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Conheça o contexto histórico, bíblico e teológico do surgimento das indulgências desde a Igreja primitiva até o presente

Written By Beraká - o blog da família on quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019 | 21:36








O perdão  para ser pleno precisa que nos reconcilie conosco mesmos (nos perdoando), com Deus (que sempre nos perdoa aos nos arrependermos e confessarmos nossos pecados) e por fim, com a Igreja para nos devolver a comunhão.


“Quanto deves ao meu Senhor? Cem medidas de azeite. Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta...” (Lc 16,6)


As Normas sobre as Indulgências, que acompanham a Constituição Apostólica do Papa Paulo VI, A Doutrina das Indulgências, ensina o que é a indulgência:


“Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade (conf Mateus 16,18), o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos.” (Norma 1)





É preciso entender bem esta conceituação do que seja a indulgência. Em primeiro lugar, é “remissão”, isto é, livra, liberta, da “pena temporal” devida aos pecados já perdoados. São ações que acompanhadas das devidas exigências, se revertem em graças:

Tiago 5,19-20: “Meus irmãos, se alguém dentre vós se desviar da verdade e alguém o fizer retornar, sabei que aquele que fizer retornar um pecador do erro, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de seus próprios pecados.”

Romanos 12,1: “Portanto, caros irmãos, rogo-vos pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto espiritual...”


Mateus 25,34-35: “Então, dirá o Rei a todos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, abençoados de meu Pai! Recebei como herança o Reino, o qual vos foi preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes...”


Malaquias 3,6-12: “Fazei a experiência, diz o Senhor dos exércitos, e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário. Para vos beneficiar afugentarei o gafanhoto, que não destruirá mais os frutos de vossa terra e não haverá nos campos vinha improdutiva, diz o Senhor dos exércitos.”

Todo pecado tem duas consequências: o da culpa e o da pena, devido à desordem causada pela culpa:



Mateus 5,25-26:Entra em acordo depressa com teu adversário, enquanto estás com ele a caminho do tribunal, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, o juiz te entregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia.Com toda a certeza afirmo que de maneira alguma sairás dali, enquanto não pagares o último centavo...”



Então, para que alguém fique totalmente redimido do pecado é preciso que obtenha de Deus o perdão da culpa, mediante o sacramento da Reconciliação, e restaure a ordem violada pelo pecado, cumprindo a justa pena pelo delito cometido. Se alguém difamou uma pessoa, não basta que peça desculpa do seu erro à pessoa ofendida, e seja perdoado, é preciso também, fazer algumas ações para restaurar a honra e o bom nome da pessoa. Ora, isto é uma exigência natural da justiça. Esta reconciliação também, é extensiva ao corpo comunitário da Igreja, da qual o ofensor faça parte, no qual a indulgência feita sob as condições exigidas, satisfaz esta reconciliação visível com a Igreja local e universal.


Cientes disso, os primeiros cristãos, até a idade média, infligiam a si mesmos severas penas (jejum de muitos dias até o pôr do sol, flagelações, longas peregrinações, etc.) mesmo após o perdão dos pecados, para cumprir a pena devida ao pecado.O Papa Paulo VI assim explica:

“Assim nos ensina a revelação divina que os pecados acarretam como consequência penas infligidas pela santidade e justiça divina, penas que devem ser pagas ou neste mundo, mediante os sofrimentos, dificuldades e tristezas desta vida e sobretudo mediante a morte, ou então no século futuro...”(DI, 2)


Paulo VI lembra os ensinamentos de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino sobre o assunto. Santo Agostinho afirma que:

“Toda iniquidade, pequena ou grande, deve ser punida, ou pelo próprio homem penitente, ou então por Deus...” (Com. Salmos LVIII 1,13; DI, ref. 1).


São Tomás de Aquino também ensina que:


“Sendo o pecado um ato desordenado, é evidente que todo o que peca, age contra alguma ordem. E é portanto decorrência da própria ordem que seja humilhado. E essa humilhação é a pena.” (STh. 1-2, q. 87, a.1; DI, ref. 3)


O Papa Paulo VI explica com clareza o efeito das penas temporais:


“Essas penas são impostas pelo julgamento de Deus, julgamento a um tempo justo e misericordioso, a fim de purificar as almas, defender a integridade da ordem moral e restituir à glória de Deus a sua plena majestade. Todo pecado, efetivamente, acarreta uma perturbação da ordem universal, por Deus estabelecida com indizível sabedoria e caridade infinita, e uma destruição de bens imensos, quer se considere o pecador como tal quer a comunidade humana.” (DI, 2)

I cor 12,26-27: “Desse modo, quando um membro sofre, todos os demais sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se regozijam com ele. Ora, vós sois o Corpo de Cristo, e cada pessoa entre vós, individualmente, é membro desse Corpo...”


O Catecismo da Igreja nos ensina o que é esta “pena temporal devida aos pecados já perdoados” quanto a culpa:

“Para compreender esta doutrina e esta prática da Igreja, é preciso admitir que o pecado tem dupla consequência. O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, consequentemente, nos torna incapazes da vida eterna, esta privação se chama pena eterna do pecado. Por outro lado, mesmo o pecado venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra quer depois da morte, no estado chamado purgatório. Esta purificação liberta da chamada ‘pena temporal’ do pecado. Essas duas penas não devem ser concebidas como uma espécie de vingança infligida por Deus do exterior, mas antes como uma consequência da própria natureza do pecado.” (§1472)


Portanto, fica claro que o pecado, além da “pena eterna”, que é perdoada diante de Deus pelos méritos da Paixão de Cristo, especialmente no Sacramento da Reconciliação, acarreta também a “pena temporal”, que permanece mesmo após a remissão da pena eterna. São as consequências que o pecado deixou na alma do pecador, a desordem que promoveu no plano de Deus e a ofensa à Sua majestade.


Prof. Felipe Aquino




Padre Paulo explica os seus efeitos na vida do Cristão e da Igreja


Atendidas as exigências para sua eficácia, “a absolvição sacramental livra a pessoa do inferno e a indulgência livra a pessoa do purgatório", explica o sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá, padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.


Segundo ele, o perdão dos pecados não resolve o problema das doenças espirituais do homem, portanto, as indulgências são necessárias para que os efeitos do pecado, ainda no coração humano, sejam curados. As indulgências são uma realidade muito antiga na Igreja Católica. E no decorrer dos anos, foram motivo de questionamentos para muitos, como também foram, para os que creem, um meio de rezar pelos falecidos e buscar a remissão dos pecados.Em entrevista à equipe do noticias.cancaonova.com, padre Paulo traz uma definição simples e clara sobre a realidade das indulgências. O sacerdote também explica como elas surgiram na Igreja, qual seu objetivo e o que fazer para obtê-las:


1)- Noticias.cancaonova.com: De forma prática e simples, como o senhor definiria as indulgências?

Padre Paulo – Para que as pessoas entendam o que é indulgência é necessário entender antes o que é pena temporal. Quando vamos nos confessar o sacerdote perdoa a pena eterna. Por causa dos nossos pecados, nós merecemos o inferno, então, o sacerdote perdoa os nossos pecados e com isso nós seremos salvos.Mas, ao mesmo tempo, o pecado tornou o nosso coração pior, nosso coração não está pronto para entrar no céu. Se eu me confessar e morrer imediatamente após a confissão, eu estou salvo, mas não estou santo. Por que ainda não amo a Deus de todo o coração, de toda alma e todo o entendimento. Então, a pessoa que morre nesta situação vai para o purgatório e, ali, purifica-se.A indulgência é a remissão deste tempo do purgatório. A absolvição sacramental livra a pessoa do inferno e a indulgência livra a pessoa do purgatório.


São João Crisóstomo (349-407), que foi patriarca de Constantinopla, doutor da Igreja, ensina a necessidade de rezar pelos mortos:

“Levemos-lhes socorro e celebremos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (Jó 1,5), porque duvidar que as nossas oferendas em favor dos mortos lhes leva alguma consolação? Não hesitemos em socorrer aos que partiram e em oferecer as nossas orações por eles” (CIC, §1032; In I Cor 41,5 PG 61,361).

O mesmo São João Crisóstomo afirma que “os Apóstolos instituíram a oração pelos mortos e que esta lhes presta grande auxílio e real utilidade” ( In Philipp. III 4, PG 62, 204, citado na Revista Pergunte e Responderemos  n. 264, 1982, pp. 50-51).

É interessante notar que S. Paulo pede que: “O Senhor conceda a Onesíforo encontrar misericórdia da parte do Senhor naquele dia!”( 2Tm 1, 18). É uma oração por um defunto.


2)- Noticias.cancaonova.com: Como surgiram as indulgências na Igreja?


Padre Paulo – No início do Cristianismo, quando as pessoas iam recorrer ao Sacramento da Reconciliação, a ordem das coisas era diferente como nos tempos de hoje. Atualmente, nós vamos ao padre, ele nos dá o perdão dos pecados e passa uma penitência para cumprirmos depois da confissão. No início da Igreja, era diferente: a pessoa confessava os seus pecados, o padre passava a penitência e, então, a pessoa ficava cumprindo aquela penitência durante vários meses e, às vezes, longos anos para que, finalmente, fosse perdoada. Acontece que nesta época, havia a perseguição da Igreja e também havia vários mártires. Então, os cristãos que estavam aprisionados e que iam morrer condenados à morte pelos perseguidores do Império Romano, muitas vezes, escreviam cartas aos bispos dizendo: "senhor bispo, eu vou morrer e a minha morte será uma penitência. Use esta minha penitência para remir as penas, para perdoar a penitência de outra pessoa". Eram mártires que se ofereciam para cumprir penitência no lugar daquelas pessoas. A origem da indulgência consiste nisso: sabermos que somos um só corpo. E sendo um só corpo enquanto Igreja, a penitência, o martírio de alguns, pode servir para compensar a penitência de outros. Na verdade, essa história de amor está na raiz do surgimento das indulgências.


3)- Noticias.cancaonova.com: A questão das indulgências é uma prática antiga na Igreja e sofreu algumas incompreensões em certos momentos da história. A que se deve a visão negativa que muitos tiveram com relação às indulgências?



Padre Paulo – Deve-se principalmente à reação de Lutero àquilo que era a prática das indulgências na Alemanha, na época da reforma protestante. A Igreja acredita que essas penitências que o fiel faz, podem realmente remir a pena do purgatório. Seja do próprio fiel, sejam das almas que estão no purgatório. Entre essas várias práticas penitencial, existe a esmola. Acontece que na época da Alemanha, do tempo de Lutero, havia alguns pregadores que estavam abusando da prática da esmola. Havia na realidade uma espécie de venda das indulgências, ou seja, as pessoas recebiam a indulgência gratuitamente, mas a obra penitencial exigida delas era uma esmola. Então, isso fazia parecer que os pregadores estavam vendendo a indulgência. Lutero se revoltou contra isso e a partir da sua reação houve a revolta protestante. Porém é preciso lembrar que o “abuso não tolhe o uso”.


4)- Noticias.cancaonova.com: Por que é necessário buscar as indulgências mesmo após ter recebido o Sacramento da Reconciliação?


Padre Paulo – Por que o perdão dos pecados não resolve o problema das nossas doenças espirituais, ou seja, uma vez que nós formos perdoados, nós precisamos ainda assim fazer práticas penitenciais. Por que é a penitência que irá, aos poucos, tornar o nosso coração um coração melhor. A indulgência é a Igreja que vem em socorro do fiel que faz penitência para, como mãe, aliviá-la. Lembrando que o sacramento da reconciliação elimina a culpa, não as penas e consequências do delito cometido.


5)- Noticias.cancaonova.com: Qual a diferença entre a indulgência plenária e a parcial?


Padre Paulo – Indulgência plenária, o próprio nome diz, ela redime totalmente a pena que a pessoa teria que cumprir no purgatório. Enquanto a parcial, redime só em partes. A plenária é totalmente eficaz e definitiva para as pessoas mortas. Por exemplo, se eu tenho um parente que faleceu e cumpro uma obra indulgenciada plenária, essa pessoa então, estaria liberta de todo o tempo do seu purgatório referente a sua culpa, porém, ela é livre para querer cumprir por amor seu tempo de purificação temporal, para poder entrar na glória celeste, quando fizer seu juízo particular logo após sua morte, preferindo como todos os santos fazer antes a vontade de Deus que a sua.


6)- Noticias.cancaonova.com: A Igreja ensina que para obter as indulgências “o fiel precisa estar em estado de graça”. O vem a ser este estado?


Padre Paulo – É um estado de amizade com Deus em que a pessoa verdadeiramente arrependida, não só recebeu o perdão dos pecados graves ou mortais, mas também, está disposta a abandonar qualquer tipo de pecado, até mesmo os veniais, ou leves.


7)- Noticias.cancaonova.com: Quais as outras condições para se obter indulgências? Quem pode e quem não pode recebê-las?


Padre Paulo – As indulgências plenárias, geralmente, consistem em uma obra que é indulgenciada e mais outras três condições: reconciliação, comunhão eucarística e oração pelo Santo Padre, o Papa. Estas três condições básicas sempre acompanham as obras das indulgências plenárias. A pessoa, para receber a indulgência, precisa ter condição para cumprir as obras. Se uma pessoa está em estado de pecado, numa situação irregular e não pode se confessar, logo, é evidente que ela não tem como receber a indulgência da Igreja. Deus providenciará outros meios, pois Ele não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ezeq. 18,23).



8)- Noticias.cancaonova.com: Quais as obras que, cumpridas as exigências necessárias, oferecem indulgência aos fiéis?



Padre Paulo – As obras podem ser: uma visita a um cemitério, uma Igreja, a um santuário; fazer uma peregrinação, dentre outras práticas expressas no Manual das Indulgências. Elas podem, fazendo juntamente com as obras, aquelas três condições básicas de: confissão, comunhão e oração pelo Papa, receber indulgências plenárias.



Fonte: Canção Nova





(Papa Bonifácio VIII)


Na Igreja pós período apostólico é a partir da bula papal de Bonifácio VIII sobre as indulgências, publicada no ano 1300, que originou a reforma protestante - Bonifácio VIII foi o Papa mais caluniado da história da Igreja:


A morte de Bonifácio VIII (1235-1303) marca a um só tempo o fim a Idade Média e o começo do lento e progressivo declínio da Cristandade Teocêntrica.Marca a derrota da visão de mundo fundada na Sagrada Escritura, e defensora da ordenação das coisas materiais às espirituais, para uma concepção de total independência dos governos das nações com relação às leis eclesiásticas.Em resumo, o sacrílego atentado sofrido por Bonifácio VIII em 1303, na cidade de Anagni (tramado pelos Colonnas, influente e terrível família romana), é um símbolo da sublevação do absolutismo nacionalista contra o universalismo cristão, coluna vertebral da política do Medievo, como afirma o historiador Ricardo García-Villoslada. E mais do que isto: é o emblema de uma significativa mudança de vetor nas sociedades, que se consolidará nos séculos imediatamente posteriores ao pontificado de Bonifácio VIII, com a crescente perda do poder político e espiritual da Igreja:


1)- Do sentido de transcendência para o de imanência.


2)- Da fé para o indiferentismo religioso e, em seguida, para a apostasia.


3)- Do espiritualismo para o sensualismo materialista.


4)- Da moral ascética baseada no Evangelho para um hedonismo libertário de grande virulência antieclesiástica.


5)- Do sentido coletivista, que visava ao bem comum, para um individualismo crescente, que descambará séculos depois nas democracias liberais.


6)- Do objetivismo ontológico para o subjetivismo psicológico.


Vemos que, se a mesma tivesse sido seguida à risca como o próprio Lutero fala em sua tese de Nº 91, nada disto teria acontecido:



TESE 91: “Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.”



Na bula originária abaixo em nada se fala de taxação de valores em dinheiro, bens de qualquer espécie, ou algo que der vazão às próprias ironias expostas nas 95 teses, criando chifre em cabeça de cavalo.


Bula Antiquorum habet fide relatio - Primeiro Jubileu Cristão

Bula de indicção do primeiro Jubileu

Papa Bonifácio VIII - 22 fevereiro de 1300 


Bonifácio Bispo, servo dos servos de Deus, para a certeza dos presentes e a memória dos futuros.

Há adesão digna de Fé por parte dos anciãos no sentido de que àqueles que entrarem na honorável Basílica do Príncipe dos Apóstolos, de Roma, são concedidas grandes missões e indulgências dos pecados.

Nós, portanto, que, segundo os deveres de Nosso ofício, buscamos e procuramos com viva satisfação o benefício dos indivíduos, reputando certas e a serem respeitadas todas essas indulgências, estas mesmas com a autoridade apostólica confirmamos, aprovamos e também renovamos, com o patrocínio desta escritura. E, portanto, visto que quanto mais os Beatíssimos Apóstolos Pedro e Paulo forem honrados tanto mais piedosamente as suas Basílicas estarão cheias de fiéis, e para que os mesmos se sintam sempre mais confortados com uma concessão generosa de dons espirituais, por isso Nós, confiando-nos à misericórdia de Deus Onipotente, e aos merecimentos e à autoridade dos próprios Apóstolos, com o conselho de Nossos irmãos e na plenitude do poder apostólico, acordamos a todos aqueles que, no presente ano de mil e trezentos, começado há pouco com a festa da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e em qualquer outro centésimo ano seguinte, entrarem nas mencionadas Basílicas, com reverência e verdadeiramente arrependidos e confessados, e àqueles que verdadeiramente se arrependerão no curso do presente centésimo ano e em qualquer centésimo ano futuro, não apenas pleno e muito amplo, mas até mesmo grandemente pleníssimo [*] perdão de seus pecados.

Estabelecemos que aqueles que quiserem se fazer partícipes de tal indulgência por Nós concedida entrem nas mencionadas Basílicas, se forem romanos: ao menos por trinta dias contínuos ou intercalados, e ao menos uma vez ao dia; se, ao invés, forem peregrinos ou estrangeiros: façam o mesmo por quinze dias. Cada um tanto mais merecerá e tanto mais eficazmente receberá a indulgência se as mesmas Basílicas mais amplamente e piedosamente frequentar. A nenhum homem seja lícito invalidar este público ato da confirmação, aprovação, inovação, concessão e constituição Nossa, nem lhe seja lícito, com temerária ordem, contradizer isso tudo. Se, então, alguém tiver a pretensão de fazer isso, saiba que incorrerá no desdém de Deus Onipotente e dos Beatos Pedro e Paulo Apóstolos.

Dado em Roma, junto a São Pedro, o dia 22 de fevereiro, ano sexto de Nosso Pontificado.



Nota da tradução:

* É um exagero, inclusive em italiano (assai pienissimo), mas é assim que está, talvez para mostrar e deixar clara a grandiosa dimensão da generosidade e misericórdia desta indulgência.



CONTEXTO HISTÓRICO TEOLÓGICO DO SURGIMENTO DAS INDULGÊNCIAS:


A “história se faz com documentos”. Os manuais de história, bem como as biografias de Lutero, por vezes, oferecem breves citações de alguns documentos, ou de alguns fragmentos de suas declarações, e a leitura dos fatos passam apenas pelo filtro do historiador. Talvez, a sua curiosidade tenha se aguçado ao ler estas citações nos livros de história, desejando ler todo o texto, mas foi impedido, por não ter acesso às fontes originais. O que você dispõe nesta compilação é o esforço de resolver o meu problema de curiosidade, e possivelmente, a de outros estudantes de história e teologia. Por isso produzi essa coletânea dos principais documentos, correspondências e livros que envolveram a excomunhão de Martinho Lutero. Espero que ela seja útil para o aprendizado e que possibilite, por si, discernir os fatos, ponderando no julgamento que condenou o pai da Reforma. Este texto é uma mera compilação. É o resultado de anos acumulados de leitura e aulas que oportunizaram-me colecionar estes documentos. Alguns estão disponíveis em português, mas em obras menos conhecidas, outros textos tive que traduzi-los.


Os textos estão em ordem cronológica a fim de facilitar o entendimento dos fatos que sucederam no processo de excomunhão. Adicionei algumas cartas que revelam as intenções e sentimentos dos envolvidos. Nota-se que os primeiros documentos são decisões dos concílios da Igreja cristã acerca das indulgências. É importante entender o contexto teológico que antecedeu, e criou o contexto histórico da discussão em que Lutero se envolveria, e que culminaria em sua excomunhão. Esta coletânea ainda não está completa. Há outros documentos que procuro, e estão em minha lista de desejos, e, se Deus quiser, pretendo terminar a minha coleção com o máximo de documentos, dos mais diversos, a fim de apresentar ao estudante a oportunidade duma leitura ad fontes. Espero que o texto seja útil aos seus estudos, aulas ou palestras.


1)- A BULA QUANTUM PRAEDECESSORES [1145]


Além disso, nós, com o cuidado paternal que providenciamos a sua paz e a necessidade da Igreja, pela autoridade que nos foi confiada por Deus, conceder e confirmar aos que, com espírito de devoção, se comprometeram a iniciar e completar uma obra e esforço tão santo, tão extremamente necessário, que a remissão dos pecados que o nosso antecessor, o Papa Urbano, instituiu. De acordo com a instituição do nosso antecessor acima mencionado, e pela autoridade que nos foi dada pelo Deus Onipotente e abençoado Pedro, príncipe dos Apóstolos, concedemos remissão e absolvição de pecados, de modo que aquele que começa e termina uma jornada tão santa, ou morra no caminho, deve obter a absolvição de todos os pecados que ele confessar com coração contrito, e obterá a retribuição da recompensa eterna do Galardoador de todos.


2)- A BULA UNIGENITUS DEI FILIUS SOBRE O VALOR DA INDULGÊNCIA [27 de Janeiro de 1343]


O tesouro dos méritos de Cristo é distribuído pela Igreja. O Filho unigênito de Deus,“feito para nós por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” [1 Co 1,30], não com sangue de carneiro ou de vitelo, mas com seu próprio sangue, entrou uma só vez no santuário, obtendo-nos assim uma redenção eterna [Hb 9,12]. Pois ele nos redimiu, não a preço de coisas corruptíveis como o ouro ou a prata, mas, com seu próprio sangue precioso de cordeiro sem defeitos e sem mancha [cf. 1 Pe 1,18s] e, como todos sabem, imolado inocente sobre o altar da cruz, ele o derramou não como pequena gota de sangue, que todavia em virtude da união ao Verbo teria sido suficiente para a redenção de todo o gênero humano, mas de modo copioso, como um fluxo transbordante, de modo que “da planta dos pés ao topo da cabeça nenhuma parte ilesa” [Is 1,6] se pode encontrar nele. De tão grande tesouro, por conseguinte, ele enriqueceu a Igreja militante, para que a misericórdia de tamanha efusão não fosse inútil, vã ou supérflua, querendo como bom Pai acumular tesouros para os seus filhos, para que assim houvesse “um tesouro inexaurível para os homens, cujos usuários se tornaram partícipes da amizade de Deus” [Sb 7,14]. E este tesouro, pois,Ele o entregou para ser distribuído em vista da salvação aos fiéis, por meio do bem-aventurado Pedro, que traz as chaves do céu, e de seus sucessores, seus vigários na terra; e para, por razões piedosas e razoáveis, ser ministrado misericordiosamente aos verdadeiramente penitentes e confessados, para total ou parcial remissão da pena temporal devida pelos pecados, quer de modo geral, quer de modo especial (segundo o que, diante de Deus, os ministros julgarem conveniente). Para o montante deste tesouro, sabe-se, contribuem os méritos da bem-aventurada Mãe de Deus e de todos os eleitos do primeiro até o último justo; e não se deve de modo algum temer que se esgote ou diminua, já que os méritos de Cristo (como se disse acima) são infinitos e, quanto mais numerosos os que pela sua distribuição são conduzidos à justiça, mais cresce o montante de seus méritos.




3)- A BULA SALVADOR NOSTER [3 de Agosto de 1476]


Indulgências para os defuntos


Para que se possa procurar melhor a salvação das almas no tempo em que estas têm maior necessidade dos sufrágios dos outros e estão menos em condição de serem úteis a si mesmas, Nós, em virtude da autoridade apostólica, queremos vir em auxílio, com o tesouro da Igreja, às almas que se encontram no purgatório, as quais deixaram a luz presente unidas a Cristo pela caridade e, enquanto estavam em vida, mereceram ser sufragadas com uma indulgência de tal importância. Nós, inclinados pelo paterno afeto e na medida em que com Deus nos é possível, confiando na misericórdia divina e na plenitude do poder, concedemos e concordamos: se parentes, amigos ou outros fiéis cristãos, levados pela piedade para com as almas do purgatório, expostas ao fogo em expiação das penas que pela divina justiça lhes cabem, durante o dito decênio pela restauração da igreja de Saintes, enquanto visitam a dita igreja, doarem uma determinada quantia de dinheiro ou um capital, segundo a disposição do decano ou do capítulo da supradita igreja ou de nosso coletor, ou ainda o mandarem por meio de mensageiros a serem por eles designados, sempre durante tal decênio, Nós queremos que esta indulgência plenária ao modo de sufrágio,valha para a remissão das penas e para proveito das mesmas almas do purgatório em prol das quais,  como é pressuposto, desembolsaram a supradita quantia de dinheiro ou capital.



4)- BULA LIQUET OMNIBUS  [1510]


E, para que a salvação das almas possa ser cuidada tanto mais devotadamente, porque elas têm maior necessidade das orações dos outros e são menos capazes de se ajudar, pela autoridade acima mencionada do tesouro de nossa mãe, a Igreja, movido pelo afeto paterno com as almas, agora no purgatório, que se afastaram deste mundo unidas à Cristo pelo amor e que, enquanto viviam, desejavam que a indulgência dessa natureza fosse obtida por intercessão, desejando aliviá-las tanto como pela ajuda de Deus, somos capazes, através da piedade divina e da plenitude do poder apostólico, nós desejamos e concedemos que, se os pais, amigos ou outros espíritos cristãos, agraciados por piedade, deem uma certa esmola para o trabalho de construção, em nome das almas que são detidas no purgatório pela expiação das penalidades devidas - durante a comissão de nosso Núncio e Agentes, de acordo com a regulamentação de nossos agentes e os representantes e subdelegados a quem eles possam conceder os seus poderes - a mesma indulgência plenária será invocada por intercessão para aqueles que agora estão no purgatório, para quem eles pagaram piedosamente a referida esmola, como já foi previsto para a remissão de penalidades.




5)- BULA NOS QUI PONTIFICATUS7 [3 de Setembro de 1513]


Confiando na misericórdia do mesmo onipotente Deus, e na autoridade dos benditos apóstolos Pedro e Paulo, e na palavra daquele que é o caminho, a verdade e a vida, e quem nos disse, sucessores no caráter de seu abençoado Pedro: "Tudo o que ligarem na terra será ligado também no céu; e tudo o que desligarem na terra, também será desligado no céu ", bem como na plenitude do poder apostólico que nos são dados de cima, nós igualmente concedemos e permitimos a plena indulgência de todos os seus pecados e a reconciliação com o Altíssimo, e tal remissão como foi habitualmente dado através dos nossos antecessores a quem está em auxílio da Terra Santa, e contra aqueles turcos pérfidos e tal como foi concedido em um ano de jubileu, e decretamos que as almas de todos os que se dispuserem sobre esta expedição será trazida pelo poder dos santos anjos e permanecerá no céu em felicidade eterna.


6)- A INSTRUTIO SUMMARIA AD SUBCOMISSARIOS8 [31 de Março de 1515]


A primeira graça é a completa remissão de todos os pecados; nada maior do que isso se pode conceber, já que os homens pecadores privados da graça de Deus obtêm remissão completa por esses meios e de novo gozam da graça de Deus. Além disso, pela remissão dos pecados, o castigo que se está obrigado a suportar no purgatório por causa da afronta contra a divina majestade é totalmente perdoado e as penas do purgatório são completamente apagadas. E, embora nada seja por demais precioso para ser dado em troca de tal graça – visto que é um dom gratuito de Deus e graça não tem preço -, contudo, a fim de que os fiéis cristãos sejam levados mais facilmente a busca-las, estabelecemos as seguintes regras, a saber: Primeiro: qualquer pessoa que está contrita em seu coração e fez confissão oral deve visitar pelo menos as sete igrejas indicadas para esse fim, a saber, aquelas nas quais estão expostas as armas papais, e em cada igreja deve recitar cinco Pai-nossos e cinco Ave-Marias, em honra das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem é ganha a nossa salvação, e um Miserere, salmo que é particularmente bem adaptado para obter o perdão dos pecados ... O método de contribuir para a caixa de construção da dita basílica do chefe dos apóstolos é este: Primeiro: os penitenciários e confessores, depois de terem explicado àqueles que fazem confissão a grandeza desta remissão plena e desses privilégios, devem perguntar-lhes qual o tamanho da contribuição – em dinheiro ou em outros bens temporais – que desejam fazer em boa consciência para lhes ser outorgado esse método de remissão plena e de privilégios; e isto deve ser feito de modo a contribuírem mais facilmente. Mas, como a condição dos homens e suas profissões são tantas e tão variadas e não podemos considera-las e pesá-las em particular, decidimos que as taxas podem ser determinadas da seguinte forma, segundo uma classificação reconhecida ... [segue-se uma lista de taxas por posição social e pecados cometidos]. A segunda graça principal é um “confessional” [carta confessional] contendo os maiores, mais importantes e até hoje inauditos privilégios ... Primeiro: o privilégio de escolher um confessor conveniente, mesmo um regular das ordens mendicantes. [Os outros privilégios incluem o poder dado ao confessor de absolver em casos normalmente “reservados” à Santa Sé] A terceira graça importante é a participação em todos os benefícios da Igreja universal; isto consiste em que os contribuintes da dita construção, juntamente com os seus falecidos pais, que saíram deste mundo em estado de graça, agora e por toda a eternidade serão participantes de todas as petições, intercessões, esmolas, jejuns e orações e de toda e qualquer peregrinação, mesmo as feitas à Terra Santa; além disto, participarão das estações de Roma, nas missas, horas canônicas, mortificações, bem como de todos os outros benefícios espirituais que foram ou serão produzidos pela santíssima e militante Igreja universal ou por qualquer de seus membros. Os fiéis que comprarem cartas confessionais também podem tornar-se participantes de todas essas coisas. Os pregadores e os confessores devem insistir com grande perseverança nessas vantagens e persuadir os fiéis a não negligenciar em adquirir esses benefícios juntamente com sua carta confessional. Também declaramos que para obter essas duas mais importantes graças não é preciso confessar-se, ou visitar igrejas e altares, mas simplesmente adquirir a carta confessional. A quarta graça importante é um favor das almas que estão no purgatório e é a remissão completa de todos os pecados, remissão que o papa consegue por sua intercessão para o bem dessas almas da seguinte maneira: a mesma contribuição que se faria por si mesmo estando vivo, deve ser depositada na caixa. É, contudo, de nossa vontade que nossos subcomissários possam modificar as regras concernentes às contribuições desta espécie que são feitas pelos mortos e que possam usar de seu critério em todos os outros casos em que, segundo sua opinião, modificações sejam desejáveis. Além disso, não é necessário que nas pessoas que colocam suas contribuições na caixa em favor dos mortos estejam contritas em seus corações ou tenham confessado, visto que essa graça se baseia unicamente no estado de graça em que os falecidos estavam ao morrer e na contribuição dos vivos, como é evidente do texto da bula. De resto, os pregadores se devem esforçar por tornar essa graça mais largamente conhecida, pois que, através dela, certamente virá auxílio para as almas dos falecidos e a construção da igreja de São Pedro será ao mesmo tempo melhor promovida.



7)- UM SERMÃO DE TETZEL SOBRE A INDULGÊNCIA


Então, o que há para pensar? Por que você hesita em se converter? Por que você não tem medo de seus pecados? Por que você não confessa agora aos vigários do nosso Santo Papa? Você não tem o exemplo de Lorenzo, que, compelido pelo amor a Deus, deu a sua herança e sofreu em seu corpo, sendo queimado? Por que você não toma o exemplo de Bartolomeu, Estêvão e de outros santos que, com prazer, sofreram as mortes mais horríveis por causa e salvação de suas almas? No entanto, não desista de grandes tesouros; de fato, você não dá nem uma esmola moderada. Eles deram seus corpos para serem martirizados, mas você se deleita em viver com alegria. Você, sacerdote, nobre, comerciante, esposa, virgem, você que é casado, jovem, ancião, é para você a Igreja de São Pedro, como eu disse, entre nela e visite a Santíssima Cruz. Ela foi colocada ali para você, e sempre chora e clama em seu favor. Talvez, você se envergonhe de visitar a Cruz com uma vela e, todavia, não tem vergonha de visitar uma taberna? Você tem vergonha de ir aos confessores apostólicos, mas não tem vergonha de ir a uma dança? Eis que você está no mar furioso deste mundo em tempestade e perigo, sem saber se você alcançará com segurança o porto da salvação. Você não sabe que tudo o que o homem possuí está por um fio fino e que toda a vida é apenas uma luta na terra? Vamos, então, lutar, como Lorenzo e os outros santos, pela salvação da alma, não pelo corpo que é hoje, mas não existirá amanhã. Hoje está bem, mas amanhã estará doente. Hoje está vivo, mas amanhã poderá estar morto. Você deve saber que todos os que confessam e penitência colocam esmola no cofre de acordo com o conselho do confessor, obterão remissão completa de todos os seus pecados. Se eles visitarem, depois da confissão e após o Jubileu, a Cruz e o altar, todos os dias, receberão essa indulgência que seria sua, do mesmo modo que visitassem os sete altares de São Pedro, onde a indulgência completa é oferecida. Por que você está aí parado? Corra para a salvação de suas almas! Seja tão cuidadoso e preocupado com a salvação de suas almas como você é com os seus bens temporais, que você procura tanto de dia como de noite.Procure o Senhor enquanto ele é encontrado e enquanto estiver perto. Trabalhe, como diz São João, enquanto ainda é dia, pois a noite vem quando nenhum homem pode trabalhar. Você não ouve a voz de seus pais mortos e outros que dizem: “Tenha piedade de mim, tenha misericórdia de mim, porque estamos em castigos e dores severas. Deste sofrimento você poderia nos resgatar com uma pequena esmola e, no entanto, não quer fazê-lo”. Abra os seus ouvidos enquanto o pai diz ao filho e à mãe para a filha: “Nós o criamos, alimentamos você, cuidamos de você, e você herdou os nossos os bens temporários. Por que você é tão cruel e áspero que não quer nos salvar, embora isso custe tão pouco? Você nos deixa em chamas para que possamos chegar lentamente à glória prometida”. Você pode obter cartas que permitem que você tenha, tanto na vida como na hora da morte, a remissão completa do castigo que pertence ao pecado. Oh, aqueles de vocês com votos, avarentos, assaltantes, assassinos e criminosos - agora é a hora de ouvir a voz de Deus. Ele não quer a morte do pecador, mas quer que se converta e viva. Converta-se então, Jerusalém, Jerusalém, ao Senhor, teu Deus. Oh, você blasfemos, fofoqueiros, que impedem esse trabalho aberta ou secretamente, e seus assuntos? Você está fora da comunhão da Igreja. Nenhuma missa, nenhum sermão, oração, sacramentos ou intercessão o ajudam. Nenhum campo, vinha, árvores ou gado trazem frutas ou vinho para você. Mesmo as coisas espirituais desaparecem, o que uma ilustração poderia apontar. Converta-se de todo o seu coração e use o remédio do qual o Livro da Sabedoria diz: “O Altíssimo tirou a medicina da terra e um homem sábio não a rejeitará”.


8)- SERMÃO SOBRE INDULGENCIAS FEITO POR TETZEL À UM PÁROCO


Respeitável senhor, apelo para que nas suas declarações seja servido em usar palavras tais que sirvam para abrir os olhos da mente e fazer com que seus ouvintes considerem grandiosa a graça e o dom que tiveram e têm bem às portas. Olhos benditos de fato, que vêm o que eles agora vêm, porque eles já têm cartas de salvo conduto por meio das quais podem guiar suas almas através do vale de lágrimas, atravessando o oceano desse mundo insano, no qual tempestades e ventanias espreitam, para a terra bendita do Paraíso. Saiba que a vida do homem sobre a terra é de luta constante. Luta contra o mundo, a carne e o diabo, que sempre procuram destruir a alma. Nascemos no pecado, infelizmente. Com que laços o pecado nos envolve, e quão difícil e quase impossível atingir a porta da salvação sem a ajuda divina; desde que Ele é a causa de nossa salvação, não em virtude de nossas boas obras que realizamos, mas por meio de sua divina misericórdia; é necessário então usar a armadura de Deus. Você pode obter cartas de salvo conduto com o vigário de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio das quais você estará em condições de libertar sua alma das mãos do inimigo e transportá-la por meio da confissão e contrição, protegida e segura de todas as dores do Purgatório, para o reino das bem-aventuranças. Pois saiba que nessas cartas estão estampados e gravados todos os méritos dos sofrimentos de Cristo. Considere que para cada pecado mortal são necessários sete anos de penitência além de confissão e contrição, seja nessa vida ou no purgatório. Quantos pecados mortais são cometidos em dia, em uma semana, em um mês, em um ano, quantos em todo o curso da vida! São quase inumeráveis, e aqueles que o cometem devem sofrer castigo sem fim nas dores chamejantes do Purgatório. Mas com essas cartas confessionais você poderá a qualquer momento da vida, obter plena indulgencia de todas as penalidades impostas em todos os casos, exceto nos quatro restritos à Sé Apostólica. Portanto, ao longo de toda sua vida, sempre que desejar confessar, pode receber a mesma remissão, exceto nos casos reservados ao papa, e finalmente, na hora da morte, indulgencia completa em relação a todas as penalidades e pecados, e a sua quota de todas as bênçãos espirituais disponíveis na igreja militante e em todos os seus membros. Você não sabe que, quando é necessário que alguém venha até Roma ou realize qualquer outra jornada perigosa, ele leva seu dinheiro para um agiota e oferece porcentagem de cinco ou seis ou dez para que em Roma ou em outro lugar ele receba novamente seus fundos intactos, por meio da carta desse mesmo agiota? Você não está disposto, então, pela quarta parte de um florim a adquirir essas cartas, em virtude das quais você pode resgatar, não o seu dinheiro, mas sua alma divina e imortal, segura e intacta, na terra do Paraíso? Assim, eu aconselho, ordeno e, em virtude da minha autoridade como pastor, ordeno que eles recebam junto comigo e outros sacerdotes, este precioso tesouro, especialmente aqueles que não se confessaram no tempo do jubileu sagrado, para que sejam capazes de obter o mesmo para sempre. Pois a ocasião pode ocorrer, quando eventualmente você venha a desejar, mas ainda não consiga obter nem a menor parcela da graça. Também por parte da SS. DN o Papa e da Santíssima Sé Apostólica e do mais reverenciado senhor, meu legado, a todos e cada um que tenha aproveitado pelo sagrado Jubileu e tenha feito confissões, e a todos os que possam aproveitar a presente e breve oportunidade, e que terão prestado uma ajuda à construção da casa acima mencionada do Príncipe dos Apóstolos, todos serão participantes e comungantes em todas as orações, sufrágios, esmolas, jejuns, súplicas, missas, horas canônicas, disciplinas, peregrinações, estações papais, bênçãos e todos os outros bens espirituais que agora existem ou podem existir para sempre na igreja militante, e em todos estes, não só eles mesmos, mas seus parentes, descendentes e bem-queridos que faleceram; e como eles foram movidos pela caridade, também Deus e SS. Pedro e Paulo, e todos os santos cujos corpos descansam em Roma, devem guardá-los em paz neste vale, e conduzi-los através dele para o reino celestial. Dê agradecimentos demorados pelos nomes acima mencionados e no meu, para os reverendos, sacerdotes seculares e prelados, etc.


9)-  A FÓRMULA DE ABSOLVIÇÃO DA INDULGÊNCIA DE TETZEL


Que o nosso Senhor Jesus Cristo tenha misericórdia de ti, [nome do indivíduo], e absolva-te pelos méritos dos seus santíssimos sofrimentos. Eu, em virtude do poder apostólico conferido a mim, absolvo- te de todas as censuras, julgamentos e penalidades eclesiásticas que você merece; e, além disso, de todos os excessos, pecados e crimes que você cometeu, por grandes e enormes que sejam, e de qualquer tipo, mesmo que sejam reservados ao nosso santo padre, o Papa e à Sé Apostólica. Eu anulo todas as manchas da fraqueza, e todos os traços da vergonha que te perverteram por tais ações. Eu cancelo as dores que terias que suportar no purgatório. Recebo-te novamente aos sacramentos da Igreja. Eu reincorporo-te na comunhão dos santos, e restauro-te à inocência e à pureza do teu batismo; para que, no momento da morte, a porta do lugar dos tormentos seja fechada diante de ti, e o portão do paraíso da alegria se abrirá para ti. E se quiseres viver muito, esta graça continua inalterável, até o tempo do teu fim. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. O Irmão, Johann Tetzel, comissário, que aqui assina com a sua própria mão.



10)- CARTA MARTINHO LUTERO A GEORGE SPALATINO (31 de Março de 1518)


A seu pai e superior em Cristo. Jesus. Meu pai no Senhor: ao andar ocupado em tantas coisas me vejo forçado a comunicar-lhe pouquíssimas outras. Em primeiro lugar, creio que meu nome fede para muitos. Há algum tempo muitas pessoas boas atribuem-me condenar os rosários, coroas, ofícios fúnebres, e outras orações e até qualquer boa obra. O mesmo ocorreu a são Paulo, a quem imputavam ter declarado “façamos o mal para que o bem aconteça”. O que ensino, continua sendo a teologia de Tauler e do livreto de Christian Aurifaber que você mesmo editaste, é que os homens depositem a sua confiança, não em orações, nem em méritos, nem nas próprias obras, mas, somente em Jesus Cristo, porque não nos salvaremos por correr, mas pela misericórdia de Deus. Desta minha preocupação, eles tiram veneno que, como você pode ver, andam espalhando. Mas o mesmo que não comecei, tão pouco retrocederei em meu empenho movido pela fama ou pela infâmia. Deus haver de julgar. Esses mesmos doutores escolásticos atiçam o ódio contra mim, tanto em força como em fervor, de seu zelo e estão a ponto de enlouquecer, pela simples razão de que antes que a eles, eu prefiro aos escritores escolásticos e a Bíblia. E é que leio aos escolásticos com discrição, não com olhos fechados (como é seu costume), sendo que o apóstolo preceituou “provai tudo, e retende o que é bom”. Não os rejeito em tudo, nem tão pouco, os aprovo em tudo.Estes tagarelas costumam tomar a parte pelo todo, a converter a faísca em incêndio, e a mosca em elefante. Graças a Deus não me causam preocupação, nem mesmo os menores destes fantasmas. É puro palavreado e não passarão disso. Se foi permitido a Scotus, Gabriel e a outros semelhantes discordar de são Tomás, e se aos tomistas não lhes está vedado contradizer a tudo o que se ponha adiante, nem que entre eles existam tantas divisões como cabeças, ou inclusive como crinas de cada cabeça, por que não me concederiam o meu esgrimir contra eles o mesmo direito que arrogam contra si? Se Deus agir, ninguém poderá impedi-lo, ninguém poderá levantá-lo se está descansando. Adeus e rogue por mim, e pela verdade divina onde quer a encontre. Wittenberg, 31 de Março de 1518. Fr. M. Eleutherius, agostiniano.


11)- SERMÃO DE LUTERO: SOBRE A INDULGÊNCIA E A GRAÇA (4 de abril de 1518)


1. Deveis saber, para começar, que alguns novos doutores, como o mestre das sentenças, S. Tomás e seus seguidores, dividem a penitência em três partes, a saber, na contrição, a confissão, a satisfação. Apesar de que tal distinção, segundo opinam, é difícil, ou melhor, impossível fundamentá-la na sagrada Escritura e nos doutores cristãos da antiguidade, não obstante vamos considera-las por agora e vamos aderir a sua forma de falar. 2. Afirmam que a indulgência não livra da primeira ou segunda parte, a saber, da contrição e da confissão, mas sim da terceira, ou seja, da satisfação. 3. Por sua vez, se divide a satisfação em três partes: oração, jejum, esmolas. A oração compreende todas as obras próprias da alma, tais como ler, meditar, escutar a palavra de Deus, pregar, ensinar e outras semelhantes. O jejum compreende as obras da mortificação da carne: vigílias, trabalhos árduos, camas duras, roupas rasgadas, etc. As esmolas compreendem toda classe de boas obras de amor e misericórdia para com o próximo. 4. Não há dúvida de que para todos eles as indulgências isentam destas mesmas obras satisfatórias que temos que fazer obrigatoriamente ou que são-nos impostas por causa do pecado. Pois bem, se a indulgência livrasse destas obras, já não restaria nada bom por praticar. 5. Entre muitos tem força certa opinião de que ainda não se decidiu: se as indulgências livram de algo mais do que destas boas obras, a saber, se perdoam também as penas que a justiça divina exige pelos pecados. 6. Neste momento não refutarei esta opinião. Afirmo o seguinte: que não se pode provar com base em texto algum que a justiça divina deseje ou exija do pecador qualquer pena ou satisfação, a não ser unicamente a contrição sincera de seu coração ou a conversão, com o propósito firme de levar adiante a cruz de Cristo e de exercitar-se nas obras mencionadas (mesmo que nada lhes seja imposto), porque Deus disse por boca de Ezequiel: “Se o pecador se converte e se comporta como convém, me esquecerei de seus pecados”. Ademais, ele mesmo perdoou a todos: a Maria Madalena, ao paralítico, a mulher adúltera, etc. Eu me encantaria escutar a qualquer que provasse o contrário, desconsiderando o que tenham pensado alguns doutores. 7. Nos deparamos com a verdade de que Deus castiga a alguns segundo sua justiça ou que por meio das penas os leva à contrição, como diz o Salmo 88: “Se seus filhos cometem pecados, eu castigarei suas transgressões coma vara, porém não lhes negarei minha misericórdia”. Não obstante, não existe poder humano capaz de cancelar estas penas; somente o poder divino pode fazê-lo. Mais ainda: Ele não deseja cancelá-las, pelo contrário, promete que quer impô-las. 8. Por este motivo não se pode dar nenhum nome a esta pena imaginária, nem se sabe nada em que consiste, senão nestas boas obras acima indicadas. 9. Afirmo que, embora a igreja cristã tenha decidido ou declara ainda hoje que a indulgência perdoa mais que as obras satisfatórias, seria mil vezes melhor que o cristão cumprisse estas obras e sofresse esta pena do que comprar ou desejar esta indulgência. Porque a indulgência não é, nem pode ser outra coisa senão abandono das boas obras e de uma pena saudável, que melhor seria desejar do que abandonar; e que, embora alguns dos novos pregadores tenham inventado duas classes de penas, medicinais e satisfatórias, visando ao conserto ou à satisfação. Não obstante, louvado seja Deus, gozamos nós de maior liberdade para depreciar tais coisas e charlatanismos semelhantes que eles inventam; porque toda pena, ou seja, tudo o que Deus impõe, é bom e proveitoso para os cristãos. 10. Com isto não se quer dizer que as penas e as obras sejam excessivas, e que o homem, na brevidade da vida, não possa cumpri-las, motivo pelo qual a indulgência se faria imprescindível. Respondo que isto não tem fundamento nenhum e que é uma pura invenção. Nem Deus nem a santa igreja impõem nada que não se pode cumprir; também S. Paulo declara que Deus não prova em nada mais além de suas forças. Isto influencia, não pouco, na desonra da cristandade, ao fazê-la responsável de impor mais do que podemos suportar. 11. Mesmo que a penitência canônica estivesse em vigor, a saber, se por cada pecado mortal fossem impostos sete anos de penitência, a cristandade deveria abandonar estas leis e não impor nada além do que cada um pode cumprir, menos motivo haverá para impor mais do que se pode suportar agora, quando estas leis já não têm mais valor algum. 12. Diz-se que o pecador, com o que ainda lhe resta sofrer, tem que ir ao purgatório ou fazer uso das indulgências, mas dizem tantas coisas sem razão nem com qualquer tipo de prova. 13. É um erro grande querer satisfazer alguém por seus pecados, quando Deus os perdoa ilimitadamente de forma gratuita por sua inestimável graça e sem nenhuma exigência em troca. A única exigência de Deus é que daí em diante se leve uma vida boa. A cristandade exige algumas coisas; também pode cancelá-las e não impor nada que seja difícil e insuportável. 14. A indulgência tem sido autorizada por causa dos cristãos imperfeitos e preguiçosos, que não querem exercitar- se com valentia nas boas obras, ou por causa dos rebeldes. Como a indulgência não anima em nada a consertar-se, senão que mais tolera e autoriza sua imperfeição, não se deve falar nada contra a indulgência, nem tampouco há de se recomendá-la a nada. 15. Agiria muito melhor quem desse algo puramente por amor a Deus para a fábrica de S. Pedro ou para outra coisa, em lugar de adquirir em troca uma indulgência. Porque se corre o perigo de fazer tal doação por amor à indulgência e não por amor a Deus. 16. É muito mais valiosa a esmola dada ao indigente do que a outorgada para este edifício; é muito melhor do que a indulgência conseguida pela troca. Porque, como já se tem dito, vale muito mais uma boa obra cumprida do que muitas menosprezadas. Com a indulgência, ou se omite de muitas boas obras ou não se consegue nenhuma remissão. Prestem atenção no que vou lhes dizer para instruí-los como é devido: antes de qualquer coisa (e sem levar em conta o edifício de S. Pedro e a indulgência), se queres dar algo, deve dar ao pobre. Se acontece que em sua cidade não há ninguém necessitado de socorro (o que Deus quer nunca acontecerá), então, se assim o desejas, poderá dar para igrejas, altares, ornamentos, cálices da sua cidade. Se isto não for necessário para o presente, e se te parece bem, poderás dar para a fábrica de S. Pedro ou para qualquer outra coisa. Mas nem neste caso deverás 16fazê-lo para ganhar a indulgência, porque declara S. Paulo: “Quem não cuida dos membros de sua família não é cristão, é pior que um pagão”. Enfim, para expressar meu pensamento: qualquer um que te ensine de outra maneira está te induzindo ao erro ou anda buscando sua alma dentro de seu bolso, e se nele encontrar alguns centavos, terá mais interesse neles do que em todas as almas. Se você diz que não voltará a comprar indulgências, te respondo: “já lhe disse antes; minha vontade, meu desejo, minha constante súplica e meu conselho é que ninguém compre a indulgência. Deixa que os cristãos preguiçosos e sonolentos as comprem; você, segue o seu caminho”. 17. A indulgência não é recomendada nem aconselhada: busque as coisas autorizadas e permitidas. Por este motivo, não é uma obra de obediência, nem meritória, senão uma evasão da obediência. Portanto, embora não se deva proibir ninguém que as adquira, se deveriam afastar delas todos os cristãos, e estimulá-los à mudança para se fortificarem pelas obras e pelas penas que anulam a indulgência. 18. Que em virtude da indulgência salvar as almas do purgatório ser algo que ignoro e que não creio ainda, embora alguns novos doutores o afirmem; e como lhes é impossível provar, e ainda, a igreja nada tem decidido a respeito, para maior segurança é muito melhor, mais valioso e seguro que intercedas e trabalhe por estas almas. 19. Estou totalmente convencido da certeza destes pontos, suficientemente fundados na Escritura. Por isso, não duvide deles, e deixe que os doutores escolásticos sigam sendo “escolásticos”; Deixe-os todos com suas opiniões, incapazes de autorizar sua pregação. 20. Não me importa muito que no presente me considerem como herege, alguns a quem esta verdade cause forte prejuízo, posto que somente me qualificam assim algumas mentes tenebrosas que jamais ouvem a Bíblia nem leem os doutores cristãos, que nunca compreendem seus próprios mestres e que estão a ponto de decompor-se em suas opiniões proferidas, de agoureiros e sem fundamento; porque se os houvessem compreendido, entenderiam que não devem qualificar de blasfemo a ninguém sem tê-lo escutado e convencido. Que Deus, não obstante, lhes conceda e nos conceda um espírito reto. Amém.


12)- O DECRETO CUM POSTQUAM [9 de Novembro de 1518]


O decreto Cum postquam emitido pelo Papa Leão X ao cardeal Caetano de Vio, em 9 de Novembro de 1518.


As indulgências...

Para que doravante ninguém possa alegar o desconhecimento da doutrina da Igreja de Roma a respeito das indulgências e sua eficácia ou se desculpar com o pretexto de tal. Nela o papa Leão X declara “o poder do Romano Pontíficie de conceder indulgências, de acordo com a veraz definição da Igreja romana, que decretamos deve ser por todos conservada e pregada,como procurareis sem restrição ver e o observar deste escrito que vos mandamos para subscrever.Procurareis aderir com firmeza à veraz definição da santa Igreja Romana e desta Santa Sé, que não permite erros”. Como resposta ao acontecido, esta bula quer expor a reta doutrina da Igreja sobre as indulgências. A autoridade doutrinal da bula é sublinhada por Leão X na carta de acompanhamento “Aos suíços” de 30 abr. 1519:

“O poder do Romano Pontífice de conceder indulgências, de acordo com a veraz definição da Igreja romana, que decretamos dever ser por todos conservada e pregada, como procurareis sem restrição ver e o observar deste escrito que vos mandamos para subscrever.Procurareis aderir com firmeza à veraz definição da santa Igreja romana e desta Santa Sé, que não permite erros”...julgamos dever levar a teu conhecimento o que ensinou a Igreja de Roma, que as outras Igrejas são obrigadas a seguir como a uma mãe:


O Romano Pontífice, sucessor de Pedro, detentor das chaves e vigário de Jesus Cristo na terra, em virtude do poder das chaves que servem para abrir o reino dos céus, livrando os fiéis de Cristo dos impedimentos (a saber, a culpa e a pena devidas pelos pecados atuais: a culpa, mediante o sacramento da penitência, a pena temporal devida segundo a justiça divina pelos pecados atuais, mediante a indulgência eclesiástica), tem o poder de conceder, por causas razoáveis, haurindo da superabundância dos méritos de Cristo e dos Santos, indulgências aos fiéis cristãos, que pela caridade que os une são membros de Cristo, quer se encontrem em vida, quer estejam no purgatório; e ao conceder a indulgência, quer aos vivos quer aos mortos, em virtude da apostólica autoridade, ele dispensa, segundo seu costume, os tesouros dos méritos de Jesus Cristo e dos Santos, confere a própria indulgência a modo de absolvição ou aplica-a a modo de sufrágio. E por isso, todos os que, vivos ou defuntos, conseguiram verdadeiramente todas essas indulgências, são liberados da pena temporal, devida segundo a divina justiça pelos pecados atuais, que corresponde à indulgência concedida e adquirida. E nós, em virtude da autoridade apostólica e pelo teor do presente <escrito>, decretamos que assim deve ser sustentado e pregado por todos, sob pena de excomunhão de pronunciada sentença.



13)- APELO DO IRMÃO MARTINHO LUTERO A UM CONCÍLIO [28 de Novembro de 1518]


Em nome do Senhor, amém. No ano 1518 do nascimento do mesmo [Senhor], na sexta indicação no domingo 28 de novembro, no sexto ano do pontificado do nosso santo pai e senhor em Cristo, Leão X., pela divina providência Papa ; na presença do notário público e das testemunhas inscritas, convocados e convocados para esse propósito especial, mestre [dominus] Martinho Lutero, ordenado reverendo padre, agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia sagrada e, ali, professor ordinário de teologia, primeiro e principalmente para si próprio, mas também para além da revogação por qualquer dos seus adjuntos nomeados por ele, tendo e mantendo em suas mãos um certo cronograma de citação e apelação, com o propósito de abordar, convocar e suplicar um apelo  (dizendo , narrando, suplicando e apelando com respeito a certos casos legais na mesma programação contida e incorporada) a um conselho, o próximo e imediatamente a ser [reunido], reunido legalmente e no Espírito Santo, a toda a exclusão de outras assembleias , facções e sínodos privados; afirmando e expondo outros fatos, como os que estão mais detalhadamente contidos, incluídos e descritos no referido cronograma de apelação, cujo conteúdo está anexado e são os seguintes:


Como o recurso de apelação foi elaborado pelos legisladores para a assistência e alívio de recursos; os oprimidos, e não apenas das coisas infligidas, mas também daquelas a serem infligidas, a lei permite que aqueles ameaçados com injustiças e injúrias recorram, até o fim que o inferior não possa decidir sobre o direito de apelar ao superior. Mas já que é um fato suficientemente reconhecido que um conselho muito sagrado, legalmente reunido no Espírito Santo, representa o Santo Católico, Henry C. Vedder, A Reforma na Alemanha, pp. 413-418.


Igreja, em casos relativos à fé está acima do Papa, segue-se que o Papa não pode em tais casos decidir que não haverá apelo dele para um conselho. Então, se ele faz aquilo que de modo algum pertence às suas funções, o apelo em si é uma espécie de defesa legal que está de acordo com a lei divina, natural e toda humana, e não pode ser retirada por um governante. Portanto eu, irmão Martinho Lutero, da ordem dos frades de Santo Agostinho, de Wittenberg, também palestrante ordinário ali sobre o mesmo assunto, primeiro e principalmente para mim, venho diante de vocês, o notário público, como um homem conhecido e legal, em pé, e as testemunhas aqui presentes, com o motivo e a intenção de peticionar, apelar e buscar e receber uma notificação de apelação [apostolus]; no entanto, declarando antecipadamente com solene protesto que não pretendo dizer nada contra a única Santa Igreja Católica e Apostólica, que eu não tenho dúvidas de que é a senhora de todo o mundo e detém a proeminência; nem contra a autoridade da Santa Sé Apostólica, e o poder de nosso mais venerável e sábio Senhor, o Papa. No entanto, se algo for dito com menos exatidão e sem reverência - talvez por causa da incerteza [luhrico, lit. "escorregadio"] da língua, mas mais provavelmente por causa da irritação dos inimigos - estou muito pronto para corrigir isso. Aquele que age como o vigário de Deus na terra e a quem chamamos papa, desde que ele é um homem como nós, escolhido entre os homens, e é ele mesmo (como diz o Apóstolo) "cercado de enfermidades" [Heb. 5: 2], ele pode errar, pecar, mentir, ficar vazio. E ele não está livre dessa palavra geral de profecia: "Todo homem é um mentiroso." - E também não foi São Pedro, o primeiro e o mais sagrado de todos os pontífices, isento dessa enfermidade, mas sim com dissimulação censurável que ele se opôs. a verdade do Evangelho; de modo que com uma popa mas a mais sagrada repreensão do apóstolo Paulo sua obra teve que ser corrigida, como está escrito em Gálatas. E com este exemplo mais nobre mostrado à Igreja pelo Espírito Santo, e deixado nas Escrituras mais sagradas, nós que cremos em Cristo somos ensinados e estabelecidos. Se qualquer pontífice supremo cair por conta de enfermidade, o mesmo que ou como o de Pedro, e ensinar ou decretar qualquer coisa que possa se opor aos mandamentos divinos, não somente ele não deve ser obedecido, mas também com o apóstolo Paulo, ele pode resistir a ele. para o rosto dele; assim como a enfermidade da cabeça é aliviada pelos membros inferiores, com o cuidado leal de todo o corpo. Na memória presente e perpétua deste exemplo, aconteceu - não sem o especial propósito de Deus, como pode ser claramente percebido - que não somente São Pedro, mas também seu salutar censor Paulo, igualmente e de maneira semelhante, eram patronos e governantes. da Santa Igreja Romana. De modo que, na verdade, somos continuamente instruídos, não apenas por suas cartas, mas também pelo memorial substancial desse exemplo muito necessário e mais saudável, assim como os próprios líderes como nós, os membros. Mas, se for provido de qualquer poder dos poderosos, o Papa prevalecerá de tal forma que não se pode resistir a ele, resta certamente um meio, a saber, o referido recurso de apelação, pelo qual os oprimidos são aliviados. Por isso, também eu, irmão Martin Luther supracitado, recorrendo à maneira e intenção já mencionadas, afirmamos e declaramos que em nossa terra da Saxônia, antigamente, as indulgências eram proclamadas indiscretamente por certos comissários apostólicos (como alegavam). De modo que, a fim de sugar o dinheiro do povo, eles começaram a pregar na Igreja, porque não foi imposto por eles. Além disso, é certo, do parágrafo XXXV do Cânone Qualis, que no Purgatório não apenas o castigo, mas também a culpa é remetida. Mas a Igreja não pode remeter a culpa, assim como também não pode conceder graça. Quando confiei nessas autoridades, porque eu estava prestes a me opor às suas doutrinas vis e absurdas, à maneira de uma disputa, loucas com o amor pelo ganho, elas começaram pela primeira vez em público a declarar com ousadia desavergonhada que eu era um herege; depois, através de um certo mestre Mário do Perusium, fiscal procurador, para me acusar ao nosso mais venerável senhor, Leão X, como suspeito de heresia. Por fim, prometendo, através da influência do mesmo homem, uma comissão por me citar a presença dos mais reverendos senhores e padres, Jerônimo de Genúrio. Bispo de Asculani, ouvinte de causas à porta fechada, e Sylvester Prierias, senhor do palácio, fizeram com que eu fosse citado na cidade [de Roma] para ser examinado pessoalmente. Não consegui realizar uma viagem tão longa de Wittenberg, livre de complôs, nem podia permanecer em Roma a salvo, e estava fraco e frágil no corpo. Também os juízes acima mencionados eram suspeitos por mim por muitas razões; especialmente porque o reverendo padre Sylvester tem sido meu oponente, e já havia publicado um tratado contra mim, e ele também era menos instruído em letras sagradas do que o caso exigia. O Mestre Jerome, além disso, era mais instruído na lei do que na teologia, e justamente temia que ele estivesse prestes a concordar com a teologia Sylvestrine, e tratar este caso além da maneira de sua profissão. Por isso, pedi, através do mais ilustre príncipe. Lorde Frederick, Duque da Saxônia, Alto Marechal do Sacro Império Romano, Landgrave da Turíngia, Marquês de Misnia, que o caso seja cometido a pessoas que não são suspeitas, mas que são homens honrados e bons. Então eles, praticados em certa astúcia grosseira e boba, influenciaram o mais sagrado Lorde Leão, de modo que o caso foi transferido para eles mesmos, isto é, para a pessoa do mais reverendíssimo mestre Tomás, cardeal de São Sisto, depois na Alemanha, como o legado da Sé Apostólica. Ele era da ordem dos pregadores [dominicanos] e da facção tomista, daí um oponente-chefe, e seria de se esperar que facilmente proclamá-lo contra mim e por eles. Ou, o que equivale à mesma coisa, eu certamente ficaria alarmado com a visão deste juiz certas coisas absurdas, heréticas e blasfemas, resultando em desencaminhar as almas dos crentes e na suprema zombaria do poder da Igreja, especialmente no que diz respeito ao poder. do Papa sobre o Purgatório (como está contido em seu pequeno livro chamado "Uma breve nomeação"). Agora é certo que o Cônsul Abusionibus não tem poder algum sobre o Purgatório. Novamente, pela opinião universal de toda a Igreja e pelo consentimento geral de todos os homens instruídos, as indulgências nada mais são que remissões de uma penitência [satisfadionis poenitentialis] imposta pelo juiz [eclesiástico] de alguém. Como é claro no texto do Cânon Quod autem, a penitência imposta por um juiz eclesiástico não pode ser outra coisa senão obras de jejum, oração, esmolas, etc., e por isso não pode ser remetida pelas chaves do e recusar-se a aparecer, sendo assim culpado de contumácia. No entanto, confiando na verdade de Deus, cheguei a Augsburgo com muito trabalho e em meio a muitos perigos, e fui, de fato, gentilmente recebido pelo supracitado reverendo. Aqui meu protesto e compromisso foram negligenciados, nos quais eu me ofereci para responder em público ou em particular, perante um notário e testemunhas, e finalmente diante de quatro distintos homens presentes, do posto de conselheiros imperiais. De igual modo, apresentei a mim mesma e minhas palavras à Santa Sé Apostólica, e ao julgamento de quatro notáveis ​​universidades: Basileia, Freiburg, Louvain, por fim também àquele mais nobre pai de estudos [ou universidades, studiorum] Paris. [Depois de tudo isso] ele simplesmente me pediu para me retratar, nem estava disposto a me mostrar meus erros, nem por que razões ou autoridades o erro poderia ser reconhecido por mim. Naturalmente demasiadamente influenciado pelos irmãos de seu partido, e assumindo um aspecto de aspereza, em ameaças terríveis e muito cruéis ele me ameaçou com o poder de um certo Brief Apostólico, a menos que eu me retratasse com súplicas abjectas, e com promessas de ser ensinado e com pedidos de informação. Então ele ordenou que eu não voltasse antes de seu rosto. Vexado com esses problemas, eu então Recorreu de sua audácia injusta e violenta e fingiu comissionar, a nosso Santíssimo Senhor, Leão X, melhor informado, como está mais plenamente contido na programação desse apelo. Agora, embora esse apelo (como eu disse) tenha sido levianamente estimado, ainda não desejo nada até hoje, a não ser que meu erro me seja mostrado; quem quer que possa estabelecê-lo. Em relação a isso, afirmo uma segunda vez que estou pronto para me retratar, se me mostrar que falei alguma coisa errada. Finalmente, submeti toda a minha disputa ao supremo pontífice, de modo que não tenho mais nada a fazer nessas coisas do que esperar por julgamento, Recorreu de sua audácia injusta e violenta e fingiu comissionar, a nosso Santíssimo Senhor, Leão X, melhor informado, como está mais plenamente contido na programação desse apelo. Agora, embora esse apelo (como eu disse) tenha sido levianamente estimado, ainda não desejo nada até hoje, a não ser que meu erro me seja mostrado; quem quer que possa estabelecê-lo. Em relação a isso, afirmo uma segunda vez que estou pronto para me retratar, se me mostrar que falei alguma coisa errada. Finalmente, submeti toda a minha disputa ao supremo pontífice, de modo que não tenho mais nada a fazer nessas coisas do que esperar pelo julgamento, e isso estou esperando até agora. No entanto, como ouço, o mesmo mestre mais reverendo Tomás, cardeal de São Sisto, escreve ao mais ilustre príncipe, lorde Frederico, que são levados a cabo processos contra mim na Cúria Romana e que, pela autoridade de nosso próprio mais sagrado senhor [o papa], os juízes pre- tendidos levo o caso à minha condenação, não prestando atenção à minha obediência fiel e superabundante, com a grande dificuldade com que apareci em Augsburgo; nem cuidando da minha oferta mais honesta, na qual me apresentei para uma resposta pública ou privada; finalmente desprezando uma das ovelhas de Cristo, que humildemente pediu para ser ensinada a verdade e conduzida de volta do erro. De fato, sem uma audiência ou uma razão dada, com pura tirania e plenitude de poder, eles me pediram para relembrar a opinião que eu acredito da minha consciência ser a mais verdadeira, e desejam me enganar negando a fé de Cristo e a verdadeira compreensão de uma Escritura mais simples (tanto quanto minha consciência entende). O poder do Papa não é contra nem acima, mas por e sob a majestade da Escritura e da verdade; nem o papa recebeu poder para destruir as ovelhas, para lançá-las nas mandíbulas dos lobos, mas para lembrá-las da verdade, como convém a um pastor e bispo, o Vigário de Cristo. Por esta razão, sinto-me entristecido e sobrecarregado, pois vejo que de tal violência acontecerá que ninguém se atreverá a confessar o próprio Cristo, nem a pregar as Sagradas Escrituras em sua igreja; e para que eu também seja forçado a sair de uma fé e entendimento verdadeiro, racional e cristão, para opiniões vazias e mentirosas dos homens, e levado a fábulas que enganam o povo cristão. Portanto, desde o supracitado, nosso mais santo lorde Leão, não corretamente avisado, e acima das pretensas palavras, comissão e juízes, e sua citação e processo, e tudo o que se seguiu ou seguirá daí, e de qualquer que seja deles; e de qualquer excomunhão, suspensão e sentenças de interdito, condenações, punições e multas; e de quaisquer outras denúncias e declarações (como elas pretendem) de heresia e apostasia, através delas ou uma delas tentada, feita e planejada, ou para ser tentada, feita ou projetada; e da anulação dessas coisas, por assim dizer, por homens maus e injustos que são inteiramente tirânicos e violentos (sua honra e reverência sempre são exceção); também de quaisquer futuros problemas que possam vir a mim, tanto para mim como para todos e cada um dos meus partidários e aqueles que desejam ser meus adeptos; para que o Conselho se encontre legalmente e em um lugar seguro, ao qual eu ou um defensor delegado por mim pode ser livre para ir, e para ele ou para aqueles a quem posso ter direito, costume ou privilégio de chamar e apelar, nestes escritos eu chamo e apelo, uma primeira, uma segunda, uma terceira vez ; veemente, mais veemente, mais veementemente. Eu exijo que o aviso de apelo [apostolus] seja concedido a mim, se houver alguém que esteja disposto e seja capaz de concedê-lo a mim; e especialmente eu peço de você, mestre Notário, atestado. Eu protesto contra seguir este meu apelo pelo caminho da anulação, abuso, injustiça ou injustiça; e, além disso, como é meu direito, reservo para mim a opção de acrescentar, encurtar, alterar, corrigir e melhorar. E eu guardo para mim todo benefício da lei, e para meus adeptos e aqueles que desejam aderir a mim.


14)- CARTA DE MARTINHO LUTERO À JOHANNES STAUPITZ [20 de Fevereiro de 1519]


A Staupitz. 20 de Fevereiro de 1519 Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.


Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio. Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas, ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e, todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos. Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afaste do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura. Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus- lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi. Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia. Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro). Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício. Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a. Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.




15)-  DEBATE E DEFESA DO FREI MARTINHO LUTERO CONTRA AS ACUSAÇÕES DE JOÃO ECK [4 a 14 de Julho de 1519]


Frei Martinho Lutero saúda o distinto leitor!


Meu querido Eck está furioso, prezado leitor. Consagrou à Sé Apostólica outra folha de debate, cheia de sua fúria e de acusações contra mim, acrescentando às suas teses anteriores mais uma, fortemente irritada. Isto representa uma bela ocasião para responder de uma vez por todas aos seus ultrajes, se eu não tivesse receio de que isso poderia atrapalhar o futuro debate. Mas tudo tem seu tempo. Por ora basta. Aduzindo sentenças de vários santos pais, Eck acusou-me de inimigo da Igreja. Compreende isso da seguinte maneira, prezado leitor: com "Igreja" ele designa suas próprias opiniões e as de seus heróis que se empenharam pela causa das indulgências. Isso porque ele é um consagrador da Sé Apostólica e fala à maneira de seus supostos heróis, que usam as palavras da Escritura e dos pais assim como Anaxágoras lidava com os elementos. Depois de as dedicarem à Sé Apostólica, as palavras logo se transubstanciam a seu bel-prazer (a bem dizer: prodigiosamente), transformando-se de qualquer coisa em qualquer coisa. Prestam-se também para significar aquilo que sonham em delírio ou que fantasiam na impotência de sua inveja feminil. Finalmente, seus conhecimentos os abandonam de forma tão infeliz, que jamais compreendem direito nem mesmo aquilo que de bom aprenderam e, como diz o apóstolo, "não entendem nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem afirmações" [1 Tm 1.7], isto é, não sabem combinar predicado com sujeito nem sujeito com predicado numa sentença categórica. Esperamos que, no debate vindouro, ele nos apresente ainda outros testemunhos com a mesma habilidade, para que também as crianças possam se divertir. Eu havia esperado que Eck reconhecesse a limitação de sua cabeça através da carta de Erasmo, o mestre das ciências, e, depois, através da insuperável apologia do dr. Karlstadt. Porém a paciência de Eck supera tudo; mesmo que desagrade a todos os demais, basta-lhe agradar ao menos a si mesmo e a seus heróis. Mas que ele me difama como herege e boêmio, afirmando que estou reavivando cinzas velhas, etc. isto ele faz por sua modéstia ou por seu ofício de consagração, pela qual tudo que consagra está consagrado, não usando outro óleo senão o veneno de sua língua. Quero, porém (para não tolerar esse ultraje), que saibas, prezado leitor, que, no que tange à monarquia do pontífice romano, não desprezo o venerável consenso de tantos fiéis na Itália, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra e outros países. Somente uma coisa peço ao Senhor: que jamais permita que eu diga ou pense algo que agrade a Eck, tal como ele é agora; nem que, por causa do livre arbítrio, eu eventualmente exponha Cristo, o Filho de Deus, ao ridículo; nem que, por causa da Igreja Romana, eu negue que Cristo vive e reina na Índia e no Oriente; ou que - para propor também eu um enigma a esse festivo fazedor de enigmas - eu não volte a abrir, junto com Eck, a cloaca constantipolitana nem celebre novos martírios da Igreja por causa dos antigos homicídios da África. Para que não sejas prejudicado pelo escândalos de seu enigma envenenado, quero que saibas, estimado leitor, que alguns incluem entre os artigos de João Huss também aquele em que ele afirmou que a excelência papal do pontífice romano se deve ao imperador, o que também Platina escreve claramente. Eu, porém, expus que essa monarquia se prova por decretos pontificais, não imperiais. Assim, a própria Igreja Lateranense canta, a respeito do alcance de sua autoridade, que, tanto por decreto do papa quanto do imperador, ela é a mãe das Igrejas, etc. Esses versos são bem conhecidos. E agora? Necessariamente para Eck também essa Igreja seria hussita e estaria reavivando cinzas. Então, já que ela canta por ordem do papa, com a concordância dos cardeais, de toda Roma e da Igreja universal, não admira que Eck, enfastiado das cinzas velhas e em virtude de seu ofício de consagração, deseje dedicar à Cátedra Apostólica um novo holocausto, reduzindo a novas cinzas o papa, os cardeais e a própria Igreja Lateranense. Graças a Deus, resta ao menos um Eck de mentalidade católica, aquele singularíssimo perseguidor da singularidade, visto que todos os outros estão arruinados pelo veneno da Boêmia. Mas por que haveria de causar surpresa que os sofistas dessa espécie não conhecem os fatos históricos, uma vez que não entendem nem mesmo suas próprias sentenças categóricas? Eu naturalmente nunca tratei esse tema, nem pensei em debater sobre ele. Porém Eck já há muito tempo está ulcerado pelo mais profundo ódio contra mim. Ele sabe que essas sentenças são odiosas. Desesperando da possibilidade de vitória em outras coisas, ao menos neste ponto esperava provocar indignação contra mim, uma vez que aprendeu (como se diz) a bater no leãozinho ante os olhos do leão, fazendo de um debate em torno da verdade uma tragédia de ódio. Mas eles que acusem o quanto quiserem, consagrem suas adulações à Sé Apostólica, consagrem ao banquinho e ao tamborete; eles que consagrem também à caixa apostólica (visto que esta é o que mais tem a ver com a questão das indulgências e da monarquia); eles que fiquem manquejando ao redor do altar do seu Baal, clamem mais alto (porque ele é um deus, talvez esteja conversando, ou a caminho, ou numa estalagem, ou certamente está dormindo) para que ele acorde. Para mim é suficiente que contra Cristo a Sé Apostólica nada quer nem consegue. Nessa questão também não terei medo nem do papa nem do nome do papa, menos ainda dessas peninhas e bonecas. Somente a uma coisa aspiro: que o roubo do meu nome cristão não venha em prejuízo da puríssima doutrina de Cristo. Pois aqui não quero que alguém espere paciência de mim, não quero que Eck procure modéstia, seja sob o hábito preto, seja sob o branco[26]. Maldita seja a glória daquela ímpia clemência com a qual Acabe deixou escapar Ben-Hadade, inimigo de Israel. Pois aqui quero ser fortíssimo não apenas no morder (o que dói a Eck), mas também insuperável em devorar, para que possa devorar de uma só bocada (para falar com Isaias) os Silvestres e Civestres, os Caetanos e Ecks e o resto dos falsos irmãos que combatem a graça cristã. Eles que aterrorizem alguém outro com suas adulações e consagrações; Martinho despreza os sacerdotes e consagradores da Sé Apostólica. Quanto ao resto, veremos no debate e após ele. Porém também o dr. André Karlstadt, já há muito tempo vencedor sobre o erro de Eck, virá não como um soldado desertor, mas receberá confiantemente esse leão morto e por ele derrubado. Entrementes permitimos que a miserável consciência se alegre com a esperança simulada do triunfo e com a vâ jactância das ameaças. Por isso também eu acrescento às minhas teses uma décima terceira, oposta à cólera de Eck. Deus fará com que saia algo de bom do debate que Eck mancha com tanto mal, ódio e infâmia. Passa bem, caro leitor. Contra erros novos e velhos Martinho Lutero defenderá as seguintes teses na Universidade de Leipzig:


Lutero nega que Pedro tenha sido o chefe dos apóstolos; declara que a obediência eclesiástica não se baseia no direito divino, mas que foi introduzida pelas ordenações dos homens e do imperador. Nega que a Igreja foi construída sobre Pedro; “Sobre esta pedra” etc. E, embora eu lhe citasse Agostinho, Jerônimo, Ambrósio, Gregório, Cipriano, Crisóstomo, Leão e Bernardo, com Teófilo, contradisse a todos eles sem pestanejar; e disse que ficaria sozinho contra mil, embora não fosse apoiado por ninguém, porque somente Cristo é o fundamento da Igreja, pois nenhum homem pode pôr outro fundamento, defendendo ele então os gregos e os cismáticos, dizendo que, mesmo que esses não estejam sob a obediência ao papa, estão ainda salvos. (H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, pp. 290-291).


No que concerne às afirmações dos boêmios, disse ele que algumas de suas doutrinas condenadas no Concílio de Constança são muito cristãs e evangélicas. Por este crasso erro, ele afastou de si muitos que antes eram seus defensores. Entre outras coisas, quando o pressionei, dizendo: “Se o poder do papa é somente de direito humano e provém do consentimento dos crentes, donde vem o hábito de monge que vestes? De onde vens a licença de pregar e de ouvir confissões de teus paroquianos? etc.”, ele replicou que era seu desejo que não existisse ordem de mendicantes e disse ainda muitas outras coisas escandalosas e absurdas: que um concílio, visto constar de homens, pode errar; que não se prova pela Sagrada Escritura a existência de um purgatório, etc., - tudo isso verifiquei lendo a nossa disputa, visto que foi transcrita por relatores dignos de fé:

1. Toda pessoa peca diariamente, mas também faz penitência diariamente, como ensina Cristo: "Fazei penitência" [Mt 4.17], com exceção de um certo novo justo que não necessita de penitência; pois o celeste agricultor diariamente também limpa as videiras frutíferas. 2. Negar que a pessoa peca também ao fazer o bem, que o pecado venial é venial não por sua natureza, mas somente pela misericórdia de Deus, ou que também após o Batismo remanesce pecado na criança, significa calcar com os pés a Paulo e a Cristo de uma só vez. 3. Quem afirma que a boa obra ou a penitência começam com a aversão aos pecados, antes do amor à justiça, e que nisso não se peca, a essa pessoa contamos entre os hereges pelagianos, mas também provamos que ela comete uma tolice contra seu santo Aristóteles. 4. Deus transforma o castigo eterno em pena temporal, isto é, a de carregar a cruz. Os cânones ou os sacerdotes não têm qualquer poder de impor ou de tirar essa cruz, mesmo que, seduzidos por aduladores perniciosos, possam ter essa presunção. 5. Todo sacerdote deve absolver o penitente de castigo e culpa, ou então peca; da mesma forma peca o prelado superior se, sem causa razoabilíssima, reserva coisas ocultas, por mais que isso contrarie a prática da Igreja, isto é, dos aduladores. 6. Pode ser que as almas satisfaçam pelos pecados no purgatório; mas que Deus exige do moribundo mais do que morrer de boa vontade, é afirmado com a mais infundada temeridade, porque não pode ser provado de modo algum. 7. Revela que não sabe nem o que é fé, nem o que é contrição, nem o que é livre arbítrio quem balbucia que o livre arbítrio é senhor de seus atos, sejam bons, sejam maus, ou quem sonha que alguém é justificado não somente pela fé na Palavra, ou que a fé não é suprimida por um crime, qualquer que seja. 8. Certamente contraria a verdade e a razão [afirmar] que as pessoas que morrem a contragosto têm falta de amor e que, por isso, sofrem o horror do purgatório - mas só se verdade e razão forem a mesma coisa que a opinião dos pseudoteólogos. 9. Sabemos que os pseudoteólogos afirmam que as almas no purgatório estão certas de sua salvação e que a graça não é aumentada nelas, mas nos admiramos desses homens eruditíssimos por não poderem apresentar, sequer a um tolo, uma razão verossímil para esta sua fé. 10. É certo que o mérito de Cristo é o tesouro da Igreja e que os méritos dos santos nos ajudam; mas que ele seja um tesouro de indulgências, isso ninguém faz crer, a não ser um adulador sem-vergonha, os que se afastam da verdade e algumas práticas e usos inventados da Igreja. 11. É perder a razão afirmar que as indulgências são um bem para o cristão; na verdade, elas são um defeito da boa obra. O cristão deve rejeitar as indulgências por causa do abuso, pois o Senhor diz: "Por amor de mim apago as tuas iniquidades" [Is 43.25], não por amor do dinheiro. 12. Que o papa pode remitir todo castigo devido pelos pecados tanto nesta vida quanto na futura e que as indulgências são de proveito para quem não cometeu pecado grave, isso sonham sossegadamente os sofistas totalmente indoutos e os aduladores pestilentos, embora não possam demonstrá-lo sequer com um vestígio. 13. Demonstram que a igreja romana é superior a todas as outras a partir dos mais frios decretos dos pontífices romanos surgidos nos últimos 400 anos; contra esses, porém, estão as histórias comprovadas de 1.100 anos, o texto da Escritura Divina é o decreto do Concílio de Nicéia, de todos o mais sagrado. João Eck, relatório sobre o debate de Leipzig [1519]


16)- ANEXO - Os 30 erros de João Huss condenados pelo Concílio de Constança que Lutero contestou e defendeu:


1. A santa Igreja universal é única e a totalidade dos predestinados. E adiante segue: a santa Igreja universal é única, como somente um é o número de todos os predestinados. 2. Paulo nunca foi membro do demônio, se bem que tenha cometido atos semelhantes aos da igreja dos malignos. 3. Os não predestinados não fazem parte da Igreja, porque nenhum daqueles que a ela pertencem se separará dela ao fim, pois a caridade da predestinação que a reúne não cessará jamais [cf. 1 Co 13:8]. 4. As duas naturezas, a divindade e a humanidade, são um só Cristo. 5. O não predestinado, se bem que no presente possa às vezes estar em estado de graça, nunca faz parte da santa Igreja, enquanto o predestinado permanece sempre membro da Igreja, também se às vezes pode ser privado de uma graça adventícia, jamais todavia da graça da predestinação. 6. Se se entende a Igreja como assembleia dos predestinados, estejam ou não atualmente em estado de graça, ela é artigo de fé. 7. Pedro não foi e não é a cabeça da santa Igreja católica. 8. Os sacerdotes que vivem em pecado contaminam o poder sacerdotal e, como filhos infiéis, têm um conceito infiel dos sete sacramentos da Igreja, do poder das chaves, dos ofícios, das censuras, dos costumes, das cerimônias, das coisas sagradas, da veneração das relíquias, das indulgências, das ordens. 9. A dignidade papal teve origem no imperador, e a designação e a entronização do Papa têm sido realizadas pelo poder imperial. 10. Ninguém sem uma especial revelação pode razoavelmente afirmar, de si ou de um outro, que é cabeça de uma Igreja particular; e o Romano Pontífice não é a cabeça da Igreja de Roma. 11. Não se é obrigado a crer que algum Romano Pontífice seja a cabeça de alguma santa Igreja particular, se Deus não o tiver predestinado. 12. Ninguém faz as vezes de Cristo ou de Pedro se não o imitar nos costumes: nenhuma outra sequela, de fato, deve ser mais fiel. Do contrário, não se recebe de Deus o poder delegado, porque a conformidade dos costumes e a autoridade daquele que o delega são requeridos para o ofício de vigário. 13. O Papa não é o sucessor certo e verdadeiro de Pedro, príncipe dos apóstolos, se vive de modo contrário ao de Pedro; e se pratica a avareza, é o vigário de Judas Iscariotes. É igualmente evidente que os cardeais não são os sucessores certos e verdadeiros do colégio dos apóstolos de Cristo, se não conduzirem uma vida semelhante à dos Apóstolos, observando os mandamentos e os conselhos de nosso Senhor Jesus Cristo. 14. Alguns doutores afirmam que quem deve receber uma censura eclesiástica, mas não se quer corrigir, deve ser entregue ao braço secular. Eles seguem nisso incontestavelmente os sumos sacerdotes, os escribas e os fariseus, os quais, dizendo: “A nós não é permitido matar ninguém” [Jo 18:31], entregaram ao braço secular o Cristo, que não quis obedecer-lhes em tudo; e assim são homicidas mais culpados que Pilatos. 15. A obediência eclesiástica é uma obediência inventada pelos sacerdotes da Igreja contra a vontade expressa da Escritura. 16. A distinção imediata dos atos humanos consiste em que são virtuosos ou viciosos: se alguém é vicioso e faz algo, age como vicioso; se é virtuoso e faz algo, age como virtuoso. Pois assim como o vício, que é chamado delito ou pecado mortal, contamina de modo geral os atos do vicioso, assim a virtude vivifica todos os atos do virtuoso. 17. Os sacerdotes de Cristo que vivem habitualmente segundo a sua lei e que têm conhecimento da Escritura e o desejo de edificar o povo, devem pregar, não obstante uma pretensa excomunhão. E mais adiante: Se o Papa ou um outro superior manda a um sacerdote com estas disposições não pregar, o subordinado não deve obedecer. 18. Quem acede ao sacerdócio, recebe por mandato o ofício de pregar; e deve executar o mandato, não obstante uma pretensa excomunhão. 19. Com as censuras eclesiásticas da excomunhão, da suspensão e do interdito, o clero para sua própria exaltação subjuga o povo leigo, multiplica a cobiça, esconde a malícia e prepara a estrada do anticristo. Isso é sinal evidente de que provêm do anticristo tais censuras, que nos seus processos chamam fulminações e das quais o clero se serve principalmente contra os que denunciam a malícia do anticristo que o clero amplamente se tem apropriado. 20. Se o Papa é mau e sobretudo pré-conhecido por Deus como perdido, então, como o apóstolo Judas, é um demônio, um ladrão, um filho da perdição e não é a cabeça da santa Igreja militante, já que nem é membro dela. 21. A graça da predestinação é o laço que une indissoluvelmente o corpo da Igreja e cada um de seus membros a Cristo, a cabeça. 22. O Papa ou o prelado mau e pré-conhecido <por Deus como perdido> é falsamente chamado pastor; na realidade é ladrão e assaltante. 23. O Papa não deve ser chamado “santíssimo” nem mesmo em razão do ofício, porque então também o rei deveria chamar-se santíssimo pelo seu ofício, e os verdugos e os bandidos, santos. Mais: também o diabo deveria chamar-se santo, porque é servidor de Deus. 24. Se o Papa conduz uma vida contrária a Cristo, mesmo que tenha subido a sua função por uma eleição canônica e legítima segundo a constituição humana vigente, ele <de fato> estaria subindo por outra parte que por Cristo, mesmo se ascendesse pela eleição feita em primeira instância por Deus. Pois Judas Iscariotes, em regra e legitimamente eleito ao apostolado por Cristo Jesus, que é Deus, todavia subiu por outra parte ao redil das ovelhas. 25. A condenação dos 45 artigos de João Wyclif emitida pelos doutores é irracional, iníqua e malfeita; além disso, a causa por eles alegada é fingida, a saber, porque “nenhum deles é católico, mas são todos hereges ou errôneos ou escandalosos”. 26. Se os eleitores ou a maioria deles se declararam de acordo a viva voz sobre uma pessoa segundo os usos e costumes humanos, nem por isso ela é legitimamente eleita, ou nem por isso é verdadeiro e manifesto sucessor ou vigário do Apóstolo Pedro ou de um outro Apóstolo num ofício eclesiástico. Portanto, tenham os eleitores escolhidos bem ou mal, nós devemos crer naquilo que o eleito faz, pois quanto mais alguém trabalha meritoriamente para o progresso da Igreja, mais recebe poder de Deus para este fim. 27. Não existe o mínimo indício de que, para governar a Igreja nas coisas espirituais, deva haver uma única cabeça que sempre deve estar junto à Igreja militante e ser conservada. 28. Cristo governaria melhor a sua Igreja mediante seus verdadeiros discípulos espalhados sobre a terra, sem esses chefes monstruosos. 29. Os Apóstolos e os fiéis sacerdotes do Senhor administraram corajosamente a Igreja em tudo o que é necessário para a salvação, antes que fosse introduzida a função papal; e assim fariam até o dia do juízo se viesse a faltar o Papa, coisa bem possível. 30. Ninguém é senhor civil, nem prelado, nem bispo, se está em pecado mortal.










17)- BULA EXSURGE DOMINE DE LEÃO X - CONDENANDO OS 41 ERROS DE LUTERO DAS 95 TESES [15 de Junho de 1520]



Carta introdutória da bula Exsurge Domine



Erga-te, ó Senhor, e julga tua própria causa. Um javali selvagem invadiu tua vinha. Ergue-te, ó Pedro, e considera a causa da Santa Igreja Romana, a mãe de todas as igrejas e consagrada com teu sangue. Ergue-te, ó Paulo, que esclareceste e iluminaste a igreja com tua doutrina e com teu martírio. Erguei-vos, todos os santos, e toda a igreja universal, cuja interpretação das Escrituras tem sido atacada. Mal podemos expressar nossa tristeza, pelas antigas heresias que são agora revividas na Alemanha. Afligimo-nos ainda mais porque eles sempre estiveram na vanguarda da guerra contra a heresia. Nosso ofício pastoral não pode mais tolerar o vírus dos 41 erros que seguem. Não podemos mais permitir que a serpente rasteje pelo campo do Senhor. Os livros de Martinho Lutero que trazem esses erros devem ser examinados e queimados. Quanto a Martinho Lutero, ó bom Deus, para fazê-lo retroceder de tais erros, em que ato de amor...

Antes da Bula Exsurge, Domine ser publicada, corriam rumores de que Lutero seria, ou já se encontrava excomungado da Igreja Romana. Roland H. Bainton, Cativo à Palavra – a vida de Martinho Lutero, pp. 154-155. 21 Bula Exsurge Domine, 15 jun. 1520 Martinho Lutero, que com suas 95 teses (cf. *1447°) encontrou ressonância, foi acusado e convocado a Roma já em nov. 1517. Pouco depois, Leão X confiou ao Cardeal Caetano de Vio a tarefa de induzir Lutero a uma retratação, mas nem o encontro entre eles em out. 1518 em Augsburg, nem o debate, em Leipzig, jun.-jul. 1519, entre os reformadores Lutero e Karlstadt e o campeão do catolicismo João Eck, levaram a um acordo. Depois que João Eck foi chamado novamente a Roma, foi aberto um procedimento contra Lutero (jan.- abr. 1520). Entre outros, as universidades de Colônia e de Lovaina contribuíram com seus votos (DuPIA 1/II [1728] 358-361; cf. a Responsio lutheriana do ano 1520, ed. de Weimar 6 [1888] 170-195). Já que Lutero não retratava as suas doutrinas e em 10 dez. 1520 queimou em público a Bula Exsurge Domine, foi excomungado em 3 jan. 1521, com a Bula Decet Romanum Pontificem (BullTau 5, 761a-764a / BullCocq 3 III, 493b-495b). As proposições na bula reproduzem normalmente as palavras de Lutero com exatidão. A indicação dos lugares vem precipuamente de H. Roos, Die Quellen der Bulle “Exsurge Domine”, in: J. Auer – H. Volk (ed.), Theologie in Geschichte und Gegenwart (Festschrift M. Schmaus; München 1957) 909-926. Em vista da simplicidade, as fontes das diveresas proposições são indicadas com siglas, seguidas da indicação, entre colchetes, da edição crítica D. Martin Luthers Werke (Weimar 1883ss). Denzinger-Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, pp. 388-392. 22 Roland H. Bainton, Cativo à Palavra – a vida de Martinho Lutero, pp. 153-154.

paternal nos omitimos? Não lhe oferecemos um salvo-conduto e dinheiro para a jornada?E ele teve a insensatez de apelar a um concílio futuro, apesar de nossos predecessores, Pio II e Júlio II, terem decidido que tais apelos merecem as penas por heresia. Agora, portanto, concedemos a Martinho o prazo de sessenta dias para se submeter, a contar da data da publicação desta bula em seu distrito. Qualquer um que ouse desrespeitar nossa excomunhão e anátema enfrentará a ira do Deus todo-poderoso e dos apóstolos Pedro e Paulo.


Os 41 erros de Martinho Lutero:


1. É sentença herética, porém frequente, que os sacramentos da Nova Aliança dão a graça justificante àqueles que não lhe põem obstáculo.
2. Negar que o pecado permanece na criança depois do batismo significa desprezar simultaneamente Paulo e Cristo.
3. O estopim do pecado, também se não há nenhum pecado atual, retém a alma que sai do corpo do ingresso no céu.
4. A caridade imperfeita do moribundo traz necessariamente consigo um grande temor, que, só de per si, é suficiente para contrair a pena do purgatório e impede a entrada no reino.
5. Que as partes da confissão sejam três: contrição, confissão e satisfação, não está fundamentado na Sagrada Escritura nem nos antigos santos doutores cristãos.
6. A contrição suscitada pelo exame, pela recapitulação e pela detestação dos pecados, com a qual, na amargura de sua alma, a pessoa reflete sobre os anos de sua vida [cf. Is 38,15], ponderando a gravidade, o grande número, a torpeza dos pecados, a perda da felicidade eterna e consequentemente a eterna condenação, tal contrição torna hipócrita, até mais pecador ainda.
7. Muito verdadeiro e bem superior à doutrina que até hoje todos propõem sobre a contrição é o provérbio: “Não mais fazê-lo é a suma penitência; a melhor penitência, uma vida nova”.
8. Não deves presumir de modo algum confessar os pecados veniais e nem mesmo todos os mortais, porque é impossível que conheças todos os pecados mortais. Por este motivo na Igreja primitiva se confessavam somente os pecados mortais manifestos.
9. Quando queremos confessar tudo de modo completo, não fazemos outra coisa senão isto, que não queremos deixar à misericórdia de Deus nada para perdoar.
10. A ninguém são perdoados os pecados se não crê que lhe são perdoados pelo sacerdote que absolve; antes, o pecado permaneceria se ele não o acreditasse perdoado: de fato, não bastam a remissão do pecado e o dom da graça, mas é preciso também crer que foi perdoado.
11. Não deves confiar de modo algum que sejas absolvido pela tua contrição, mas pela palavra de Cristo: “Tudo o que desligares” etc. [Mt 16,19]. Nisto, eu digo, confia: se obtiveste a absolvição do sacerdote e crês firmemente que foste absolvido, terás a absolvição de verdade, seja qual for a contrição.
12. Se, por um absurdo, aquele que se confessa não estivesse contrito, ou então o sacerdote não absolvesse com seriedade, mas por brincadeira, se, todavia, ele se crê absolvido, com toda certeza estará absolvido.
13. No sacramento da penitência e na remissão da culpa, o Papa ou o bispo não fazem nada a mais que um simples sacerdote: mais, onde não houver sacerdote, um simples cristão pode fazer o mesmo, mesmo que fosse mulher ou criança.
14. Ninguém deve responder ao sacerdote se está arrependido, e o sacerdote não o deve perguntar.
15. É grande o erro daqueles que se apresentam ao sacramento da Eucaristia confiando no fato de se terem confessado, de não ter consciência de nenhum pecado mortal, de terem feito, antes, orações pessoais e preparatórias: todos estes comem e bebem a própria condenação. Mas, se creem e confiam que conseguirão a graça, esta fé basta para torná-los puros e dignos.
16. Parece aconselhável que a Igreja determine, em concílio geral, que os leigos devem comungar sob as duas espécies; e os boêmios, que comungam sob as duas espécies, não são hereges, mas cismáticos.
17. Os tesouros da Igreja, de onde o Papa concede as indulgências, não são os méritos de Cristo e dos Santos.
18. As indulgências são piedosos enganos dos fiéis e diminuições das boas obras; e são a contar entre as coisas que são permitidas, mas não entre as que são úteis [cf. 1 Cor 6,12; 10,23].
19. As indulgências, para aqueles que as adquirem verdadeiramente, não têm valor para a remissão da pena devida à justiça divina pelos pecados atuais.
20. Enganam-se aqueles que creem que as indulgências são salutares e úteis para o bem do espírito.
21. As indulgências são necessárias só para as culpas públicas e são no sentido próprio concedidas somente aos duros de coração e aos insensíveis.
22. Para seis categorias de homens as indulgências não são nem necessárias nem úteis, a saber, para os mortos ou os moribundos, para os doentes, para os legitimamente impedidos, para aqueles que não cometeram pecados, para aqueles que cometeram pecados, mas não públicos, para aqueles que fazem coisas melhores.
23. As excomunhões são somente penas exteriores e não privam o homem das comuns orações espirituais da Igreja.
24. É preciso ensinar aos cristãos mais a amar a excomunhão que a temê-la.
25. O Romano Pontífice, sucessor de Pedro, não é o vigário de Cristo à testa de todas as Igrejas do mundo inteiro que o próprio Cristo constituiu na pessoa do bem-aventurado Pedro.
26. A palavra de Cristo a Pedro: “Tudo o que desligares sobre a terra” etc. [Mt 16,19] se estende somente às coisas ligadas por Pedro mesmo.
27. É certo que não está de todo na mão da Igreja ou do Papa estabelecer os artigos de fé e menos ainda as leis concernentes à moral ou às boas obras.
28. Mesmo se o Papa com uma grande parte da Igreja pensasse de tal ou tal maneira e sem entrar no erro, ainda não seria pecado ou heresia pensar o contrário, sobretudo em coisas não necessárias para a salvação, até que um concílio universal reprove uma e aprove a outra opinião.
29. Está aberto para nós o caminho para esvaziar a autoridade dos concílios e contradizer livremente as coisas que fizeram, para julgar os seus decretos e confessar com confiança qualquer coisa que pareça verdadeira, pouco importa que tenha sido aprovada ou reprovado por algum concílio.
30. Alguns artigos de João Huss condenados no Concílio de Constança são cristianíssimos, muito verdadeiros e evangélicos, e nem mesmo a Igreja universal os poderia condenar.
31. Em toda boa obra o justo peca.
32. A boa obra feita do melhor modo é pecado venial.
33. É contra a vontade do Espírito que os hereges sejam queimados.
34. Combater contra os turcos é opor-se a Deus, que visita as nossas iniquidades por meio deles.
35. Por causa do secretíssimo vício da soberba, ninguém tem certeza de não estar sempre pecando mortalmente.
36. Depois do pecado de Adão, o livre-arbítrio o é só de nome; e enquanto faz o que é de sua índole, peca mortalmente.
37. O purgatório não pode ser provado mediante a Sagrada Escritura contida no cânon.
38. As almas do purgatório não estão seguras da própria salvação, ao menos nem todas; e não está provado por nenhum argumento racional, nem pela Escritura, que elas se encontram fora da condição de merecer a caridade ou de crescer nela.
39. As almas do purgatório pecam de modo contínuo sempre que procuram repouso e têm horror das penas.
40. As almas libertadas do purgatório pelos sufrágios dos que estão vivos gozam menor felicidade que se tivessem cumprido a satisfação por si mesmas.
41. Os prelados eclesiásticos e os príncipes seculares não fariam mal se eliminassem todas as sacolas da mendicância1. [Censura:] Todos e cada um dos artigos ou erros acima elencados, Nós os condenamos, afastamos e de todo rejeitamos, respectivamente como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos para os ouvidos piedosos ou como enganando as mentes dos simples e contrários à fé católica.


18)-  CARTA DE LEÃO X A FREDERICO, O SÁBIO [8 de Julho de 1520]


Amado filho, rejubilamo-nos por não teres jamais demonstrado favor algum àquele filho da iniquidade, Martinho Lutero. Não sabemos se isso se deve mais à tua sagacidade ou à tua piedade. Esse Lutero apoia os boêmios e os turcos, lamenta a punição de hereges, desdenha os escritos dos santos doutores, os decretos dos concílios ecumênicos e as ordens dos pontífices romanos e não dá crédito à opinião de ninguém, a não ser sua própria, o que nenhum herege jamais ousou fazer. Não podemos tolerar que a ovelha sarnenta continue a infectar o rebanho. Convocamos, portanto, um conclave de veneráveis irmãos. O Espírito Santo também estava presente, pois nesses casos ele nunca se ausenta de nossa Santa Sé. Escrevemos uma bula, selada com chumbo, na qual, dentre os inúmeros erros desse homem, selecionamos aqueles em que ele perverte a fé, seduz o simplório e afrouxa os vínculos de obediência, comedimento e humildade. Quanto aos insultos dos quais ele se gaba contra nossa Santa Sé, nós os entregamos a Deus. Exortamos-te para que o faças voltar à sanidade e receber nossa clemência. Caso ele persista em loucura, prende-o. Assinado sob o selo do anel do Pescador, no dia 8 de Julho de 1520.




19)-  CARTA DE LUTERO AO PAPA LEÃO X [6 de Setembro de 1520]


Martinho Lutero saúda Leão X, Pontífice Romano, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém. [Vivendo] entre os monstros desta época, com os quais já pelo terceiro ano me ocupo e luto, às vezes sou obrigado a dirigir o olhar e a recordar-me também de ti, Beatíssimo Pai Leão. E mais: como aqui e ali tu és considerado a única causa de minha luta, não posso jamais deixar de me lembrar de li. E certo que a injustificada fúria de teus ímpios aduladores me coagiu a apelar de tua sé a um futuro concilio, em nada respeitando as vaníssimas disposições de teus predecessores Pio e Júlio, que, com estulta tirania, o proíbem. Não obstante, entrementes jamais alienei meu ânimo de Tua Beatitude ao ponto de não desejar, com todas as minhas forças, o melhor para ti e para tua sé e de não rogar a Deus por isso, com diligência e com preces gemebundas, tanto quanto pude. É verdade que comecei a quase desprezar e a triunfar sobre os que até agora tentaram me aterrorizar com a majestade de tua autoridade e de teu nome. Vejo, contudo, que resta uma coisa que não posso desdenhar e que me levou a voltar a escrever a Tua Beatitude: é de meu conhecimento que me acusam e me imputam como grave falta minha temeridade, devido à qual julgam que não poupei nem sequer tua pessoa. Eu, porém — para tratar do assunto abertamente —, estou cônscio de haver dito tão- somente coisas magníficas e ótimas a teu respeito onde quer que tive de fazer menção de tua pessoa. Mas se houvesse agido de outra forma, eu mesmo não poderia aprová-lo de modo algum e estaria inteiramente de acordo com o juízo que aqueles fazem a meu respeito. Neste caso, não há nada que eu faria com maior prazer do que retratar essa minha temeridade e impiedade. Chamei-te de Daniel na Babilônia, e qualquer leitor percebe perfeitamente com quão egrégio zelo defendi tua insigne inocência contra teu contaminador Silvestre. Com efeito, tua reputação e a fama de tua vida irrepreensível, cantadas em todo o orbe pelos escritos de tantos grandes homens, são por demais célebres e augustas para serem atacadas de qualquer maneira por qualquer pessoa, por maior que seja seu renome. Não sou tolo ao ponto de ultrajar a quem todos só fazem louvar. Sim, sempre procurei e sempre procurarei não ultrajar nem mesmo as pessoas que a opinião pública desonra. Não me deleito com o crime de ninguém, pois eu mesmo estou suficientemente cônscio da grande trave que está em meu próprio olho e não posso ser o primeiro a atirar uma pedra na adúltera. É certo que, de modo geral, investi acremente contra doutrinas ímpias e mordi os adversários de uma maneira nada indolente, não por causa de seus maus costumes, mas por causa de sua impiedade. E não me arrependo disso, tanto assim que resolvi, desprezando o juízo dos seres humanos, perseverar nesse zelo veemente, a exemplo de Cristo que, por causa de seu zelo, chama seus inimigos de raça de víboras, cegos, hipócritas, filhos do diabo. E Paulo acusa o mago de filho do diabo, cheio de todo dolo e malícia, a alguns chama de cães, enganadores, falsificadores. Se aceitássemos o juízo desses ouvintes delicados, ninguém seria mais mordaz e imodesto do que Paulo. Quem é mais mordaz do que os profetas? Realmente, a vesana multidão dos aduladores tornou os ouvidos deste século tão delicados que, tão logo sentimos que não somos aprovados, clamamos que estamos sendo mordidos, e quando não podemos repelir a verdade com outra desculpa, fugimos sob o pretexto da mordacidade, da impaciência, da imodéstia. De que serve o sal se não morde? De que serve o fio da espada se não corta? "Maldito o homem que fizer a obra do Senhor fraudulentamente." [Jr 48.10.] Por esta razão, excelentíssimo Leão, rogo que me consideres desculpado com esta carta e te persuadas de que jamais pensei nada de mal a respeito de tua pessoa, de que sou alguém que te deseja o melhor em eternidade e de que não tenho contenda com ninguém acerca de costumes, mas unicamente acerca da palavra da verdade. Em todas as outras coisas cederei a qualquer um, porém não posso nem quero abandonar e negar a palavra. Quem tem outra opinião a meu respeito ou entende meus [escritos] de outra forma não tem uma opinião correta nem entende verdadeiramente. No entanto, eu realmente repeli tua Sé, que se chama de Cúria Romana. Ora, nem tu nem qualquer outra pessoa pode negar que ela é mais corrupta do que qualquer Babilônia e Sodoma. Tanto quanto compreendo, ela é de unia impiedade inteiramente deplorável, sem esperanças e notória. Fiquei indignado com o fato de que se escarnece do povo cristão sob teu nome e sob o pretexto da Igreja Romana. E assim resisti e resistirei enquanto o espírito da fé viver em mim. Não que eu pretenda o impossível e espere que apenas graças a mim alguma coisa seja promovida nessa confusíssima Babilônia, visto que me combatem tantos aduladores furiosos. Reconheço, porém, que estou em dívida com meus irmãos, a quem devo aconselhar para que um menor número deles seja arruinado pelas pestes romanas ou sejam arruinados de uma forma menos grave. Com efeito, tu mesmo não ignoras que já há muitos anos não parte de Roma e inunda o orbe outra coisa senão devastação dos bens, corpos e almas, bem como péssimos exemplos das piores coisas. Pois para todas essas coisas são mais claras do que a luz, e a Igreja Romana, outrora a mais santa de todas, se transformou num licenciosíssimo antro de salteadores, no lupanar mais impudente de todos, no reino do pecado, da morte e do inferno, de modo que nem o anticristo, se viesse, poderia cogitar algo para acrescem ai à maldade.Neste meio tempo, tu, Leão, estás sentado como um cordeiro em meio aos lobos, como Daniel em meio aos leões, e moras, com Ezequiel, entre escorpiões. O que podes tu sozinho opor a esses monstros? Ainda que juntasses a ti três ou quatro cardeais eruditíssimos e ótimos, o que seriam eles entre tantos [outros]? Todos vós morreríeis envenenados antes que vos antecipásseis estatuindo [um decreto] para remediar a situação. A Cúria Romana está perdida. A ira de Deus a atingiu até o fim. Odeia os concílios, tem medo de ser reformada, não pode mitigar o furor de sua impiedade e cumpre o epitáfio de sua mãe, a respeito da qual é dito: "Curamos Babilônia, e ela não sarou; abandonemo-la." [Jr 51.9.] É certo que teria sido obrigação tua e de teus cardeais tratar esses males, mas essa podagra se ri da mão saradora, e nem o carro nem o cavalo obedecem às rédeas. Movido por esse sentimento, sempre Iamentei, excelentíssimo Leão, que foste feito pontífice nesta época, pois eras digno de tempos melhores. Já a Cúria Romana não merece a ti nem pessoas semelhantes, e sim ao próprio Satanás, que, na verdade, reina mais do que tu nessa Babilônia. Oxalá renunciasses àquilo que teus inimigos depravados jactam ser tua glória e vivesses de uma modesta subsistência sacerdotal própria ou de herança paterna! Jactar-se dessa glória merecem unicamente os iscariotes, filhos da perdição. O que fazes na Cúria, estimado Leão? Somente isto: quanto mais celerado e execrável for alguém, com tanto maior êxito usará teu nome e tua autoridade para arruinar os bens e as almas, para multiplicar os crimes e para oprimir a fé e a verdade, bem como toda a Igreja de Deus. Ó infelicíssimo Leão, realmente estás sentado num sólio perigosíssimo! Digo-te a verdade porque quero o teu bem. Pois se Bernardo se compadece de seu Eugênio, embora até então a Sé Romana imperasse com melhor esperança (se bem que também naquela época era corruptíssima), por que não haveríamos nós de queixar-nos — nós que, em 300 anos, tivemos tamanho acréscimo de corrupção e perdição? Não é verdade que sob este vasto céu não há nada mais corrupto, pestilento e odioso do que a Cúria Romana? Com efeito, suplanta incomparavelmente a impiedade dos turcos, de modo que ela, que antigamente era a porta do céu, em realidade agora é uma boca aberta do inferno, uma boca que não pode ser fechada por causa da ira de Deus que acossa. Resta apenas uma possibilidade a nós, míseros que somos: a de poder chamar alguns de volta e salvá-los dessa bocarra romana, como disse. Vê, meu Pai Leão, com que desígnio e por que razão ataquei violentamente essa Sé pestilenta. Com efeito, tão pouco me propus maltratar tua pessoa, que esperei que até mereceria teu reconhecimento e obraria por tua salvação se arremetesse estrênua e acremente contra esse teu cárcere, sim, contra esse teu inferno. Pois aproveitará a ti, a tua salvação e a muitos outros contigo Indo o que o ímpeto de todas as inteligências possa realizar contra a confusão dessa ímpia Cúria. Quem faz mal a ela faz teu ofício; quem a execra de todos os modos glorifica a Cristo; em suma: quem não é romano é cristão. No entanto, para falar mais amplamente, [digo ainda que] jamais tive o propósito de investir contra a Cúria Romana ou debater sobre qualquer coisa a ela relacionada. Ao ver que todos os remédios para salvá-la eram sem esperança, desprezei-a e, dando-lhe termo de divórcio, disse-lhe: "Que o sórdido continue sendo sórdido, e que o imundo continue sendo imundo." [Ap 22.11]. Dediquei-me a plácidos e quietos estudos das Sagradas Escrituras, para, através deles, ser útil aos irmãos que me cercam. Quando eu tinha feito algum progresso nisto, Satanás abriu seus olhos e estimulou seu servo João Eck, insigne adversário de Cristo, com um desenfreado desejo de glória, para arrastar-me a um debate com o qual eu não contava, apanhando-me numa palavrinha — que me escapara de passagem — a respeito do primado da Igreja Romana. Aqui aquele vaidoso Traso, espumando e rangendo os dentes, jactava-se de que tudo ousaria em favor da glória de Deus e da honra da santa Sé Apostólica. Inflado [com a possibilidade] de abusar de teu poder, nada esperava com maior certeza do que uma vitória. Ele buscava não tanto o primado de Pedro quanto seu próprio primado entre os teólogos desta época. Julgava que, para esta finalidade, um triunfo sobre Lutero teria não pouca importância. Quando [o debate] acabou mal para o sofista, uma fúria incrível exasperou o homem, pois achava que tão-somente ele era culpado pelo fato de que a infâmia romana veio à luz por meu intermédio. Rogo-te, excelente Leão, que me permitas defender aqui uma vez minha própria causa e acusar teus verdadeiros inimigos. Suponho que seja de teu conhecimento o que comigo tratou o cardeal de S. Sixto, teu legado, um homem imprudente e infeliz, mais ainda: infiel. Quando coloquei em suas mãos — por reverência a teu nome — a mim e toda a minha causa, ele não tratou de estabelecer a paz, o que poderia ter feito com uma única palavrinha, visto que, naquela ocasião, eu prometi guardar silêncio e pôr um fim à causa se meus adversários recebessem a mesma ordem. Entretanto, o homem da glória, não contente com esse acordo, começou a justificar os adversários, a dar-lhes [plena] liberdade e a ordenar que eu me retratasse, o que absoluta mente não fazia parte de seu mandato. Aqui, quando as coisas estavam em ótimo estado, sua importuna tirania fez com que piorassem muito. Por isso, toda a culpa por tudo o que se seguiu não é de Lutero, mas de Caetano, que não permitiu que eu me calasse e ficasse quieto, o que, naquela ocasião, pedi com todas as forças. Que mais deveria eu ter feito? Seguiu-se Carlos von Miltitz — também ele um núncio de Tua Beatitude —, que, com muito e variado esforço, correndo e tornando a correr para lá e para cá e nada omitindo que contribuísse para reparar o estado da questão (que Caetano havia turbado por sua inconsideração e soberba), finalmente conseguiu — também com o auxílio do ilustríssimo príncipe-eleitor Frederico falar comigo pessoalmente uma e outra vez. Mais uma vez não resisti a teu nome, disposto a silenciar e também a aceitar como árbitro ou o arcebispo de Trier ou o bispo de Naumburgo. Assim foi feito e impetrado. Enquanto essas coisas estavam em andamento com boas perspectivas, eis que leu outro e maior inimigo, Eck, atacou com o Debate de Leipzig, que tinha empreendi do contra o Dr. Karlstadt. Quando surgiu uma nova questão acerca do primado do papa, ele inesperadamente voltou suas armas contra mim e destruiu completamente o acordo de paz. Entrementes, Carlos von Miltitz esperava. O debate foi feito, os árbitros foram escolhidos, mas também aqui não se chegou a uma decisão. Isto não é de admirar, visto que, por causa das mentiras, simulações e ardis de Eck, tudo em toda parte estava sobremodo turbado, exulcerado e confundido. Assim sendo, para onde quer que se inclinasse o veredito, teria surgido um incêndio maior, pois ele buscava a glória, não a verdade. Também aqui não omiti nada do que eu deveria ter feito. Confesso que nessa ocasião veio à luz não pequena porção das corruptelas romanas. Contudo, se alguma falta foi cometida nisto, é culpa de Eck, que assumiu um encargo que está acima de suas forças. Enquanto persegue sua própria glória feito um louco, revela a ignomínia romana a todo o mundo. Ele é aquele inimigo teu, meu Leão, ou melhor, de tua Cúria. Do exemplo deste único homem podemos aprender que não há inimigo mais pernicioso que o adulador. Com efeito, que promoveu ele com sua adulação senão um mal que nem mesmo um rei teria podido promover? Pois hoje em dia o nome da Cúria Romana cheira mal no mundo, e a autoridade papal enlanguesce; a famosa ignorância tem má reputação. Nada disso chegaria aos nossos ouvidos se Eck não tivesse perturbado o plano de paz que Carlos e eu fizemos. Ele mesmo percebe isto claramente agora, indignando-se, tarde demais e em vão, com a publicação de meus escritos. Ele deveria ter pensado nisso quando, como um cavalo relinchante, buscava insanamente a glória e não perseguia outra coisa senão seu próprio interesse contra ti, ainda que com o máximo perigo para ti. O homem vaníssimo esperava que eu pararia e me calaria por temor a teu nome, pois não creio que sua presunção se devia a sua inteligência e erudição. Agora que vê que confio muito e [continuo a] falar, ele se arrepende tarde demais de sua temeridade, compreendendo — se é que compreende que há alguém no céu que resiste aos soberbos e humilha os presunçosos. Assim, pois, como através desse debate nada conseguimos senão uma maior confusão da causa romana, pela terceira vez Carlos von Miltitz se dirigiu aos pais da ordem congregados em capítulo e pediu conselho para apaziguar a controvérsia, que já estava extremamente disturbada e perigosa. Visto que, com o favor de Deus, não havia esperança de proceder contra mim pela força, enviaram a mim alguns dos mais célebres deles, que pediram que eu pelo menos honrasse a pessoa de Tua Beatitude e, numa carta humilde, alegasse como escusa minha inocência e a tua. [Disseram que] a questão ainda não estava num estado de extremo desespero, se Leão X, por sua inata bondade, a tomasse em suas mãos. Como eu sempre ofereci e desejei a paz, para dedicar-me a estudos mais plácidos e úteis, e, contra isto mesmo, fiz tumulto com tão grande paixão para conter, através da magnitude e do ímpeto das palavras e da inteligência, os que me pareciam muitíssimo inferiores a mim, não só cedi de bom grado, mas também o aceitei com alegria e gratidão como um gratíssimo benefício, se fosse conveniente para satisfazer nossa esperança. Assim venho, Beatíssimo Pai, e ainda prostrado rogo que, se possível, intervenhas e ponhas um freio a esses aduladores, que são inimigos da paz enquanto simulam paz. Mas que ninguém presuma que eu vá me retratar, Beatíssimo Pai, a menos que prefira envolver a questão num turbilhão ainda maior. Além disso, não admito leis de interpretação da palavra de Deus, pois esta, que ensina a liberdade de todas as outras coisas, não deve estar presa. Salvo estas duas coisas, nada há que eu não possa fazer e sofrer e que não queira fazer e sofrer com a maior boa vontade. Odeio contenções. Não provocarei ninguém, mas, em troca, não quero ser provocado. Se, porém, for provocado, como Cristo é meu mestre, não ficarei mudo. Tua Beatitude poderá, chamando a si e extinguindo essas contenções com uma palavra breve e fácil, ordenar que ambas as partes guardem silêncio e paz. É isto o que sempre desejei ouvir. Por conseguinte, meu pai Leão, toma cuidado para não dar ouvidos a essas sereias, que não fazem de ti um simples ser humano, mas um semideus, de modo que possas ordenar e exigir o que quiseres. Não acontecerá assim, e não prevalecerás. És o servo dos servos e estás, mais que todas as pessoas, numa posição misérrima e perigosíssima. Não te deixes enganar pelos que fazem de conta que tu és o senhor do mundo, que não permitem que alguém seja cristão sem [submeter-se] a tua autoridade e tagarelam que tens poder sobre o céu, o inferno e o purgatório. Eles são teus inimigos e procuram causar a perdição de tua alma, como diz Isaías: "Ó povo meu, os que te chamam de bem-aventurado são os que te enganam." [Is 3.12] Erram os que te elevam acima de um concilio e da Igreja universal. Erram os que atribuem unicamente a ti o direito de interpretar a Escritura. Pois eles procuram estatuir todas as suas próprias impiedades na Igreja sob teu nome, e, infelizmente, através deles Satanás fez muito progresso sob teus predecessores. Em suma: não creias em ninguém que te exalta, mas sim em quem te humilha. Pois este é o juízo de Deus: "Depôs os poderosos do trono e exaltou os humildes." [Lc 1.52.] Vê quão diferente é Cristo de seus sucessores, embora todos queiram ser vigários dele. E temo que de fato muitos deles sejam vigários dele com excessiva seriedade. Pois um vigário é vigário quando o chefe está ausente. Se o pontífice governa quando Cristo está ausente e não habita no coração dele, que outra coisa é senão vigário de Cristo? Ora, o que é então essa Igreja senão uma multidão sem Cristo? O que, porém, é tal vigário senão um anticristo e um ídolo? Quão mais corretamente [procedem] os apóstolos, que se denominam servos do Cristo presente, e não vigários do Cristo ausente! Talvez eu seja impudente por parecer ensinar tão grande sumidade, da qual todos precisam aprender e da qual, como jactam tuas pestilências, os tronos dos juízes recebem a sentença. Sigo o exemplo de São Bernardo no livrinho Da consideração, dirigido ao papa Eugênio, livrinho este que todo pontífice deveria saber de cor. E não faço isso com a intenção de ensinar, mas por dever de uma solicitude pura e fiel, que nos obriga a nos preocupar com nossos próximos em todas as coisas, mesmo nas que são seguras, e não permite considerar a dignidade ou indignidade, dando atenção tão-somente aos perigos e às vantagens dos outros. Como sei que és revolvido e agitado pelas ondas em Roma, isto é, em alto-mar, acossado por infinitos perigos por todos os lados, e trabalhas em tal situação de miséria, que necessitas também da menor ajuda de qualquer um dos menores irmãos, não me parece absurdo se eu esquecer de tua majestade enquanto cumpro um dever da caridade. Não quero adular numa questão tão séria e perigosa. Se não entenderem que, nisso, sou teu amigo e mais do que sujeito a ti, há alguém que entende e julga. Por fim, para não chegar de mãos vazias, Beatíssimo Pai, trago comigo este pequeno tratado, publicado sob teu nome, como um auspício da paz a ser feita e de boa esperança. Nele podes provar com que estudos eu preferiria e poderia ocupar-me de modo mais fecundo, se teus ímpios aduladores o permitissem e tivessem permitido até agora. É uma coisa pequena, se se considera o volume. No entanto, a menos que eu me engane, é a suma da vida cristã exposta resumidamente, se se capta o sentido. Pobre que sou, não tenho outra coisa com que obsequiar-te, e tu não precisas ser enriquecido senão por um obséquio espiritual. Com isto encomendo a mim mesmo à Tua Paternidade e Beatitude, que o Senhor Jesus preserve perpetuamente. Amém. Wittenberg, 6 de setembro de 1520.


20)- CONTRA A EXECRÁVEL BULA DO ANTICRISTO (?)


Fui informado de que uma bula contra mim passou por toda a terra antes de me alcançar, pois, sendo uma filha das trevas, temeu a luz da minha face. Por esse motivo, e também porque ela condena artigos notoriamente cristãos(?), tive minhas dúvidas se ela tinha realmente vindo de Roma e não era, na verdade, produto daquele homem de mentiras, dissimulações, enganos e heresias, o monstro João Eck. A suspeita tornou-se ainda maior quando foi dito que Eck era o apóstolo da bula. Na verdade, tanto o estilo como o azedume apontam para Eck. Para falar a verdade, não é impossível que, onde Eck é o apóstolo, lá se encontre o reino do Anticristo. Mesmo assim, nesse meio tempo, agirei como se acreditasse que Leão não é o responsável; não para dar honras ao nome de Roma, mas porque não me considero digno de sofrer coisas tão elevadas pela verdade de Deus. Pois quem ficaria mais feliz perante Deus senão Lutero, se este fosse condenado por fonte tão grandiosa e elevada, em razão de uma verdade tão evidente? A causa, contudo, busca um mártir mais digno. Eu, com meus pecados, mereço outras coisas. Mas quem quer que tenha escrito essa bula, este é o Anticristo(?). Declaro, perante Deus, nosso Senhor Jesus, seus anjos sagrados e perante todo o (A bula Exsurge, Domine, chega no dia 10 de Outubro de 1520, até Lutero). mundo que, com todo meu coração, discordo da condenação dessa bula, amaldiçoo-a e abomino-a como sacrilégio e blasfêmia contra Cristo, o Filho de Deus e nosso Senhor. Eis minha retratação, ó bula, tu filha de bulas. Tendo dado meu testemunho, volto-me agora para a bula. Pedro disse deves ser capaz de apresentar a razão da tua fé, mas essa bula me condena por sua própria palavra, sem prova alguma das Escrituras, enquanto eu fundamento todas as minhas afirmativas na Bíblia. Pergunto-me, ignorante Anticristo, realmente crês que com palavras vazias podes prevalecer contra a armadura das Escrituras? Teria aprendido isso com Colônia e Lovaina? Se bastasse apenas isso, tão somente dizer “eu discordo, eu nego”, que tolo, que asno, que toupeira, que bronco não poderia condenar? Não fica tua fronte vulgar enrubescida quanto tentas, com tua fumaça frívola, resistir ao relâmpago da Palavra divina? Por que não cremos nos turcos? Por que não aceitamos os judeus? Por que não honramos os heréticos se condenar é tudo o que importa? Mas Lutero, que está acostumado a bellum [guerra], não tem medo de bullum [bula]. Sei distinguir entre um papel inócuo e a onipotente Palavra de Deus. Demonstram ignorância e má fé ao forjar o advérbio “relativamente”. Meus artigos são chamados “alguns heréticos, alguns errôneos, alguns escandalosos, respectivamente”; isso é o mesmo que dizer: “Não sabemos qual é o quê”. Ó meticulosa ignorância! Desejo ser esclarecido, não relativamente, mas de forma completa e segura. Exijo que o demonstrem especificamente o que é herético de forma absoluta e não relativamente, de forma nítida e não, confusamente, de maneira segura e não provavelmente, de forma clara e não obscuramente, ponto por ponto e não em geral. Que demonstrem em que sou herético ou que sequem a baba de sua ira. Dizem que alguns artigos são heréticos, alguns errôneos, alguns escandalosos, alguns ofensivos. Daí se infere que os heréticos não são errôneos, os errôneos não são escandalosos, e os escandalosos não são ofensivos. Então, o que significa dizer que algo não é herético, não é escandaloso, não é falso, mas, ainda assim, ofensivo? Por isso, ímpios e insensatos papistas, escrevei com sobriedade se quiserdes escrever. Quer tenha sido Eck, quer pelo papa, essa bula é a soma de toda impiedade, blasfêmia, ignorância, imprudência, hipocrisia, mentiras. Em uma palavra, trata-se de Satanás e de seu Anticristo. Onde estão todos agora – o excelentíssimo imperador Carlos, os reis e príncipes cristãos? Vós fostes batizados em nome de Cristo e conseguis suportar a voz caústica do Anticristo? Onde estais, bispos? Onde, doutores? Onde está tu que confessa a Cristo? Ai de todos que vivem nesses tempos, a ira de Deus está vindo sobre os papistas, os inimigos da cruz de Cristo, a fim de que todos os homens resistem a eles. A ti, Leão X, a teus cardeais e a todos os demais em Roma, digo-vos em vossa face: “Se essa bula foi emitida em teu nome, lançarei mão do poder que me foi dado no batismo, por meio do qual me tornei filho de Deus e coerdeiro em Cristo, firmado sobre a rocha contra a qual os portões do inferno não podem prevalecer. Apelo para que renuncies à tua blasfêmia diabólica e à tua impiedade audaciosa e, se não fizeres, consideraremos todo o teu trono como possuído e oprimido por Satanás, o trono amaldiçoado do Anticristo, no nome de Jesus Cristo, a quem persegues”. Sou, contudo, dominado por meu zelo. Ainda não estou convencido de essa bula tenha vindo do papa, mas sim daquele apóstolo da impiedade: João Eck. Se alguém despreza minha advertência fraterna, estou livre de seu sangue no dia do juízo. Prefiro morrer mil vezes que voltar atrás em uma sílaba que seja dos artigos condenados. E como me excomungam pelo sacrilégio da heresia, eu também vos excomungo em nome da verdade sagrada de Deus. Cristo julgará qual excomunhão permanecerá. Amém.


21)- CARTA DE MARTINHO LUTERO A JOHANNES STAUPITZ [14 de Janeiro de 1521]



A Staupitz. Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg, reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou. Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal, no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem. Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George, que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”, dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim. O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá. O nosso vigário Wenceslau marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve. Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula com anotações provocadoras contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Magúncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram(?). Até Tomás Murner furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda. Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas ondas. Wittenberg, dia de são Felix, 1521.



22)- CARTA DE MARTINHO LUTERO A JOHANNES STAUPITZ [9 de Fevereiro de 1521]


Ao reverendo e excelentíssimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, seu primogênito no Senhor. Saudações.

Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo, que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos. Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor. Não me incomoda a notícia de que Leão X também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba. Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar”. Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia”. Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada. Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”. Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição. Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro. De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo. Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia. Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foi publicado em latim e alemão. Saúda-te Felipe e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhado para mim. Adeus no Senhor e ore por mim. Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521. Teu filho Martinus Lutherus.



23)- DISCURSO PRONUNCIADO NA DIETA DE WORMS POR MARTINHO LUTERO [18 de Abril de 1521]


Introdução histórica por Teófanes Egido Para a compreensão do feito e do significado da atuação de Lutero ante a Dieta de Worms e de seu discurso, é necessário considerar os eventos a seguir. O dia 15 de junho de 1520 traz muitos fatos obscuros com Federico o Sábio, duque da Saxônia eleitoral e – como já vimos – protetor de Lutero. Roma decidiu condenar a doutrina de Augustinho na bula Exsurge, Domine, certamente confusa. Na realidade, o documento ainda não condena a pessoa de Lutero, e já conhecemos a sua reação violenta, que em um ato teatral queimou a bula juntamente com os textos representativos das práticas canônicas e morais da igreja (10 de dezembro).


No início do ano seguinte publicou-se a bula Decet romanum pontificem com a excomunhão do “herege”. A excomunhão eclesiástica surtiu efeito por ter sido referendada pela expulsão civil, ou seja, imperial. Não obstante, o jovem imperador Carlos V, pressionado por dificuldades econômicas, pelo compromisso com os costumes alemães, por rivalidades com a cúria de Roma, pelo favor que a opinião pública manifestava por Lutero – convertido em herói dos alemães, não quis condená-lo sem antes ouvi-lo. Para ele a melhor ocasião era aproveitar a dieta – a primeira imperial - de Worms (aberta solenemente em 27 de janeiro de 1521) e convoca-lo a comparecer.


O tempo transcorrido foi precioso para a causa luterana e, de fato, foi uma das épocas mais relevantes de Lutero, desde o ponto de vista de seus escritos e de sua influência. A convocação para a dieta, por outro lado, lhe serviu como uma invejável oportunidade para sua exposição. Por isso se sentiu expectante e temeroso, na condição de vítima e de herói, percebendo com clareza a magnífica repercussão de um púlpito peculiar (cf. Gravier, o. c., 50 ss). No dia 17 de abril, ao entardecer, compareceu diante da assembleia.


Lutero se viu surpreso: ele havia acreditado em uma oportunidade para pregar suas ideias mas se encontrou em uma condição em que a única opção que lhe era oferecida era de retratar-se ou não do conteúdo de seus livros que Aleandro havia empilhado com cuidado. Diante da surpresa, pediu uma prorrogação e, no dia seguinte, como resposta ao interrogatório, pronunciou o célebre discurso que transcrevemos. O documento tem um valor transcendental e é, talvez, o reflexo do momento mais decisivo e claro, não somente da existência de Lutero, senão de toda a história de sua reforma.


Em tons melo dramáticos nega a autoridade do papa, dos concílios, e proclama a autoridade da Escritura e da consciência(?). Quem viu nele uma proclamação dos direitos da consciência individual pecou por um evidente anacronismo, pois é indiscutível a valentia de Lutero, ainda monge, o qual enfrentou boa parte dos componentes da dieta como arauto da liberdade do evangelho.A resposta do imperador foi contundente e não menos decisiva: contra a heresia – disse – “estou determinado em empenhar meus reinos e senhorios, meus amigos, meu corpo, meu sangue, minha vida e minha alma” (Sandoval). Nem a decisão nem a contundência de Carlos, ao decretar na dieta a expulsão imperial de Lutero, puderam fazer muita coisa. As dificuldades da Espanha, o perigo da França, o regresso do imperador à agitada Castela, a burocracia, o apoio de alguns senhores, etc, atrasaram a publicação do edito firmado em 26 de maio de 1521, quando Lutero estava em segurança, graças ao sequestro organizado pelo seu protetor.

A declaração de Lutero


Excelentíssimo senhor imperador, mui ilustres príncipes, mui graciosos senhores: Compareço pontual e obediente, à hora que me determinou ontem à tarde, e suplico a vossa graciosíssima majestade e aos ilustríssimos príncipes e senhores que, pela misericórdia de Deus, se dignem atender com clemência esta minha causa, que espero seja a causa da justiça e da verdade. E se por minha inexperiência me dirijo a alguém de forma incorreta, ou de alguma maneira me comportar contra os usos e costumes da corte, rogo que me desculpem com benevolência, porque não tenho vivido na corte, mas no isolamento do monastério, e a única coisa que posso dizer é que até hoje minhas únicas preocupações tem sido, tanto em minha docência como em meus escritos, a glória de Deus e a instrução dos fiéis de coração humilde. Excelentíssimo imperador, ilustres príncipes: vossa sereníssima majestade me levantou ontem duas questões: se reconhecia como meus os livros que se multiplicam e tem sido publicados em meu nome, e se estava disposto a seguir os defendendo ou negá-los. Sobre o primeiro ponto minha resposta é simples; sem dúvida, me mantenho com ela e seguirei mantendo-a sempre: se trata de livros meus, que foram publicados em meu próprio nome, mas sempre com as possíveis mudanças e interpretações mal feitas que devem ser atribuídas à astúcia ou a importuna sabedoria de meus adversários. Em todo caso, reconheço somente o que é meu e o que por mim foi escrito; mas não as interpretações de meus adversários. Quanto à segunda questão, suplico à vossa serene majestade, se digne levar em conta que meus livros não são todos da mesma classe. Há um primeiro grupo de escritos nos quais trato da fé e costumes de uma maneira tão simples e evangélica, que até meus adversários se veem obrigados a reconhecerem sua utilidade e sua inocuidade, e que são dignos de ser lidos por um cristão. A mesma bula do papa, por mais implacável e cruel que seja,admite que alguns destes livros são inofensivos, embora, por um juízo estranho, os haja condenado. O que aconteceria se eu decidisse retratá-los? Seria o único dos mortais que condenaria a verdade que amigos e inimigos confessam de comum acordo, o único em resistir à unanimidade desta confissão. Outra categoria de escritos é a que ataca o papado e as empresas de seus seguidores, posto que sua péssima doutrina e exemplo tem arrastado a toda a cristandade para a destruição espiritual e corporal. Porque todo o mundo tem a experiência, testemunhada pelo general descontente, de que as leis dos papas e suas doutrinas humanas tem escravizado miseravelmente as consciências dos fiéis, as tem atormentado e torturado; que a incrível tirania tem devorado os bens e os recursos, e os segue devorando de forma insultante cada vez mesclando capítulos heréticos com os que não eram, escrita por inspiração de inimigos de Lutero, não duvidemos que no documento escapa a condenação da tese básica da justificação pela fé somente,mas sobre todos em nossa nobre nação alemã. Além disso, seus próprios decretos (por exemplo, Dist. 9, 25, quaest. 1 e 2) apresentam como errôneas e inválidas as leis papais que estão em contradição com o ensinamento do evangelho e dos pais da igreja.Se eu retratasse também estes livros, não faria mais do que fortificar sua tirania e abrir de par em par a tão grande impiedade não somente uma pequena janela, mas também todas as portas, para que aquela entrasse de forma mais ampla bem como a comodidade que jamais até agora teve. Minha retratação seria o melhor favor concedido a sua ilimitada e desavergonhada malícia, e daria vigor e estabilidade a este senhorio cada vez mais intolerável para o miserável povo, e mais se anuncia que fiz tudo isto por ordem de vossa serena majestade e de todo o império romano. Grande Deus, que estupenda ocasião serviria para encobrir a malícia e a tirania! A terceira categoria é a constituída pelos livros que escrevi para certas pessoas particulares, empenhadas em amparar a tirania romana e em destruir meus ensinamentos sobre a fé. Confesso que contra esta gente tenho me comportado mais duramente do que convém a um homem que tem professado a uma religião. Tenho que acrescentar que não me considero um santo; não se trata aqui de discutir sobre minha vida, mas sobre o que se ensina sobre Jesus Cristo. Menos ainda que os anteriores me está permitido retratar estes escritos, porque, se o fizesse, serviria de reivindicação para que a tirania e a impiedade reinassem e se desencadeassem contra o povo de Deus com maior violência que antes. Considerando que sou homem e não Deus, não me é lícito defender meus escritos mas a maneira em que Jesus Cristo meu Senhor defendeu seus ensinamentos diante de Anás quando este lhe interrogava e um soldado lhe deu uma bofetada: “Se tem falado mal, lhe digo, mostre- me em que”.Se o próprio Senhor, que tinha certeza de sua inerrância, não se recusou ao menos escutar a contestação de seu ensinamento, ainda que fosse por parte do mais humilde dos soldados, com quanta maior razão eu, escória da plebe, constantemente exposto ao erro, devo desejar suplicar que se conteste minha doutrina. Por este motivo, rogo a vossa serena majestade, a vós outros, ilustres senhores e a todos os que possam fazê-lo, tanto o maior como o menor, pela misericórdia de Deus, que me provem e me convençam de meus erros, que se refute a base dos escritos proféticos e evangélicos. Se concluir-se que devo instruir-me melhor, nada melhor disposto que eu retratar qualquer erro, seja o que for, eu seria o primeiro a lançar meus escritos nas chamas. O que acabo de dizer evidencia que tenho considerado e ponderado suficientemente as urgências, perigos, inquietudes e dissenções que surgiram no mundo por ocasião de meus ensinamentos, como me censurou ontem com energia e gravidade. O que mais me alegra em tudo isto é contrastar que por causa da palavra de Deus nascem paixões e dissenções, porque este é o caminho, a maneira e o acontecimento que segue a palavra de Deus sobre a terra conforme a afirmação de Cristo: “Não vim para trazer paz, digo, mas a guerra; eu vim para separar o filho do pai, etc.”É necessário que nos despertemos para o quão admirável e terrível é nosso Deus em seus juízos, para que o anseio de apaziguar os distúrbios não comece por rejeitar a palavra de Deus, nem venha a ser que este intento nos atraia um dilúvio de desgraças insuportáveis. Devemos vigiar para que o reinado de nosso jovem e privilegiado príncipe Carlos (em quem, depois de Deus, se depositam tão grandes esperanças) não seja desgraçado e se inaugure com auspícios funestos.Poderia respaldar tudo isto com numerosos exemplos das Escrituras Sagradas que se referem ao Faraó, ao rei de Babilônia e aos reis de Israel, personagens que conheceram os maiores desastres precisamente quando seus sábios desígnios se ordenavam a estabelecer a paz e afirmar seus reinados. “Porque é ele quem surpreende aos sábios em sua sabedoria e transporta as montanhas sem que se apercebam disso”.É preciso, pois, temer a Deus. Se falo estas coisas, não é porque creio que em elevadas cúpulas tenham necessidade de meus ensinamentos e advertências, mas não posso subtrair da minha Alemanha o serviço a que estou obrigado. E com estas palavras me recomendo a vossa serena majestade e a vossos senhores, suplicando humildemente que não permitam que as paixões de meus adversários me façam injustamente detestável diante de vós. Eu disse. (Depois que eu falei desta forma, o arauto imperial me quis repreender com dureza. Disse que não me havia inserido no assunto e que não era possível voltar a discutir ponto que já haviam sido condenados e definidos pelos concílios. Me obrigou então uma resposta simples e sem sutilezas; “Queria retratar-me ou não?” Tenho aqui o que então respondi). Posto que vossa graciosa majestade e vossos senhores me pedem uma resposta, então a darei “sem chifres ou dentes”.A menos que se me convença por testemunho da Escritura ou por razões evidentes – posto que não creio no papa nem nos concílios somente, já que está claro que eles têm se equivocado com frequência e tem se contradito entre eles mesmos (?), estou acorrentado pelos textos escriturísticos que tenho citado e minha consciência é uma escrava da palavra de Deus. Não posso nem quero retratar-me em nada, porque não é seguro nem honesto atuar contra a própria consciência. Que Deus me ajude. Amém.35





24)- RELATOS SOBRE LUTERO NA DIETA DE WORMS


O funcionário de Treveris declarou diante do concílio Martinho Lutero, a sua Majestade, sagrada e vitoriosa [sacra et invicta], aconselhado por todos os estados do Santo Império Romano, ordena que compareça aqui, ante o trono de sua majestade para que os retrate e retire, de acorda com a força, a forma, o significado da citação-mandato decretada contra você por sua majestade e que foi legalmente comunicada, os livros, tanto em latim como em alemão que foram publicados e esparramados por todas as partes com o seu conteúdo: portanto, eu, em nome da sua majestade imperial e dos príncipes do Império te pergunto: primeiro, confessa que estes livros expostos ante a sua presença (e os mostrou uma porção dos livros expostos em latim e em alemão) e que agora nomeamos um por um, que circulou com o teu nome na capa, são teus e reconhece que te pertencem? Segundo, você deseja se retratar e retirar o seu conteúdo, ou é sua intenção persistir e reafirmá-los?Após Aleander ler os títulos e feito relato resumido de seu conteúdo, cedeu a resposta a Lutero que respondeu: Ao que respondo tão breve e corretamente como me é possível. Não posso negar que os livros são meus, e jamais renegarei a nenhum deles: são todos de minha produção; e, também escrevi outros que não foram mencionados. Mas quanto ao que segue, que reafirme todos nos mesmos termos, ou que me retrate do que pronunciar que sobressaia à autoridade da Escritura, porque o assunto envolve uma questão de fé e da salvação das almas, e no que concerne à Palavra de Deus, que é a coisa mais importante no céu ou na terra, em que todos devemos reverência, seria perigoso e precipitado que eu fazendo uma declaração não premeditada, porque no discurso não refletido é possível que se diga algo menos que o que se faz, e algo além do que é a verdade; além disso, recordo a declaração de Cristo quando disse: “qualquer um que me negar diante dos homens, eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus e diante dos seus anjos.” Por estas razões suplico, com todo respeito, que vossa majestade imperial me conceda tempo para deliberar, a fim de que possa responder à pergunta sem prejudicar a Palavra de Deus, e sem perigo para minha própria alma.Uma avaliação da exclusão de Lutero pode ser feita na carta do espanhol Alfonso de Valdés, secretário do imperador: Ali se tem, como alguns imaginam, o fim da tragédia. Mas estou persuadido de que não é o fim, senão o começo. Porque percebo que a mentalidade dos alemães está terrivelmente exasperada contra a Sé Romana e, não parecem dar importância aos editos do imperador; porque desde que foram publicados os livros de Lutero são vendidos impunemente em cada canto e esquina das ruas e nos mercados. Por esta causa podes adivinhar facilmente o que sucederá quando o imperador se ausentar. Este mal poderia ter se curado com grande vantagem para o Cristianismo se o Papa não tivesse se negado a convocar um concílio geral, se houvesse preferido o bem estar público, antes que os seus próprios interesses particulares; mas, enquanto ele insiste em que Lutero deve ser condenado e queimado, eu percebo que a totalidade da cristandade corre para a destruição, a menos que o próprio Deus nos ajude.


BIBLIOGRAFIA:


-Denzinger & Petrus Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral - (São Paulo, Editora Paulinas e Edições Loyola, 2006.

-Matthew Barrett, ed., Teologia da Reforma (Rio de Janeiro, Thomas Nelson Brasil, 2017).




Apostolado Berakash





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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino) “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória...” (Salmo 115,1)

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