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Estudo bíblico e teológico sobre o uso Cristão das RELÍQUIAS de Jesus, e dos Santos no Antigo e Novo Testamento

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 7 de junho de 2016 | 15:21







A FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA:



“Ora, aconteceu que um grupo de pessoas, estando a enterrar um homem, viu uma turma desses guerrilheiros e jogou o cadáver no túmulo de Eliseu. O morto, ao tocar os ossos de Eliseu, voltou à vida, e pôs-se de pé.” (II Reis 13,21)



“As pessoas do lugar o reconheceram e mandaram anunciar por todos os arredores. Apresentaram-lhe, então, todos os doentes, rogando-lhe que ao menos deixasse tocar na orla de sua veste. E, todos aqueles que nele tocaram, foram curados.”  (MT 14,35-36)



“Deus fazia milagres extraordinários POR INTERMÉDIO de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado o seu corpo eram levados aos enfermos;e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos.” (AT 19,11-12).



“Ora, uma mulher atormentada por um fluxo de sangue, havia doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe a orla do manto.Dizia consigo: Se eu somente tocar na sua vestimenta, serei curada. Jesus virou-se, viu-a e disse-lhe: Tem confiança, minha filha, tua fé te salvou. E a mulher ficou curada instantaneamente.” (MT 9, 20-22).





Neste episódio chama de modo particular a nossa atenção a aprovação indiretamente dada por Jesus às palavras da pobre enferma, que atribuía imenso valor ao simples contato com a vestimenta do Divino Mestre ; com razão julgava ela que o Senhor poderia fazer desse objeto o instrumento de uma graça extraordinária.



Está claro que a estima tributada aos objetos santificados pelo uso dos Apóstolos e principalmente do Senhor Jesus não se extinguiu com a morte destes. O apologista cristão Quadrato, por exemplo, refere no séc. II que em Nazaré (cidade da infância de Cristo) a população ainda conservava relhas de arado confeccionadas por Jesus. Sabe-se também que nas comunidades visitadas ou catequizadas por São Pedro, São Paulo, São João os fiéis guardavam tudo que lhes pudesse lembrar esses dignos obreiros do Senhor (em primeiro lugar, sem dúvida, as suas cartas e os seus despojos mortais; além disso, porém, os objetos de uso dos mesmos).




Relíquias incríveis da história da vida de nosso Senhor Jesus Cristo



Uma relíquia é algo da vida de um santo. Normalmente, para uma coisa ser considerada uma relíquia de primeira classe, tem que fazer parte do corpo do Santo (por exemplo, um osso).No caso de Nosso Senhor Jesus Cristo, no entanto, nada diretamente relacionado com os acontecimentos de sua vida, é considerado como o mais alto posto.Não podemos ter certeza absoluta da autenticidade de todas estas relíquias. Alguns podem não ser o que eles afirmam ser.Aqui estão alguns objetos surpreendentes que afirmam ser relíquias da vida de Nosso Senhor:



1) Fragmentos da Verdadeira Cruz



Há fragmentos da Verdadeira Cruz em várias igrejas ao redor do mundo. Os fragmentos na foto acima estão na Fazenda Imperial, em Viena, Áustria.


2) Prego Sagrado




Este é um dos pregos usados na crucificação de Jesus (Veja perto do topo), mantido na Catedral de Bamberg, Alemanha.



3) O Santo Cálice




Acredita-se que este foi o cálice utilizado por Cristo na Última Ceia para instituir a Eucaristia. Ele é mantido na catedral de Valência, Espanha.


4) Túnica de Jesus



Esta é a túnica de Cristo que os soldados romanos jogaram dados disputando-a  durante a sua crucificação. Ela é mantida na Catedral de Trier, Alemanha.


5) A lança sagrada





Esta é a lança que perfurou o peito de Cristo quando Ele estava na cruz.Esta guardada no Tesouro Imperial, em Viena, Áustria.



6) Os presentes dos Reis Magos



Ouro, incenso e mirra, é claro. Eles são mantidos no mosteiro de São Paulo, no Monte Athos, na Grécia.



7) A Coroa de espinhos





Jesus usou-a durante a sua paixão e crucificação. Esta na catedral de Notre Dame em Paris, França.


8) A Coluna da Flagelação




Este é o lugar onde Jesus foi amarrado quando foi açoitado durante sua paixão. Ele é mantido na Basílica de Santa Praxedes, em Roma, Itália.


9) Um frasco do Santo Sangue de Jesus



Esta na Basílica do Sangue Sagrado em Bruges, Bélgica.


10) O Título da Cruz




Esta é o sinal que pendia sobre Jesus na cruz dizendo que ele era o “rei dos judeus”. Ela está na Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, em Roma, Itália.


ORIGEM DAS RELÍQUIAS NA HISTÓRIA DA IGREJA



O primeiro exemplo do culto de uma relíquia por crentes cristãos surge em 156 em Smyrna (actual Esmirna na Turquia), a propósito do martírio de São Policarpo relatado, por exemplo, nas obras de Eusébio de Cesareia.Depois de ter sido queimado na fogueira, os discípulos do mártir recuperaram os ossos calcinados do seu mestre e acolheram-nos como objetos sagrados.Mais tarde diversos milagres foram atribuídos a esta relíquia e a busca por objectos semelhantes tornou-se cada vez mais popular, conduzindo por exemplo, à descoberta da cruz da crucificação de Jesus Cristo em cerca de 318.




No início do cristianismo, as relíquias eram importantes, principalmente partes de corpos de mártires, pois considerava que seriam estes os primeiros a levantar-se no momento da ressurreição. Era pois importante para o fiel ser enterrado junto destas relíquias, ou pelo menos perto dos seus relicários, de forma a poder acordar para a vida eterna ao lado dos soldados da fé.



O culto das relíquias foi aumentando cada vez mais e no século VII o arcebispo da Cantuária São Teodoro declarou que as relíquias deviam ser objetos de veneração e iluminadas dia e noite pela luz de uma vela.Dois séculos mais tarde a prática era obedecida pelo menos pelo rei Alfredo de Inglaterra.





RELÍQUIAS NA IDADE MÉDIA




Durante a Idade Média e o período de construção de catedrais o culto das relíquias atingiu o seu auge. Nesta altura, a edificação e manutenção de uma catedral era custeada sobretudo através de donativos da congregação.



A importância eclesiástica de uma diocese, bem como a sua capacidade de atrair novos fieis e peregrinos, era muitas vezes dependente da quantidade e qualidade de relíquias que eram exibidas para veneração.




Assim, quando a primeira secção da catedral de Colónia abriu as portas em 1164, foi com todo o orgulho que o Arcebispo Reinaldo de Dassel expôs os corpos dos Três reis magos. Da mesma forma, e dando só alguns exemplos:



Santiago de Compostela: reclama o corpo de São Tiago.









A catedral de Chartres: apresenta a túnica da Virgem Maria









VERACIDADE DE ALGUMAS RELÍQUIAS




Não será difícil de perceber que em breve o culto das relíquias tomou em breve uma proporção exagerada principalmente após a tomada de Constantinopla durante a quarta cruzada em 1204. Ossos, pequenos bocados de pano, garrafinhas com água do rio em que Jesus foi batizado, até saquinhos com o pó do qual Adão foi criado, eram peças comuns nos mercados do século XIII. A certa altura chegaram a contabilizar-se cerca de 700 verdadeiros pregos da cruz, o que só por si era um fato absurdo e capaz de abalar  a credibilidade de qualquer crente.





Mais tarde Erasmo de Roterdão haveria de afirmar com ironia que os verdadeiros bocados da cruz davam para construir um navio. (Recentemente, a Igreja Católica encomendou um estudo que descobriu que existem 4.000.centímetros cúbicos em relíquias da cruz espalhados mundo afora, bastante aquém dos 178.000 necessários para o volume de uma cruz razoável, não há portanto o que temer.)



O Papado tomou uma posição no fim do século XIII no Concílio de Lion, onde chamou a si a responsabilidade de diagnosticar a veracidade de todas as novas relíquias.Aparentemente, não foi suficiente, uma vez que em 1.287, o bispo Quivil de Exeter se viu obrigado a proibir de todo a veneração de todas as relíquias aparecidas nos últimos anos.Com a evolução da Ciência, muitas das relíquias já foram ou estão em risco de ser desmistificadas, ou definitivamente confirmadas para nossa alegria.



Sobre o Sudário de Turim, por exemplo, alegou-se ser uma suposta impostura obra de um talentoso falsificador do século XIV (idade do pano obtida pelo método do Carbono 14). Contudo, cientistas envolvidos na pesquisa levantaram a hipótese de que a composição do sudário pudesse ter sido alterada por uma série de incêndios aos quais a relíquia sobreviveu, além do próprio depósito de impurezas, tais como poeira e crescimento de bactérias. Tais questões invalidam a datação por Carbono-14 e a referida falsificação.






Verdadeiras ou não, as relíquias continuam a fazer parte da tradição cristã, apesar do atual progressivo distanciamento da Igreja Católica em relação à importância teológica da sua veneração.



Classificação de relíquias



1)- Primeira Classe, parte do corpo de um santo (ossos, unhas, cabelo, etc.)


2)- Segunda Classe, objetos pessoais de um santo (roupa, um cajado, os pregos da cruz, etc.)


3)- Terceira Classe, inclui pedaços de tecido que tocaram no corpo do santo, ou, no relicário onde uma porção do seu corpo está conservada.



É proibido, sob pena de excomunhão, vender, trocar ou exibir para fins lucrativos relíquias de primeira e segunda classe. As relíquias são guardadas geralmente por pessoas da família no caso de ser um objeto.



Os cristãos não podiam deixar de se sentir estimulados a essa praxe ao lerem o elogio proferido pelo Senhor a respeito de Maria de Betânia, que ungira o corpo do Mestre pouco antes do desenlace final :



Mc 14, 6-9: «Ela me fez uma boa obra;embalsamou antecipadamente o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo: onde quer que for pregado no mundo este Evangelho, será narrado o que ela acaba de fazer para se conservar a lembrança dessa mulher» (cf. Mt 26,9-12; Jo 12,7).



Com estas palavras Jesus aprovava solenemente a veneração póstuma do seu corpo sagrado. Os dizeres do Divino Mestre implicavam outrossim um convite a que se tratassem de modo semelhante os despojos de todos os justos que Ele no decorrer dos tempos enxertaria em seu Corpo Místico, a fim de neles prolongar a vida da Cabeça, ou os mistérios da Redenção.Foi, sem dúvida, o que as posteriores gerações cristãs depreenderam dos ensinamentos do Evangelho e dos Apóstolos.



Os primeiros marcos da Tradição cristã



Já os fiéis contemporâneos aos Apóstolos aparecem na história a prestar estima especial, ou propriamente religiosa, aos despojos mortais dos homens de Deus.Os dois mais antigos documentos relativos a essa praxe são: a Ata do «Martírio de Santo Inácio de Antioquia», redigida em 110 (três anos após a morte desse santo bispo) e a do «Martírio de São Policarpo», bispo de Esmirna (Ásia menor), escrita logo após o desenlace do herói cristão (156 ou 157).Notem-se os termos com que se encerra o relato do «Martírio de S. Inácio», o qual foi publicamente devorado pelas feras:



«Unicamente as partes mais duras de seus santos despojos haviam escapado (aos dentes das feras): foram recolhidas, levadas para Antioquia e depositadas num cofre, à guisa de inestimável tesouro; assim foram elas entregues à santa assembleia dos fiéis por causa da graça que reside no mártir» (Funk, Patres apostolici II 284).




Por muito breves que sejam estes dizeres, dão-nos a ver como os cristãos percebiam nos despojos materiais do mártir a graça ou o valor espiritual que a tais elementos se prendia; a piedade dos fiéis, portanto, para com as relíquias era toda relativa, pois se dirigia propriamente à pessoa do santo, que se tornara perfeito membro de Cristo, e, em última análise, ao próprio Cristo.É, aliás, o que o próprio S. Inácio insinuava ao se referir ao seu futuro martírio:


«Sou o trigo de Deus; pelos dentes das feras serei moído, para que me torne pão puro de Cristo» (Aos Romanos 4,1).



Ainda mais explícito é o testemunho do «Martírio de S. Policarpo» (carta circular dos cristãos de Esmirna), que assim descreve o desfecho do suplício :



«Os judeus da cidade imaginaram que os cristãos fossem fazer de Policarpo [já martirizado] um outro Cristo. Vendo então que os judeus se agitavam, o centurião [romano] mandou colocar o corpo [de Policarpo] no meio da praça e, de acordo com o costume, fê-lo queimar. Em seguida, nós, tomando os ossos, mais preciosos do que pérolas de grande valor e mais puros do que o ouro acrisolado, colocamo-los em lugar conveniente. Nesse local, enquanto possível, reunir-nos-emos em exultação e alegria; e o Senhor nos dará a graça de celebrarmos o aniversário do martírio de Policarpo para recordarmos aqueles que já deixaram o combate e a fim de exercitarmos e prepararmos os outros que o martírio ainda aguarda» (Martírio de Policarpo XVIII).



Esse texto, a mais de um titulo, é importante. Supõe, sim, que, logo após o desenlace do mártir Policarpo na cidade de Esmirna, os cristãos se dispunham a usar do seu direito legal de sepultar honorificamente os despojos do defunto. Contudo os judeus se insurgiram contra tal praxe, percebendo o caráter profundamente religioso que os discípulos de Cristo atribuíam ao sepultamento dos mártires; por isto o oficial romano resolveu mandar queimar os restos mortais de Policarpo. Feito isto, os cristãos, não se dando por vencidos, ainda recolheram as preciosas cinzas, levaram-nas para lugar oculto, onde as depositaram; de então por diante, propuseram-se reunir-se lá anualmente a fim de celebrar religiosamente o aniversário do martírio (ou melhor, segundo o vocabulário dos antigos: o natalício para a vida eterna) de Policarpo.



Como se depreende do teor geral do documento, os judeus se opuseram ao sepultamento do santo mártir, por temerem que os cristãos o praticassem em espírito pagão, endeusando, ao lado de Jesus Cristo, um mero homem.Esta atitude dos israelitas, longe de quebrantar o ânimo dos cristãos, provocou, ao contrário, da parte destes uma tomada de posição ainda mais consciente: o autor da Ata se viu obrigado a explicar aos leitores (em fórmula breve, mas rica) a mentalidade que animava os cristãos ao cultuarem os mártires e suas relíquias:



«O mártir Policarpo apareceu em nossos tempos como mestre apostólico e profético [isto é, como continuador dos Apóstolos]... Adoramos Cristo como Filho de Deus; quanto aos mártires, amamo-los como discípulos e imitadores do Senhor, por causa do seu eminente devotamento ao próprio Rei e Mestre. Oxalá possamos também nós tornar-nos consortes e condiscípulos dos mártires!» (Martírio de Policarpo XVIII).



Visando, portanto, cultuar o Cristo mesmo em um de seus justos, ou em um dos membros de seu Corpo já consumado pela Redenção, é que os cristãos deram início à celebrarão anual do martírio (ou do natalício) de São Policarpo. Como se vê, tal culto se dirige propriamente ao Filho de Deus, tomando apenas como ocasião de O glorificar a obra realizada por Cristo em seu discípulo e mártir. Essa atitude nada tem que ver com as apoteoses pagãs.



Os documentos que acabamos de analisar, dão a ver que a veneração dos mártires e de suas relíquias na Igreja não é prática estranha ao espírito do Cristianismo. Outro detalhe que chama a tenção  é a antiguidade de tais documentos. Com efeito, as datas de 110 e 157 nos levam para uma época em que os cristãos, perseguidos como eram pelo Império pagão, nutriam nítida aversão para com os usos dos gentios; davam a vida justamente para não pactuar com os costumes de seus concidadãos e mesmo de seu familiares politeístas. Note-se outrossim que os documentos se referem à veneração das relíquias em termos tão claros e serenos que não parecem estar insinuando uma inovação. Duas comunidades cristãs importantes — uma, de Antioquia, capital da Síria; a outra, de Esmirna, cidade luzeiro da Ásia menor, só podiam proclamar no início do séc. II, perante as demais comunidades do mundo romano, a sua estima para com os despojos de seus bispos e mártires, caso tal atitude já estivesse realmente contida em gérmen dentro do ensinamento dos Apóstolos e, por conseguinte, do próprio Cristo.



Nos séculos subsequentes a devoção aos mártires ou, de maneira mais geral, aos santos e às suas relíquias foi tomando incremento em toda a cristandade, sem que se levantasse contestação por parte de bispos ou autoridades da Igreja. No séc. III, Tertuliano, famoso escritor, enunciava em poucas palavras a causa mais remota de tal devoção: «Christus in martyre est. — Cristo está no mártir» (De pudicitia 22). Esta frase confirma bem quanto verificamos atrás: o culto dos heróis cristãos não era tido senão como uma faceta do culto prestado ao Senhor Jesus.



No início do séc. V fez-se ouvir a primeira voz contrária ao culto das relíquias: era a de Vigilâncio, da Aquitânia, que atacava a virgindade e o celibato, a vida monástica, assim como diversos pontos da sagrada Liturgia. São Jerônimo (+421) escreveu-lhe uma réplica, que assim se pode resumir:



“O adversário se escandalizava por lhe parecer que os cristãos adoravam os mártires. — Estivesse tranquilo, retrucava Jerônimo: os cristãos só adoram a Deus; não esqueceram os exemplos de Paulo e Barnabé, os quais rejeitaram as honras divinas que os pagãos da Licaônia lhes queriam tributar (cf. At 14,14); nem esqueceram a conduta de S. Pedro, o qual recusou igualmente a adoração que Cornélio tentava prestar-lhe (cf. At 10,26). Não obstante, julgam poder tributar veneração (o que não é adoração) a membros humanos santificados pelo serviço de Deus... Invocando os mártires, os fiéis se inspiram da mais pura intenção religiosa: quem admite que a oração de um Moisés, de um Estêvão, de um Paulo, teve valor durante a vida terrestre desses homens de Deus, como não reconhecerá que ela ainda tem maior valor, agora que estão na glória celeste?...”




Vigilâncio alegava outrossim desordens verificadas junto aos túmulos dos mártires nas noites de vigília sagrada. — Jerônimo, em resposta, fazia-lhe ver que tais inconvenientes eram acidentais e não bastavam para se condenar a própria instituição da vigília.



O oponente afirmava também que os milagres registrados junto às sepulturas dos mártires serviam aos incrédulos, não, porém, a quem já tinha fé. A esse fraco argumento o apologista replicava que:




“Não importa tanto saber em favor de quem são realizados os milagres, mas como saber por que poder são eles efetuados ?; ora era evidente que a Onipotência Divina se manifestava em tais portentos, confirmando a fé e a devoção dos que a Ela recorriam por intercessão dos mártires.”




Era nesses termos que São Jerônimo concebia a defesa do culto das relíquias. Os autores posteriores, tanto medievais, como modernos, só fizeram corroborar e desenvolver as idéias deste Santo Doutor.



O significado do culto das relíquias - Normas da Igreja:




Está claro que o culto das relíquias não visa aos objetos materiais como tais ; toda a veneração a estes prestada é relativa ; ela se refere, sim, aos santos e, em última análise, ao nosso Senhor Jesus Cristo, fonte de toda a santidade e operação através das relíquias. As relíquias não podem nem devem ser estimadas senão por causa do contato que tiveram com as pessoas santas a que se referem; consequentemente, uma de suas funções primárias é a de lembrar vivamente o exemplo de seguimento a Cristo de tais pessoas, a fim de excitar o amor dos fiéis para com elas e não para com as relíquias em si.



O culto das relíquias exprime outrossim a visão grandiosa que o cristão tem do corpo humano e da matéria em geral. Longe de julgar em termos pessimistas essas criaturas de Deus, o discípulo de Cristo sabe que o corpo de um justo, portador da graça santificante, é templo de Deus e que seus órgãos são «instrumentos que o Espírito Santo utiliza para toda obra boa» (S. Agostinho); portador de um gérmen de imortalidade aqui na terra, o corpo do cristão não sucumbe simplesmente à morte ; embora passe por esta, ele está destinado a vencê-la e a ressuscitar. É por isto que os despojos dos justos falecidos após uma vida particularmente unida a Deus são particularmente venerados; a Igreja vê neles representado o mistério da morte do Cristo e dos cristãos: é morte toda perpassada pela imortalidade; tais despojos são sinais «ambíguos», pois tanto lembram a ruína induzida no mundo pelo pecado como prenunciam o triunfo sobre a ruína.



Este apreço dos despojos mortais explica a aversão que a Igreja nutre em relação à cremação dos cadáveres. A incineração, em verdade, não se opõe ao dogma cristão da ressurreição da carne; esta, com efeito, se processará independentemente da sorte que possa tocar aos corpos dos defuntos (cf. «P. R.» 26/1960, qu. 2). Contudo os motivos que têm inspirado os arautos da cremação, do séc. XVIII a nossos dias, são de índole materialista; os que a preconizam, visam incutir, de modo prático, a tese de que o corpo humano, após a morte, perde todo o seu valor e pode ser tratado como lixo, pois não há alma espiritual nem vida póstuma; principalmente em vista dessa tese anticristã, acidentalmente associada a modernas campanhas em prol da incineração, tem sido a Igreja levada a repelir tal procedimento funerário (cf. «P. R.» 5/1957, qu. 5).



Ainda outra expressão da mente da S. Igreja no tocante ao culto das relíquias é o fato de que não se consagra altar algum, seja fixo, seja portátil, sem que, na respectiva pedra de ara, haja um «sepulcro» com relíquias de vários santos ou ao menos de um mártir (cf. cân. 1198 § 4).




Este fato atesta bem como a Esposa de Cristo une numa só visão o sacrifício de Cristo e a morte dos justos cristãos; é a morte do Senhor que se prolonga na de cada fiel, principalmente quando este sofre martírio Cruento. A Eucaristia, banquete sacrifical, colocando o corpo imortal de Cristo dentro dos corpos mortais dos discípulos, prepara-os para ressuscitarem, configurados à carne gloriosa de Cristo. Daí a estima dedicada aos despojos desses corpos.



Contudo ninguém ousará negar que a devoção dos fiéis para com as relíquias mais de uma vez se desvirtuou no decorrer da história, explorada não raro pelos interesses de homens sacrílegos, inescrupulosos e interesseiros. A literatura profana não deixou de causticar tais males. As autoridades da Igreja não foram menos severas sempre que os averiguaram, como se perceberá através dos exemplos abaixo citados, porém já diz o ditado: “O abuso não tolhe o uso.”Portanto, erros acidentais não devem, aos olhos dos estudiosos, encobrir verdades essenciais: o culto das relíquias tem que ser julgado à luz dos princípios donde procede, e não à luz de desvios devidos à ignorância dos simples ou à perversidade dos maus.



Ora não há dúvida de que as proposições teológicas que fundamentam a devoção às relíquias são bem coerentes com a Revelação cristã, como se depreende de quanto foi exposto no início desta resposta. O mesmo culto é outrossim baseado na tendência natural que todo homem experimenta, de honrar seus antepassados, prestando deferência aos despojos mortais dos mesmos. Na ordem sobrenatural, em que vive o cristão, tal tendência só podia ser corroborada ou colocada sobre as suas bases mais autênticas. De resto, as autoridades eclesiásticas sempre vigiam para evitar todo abuso com relação às relíquias. Para confirmar a seriedade no trato da matéria pela Igreja destacamos alguns exemplos:




1)- Lembraremos que em 1697 a S. Congregação dos Ritos proibia expor pretensas relíquias de Melquisedeque assim como «a pedra em que Nosso Senhor se sentou para compor a oração do Pai Nosso». O Direito Canônico manda aos prelados diocesanos subtraiam prudentemente à pública veneração relíquias cuja não autenticidade lhes conste com certeza (cân. 1284); quem expõe ao público uma falsa relíquia, conhecida como tal, incorre imediatamente em pena de excomunhão (cân. 2326).



2)- S. Tomás mesmo admoesta a que, no culto das relíquias, se evite toda espécie de superstição, seja por excesso de veneração, seja pela observância de práticas vãs que não se conciliem com a reverência devida a Deus e aos santos (cf. Suma Teol. II/II 96, 4 ad 3; III 54, 2 ad 3).



3)- Em termos positivos, o Direito Canônico exige que toda relíquia proposta ao culto público seja devidamente autenticada por documento oficial assinado por um Cardeal ou pelo Prelado ordinário do lugar (cân. 1283).



3)- Quanto às relíquias que gozam de culto muito antigo, existe presunção de direito em seu favor, de sorte que se requerem argumentos seguros para se negar a sua autenticidade (cân. 1285 § 2); a piedade dos fiéis e os benefícios espirituais alcançados na veneração de tais objetos são títulos que conferem a essas presumidas relíquias um caráter sagrado, independentemente da questão da respectiva autenticidade. 



4)- Dado que o documento de genuinidade de uma relíquia se tenha perdido por desordens civis ou por qualquer outro motivo, o Direito eclesiástico prescreve, não seja tal relíquia entregue à pública veneração antes que o Ordinário local, tendo realizado um inquérito minucioso sobre as vicissitudes ocorridas, conceda novo atestado de autenticidade (cân. 1285 § 1).



5)- Como se compreende, é proibida qualquer venda de relíquia de primeira e segunda classes (cân. 1289 § 1). Os Prelados ordinários e em geral os sacerdotes que têm cura de almas, devem cuidar para que, por ocasião de heranças ou de vendas de bens, não sejam autênticas relíquias vendidas nem sejam entregues a pessoas não católicas. A venda de relíquias verdadeiras, como a fabricação e a distribuição de falsas relíquias, são punidas imediatamente por excomunhão (cân. 2326).



Quanto ao caso do anel de São Pio X que, conforme os jornais, devia ser publicamente vendido em leilão na cidade do Rio de Janeiro em fevereiro de 1960, considere-se o seguinte:



Trata-se de uma peça que o citado Pontífice recebeu como presente quando foi nomeado bispo de Mântua em 1884. Ao morrer. Pio X doou-a por testamento ao seu amigo Dr. José Ricaldoni, o qual naturalmente se tornou legitimo possessor da mesma. Ora a família Ricaldoni emigrou para o Brasil e dispõe-se agora a leiloar a joia.No caso, o anel de S. Pio X está sendo tratado qual relíquia histórica ou qual objeto que pertenceu a um grande vulto da história moderna, e não como objeto sagrado, destinado à veneração religiosa dos fiéis. Não se pode, portanto, falar de venda de relíquia religiosa nem de simonia (venda de bens espirituais). Ademais o mencionado anel está subtraído à jurisdição das autoridades eclesiásticas, tendo-se tornado propriedade da família Ricaldoni; por conseguinte, o que se fizer com essa venerável peça, far-se-á independentemente de algum mandato dos superiores religiosos.



*Por «Ordinário do lugar» entende-se o pastor supremo de uma circunscrição eclesiástica (diocese, prelazia. Abadia «Nullius»); esse pastor é geralmente bispo (no caso normal de uma diocese); pode, porém, ser simplesmente sacerdote dotado de plena jurisdição para governar o respectivo território eclesiástico.



Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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