Como conciliar a gratuidade dos dons do Espírito Santo — que não são adquiridos, mas infundidos e concedidos — com a doutrina clássica de que as virtudes precisam ser exercitadas até se tornarem hábitos? Há contradição ou complementaridade entre dons e virtudes?
Essa
questão toca o coração da vida espiritual e, ao mesmo tempo, revela uma das
confusões mais comuns do nosso tempo
-De um
lado, há quem reduza a vida cristã a um esforço meramente humano, como se a
santidade fosse fruto apenas de disciplina, repetição e força de vontade.
-De
outro, há quem, em nome da ação do Espírito, praticamente elimine a necessidade
do combate espiritual, como se bastasse “ter dons” ou “sentir o Espírito” para
alcançar a perfeição.
A
tradição da Igreja, porém, especialmente na síntese magistral de São Tomás de
Aquino, não cai em nenhum desses extremos!
Pelo contrário, ela oferece uma visão profundamente harmoniosa e
realista: a vida cristã é ao mesmo tempo dom e resposta, graça e cooperação,
iniciativa divina e correspondência humana.
Os dons do Espírito Santo são, de fato, gratuitos, infundidos por Deus na alma juntamente com a graça santificante, como testemunha a Bíblia (cf. Isaías 11,2-3). Eles não são conquistados, nem produzidos pelo esforço humano. No entanto, isso não significa que atuem automaticamente ou que dispensem o crescimento espiritual. Pelo contrário, exigem uma alma disposta, purificada e dócil à ação divina.
Por sua vez, as virtudes — especialmente as
virtudes teologais e morais — constituem hábitos estáveis que precisam ser
exercitados, fortalecidos e amadurecidos ao longo do tempo. Como ensina a
Escritura: “os sentidos são exercitados pela prática” (Hebreus 5,14). Sem esse
exercício, a vida espiritual permanece frágil, instável e superficial.
A
aparente tensão entre dons e virtudes desaparece quando compreendemos sua
verdadeira relação:
-Não são realidades concorrentes, mas complementares. As virtudes
dispõem o homem a agir bem segundo a razão iluminada pela fé;
-Os dons, por sua vez, elevam esse agir, tornando-o dócil às
moções diretas do Espírito Santo.
-Em outras palavras, as virtudes formam/educam o cristão; os dons o
conduzem.
Assim, longe de qualquer oposição, existe uma profunda unidade: aquilo que Deus infunde gratuitamente não anula o esforço humano, mas o pressupõe, o purifica e o eleva. A vida espiritual madura nasce precisamente dessa síntese: agir com fidelidade e, ao mesmo tempo, deixar-se conduzir por Deus.
DONS
DO ESPÍRITO, CARISMAS E VIRTUDES (Na perspectiva católica tradicional e
tomista)
Na teologia clássica, especialmente em São Tomás de Aquino, a vida espiritual não é algo confuso ou desordenado, mas uma verdadeira arquitetura da graça. Nela, distinguem-se claramente:
1º)-a graça santificante (recebida principalmente no Batismo e restaurada na Confissão quando perdida; permanece como um estado habitual da alma e se expressa na vida do cristão como amizade com Deus, vida interior, capacidade de viver em estado de graça e crescer em santidade).
2º)-as virtudes (infundidas por Deus no Batismo e fortalecidas pelos sacramentos); são hábitos sobrenaturais que inclinam a agir bem:
a)-teologais: fé, esperança e caridade (ordenam diretamente a Deus;
b)- morais (ordenam os atos humanos segundo a razão iluminada pela fé), entre as quais se destacam as cardeais:
-Prudência (reta razão no agir),
-Justiça (dar a cada um o que lhe é devido),
-Fortaleza (firmeza nas dificuldades)
-Temperança (moderação/equilíbrio dos apetites);
-Delas derivam outras virtudes como a paciência (suportar com firmeza os sofrimentos sem perder a paz — anexa à fortaleza), humildade, mansidão, castidade, etc.),
3º)-os dons do Espírito Santo (infundidos também no Batismo e levados a maior perfeição na Confirmação; permanecem como disposições permanentes que se expressam quando o cristão se deixa conduzir docilmente por Espírito Santo, agindo com prontidão e sensibilidade às inspirações divinas, sobretudo em situações difíceis ou mais elevadas da vida espiritual),
4º)-e os carismas (concedidos livremente por Deus em diferentes momentos da vida, conforme Sua vontade e para utilidade da Igreja; expressam-se em serviços concretos ao próximo — como ensinar, aconselhar, servir, curar ou evangelizar — e não dependem necessariamente do grau de santidade pessoal).
Assim, na visão tomista, tudo começa com o Batismo como fundamento, cresce pelos sacramentos e se manifesta na vida concreta: primeiro no ser (graça), depois no agir habitual (virtudes), na docilidade ao divino (dons) e no serviço aos outros (carismas). Sem essa distinção, surgem muitos erros — especialmente hoje. O Catecismo da Igreja Católica trata exatamente dessa “arquitetura da graça”, sobretudo na Parte III (Vida em Cristo) e também na parte sobre a graça:
-Graça: §1996–2005
-Virtudes: §1803–1845
-Dons: §1830–1832
-Carismas: §799–801 + §2003
1. FUNÇÃO “EM BLOCO” DOS DONS
Dons de santificação (os 7 dons infusos)
Os dons do Espírito Santo são dados juntamente com a graça
santificante e têm como base clássica o texto de Bíblia em Isaías 11,2-3:
1)-Sabedoria
2)-Entendimento
3)-Conselho
4)-Fortaleza
5)-Ciência
6)-Piedade
7)*Temor de Deus
Outra passagem fundamental:
Romanos 8,14: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são
filhos de Deus.”
-Função em bloco:Esses dons aperfeiçoam as virtudes e tornam a alma dócil às moções do Espírito Santo.
-Enquanto as virtudes permitem agir segundo a razão iluminada pela fé, os dons elevam o agir humano a um nível superior: fazem com que o homem seja movido pelo próprio Deus.
Dons de serviço (carismas / dons efusos)
Os carismas aparecem de modo claro em Bíblia, especialmente em 1 Coríntios 12, como ensina São Paulo Apóstolo (numa lista aproximada de 9, mas o Espírito Santo, pode suscitar novos carismas para cada tempo)
1)-línguas
2)-interpretação de línguas
3)-profecia
4)-curas
5)-milagres
6)-discernimento
7)-Ciência
8)-Palavra de Sabedoria
9)-Discernimento dos espíritos
1 Coríntios 12,7: “A cada um é dada a manifestação do
Espírito para o bem comum.”
-Função em bloco: Os carismas não são dados primariamente para santificar quem os recebe, mas para servir à Igreja e edificar o Corpo de Cristo.
2. DIFERENÇA ENTRE DONS INFUSOS(SANTIFICAÇÃO) E EFUSOS (SERVIÇO)
-Na perspectiva teológica de São Tomás de Aquino, a distinção entre
os dons infusos e os dons de serviço (carismas) não é secundária, mas essencial
para compreender a vida espiritual de modo correto.
-Os dons
infusos (de santificação) do Espírito Santo — aqueles sete descritos em Bíblia
(cf. Isaías 11,2-3) — são concedidos juntamente com a graça santificante e têm
como finalidade direta a santificação da alma.
Eles aperfeiçoam as virtudes e tornam o homem dócil às inspirações do Espírito Santo, conduzindo-o a agir não apenas segundo a razão iluminada pela fé, mas sob uma moção superior, propriamente divina.
Por outro lado, os dons de
serviço — amplamente tratados por São Paulo Apóstolo em 1 Coríntios 12 —
possuem uma finalidade distinta:
Não são dados primariamente para a santificação pessoal, mas para
a edificação da Igreja e o bem comum. São manifestações do Espírito que podem
incluir profecia, línguas, curas e outros sinais extraordinários.
Aqui está
um ponto decisivo da teologia tomista (o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios):
Enquanto os dons infusos estão necessariamente ligados ao estado
de graça e ordenados à união com Deus, os carismas podem existir
independentemente da santidade pessoal de quem os recebe.
Isso significa que alguém pode exercer um dom de serviço sem estar em plena comunhão interior com Deus, como o próprio Cristo adverte em Mateus 7,22-23. Assim, em síntese, os dons infusos pertencem à ordem da vida interior e da perfeição espiritual, enquanto os carismas pertencem à ordem da missão e da utilidade eclesial.
3. COMO CONCILIAR: “A graça é dada, mas as virtudes são
exercitadas”?
Esse princípio é profundamente coerente com a doutrina de São Tomás de Aquino.
-Virtudes: são hábitos operativos que precisam ser exercitados para crescer. Hebreus 5,14: “Os sentidos são exercitados pela prática.” Elas se fortalecem pela repetição dos atos bons.
-Dons do Espírito Santo.Aqui está o ponto central: Os dons são infundidos prontos, mas não atuam automaticamente o tempo todo.
São
Tomás explica isso com uma imagem clássica:
"As virtudes são como remos.Os dons são como velas.O Espírito
Santo é o vento"
-O homem pode agir com os remos (virtudes)
-Mas quando o vento sopra, as velas (dons) elevam o movimento a outro nível
Então o dom precisa ser exercitado?
-Não como virtude (não é adquirido)
-Mas sim, correspondido
Ou seja: Você não “treina” o dom como treina uma virtude.Mas
pode:cooperar com ele,resistir a ele, e infelizmente, até ignorá-lo
Fundamentação bíblica:
-2 Timóteo 1,6: “Reaviva o dom de Deus que está em ti.”
-1 Tessalonicenses 5,19: “Não extingais o Espírito.”
-2 Coríntios 6,1 “Exortamo-vos a que não recebais a graça de
Deus em vão.” Essa passagem dita por São Paulo Apóstolo, é central para
esse tema. No sentido teológico (tomista): Essa exortação deixa claro
que: "a graça é realmente dada por Deus, mas pode não produzir fruto
se não houver correspondência. Ou seja: é possível receber e não
frutificar, possuir e não cooperar.
4. SÍNTESE TOMISTA
-A graça santificante dá a vida divina
-As virtudes permitem agir segundo essa vida
-Os dons permitem ser conduzido diretamente por Deus
-Virtudes → modo humano elevado
-Dons → modo divino participado
Os dons infusos são essenciais para a perfeição cristã.Não
substituem o esforço ascético.Não dispensam as virtudes.Não operam de forma
automática.
E, sobretudo: Nem todo fenômeno espiritual visível (carisma)
é sinal de santidade. E nem toda santidade é acompanhada de fenômenos
extraordinários.
A maturidade espiritual consiste em: vida de graça +
exercício das virtudes + docilidade aos dons do Espírito Santo.
POR QUE
OS DONS DO ESPÍRITO SANTO NÃO SE MANIFESTAM EM TODOS IGUALMENTE?
Se os dons de santificação são infundidos no Batismo, por que não os vemos claramente atuando na vida de todo batizado? E, se a Crisma fortalece o fiel com o Espírito Santo, por que nem todos manifestam carismas extraordinários em benefício da Igreja? À primeira vista, isso pode parecer uma contradição. Mas, na perspectiva clássica — especialmente em São Tomás de Aquino — a resposta é precisa e profundamente coerente.
1. OS DONS SÃO INFUNDIDOS, MAS NÃO ATUAM AUTOMATICAMENTE
No Batismo, o fiel recebe verdadeiramente:
*a graça santificante
-as virtudes teologais (fé, esperança e caridade)
-os 7 dons infusos do Espírito Santo
*Na teologia católica, especialmente na síntese de São Tomás de Aquino, a graça santificante é uma realidade sobrenatural infundida por Deus na alma, que a transforma interiormente e a eleva a participar da própria vida divina. Não se trata de um simples favor externo, nem de um auxílio passageiro, mas de um princípio estável e permanente que torna o homem verdadeiramente justo diante de Deus e capaz de viver como filho no Filho. Essa graça é recebida ordinariamente no Batismo, como ensina a Bíblia: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (João 3,5). Nesse momento, a alma não recebe apenas uma possibilidade de santidade, mas é realmente transformada: o pecado é apagado, o homem é reconciliado com Deus e passa a participar de uma vida que ultrapassa totalmente as capacidades naturais. Por isso, diz-se que a graça santificante é um hábito sobrenatural infuso, ou seja, uma qualidade permanente que reside na alma e a dispõe a agir segundo Deus. Com a graça santificante, Deus não apenas perdoa, mas habita na alma. Como afirma a Escritura: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5,5). Essa presença não é simbólica, mas real: a alma se torna como que um templo vivo de Deus, capaz de conhecê-Lo e amá-Lo de modo sobrenatural. Ao mesmo tempo, essa graça é o fundamento de toda a vida espiritual. Dela procedem as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e os dons do Espírito Santo, que capacitam o homem a agir não apenas segundo sua razão natural, mas segundo uma vida divina recebida gratuitamente. No entanto, embora a graça esteja realmente presente, seus efeitos dependem da correspondência humana: ela pode crescer, enfraquecer (no sentido de não frutificar plenamente) e até ser perdida pelo pecado mortal. É por isso que a própria Bíblia adverte: “Não recebais a graça de Deus em vão” (2 Coríntios 6,1). A graça santificante é, portanto, ao mesmo tempo um dom totalmente gratuito e uma realidade que exige resposta. Ela não é apenas o início da vida cristã, mas o seu princípio vital permanente: é por ela que o homem deixa de viver apenas como criatura e passa, verdadeiramente, a viver como filho de Deus, participante da Sua própria vida.
Na perspectiva da teologia clássica, especialmente em São Tomás de Aquino, não se pode dizer que os dons recebidos por Deus estejam “em potência” no sentido de ainda não existirem na alma. Ao contrário, tudo aquilo que Deus infunde — como a graça santificante, as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo — é dado em ato enquanto realidade presente, isto é, como um hábito sobrenatural que realmente transforma a alma. Portanto, no Batismo, o fiel não recebe uma simples possibilidade de santidade, mas uma vida nova já existente nele, conforme ensina a Bíblia: “Não recebais a graça de Deus em vão” (2Cor 6,1), o que pressupõe que essa graça foi de fato recebida. No entanto, é necessário fazer uma distinção fundamental: embora os dons estejam em ato quanto à sua presença na alma, eles podem não estar em ato quanto à sua operação plena. Ou seja, o dom existe realmente, mas sua manifestação concreta depende da disposição do sujeito, da docilidade à graça e da remoção dos obstáculos interiores. É nesse sentido que se pode falar de uma certa “potência”, não no ser do dom, mas no seu exercício: o fiel possui o dom, mas nem sempre o vive ou o deixa frutificar. Por isso a própria Escritura exorta: “Reaviva o dom de Deus que está em ti” (2Tm 1,6) e “Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19). Já os carismas, ou dons de serviço, diferem nesse ponto: não são necessariamente hábitos permanentes na alma, mas manifestações livres do Espírito Santo, concedidas “como quer” (1Cor 12,11), podendo ser estáveis ou momentâneas. Ainda assim, quando são concedidos, também se dão em ato — não como mera possibilidade, mas como ação real de Deus — embora não permaneçam necessariamente como princípio habitual. Assim, a síntese correta é esta: Deus não concede dons “em potência” como algo apenas possível, mas os dá realmente em ato enquanto princípio sobrenatural na alma; contudo, sua eficácia concreta pode permanecer como que em potência quanto ao uso, dependendo da cooperação humana. É por isso que a vida espiritual não consiste apenas em receber, mas em corresponder, para que aquilo que Deus já concedeu não permaneça estéril, mas produza frutos de santidade.
Contudo, isso não significa que tudo isso se manifeste de forma visível e intensa desde o início.Os dons estão presentes em estado de hábito, não necessariamente em ato.Ou seja: estão na alma mas dependem de condições para operar plenamente.Como ensina a Bíblia: “Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19). É possível possuir o dom e, ainda assim, não corresponder a ele.
2. A DISPOSIÇÃO DA ALMA É DECISIVA
Segundo a teologia tomista, Deus não violenta a liberdade humana. Assim, os dons: não forçam o homem, e sim, exigem docilidade interior.Se a alma está: apegada ao pecado,distraída pelas paixões, e sem vida de oração, a ação dos dons fica como que impedida ou abafada. Se afirma em Romanos 8,14: “Os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" - Significando que nem todos(as) se deixam guiar.
3. A DIFERENÇA ENTRE PRESENÇA E MANIFESTAÇÃO
-Aqui está um ponto essencial: Todo batizado em estado de
graça possui os dons, mas nem todos os manifestam de forma perceptível.
-Isso acontece porque: Os dons de santificação atuam muitas
vezes de modo silencioso e interior, e nem sempre produzem efeitos visíveis ou
extraordinários, pois a Santidade não é espetáculo.
4. SOBRE A CRISMA E OS CARISMAS
-A
Confirmação (Crisma) fortalece o fiel para o testemunho cristão, mas: não
garante manifestações extraordinárias
-Os
carismas: são distribuídos livremente por Deus, conforme a
necessidade da Igreja, confrome 1 Coríntios 12,11: “Tudo isso realiza
um só e mesmo Espírito, distribuindo a cada um como quer.”
-Portanto: nem
todos receberão dons extraordinários, e nem todos são chamados ao mesmo
tipo de missão
5.
CARISMAS DE SERVIÇO (DONS EFISOS): NÃO SÃO SINAL DE SANTIDADE
-Outro erro comum é pensar que: quem manifesta carismas é mais
santo,Mas o próprio Cristo adverte em Mateus 7,22-23: “Senhor, não
foi em teu nome que profetizamos...?” E mesmo assim são reprovados.
-Segundo São Tomás de Aquino: carismas pertencem à utilidade
da Igreja, e não à perfeição da alma
6. SÍNTESE
-Os dons
de santificação são realmente dados no Batismo, mas sua ação depende da
cooperação humana. Eles podem estar presentes sem se manifestar intensamente.
-A Crisma
fortalece o cristão, mas os carismas são distribuídos livremente por
Deus. Nem todos receberão manifestações extraordinárias.
Conclusão clara: Não é que Deus dê a alguns e negue a outros arbitrariamente. É que:
-nem todos correspondem
-nem todos são chamados ao mesmo modo de ação
-e nem toda ação do Espírito é visível
A vida espiritual autêntica não se mede por fenômenos extraordinários, mas por algo muito mais profundo: docilidade à graça, fidelidade nas virtudes e abertura real à ação de Deus.
OS
CARISMAS de serviços (dons efusos) PODEM se manisfestar em alguém antes
de receber OS SACRAMENTOS?
Uma leitura atenta da Bíblia mostra um dado que, à primeira vista,
surpreende: os dons de serviço (carismas) podem ser concedidos por Deus até
mesmo antes do Batismo e da Crisma.
Isso não contradiz a doutrina sacramental; pelo contrário, confirma a liberdade soberana do Espírito Santo. O episódio clássico está nos Atos dos Apóstolos. Na casa de Cornélio, enquanto São Pedro Apóstolo ainda anunciava o Evangelho, ocorreu algo inesperado:
Atos 10,44-46: “Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo
desceu sobre todos os que ouviam a palavra… pois os ouviam falar em línguas e
glorificar a Deus.”
Aqui está o ponto decisivo: o Espírito Santo se manifesta antes do Batismo. Tanto que, logo em seguida, Pedro declara:
Atos 10,47: “Pode alguém recusar a água do Batismo a estes
que receberam o Espírito Santo como nós?”
Ou seja, o sinal visível (carismático) precede o sacramento, não o substitui. O dom extraordinário não dispensa o Batismo — ao contrário, confirma a necessidade de integrá-los plenamente à Igreja. Esse mesmo princípio aparece em outra passagem:
Atos 8,14-17: Ali vemos o movimento inverso: pessoas já
batizadas recebem posteriormente a imposição das mãos (figura da Crisma) para a
plenitude do Espírito.
Conclusão
segundo as sagradas escrituras:
João 3,8: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz,
mas não sabes donde vem, nem para onde vai..."
-Não podemos engessar e padronizar a ação do Espírito Santo, Ele é livre e soberano.Às vezes, o Espírito age antes dos sacramentos (Atos 10). Às vezes, por meio deles (Atos 8).Em ambos os casos, fica claro que:
-Deus não está limitado aos sinais sacramentais, mas nós estamos obrigados a eles
Na perspectiva teológica, especialmente em São Tomás de Aquino,
isso se explica assim:
-Os carismas (dons de serviço) pertencem à ordem da utilidade da Igreja
-Não exigem necessariamente o estado de graça para serem concedidos
-São distribuídos livremente, conforme o desígnio divino
1 Coríntios 12,11: “Tudo isso realiza um só e mesmo Espírito,
distribuindo a cada um como Ele quer.”
Portanto, não há contradição: O Batismo e a Crisma são os meios ordinários da graça santificante. Mas os carismas são dons livres, que Deus pode conceder quando, como e a quem quiser.
Sim,
a Escritura mostra que carismas podem anteceder os sacramentos
-Isso não diminui os sacramentos — pelo contrário, os confirma
-O extraordinário não substitui o ordinário
-O dom visível não é sinal automático de santidade
-Deus pode agir fora da ordem sacramental, mas nunca contra ela
-E assim se mantém o equilíbrio da fé católica: liberdade
absoluta de Deus + necessidade objetiva dos sacramentos.
A
importância dos "dons ordinários" do Espírito Santo na vida cristã
Por *Ricardo Cordeiro (seminarista)
Neste artigo, ressalto a importância dos dons do Espírito Santo na
vida cristã. As perguntas que se querem
responder aqui é: "o que são e para que servem os dons ordinários na vida da
Igreja?" - Utilizei como fonte
as aulas de pneumatologia com o Professor Dr. Pe. Mariano Weizenmann – SCJ.
Sabemos que ordinário é tudo aquilo que é
comum: todos os batizados possuem.Os dons ordinários são dons do Espírito
Santo, dado a todo batizado para a sua santificação. São chamados “infusos”,
porque são infundidos no batismo e reforçados no Crisma. São eles: sabedoria,
entendimento, conselho, força, ciência, piedade e temor de Deus.
DETALHAMENTO SOBRE OS DONS:
1)-Sabedoria - Inspira o homem a agir corretamente, a
falar inteligentemente em situações concretas da sua vida ou de sua comunidade,
levando-o a decidir acertadamente e de acordo com a vontade de Deus, no dia a
dia, no matrimônio, no trabalho, na educação dos filhos, nos relacionamentos
com os irmãos e na sua vida cristã. É uma orientação de Deus sobre como viver
cristãmente.
2)-Ciência - Desvenda os mistérios de Deus. É um “olho
espiritual” que vê além da realidade aparente. Esse dom “faz ver” o que é
divino sob a aparência do que é material; descobre o significado teológico da
criação, vendo nelas a verdade, a beleza, reflexos do Criador e de seu infinito
amor.
3)-Entendimento - Dá-nos uma compreensão profunda das
verdades reveladas, isto é, das verdades “ensinadas” pela Igreja. “Entender”
significa “tender para dentro”, com o sentido de buscar profundidade. Por
exemplo, entender Jesus vivo e real nas espécies eucarísticas do pão e do
vinho, entender a profundidade da graça do batismo, da redenção etc.
4)-Conselho - É um “ouvido espiritual atento” à voz de
Deus. É uma fidelidade às inspirações do Espírito Santo que a todo momento nos
orienta, advertindo-nos contra o mal e o pecado, e impulsionando-nos a fazer o
bem. Também chamado “dom da prudência”, discerne o certo do errado, o bem do
mal, levando-nos a agir segundo Deus, sem precipitações. Tira-nos da
inconsequência de nossos atos e leva-nos à vigilância: “O homem prudente
percebe o mal e se põe a salvo, os imprudentes passam adiante e aguentam o
peso” (Prov. 27,12).
5)-Fortaleza - Imprime em nossa alma um impulso que nos
permite suportar as maiores dificuldades e tribulações, e realizar, se
necessário, atos sobrenaturalmente heroicos no cotidiano da nossa vida.
6)-Piedade - É ternura filial para com Deus nosso Pai,
amor sobrenatural e santo ardor, e uma terna afeição para com as suas
criaturas. Faz-nos ver no próximo um filho de Deus e irmão de Jesus Cristo;
leva-nos a devotar amor sincero para com todas as pessoas e todas as coisas
criadas. Deus nos trata com piedade, isto é, com “ternura” paterna. Dá-nos
muito mais do que merecemos ou necessitamos. O dom da piedade nos faz justos,
dando ao outro (a Deus e ao próximo) o que lhe pertence, porém, sem medidas.
7)-Temor de Deus - É um dom do Espírito Santo que nos inclina
ao respeito filial para com Deus. Um respeito perfeito e amoroso, que nos
afasta do pecado por amor. O filho que ama o pai não quer ficar longe dele nem
fazer algo que o possa magoar. É um temor nobre que brota do amor.
Os dons ordinários são sementes de
santificação!
Quem dá a semente é o Espírito Santo. "O crescimento é obra
conjunta do Espírito Santo e do batizado."
Deus nos deu o campo: a vida; deu-nos
a semente e a semeou neste campo: o nosso coração(alma); dispõe a nosso favor a
chuva (graça) para fecundá-la e fazê-la crescer. A nossa parte é:
1°)-Querer esse crescimento.
2°)-Trabalhar a terra do nosso coração removendo todo obstáculo, sujeira ou “erva
daninha”(pecado).
3°)
buscar a chuva da graça através de vida de oração pessoal e comunitária através
dos sacramentos. Seus frutos são (Gal.5,22-23): caridade, alegria
(gozo/consolo), paz, paciência, benignidade (afabilidade), bondade,
longanimidade, brandura (mansidão), fé, modéstia, continência
(temperança/equilíbrio), castidade.
Os "dons ordinários" fazem com que os membros de Cristo produzam frutos de
santidade, que é uma restauração em nós da verdadeira imagem e semelhança de
Deus ORIGINÁRIA EM ADÃO E EVA!
Cristo-Cabeça da Igreja é Santo, e
santo devem ser seus membros. Esses dons e frutos (Apoc.19,7-8) “adornam” a
Esposa de Cristo e a prepara para encontrar-se com seu Esposo, na parusia (2ª
vinda de Cristo). Particularmente, isso acontece com cada batizado até seu
encontro pessoal com Cristo, que acontece no dia de sua morte.Podemos dizer que os dons ordinários são
destinados ao nosso bem pessoal, enquanto que os extraordinários são destinados
ao bem do próximo (missão). Diz a Igreja que os dons, todos, ordenam à
santidade, ao bem da Igreja. Portanto, que possamos fazer crescer com os dons
ordinários e alcançarmos a santidade, pois esta é a nossa vocação.
*Ricardo Cordeiro - Seminarista da
Comunidade Canção Nova
Fonte:https://santuario.cancaonova.com/artigos-religiosos/importancia-dos-dons-espirito-santo-na-vida-crista/
CONCLUSÃO
À luz de tudo isso, a tensão inicial se dissolve: não há oposição entre dons e virtudes, mas uma complementaridade profunda e necessária. Aquilo que é dado gratuitamente por Deus não elimina o esforço humano; antes, o exige, o orienta e o eleva. A graça não substitui a cooperação — ela a torna possível e fecunda.
Os dons
do Espírito Santo, infundidos juntamente com a graça, não operam como
mecanismos automáticos nem como atalhos espirituais. Eles supõem uma alma
preparada, purificada e disponível. E é precisamente aqui que entram as
virtudes: pelo seu exercício constante, o cristão se torna estável no bem,
ordena suas paixões e dispõe sua inteligência e vontade para uma ação mais
elevada.
Na síntese harmoniosa ensinada por São Tomás de Aquino, compreende-se que a vida espiritual não é nem passividade nem ativismo, mas uma cooperação viva entre Deus que move e o homem que responde. As virtudes fazem o cristão caminhar; os dons permitem que ele seja conduzido. As virtudes estruturam; os dons aperfeiçoam. As virtudes consolidam o agir humano elevado; os dons introduzem o agir sob a moção direta do Espírito Santo.
Por isso, maturidade espiritual não consiste em buscar
experiências extraordinárias nem em confiar apenas no próprio esforço, mas em
viver em estado de graça, exercitar fielmente as virtudes e, sobretudo,
tornar-se dócil à ação de Deus.
Em última análise, a santidade não é obra exclusiva do homem nem ação isolada de Deus: é fruto dessa união — onde a graça é acolhida, as virtudes são praticadas e os dons encontram espaço para agir. É nesse equilíbrio que o cristão deixa de apenas agir por si mesmo e passa, verdadeiramente, a viver como filho conduzido pelo Espírito.
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