por *Franzé
Diversos intelectuais e analistas culturais vêm alertando, há anos, para um fenômeno cada vez mais recorrente no cinema contemporâneo: a transformação do cinema histórico em instrumento de pedagogia ideológica.
Quando a arte abandona a tarefa de iluminar o passado em sua complexidade para se tornar veículo de afirmações políticas do presente, ela deixa de provocar reflexão e passa a formar consciências por meio da emoção e da simplificação moral. Nesse processo, a história é reduzida a narrativa edificante, e o espectador é conduzido menos a compreender do que a tomar partido. Historiadores como Boris Fausto sempre insistiram que o regime militar brasileiro deve ser analisado com rigor crítico, contextualização histórica e equilíbrio, reconhecendo tanto seus erros graves e violações inegáveis quanto as circunstâncias políticas, institucionais e sociais que explicam sua ascensão e permanência.
No mesmo sentido, analistas e colunistas como Elio Gaspari, Luiz Felipe Pondé e Marco Antonio Villa alertam para os riscos do maniqueísmo narrativo, do anacronismo moral e do uso da estética emocional como substituto da análise histórica séria. É precisamente nesse cenário que se insere O Agente Secreto. Vencedor dos prêmios de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro, o longa foi celebrado internacionalmente como uma obra “corajosa”, “necessária” e “politicamente relevante”. No entanto, por trás do verniz técnico, da direção competente e da performance elogiável de seu protagonista, o filme apresenta uma narrativa historicamente enviesada, marcada por polarização ideológica, simplificação moral e um recorte seletivo do regime militar brasileiro que mais deseduca do que esclarece.
Não se trata, aqui, de negar os erros, abusos e violações de direitos humanos ocorridos durante o período militar — fatos amplamente documentados e que exigem crítica inequívoca. O problema é outro e mais profundo: o filme abdica da complexidade histórica para adotar uma leitura maniqueísta, alinhada ao progressismo esquerdista contemporâneo, na qual um lado é reduzido à caricatura do mal absoluto, enquanto o outro é romantizado como resistência moralmente pura, imune a contradições, responsabilidades ou ambiguidades. Assim, O Agente Secreto se apresenta menos como uma obra de reflexão histórica e mais como uma peça de afirmação ideológica, na qual a emoção substitui a razão e a estética se sobrepõe à verdade. É a partir dessa constatação que esta crítica se propõe a analisar onde o filme mente, onde simplifica, onde deseduca — e quais cuidados o espectador precisa ter ao assisti-lo.
1. Onde o filme mente: a distorção deliberada do contexto histórico
“O Agente Secreto” apresenta o regime militar como se fosse um evento isolado de tirania gratuita, descolado do contexto político, social e geopolítico da época.
Essa abordagem ignora deliberadamente fatores essenciais:
-A Guerra Fria e o real temor de expansão de regimes totalitários comunistas na América Latina;
-A atuação de grupos armados revolucionários, alguns deles assumidamente defensores da luta armada e do modelo soviético ou cubano;
-A instabilidade institucional anterior a 1964, marcada por crise econômica, radicalização política e ruptura da legalidade.
Ao omitir esses elementos, o filme não erra por ignorância, mas por escolha narrativa.
Trata-se de uma mentira por recorte: seleciona apenas os fatos que confirmam sua tese ideológica, excluindo tudo o que poderia gerar ambiguidade ou reflexão crítica.
2. Narrativa polarizada: o maniqueísmo como método
O roteiro opera segundo uma lógica simples e previsível:
-De um lado, agentes do Estado retratados como frios, cruéis, sádicos e moralmente vazios;
-Do outro, opositores tratados como heróis trágicos, quase sempre éticos, altruístas e movidos apenas por ideais nobres.
Essa polarização ignora uma realidade histórica bem documentada: houve abusos graves do Estado, mas também houve terrorismo, sequestros, atentados e assassinatos praticados por grupos revolucionários. Ao silenciar esses fatos, o filme transforma a história em mitologia política, não em análise histórica.
O resultado é uma obra que emociona, mas não educa — e, pior, forma consciências a partir da simplificação ideológica.
3. Onde o filme deseduca: estética substituindo verdade
“O Agente Secreto” confunde cinema político com catequese ideológica. A força estética — fotografia, trilha sonora e atuações — é usada para induzir emoções, não para provocar pensamento crítico.
Esse tipo de abordagem cria três problemas sérios:
1º)-Emoção no lugar da razão: o espectador é levado a sentir antes de compreender;
2º)-Anacronismo moral: julga-se o passado com categorias morais atuais, sem considerar as circunstâncias históricas concretas;
3º)-Deslegitimação do debate: qualquer tentativa de nuance é imediatamente associada à apologia do autoritarismo.
Historiadores sérios, como Boris Fausto, sempre insistiram na necessidade de avaliar o período militar com equilíbrio, reconhecendo tanto suas falhas graves quanto certas funções de estabilização institucional que, goste-se ou não, foram percebidas como necessárias por amplos setores da sociedade naquele contexto histórico. O filme ignora deliberadamente essa tradição historiográfica mais sóbria.
4. O que o filme se propõe a fazer — e não entrega
A obra se apresenta como um retrato crítico da história, mas entrega apenas um manifesto ideológico disfarçado de cinema de autor.
Não há esforço real de compreensão histórica, apenas afirmação de uma narrativa pronta, confortável para festivais internacionais e para um público já convertido.
Isso não é cinema histórico no sentido forte do termo — é cinema militante, que não dialoga, não questiona e não aceita contradições.
5. Cuidados ao assistir “O Agente Secreto”
Para quem decidir assistir ao filme, alguns cuidados são essenciais:
-Não confundir ficção com história: o filme não substitui livros, documentos ou historiografia séria;
-Desconfiar de narrativas sem ambiguidade: quando todos os vilões são idênticos e todos os heróis impecáveis, há ideologia em ação;
-Buscar leituras complementares: autores como Boris Fausto, Marco Antônio Villa (com ressalvas), Elio Gaspari, Lilia Moritz Schwarcz, Ronaldo Vainfas, Mary del Priore, Evaldo Cabral de Mello, Ricardo Benzaquen de Araújo, José Honório Rodrigues, e outros, oferecem análises mais complexas do período;
-Separar qualidade técnica de honestidade intelectual: um filme pode ser bem feito e ainda assim intelectualmente desonesto.
Conclusão
“O Agente Secreto” é tecnicamente competente, emocionalmente eficaz e ideologicamente previsível.
Ao optar por um recorte seletivo e polarizado do regime militar brasileiro, o filme sacrifica a complexidade histórica em nome de uma narrativa confortável ao progressismo cultural dominante.
Não se trata de defender o regime militar, mas de defender a verdade histórica contra a instrumentalização ideológica. O passado brasileiro merece ser compreendido, não explorado como peça de propaganda emocional.Quem busca cinema como arte pode até apreciar o filme. Quem busca compreensão histórica precisa assistir com distância crítica — e, sobretudo, não tomar a obra como retrato fiel da realidade.
*Franzé - Analista Político - Colaborador do Apostolado
Berakash
Referências
-GASPARI, Elio. A ditadura tratada como mito moral: quando o cinema abandona a história. O Globo, Rio de Janeiro, coluna de opinião, 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com.Acesso em: 26 jan. 2026 (Crítica ao viés ideológico e ao uso político do cinema histórico, bem como ao maniqueísmo e ao anacronismo moral).
-VILLA, Marco Antonio. Cinema, memória seletiva e militância política. Gazeta do Povo, Curitiba, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br.Acesso em: 26 jan. 2026 (Análise crítica da narrativa progressista no cinema brasileiro contemporâneo. Reforça a crítica conteporânea de recorte seletivo da história e uso ideológico da arte).
-FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2019 (Crítica historiográfica ao tratamento do regime militar na cultura.Crítica ao regime militar e luta armada contrarevolucionária sem adesão ao discurso panfletário).
-PONDÉ, Luiz Felipe. Quando a arte vira catequese política. Folha de S.Paulo, São Paulo, coluna de opinião, 2025.Disponível em: https://www.folha.uol.com.br. Acesso em: 26 jan. 2026 (Questionamento do uso emocional da estética para fins ideológicos.Dialoga diretamente com o argumento de que o filme emociona, mas não educa).
-MARTINS, Ives Gandra da Silva. Cultura, ideologia e o aplauso internacional. Revista Oeste, São Paulo, 2025. Disponível em: https://revistaoeste.com.Acesso em: 26 jan. 2026 (Crítica cultural ao cinema premiado por alinhamento ideológico Faz crítica à premiação internacional como chancela ideológica, não histórica).
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