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A três fases do Sacramento do Matrimônio: Eros, Philia e Ágape como Fundamentos da Espiritualidade e da Estabilidade Conjugal

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 30 de novembro de 2025 | 14:10

 



A doutrina católica sobre o matrimônio é muito clara e bem definida, ela ensina que ele é um sacramento indissolúvel, expressão da união irrevogável entre Cristo e a Igreja. Em tempos de relativização dos vínculos afetivos e de crescente fragilidade das relações conjugais, torna-se necessário refletir sobre o sentido profundo do compromisso matrimonial e sobre as três dimensões do amor presentes no plano divino: eros, philia e agápe


Situações envolvendo figuras públicas, como a recente separação de Gilmar Mendes e Guiomar — apresentada publicamente sob a justificativa do "cansaço" — trazem à tona a necessidade de esclarecer aos fiéis a visão da Igreja, não para julgar pessoas, mas para iluminar consciências. 


Segundo a fé católica, o matrimônio não é algo que se desfaz por fadiga, mas uma vocação que exige perseverança, graça e maturidade espiritual.




(foto reprodução)


A Indissolubilidade do Sacramento do Matrimônio na Doutrina Católica como aliança irrevogável


O matrimônio, na tradição católica, ultrapassa o entendimento comum de contrato humano ou pacto civil. Cristo elevou a união entre homem e mulher à dignidade de sacramento, conferindo-lhe um estatuto sagrado e irrevogável, que participa da própria fidelidade divina. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica:


“A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão íntima de vida e de amor, foi fundada e dotada de leis próprias pelo Criador […] A união matrimonial é indissolúvel, pois o casamento é imagem da união de Cristo com a Igreja” (CIC, 1601; 1614-1615).



Fundamento cristológico da indissolubilidade


A indissolubilidade não se apoia apenas numa norma moral ou em uma decisão disciplinar da Igreja. Seu fundamento último é cristológico: o matrimônio participa sacramentalmente da união esponsal entre Cristo e a Igreja — união esta que é eterna, fiel e irrevogável. Por isso, ensina Bento XVI na encíclica Deus Caritas Est:


“O amor entre homem e mulher é, de algum modo, inserido no amor de Cristo e recebe dele purificação, elevação e plenitude” (DCE, n. 5).


Assim, a união conjugal não é sustentada somente pelo afeto humano, mas pela graça sacramental, que configura os esposos ao amor de Cristo, capacitando-os a perseverar mesmo nos momentos de crise ou fragilidade.


A lógica do Evangelho: o que Deus uniu, o homem não separe


O ensinamento de Jesus é direto e sem ambiguidade:


“Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe” (Mt 19,6).


Com isso, Cristo restabelece a verdade original do plano divino, anterior ao endurecimento do coração humano. Não se trata de uma “exigência impossível”, mas de uma graça oferecida aos esposos. O matrimônio cristão se torna, assim, um testemunho da fidelidade de Deus, que não abandona a sua Igreja, ainda que esta seja imperfeita e pecadora.



O sacramento como aliança e vocação permanente


O Concílio Vaticano II reafirma que o matrimônio não é apenas instituição natural, mas vocação e caminho de santidade:


“O amor conjugal é assumido pelo amor divino e é fortalecido e enriquecido pela força redentora de Cristo e pela ação salvífica da Igreja” (Gaudium et Spes, 48).


O matrimônio é, pois, “caminho de vida e de salvação”, no qual os cônjuges se ajudam mutuamente a crescer em santidade.


O Código de Direito Canônico também preserva essa realidade ao declarar:


“O matrimônio válido e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder humano, nem por qualquer causa, exceto a morte” (CIC, cân. 1141).


Trata-se de uma afirmação jurídica que expressa uma verdade teológica: aquilo que Deus sela sacramentalmente supera a mera vontade dos cônjuges, porque envolve a própria ação divina.



O testemunho da perseverança conjugal



Perseverar no matrimônio não significa ausência de dificuldades, mas a disposição constante de converter-se e de deixar-se transformar pela graça. Bento XVI recorda que o amor, para ser autêntico, deve amadurecer:


“O eros, inicialmente atração, precisa ser purificado para se transformar em verdadeiro amor, que se torna cuidado e doação” (Deus Caritas Est, n. 7-8).


Assim, a indissolubilidade não é prisão, mas liberdade espiritual: capacidade de amar com profundidade, fidelidade e generosidade, como Cristo amou.



Separações na vida contemporânea



A decisão de casais — famosos ou anônimos — de abandonar a vida conjugal por motivos subjetivos revela não apenas um desgaste humano comum, mas muitas vezes a ausência de uma preparação séria para a vida matrimonial. O Papa Francisco tinha insistido que a Igreja dedica anos à formação de sacerdotes e religiosos, mas apenas algumas semanas aos noivos, quando muito. Essa desproporção gera o que ele chama de “crise da consciência matrimonial”: pessoas que celebram validamente o sacramento, mas não compreendem sua natureza definitiva e indissolúvel.  



O Papa advertiu que “muitos casamentos são nulos porque os nubentes não sabem realmente o que estão dizendo; entram no matrimônio sem maturidade, sem preparação, sem consciência do compromisso para toda a vida”. Por isso, tem pedido com insistência que a Igreja assuma com radicalidade a formação matrimonial como verdadeira vocação, e não como um rito social. 




Assim como não se ordena um sacerdote após poucas palestras, também não se deveria admitir ao matrimônio aqueles que não passaram por um processo formativo profundo, contínuo e acompanhado, que lhes permita discernir se realmente foram chamados a essa missão.  Essa formação deveria se aproximar, guardadas as diferenças, da seriedade dos caminhos vocacionais sacerdotais e religiosos: com acompanhamento, amadurecimento afetivo, oração, discernimento, vida espiritual e compreensão progressiva dos compromissos que se assumem diante de Deus e da Igreja. 



Sem isso, muitos entram no matrimônio com fragilidades estruturais que mais tarde explodem diante das primeiras provações.  Quando faltam maturidade, consciência e preparação, o matrimônio torna-se vulnerável à lógica do descartável e às pressões emocionais da vida contemporânea. 



Nessas circunstâncias, a separação não é apenas uma decisão pessoal, mas o reflexo de uma formação insuficiente, de uma promessa feita sem plena convicção e de uma vocação que não foi devidamente cultivada.  Por isso, diante das separações — inclusive as que envolvem figuras públicas — a Igreja não está preocupada em emitir juízos sobre pessoas, mas em iluminar a verdade: o matrimônio exige preparo equivalente à grandeza da missão que representa. 


Amar para sempre não se improvisa; aprende-se, forma-se, amadurece-se. A vocação matrimonial, quando vivida com essa seriedade, torna-se caminho de santificação, liberdade e plenitude — não peso, mas graça.



OS TRÊS AMORES E AS TRÊS FASES Presentes em Deus e na Vida Conjugal


A tradição cristã, especialmente expressa por Bento XVI em Deus Caritas Est, reconhece três formas de amor presentes em Deus e refletidas na experiência humana.



 1ª)-Amor Eros : A força do desejo inicial






O eros é a dimensão inicial do amor, marcada pela atração, pelo encanto e pela intensidade da paixão que desperta o desejo de união. Trata-se de uma força genuína e profundamente humana, que impulsiona o encontro entre duas pessoas e costuma ser o ponto de partida da maioria das relações conjugais. No entanto, como lembra Bento XVI em Deus Caritas Est, o eros, por si só, é uma energia ambivalente: pode elevar o ser humano, mas também pode degradá-lo se permanecer preso ao mero instinto ou ao hedonismo.  Por isso, o eros precisa ser educado, purificado e orientado pela razão, pela liberdade e, sobretudo, pela graça de Deus. Quando integrado à maturidade afetiva e espiritual, o eros deixa de ser simples impulso e se transforma em expressão de um amor mais profundo, capaz de crescer e se doar.  Ele é legítimo e necessário — sem eros não há impulso inicial para a entrega — mas não é suficiente para manter uma união estável e duradoura. Sozinho, desgasta-se; integrado às dimensões superiores do amor (philia e agápe), torna-se fonte de vitalidade, ternura e comunhão dentro do matrimônio.




2ª)-Amor Fraterno (Philia): A amizade que amadurece




O philia representa o amor-amizade, aquela forma de amor que nasce e se fortalece na convivência diária. Ele se manifesta no respeito mútuo, no diálogo sincero, na parceria constante e na capacidade de caminhar juntos enfrentando desafios e diferenças. Se o eros inicia o encontro, é o philia que dá estabilidade à relação, pois aqui o casal aprende a ver o outro não apenas como objeto de atração, mas como companheiro de jornada, alguém com quem se compartilha a vida, os sonhos, as responsabilidades e as dores.  


Essa fase revela a transição do amor impulsivo para o amor construído, fruto de escolhas cotidianas e de uma decisão consciente de permanecer ao lado do outro. É no philia que se desenvolvem virtudes essenciais para a maturidade conjugal: paciência, tolerância, escuta, perdão e cooperação. Ao aprender a aceitar as diferenças e acolher as limitações do cônjuge, o casal descobre a beleza de uma amizade profunda, que se fortalece no tempo e se torna fundamento sólido para o amor total.  Não é exagero afirmar que muitos casamentos se consolidam ou se perdem exatamente nesta etapa. 


Quando o philia amadurece, a relação se torna mais estável, serena e integrada; quando ele falha — por falta de diálogo, amizade e corresponsabilidade — mesmo o eros mais intenso tende a esfriar. Assim, o philia é o eixo que transforma a paixão inicial em comunhão verdadeira, preparando o casal para a fase mais elevada do amor: o ágape, a doação plena e sacrificial.



Casados e amigos? Sim, e por que não? 



O matrimônio plenamente vivido não se limita ao ardor inicial das paixões, mas integra todas as dimensões do amor humano: amizade, cumplicidade, parceria, entrega e cuidado. Ser amigos dentro do casamento não diminui a força do vínculo; ao contrário, o fortalece, porque cria um espaço onde cada um pode ser verdadeiramente quem é, sem máscaras, acolhido e amado também na simplicidade da convivência diária.


Quando duas pessoas que assumiram o compromisso de uma vida a dois não conseguem simplesmente estar juntas, desfrutando da presença um do outro como bons amigos, sem que o sexo seja o único elo, revelam uma relação ainda imatura, sustentada apenas pelas paixões do eros. Esse tipo de vínculo, por depender exclusivamente da intensidade da libido, corre o risco de interpretar o seu declínio natural como sinal de que “o amor acabou”, quando na verdade o amor apenas está mudando de fase, aprofundando-se e pedindo mais maturidade.


É justamente nesse momento de transição, quando o corpo fala com menos ímpeto, que nasce a verdadeira amizade dentro do matrimônio. A capacidade de conversar longamente, rir das mesmas histórias, enfrentar juntos os medos, dividir as lágrimas, celebrar pequenas vitórias e encontrar consolo na simples presença um do outro é o que sustenta a vida conjugal pela estrada dos anos. Marido e esposa que se tornam amigos descobrem que o amor não morre com o tempo; ele se transforma, se depura e se revela ainda mais fiel, mais real e mais belo.



3ª)-Amor Ágape:  A doação total






O ágape é a expressão mais elevada do amor conjugal segundo a fé cristã. Ele não se apoia apenas nos sentimentos, na reciprocidade ou na intensidade emocional, mas nasce de uma decisão livre, madura e perseverante de amar o outro como Cristo ama. Trata-se do amor que se doa inteiramente, que permanece fiel, que renuncia ao próprio egoísmo e que transforma a vida conjugal em caminho de santificação. 



São Paulo, ao instruir a comunidade cristã, afirma com força que a caridade – o ágape – é o critério supremo da perfeição espiritual, quando diz: “Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade (ágape), que é o vínculo da perfeição.” (Cl 3,14). 



Nesta palavra apostólica encontra-se o coração do matrimônio cristão: o amor total, incondicional e indissolúvel. Se o eros desperta o encantamento inicial e se o philia constrói a amizade e a estabilidade do convívio, é o ágape que dá sentido e plenitude a todo o percurso amoroso. Ele é o momento em que o casal amadurece espiritualmente e aprende que amar não é apenas sentir algo forte, mas querer o bem do outro acima de si mesmo, mesmo quando isso exige sacrifício, renúncia, paciência e cruz. 


O ágape contempla o outro não a partir de suas falhas, limites ou fragilidades, mas como um verdadeiro dom de Deus confiado aos nossos cuidados. Essa disposição interior, moldada pela graça, é o que concede ao matrimônio a força para atravessar o tempo, as diferenças, as provações e os abismos que a vida inevitavelmente apresenta. É um amor que não se condiciona às circunstâncias, mas que se renova na fidelidade, mesmo quando a sensibilidade e o afeto parecem esmorecer. 


O ágape se torna particularmente luminoso nos momentos de maior vulnerabilidade, quando a saúde declina, quando a memória se apaga, quando o cônjuge já não reconhece mais aquele que está ao seu lado — como acontece nas duras noites do Alzheimer — e, ainda assim, aquele que ama permanece firme, porque ele reconhece, ele lembra, ele não abandona.  É quando as forças físicas diminuem, quando é preciso carregar o outro com ternura, paciência e perseverança, quando cada gesto simples se torna um sacrifício oferecido em silêncio, que o amor revela sua verdadeira estatura espiritual. 



Nessa hora, ágape se confunde com serviço, com cruz e com glória; torna-se imagem viva do amor de Cristo, que não desiste, não recua, não calcula. É ali, no limite da fragilidade humana, que o matrimônio alcança sua expressão mais sublime e mais santa: duas vidas que se ofertam mutuamente até o fim, unidas por aquele vínculo perfeito de que fala a Escritura (conforme Cl 3,14). 



Amar nesse nível significa continuar servindo mesmo quando a paixão arrefece e quando a amizade é testada. Significa permanecer fiel mesmo quando o sentimento humano não oferece mais a mesma sustentação emocional do início. É o amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (cf. 1Cor 13,7), e que se torna ícone vivo do amor de Cristo que “amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Num mundo marcado por vínculos frágeis, relações descartáveis e pela incapacidade de sustentar compromissos definitivos, o ágape se eleva como um gesto profundamente contracultural, um verdadeiro testemunho profético. 



Casais que permanecem juntos até o fim — enfrentando a velhice, a doença, o desgaste emocional, a rotina e os sacrifícios silenciosos — tornam-se sinais vivos de que o amor não é apenas emoção, mas vocação e missão. Eles mostram que a união matrimonial não é prisão, mas caminho de libertação interior, primeiro porque liberta do egoísmo e, depois, porque permite experimentar o amor na sua forma mais pura e mais humana. 



O ágape não anula as outras dimensões do amor; ao contrário, ele as integra e as eleva. Ele dá ao eros profundidade e transcendência, impedindo que a paixão se reduza a mero prazer. Dá ao philia solidez e perseverança, impedindo que a amizade conjugal se fragilize diante das tensões e desafios cotidianos. No ágape, eros e philia encontram seu significado pleno: a atração inicial e a amizade duradoura se tornam sustentáculo de um amor que tem a marca da eternidade. Assim, o ágape é a forma mais alta e madura do amor matrimonial, não porque elimina o sofrimento, mas porque o transfigura; não porque evita os desafios, mas porque lhes dá sentido; não porque faz o casamento perfeito, mas porque o torna santo. 



A caridade conjugal, quando vivida nesta dimensão, faz da vida a dois um verdadeiro sacramento — sinal vivo do amor indestrutível de Deus, vínculo da perfeição que une, cura e salva.



A Ruptura Matrimonial Antes da Maturidade do Amor


Muitos casais, diante das dificuldades do cotidiano, acabam interrompendo sua caminhada justamente quando se aproximam da fase mais profunda e mais santa: a do amor ágape. A cultura do descarte, apontada reiteradamente pelo Papa Francisco, contribui para a visão de relacionamentos como vínculos temporários. Quando figuras públicas optam por “continuar amigas” mas dissolver o vínculo sacramental, gera-se confusão entre os fiéis, exigindo que a Igreja ofereça esclarecimento doutrinário sem juízo moral sobre pessoas concretas.



O princípio paulino


São Paulo trata desse princípio no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios, ao orientar casamentos mistosquando apenas um dos cônjuges é cristão. Ele estabelece o chamado “princípio paulino”, isto é, a possibilidade de separação quando a parte não cristã rompe a convivência por rejeitar a fé. A passagem é 1 Coríntios 7,12-15, especialmente o versículo 15:


“Mas, se o não crente quiser separar-se, que se separe. Nestes casos, o irmão ou a irmã não ficam ligados; pois Deus nos chamou à paz.” (1Cor 7,15)



São Paulo escreve a uma comunidade onde muitos se converteram ao cristianismo depois do casamento. Isso gerou tensões reais: um cônjuge batizado desejava viver plenamente a fé, enquanto o outro, permanecendo pagão, não aceitava essa transformação espiritual. Paulo, então, afirma primeiro que o cristão não deve abandonar o cônjuge não crente, se este aceita conviver em paz (1Cor 7,12-14). A presença do cristão torna o lar um espaço de santificação.Contudo, Paulo reconhece que a fé pode gerar rejeição, hostilidade ou ruptura por parte do cônjuge não cristão. Nesse caso, ele esclarece:


-Não é a parte Cristã quem abandona ou toma a iniciativa.


-Não há culpa moral no irmão ou irmã que permanece na fé, mesmo tendo sido abandonado (a).


-A ruptura do laço matrimonial não destrói o vínculo espiritual do cristão com Cristo, que permanece prioridade.


-O cristão “não fica ligado” — isto é, não está obrigado a manter uma convivência impossível com alguem que não professa a fé Cristã, ou contrária à paz.


-O objetivo desse princípio é proteger a fé do convertido e impedir que ele viva em permanente conflito dentro do próprio lar que possa por em risco sua salvação.


Paulo conclui com uma frase teologicamente decisiva:


“Deus nos chamou à paz!”


Ou seja, quando a convivência se torna impossível devido à rejeição e exigências da fé Cristã, a Igreja reconhece, com base em Paulo, que pode haver dissolução do vínculo natural, em favor da fé do cristão.



Conclusão



Se duas pessoas — ou mesmo apenas uma delas — entram no matrimônio acreditando que ele será uma eterna lua de mel, alimentando a ilusão de que o amor permanecerá para sempre na fase do eros, essa relação já começa fragilizada e fadada ao fracasso. O casamento não é um prolongamento infinito das paixões iniciais, mas um caminho de amadurecimento, onde o entusiasmo da juventude se transforma em companheirismo, dedicação e responsabilidade mútua. 



Quando alguém se fixa apenas no eros, coloca sobre o outro um peso impossível de sustentar, exigindo que o tempo não passe, que o corpo não mude, que a vida não traga desafios, como se o amor fosse um sentimento juvenil congelado no tempo.  Com a chegada das tribulações e dificuldade naturais de uma relação a dois, e das inevitáveis consequências da idade avançada, essa visão limitada do matrimônio logo se revela insustentável. O corpo já não responde com a mesma força, a saúde oscila, as preocupações aumentam e as demandas da vida real se impõem. Se o casal — ou um dos cônjuges — não tiver alcançado a maturidade necessária para compreender que o amor evolui, vão começar a cobrar de si e do outro aquilo que já não podem oferecer fisicamente, criando frustrações, mágoas e cobranças injustas. Muitos confundem essa fase com “falta de amor”, quando na verdade é justamente aí que o amor mais profundo está pronto para surgir.  O matrimônio só floresce plenamente quando os esposos entendem que o eros é apenas a porta de entrada para algo maior. Amar também é aceitar a passagem do tempo, cuidar na doença, apoiar nos dias difíceis, rir apesar das rugas e encontrar beleza na fidelidade que permanece quando o corpo já não acompanha o ritmo das paixões. Quem consegue caminhar além do eros descobre o amor fraterno e, por fim, o amor ágape — aquele que não depende do vigor físico, mas da decisão de amar com a alma inteira. É esse amor que sustenta o matrimônio até o fim da vida.



Mas, o que se deve destacar aqui também. é que assim como o chamado sacerdotal não se abandona por mera fadiga ou por oscilações emocionais, também o matrimônio, enquanto vocação sacramental, exige perseverança, discernimento espiritual, oração constante e abertura sincera à ação transformadora de Deus. 




A Igreja compreende que a vida conjugal passa por períodos de provação e momentos de desânimo, mas vê nessas etapas não um motivo de ruptura, e sim uma oportunidade de amadurecimento na fé e no amor. O matrimônio cristão é chamado a refletir o amor de Cristo por sua Igreja, que não desiste,  — um amor que integra em si as três dimensões fundamentais do amor humano e divino: o amor apaixonado (eros), que impulsiona e atrai; o amor amigo (philia), que edifica e sustenta; e o amor sacrificial (agápe), que se entrega e permanece. A harmonia desses três amores constitui a plenitude da vocação matrimonial, e cada fase representa um avanço na maturidade espiritual dos esposos. 



Quando casais interrompem sua caminhada por fadiga emocional ou por dificuldades passageiras, perdem a oportunidade de alcançar o estágio mais sublime e fecundo do amor conjugal: aquele em que o eros é purificado, a philia se aprofunda e o agápe floresce como expressão de caridade, fidelidade e serviço mútuo. É justamente nesse ponto, tantas vezes próximo da maturidade final do amor, que muitos desistem — privando-se da experiência mais plena e mais santa da vida a dois. 



A Igreja, ao se deparar com situações de afastamento ou ruptura, não se coloca como juíza de consciências, mas como mãe e mestra que ilumina, orienta e chama à verdade. Ela recorda aos fiéis que o amor conjugal é uma vocação que exige paciência, diálogo, perdão e esforço contínuo para reencontrar-se no amor primeiro — agora purificado e fortalecido pela graça. Cada fase do amor tem sua beleza e importância, mas somente a perseverança permite que o matrimônio realize sua vocação mais profunda: a de ser caminho de santificação e de transformação interior. 



Longe de ser um peso ou uma prisão, o matrimônio cristão se revela como espaço privilegiado de liberdade verdadeira, pois a liberdade, à luz do Evangelho, não se confunde com autonomia individual, mas encontra sua plenitude na doação generosa de si ao outro. Em última análise, permanecer fiel no matrimônio é participar do próprio mistério de Cristo, que amou até o fim (cf. Jo 13,1) e cuja fidelidade jamais desfalece. Amar assim — apaixonadamente, fraternalmente e sacrificialmente — é o destino mais elevado da vocação matrimonial e a maior expressão da liberdade cristã: entregar-se por inteiro àquele a quem se prometeu amar todos os dias da vida. 



Referências 



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-CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Vaticano: LEV, 1965.


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-IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2013.


-FRANCISCO, Papa. Amoris Laetitia. Vaticano: LEV, 2016.


-ALMEIDA, João Carlos. O matrimônio como vocação. São Paulo: Paulus, 2010.


-BRUSTOLIN, Leomar Antônio. Teologia do Amor Cristão. Petrópolis: Vozes, 2012.


-CARRARA, Adroaldo. O sentido cristão da fidelidade conjugal. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014.


-FERNANDES, Pe. Paulo Ricardo. Amor, casamento e família. Cuiabá: Christo Nihil Praeponere, 2018.


-LIMA, Cláudio de Moura. A espiritualidade no matrimônio. São Paulo: Paulinas, 2011.


-LUIZ, Maria Helena. Afetividade e vida conjugal. Belo Horizonte: Santuário, 2015.


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-PEREIRA, Luiz Fernando. Família e espiritualidade cristã. Aparecida: Santuário, 2017.


-PIRES, António José. A maturidade do amor cristão. Lisboa: Paulinas, 2014.


-RIBEIRO, Maria Clara Bingemer. Deus amor: reflexões teológicas. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2009.


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-XAVIER, Maria Ângela. O amor que permanece. Porto: Paulinas, 2020., 2020.




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