por*Francisco
José Barros de Araújo
Antes de qualquer discordância, é justo reconhecer o mérito do artigo de Frei Betto: ele toca numa ferida real. A Teologia da Libertação e a esquerda brasileira, de modo geral, envelheceram — não apenas biologicamente, mas espiritual, intelectual e politicamente. E o primeiro passo para qualquer renovação verdadeira é aquilo que a própria tradição cristã sempre ensinou: autocrítica baseada na verdade, humildade para reconhecer erros e coragem para mudar.
Nesse ponto inicial, concordamos. A esquerda precisa, sim, fazer uma autocrítica séria se quiser voltar a dialogar com as novas gerações. Mas essa autocrítica não pode ser seletiva, nem retórica, nem sentimental. Precisa ir às raízes — inclusive às premissas ideológicas que moldaram sua ação ao longo das últimas décadas.
Faço aqui uma observação pessoal que não é irrelevante para este debate. Eu mesmo fiz essa autocrítica em 1996, dez anos após ter militado no PCdoB. Mudei. E não foi por oportunismo, ressentimento ou cansaço, mas por confronto honesto com a realidade, com a história e com a verdade — aquela verdade que dói, mas cura e liberta. É a partir dessa experiência que me proponho, com respeito, ajudar Frei Betto e seus leitores a enxergarem com mais clareza o atual contexto político, cultural e religioso do Brasil. A seguir, segue o artigo na ínegra de frei Beto e logo após respondo pontualmente aos principais trechos do mesmo, dialogando com cada argumento, sob uma perspectiva católica fiel ao Magistério e politicamente conservadora, entendendo o conservadorismo não como nostalgia do passado, mas como responsabilidade histórica diante do real.
“Cabelos brancos” - Frei Betto
"Minha geração envelhece. Chego este ano aos 80. Nossas
ideias, propostas e utopias, também envelhecem?" - pergunta Frei Betto,
escritor, autor Diário de Fernando: nos cárceres da ditadura militar brasileira
(Rocco), entre outros livros.
Segundo ele, "nossos cabelos brancos
denunciam o inverno que nos acomete. É hora de uma nova e florida
primavera!"
Eis o artigo:
Participei em Belo Horizonte, no início de
abril, do 12º encontro nacional do Movimento Fé e Política. Quase duas mil
pessoas. Ao contrário dos encontros anteriores à pandemia, poucos jovens. A
maioria de cabelos brancos ou tingidos.
Minha geração envelhece. Chego este ano aos
80. Nossas ideias, propostas e utopias, também envelhecem?
É muito preocupante constatar que as forças
progressistas não logram renovar seus quadros. Para vice de Boulos, na disputa
pela prefeitura de São Paulo, em outubro próximo, o PT precisou importar uma
mulher filiada a outro partido: Marta Suplicy, que fará 80 anos em março de
2025. No Rio, o PT parece não ter quem indicar para possível vice na chapa do
prefeito Eduardo Paes, candidato à reeleição. Tende a importar Anielle Franco,
do PSOL.
Tenho proferido conferências pelo Brasil
afora e assessorado movimentos populares. Os cabelos brancos predominam na
plateia. As poucas manifestações públicas convocadas pela esquerda reúnem um
número inexpressivo de pessoas e, em geral, a turma dos cabelos brancos.
Nós, da esquerda, estamos acuados. Como diz
a canção de Belchior, “minha dor é perceber / que apesar de termos feito /
tudo, tudo, tudo, tudo que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos (...) como
os nossos pais”. “Nossos ídolos ainda são os mesmos”. E não vemos que “o novo
sempre vem”.
A queda do Muro de Berlim abalou as nossas esperanças em um mundo onde todos teriam a sua existência dignamente assegurada. E o capitalismo, gato de sete fôlegos, inovou-se pelos avanços da ciência e da tecnologia e, sobretudo, do neoliberalismo.
Primeiro, a privatização do patrimônio público; em seguida, das instituições sociais, reduzidas a duas por Margaret Tchatcher: o Estado e a família. E, por fim, o cidadão foi despido de seu manto aristotélico e condenado a ser mero consumista, inclusive de si mesmo ao passar horas a se mirar no espelho narcísico das redes digitais.
Há uma progressiva despolitização da
sociedade. A direita é como uma maré que sobe e ameaça afogar o que nos resta
de democracia liberal. Basta dizer que um dos três programas de maior audiência
da TV Globo e, portanto, de faturamento, é o BBB, que bem espelha os tempos em
que vivemos: ali são explícitas as regras do sistema capitalista. O único
objetivo é competir. Todos sabem que, ao final, apenas uma pessoa haverá de
amealhar o pote de ouro. E a missão dos concorrentes é cada um fazer tudo para
que seus pares sejam eliminados. É o que milhões de adolescentes aprendem ao
perder horas assistindo àquele simulacro de “O anjo exterminador”, de Buñuel.
Na esquerda “ainda somos os mesmos”. Não
semeamos a safra de novos militantes com medo de que eles se destacassem e
ocupassem as nossas instâncias de poder. Abandonamos as favelas, as zonas
rurais de pobreza, os movimentos de bairros. E não aprendemos a atuar nas
trincheiras digitais, monopolizadas pela direita como armas virtuais da
ascensão neofascista.
Não sabemos como reagir diante do
fundamentalismo religioso que mobiliza multidões, abastece urnas, elege
inclusive bandidos notórios. Fundamentalismo que apaga as desigualdades sociais
e as contradições de classe e ressalta que tudo se reduz à disputa entre Deus e
o diabo. Todo sofrimento decorre do pecado. Eliminado o pecado, irrompe a
prosperidade, que empodera e favorece o domínio: a confessionalização das
instituições públicas; a deslaicização do Estado; a neocristandade que condena
à fogueira da difamação e do cancelamento todos que não abraçam “a moral e os
bons costumes” dos que clamam contra o aborto e homenageiam torturadores e
milicianos assassinos.
Precisamos fazer autocrítica, rever nossas
ideias, ter a coragem de abrir espaços às novas gerações e reinventar o futuro.
Nossos cabelos brancos denunciam o inverno que nos acomete. É hora de uma nova
e florida primavera!
Frei Beto
Resposta ao artigo “Cabelos brancos”, de Frei Betto
1. “Poucos jovens, e muitos cabelos brancos”
Frei Betto constata a ausência de jovens nos encontros do Movimento Fé e Política. O diagnóstico está correto. O erro está em tratar isso como um fenômeno meramente geracional ou logístico.
Os jovens não se afastaram da esquerda por acaso, nem por alienação, nem por manipulação digital. Eles se afastaram porque não reconhecem nela verdade, coerência nem esperança transcendental.
Uma militância que reduz a fé a instrumento político, que relativiza princípios morais objetivos e que transforma a Igreja em correia de transmissão ideológica perde, inevitavelmente, sua capacidade de fascinar. A juventude pode até ser crítica das instituições, mas continua sedenta de sentido, de verdade e de radicalidade moral. E isso a esquerda — especialmente a esquerda teológica — deixou de oferecer.
2. “Nossas ideias e utopias também envelheceram?”
Sim, envelheceram. E mais: fracassaram!
As grandes utopias revolucionárias do século XX não apenas envelheceram; elas produziram regimes autoritários, miséria material, perseguição religiosa e destruição moral. O problema não é que o tempo passou, mas que a realidade desmentiu as promessas.
Do ponto de vista católico, isso não surpreende. Toda utopia política que promete redenção histórica sem conversão pessoal, justiça sem verdade e igualdade sem ordem moral está fadada ao colapso. O Reino de Deus não se confunde com nenhum projeto ideológico — muito menos com projetos que instrumentalizam pobres como massa de manobra.
3. A crise de quadros e a dependência de “importações” eleitorais
A dificuldade do PT e da esquerda em renovar lideranças não é um problema de marketing ou de geração. É consequência direta de um ambiente interno hostil à dissidência, intolerante ao pluralismo real e viciado em estruturas de poder fechadas.
Quem pensa diferente é expulso, cancelado ou silenciado. Jovens percebem isso rapidamente. Preferem buscar outros caminhos — inclusive fora da política institucional — a se submeter a máquinas partidárias que falam em democracia, mas funcionam como oligarquias ideológicas.
4. Plateias envelhecidas e mobilizações esvaziadas
Aqui, novamente, Frei Betto descreve corretamente o fenômeno, mas erra na explicação. A esquerda não perdeu capacidade de mobilização porque a direita “manipula” melhor. Perdeu porque rompeu o vínculo orgânico com a vida concreta das pessoas comuns.
Abandonou a linguagem do povo, desprezou a religiosidade popular, ridicularizou valores familiares e passou a falar para si mesma — em jargões acadêmicos, slogans importados e pautas que não dialogam com as angústias reais do trabalhador, do jovem periférico, da mãe de família.
5. O Muro de Berlim e o “capitalismo que sobrevive”
A queda do Muro de Berlim não abalou apenas esperanças; revelou uma verdade histórica: o socialismo real falhou moral, econômica e antropologicamente.
O problema não é que o capitalismo “sobreviveu”, mas que ele respondeu — ainda que de forma imperfeita — às demandas humanas com mais eficácia do que sistemas baseados na negação da liberdade, da propriedade e da responsabilidade pessoal.
A Doutrina Social da Igreja nunca canonizou o capitalismo, mas também jamais endossou o socialismo.
A crítica cristã ao mercado não autoriza a adesão a ideologias que esmagam a dignidade humana em nome de abstrações históricas.
6. Neoliberalismo, consumo e narcisismo
Há exageros evidentes aqui. Reduzir a complexidade da vida contemporânea a um complô neoliberal é uma explicação confortável, porém insuficiente. O consumismo e o narcisismo digital não são apenas produtos do mercado, mas também do esvaziamento espiritual promovido por décadas de secularização militante.
Quando Deus é retirado do horizonte, algo ocupa o vazio — seja o consumo, o ego ou a ideologia.
7. BBB, competição e “ameaça à democracia”
A crítica cultural ao Big Brother Brasil pode ser legítima, e ninguém é obrigado a defender um programa que, de fato, empobrece o imaginário, estimula o voyeurismo moral e transforma conflitos humanos em espetáculo.
No entanto, atribuir a esse tipo de entretenimento um papel estrutural na erosão da democracia revela uma desonestidade intelectual de cunho reducionista — ainda mais vinda de quem se apresenta como analista político experiente.
-Primeiro, há uma seletividade evidente. A esquerda costuma demonizar a lógica da competição apenas quando está fora do controle dos meios de produção simbólica. Quando domina universidades, editoras, fundações culturais, sindicatos, ONGs, redações jornalísticas e instâncias estatais, essa mesma esquerda não apenas aceita a competição, mas a instrumentaliza: distribui verbas, define agendas, premia aliados e silencia dissidentes. Ou seja, o problema não é a competição em si, mas quem a vence.
-Segundo, há um paradoxo gritante que Frei Betto ignora. O público majoritariamente conservador, que ele acusa de promover o “neofascismo”, boicota esse tipo de produto cultural, enquanto o BBB é amplamente consumido, comentado e engajado por setores urbanos progressistas, formadores de opinião, militantes digitais e influenciadores alinhados à esquerda cultural. Se o programa é um espelho do tempo, ele reflete muito mais o ethos da elite progressista do que da chamada “direita reacionária”.
-Terceiro, confundir entretenimento de massa com ameaça estrutural à democracia é deslocar o debate do essencial para o acessório. Democracias não entram em colapso porque pessoas assistem reality shows, futebol ou novelas. Elas entram em crise quando elites políticas e intelectuais rompem com o povo, passam a desprezar o senso comum, tratam a moral popular como atraso e substituem o debate democrático por engenharia social, censura indireta e cancelamento moral.
A história mostra que democracias morrem não por excesso de distração, mas por concentração de poder simbólico, criminalização da dissidência, judicialização da política e desprezo pela liberdade de consciência — práticas que, ironicamente, têm sido normalizadas em nome da defesa da própria democracia por setores progressistas.
Por fim, há um equívoco mais profundo: atribuir à lógica da competição a raiz dos males sociais. A competição não é uma invenção do capitalismo tardio nem um vício moral moderno; ela é um dado da condição humana, presente no esporte, no trabalho, na arte e até na vida intelectual. O problema não é competir, mas competir sem critérios morais, sem limites éticos e sem responsabilidade — algo que não se resolve com demonização cultural, mas com formação moral, espiritual e cívica. Transformar o BBB em símbolo da decadência democrática é, no fundo, uma forma confortável de evitar o verdadeiro exame de consciência: a perda de credibilidade moral da esquerda, sua ruptura com o povo real e sua incapacidade de conviver com a pluralidade sem tentar controlá-la.
8. “Ainda somos os mesmos” e o fracasso digital
-Quando Frei Betto reconhece que “ainda somos os mesmos”, faz talvez a confissão mais honesta de todo o artigo — ainda que não perceba o alcance do que está dizendo. Trata-se de um reconhecimento involuntário de estagnação intelectual, espiritual e política da TL e da própria esquerda que perdeu o "bonde da história" (literalmente, se é que me entende).
-E essa estagnação revela uma incoerência profunda: os mesmos que exigem mudanças radicais na Igreja, na liturgia, na moral cristã, na doutrina e até na antropologia humana são incapazes de revisar seriamente seus próprios pressupostos ideológicos.
Pede-se que a Igreja se “atualize”, que dialogue com o espírito do tempo, que abandone certezas consideradas ultrapassadas.
Mas quando a realidade histórica, cultural e digital demonstra que as categorias da esquerda perderam poder explicativo e capacidade de mobilização, a reação não é autocrítica, e sim acusação: culpa-se o “neofascismo”, as redes sociais, os algoritmos, o fundamentalismo religioso.
É exatamente a lógica denunciada pelo Evangelho: querer tirar o argueiro do olho alheio enquanto se ignora a trave cravada no próprio olhar.
A esquerda não fracassou nas redes porque foi “atacada”, mas porque fala uma língua que já não comunica sentido. Um vocabulário saturado de slogans, eufemismos e categorias abstratas não convence uma geração que valoriza experiência concreta, testemunho pessoal e clareza moral.
As redes sociais não premiam apenas técnica ou alcance; premiam autenticidade, coerência interna e coragem de sustentar convicções sem pedir licença às patrulhas ideológicas.
Ao substituir o debate moral por engenharia social e o diálogo por vigilância discursiva, a esquerda perdeu aquilo que toda comunicação viva exige: confiança. Jovens percebem rapidamente quando uma narrativa exige obediência retórica, mas não tolera perguntas incômodas porém necessárias; quando fala em diversidade, mas pune dissidência; quando prega libertação, mas opera por controle simbólico.
Enquanto isso, setores religiosos e conservadores — com todos os seus limites — aprenderam a falar diretamente, sem mediações artificiais, sobre temas existenciais reais: culpa, perdão, trabalho, sofrimento, família, esperança. Não é surpresa que tenham ocupado um espaço que a esquerda abandonou ao se tornar autorreferente!
9. O chamado “fundamentalismo religioso”
Este talvez seja o ponto mais revelador — e mais equivocado — do artigo de Frei Betto.
O que ele chama de “fundamentalismo religioso” é, em grande parte, o retorno espontâneo das massas à fé, depois de décadas sendo ignoradas, tuteladas ou instrumentalizadas por projetos político-ideológicos que nunca responderam às suas necessidades mais profundas.
As pessoas simples não estão interessadas em categorias marxistas de classe, nem em debates acadêmicos sobre estruturas abstratas de poder. Estão preocupadas com o que sempre preocupou o ser humano comum: família, trabalho, pecado, redenção, justiça, sofrimento e esperança. Quando encontram espaços religiosos que falam dessas realidades de forma direta — ainda que imperfeita — sentem-se, finalmente, vistas e ouvidas.
Reduzir esse fenômeno a manipulação religiosa ou obscurantismo é repetir o velho elitismo ilustrado que marcou boa parte da esquerda latino-americana: o povo é sempre virtuoso quando confirma a teoria; quando não confirma, passa a ser ignorante, alienado ou manipulado. Trata-se de uma postura profundamente antidemocrática, ainda que travestida de discurso emancipador.
Além disso, há aqui um erro teológico grave: confundir fé viva com ideologia. A fé religiosa, quando autêntica, não apaga a realidade social nem elimina conflitos, mas oferece sentido, ordem moral e horizonte de transcendência — exatamente aquilo que a politização excessiva da religião destruiu. Ao tentar reduzir toda experiência religiosa a instrumento de dominação, a esquerda revela sua incapacidade de compreender o fenômeno religioso como tal.
O crescimento da religiosidade e devocionismo popular não é um retrocesso histórico, mas um sinal claro de que projetos puramente imanentistas falharam. Não se trata de negar abusos ou desvios — eles existem —, mas de reconhecer que o vazio espiritual deixado por décadas de secularização militante foi preenchido por formas concretas de fé, não por discursos ideológicos.
A verdadeira pergunta, que o artigo evita, é simples e incômoda: por que o povo voltou a Deus, mas não voltou à esquerda? Enquanto essa questão não for enfrentada com honestidade — e não com rótulos — qualquer autocrítica continuará incompleta.
Conclusão: inverno, primavera, ou purificação?
Frei Betto recorre à imagem do inverno que pede uma nova primavera. A metáfora é poética, mas insuficiente para explicar o momento histórico que atravessamos.
Talvez não estejamos apenas diante de um inverno geracional, passageiro e circunstancial, mas de algo mais profundo: uma purificação histórica. Quando ideias se afastam da verdade, quando projetos políticos se absolutizam e pretendem ocupar o lugar da redenção, eles não apenas envelhecem — entram em crise. E essa crise não é injusta; é divina e providencialmente pedagógica.
As grandes utopias que prometeram o céu na terra estão sendo julgadas não por seus inimigos, mas pela própria realidade. Décadas depois, o que se vê não é a libertação prometida, mas frustração, esvaziamento espiritual, autorreferencialidade e incapacidade de dialogar com o povo real. Não se trata de derrota eleitoral ou de perda de espaço midiático, mas de algo mais sério: perda de credibilidade moral e simbólica.
A renovação ou primavera que Frei Betto deseja não virá de ajustes táticos, de rebranding discursivo ou da simples troca de gerações nos mesmos esquemas mentais. Não virá de novas palavras de ordem, nem da adaptação cosmética de velhos paradigmas. Se vier — e isso não é automático — só poderá nascer de uma conversão intelectual e espiritual profunda. Conversão que implica abandonar ideologias totalizantes, reconhecer os limites da política como instrumento de salvação, reconciliar-se com a verdade antropológica cristã e aceitar que a fé não pode ser subordinada a projetos de poder.
Essa conversão exige humildade real: reconhecer erros, admitir fracassos, abandonar a tentação de tutelar o povo e reaprender a escutá-lo.
Exige também respeito à liberdade religiosa e à consciência moral das pessoas, sem caricaturas, rótulos ou suspeitas automáticas. A Igreja não se renova quando se molda ao espírito do tempo, mas quando permanece fiel à verdade que atravessa os tempos.
As novas gerações não rejeitam a justiça social — ao contrário, são sensíveis ao sofrimento, à desigualdade e à exclusão. O que elas rejeitam é a mentira travestida de justiça, o moralismo seletivo, a indignação performática e a instrumentalização do sofrimento alheio para fins ideológicos. Elas não rejeitam a fé; rejeitam sua redução a ferramenta política. Buscam coerência, sentido, testemunho e verdade vivida, não slogans reciclados. Talvez, então, o que muitos chamam de inverno seja, na verdade, um tempo de poda. E toda poda dói. Mas é justamente ela que permite que a árvore volte a dar frutos. A purificação não é o fim da história; é a chance de recomeçar sobre fundamentos mais sólidos.
A verdade, como sempre, não é confortável. Ela dói. Mas cura. E liberta.
Abaixo vai uma lista honesta, responsável e documentada de ex-teólogos da Libertação (ou intelectuais diretamente ligados a ela) que fizeram autocrítica real, abandonaram a corrente ou corrigiram profundamente seus pressupostos, em vida ou antes de morrer. Não é “fofoca ideológica”: são trajetórias públicas, com textos, cartas e posicionamentos claros.
EX TEÓLOGOS DA LIBERTAÇÃO AINDA VIVOS (ATÉ ESTA DATA)
-Clodovis Boff (1944 – )
É o caso mais emblemático.Dominicano, cofundador da Teologia da Libertação ao lado do irmão Leonardo. Em 2007, publicou o texto histórico:
“Teologia da Libertação e volta ao fundamento”
Autocrítica central:
-“A TL colocou os pobres no lugar que pertence a Cristo.”
-Reconheceu que a TL subordinou a fé à análise marxista e perdeu o eixo cristológico.
Hoje defende explicitamente:
-Primado da fé sobre a política
-Centralidade de Cristo
-Crítica ao messianismo ideológico
-Nunca renegou os pobres, mas renegou a ideologia.
Clodovis Boff é o padrão-ouro de autocrítica autêntica.
ex teólogos da libertação FALECIDOS (com autocrítica explícita ou clara mudança)
1. Cardeal Alfonso López Trujillo (1935–2008)
Aqui entra como “conversão intelectual” ainda em vida, mas faleceu depois.Colombiano, inicialmente simpático à TL. Tornou-se um de seus principais críticos internos.
Denunciou:
-A infiltração marxista
-A redução da salvação à política
-Como cardeal, teve papel decisivo nas correções feitas por João Paulo II.
2. Gustavo Gutiérrez (1928 – 2024)
Caso ambíguo, mas extremamente relevante. Considerado o “pai” da TL.
Nunca fez uma ruptura explícita, mas:
-Suavizou fortemente o discurso
-Afastou-se do marxismo clássico
-Aceitou correções do Magistério
Nos últimos anos:
-Evitou linguagem revolucionária em suas falas e escritos
-Falava mais de espiritualidade do que de luta de classes
Não é um exemplo pleno, mas mostra "recuo teórico" diante do fracasso histórico do Socialismo Marxista.
3. Joseph Ratzinger antes de tornar-se papa (1927–2022)
Que fique bem claro: Joseph Ratzinger, antes do papado nunca foi teólogo da libertação, mas, como jovem teólogo, tinha simpatias progressistas, incluindo amizade com Leonardo Boff. Após 1968, fez uma das maiores autocríticas intelectuais do século XX.
Como Prefeito da CDF e depois Papa Bento XVI:
-Denunciou a TL marxista como “redução imanentista da fé”
-Escreveu 2 documentos decisivos sobre o tema (1984 e 1986)
Seu pensamento no final de sua vida intelectual, foi a crítica teológica mais sólida à TL.
4. René Padilla (1932–2021)
Ligado à "Teologia da Missão Integral" (campo protestante). Inicialmente muito próximo da lógica libertacionista.
Com o tempo:
-Rejeitou o marxismo
-Reafirmou a centralidade da conversão pessoal
-Importante o destaque desse teólogo, porque mostra que o problema não era só “católico”.
5. Juan Luis Segundo (1925–1996)
Fez uma autocrítica parcial no fim da vida. Jesuíta uruguaio, grande nome da TL.
Nos seus últimos textos:
-Reconheceu limites graves da politização da fé
-Admitiu frustração com os resultados históricos
-Não rompeu formalmente, mas reconheceu o fracasso prático.
CASOS IMPORTANTES DE RUPTURA MORAL (mesmo sem tratado teológico)
Ex-militantes e padres ligados à TL que abandonaram o ministério. (sem virar “celebridades”, mas relevantes). Nesse contexto, muitos padres:
-Deixaram o ministério sacerdotal e se casarm
-Abandonaram comunidades
-Migraram para a política partidária
Esse fenômeno foi reconhecido inclusive por:
-Papa Bento XVI
É uma autocrítica pelo fato, não pelo discurso.
QUEM NÃO FEZ AINDA UMA AUTÊNTICA AUTOCRÍTICA da tl
-Leonardo Boff : Nunca fez autocrítica
Apenas trocou o "marxismo clássico" por uma teologia híbrida e ambígua:
-Ecologismo político
-Indigenismo ideológico
-Globalismo difuso
Muitos nomes da TL que não fizeram a autocrítica, apenas mudaram o vocabulário.Não revisaram os fundamentos. A Teologia da Libertação não está na UTI da história morrendo por perseguição, mas por insuficiência teológica, fracasso histórico e esvaziamento espiritual. Aqueles que tiveram coragem de fazer autocrítica — como Clodovis Boff — não abandonaram os pobres, abandonaram a mentira ideológica. E isso explica por que:
-Os pobres continuam na Igreja, sem sentir falta dessa ideologia e foram buscar esperiências espirituais com Deus nas seitas.
-As CEBs ideológicas envelheceram
-A fé sobreviveu nos porões com aqueles que tinha fome e sede de Deus e sentido para suas vidas, e não apenas de pão material.
-A utopia política, não sustentou a fé, não converteu ninguem, apenas tranformou seus adeptos em militantes fanáticos e revolucionários capazes de pegar em armas e matar em nome da "causa" politica.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
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