por *Franzé
Boris Fausto nasceu em 1930, na cidade de São Paulo, em uma família de imigrantes judeus oriundos da Europa Oriental. Esse contexto familiar, marcado pela experiência da diáspora, do trabalho urbano e da valorização da educação, exerceu influência decisiva em sua sensibilidade histórica, especialmente no interesse por temas como Estado, sociedade, autoritarismo e conflito social. Embora não tenha sido um intelectual religioso no sentido confessional, Fausto manteve ao longo de sua vida uma postura humanista, laica e racional, orientada pela defesa da democracia, do pluralismo político e da análise crítica dos fenômenos históricos, sempre distante de dogmatismos ideológicos.
Sua formação acadêmica foi relativamente tardia quando comparada a outros historiadores de sua geração. Inicialmente, Boris Fausto graduou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), exercendo a advocacia por alguns anos. Contudo, o interesse pela História acabou se impondo, levando-o a ingressar na carreira acadêmica já adulto. Realizou seu doutorado em História na USP, instituição na qual também se tornou professor e pesquisador, integrando um dos centros mais importantes da historiografia brasileira.
Essa trajetória híbrida — entre o Direito e a História — contribuiu para sua escrita clara, estruturada e fortemente preocupada com causalidade, instituições e processos políticos. Intelectualmente, Boris Fausto posicionou-se de maneira crítica em relação às leituras excessivamente economicistas ou ideologizadas da história brasileira, especialmente aquelas inspiradas em versões rígidas do marxismo.
Sem negar a importância das estruturas sociais e econômicas, ele defendeu uma historiografia mais equilibrada, que considerasse o papel do Estado, das elites políticas, das instituições e da cultura política. Essa postura o aproximou de uma tradição historiográfica plural e analítica, influenciada por autores como Max Weber, pela história social britânica e pela renovação metodológica promovida pela Escola dos Annales, sem jamais aderir de forma acrítica a qualquer escola específica. Entre suas obras mais importantes, destaca-se A Revolução de 1930: historiografia e história (1970), trabalho seminal que redefiniu a interpretação do evento ao desmontar mitos consolidados e analisar o movimento a partir de seus atores, limites e contradições.
Outro marco fundamental é Trabalho urbano e conflito social (1890–1920), referência obrigatória para o estudo do movimento operário no Brasil. Sua obra mais conhecida do grande público, História do Brasil (publicada inicialmente nos anos 1990), tornou-se um clássico por sua capacidade rara de conciliar rigor acadêmico e linguagem acessível, sendo amplamente utilizada tanto no ensino superior quanto no ensino médio.
Além disso, Fausto publicou livros e ensaios sobre o Estado Novo, o populismo, a República Velha, a ditadura militar e a formação da cidadania no Brasil. Muitas de suas obras foram traduzidas para outros idiomas, como inglês e espanhol, e utilizadas em universidades estrangeiras interessadas na história política e social da América Latina. Seu reconhecimento ultrapassou o Brasil, consolidando-o como uma referência internacional nos estudos sobre o país.
Boris Fausto foi membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu diversos prêmios e homenagens ao longo de sua carreira, reflexo do impacto duradouro de sua produção intelectual. Faleceu em 2023, deixando um legado que combina rigor metodológico, independência intelectual e compromisso com a verdade histórica. Sua obra permanece central não apenas por aquilo que explica sobre o passado brasileiro, mas também por representar um modelo de historiador que resiste à tentação de submeter os fatos às narrativas ideológicas do presente.
Boris Fausto é uma das vozes mais influentes da historiografia brasileira contemporânea. Sua obra atravessa décadas e dialoga com temas fundamentais — desde a formação política do Brasil até as tensões sociais da modernidade. Para estudantes, pesquisadores e membros de bancas acadêmicas, Fausto representa rigor metodológico, clareza interpretativa e compromisso com a análise crítica.
No entanto, essa posição de destaque não foi construída sem custos. Ao optar deliberadamente por uma escrita histórica ancorada em documentação, causalidade e análise estrutural — e não na militância disfarçada de historiografia —, Boris Fausto pagou um preço significativo no meio intelectual brasileiro. Em um ambiente acadêmico frequentemente marcado por leituras teleológicas, disputas ideológicas e narrativas comprometidas com projetos políticos específicos, Fausto escolheu o caminho mais árduo: o da imparcialidade possível, da recusa à mitificação de atores históricos e da crítica tanto à direita quanto à esquerda quando os fatos assim exigiam.
Essa postura lhe rendeu resistências, silenciamentos seletivos e críticas veladas — especialmente de correntes que confundem interpretação histórica com engajamento partidário. Ainda assim, sua produção permaneceu fiel ao princípio fundamental da disciplina histórica: compreender o passado a partir de suas próprias condições, e não moldá-lo às conveniências do presente. Mas o que, exatamente, faz com que seu nome seja constante em exames de mestrado, doutorado e concursos na área de História? Por que, apesar das tensões que sua postura gerou, Boris Fausto segue sendo referência obrigatória nos currículos universitários e nas bibliografias canônicas? Neste texto, discutiremos os pilares de sua importância intelectual, analisando como sua obra contribuiu para consolidar paradigmas interpretativos nos estudos históricos do Brasil e da América Latina, ao mesmo tempo em que exemplifica o custo — e o valor — de se fazer história com seriedade acadêmica em um campo frequentemente pressionado por narrativas ideológicas.
1. Rigor metodológico e clareza conceitual
Boris Fausto é reconhecido por aplicar uma abordagem historiográfica sólida, integrando fontes primárias e debates teóricos essenciais. Sua escrita é acessível, porém densa o suficiente para sustentar argumentos complexos — algo valorizado em bancas que exigem compreensão crítica.
Pontos-chave:
-Uso criterioso de fontes documentais.
-Diálogo entre história política, social e cultural.
-Linguagem que torna complexidade inteligível.
2. Diálogos com teorias históricas contemporâneas
Fausto não se restringe à narrativa descritiva: ele dialoga com correntes como a história social, a história cultural e a teoria crítica. Isso o coloca em convergência com debates atuais, sendo referência para pesquisas de diferentes orientações teóricas.
Pontos-chave:
-Integração de perspectivas teóricas.
-Reconhecimento em referenciais de auditorias críticas.
-Amplificação de debates sobre poder, Estado e sociedade.
3. Temáticas centrais e permanentes
Os temas abordados por Fausto — como o processo de formação do Estado brasileiro, revoluções e violência política — permanecem no centro dos currículos de história. Sua obra fornece repertório para compreender continuidades e rupturas na trajetória histórica nacional.
Exemplos temáticos:
-Formação do Brasil republicano.
-Crises políticas e revoltas sociais.
-Relações entre elites e massas.
4. Contribuições à historiografia brasileira
Fausto ajudou a consolidar um modo de pensar o Brasil historicamente — nem reducionista nem abstrato — destacando processos concretos e contingências que moldaram instituições, identidades e conflitos.
Aspectos valorizados:
-Interpretações equilibradas (evita simplificações ideológicas).
-Justaposição entre contextualização e análise crítica.
-Influência sobre gerações de historiadores no país.
5. Relevância para bancas e exames
Por sua clareza, profundidade e abrangência temática, Fausto oferece um repertório seguro para quem está elaborando pesquisas, defendendo dissertações ou respondendo questões de provas e concursos. Seu nome tornou-se um “referencial canônico” nas áreas de história do Brasil e América Latina.
Porque sua obra aparece com frequência:
-Citações clássicas em propostas de pesquisa.
-Fundamentação teórica consistente.
-Capacidade de articular fatos e processos.
CONCLUSÃO
Boris Fausto permanece respeitado nas bancas acadêmicas porque representa uma síntese rara entre profundidade de análise e clareza expositiva. Sua obra é sinônimo de rigor historiográfico — item fundamental em contextos avaliativos. Além disso, Fausto foi capaz de construir narrativas que não se encerram em formulismos: elas dialogam com questões humanas e políticas urgentes, ajudando leitores a interpretar o Brasil em suas múltiplas contradições.
O respeito por sua trajetória não se reduz ao reconhecimento institucional. Ele reflete a utilidade de seus textos para pensar confluências entre passado e presente, argumentar em defesa de interpretações sólidas e sustentar pesquisas que precisam combinar erudição e relevância social. Para muitos alunos, orientadores e avaliadores, Fausto funciona como um ponto de partida — uma base sobre a qual outras reflexões podem ser desenvolvidas.
Em um cenário acadêmico plural, reverenciar Fausto não significa homogeneizar perspectivas, mas reconhecer a importância de um autor que ajudou a moldar a maneira de fazer história no Brasil.
Sua obra continua sendo lida, debatida e aplicada, não por tradição acrítica, mas por sua capacidade de oferecer ferramentas interpretativas robustas e sustentáveis — algo que toda banca de avaliação historicamente séria procura nos trabalhos que avalia.
ADENDO
A História não é um tribunal de slogans nem um repositório de certezas ideológicas prontas. Ela é, antes de tudo, um campo de investigação rigorosa, no qual diferentes interpretações disputam sentido a partir de métodos, fontes e perguntas distintas.
Por isso, compreender o passado exige mais do que aderir a uma única narrativa: exige disposição intelectual para examinar os três lados da moeda. Convidamos estudantes, pesquisadores e leitores interessados a ampliar seu horizonte historiográfico, conhecendo autores de distintas matrizes interpretativas — progressistas, conservadores e aqueles de abordagem metodologicamente mais plural. Não para relativizar a verdade histórica, mas para aproximar-se dela com maior rigor, confrontando argumentos, avaliando evidências e reconhecendo limites e virtudes de cada leitura.
A formação de uma consciência histórica verdadeiramente crítica não nasce da repetição acrítica de discursos polarizados, mas do contato honesto com a diversidade do pensamento acadêmico consagrado.
Ao escapar das simplificações ideológicas, o estudante não se torna neutro ou indiferente; torna-se mais responsável intelectualmente, mais atento às fontes e menos vulnerável a narrativas que instrumentalizam o passado para fins imediatos. Ver a História pelos três lados da moeda é, portanto, um exercício de maturidade intelectual.
É o caminho para compreender que o passado é complexo, que os conflitos humanos não cabem em dicotomias simplistas e que o compromisso do historiador — e do leitor sério — deve ser sempre com a verdade histórica, não com a conveniência ideológica.Segue uma pluralidade metodológica e rigor acadêmico, não ausência total de visão de mundo (isso não existe em História):
Historiadores brasileiros progressistas, porém, respeitados academicamente
1)-Caio Prado Júnior (1907–1990)
-Principal obra acadêmica: "Formação do Brasil Contemporâneo" - Clássico da interpretação marxista do Brasil; leitura obrigatória em cursos de História e Ciências Sociais.
2)-Emília Viotti da Costa (1928–2017)
-Principal obra acadêmica: "Da Senzala à Colônia" - Referência internacional sobre escravidão, transição do trabalho e liberalismo no Brasil.
3)- Fernando Novais (1933– )
-Principal obra acadêmica: "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial" - Estrutura econômica e sistema colonial; extremamente citado em bancas e teses.
-Principal obra acadêmica: "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" - História cultural e social com forte base documental; grande prestígio acadêmico.
-Principal obra acadêmica: "A Morte é uma Festa" - Escravidão urbana e cultura popular; leitura canônica em história social.
Historiadores brasileiros conservadores, porém, respeitados academicamente
1)-Oliveira Lima (1867–1928)
-Principal obra acadêmica: "Dom João VI no Brasil" - Historiografia diplomática e política clássica; ainda muito citado.
2)-José Honório Rodrigues (1913–1987)
-Principal obra acadêmica: "História e Historiadores do Brasil" - Nacional-desenvolvimentista, crítico do marxismo dogmático; referência metodológica.
-Principal obra acadêmica: "A História das Constituições Brasileiras" - Historiador profissional, muito comentado em debates institucionais e jurídicos.
4)-Ricardo Benzaquen de Araújo (1952–2017)
-Principal obra acadêmica: "Guerra e Paz: Casa-Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre" - Conservador cultural, leitura refinada do pensamento social brasileiro.
-Principal obra acadêmica: "O Negócio do Brasil" - Historiador de arquivo, diplomático, foco no Brasil colonial e Pernambuco; enorme respeito acadêmico.
Historiadores brasileiros mais plurais / metodologicamente equilibrados na imparcialidade histórica factual
(sem militância ideológica explícita, foco em método, fontes e crítica historiográfica)
1)-Capistrano de Abreu (1853–1927)
-Principal obra acadêmica: "Capítulos de História Colonial" - Fundador da historiografia científica brasileira.
2)- Boris Fausto (1930–2023)
-Principal obra acadêmica: "História do Brasil" - Manual mais usado no ensino superior; equilíbrio narrativo e rigor factual.
-Principal obra acadêmica: "As Barbas do Imperador" - História cultural e do Império; amplamente citada e debatida.
-Principal obra acadêmica: "Trópico dos Pecados" - História religiosa e mentalidades; forte base documental.
-Principal obra acadêmica: "História das Mulheres no Brasil" - História social com linguagem acessível e reconhecimento acadêmico.
“A maturidade intelectual não está em ler apenas autores que confirmam nossas convicções, mas em conhecer diferentes interpretações consagradas, confrontar métodos, fontes e argumentos, e formar juízo próprio com base no rigor histórico.”
*Franzé - Analista Político - Colaborador do Apostolado Berakash
Bibliografia
-FAUSTO, Boris. História do Brasil. 13. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013.
-FAUSTO, Boris. Negócios e idéias no Brasil: ensaios de história econômica e intelectual. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
-FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas e seu tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
-FAUSTO, Boris; FAUSTO, Sonia. Brasil e Argentina: história comparada. São Paulo: Editora 34, 2010.
-FAUSTO, Boris; FAUSTO, Sonia. Histórias do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2002.
-CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
-SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio a Castelo — 1930–1964. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
-FAUSTO, Boris. Cidadania e República no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
-LARA, Silvia Hunold; et al. História social da literatura e cultura no Brasil. São Paulo: Contexto, 2011.
-CORRÊA, Marilena; BEATO, Selma; et al. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997–1999
-FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil republicano: o tempo do liberalismo excludente – da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. (A obra dialoga diretamente com as interpretações de Boris Fausto sobre a Primeira República, especialmente no debate sobre elites políticas, liberalismo e exclusão social).
-GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 1988. (Angela Gomes discute e contrapõe interpretações clássicas de Fausto sobre o trabalhismo, o Estado Novo e a relação entre Estado e classe trabalhadora).
-FAUSTO, Boris; DEVOTO, Fernando J. Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada (1850–2002). São Paulo: Editora 34, 2004. (Embora seja coautor, a obra é amplamente analisada por outros historiadores e costuma ser citada em estudos críticos sobre o método comparativo de Fausto. (Útil como referência metodológica).
-SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (As autoras dialogam explicitamente com a tradição historiográfica inaugurada e consolidada por Fausto, especialmente na síntese histórica e na crítica às narrativas teleológicas).
-REIS FILHO, Daniel Aarão. As esquerdas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. (A obra debate interpretações sobre populismo, Estado e autoritarismo, frequentemente em contraste com as análises de Boris Fausto sobre o período republicano).
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