por*Francisco José Barros de Araújo
Não é raro ouvirmos — ou até afirmarmos com convicção — frases como: “Tudo o que conquistei foi fruto exclusivo do meu esforço”. À primeira vista, tal afirmação parece legítima, pois ninguém nega o valor do trabalho árduo, da disciplina diária, dos sacrifícios silenciosos e da perseverança diante das dificuldades. No entanto, quando essa leitura se fecha em si mesma, ela se torna um ledo engano espiritual.
O esforço humano existe, é real e necessário, mas ele só foi possível porque antes houve graça; houve mérito, mas antes dele houve permissão, sustento e dom de Deus. Sem a vida recebida, sem a lucidez da mente, sem a saúde do corpo, sem as oportunidades concretas e até sem as circunstâncias históricas e sociais nas quais fomos inseridos, nenhum esforço teria sequer começado.
A fé cristã não nega o valor do empenho pessoal, mas rejeita radicalmente a ilusão da autossuficiência. Quantos gostariam de trabalhar e não podem? Quantos desejariam produzir, estudar ou criar e se encontram presos a uma cama, limitados por uma enfermidade grave ou por uma condição mental que lhes impede qualquer autonomia? O simples fato de podermos agir, planejar, decidir e perseverar já é, em si mesmo, um dom imerecido. Quando esquecemos essa verdade, corremos o risco de transformar conquistas em ídolos e talentos em instrumentos de vanglória. É nesse horizonte que ressoa com força a pergunta feita por São Paulo aos coríntios, uma pergunta que atravessa os séculos e desmonta toda pretensão de superioridade humana: “Que tens tu que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7).
O apóstolo não despreza o esforço humano, nem minimiza o valor do trabalho, da inteligência ou da perseverança. Ao contrário, ele apenas recoloca tudo em seu devido lugar. O próprio São Paulo reconhece isso em ao menos duas ocasiões decisivas de sua pregação. Quando, com humildade paradoxal, enumera os sofrimentos suportados por causa do Evangelho — prisões, açoites, perseguições, fadigas e perigos (cf. 2Cor 11,23-28) —, ele não o faz para exaltar a si mesmo, mas para testemunhar que sua perseverança é fruto da graça que o sustentou em meio às tribulações. Em outro momento, ao afirmar com clareza que “quem não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3,10), Paulo reafirma o valor do esforço concreto, da responsabilidade pessoal e do trabalho como dimensão moral da vida cristã.
Essas afirmações não se contradizem, mas se completam. São Paulo não absolutiza o esforço humano, nem o descarta. Ele denuncia a soberba espiritual e existencial que nasce quando o homem passa a se considerar autor absoluto de si mesmo, esquecendo-se de que é criatura e dependente em tudo da graça de Deus. O trabalho, o sofrimento e a perseverança são reais e necessários, mas não são autossuficientes; só produzem fruto porque estão inseridos no desígnio gracioso de Deus que sustenta, fortalece e orienta cada passo.
Ao recordar que tudo o que somos e temos foi antes recebido, o Apóstolo nos conduz ao núcleo da espiritualidade cristã: a gratidão. Ser grato não é um gesto acessório da fé, mas uma atitude estrutural da vida cristã. Em um mundo que exalta o mérito isolado, o sucesso individual e a autossuficiência como valores supremos, a fé cristã proclama uma verdade libertadora: tudo é dom, tudo é graça. Reconhecer isso não nos diminui, não anula nossa responsabilidade nem despreza nosso esforço; pelo contrário, nos coloca na verdade diante de Deus, cura nosso coração da soberba e nos ensina a viver com humildade, confiança e louvor contínuo.








