O abuso dos "dons extraordinários" de forma ordinária e os riscos da "banalização dos carismas"
Para sermos justos e
fiéis aos fatos históricos, temos que citar algo que ocorreu antes que o
pentecostalismo virasse modinha entre os irmãos separados: em 1901, o Papa Leão XIII dedicou o século XX ao Espírito
Santo e entoou em nome de toda Igreja o hino "Veni Creator Spiritus". Antes
disso, Leão XIII já havia publicado em 1897 a encíclica "Divinum lllud Múnus",
pedindo ao clero que transmitisse ao povo a doutrina sobre o Espírito Santo e
incitando todos os fiéis a orarem pedindo a Sua vinda. Alguns autores creditam
essas ações do Papa à influência da beata Elena Guerra, conhecida como
"Apóstola do Espírito Santo". O respeitável
teólogo Dom Estêvão Bettencourt dizia que o "surgimento do pentecostalismo na Igreja contemporânea foi
uma resposta dada a esse apelo papal." Tal resposta teria sido dada em
primeiro lugar, ainda que de modo imperfeito e inconsciente, pelos protestantes
pentecostais, que depois influenciaram os católicos (fonte: Pergunte e
Responderemos Nº 532).Para Dom Estêvão, muito mais do que
um movimento de origem protestante, “a RCC é a expressão, na Igreja Católica,
de um movimento desencadeado pelo Papa Leão XIII”. Faz muito sentido! Mas é questionável se ao falar do
Espírito Santo, o Papa Leão XIII quisera pedir carismas extraordinários! A
prática de carismas extraordinários – dom de profecia, de curas etc. – é um
ponto essencial da identidade da RCC. Esse movimento
tem o mérito de confrontar a "mentalidade cientificista" do nosso tempo,
colocando em evidência a ação milagrosa de Deus. O cientificismo e o
racionalismo têm a pretensão de favorecer a razão, mas na verdade a bloqueiam e
a reduzem. Este que vos escreve neste apostolado Berakash, é fruto da RCC, e
tenho visto verdadeiras e genuínas conversões ao longo deste tempo. Porém, é inegável que em alguns grupos da RCC, há muita auto-sugestão. As pessoas querem ser “especiais”, veem outros manifestando dons
carismáticos e desejam fazer o mesmo (por vã curiosidade, vaidade ou
presunção). E ficam forçando a barra para se sentirem místicos, profetas,
tomados pelo “pudê de Deuzo” - Na longa convivência
com amigos carismáticos, pude notar que muitos deles confundem dons naturais (ordinários) com dons sobrenaturais (extraordinários). Por exemplo: ao meditar sobre
as coisas de Deus, é comum que na mente surja alguma imagem consoladora ou
edificante. Aí a criatura logo acha que teve uma “revelação”. Certamente,
o Espírito Santo age quando voltamos o pensamento para Deus, e nos sugere
imagens e conceitos, mas isso nem sempre é a manifestação de um dom extraordinário,
muito menos é revelação. Muita gente foi ensinada (incluindo a mim), e crê que, com a Renovação Carismática, os dons
extraordinários deixaram de ser exclusividade dos santos, para serem
distribuídos pelo Espírito a todos aleatória e indistintamente. Mas será que a tradição e Sagrado Magistério nos ensina assim? Bem, de modo muito pontual e
raro, é bem verdade que muitos de nós, ainda que não sejamos efetivamente
santos, já tivemos alguma experiência espiritual de caráter extraordinário,
seja por meio de sonhos premonitórios, visões, curas milagrosas, entre outros.
Porém, tenho percebido que a MANIFESTAÇÃO GENUINA e AUTÊNTICA desses dons
parece-me ocorrer a pouquíssimas pessoas dentro e fora da RCC. A grande verdade é que não há fórmulas para aprender
a ser místico, pois é dom gratuito de Deus! A RCC não
tem como fazer com que TODOS os católicos recebam dons extraordinários! Pois o Espírito Santo sopra onde, quando e como quer (conf. João 3,8). E muitas pessoas realmente recebem os seus dons
sendo ou não da RCC, mas em especial, vemos esta manifestação naqueles(as) que possuem
uma vida experimentada na caridade, oração e mortificação. Porém, ao
valorizar e dar espaço à manifestação dos dons carismáticos, a RCC acaba por
colocar estas pessoas em evidência, muitas vezes de forma não muito prudente e
equilibrada. No Evangelho, há uma passagem que mostra
que mesmo os Apóstolos foram incapazes de curar um menino, pois, mesmo tendo
recebido de Cristo esse poder, não estavam se dedicando suficientemente à
oração e ao jejum (Mt 17,14-20). Já em outros que não pertenciam ao grupo dos apóstolos, estes dons extraordinários estavam acontecendo (Marcos 9,38). Ou seja, a Bíblia e a Tradição da Igreja
sempre ensinaram que os dons extraordinários se manifestam em almas dóceis à condução do Espírito Santo. Sim, é realmente
belo quando vemos os dons extraordinários de Deus se manifestando por meio de
nossos irmãos! Não podemos colocar isso em dúvida! Por isso, devemos ser gratos
à RCC, que valoriza e traz à tona esse aspecto da fé católica. É necessário ter abertura para reconhecer os dons carismáticos,
mas também prudência para não os confundir com fenômenos meramente
psicológicos.