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Arte e filosofia em tela: Joseph Désiré Court e o "grande dilúvio", obra que ensina sobre o presente, passado e futuro

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 26 de março de 2023 | 19:43

 

(Pintura Grande Dilúvio de Joseph Désiré Court - 1826)


Grande dilúvio pintura de Joseph Désiré Court: o "presente tenta salvar primeiramente o passado" por que?


por *Francisco José Barros Araújo



A pintura “O Grande Dilúvio” de Joseph Désiré Court, realizada em 1826, é mais do que uma representação artística do episódio bíblico do dilúvio de Noé: ela nos convida a refletir sobre a relação entre passado, presente e futuro. Exibida pela primeira vez no Salão de Paris em 1827 e adquirida pelo Estado francês, a obra simboliza não apenas a devastação e o medo diante da força da natureza, mas também escolhas humanas essenciais: a quem salvar primeiro, o que priorizar e como agir diante da catástrofe.





Ao observarmos a cena, percebemos a dramaticidade do momento: um homem, representando o presente, estende a mão para salvar o velho — o passado — enquanto ignora provisoriamente o bebê e a mulher, que representam o futuro e a vida em seu florescer. Este gesto provoca uma reflexão profunda: por que o presente tende a resgatar o passado antes de proteger o futuro? A pintura nos oferece uma alegoria da vida, da memória e da experiência humana, mostrando que compreender e preservar o que veio antes é essencial para dar segurança ao que virá. Além da carga simbólica, o contexto histórico da obra também é relevante. 



Criada durante a Restauração Bourbon na França, a pintura foi exibida no Salão em presença do rei Carlos X, que influenciava a seleção das obras, reforçando a ideia de que a arte é também um reflexo das estruturas de poder e das decisões que moldam a história. Assim, o “Grande Dilúvio” não é apenas uma cena bíblica, mas uma meditação sobre memória, responsabilidade e ação humana diante do tempo.







1. Os elementos simbólicos da pintura



-A mãe: Representa a vida, a geração e a subsistência. Apesar do caos, ela mantém o bebê seguro, simbolizando a continuidade da vida.


-O bebê: Representa o futuro, nascente e incerto, mas já amparado pelo cuidado materno.


-O velho: Representa o passado e a sabedoria acumulada pela experiência. Ele depende do presente para sobreviver.


-O homem salvador: Representa o presente, o momento em que agimos, fazendo escolhas sobre quem e o que priorizar em meio às dificuldades.


A escolha do presente de salvar o passado antes do futuro simboliza que a experiência acumulada é a base da sobrevivência e da construção do amanhã. A mãe e o bebê estão protegidos minimamente, permitindo que o presente concentre-se em resgatar a sabedoria e a história.








2. O presente tentando salvar o passado



A pintura sugere que, para compreender plenamente o presente e construir o futuro, é necessário primeiro reconhecer, compreender e preservar o passado. O passado contém lições, memórias e experiências que, se perdidas, podem comprometer o aprendizado e a continuidade da vida.


Como diz Jesus em Mateus 7,24-27, o fundamento sólido é essencial: assim como a casa construída sobre a rocha resiste à tempestade, a vida que preserva a experiência do passado pode enfrentar os desafios futuros com segurança. Ignorar a memória histórica ou a sabedoria acumulada é edificar sobre a areia, condenando-nos a quedas inevitáveis.







3. A rememoração e a justiça histórica



A reflexão filosófica de Walter Benjamin reforça essa ideia: a rememoração nos permite experimentar a história de maneira teológica e humana, reconhecendo os fragmentos, as injustiças e o inacabado. O passado não é apagado, nem idealizado; ele é analisado para que possamos agir melhor no presente:


-Rememoração: Tentar salvar e compreender o que ficou incompleto ou sofreu injustiça.


-Redenção do passado: Permite transformar experiências passadas em lições e fundamentos para o futuro.


-Justiça histórica: Ao reconhecer os erros e acertos do passado, prevenimos repetições e promovemos escolhas conscientes.


Essa abordagem nos lembra que olhar para o passado é um ato de responsabilidade ética, social e existencial.



4. Aplicações para a vida individual e social




No plano individual, compreender nossas experiências anteriores nos ajuda a não repetir erros, a valorizar aprendizados e a fortalecer relacionamentos e escolhas.







No plano social, o estudo histórico permite identificar sistemas que funcionaram (como sociedades republicanas e democráticas) e evitar os que fracassaram (ditaduras e totalitarismos), preservando valores essenciais como liberdade, justiça e moralidade. 



A frase “Se a humanidade deu grandes passos, é porque estava nos ombros de gigantes do passado” resume essa ideia: o passado nos fornece estabilidade, perspectiva e segurança para avançar.



Conclusão 



O “Grande Dilúvio” de Joseph Désiré Court, mais do que uma representação artística de um episódio bíblico, nos oferece uma profunda lição sobre o tempo, a memória e a ação humana. 



Ao observarmos o homem que representa o presente estendendo a mão para salvar o velho — o passado — percebemos que a preservação da experiência acumulada é fundamental para que possamos compreender plenamente o presente e construir o futuro com segurança. 



Salvar o passado não significa ignorar o futuro ou a vida que se renova, mas assegurar que a sabedoria, os aprendizados e a história continuem sendo uma base firme sobre a qual se erguem nossas escolhas. Estudar o passado tem tudo a ver com a nossa vida. Não é possível entender “de onde viemos” se não olharmos para trás, porque são os eventos do passado que nos levaram ao que somos hoje. Cada revelação histórica ou pessoal afasta um pouco a névoa do caminho, permitindo enxergar melhor nossos objetivos e agir com discernimento. Olhar para o passado de forma coerente e positiva — sem suprimir suas verdades dolorosas ou negar suas falhas — é acender uma lanterna no escuro: é ouvir a voz da sabedoria que nos guia.



 




Essa reflexão não se limita à vida individual; ela se estende à vida social e coletiva. Conhecer a história permite entender como as sociedades evoluíram, quais modelos funcionaram — como sistemas republicanos, democracias e economias de livre mercado — e quais fracassaram — ditaduras, totalitarismos, censuras ou regimes que interromperam liberdades fundamentais. 



Além disso, estudar o passado ajuda a discernir entre valores morais e culturais que trouxeram benefícios, como a milenar tradição judaico-cristã, e aqueles que causaram danos, como práticas hedonistas, supersticiosas ou ateias materialistas onde os fins justificam os meios.



É na compreensão e rememoração do passado que encontramos a possibilidade de evitar repetir erros antigos, de integrar aprendizado à ação presente e de nutrir um futuro mais sólido. Assim como na pintura de Court, o presente atua como ponte entre o passado e o futuro: resgatando a experiência acumulada, fortalecendo a vida que se renova e preparando o terreno para o que ainda vai vir.


Não podemos permitir que os fatos negativos do passado venha impor o que seremos, mas que, sem negá-lo, ele seja apenas parte daquilo que de melhor venhamos a ser. Olhar para trás não é permanecer preso à história, mas utilizar suas lições como alicerce para viver melhor hoje e construir um amanhã mais consciente. 



Cada ato de memória, cada aprendizado preservado, é um gesto de justiça e prudência. Estudar o passado é, portanto, uma necessidade ética, prática e existencial: é reconhecer que somos, de fato, o resultado de tudo aquilo que veio antes, mas também que podemos escolher conscientemente o que levar adiante. Dessa forma, é possível transformar o inacabado, o fragmentado e o injusto do passado em um presente mais sólido e um futuro mais seguro, lembrando sempre que “Jesus sempre serve o melhor vinho no final”: o que importa é a plenitude da vida construída sobre a rocha da experiência, da sabedoria e da rememoração.




*Francisco José Barros Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17




BIBLIOGRAFIA



-GAGNEBIN, J. M, Walter Benjamin – Esquecer o passado? In: Walter Benjamin. Experiência histórica e imagens dialéticas. São Paulo: UNESP, 2015.

 

-SZONDI, P. Speranza nel passato. Su Walter Benjamin. In: Aut Aut, n. 189-190 - 1982.

 

- BENJAMIN, W. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política – Obras escolhidas; v. 1. São Paulo: Brasiliense, 1987.

 

- BONOLA, G. Redenzione del passato. Su origine e senso delle metafore di salvezza nelle tesi «Sul concetto di storia» di W. Benjamin. In: Discipline filosofiche, v. 4 n.  1994.



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Anônimo
6 de junho de 2023 às 10:00

Perfeito!!! "Estudar o passado tem tudo a ver com a nossa vida. Não é possível entender “de onde viemos” se não olharmos para trás. São os eventos do passado que determinam o que somos hoje. A cada mistério revelado, afastamos um pouco a névoa do nosso caminho e assim podemos enxergar direito os nossos objetivos. Olhar para o passado de forma coerente e positiva, sem suprimir sua realidade negativa, é acender uma lanterna no escuro: é ouvir a voz da sabedoria. Estudar o passado é importante tanto para a vida individual quanto para a vida social. Dessa forma é possível entender como o passado influencia o presente, o porquê das coisas serem como são, e quais são os melhores modelos de vida social já testados e aprovados na história humana e da sociedade (republicano com as liberdades democráticas, e o livre mercado) bem como aqueles que nunca deram certo (ditaduras, totalitarismos Comunistas, censuras e interrupções das liberdades democráticas), além de muitas outras realidades de caráter moral que trouxeram benéficos (a milenar cultura judaico-cristã) e malefícios (o paganismo inescrupuloso, o politeísmo, o hedonismo, a superstição, o ateísmo materialista onde os fins justificam os meios, etc). Precisamos conhecer o passado para compreender melhor o presente e planejar o futuro, evitando erros já cometidos de outrora. Se a humanidade deu grandes passos e viu mais longe, é por que estava no ombro de gigantes do passado!"

Anônimo
2 de maio de 2024 às 12:07

Isso foi libertador para mim!

"Mas, não permita que seu passado venha impor quem você é no presente, mas, que ele se torne apenas, parte daquilo que você virá a ser! Lembrando que: Jesus sempre serve o melhor vinho no final..."

Marlúcia Santiago - SP

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