por*Francisco
José Barros de Araújo
A reflexão sobre a “Cidade de Deus” e a “Cidade dos Homens”, apresentada por Santo Agostinho de Hipona em sua célebre obra A Cidade de Deus, permanece profundamente atual mesmo após mais de quinze séculos. Em um mundo marcado por disputas de poder, relativismo moral, individualismo crescente e busca desenfreada por prestígio, riqueza e reconhecimento humano, a pergunta de Agostinho ecoa com força em nossa consciência: qual cidade estamos ajudando a construir com nossas escolhas, valores e prioridades?
Ao escrever sua obra, Agostinho procurava responder à crise do mundo romano após a queda de Roma, quando muitos acusavam o cristianismo de ser responsável pela decadência do império. Entretanto, o santo vai muito além de uma simples defesa da fé cristã: ele apresenta uma profunda análise espiritual da história humana, mostrando que existem duas realidades em constante tensão dentro da humanidade e até mesmo dentro do coração de cada pessoa.
De um lado está a Cidade dos Homens, simbolizada por Babilônia, edificada sobre o orgulho, o egoísmo, a autossuficiência e o amor desordenado de si mesmo. É a cidade daqueles que colocam seus interesses, paixões e ambições acima da vontade de Deus. Nela, o poder vale mais que a verdade, a aparência mais que a santidade, e o sucesso terreno mais que a vida eterna.
Do outro lado está a Cidade de Deus, simbolizada por Jerusalém, construída sobre o amor a Deus, a humildade, a caridade e a busca da verdade eterna. É a cidade daqueles que compreendem que a vida terrena é passageira e que o verdadeiro destino do homem não está apenas nas conquistas materiais, mas na comunhão com Deus.Como afirma Agostinho:
“Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si.”
Essa distinção não significa que existam apenas dois grupos visíveis e perfeitamente separados no mundo, mas revela dois modos de viver, duas orientações espirituais e dois projetos de civilização. Cada sociedade, cada família e cada pessoa contribui diariamente para fortalecer uma dessas cidades através de suas atitudes, prioridades e decisões.
Vivemos hoje uma época em que muitos desejam construir uma sociedade sem Deus, onde a fé é relegada ao âmbito privado, os valores cristãos são relativizados e o homem se coloca como medida absoluta de todas as coisas. Ao mesmo tempo, cresce também a sede espiritual, a busca pela verdade e o desejo de reencontrar sentido em meio ao vazio existencial moderno.
Por isso, refletir sobre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens não é apenas um exercício intelectual ou histórico. Trata-se de uma análise concreta da nossa própria vida. Estamos construindo uma existência centrada em Deus ou em nós mesmos? Nossas escolhas aproximam nossa família, nossa comunidade e nossa sociedade do Evangelho ou apenas reforçam a lógica do egoísmo, da divisão e da superficialidade?
No fim, a grande questão levantada por Agostinho continua atual e decisiva para cada cristão: qual construção estamos priorizando?