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Ariano Suassuna à Folha de São Paulo: “Nunca fui Comunista”

Written By Beraká - o blog da família on segunda-feira, 30 de novembro de 2020 | 12:49

 


  

Comentários do Blog Berakash: Ariano Suassuna nunca foi comunista. Era tão-somente um democrata que por amizade com Miguel Arraes, líder dos socialistas, foi homenageado com a presidência de honra do Partido Socialista Brasileiro-PSB. Suassuna deixou claro sua posição político ideológica em artigo que escreveu em 10 de novembro de 1971, quando era membro do Conselho Nacional de Cultura, em pleno regime militar. Tal escrito foi republicado na Revista PERMANÊNCIA, por ocasião do 75º aniversário do filósofo católico Gustavo Corção (cf. http://permanencia.org.br/drupal/node/69). Ali, Suassuna escreveu sem meias palavras: “Em política eu sou monarquista (…) Não sou marxista, nem acho que possamos colaborar com os marxistas, porque os próprios marxistas são sectários, duros, impiedosos, e só fazem se aproveitar dos moços, dos ingênuos e idealistas, para depois traí-los e esmagá-los.”Eleito para a ABL (Academia Brasileira de Letras) desde 1989, Suassuna escreveu mais de 15 peças teatrais e seis romances ficcionais. Ele ficou conhecido nacionalmente por trabalhos como "O Auto da Compadecida", de 1955. A estória que virou minissérie da TV Globo em 1999 e foi adaptada para o cinema em 2000,  é uma comédia dramática na qual dois pobres sertanejos nordestinos, um mentiroso e o outro covarde, valem-se de pequenos golpes e biscates para conseguir tocar a vida.

 

 


 

Meu "comunismo"

 

 

*Por: ARIANO SUASSUNA – Folha UOL (31/08/1999)

 

 

Nunca fui marxista. Apesar disso, quando, na década de 50, foi lançado o "Auto da Compadecida", fui denunciado como comunista num artigo de Plínio Salgado. E, no dia 26 de novembro de 1959, abrindo a "Folha da Tarde", li a seguinte notícia:

 

 

"Infiltração comunista no teatro - determinado maior rigor da Censura:



- Em cumprimento ao despacho do diretor da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria da Segurança, a Censura deverá intensificar a fiscalização das peças teatrais. Foi recomendada aos censores acuidade à denúncia feita pelo cardeal do Rio de Janeiro, segundo a qual o teatro estaria sendo utilizado para a infiltração comunista no país. Dom Jaime de Barros Câmara, naquela denúncia, fez alusão a um relatório sobre o teatro brasileiro, feito por agentes soviéticos e enviado à URSS. Esse relatório diz que o campo de ação dos comunistas visa os cursos de arte cênica nos países da América, como Uruguai, México e Brasil, e terá por objetivo semear a discórdia entre a população. Diz ainda que da ofensiva cultural da URSS constará a criação da Federação Mundial Juvenil de Teatro, que comportará um departamento latino-americano e que já teria assegurada a colaboração de diversos autores, inclusive brasileiros. Entre esses autores, dom Jaime aponta nominalmente Ariano Suassuna, além de outros, estrangeiros (principalmente poloneses), que desenvolvem suas atividades naqueles países citados".

 

 

 

O mais curioso, porém, é que mais ou menos naqueles dias eu estava sendo atacado pelos marxistas porque, atento aos crimes que então se praticavam na União Soviética (inclusive perseguindo ou fuzilando intelectuais, como fizeram com Boris Pasternak e Ossip Mandelstam), eu era contrário à colaboração dos católicos com eles. Em 10 de junho de 1962, por exemplo, publiquei num jornal recifense um artigo no qual fazia uma distinção entre a esquerda "definida" e a esquerda "amestrada", isto é, a que obedecia incondicionalmente ao comando dos marxistas. É que um grande amigo meu se queixara do tom violento que eu vinha usando em minhas definições. Disse-me que ele próprio era da esquerda e estava se sentindo atingido por elas; o que me levou a escrever, no artigo, que, quando me opunha aos esquerdistas "amestrados", incluía aí somente aqueles que "sendo católicos, por exemplo, não se definem diante dos comunistas, omitindo-se de seus crimes ou aliando-se com eles". Acrescentava:

 

 

"Quando os capitalistas cometem seus crimes, tais católicos de esquerda se juntam aos comunistas para protestar contra eles; mas, quando os comunistas cometem os seus, amoitam-se e os subscrevem com seu silêncio, uns por oportunismo, outros pelo medo ridículo de passarem por reacionários".

 

 

 

Trinta anos se passaram e, graças a Deus, a situação mudou. Marxistas como os do PC do B, por exemplo, reviram suas posições e hoje são nossos aliados na busca de um socialismo brasileiro e democrático...

 

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz31089907.htm

 

 


 

Respondendo a entrevista de “A Barriguda” em 10/04/2011 sobre a ditadura Ariano Respondeu:

 

A BARRIGUDA: De acordo com algumas entrevistas já veiculadas na mídia, o senhor, durante a repressão da ditadura, escondeu em sua própria residência amigos que estavam relacionados à cultura e que eram perseguidos pelos militares. Hoje, como um homem com tantos anos dedicados a produção cultural como o senhor descreveria os anos de governo ditatorial no Brasil?

 

 

ARIANO SUASSUNA: É foi meu amigo Luiz Bronzeado. Como toda ditadura, foi uma ditadura violenta. Sou e sempre fui de esquerda, mas jamais fui e jamais serei marxista. Fiz o possível para ajudar meus amigos, no entanto, os militares não me viam com maus olhos, pois era contra o apoio da esquerda ao Partido Comunista. Os militantes de esquerda fizeram muita coisa errada. Quando eu falava contra o imperialismo americano eles me aplaudiam, mas ao falar da perseguição aos intelectuais na União Soviética, diziam que eu era vendido ao ouro de Wall Street. Veja eu perdi meu pai muito cedo e fui privado da sua convivência, por isso sou contra qualquer manifestação de violência, seja pelo motivo que for. Tenho horror à brutalidade e à crueldade. Vocês são muito novos talvez não saibam, mas o czar Nicolau II e sua família foram aprisionados pelos bolcheviques na Casa Ipatiev em Ekaterimburgo. Nicolau II, sua mulher, seu filho, suas quatro filhas, o médico da família Imperial, um servo pessoal, a camareira da Imperatriz e o cozinheiro da família foram assassinados no porão da casa pelos bolcheviques, disseram a eles que iriam tirar uma foto, quando todos se aprontaram foram fuzilados, por essas razões continuo a dizer que isso foi um ato de crueldade, apesar de quem fossem, pois eram seres humanos. O filho dele tinha 12 anos, qual a culpa que uma criança tem? Não justifica a desculpa de que quando crescesse o menino poderia querer se vingar, ela era uma criança e foi morta. O médico e os demais empregados que não tinham nada a ver, mas foram assassinados. Tenho horror à brutalidade e à crueldade.

 

Fonte:http://www.abarriguda.org.br/site/entrevista-com-ariano-suassuna/

 

 

 

Ariano Suassuna, uma conversa

 

 

 

Esta entrevista se deu em 1989. Anotei-a um ano depois, em 1990.Ariano Suassuna nada tem de ariano. Conversando, Ariano é um brasileiro mestiço. A sua referência passa ao largo das antiquíssimas gentes do tempo dos vários Afonsos e de Dom Sebastião. A referência de Ariano é coisa mais recente, tão recente que talvez seja moderna, e de um recente tão plebeu, que talvez seja inconveniente lembrar tal referência a um acadêmico: tudo o que Chico Anysio, Lima Duarte e Rolando Boldrin tentam fazer na televisão, há muito Ariano vem fazendo: ele é um humorista narrador de casos, ajeitados à feição de vivíssimos causos. Ele é um showman sem smoking, metido em roupa de caroá, ou em calça e camisa de brim cáqui.Um dia chegamos para entrevistá-lo, ao fim do horário de suas aulas na universidade. Isso foi há mais de quinze anos. Ele foi logo dizendo que tinha desistido da entrevista, acertada antes. Sentamo-nos então em um banco de pedra, no pátio da Escola de Artes.

 

 

– Não, não adianta. Eu não sou mais menino. Falo com pureza d’alma. Falo com o coração na mão: essa entrevista não pode mais sair.

 

 

E como a entrevista não mais podia sair, sem gravador, Ariano deu início a uma conversa de quase duas horas. Cruzando as pernas no brim cáqui.

 

 

– Gorbachov é um negócio interessante. Eu sempre sonhei com o dia em que o cristianismo entrasse na União Soviética. Aí, chega uma repórter agora e me pergunta sobre a abertura na União Soviética. Ela pensava que eu era favorável. É que as pessoas pensam que como a gente está ficando velho, pensam que além de velho eu estou ficando reacionário. Eu respondi: “minha filha, eu queria um novo socialismo, não era a volta do capitalismo não”. Esse Gorbachov está fazendo o tempo voltar para trás. Não é?

 

 

 

– É um negócio danado. Antes de 64 eu tinha uns pegas com os comunistas aqui na universidade. Mas era um pega cultural, de ideias. Eles pegando a estética pela economia, e eu pegando a estética sem muita economia. Era mais ou menos isso. Então vem o golpe militar. Mas eu tinha amigos comunistas, um até bom ator, trabalhou numa peça minha, eu tinha a maior afeição. Então a minha casa virou abrigo para alguns desses amigos. A polícia não iria nunca procurar esses perigosos vermelhos em minha casa, não é? Aí vejam que coisa interessante acontece. Eu já estava com um comunista escondido lá em casa, quando me aparece mais um, querendo se esconder. Então ficou o primeiro vermelho, por trás do segundo, a fazer sinal para que eu não aceitasse mais um comunista em minha casa…

 

 

 

– Pois foi esse mesmo, o primeiro, que me deu uma lição, temerária, sobre os riscos e forma de viver. Houve um dia em que prenderam a mulher dele. Danou-se, eu me disse. Eu fiquei meio preocupado. Eu fiquei acabrunhado. Aí ele chegou pra mim: “Está com medo, Ariano?”. Vejam só a minha situação. Eu na minha casa, e sem poder ficar com medo. Ele me pegou nos brios. Aí eu me lembrei do que minha gente dizia, lá na Paraíba. E respondi: “Meu amigo, eu não conheço ninguém muciço” (macizo). Não é? Pois ele nem com essa resposta se abalou. Virou-se pra mim e disse: “Pois para mim, a morte é apenas um pequeníssimo incidente na roda da história”. Eu fiquei assim … danou-se. O que pra mim era a coisa mais importante, a minha própria morte, na roda histórica era nada. Não é danado?

 

 

 

Aí, a essa altura, a gente não sabe se Ariano Suassuna criou o seu personagem, ele próprio, Ariano, ou se o seu personagem criou o narrador de auditório, Ariano. Conversando, ou melhor, somente ele falando, parece que conversa, porque ele narra de um modo que nos mergulha no meio da sua narração. Ele gera a ilusão da conversa pela comunhão, até mesmo pela cumplicidade, com os fatos narrados. Ariano, “conversando”, é ator de picadeiro sem trejeitos ou caretas, que substitui pelos movimentos da voz, pelas inflexões na fala, pela escolha de palavras chãs, pelo rasgo de olhos pícaros que nos fitam, acompanhando o efeito das armadilhas que lança. Ele narra nesse ator – ele próprio – pela ambientação que situa, uma ambientação absolutamente econômica de cenários, cenários só personagens, e, o que reforça a ilusão de conversa, ele aparenta ser também ouvinte, quando na verdade faz pausas de radar, para ver como se refletiram aqueles sinais que lançou.

 

 

– Eu tenho muita simpatia pelo mentiroso…

 

 

Refletimos um sinal, porque comentamos, rápido: “García Márquez disse uma vez que todo escritor é um grande mentiroso”. O radar pega o reflexo de volta, ainda mais rápido:

 

 

– …É? Eu não conhecia isso. É interessante… Pois eu tenho a maior simpatia pelo mentiroso. Eu tenho pelo seguinte: o homem que é mentiroso por vocação é um inconformado. Ele é um inconformado com o que o cotidiano não deixa acontecer. Eu acho que ele dá vazão a uma verdade que às vezes é só dele, que muita gente não viu. Eu acho que foi isso o que García Márquez quis dizer, não foi?

 

 

A plateia consente. A “conversa” se estabelece.

 

 

– Em Taperoá tinha um mentiroso que era meio violento. Ele viu uma vez um sujeito morrer com uma facada. Olhe, um mentiroso ver um sujeito morrer, e de facada, já é dose demais pra sua imaginação. Ele viu e depois começou a contar do jeito dele, na feira da cidade, e começou a juntar gente. E ele solto no meio do povo. O defunto já havia morrido duas vezes, levado oito, nove facadas, já havia derramado sangue por três homens, e o povo atento, pra ver aonde ia parar o rio de sangue. A cada pergunta ele respondia com mais uma coisa, um detalhe, cada pergunta era uma deixa para o mentiroso variar. Mas pra desgraça dele apareceu uma testemunha do crime. Aí a testemunha interrompeu o contador da história e lhe disse: “Olhe, não foi bem assim não. O homem morreu foi com uma facada, de uma só vez”. Aí o contador da história se voltou. Vejam só que lição, que negócio interessante. O contador virou-se com raiva e disse: “Você tinha nada que me desmentir? Você tinha nada que estragar a minha história no meio do povo? Me digam uma coisa”, aí ele já falou para as pessoas em volta, “me digam uma coisa: do jeito que estava a minha mentira, do jeito que eu contava, não era mais bonito que essa verdade de uma facada só?”. E o povo concordou com o mentiroso. Não é? A mentira dele tinha mais beleza.

 

 

Não é? Essa verdade, digamos, essa reflexão moral, expressa num ato de gente de cara e dente, é função do artista, de artista. É do ofício. Em lugar de uma dissertação, uma ação. Em lugar de uma discussão filosófica, um movimento de gente. Gente com ideias, com conceitos, ainda que analfabeta, pasmem os equívocos. E mostrar gente sem instrução formal, expressando à sua maneira ideias civilizadas, é escolha de um só fio. Daí, duas ou três coisas:

 

 

1 – Em Ariano mesmo, conversando, existe essa contradição do complexo, o pensamento mais elaborado, e da formulação desse complexo em língua que se ouve na cozinha da nossa casa. Seria, para ele mesmo, motivo e nome para mais uma peça do gênero farsa, algo como “o raso falso”, ou “o raso e o profundo”.

 

 

2 – Daí que Ariano tenha se dado mal em liderar, gerar movimentos com ideias, alucinações, que estavam transformadas, bem situadas no teatro de Ariano Suassuna. Um criador não cria um movimento coletivo, mas um movimento faz avultar e cria seus criadores.

 

 

3 – Na eleição dos personagens da terra nordestina, nessa escolha só fia quem chegou a este ponto por uma cultura que não é só da terra.

 

 


 

– A minha revelação como autor de teatro foi García Lorca. Quando eu li García Lorca pela primeira vez, eu descobri o meu caminho como autor. Me deu um baque. Não é que eu fosse fazer o que Lorca fez – disso eu já sabia. Mas o teatro de Lorca, aquele universo, tinha coisas que eu sentia como uma coisa que eu conhecia – vejam vocês, um autor espanhol, com um acento trágico, revelando o meu caminho de autor do Nordeste do Brasil. Havia coisas parecidas comigo. Então eu me disse, “é isso !”. Depois vieram outros autores, outras influências, não é? E a roda da história girando.

 

 

– Quem me deu Lorca para ler foi Hermilo Borba Filho. Hermilo foi uma espécie de guru, para mim e para a minha geração. O Teatro do Estudante, os meus primeiros trabalhos, têm muito a ver com essa relação muito rica que eu possuía com Hermilo. Eu devo muito a Hermilo.

 

 

 

Fora de tempo e oportunidade, sem acompanhar os sinais do radar, nós lhe perguntamos sobre o Movimento Armorial, sobre a monarquia… Ariano abre os braços, queixa-se de cansaço. A noitinha vem chegando ao campus. Por razões inesperadas, o que para um repórter é aquilo que não faz parte da agenda, não percebemos que a negação da entrevista era uma negação mentirosa. Naquela hora, naquele instante, não notamos, pois que voltávamos para casa com uma dupla frustração, burros duas vezes: o famoso criador, o mito Ariano Suassuna era muito, muito simples, vale dizer, quase um homem sem importância; a entrevista, que ele nos concedera como uma palestra, sentado em um banco de pedra, sem gravador, era como se não houvesse acontecido. Muitos anos depois, acordamos.

 

 

O raso era profundo. Caímos na conversa de Ariano.

 

*No Dicionário Amoroso do Recife, publicado pela Casarão do Verbo, 2014

 

Fonte:https://blogdaboitempo.com.br/2014/07/29/ariano-suassuna-uma-conversa/

 

 


 

As utopias de Quaderna-Suassuna

 

 

NELSON DE SÁ - da Reportagem Local

 

 

Ariano Suassuna, quando esteve em São Paulo para a aula-espetáculo em que apresentou ``A História do Amor de Romeu e Julieta'', recebeu a Folha para uma longa entrevista em que narrou passagens de sua vida. A seguir, em versão resumida, algumas delas:

 

 

Catolicismo - Fui educado num colégio protestante porque mamãe era protestante, mas eu nunca fui. Na adolescência passei por uma fase em que eu não queria negócio com religião nenhuma. Depois achei que tinha que me responder se Deus existia. Recebi a influência de duas grandes figuras, que não eram católicas, mas eram próximas. Dostoievski era cristão, mas não católico. O outro era Unamuno, o grande pensador espanhol, que era um católico, digamos, heterodoxo. Eu li uma frase de Dostoievski que me impressionou profundamente. É dos ``Irmãos Karamazov''. Diz, ``se Deus não existe, tudo é permitido''. Foi um choque. Quando li foi um choque, porque eu vi que era verdade. Se não existe regra moral indiscutível, emanada de uma coisa superior, tudo é permitido. Você resolve dizer que matar criança é legítimo. Aí eu digo, ``mas, meu amigo, é repugnante''. Você diz, ``mas a mim não parece''. Se não existir uma regra absoluta que diga que está errado, tudo é permitido. Dostoievski tem toda razão. A frase dele é definitiva. Aí eu digo, ``bom, então eu vou ver se Deus existe''. Como não aceitava que tudo fosse permitido, eu digo, ``então tem um limite''. Foi o começo da minha adesão ao catolicismo.

 

 

 

Místicos - Outra figura que exerceu influência muito grande foi Santa Tereza D'Avila. Unamuno tinha muita admiração por ela, então eu li e foi um deslumbramento. Os grandes místicos, Santa Tereza, São João da Cruz, são pessoas que achavam que ainda na Terra você pode ter a experiência da união com Deus. Se você me pergunta se já tive, eu não tive, não. Gostaria muito. São João da Cruz, Santa Tereza são grandes figuras de místicos e grandes escritores. Eu gosto mais dela ainda do que dele. Descrevem experiências místicas de união com a divindade, e eu acredito que tiveram. Santa Tereza diz que a alma humana é um castelo no interior do qual Deus se encontra. Se a pessoa tiver raça suficiente, olha para dentro de si mesmo e vai entrar em união com Deus ainda aqui. A grande busca de Quaderna, em ``A Pedra do Reino'', é um castelo, que é uma alusão ao castelo de Santa Tereza. E Quaderna se surpreende no pé de um lajedo muito alto. Ele adormece e começa a sonhar que era obrigado a escalar, e lá em cima descobria que tudo era divino. O bem e o mal, a feiúra e a beleza, tudo era uma coisa só. Está lá contado, nos termos da linguagem de São João da Cruz.

 

 

 

Partido Comunista - Fundaram uma célula intelectual e eu fui, mas veja o que me aconteceu. Eu, felizmente ou infelizmente, sempre tive senso das coisas ridículas. Nessa época o Partido Comunista era tão sectário, que no programa havia um artigo proibindo os comunistas de falarem com os trotskistas. O comitê começou uma campanha tremenda contra os trotskistas. Os muros em São Paulo eram todos pichados, ``abaixo os trotskistas'' e coisa. Em Pernambuco também. E pela primeira vez eu fui ver como funcionava a célula intelectual, para eu então aderir ao Partido Comunista. Eu entrei com esse meu primo, Sebastião Simões, e me sentei. De repente entraram três pessoas, uma das quais, eu fui saber depois, era Diógenes Arruda. E ele tinha sido mandado por Prestes para dizer ao Partido Comunista de Pernambuco que não gastasse dinheiro, tempo e esforço combatendo trotskistas, que lá não tinha trotskista, não. Meu amigo, eu dei uma gargalhada. Eu disse, ``ó, você me desculpe, mas nesse partido eu não entro, não''.

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs190107.htm

 

 


*Ariano Suassuna, ícone do Movimento Armorial, faleceu (1927-2014). A melhor homenagem a Suassuna é deixar que ele mesmo fale e você o escute. O Movimento Armorial, lançado em 18 de outubro de 1970 na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife, se alinha com os demais movimentos artísticos brasileiros pela busca de uma arte erudita que plasme a nossa identidade cultural. Porém, diverge desses mesmos movimentos artísticos brasileiros que o antecederam por colocar em primeiro plano o universo cultural e lúdico do Sertão em detrimento do universo cultural e lúdico manifestado nas demais regiões do País. Valendo-se dessa matéria simbólica, Ariano e os seus companheiros de movimento pretendiam não apenas construir uma arte erudita autenticamente brasileira, mas uma arte pouco afeita tanto às preocupações sócio-políticas do regionalismo de 30, quanto às explicações deterministas e biológicas que o olhar cientificista de Euclides encerrou em sua obra.

 

 

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