Uma falsa oposição linguística, bíblica e teológica: “Católico reza, protestante ora.”
por*Francisco
José Barros de Araújo
Essa frase é repetida com tanta naturalidade no Brasil que já se tornou quase um “senso comum religioso”: “católicos rezam, protestantes oram”. Ao ser dita, raramente é questionada; ao contrário, costuma ser aceita como uma distinção óbvia, quase autoevidente. No entanto, por trás dessa aparente simplicidade esconde-se uma falsa oposição carregada de pressupostos teológicos, linguísticos e históricos equivocados.
Com essa afirmação, sugere-se — de modo implícito, mas eficaz — que o católico não possuiria uma verdadeira relação pessoal com Deus, limitando-se a fórmulas mecânicas, repetições vazias e ritos exteriores, enquanto o protestante deteria o monopólio da oração autêntica, espontânea, interior e verdadeiramente espiritual.
Trata-se de uma caricatura injusta, que não apenas distorce a fé católica, mas empobrece a própria compreensão cristã da oração. Essa oposição, porém, não nasce da Sagrada Escritura, não se sustenta na história da Igreja e tampouco encontra respaldo na língua portuguesa. Ela é uma construção relativamente moderna, fruto de disputas confessionais, de um uso impreciso da linguagem e de simplificações apologéticas que, em vez de esclarecer, confundem. O mais grave é que essa falsa dicotomia acabou sendo absorvida por muitos católicos, que passaram a repeti-la — consciente ou inconscientemente — contra a própria fé, como se fosse uma verdade incontestável. O resultado é uma visão empobrecida da oração cristã, na qual se opõe artificialmente interioridade e forma, espontaneidade e tradição, coração e linguagem, como se fossem realidades inconciliáveis. Tal oposição ignora séculos de espiritualidade, a experiência dos santos, a prática litúrgica da Igreja e o ensinamento constante do Magistério. Neste texto, demonstraremos, com base na língua portuguesa, na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja e no Catecismo da Igreja Católica, que “rezar” e “orar” são expressões legítimas do mesmo ato espiritual: o movimento da alma que se eleva a Deus, O escuta e com Ele dialoga. Mais do que isso, veremos que a riqueza da oração católica reside justamente na harmonia entre interioridade e expressão, entre palavra recebida e palavra oferecida, entre silêncio, fórmula e vida.
1. O problema linguístico: “rezar” e “orar” dizem a mesma coisa
Em português, rezar e orar são sinônimos. A diferença entre eles não é teológica, mas de registro linguístico. Orar é um termo mais clássico e formal. Rezar é um termo mais popular e cotidiano.
Assim como “vermelho” e “encarnado”, ambos exprimem a mesma realidade. O conteúdo é idêntico: elevar a mente e o coração a Deus para adorá-lo, agradecer-lhe e suplicar-lhe.
Etimologia não cria oposição
-Orar vem do latim orare: falar, suplicar, pleitear, pronunciar uma fórmula ritual.
-Rezar vem do latim recitare: dizer em voz alta, proclamar, enunciar.
Já no próprio latim, esses verbos tinham sentidos muito próximos. Com o uso e a influência do latim cristão, orare especializou-se no sentido religioso de rezar, enquanto recitare nunca teve sentido profano quando aplicado à oração. Criar uma oposição rígida entre essas palavras é artificial e ideológico, não linguístico, é criar um problema onde ele não existe.
2. A Bíblia não conhece essa distinção
Os Evangelhos foram escritos em grego koiné. O verbo usado para oração é sempre:
προσεύχομαι (proseúchomai)
Esse verbo designa:
-oração longa;
-oração repetida;
Um exemplo decisivo dessa unidade entre forma, repetição e interioridade encontra-se no próprio Cristo, no momento mais dramático de sua vida terrena: a oração no Getsêmani. O Evangelho relata que Jesus, tomado de angústia, afastou-se dos discípulos e orou dizendo: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua” (cf. Mt 26,39). Em seguida, o texto sagrado acrescenta algo revelador: Jesus voltou e repetiu a mesma oração por três vezes (cf. Mt 26,42.44).
Ora, se a repetição de palavras anulasse a autenticidade da oração, então seria necessário afirmar — o que é absurdo e blasfemo — que Cristo não orou verdadeiramente no Getsêmani, mas apenas “recitou fórmulas”. O próprio Evangelho, porém, não apenas não critica essa repetição, como a apresenta como expressão legítima e intensa da oração filial do Filho ao Pai.
A repetição, longe de esvaziar o sentido da oração, manifesta a profundidade da súplica, a perseverança da fé e a entrega confiante à vontade divina. Esse episódio desmantela completamente a falsa oposição entre oração “espontânea” e oração “formulada”. Jesus não improvisa palavras diferentes a cada momento para provar sua sinceridade; Ele persevera na mesma súplica, porque a verdade do coração não muda.
A repetição não é sinal de automatismo, mas de fidelidade. Não é ausência de espírito, mas insistência amorosa. Além disso, o texto bíblico não estabelece qualquer distinção conceitual entre “orar” e “rezar”, nem opõe interioridade e forma, nem contrapõe espontaneidade e repetição. Essa dicotomia simplesmente não existe nas Escrituras. O que existe é a oração como relação viva com Deus, expressa por palavras que podem ser novas ou repetidas, pessoais ou herdadas, silenciosas ou proclamadas.
A própria Sagrada Escritura está repleta de orações repetitivas e formuladas:
-Os Salmos, rezados diariamente por Israel e pela Igreja;
-As aclamações litúrgicas;
-As bênçãos dos patriarcas; e até as palavras ensinadas pelo próprio Cristo no Pai-Nosso.
Se repetir palavras fosse sinal de falta de autenticidade espiritual, a Bíblia precisaria ser lida como um manual de “como não orar” — o que é evidentemente impossível.
Portanto, o argumento segundo o qual “rezar é repetir fórmulas, enquanto orar é falar espontaneamente” não resiste ao menor exame bíblico. Cristo rezou — e rezou repetindo.
Logo, repetir não invalida a oração; ao contrário, pode ser sua forma mais intensa. A Escritura não conhece essa oposição moderna; ela conhece apenas a oração verdadeira: aquela que brota da fé e se abandona confiantemente à vontade do Pai.
3. A Vulgata e a Igreja antiga: só “orar”
Quando São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim (Vulgata), utilizou quase exclusivamente o verbo orare.
Exemplo clássico:
-Sic ergo vos orabitis (Mt 6,9)
-“Portanto, assim orareis…”
O Pai-Nosso, embora seja uma oração fixa, ensinada palavra por palavra, é chamado de oratio. Jamais aparece como algo mecânico ou inferior. Isso prova que a Igreja antiga nunca opôs forma e interioridade. Para ela, a oração vocal era perfeitamente compatível com a oração do coração.
4. Por que alguns protestantes insistem nessa diferença?
Essa distinção artificial costuma ser enfatizada por dois motivos principais:
a) Um marcador identitário - O uso exclusivo da palavra orar funciona como uma senha sociológica. Ao evitarem rezar, muitos protestantes se identificam publicamente como “evangélicos”, distinguindo-se dos católicos. Trata-se de um recurso comum a grupos com forte desejo de expansão e diferenciação.
b) Uma visão empobrecida da oração - Em muitos ambientes protestantes, a oração é reduzida quase exclusivamente à petição espontânea, enquanto:
-a oração litúrgica,
-a oração repetida,
-a oração dos Salmos, são vistas com desconfiança ou esvaziadas de sentido.
Já a tradição católica entende oração como todo o movimento da alma em direção a Deus: louvor, adoração, ação de graças, súplica, silêncio, contemplação.
5. A oração é para mudar Deus ou para nos mudar?
Aqui está uma questão essencial: a oração não existe para obrigar Deus a obedecer ao homem, mas para conformar o homem à vontade de Deus.
Jesus não ensinou a “falar qualquer coisa”. Ele ensinou uma fórmula objetiva, dizendo claramente:
“Quando orardes, dizei assim…” (Mt 6,9)
Cristo ensinou o que pedir, em que ordem e com que espírito. Isso mostra que as fórmulas não são inimigas da interioridade; são escolas de oração.
6. A crítica protestante às repetições é bíblicamente infundada
O texto mais citado é Mateus 6,7: “Não multipliqueis as palavras como os pagãos…”
O problema ali não é a repetição, mas a loquacidade vazia, a ideia de que Deus é convencido pela quantidade de palavras.
O próprio Jesus:
-repetiu a mesma oração no Getsêmani;
-ensinou a insistência a seus seguidores (Lc 11,5-8);
-rezou os Salmos, cheios de refrões repetidos.
A Bíblia está repleta de repetições:
-Salmo 136: “porque é eterno o seu amor”;
-Daniel 3,57-88: o louvor das criaturas;
-Apocalipse 4,8: “Santo, Santo, Santo”.
Logo, a repetição em si nunca foi condenada pela Sagrada Escritura. O que a Palavra de Deus reprova não é a forma, nem a repetição, nem o uso de palavras tradicionais, mas a dissociação entre os lábios e o coração. O problema não está em rezar muito, mas em rezar mal; não está na quantidade ou na repetição das palavras, mas na ausência de fé, atenção e conversão interior.
O próprio Jesus deixa isso claro ao citar o profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8; cf. Is 29,13). Observe-se que Cristo não condena o fato de o povo louvar a Deus com os lábios — louvar com palavras é algo legítimo e necessário —, mas denuncia a hipocrisia de uma prática religiosa exterior desconectada do coração. A crítica não recai sobre a linguagem, mas sobre a incoerência interior. Se a repetição de palavras fosse, por si mesma, um vício espiritual, então o próprio culto bíblico estaria comprometido. Os Salmos, por exemplo, são marcados por refrões, paralelismos e repetições constantes; o Salmo 136 repete vinte e seis vezes a mesma aclamação: “porque eterno é o seu amor”.
Longe de ser censurada, essa repetição é apresentada como louvor solene e perfeitamente legítimo. A repetição, nesse contexto, não empobrece a oração; ela educa o coração, fixa a verdade e sustenta a memória da fé.
O mesmo vale para a oração litúrgica da Igreja, que herdou da Escritura essa pedagogia espiritual. A repetição não busca informar Deus — que tudo sabe —, mas formar o orante, moldar sua alma, disciplinar sua atenção e conduzi-lo à perseverança. Repetir é um modo humano e profundamente bíblico de amar, pedir e confiar.
Portanto, quando Jesus adverte contra uma religiosidade vazia, Ele não opõe repetição e autenticidade, mas exterioridade sem interioridade. O que é condenado não é rezar nem orar com palavras conhecidas, mas fazê-lo sem fé, sem atenção e sem conversão. Em suma, não é a boca que invalida a oração, é o coração ausente. A verdadeira oração — repetida ou não, formulada ou espontânea — exige sempre aquilo que Cristo pede: um coração presente diante de Deus.
7. A tradição dos santos confirma: rezar é orar!
Os santos nunca fizeram essa distinção:
-“Ora et labora.” — São Bento
-“Sabe viver bem quem sabe rezar bem.” — Santo Afonso
-“A oração consiste em tratar a Deus como amigo.” — Santa Teresinha
Se essa oposição fosse verdadeira, teríamos dois mil anos de santos profundamente equivocados, o que é absurdo.
8. O Catecismo não distingue, integra
O Catecismo usa livremente os dois termos:
-“A oração é a elevação da alma a Deus…” (CIC 2559)
-“Os Salmos alimentam e exprimem a oração… Rezados na Igreja…” (CIC 2586)
A Igreja ora rezando e reza orando — sem contradição alguma.
Conclusão
A oposição simplista segundo a qual “o católico reza e o protestante ora” revela-se, à luz da razão e da fé, uma falsa dicotomia. Ela não encontra fundamento sólido nem na Sagrada Escritura, nem na história da Igreja, nem mesmo na língua portuguesa.
Trata-se de uma "construção moderna, nascido do enfraquecimento da memória cristã, do empobrecimento do vocabulário religioso e das disputas confessionais que substituíram o estudo sério por slogans fáceis. Reduzir o verbo rezar a uma prática mecânica, vazia de interioridade, é desconhecer a espiritualidade dos santos, a liturgia da Igreja e a própria experiência cristã ao longo dos séculos.
Do mesmo modo, opor o verbo orar à forma, à tradição e à palavra recebida é ignorar que a fé cristã nunca foi uma experiência puramente subjetiva, desligada da linguagem, da comunidade e da história.
Rezar não é falar sem coração. Orar não é falar sem forma. Toda oração autêntica nasce da fé, é sustentada pela graça e se expressa pela palavra — seja ela espontânea ou formulada —, culminando na entrega confiante da alma a Deus. A palavra não sufoca a interioridade; ao contrário, encarna-a, dá-lhe corpo, direção e verdade. A forma não apaga o Espírito; ela O serve, educa o coração e o protege tanto do sentimentalismo desordenado quanto do individualismo subjetivista. Onde não há forma, a interioridade facilmente se dissolve; onde não há palavra recebida, a oração corre o risco de se tornar apenas um monólogo emocional. Por isso, a tradição bimilenar da Igreja está longe de ser um peso morto ou um formalismo estéril. Ela é, na realidade, uma escola viva de oração, na qual gerações de fiéis aprenderam — e ainda aprendem — a falar com Deus com as palavras da própria Igreja: as palavras da Sagrada Escritura, dos Salmos, da liturgia e dos santos. Essas palavras não substituem o coração; elas o formam, o purificam e o conduzem progressivamente a uma oração mais profunda, mais verdadeira e, muitas vezes, até silenciosa.
A oração amadurecida, de fato, pode tornar-se silenciosa, mas nunca vazia; recolhida, mas jamais isolada; íntima, mas sem exibição. É exatamente isso que Cristo ensina na parábola do fariseu e do publicano. Enquanto o fariseu multiplica palavras diante dos homens, o publicano, de pé ao fundo do templo, batia no peito e repetia humildemente: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador” (cf. Lc 18,13). O Evangelho não diz que ele “falou pouco demais” nem que “apenas repetiu uma fórmula”; diz, ao contrário, que foi este quem voltou justificado.
Seria absurdo concluir que o publicano não orou de verdade porque repetiu as mesmas palavras. Sua repetição não foi vã, mas penitente; não foi mecânica, mas cheia de contrição. Ela brotou de um coração verdadeiramente presente diante de Deus.
O critério de autenticidade da oração, portanto, não é a originalidade das palavras, mas a humildade do coração. Assim, a verdadeira oração cristã não opõe palavra e silêncio, forma e interioridade, tradição e vida espiritual. Ela integra tudo isso numa mesma dinâmica de fé, até que as palavras — repetidas ou não — conduzam a alma a um encontro real, humilde e transformador com Deus.
Buscar essa sabedoria acumulada ao longo dos séculos é o melhor antídoto contra falsas oposições, reducionismos e caricaturas da fé. O cristianismo não se sustenta em slogans nem em disputas terminológicas, mas na verdade revelada, vivida e transmitida. E essa verdade nos ensina que rezar e orar são, em essência, o mesmo ato: a alma que se eleva a Deus em humildade, fé e amor.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
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-GONZÁLEZ, Justo L. História do Cristianismo. São Paulo: Vida Nova, 2011.
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-KELLY, J. N. D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1994.
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Excelente!
A oração amadurecida, de fato, pode tornar-se silenciosa, mas nunca vazia; recolhida, mas jamais isolada; íntima, mas sem exibição. É exatamente isso que Cristo ensina na parábola do fariseu e do publicano. Enquanto o fariseu multiplica palavras diante dos homens, o publicano, de pé ao fundo do templo, batia no peito e repetia humildemente: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador” (cf. Lc 18,13). O Evangelho não diz que ele “falou pouco demais” nem que “apenas repetiu uma fórmula”; diz, ao contrário, que foi este quem voltou justificado.
Seria absurdo concluir que o publicano não orou de verdade porque repetiu as mesmas palavras. Sua repetição não foi vã, mas penitente; não foi mecânica, mas cheia de contrição. Ela brotou de um coração verdadeiramente presente diante de Deus.
Maria José - MG
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