocidente; por outro, os EUA também seria um dos centros do globalismo, após
a infiltração de comunistas, tais quais o ex-presidente Barack Obama e
representantes da “nova esquerda” americana (Chaloub et al., 2018).
12.
Retirado de https://olavodecarvalho.org/e-da-cultura-que-estou-falando. Acesso
em 24 de fevereiro de 2023.
13.
Nesse caso, me refiro a dois exemplos específicos. Em primeiro lugar, a Brasil
Paralelo (BP) lançou recentemente um documentário chamado “Brasil: A Última
Cruzada”. O objetivo da produção, de acordo com a BP, seria contar a história
do Brasil com o resgate dos heróis nacionais, fazendo renascer o orgulho de ser
brasileiro.” A referência das Cruzadas também tem sido utilizada por apoiadores
bolsonaristas, entre eles, o ex-assessor especial para Assuntos Internacionais
da Presidência da República, Filipe Martins, e o youtuber Bernardo Küster.
Retirado de
https://psmag.com/ideas/why-the-brazilian-far-right-is-obsessed-with-the-crusades.
Acesso em 28 de fevereiro de 2023.
14.
Retirado de https://olavodecarvalho.org/mafia-gramsciana/. Acesso em 27 de
fevereiro de 2023.
15.
A esquerda, aqui, parece apontar para a ampla classe de intelectuais que
atuaram no campo das artes e na universidade como opositores do regime militar.
Como apontam Chaloub e Perlatto (2018), entretanto, nas vozes da direita
radical, o conceito de esquerda tinha como primeiro sentido comum a defesa da
centralidade do Estado. No balaio de inimigos dos reacionários, entretanto, a
denominação de “esquerda” costuma abarcar indivíduos com ideologias tão
variadas quanto sociais-liberais, comunistas, socialistas democráticos,
anarquistas, entre outros.
16.
https://veja.abril.com.br/brasil/olavo-de-carvalho-esquerda-ocupou-vacuo-pos-ditadura/.
Acesso em 27 de fevereiro de 2023.
17.
Em 2018, Olavo escreveu em sua página no Facebook que “nunca, no tempo da
ditadura, um escritor teve de policiar a sua linguagem como o faz hoje, com
medo de, por uma palavrinha, perder os seus meios de sustento. https://www.facebook.com/carvalho.olavo/posts/1119149694903770
18.
Retirado de https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/06/20/20062016/.
Acesso em 27 de fevereiro de 2023.
19.
De certo modo, Olavo parece ter radicalizado sua retórica antipetista com os
anos. Em 1994, Carvalho escreve, por exemplo, que perdido “toda a insensata
esperança de que o PT expeliria de si o veneno gramsciano e se transformaria no
grande partido socialista ou trabalhista, […] necessário para compensar, na
defesa do interesse dos pequenos, o avanço neoliberal aparentemente
irreversível no mundo”. No texto, chega ainda a afirmar que votou em Lula e
concorda com suas críticas sobre a falta de consciência nacional das elites
brasileiras (Carvalho, 1994). Os elementos somem de vista em textos
posteriores, como em “Jardim das Aflições”.
20.
CARVALHO, 2015. Basta, Fora! Artigo publicado no jornal Diário do Comércio. 11
de junho de 2015.
21.
Retirado de
https://olavodecarvalho.org/foro-social-mundial-laboratorio-de-la-subversion/.
Acesso em 28 de fevereiro de 2023.
22.
Retirado de https://olavodecarvalho.org/uma-nova-fachada-do-foro-de-sao-paulo/.
Acesso em 28 de fevereiro de 2023.
23.
Retirado de https://olavodecarvalho.org/a-oea-orgao-do-foro-de-sao-paulo/.
Acesso em 28 de fevereiro de 2023.
24.
Carvalho, Olavo. Quem manda no Brasil. Artigo no Diário do Comércio. 28 de maio
de 2007. Retirado de https://olavodecarvalho.org/quem-manda-no-brasil/. Acesso
em 28 de fevereiro de 2023.
25.
Em artigo publicado na Insight Inteligência, os cientistas políticos Jorge
Chaloub e Fernando Perlatto chamam atenção para ao menos 6 hipóteses para a
expansão da nova direita brasileira nos últimos anos: Seriam elas: 1) coerência
com o cenário internacional, entendendo a nova direita enquanto um fenômeno
mundial; 2) o distanciamento do momento epocal da ditadura, que oblitera e
distorce a percepção, clara sobre os riscos e vícios do autoritarismo
implantado a partir de 1964 (da mesma maneira que há toda uma geração que não
conviveu sequer com o processo de redemocratização, possuindo uma experiência
acomodada nos limites protetores de um Estado de Direito); 3) as mudanças
tecnológicas e funcionais da indústria cultural (que penso possibilitou a
expansão rápida do padrão de guerra híbrida); 4) a criação de locus
institucionalizados para produção e difusão do pensamento liberal ou de
direita; 5) a emergência de governos de esquerda no país, incluindo seus
sucessos e fracassos, capazes de geração de polarização; e 6) a crise do
sistema partidário (e que podemos estender para a crise do padrão de
representação democrática e o surgimento de manifestações demofóbicas e do ódio
à democracia (CHALOUB et al., 2016 apud CÊPEDA, 2018, p. 51).
26.
Retirado de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64256711. Acesso em 28 de
fevereiro de 2023.
Fonte - https://insightinteligencia.com.br/a-crise-brasileira-na-obra-de-olavo-de-carvalho/
A
influência direta do "iluminismo americano" no Brasil foi mais tardio!
Em
26 de maio de 1824, o presidente dos EUA, James Monroe, recebeu o encarregado
de negócios brasileiro, José Silvestre Rebello, em Washington. Este ato marcou
o reconhecimento oficial da independência do Brasil pelos EUA e, na mesma data,
o estabelecimento das relações diplomáticas. Atualmente, os norte-americanos
são o segundo maior importador dos produtos brasileiros, e, para além da
economia, as duas nações mantêm vigorosas conexões em áreas que vão da ciência
e tecnologia à cultura, passando pela política internacional, defesa, e
comércio.
O que era a Doutrina Monroe?
A Doutrina Monroe se baseava no princípio da “América para os americanos”, com o objetivo principal de afastar a influência europeia sobre os países americanos que estavam em meio a processos de independência.
O
"SONHO AMERICANO": O QUE É? QUAIS SÃO OS SEUS VALORES?
O Sonho Americano (em inglês: American Dream) é um
"ethos nacional" dos Estados Unidos, uma variedade de ideais de
liberdade inclui a chance para o sucesso e prosperidade, maior
mobilidades social para as famílias e crianças, alcançada através de trabalho
duro em uma sociedade sem obstáculos.
Na definição do que é o "Sonho Americano", por James
Truslow Adams, em 1931, "a vida deveria ser
melhor, mais rica, e mais completa para todos, com oportunidades para todos
baseado em suas habilidades ou conquistas", independente de sua classe
social ou circunstâncias do nascimento.O sonho
americano é enraizado na Declaração da Independência dos Estados Unidos, que
proclamou que "todos os homens são criados iguais" com direito a
"vida, liberdade, propriedade, e a busca pela felicidade".
Várias vezes assistimos em filmes, lemos em livros e até mesmo
ouvimos discussões sobre o tal "Sonho Americano – American Dream".
Mas você sabe o que é isso?
"American Dream" – o que é?
Tudo isso começou lá atrás, quando os Estados Unidos ainda eram colônia da Inglaterra. Quando eles declararam sua independência (a guerra foi de 19 de abril de 1775 - a 3 de setembro de 1783 - 8 anos, 4 meses e 15 dias), os fundadores colocaram na Declaração do país a seguinte frase: “We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.” (na tradução fica: Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade, e a busca da felicidade).
Sendo assim, todos os homens podem ter acesso a tudo. James
Adams, um dos fundadores dos Estados Unidos, afirma:
“a vida deveria ser melhor, mais rica, e mais completa para
todos, com oportunidades para todos, baseado em suas habilidades ou conquistas,
independente de sua classe social ou circunstâncias do nascimento."
Por isso, está enraizado na cultura do país que, se você se
esforçar, com persistência e criatividade, você poderá sair de uma extrema pobreza para a extrema riqueza! Existem muitos filmes, documentários, músicas, séries, etc., que retratam bem o
que o Sonho Americano quer dizer.
É por isso que muitos ainda vão aos Estados Unidos em busca de
uma vida melhor! Acredito que esses valores não fazem parte apenas do
imaginário americano, mas sim de todos ao redor do mundo!
O sonho americano é uma ideia popular Norte Americana que é enraizada pela Declaração da Independência dos Estados Unidos, onde está proclamado que:
"Todos os homens são criados iguais, com direito a vida, liberdade, propriedade e a busca pela felicidade"
Liberdades, segurança, oportunidades iguais e justas para o sucesso, uma boa vida para as famílias e crianças, alcançada através de trabalho duro para a sociedade mais poderosa da Terra, basicamente esta é a crença de muitas pessoas que vivem ou buscam viver nos Estados Unidos!
Para muitos, o sonho
americano é a ideia de garantir uma vida melhor através do trabalho duro. No
entanto, nas palavras do historiador James Truslow Adams:
"Não
é um sonho de carros e salários altos apenas, mas um
sonho de uma justa e meritória ordem social, onde cada homem e mulher possam
alcançar a maior posição da qual são naturalmente capazes! O
sonho americano é mais do que uma casa, dois filhos e um carro na garagem. É,
também, a ideia de que as pessoas podem almejar uma vida baseada no
individualismo sadio, com o reconhecimento devido ao seu trabalho, e com
liberdade pessoal e comunitária assegurada pelas leis, as quais ninguém pode
estar acima delas."
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