“Será que o mal do mundo está centralizado em um único problema : O Social ? Será que a libertação que Cristo nos trouxe foi apenas esta libertação Social, como era querida por Isrrael? E trazendo para nossos dias, ficar apenas de pequenas libertações, tais como comida,moradia,salário,etc?...Será que a libertação que Cristo nos trouxe não foi algo maior, e além do social ?” (Augusto Faustino – FDM).
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AS HERESIAS COMBATIDAS PELA IGREJA

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 28 de outubro de 2010 | 18:13


Desde o princípio da Cristandade, a Igreja sempre se confrontou e combateu os falsos ensinamentos ou heresias.


Hoje em dia basta darmos uma olhada no catálogo telefônico para encontrarmos em qualquer cidade do mundo, uma denominação religiosa que nos diga exatamente aquilo que queremos ouvir. 

Algumas ensinam que Jesus não é Deus, ou que Ele é a única pessoa da Trindade, ou que existem muitos deuses (três dos quais são o Pai, o Filho e o Espírito Santo) ou que nós podemos nos tornar "deuses", ou que uma pessoa uma vez salva, jamais poderá perder sua salvação, ou que não existe inferno, ou que o homossexualismo é apenas mais uma expressão da sexualidade humana, portanto um estilo de vida aceitável para um cristão, ou qualquer outro tipo de ensinamento.

A Bíblia nos advertiu que isso ocorreria. O Apóstolo Paulo avisou ao seu aluno Timóteo: 

"Porque virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas suas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas".(2Tim. 4,3-4).


O QUE É HERESIA?

Antes de darmos uma olhada nas grandes heresias da história da Igreja, cumpre-nos dar algumas palavras sobre a natureza da heresia. Isso é muito importante já que o termo em si carrega um forte peso emocional e frequentemente é mal utilizado. Heresia não significa o mesmo que incredulidade, cisma, apostasia ou qualquer outro pecado contra a fé. 

O Catecismo da Igreja Católica define a heresia do seguinte modo:

"Incredulidade é negligenciar uma verdade revelada ou a voluntária recusa em dar assentimento de fé a uma verdade revelada. Heresia é a negação após o batismo de algumas verdades que devem ser acreditadas com fé divina e Católica, ou igualmente uma obstinada dúvida com relação às mesmas; apostasia é o total repúdio da fé cristã; cisma é o ato de recusar-se a submeter-se ao Romano Pontífice ou à comunhão com os membros da Igreja sujeitos a ele" (CCC 2089).


Para ser culpado de heresia, uma pessoa deve estar obstinada (incorrigível) no erro. Uma pessoa que está aberta à correção ou que simplesmente não tem consciência de que o que ela está dizendo é contrário ao ensinamento da Igreja, não pode ser considerada como herética.

A dúvida ou negação envolvida na heresia deve ser pós-batismal. Para ser acusado de heresia, uma pessoa deve ser antes de tudo um batizado. Isso significa que aqueles movimentos que surgiram da divisão do Cristianismo ou que foram influenciados por ele, mas que não administram o batismo ou que não batizam validamente, não podem ser considerados heresias mas apenas religiões separadas (exemplos incluem Muçulmanos que não possuem batismos e Testemunhas de Jeová que não batizam validamente).

E, finalmente, a dúvida ou negação envolvidos na heresia devem estar relacionados a uma matéria que deve ser crida com "fé Católica e divina" - em outras palavras, alguma coisa que tenha sido definida solenemente pela Igreja como verdade divinamente revelada (por exemplo, a Santíssima Trindade, a Encarnação, a Presença Real de Cristo na Eucaristia, o Sacrifício da Missa, a Infalibilidade Papal, a Imaculada Conceição e Assunção de Nossa Senhora).


É especialmente importante saber distinguir heresia de cisma e apostasia. No cisma, uma pessoa ou grupo se separa da Igreja Católica sem repudiar nenhuma doutrina definida. Já na apostasia, uma pessoa repudia totalmente a fé cristã e não mais se considera cristã.

É interessante notar como, de uma forma ou outra, a imensa maioria destas heresias permanece...

Esclarecidas as diferenças, vamos dar uma conferida nas maiores heresias da história da Igreja e quando elas começaram:

 Os Judaizantes (Séc. I)

A heresia Judaizante pode ser resumida pelas seguintes palavras dos Atos dos Apóstolos 15,1: "Alguns homens, descendo da Judéia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: 'Se não vos circuncidais segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos'".

Muitos dos primeiros Cristãos eram Judeus, e esses trouxeram para a Fé cristã muitas de suas práticas e observâncias judaicas. Eles reconheciam em Jesus Cristo o Messias anunciado pelos profetas e o cumprimento do Antigo Testamento, mas uma vez que a circuncisão era obrigatória no Antigo Testamento para a participação na Aliança com Deus, muitos pensavam que ela era também necessária para a participação na Nova Aliança que Cristo veio inaugurar. Portanto eles acreditavam que era necessário ser circuncidado e guardar os preceitos mosaicos para se tornar um verdadeiro cristão. Em outras palavras, uma pessoa deveria se tornar judeu para poder se tornar cristão.

Uma forma "light" desta heresia é a dos Adventistas de Sétimo Dia e outras seitas sabatistas.

 Gnosticismo (Sécs. I e II)

"A matéria é má!" - Esse é o lema dos Gnósticos. Essa foi uma idéia que eles "tomaram emprestado" de alguns filósofos gregos e isso vai contra o ensinamento Católico, não apenas porque contradiz Gênesis 1,31: "Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom", bem como outras partes da Sagrada Escritura, mas porque nega a própria Encarnação. Se a matéria é má, então Jesus não poderia ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, pois em Cristo não existe nada que seja mau. Assim muitos gnósticos negavam a Encarnação alegando que Cristo apenas "parecia" como homem, mas essa sua humanidade era apenas ilusória.


Alguns Gnósticos, reconhecendo que o Antigo Testamento ensina que Deus criou a matéria, alegavam que o Deus dos Judeus era uma divindade maligna bem diferente do Deus de Jesus Cristo, do Novo Testamento. Eles também propunham a crença em muitos seres divinos, conhecidos como "aeons" que servem de mediadores entre o homem e um inatingível Deus. O mais baixo de todos esses "aeons" que estava em contato direto com os homens teria sido Jesus Cristo.
Esta heresia permanece de maneira quase igual na chamada "Nova Era". Em outras formas, aliás, ela não deixa de ser a heresia de base de muitas outras, como o protestantismo (com sua negação dos Sacramentos e da Maternidade Divina da Santíssima Virgem, decorrentes de uma visão gnóstica segundo a qual a religião verdadeira é puramente espiritual: Igreja invisível, sem meios visíveis de transmissão de graça etc.).


 Montanismo (final do Séc. II)


Montanus iniciou inocentemente sua carreira pregando um retorno à penitência e ao fervor. Todavia ele alegava que seus ensinamentos estavam acima dos ensinamentos da Igreja porque ele era diretamente inspirado pelo Espírito Santo. Logo, logo ele começou a ensinar sobre uma eminente volta de Cristo em sua cidade natal na Frígia. Seu movimento enfatizava sobretudo a continuidade dos dons extraordinários como falar em línguas e profecias.
Montano afirmava que a Igreja não tinha capacidade de perdoar pecados mortais. Esta heresia, de uma certa forma, está presente em muitas seitas atuais, cuja rigidez de costumes traz esta idéia no fundo. Um exemplo seria a "Assembléia de Deus", ou até a seita suicida africana.

 Sabelianismo (Princípio do Séc. III)


Os Sabelianistas ensinavam que Jesus Cristo e Deus Pai não eram pessoas distintas, mas simplesmente dois aspectos ou operações de uma única pessoa. De acordo com eles, as três pessoas da Trindade existem apenas em referência ao relacionamento de Deus com o homem, mas não como uma realidade objetiva.

Esta visão também está presente em muitos movimentos "ecumênicos" protestantes atuais, especialmente entre as seitas mais antigas. Nosso Senhor para eles dissolve-se em uma vaga "divindade".


 Arianismo (Séc. IV)


Uma das maiores heresias que a Igreja teve que confrontar foi o Arianismo. Arius ensinava que Cristo não era Deus e sim uma criatura feita por Deus. Ao disfarçar sua heresia usando uma terminologia ortodoxa ou semi-ortodoxa, ele foi capaz de semear grande confusão na Igreja, conquistando o apoio de muitos Bispos e a rejeição de alguns. O Arianismo foi solenemente condenado no ano 325 pelo Primeiro Concílio de Nicéia, o qual definiu a divindade de Cristo e no ano 381 pelo Primeiro Concílio de Constantinopla, o qual definiu a divindade do Espírito Santo. Esses dois Concílios deram origem ao Credo Niceno que os Católicos recitam nas Missas Dominicais.

Os "Testemunhas de Jeová" têm esta crença, assim como os Unitarianos.

Pelagianismo (Séc. V)


Pelagius, um monge gaulês deu início a essa heresia que carrega seu nome. Ele negava que nós herdamos o pecado de Adão e alegava que nos tornamos pessoalmente pecadores apenas porque nascemos em solidariedade com uma comunidade pecadora a qual nos dá maus exemplos. Da mesma forma, ele negava que herdamos a santidade ou justiça como resultado da morte de Cristo na cruz e dizia que nos tornamos pessoalmente justos através da instrução e imitação da comunidade cristã, seguindo o exemplo de Cristo.

Pelagius declarava que o homem nasce moralmente neutro e pode chegar ao céu por seus próprios esforços. 

De acordo com ele, a graça de Deus não é verdadeiramente necessária, mas apenas facilita uma difícil tarefa.

É uma visão que ainda hoje encontramos na Teologia da Libertação, por exemplo: o que importa é o esforço do homem, a graça de Deus é bem vinda mas não é necessária, etc. É por isso que os TL dão tanto valor à "auto-estima", nome chique para o pecado do Orgulho: para eles é importante amar A SI sobre todas as coisas, pois a salvação (ou a utopia socialista, no caso...) viria apenas através do esforço do homem.

Nestorianismo (Séc. V)


Essa heresia sobre a pessoa de Cristo foi iniciada por Nestorius, bispo de Constantinopla que negava a Maria o título de Theotokos (literalmente "Mãe de Deus"). Nestorius alegava que Maria deu origem apenas à pessoa humana de Cristo em seu útero e chegou a propor como alternativa o título Christotokos ("Mãe de Cristo").

Os teólogos Católicos ortodoxos imediatamente reconheceram que a teoria de Nestorius dividia Cristo em duas pessoas distintas (uma humana e outra divina, unidos por uma espécie de "elo perdido"), sendo que apenas uma estava no útero de Maria. A Igreja reagiu no ano 431 com o Concílio de Éfeso, definindo que Maria realmente é Mãe de Deus, não no sentido de que ela seja anterior a Deus ou seja a fonte de Deus, mas no sentido de que a Pessoa que ela carregou em seu útero era de fato o Deus Encarnado.

Creio que todo mundo já identificou o protestantismo pentecostal neste heresia, não? Bom, isso na verdade é, no protestantismo, apenas uma maneira a mais de menosprezar a Encarnação. Note-se que S. João escreveu seu Evangelho em resposta aos gnósticos, e fez questão de comecá-lo pela Encarnação. Isto ocorre porque a base gnóstica do protestantismo (e tbm, de uma certa maneira, do nestorianismo) recusa-se a admitir que Nosso Senhor tenha realmente assumido a nossa natureza. 

É por isso, por exemplo, que Lutero afirmava que o pecado do homem não é jamais apagado, mas apenas encoberto por Deus. Para ele, Nosso Senhor mentiria, afirmando que o homem não tem pecado, para que ele entre no Céu. É mais fácil para um gnóstico crer em um deus que minta que em um Deus que se faz verdadeiramente homem, com mãe e tudo.


Monofisismo (Séc. V)


O Monofisismo originou-se como uma reação ao Nestorianismo. Os monofisistas (liderados por um homem chamado Eutyches) ficaram horrorizados pela implicação Nestoriana de que Cristo era duas pessoas com duas diferentes naturezas (divina e humana). Então eles partiram para o outro extremo alegando que Cristo era uma pessoa com uma só natureza (uma fusão de elementos divinos e humanos). Portanto eles passaram a ser reconhecidos como Monofisistas devido à sua alegação de que Cristo possuía apenas uma natureza (Grego: mono= um; physis= natureza).


Os teólogos Católicos ortodoxos imediatamente reconheceram que o Monofisismo era tão pernicioso quanto o Nestorianismo porque esse negava tanto a completa humanidade como a completa divindade de Cristo. Se Cristo não possuia a natureza humana em sua plenitude então Ele não poderia ser verdadeiramente homem e se Ele não possuía a natureza divina em plenitude, então Ele também não era verdadeiramente Deus.

Esta heresia persiste em alguns círculos católicos bem-intencionados, mas errados, que subestimam a importância da natureza humana de Cristo.

Iconoclastas (Sécs. VII e VIII)


Essa heresia surgiu quando um grupo de pessoas conhecidos como iconoclastas (literalmente, destruidores de ícones) apareceu. 

Esses alegavam que era pecaminoso fazer estátuas ou pinturas de Cristo e dos Santos apesar de exemplos bíblicos que provam que Deus mandou que se fizesse estátuas religiosas (por exemplo, em Ex 25,18-20 e 1Cr 28,18-19), inclusive representações simbólicas de Cristo (Num 21,8-9 e Jo 3,14).Tem um em cada esquina hoje em dia...


Catarismo (Séc. XI)


O Catarismo foi uma complicada mistura de religiões não-Católicas trabalhadas com uma terminologia Cristã. O Catarismo se dividia em muitas seitas diferentes que tinham em comum apenas o ensinamento de que o mundo tinha sido criado por uma divindade má (portanto toda matéria é má) e que por isso devemos adorar apenas a divindade do bem.

Os Albigenses formavam uma das maiores seitas Cátaras. Eles ensinavam que o espírito foi criado por Deus e que por isso era bom, enquanto o corpo teria sido criado pelo Mal, portanto o espírito deveria ser libertado do corpo. 

Ter filhos era considerado pelos albigenses um dos maiores males já que isso era o mesmo que aprisionar um outro "espírito" na carne. Obviamente o casamento era proibido, embora a fornicação fosse permitida. 

 Tremendos jejuns e severas mortificações eram paticadas e seus líderes adotavam uma vida de voluntária pobreza.

Alguns aspectos da gnose cátara hoje são parte integrante da mentalidade geral em nossa sociedade: o horror à concepção, o amor à fornicação (infelizmente há católicos que aderem a esta mentalidade e praticam sem as necessárias razões graves a abstinência periódica de relações conjugais nos dias férteis)...


Protestantismo (Séc. XVI)


Os grupos Protestantes se dividem em uma ampla variedade de diferentes doutrinas. Todavia, virtualmente todos alegam acreditar no princípio da Sola Scriptura ("apenas a Escritura" - idéia que defende o uso apenas da Bíblia ao formular sua teologia) e Sola Fide ("apenas pela Fé - a idéia de que somos justificados somente pela Fé). 

Apesar disso, existe pouca concordância sobre o que essas duas doutrinas-chave realmente significam. Por exemplo, Lutero acreditava que a fé salvífica é expressa pelo batismo, pelo qual, segundo ele, uma pessoa renasce e seus pecados são perdoados, ao passo que muitos Fundamentalistas alegam ser essa uma falsa pregação e que o batismo é meramente um símbolo.


A grande diversidade de doutrinas Protestantes advêm da doutrina do julgamento privado, a qual nega a infalível autoridade da Igreja e alega que cada indivíduo pode interpretar a Escritura por si próprio. 

Essa idéia é rejeitada pela própria Bíblia em 2Ped 1,20, que nos dá a primeira regra para a interpretação bíblica: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal". 

Uma significante tática dessa heresia é a tentativa de confrontar a Igreja com a Bíblia, negando que o magistério possua qualquer autoridade infalível para ensinar ou interpretar as Escrituras.


A doutrina do julgamento privado resultou em um enorme número de diferentes denominações. De acordo com o The Christian Sourcebook, existiam aproximadamente 21,000 denominações em 1986, com 270 novas se formando a cada ano. Virtualmente todas elas são Protestantes,ou seja, deixaram de seguir a doutrina dos apóstolos para seguir a de doutrina de um pastor em particular.


Jansenismo (Séc. XVII)


Jansenius, bispo de Yvres, França deu início a essa heresia num jornal em que ele escreveu sobre Santo Agostinho, no qual ele redefinia a doutrina sobre a graça. Entre outras doutrinas, seus seguidores negavam que Cristo morreu pela salvação de todos os homens, alegando que Ele havia morrido apenas por aqueles que serão finalmente salvos (ou seja, os eleitos). Este e outros erros Jansenistas foram oficialmente condenados pelo Papa Inocêncio X em 1653.

O jansenismo, infelizmente, é hoje encontrado em muitos meios ditos "tradicionalistas". Este debate é frequentemente provocado pelas objeções que muitos fazem à má tradução do Cânon Romano, que traz "por todos" (e não "para muitos") como tradução de "pro multis". 

Esta tradução está errada como tradução, mas não é teologicamente errada, pois afirma ser o Sacrifício de Cristo suficiente para todos. Os neo-jansenistas, porém, afirmam que teologicamente também está errada.


Modernismo (Séc. XX)


Os modernistas ensinam, essencialmente, que o homem é incapaz de compreender a realidade e que as "verdades" são meramente idéias relativas. 

Para o modernista não existem verdades absolutas. 

As doutrinas que foram infalivelmente definidas pela Igreja podem portanto serem mudadas com os tempos, ou rejeitadas ou reinterpretadas para se adaptarem às modernas preferências.


O Modernismo está entre as mais sérias heresias porque permite a uma pessoa rejeitar qualquer doutrina que foi definida, inclusive aquelas mais cêntricas como a divindade e ressurreição de Cristo. 

Essa heresia permite a reintrodução de todos os erros das heresias anteriores, bem como novos ensinamentos falsos que os antigos heréticos jamais imaginaram.

O Modernismo é especialmente grave porque ele frequentemente advoga suas crenças usando uma terminologia aproximadamente ortodoxa. 

O erro é frequentemente expresso através de uma nova interpretação simbólica, por exemplo: Cristo não ressuscitou fisicamente dos mortos, mas a história de sua ressurreição produz uma importante verdade. 

Uma das táticas mais comuns usadas pela maioria dos modernistas é insistir na premissa de que eles estão dando a interpretação ortodoxa das verdades do Catolicismo.


Da última vez que estive lá, o ninho desta espécie ficava na lista "católicos" da Summer.

As heresias sempre nos acompanharam desde o início da Igreja até os nossos tempos atuais.

Geralmente elas sempre tiveram início por membros da hierarquia da Igreja, mas eram combatidas e corrigidas pelos Concílios e Papas. 

Felizmente temos a promessa de Cristo de que as heresias jamais prevalecerão contra a Igreja: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mat 16,18), pois a Igreja é verdadeiramente, nas palavras do Apóstolo Paulo, "coluna e sustentáculo da verdade" (1Tim 3,15).

Por: Gercione Lima

 
Fonte: Site Cleofas
 
A Controvérsia das Imagens


D. Estevão Bettencourt



A controvérsia iconoclasta teve como uma de suas conseqüências um maior distanciamento da Itália e do lmpério bizantino.

Esse afrouxamento religioso, administrativo e político foi um dos antecedentes do cisma de 1054 entre orientais e ocidentais. Estudemos agora o debate iconoclasta; este ocorreu numa época em que os principais artigos da fé tinham acabado de ser formulados (em 681 o monotelitismo, fora condenado; ver capítulo 10); versava sobre uma prática tradicional dos cristãos.

Os inícios da controvérsia

Já os primeiros cristãos usavam imagens nos lugares de culto, nos cemitérios e nas catacumbas. Sabiam que a proibição de fazer imagens em Ex 20,4 era contingente ou devida ao perigo de idolatria que ameaçava o povo de Israel cercado de nações pagãs. Ademais o fato de que Deus apareceu sob forma visível no mistério da Encarnação parece um convite a reproduzir a face humana do Senhor e dos seus amigos.

As primeiras imagens eram inspiradas pelo texto bíblico (cordeiro, Bom Pastor, pomba, peixe, âncora, Daniel, Moisés); mas podiam também representar o Senhor, a Virgem Maria, os santos Apóstolos e mártires. Desde os inícios da arquitetura sacra, as igrejas foram enriquecidas com imagens tanto a título de ornamentação quanto a título de instrução dos iletrados. No século IV, ouve´se uma ou outra voz contrária às imagens; assim a do concílio regional de Elvira (cerca de 306).


O Papa S. Gregório Magno († 604), porém, escrevia a Severo, bispo de Marselha, que mandara destruir imagens por causa do perigo de falso culto: “Era preciso não as quebrar, pois as imagens não foram colocadas na igreja para ser adoradas, mas apenas para instruir as mentes dos ignorantes” (ep. 9,105). O culto das imagens foi´se ampliando na Igreja, principalmente no Oriente; os monges e os simples fiéis muito as estimavam. Todavia no início do século VIII acendeu´se uma controvérsia sobre as mesmas, que durou mais de um século (com breve pausa) e deu ocasião à violência de toda espécie. A luta foi aberta pelo Imperador Leão III o Isáurico (717´741). Vejamos em que circunstâncias: Em 723 o califa Yezid mandou destruir todas as imagens dos templos e casas de seus súditos, quer muçulmanos, quer cristãos. Maomé mesmo não proibia as imagens, mas os seus sucessores o fizeram. ´ A proibição do califa Yezid provocou entre os cristãos um movimento iconoclasta, que se comunicou ao Imperador e a diversos bispos.

As razões que devem ter movido o monarca, foram, além da influência de judeus e muçulmanos, a própria personalidade do Imperador. Este queria reorganizar o Império promovendo a unidade religiosa ´ condição da unidade política ´ no reino; ora as imagens eram um ponto de discórdia entre judeus e maometanos, de um lado, e cristãos, do outro lado. Leão III tinha índole fortemente absolutista e cesaropapista; dizia textualmente que era “Imperador e Sacerdote”; devia, portanto, subordinar ao seu poder a Igreja e, em particular, os monges, sempre ciosos da liberdade. Quem considera esta tendência do Imperador, há de reconhecer que a defesa das imagens por parte dos católicos era não somente uma questão de ortodoxia, mas também o desejo de afirmar a independência da Igreja frente ao despotismo imperial. A luta ardente Por conseguinte, em 726 Leão III investiu contra as imagens por palavras e gestos violentos. Procurou o apoio do Patriarca Germano de Constantinopla, que lhe resistiu. Escreveu também ao Papa Gregório II, ameaçando depô´lo, caso defendesse as imagens.

Gregório em duas cartas condenou a conduta do Imperador, dizendo´lhe que a questão era da competência dos bispos. Ao saberem da imposição do Imperador, as populações do Norte da Itália teriam eleito novo Imperador se o Papa não as tivesse dissuadido. Havia na época motivos de animosidade entre bizantinos e ocidentais: o Império acabrunhava de impostos a Itália; mais de uma vez, funcionários do Imperador haviam atentado contra a vida do Papa; Gregório II, porém, manteve´se leal e exortou os italianos à sujeição. Também os habitantes da Grécia se revoltaram, proclamando um anti´Imperador, Cosmas; mandaram a Constantinopla uma frota numerosa, que foi vencida com seus chefes. Isto tudo só contribuía para irritar cada vez mais o Imperador. Em 730, Leão III depôs o Patriarca Germano e conseguiu a eleição de Anastásio, iconoclasta. Este logo publicou um edito contra as santas imagens; clérigos, monges e monjas foram decapitados e mutilados...


Em 731 o Papa Gregório III convocou um Sínodo em Roma, que puniu com a excomunhão quem combatesse as imagens. Leão III, exasperado, mandou uma frota à Itália, que foi destruída no Mar Adriático por violenta tempestade (732); confiscou os bens da Igreja Romana na Calábria e na Sicília e, a quanto parece, quis subtrair à jurisdição de Roma territórios ocidentais, que ficariam sujeitos ao Patriarcado de Constantinopla. O filho de Leão III, Constantino V Coprônimo, subiu ao trono em 741. Queria convocar um Concílio para decidir a questão; antes, porém, escreveu um tratado de (índole iconoclasta, que chegava a por em xeque definições dos Concílios de Efeso e Calcedônia a respeito do mistério da Encarnação: por exemplo, Maria não devia ser dita “Mãe de Deus”, mas apenas “Mãe de Cristo”. O Concílio convocado pelo Imperador reuniu´se em 754 e em Constantinopla com a presença de 338 bispos, sem o Papa nem os Patriarcas orientais. Declarou o culto das imagens obra de Satã, e nova idolatria. Tal Concíclio não era legítimo; por isto, foi excomungado pelo Papa Estevão III em 769. Em conseqüência, a perseguição aos fiéis ortodoxos se tornou bárbara: em todas as igrejas as imagens foram removidas ou substituídas por motivos profanos (árvores, pássaros...).


Os monges eram quase os únicos a opor resistência: muitos mosteiros foram destruídos ou transformados em quartéis, arsenais.... Fez´se tudo para tornar o monaquismo odioso aos cristãos: foi proibido o hábito monásticos; os iconoclastas procuraram seduzir os monges para prevaricação com mulheres; muitos tiveram os olhos crivados, a barba queimada, os cabelos arrancados.... A situação era comparável à dos piores dias do paganismo. Finalmente Constantino V morreu em 775, recomendando´se à Mãe de Deus; da qual fora adversário. Seu filho Leão IV mostrou´se mais tolerante que seu pai, mas não revogou os decretos anteriores. Faleceu em 780, sucedendo´lhe a Imperatriz Irene como regente do filho Constantino VI.


Irene era piedosa, amiga das imagens e dos monges, embora ambiciosa. Permitiu logo o culto das imagens e, a conselho dos Patriarcas Paulo e Tarásio de Constantinopla, e de acordo com o Papa Adriano, a regente convocou um Concílio ecumênico. Este, de fato, se reuniu em 787, com a presença de dois legados papais, em Nicéia. Foi o sétimo ecumênico e o segundo de Nicéia, freqüentado por 350 bispos. Notemos que a primeira sessão desse Concílio se reuniu já em 786 em Constantinopla, mas teve que se dissolver, porque Os militares, iconoclastas, apoiados por alguns bispos, impediram os trabalhos, que teriam sido um triunfo da ortodoxia. Em Nicéia, o falso Concílio de 754 foi rejeitado; a intercessão dos Santos e o título “Mãe de Deus” foram reabilitados.


Os conciliares declararam, apoiados na tradição, que às imagens de Cristo, de Maria Virgem, dos anjos e dos Santos convém uma veneração honorífica com lamparinas, incenso, inclinações, pois essa veneração recai sobre o protótipo (ou a pessoa representada); ao contrário, a verdadeira adoração compete a Deus só. A última sessão desse Concílio realizou´se em Constantinopla, sob a presidência da Imperatriz regente e de seu filho, que assinaram a definição conciliar; isto lhes valeu as aclamações dos padres conciliares e dos fiéis, dirigidas ao novo Constantino e à nova Helena.25 As decisões de Nicéia II ficaram em vigor no Oriente durante quase trinta anos, ou seja, até 813. Ecos tardios e fim No Ocidente reinava Carlos Magno.


O Papa Adriano procurou fazer que o monarca reconhecesse os decretos de Nicéia II; mas o soberano se lhes opôs, porque ´ era ambígua ou errônea a tradução latina das atas de Nicéia II; Os latinos conheciam cada vez menos o grego; por isto deram a entender que o culto de adoração, devido exclusivamente à SS. Trindade, havia de ser prestado às imagens; ´ reinava forte tensão política entre o Ocidente e Bizâncio ´ a ufania de Carlos Magno não lhe permitia reconhecer um Concílio do qual não tivessem participado bispos francos. O rei então convocou um Concílio de 300 bispos francos para Francoforte em 794. Sob a presidência de Carlos, os conciliares condenaram as decisões do Niceno II.


O Papa Adriano I, que defendia o Concílio de 787, tomou uma atitude de reserva e prudência para evitar ulteriores amarguras ou mesmo represálias da parte do monarca. Em breve, porém, também no Oriente foram atacadas as decisões do Niceno II. O Imperador Leão V em 815 renovou o iconoclasmo, atribuindo ao culto das imagens as desgraças do Império na guerra contra os sarracenos. Os decretos de 754 foram postos de novo em vigor; Os monges, mais uma vez, foram especialmente atingidos. Como na primeira fase da disputa se distinguira São João Damasceno (†749)qual campeão da ortodoxia, nesta segunda etapa sobressaiu o monge Teodoro de Studion, intrépido entre os maus tratos, a flagelação e o exílio


A perseguição durou cerca de três decênios. Paralelamente à primeira fase do iconoclasmo, depois de três imperadores heterodoxos, surgiu uma mulher, a Imperatriz viúva Teodora, como regente de seu filho menor Miguel III; Teodora sempre fora amiga das imagens; conseguiu que um sínodo em Constantinopla (843) reabilitasse o culto das mesmas. Para a perpétua recordação deste feito, os gregos introduziram no seu calendário a “grande festa da ortodoxia”, que todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma, comemorava esta vitória e todas as demais vitórias levadas sobre as heresias na Igreja. Sabe´se que até hoje os orientais dedicam grande veneração aos seus ícones, símbolos de valores transcendentais. O ardor da nova discussão comunicou´se também ao Ocidente.


Em 824 o Imperador Miguel II mandou uma legação ao rei Luís o Piedoso dos francos convidando´o a uma ação comum iconoclasta. Luís, com a licença do Papa Eugênio II, em 825 reuniu bispos e teólogos em Paris a fim de estudarem o assunto. Essa assembléia manifestou´se no sentido do Concílio de Francoforte (794), que, aliás, tomou posição contrária ao Niceno II, mas em termos assaz ambíguos, como se depreende desta fórmula: as imagens não devem ser nem adoradas nem veneradas nem destruídas, mas hão de ser conservadas em memória daqueles ou daquilo que representam. ´ Não se sabe qual tenha sido a atitude do Papa diante deste pronunciamento de Paris. Finalmente o bibliotecário Anastásio refez a tradução das atas do Concílio de Nicéia II sob o Papa João VIII (872´882). Isto permitiu que as determinações conciliares fossem finalmente aceitas no Ocidente; grande parte da problemática se achava na deficiência de tradução. Como se percebe, a veemência e a duração da controvérsia iconoclasta se devem ao cesaropapismo dos Imperadores.


Os Papas perceberam que nada mais tinham a esperar dos Imperadores Bizantinos, pois, desde a época do arianismo(século IV), haviam freqüentemente favorecido as heresias e perseguidos os pastores e fiéis ortodoxos; as suas intervenções dogmatizantes eram, muitas vezes, movidas por razões políticas. Pode´se, pois, dizer que o iconoclasmo se ligam intimamente a origem do Estado Pontifício, a proclamação do Império Romano no Ocidente e, de maneira mais remota, mas não menos real, o cisma grego de 1054; por mais de um século Oriente e Ocidente tinham estado em dissensão e, quando em 843 a luta iconoclasta terminava, já Fócio, o campeão do cisma, aparecia na corte da Imperatriz Teodora, para em breve subir à cátedra patriarcal de Constantinopla.

Com toda a razão, Teodoro de Studion, um dos últimos grandes católicos de Bizâncio, clamava o Papa: “Salva´nos, arquipastor da Igreja que está debaixo do céu; pereceremos!”

D. Estevão Bettencourt


As Heresias Cristológicas


D.ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB

Após verificar que o Filho de Deus é verdadeiro Deus com o Pai e o Espírito Santo, a atenção dos teólogos devia voltar´se mais detidamente para a questão: como Jesus pode ser autêntico Deus e autêntico homem? Como se relacionam entre si a Divindade e a humanidade de Jesus? A resposta a estas perguntas exigiu grande esforço por parte dos estudiosos, que a formularam em quatro etapas:

1) a fase apolinarista;

2) a fase nestoriana;

3) a fase monofisita;

4) a fase monotelita.

A seguir, estudaremos as três primeiras destas etapas.

O Apolinarismo

Em plena controvérsia ariana, o Bispo Apolinário de Laodicéia (Síria), 310´390, mostrava´se fervoroso defensor do Credo niceno contra os arianos, mas afirmava que em Cristo a natureza humana carecia de alma humana; tomava ao pé da letra as palavras de S. João 1,14: “O Lógos se fez carne”, entendendo carne no sentido estrito, com exclusão de alma. O Lógos de Deus faria as vezes de alma humana em Jesus, isto é, seria responsável pelas funções vitais da natureza humana assumida pelo Lógos. Os argumentos em favor desta tese eram os seguintes: duas naturezas completas (Divindade e humanidade) não podem tornar´se um ser único; se Jesus as tivesse, Ele teria duas pessoas ou dois eu ´ o que seria monstruoso. Além disto, dizia, onde há um homem completo, há também o pecado; ora o pecado tem origem na vontade; por conseguinte, Jesus não podia ter vontade humana nem a alma espiritual, que é a sede da vontade. Apolinário expôs suas idéias no livro “Encarnação do Verbo de Deus”, que ele apresentou ao Imperador Joviano e que os seus discípulos difundiram. ´ Foram condenadas num sínodo de Alexandria em 362; depois, pelo Papa S. Dâmaso em 377 e 382 e, especialmente, pelo Concílio de Constantinopla I (381). Verificando a oposição que lhe faziam bons teólogos, Apolinário limitou´se a negar a presença de mente (nous) humana em Jesus. S. Gregório de Nissa († 394) e outros autores lhe responderam mediante belo princípio: “O que não foi assumido pelo Verbo, não foi redimido” ´ o que quer dizer: Deus quer santificar e salvar a natureza humana pelo próprio mistério da Encarnação ou pela união da Divindade com a humanidade; se pois, a humanidade estava mutilada em Jesus, ela não foi inteiramente salva. Em Antioquia, fundou´se uma comunidade apolinarista, tendo à frente o Bispo Vital. Por volta de 420 esta foi reabsorvida pela Igreja ortodoxa, mas nem todos os seus membros abandonaram o erro, que reviveu, de certo modo, na heresia monofisita.

O Nestorianismo.

Afirmada a existência da natureza humana completa em Jesus, os teólogos puderam estudar mais detidamente o modo como humanidade e Divindade se relacionaram em Cristo. Antes, porém, de entrar em particulares, devemos mencionar as duas principais escolas teológicas da antigüidade: a alexandrina e a antioquena, que muito influíram na elaboração da Cristologia. A escola alexandrina era herdeira de forte tendência mística; procurava exaltar o divino e o transcendental nos artigos da fé. Interpretava a S. Escritura em sentido alegórico, tentando desvendar os mistérios divinos contidos nas Sagradas Letras. Em assuntos cristológicos, portanto, era inclinada a realçar o divino, com detrimento do humano. Ao contrário, a escola antioquena era mais dada à filosofia e à razão: voltava´se mais para o humano, sem negar o divino. Interpretava a S. Escritura em sentido literal e tendia a salientar em Jesus os predicados humanos mais do que os atributos divinos. Era mais racional, ao passo que a de Alexandria era mais mística. Dito isto, voltemos à história do dogma cristológico. A primeira tentativa de solução foi encabeçada por Nestório, elevado à cátedra episcopal de Constantinopla em 428. Afirmava que o Lógos habitava na humanidade de Jesus como um homem se acha num templo ou numa veste; haveria duas pessoas, em Jesus ´ uma divina e outra humana ´ unidas entre si por um vinculo afetivo ou moral. Por conseguinte, Maria não seria a Mãe de Deus (Theotókos), como diziam os antigos, mas apenas Mãe de Cristo (Christokós); ela teria gerado o homem Jesus, ao qual se uniu a segunda pessoa da SS. Trindade com a sua Divindade. Nestório propunha suas idéias em pregações ao povo, nas quais substituía o título “Mãe de Deus” por “Mãe de Cristo” As suas concepções suscitaram reação não só em Constantinopla, mas em outras regiões também, especialmente em Alexandria, onde S. Cirilo era Bispo ardoroso. Este escreveu em 429 aos bispos e aos monges do Egito, condenando a doutrina de Nestório. As duas correntes se dirigiram ao Papa Celestino I, que rejeitou a doutrina de Nestório num sínodo de 430. Deu ordem a S. Cirilo para que intimasse Nestório a retirar suas teorias no prazo de dez dias, sob pena de exílio; Cirilo enviou ao Patriarca de Constantinopla uma lista de doze anatematismos que condenavam o nestorianismo. Nestório não se quis dobrar, de mais a mais que podia contar com o apoio do Imperador; além do mais, tinha muitos seguidores na escola antioquena, entre os quais o próprio Bispo João de Antioquia. Em 431, o Imperador Teodósio II, instado por Nestório, convocou para Éfeso o terceiro Concílio Ecumênico a fim de solucionar a questão discutida. S. Cirilo, como representante do Papa Celestino I, abriu a assembléia diante de 153 Bispos. Logo na primeira sessão, foram apresentados os argumentos da literatura antiga favoráveis ao título Theotókos, que acabou sendo solenemente proclamado; daí se seguia que em Jesus havia uma só pessoa (a Divina); Maria se tornara Mãe de Deus pelo fato de que Deus quisera assumir a natureza humana no seu seio. Quatro dias após esta sessão, isto é, a 26/06/431 chegou a Éfeso o Patriarca Jogo de Antioquia, com 43 Bispos seus seguidores, todos favoráveis a Nestório; não quiseram unir´se ao Concílio presidido por S. Cirilo, representante do Papa; por isto formaram um conciliábulo, qual depôs Cirilo. O Imperador acompanhava tudo de perto e sentia´se indeciso. S. Cirilo então mobilizou todos os seus recursos, para mover Teodósio II em favor da reta doutrina; nisto foi ajudado por Pulquéria, piedosa e influente irmã mais velha do Imperador. Este finalmente apoiou a sentença de Cirilo e exilou Nestório. Todavia os antioquenos não se renderam de imediato; acusavam Cirilo de arianismo a apolinarismo. Após dois anos de litígio, em 433 puseram´se de acordo sobre uma fórmula de fé que. professava um só Cristo e Maria como Theotókos. O Nestorianismo, porém, não se extinguiu. Os seus adeptos, expulsos do Império Bizantino, foram procurar refúgio na Pérsia, onde fundaram a Igreja Nestoriana. Esta teve notável expansão até a China e a Índia Meridional; mas do século XIV em diante foi definhando por causa das incursões dos mongóis; em grande parte, os nestorianos voltaram à comunhão da Igreja universal (são hoje os cristãos caldeus e os cristãos de São Tomé). Em nossos dias muitos estudiosos têm procurado reabilitar a pessoa e a obra de Nestório, que parece ser autor de uma apologia intitulada “Tratado de Heraclides de Damasco”: pode´se crer que tenha tido reta intenção ; mas certamente sustentou posições errôneas por se ter apegado demasiadamente à Escola Antioquena.

O Monofisismo

A luta contra o Nestorianismo, que admitia em Jesus duas naturezas e duas pessoas, deu ocasião ao surto do extremo oposto, que é o monofisismo ou monofisitismo (“em Jesus há uma só natureza e uma só pessoa: a divina”). O primeiro arauto desta tese foi Eutiques, arquimandrita de Constantinopla: reconhecia que Jesus constava originariamente da natureza divina e da humana, mas afirmava que a natureza divina absorveu a humana, divinizando´a; após a Encarnação, só se poderia falar de uma natureza em Jesus: a divina. Esta doutrina tornou´se a heresia mais popular e mais poderosa da antigüidade, pois, para os orientais, a divinização da humanidade em Cristo era o modelo do que deve acontecer com cada cristão. Eutiques foi condenado como herege no Sínodo de Constantinopla em 448, sob o Patriarca Flaviano. Todavia não cedeu e reclamou contra uma pretensa injustiça, pois tencionava combater o Nestorianismo. Conseguiu assim ganhar os favores da corte. Solicitado pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, Teodósio II Imperador convocou em 449 novo Concílio Ecumênico para Éfeso, confiando a presidência do mesmo a Dióscoro, que era partidário de Estiques. Dióscoro, tendo aberto o Concílio negou a presidência aos legados papais; não permitiu que fosse lida a Carta do Papa S. Leão Magno, que propunha a reta doutrina: as duas naturezas em Cristo não se misturam nem confundem, mas cada qual exerce a sua atividade própria em comunhão com a outra; assim Cristo teve realmente fome, sede e cansaço, como homem, e pôde ressuscitar mortos como Deus. ´ Esse Concílio de Éfeso proclamou a ortodoxia de Eutiques; depôs Flaviano, Patriarca de Constantinopla, e outros Bispos contrários à tese monofisita... Todavia os seus decretos foram de curta duração. Os Bispos de diversas regiões o repudiaram como ilegítimo ou, segundo a expressão do Papa São Leão Magno, como “latrocínio de Éfeso”; pediam novo Concílio que de fato foi convocado após a morte de Teodósio II pela Imperatriz Pulquéria (irmã de Teodósio) e pelo general Marcião, que em 450 foi feito Imperador e se casou com Pulquéria. O novo Concílio, desta vez legítimo, reuniu´se em Caledônia, diante de Constantinopla, em 451; foi o mais concorrido da antigüidade, pois dele participaram mais de 600 membros, entre os quais três legados papais. A assembléia rejeitou o “latrocínio de Éfeso”; depôs Dióscoro e aclamou solenemente a Epístola Dogmática do Papa São Leão a Flaviano; esta serviu de base a uma confissão de fé, que rejeitava os extremos do Nestorianismo e do Monofisismo, propondo em Cristo uma só pessoa e duas naturezas: “Ensinamos e professamos um Único e idêntico Cristo... em duas naturezas, não confusas e não transformadas, não divididas, não separadas, pois a união das naturezas não suprimiu as diferenças; antes, cada uma das naturezas conservou as suas propriedades e se uniu com a outra numa Única pessoa e numa Única hipóstase”. Assim terminou a fase principal das disputas cristológicas: em Cristo não há duas naturezas e duas pessoas, pois isto destruiria a realidade da Encarnação e da obra redentora de Cristo; mas também não há uma só natureza e uma só pessoa, pois Cristo agiu como verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte para transfigurar estas nossas realidades. Havia, pois, uma só pessoa (um só eu) divina, que, além de dispor da natureza divina desde toda a eternidade, assumiu a natureza humana no seio de Maria Virgem e viveu na terra agindo ora como Deus, ora como homem, mas sempre e somente com o seu eu divino. O encerramento do Concílio de Calcedônia não significou a extinção do monofisismo. Além da atração que esta doutrina exercia sobre os fiéis (especialmente os monges), propondo´lhes a humanidade divinizada de Cristo como modelo, motivos políticos explicam essa persistência da heresia; com efeito, na Síria e no Egito certos cristãos viam no Monofisismo a expressão de suas tendências nacionalistas, opostas ao helenismo e à dominação bizantina. Por isto os monofisitas continuaram a lutar contra o Imperador, que havia exilado Dióscoro e Eutiques e ameaçado de punição os adeptos destes: ocuparam sedes episcopais; inclusive a de Jerusalém (ao menos temporariamente). No século VII a situação se agravou, pois os muçulmanos ocuparam a Palestina, a Síria e o Egito, impedindo a ação de Bizâncio em prol da ortodoxia nesses países. Em conseqüência, os monofisitas foram constituindo Igrejas nacionais: a armena, a síria, a mesopotâmica, a egípcia e a etíope, que subsistem até hoje com cerca de 10 milhões de fiéis. No Egito, os monofisitas tomaram o nome de coptas, nome que guarda as três consoantes da palavra grega Aigyptos (g ou k, p, t ); são os antigos egípcios. Os ortodoxos se chamam melquitas (de melek, Imperador), pois guardam a doutrina ortodoxa patrocinada pelo Imperador em Calcedônia. Há coptas que se uniram a Roma em 1742, enquanto os outros permanecem monofisitas, mas professam quase o mesmo Credo que os católicos. Na Abissínia os monofisitas também são chamados coptas pois receberam forte influência do Egito. ´ Dentre os melquitas, grande parte aderiu ao cisma bizantino, separando´se de Roma em 1054; certos grupos, porém, estão hoje unidos à Igreja universal; ver capítulo 21. Na Síria e nos países vizinhos, os monofisitas foram chamados jacobitas, nome derivado de um dos seus primeiros chefes: Jacó Baradai (= o homem da coberta de cavalo, alusão às suas vestes maltrapilhas). Jacó, bispo de Edessa (541´578), trabalhou com zelo e êxito para consolidar as Comunidades monofisitas, As quais deu por cabeça o Patriarca Sérgio de Antioquia (544). A história das disputas cristológicas prosseguirá no capítulo seguinte.


O Henotikón e o Teopasquismo

Vinte a cinco anos após o Concílio de Calcedônia, em 476, deu´se nova investida dos monofisitas contra a ortodoxia. Com efeito; os Patriarcas Pedro Mongo, de Alexandria, e Acácio de Constantinopla, adeptos do monofisismo, redigiram um Símbolo de fé que condenava tanto Nestório quanto Eutiques; rejeitava o Concílio de Calcedônia e afirmava que as normas de fé deveriam ser o símbolo niceno´constantinopolitano e as definições do Concílio de Éfeso (431).

Tal fórmula de 476 podia ser interpretada de diversas maneiras. O. Imperador Zenão promulgou esse símbolo de fé, dito Henotikón (Edito de União), com o vigor de lei do Estado. Assim esperava atingir a unidade religiosa dentro do Império. Infelizmente, porém, causou mais acesas divisões. Muitos católicos e os monofisitas mais extremados recusaram obedecer ao Imperador por causa da ambigüidade do Henotikón. Ao saber das manobras do Imperador, o Papa Félix III enviou legados a Constantinopla para pedir a Zenão, e ao Patriarca Acácio fidelidade ao Concílio de Calcedônia.


Como fossem vãs essas solicitações, o Papa resolveu depor Acácio, Patriarca de Constantinopla. Tal medida era muito grave, pois significava ruptura com os cristãos orientais em geral e com o Imperador, que os queria dirigir no sentido do monofisismo. O Papa, porém, foi corajoso no cumprimento do dever de preservar a reta fé. A ruptura durou 35 anos (484´519). Foi chamada “cisma acaciano”, durante o qual o monofisismo se propagou amplamente entre os orientais. Zenão morreu em 491, tendo por sucessor o Imperador Anastásio (491´518), também simpático aos monofisitas. Por isto, as conversações que o Papa encaminhou com o monarca, foram infrutíferas. A situação se tornou ainda mais sombria por causa da questão teopasquita. Com efeito; a liturgia grega cantava a Triságion (três vezes santo) nos seguintes termos: “Santo (hágios) Deus, Santo Forte, Santo imortal, tem piedade de nós”. Ora o bispo monofisita Pedro Fulão de Antioquia acrescentou´lhe as palavras “que foste pregado na cruz por cause de nós”. O Imperador Anastásio mandou recitar a fórmula ampliada em Constantinopla; donde resultou grande agitação. Diziam alguns monges e fiéis: “Um16 da Santíssima Trindade padeceu na carne”; foram chamados teopasquitas17.


A fórmula em foco podia ser entendida segundo a ortodoxia: a segunda Pessoa da SS. Trindade, tendo´se feito homem, padeceu na carne de Jesus. Mas, como a origem desses dizeres era monofisita, os ortodoxos desconfiaram dos mesmos, de mais a mais que os monofisitas lhes favoreciam calorosamente. Morto o Imperador Anastásio, sucedeu´lhe Justino (518´527), que se empenhou por restabelecer a comunhão com a Sé de Roma.

O Papa Hormisdas (514´523) acolheu o propósito de Bizâncio e mandou legados a esta cidade com uma fórmula de união dita “Livro da Fé do Papa Hormisdas”: esta proclamava o símbolo de fé calcedonense e as cartas dogmáticas de Leão Magno; renovava o anátema sobre Nestório, Eutiques, Dióscoro e outros chefes monofisitas; além disto, declarava que, conforme a promessa de Cristo a Pedro em Mt 16,16´19, a fé católica se conservava intacta na Sé de Roma; por isto os fiéis deviam obediência às decisões tomadas por esta. Era assim professado o primado do Papa em 515. O Patriarca João II, de Constantinopla, os bispos e os monges presentes nesta cidade assinaram tal fórmula. Estava terminado o cisma. O monofisismo perdeu muito da sua voga, mas as controvérsias continuaram.

Os Três Capítulos

O Imperador Justiniano (527´565) foi homem de grande ideal, que tencionou dar ao Império um período de fausto como não o tivera até então. Era, ao mesmo tempo, prepotente, de modo que exerceu forte cesaropapismo. Compreende´se então que as controvérsias teológicas tenham merecido sua zelosa atenção. O Imperador, querendo conciliar os ânimos, só fez provocar maiores tumultos. O bispo Teodoro Asquida de Cesaréia, muito influente na corte, sugeriu ao Imperador que condenasse três nomes de autores antioquenos tidos como inspiradores do nestorianismo; dizia que bastaria essa medida para obter a volta dos monofisitas


A comunhão da Igreja Universal. Esses três nomes constituíram Três Capítulos, a saber: 1) Teodoro de Mopsuéstia († 428), sua pessoa e seus escritos; 2) os escritos de Teodoreto de Ciro († 458) contra Cirilo e o Concílio de Éfeso; 3) a carta do bispo Ibas de Edessa († 435) ao bispo Mário de Ardashir em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de Cirilo. O Imperador acolheu a proposta e publicou um edito que anatematizava os Três Capítulos em 543. Este decreto dividiu os ânimos, pois não se viam claramente os erros pretensamente cometidos pelos três autores. Justiniano, porém, obrigou o Patriarca Menas e os bispos orientais a assinar o anitema. Os ocidentais deviam seguir´lhes o exemplo, tendo o Papa Vigilio à frente. Este relutou; por isto o Imperador mandou buscá´lo de Roma para Constantinopla. Um ano após sua chegada, Vigílio em 548 escreveu o ludicatum, em que condenava os Três Capítulos, ressalvando, porém, a autoridade do Concílio de Calcedônia O gesto do Papa causou indignação entre os ocidentais, principalmente no Norte da África, pois era uma estrondosa vitória do cesaropapismo.


Em conseqüência, o Papa e o Imperador em 550 decidiram convocar um Concílio Ecumênico para resolver o caso; entrementes nenhuma inovação seria praticada. Todavia em julho de 551 Justiniano repetiu o anátema sobre os Três Capítulos ´ o que provocou ruptura com o Papa Vigílio, que teve de procurar asilo em igrejas de Constantinopla e Calcedônia. A respeito do Concílio, o Papa e o Imperador já não concordavam entre si.

Por isto Justiniano convocou o Concílio por sua exclusiva iniciativa. Reunido sob a presidência de Eutíquio, novo Patriarca de Bizâncio, renovou a condenação dos Três Capítulos (maio e junho de 553). Vigílio então em 13/05/553, no decurso do próprio Concílio, publicou o Constitutum que se opunha à condenação dos Três Capítulos. Justiniano não aceitou a nova posição do Papa e mandou cancelar o nome de Vigílio nas orações da Liturgia. Finalmente, sob o peso das pressões e da doença, o Papa em dezembro de 553 retirou o seu Constitutum e aderiu às decisões do Concílio de Constantinopla de 553.


Num segundo Constitutum de 23/02/554, expôs as razões da sua atitude. Em conseqüência, o Imperador permitiu´lhe voltar para Roma; todavia morreu em viagem (555). Era vítima da sua inconstância de caráter.

Os Papas que lhe sucederam, a começar por Pelágio I (556´561), reconheceram o Concílio de 553 como ecumênico; é o de Constantinopla II. As dioceses do Ocidente aos poucos também o foram reconhecendo, embora tivessem consciência de que significava uma humilhação para o Papado. Notemos que as hesitações do Papa Vigílio não versavam sobre assuntos de fé propriamente dita, mas sobre a oportunidade ou não de se condenarem três nomes de escritores antigos. ´ O episódio também é interessante por evidenciar quanto era prestigiada a Sé Romana; o Imperador quis absolutamente ganhar o consenso do Papa Vigílio; por isto mandou buscá´lo em Roma e pressionou´o repetidamente para que subscrevesse ao decreto imperial, como se este precisasse da assinatura do Papa para ser válido.

Monergetismo e monotelitismo

Os monofisitas insistiam em se auto´afirmar. Por isto a heresia reapareceu no século VII sob nova forma. O Patriarca Sérgio de Constantinopla desde 619 ensinava que em Jesus havia uma só enérgeia ou uma só capacidade de agir (monergetismo); a capacidade humana estaria absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O Imperador Heráclio (610´641) aceitou a nova fórmula e conseguiu assim reconciliar grupos monofisitas com o Império.

Todavia o monge palestinense Sofrônio resolveu resistir à nova doutrina, denunciando´a como monofisismo velado. O Patriarca Sérgio de Constantinopla deixou então de falar de uma só faculdade operativa, para afirmar uma só vontade (a Divina tendo absorvido a humana) em Jesus (monotelitismo). Muito habilmente Sérgio tentou ganhar os favores do Papa Honório I (625´638); este, tendo recebido informações unilaterais, escreveu duas cartas ao Patriarca de Constantinopla, em que aderia genericamente à sua posição, embora não compartilhasse propriamente nem o monergismo nem o monofisismo; para evitar escândalos ordenava que não se falasse de uma ou duas energias.

Levando adiante a causa de Sérgio, o Imperador Heráclio em 638 promulgou a profissão de fé dita “Ectese”, redigida pelo Patriarca, que reafirmava o monotelitismo. Os bispos orientais a aceitaram quase unanimemente, ao passo que os sucessores do Papa Honório (morto em 638) a condenaram.

O Imperador Constante II (641´648), sobrinho de Heráclio, retirou a “Ectese”, mas, aconselhado pelo Patriarca Paulo de Constantinopla, publicou novo edito dogmático, chamado Typos, em 648, que proibia falar de uma ou duas vontades em Cristo. O monarca tencionava assim pôr fim à contenda. Ora no Ocidente o Papa Martinho I (649´653), percebendo a sutileza dos bizantinos, reuniu um Concílio no Latrão (Roma) em 649, o qual declarou que em Cristo havia dois modos de operar e duas vontades naturais, e puniu com a excomunhão os fautores das novas idéias. O Imperador, indignado, mandou prender o Papa e leva´lo para Constantinopla (653); aí foi humilhado como traidor e, por fim, exilado para a Criméia, onde morreu de maus tratos. Vários cristãos orientais foram tratados de modo semelhante por resistirem ao. Imperador, merecendo especial destaque o abade São Máximo o Confessor, que foi cruelmente martirizado.

Constantino IV Pogonato (668´685), filho de Constante II, procurou a paz e, para tanto, decidiu convocar um Concílio Ecumênico, idéia que o Papa Agatão (678´681) aprovou com solicitude. Tal foi o sexto Concílio Ecumênico, o de Constantinopla III, celebrado de novembro de 680 a setembro de 681, com a presença de 170 participantes. Os conciliares elaboraram uma profissão de fé, que completava a de Calcedônia:

“Nós professamos, segundo a doutrina dos Santos Padres, duas vontades naturais e dois modos naturais de operar, indivisos e inalterados, inseparados e não misturados, duas vontades diversas, não, porém, no sentido de que uma esteja em oposição à outra, mas no sentido de que a vontade humana seque e se subordina à divina “

Isto quer dizer que em Jesus havia duas faculdades de querer ´ a divina e a humana ´ de tal modo, porém, que a vontade humana se sujeitava à divina, como atesta a oração no horto das Oliveiras, conforme Mc 14,36.

O Concílio condenou os defensores do monotelitismo e o próprio Papa Honório, tido como fautor de tal doutrina. ´ A condenação de Honório suscitou longos debates entre historiadores e teólogos modernos. Na verdade, pode´se tranqüilamente dizer o seguinte:

O Papa Honório, intervindo na controvérsia, não quis proferir definições ex cathedra, nem quis discutir como teólogo. Unilateralmente informado por Sérgio, julgou que a discussão a respeito de uma ou duas vontades em Cristo era mero litígio de palavras, como estava nos hábitos dos bizantinos; por isto julgou que podia aprovar a posição de Sérgio sem afetar a reta fé. A expressão “uma vontade”, aliás, foi explicada pelo próprio Honório em sua carta a Sérgio, no sentido de conformidade do querer humano com o divino. Quanto às faculdades de operar (energeias), Honório esclareceu, seu ponto de vista referindo´se à epístola dogmática de São Leão a Flaviano, que diz: ambas as naturezas operam na única pessoa de Cristo, não misturadas, não separadas e não confusas, aquilo que é próprio de cada uma delas. ´ Donde se vê que o juízo proferido sobre Honório pelo Concílio de 681 foi severo demais; a Sé de Roma nunca o aprovou integralmente.






As Heresias Trinitárias



D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB


Tendo estudado a expansão do Cristianismo até o século VI, passamos a considerar a história das doutrinas da fé na antigüidade: capítulos 8´13. Um dos mais sérios problemas doutrinários que se puseram na Igreja antiga, foi o da conciliação da unidade de Deus (firmemente professada pelo Antigo Testamento) com a Trindade de Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo, tais como nos foram revelados pelo Novo Testamento). A inteligência dos cristãos se pôs à procura de uma fórmula satisfatória, que, após duras controvérsias, foi definida pelos Concílios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381). É a história dessa longa reflexão que vamos estudar

O monarquianismo

Nos séculos II/III alguns escritores cristãos julgavam que o Verbo (Lógos) ou o Filho de Deus só se tornara pessoa no tempo; em vista da criação do mundo, o Pai teria gerado ou emitido o Lógos, de modo a constituir a segunda Pessoa da SS. Trindade. ´ Esta concepção negava a eternidade do Filho de Deus e o subordinava ao Pai. Todavia os defensores dessa teoria afirmavam a Divindade do Filho, de modo que não suscitavam grave polêmica na sua época.

Podemos dizer que a primeira tentativa sistemática de conciliar unidade e pluralidade em Deus professava a unidade com detrimento da pluralidade. Chamou´se, por isto, monarquianismo, expressão derivada da exclamação: “Monarchiam tenemus. ´ Conservamos a monarquia” ( Tertuliano, Adversus Praxeam 3). Apresentava duas fórmulas:

O monarquianismo dinamista

O monarquianismo dinamista professou que Jesus era mero homem, o qual no momento do Batismo terá sido revestido de poder (dynamis) divino; foi, portanto, um homem adotado por Deus como Filho, com intensidade especial. ´ O fundador desta corrente foi Teódoto de Bizâncio, cristão de notável cultura grega, que o Papa São Vítor excomungou (190). Os seus discípulos, Asclepiódoto e Teódoto o jovem, quiseram organizar uma comunidade própria, para qual nomearam um Bispo chamado Natal; este foi o primeiro antipapa, o qual, arrependido, tornou´se ao seio da Igreja. Tal corrente teve novo representante na pessoa de Paulo de Samosata, homem ambicioso. Este via em Jesus um mero homem no qual terá habitado “como num templo” o Logos ou a Sabedoria de Deus, que em escala menor habitava em Moisés e nos profetas. Um concílio regional reunido em Antioquia excomungou Paulo (268); mas os numerosos adeptos deste continuaram a professar a sua doutrina, de modo que o Concílio ecumênico de Nicéia teve que se ocupar com a escola dos paulanos (325).

É de notar que o mencionado Concílio de Antioquia em 268 rejeitou a afirmação de que o Filho ou Logos é da mesma substância ou natureza (homoousios) que o Pai. Ora precisamente esta expressão foi consagrada pelo Concílio de Nicéia I (325) como fórmula de fé. Para entender os fatos, devemos observar que Paulo de Samosata usava a palavra homoousios para significar que o Logos ou o Filho era uma só pessoa com o Pai.

Monarquianismo modalista

Esta corrente ensinava que o Filho era o próprio Pai ou uma modalidade pela qual o Pai se manifestava; por conseguinte, o Pai terá padecido na cruz (donde o nome patri, de pater, pai; passianismo, de passus, padecido).Tal doutrina, devida a Noeto de Esmirna, foi levada para Roma e Cartago (África), dando origem ao partido patripassiano, que muito agitou a comunidade de Roma. O Papa Zeferino (198´217), numa declaração oficial, afirmou a Divindade de Cristo e a unidade de essência em Deus, sem, porém, negar, como faziam os patripassianos, a diversidade de pessoas do Pai e do Filho. O modalismo foi estendido por Sabélio, em Roma, ao Espírito Santo. Este pregador professava três revelações de Deus: uma, como Pai, na criação e na legislação do Antigo Testamento; outra, como Filho, na Redenção; e a terceira, como Espírito Santo, na obra de santificação dos homens. Designava cada uma dessas manifestações como prósopon, palavra grega que significava originariamente “máscara ou papel de ator de teatro14“, visto que posteriormente prósopon significou também pessoa, a doutrina de Sabélio tornou´se ambígua e conquistou muitos adeptos, que de boa fé lhe aderiram sem querer negar a trindade de Pessoas em Deus. Como se vê, o grande problema consistia em afirmar a Trindade de Pessoas em Deus sem cair no triteísmo ou sem professar três deuses. A controvérsia havia de arder por todo o século IV, envolvendo todas as camadas da população, desde o Imperador até os mais simples fiéis; a ingerência do poder imperial, que desde 313 era simpático ao Cristianismo, contribuiu para tornar difíceis e penosas essas discussões teológicas; elas assumiam, não raro, um caráter direta ou indiretamente político. A problemática suscitou na Igreja os esforços de numerosos santos e doutores, que, com seus talentos intelectuais e sua vida, colaboraram decisivamente para a reta formulação da fé cristã. O período áureo da literatura cristã está precisamente ligado às disputas teológicas. Estudemos agora as controvérsias do século IV. Arianismo e semiarianismo Rejeitando o monarquianismo dinamista e modalista, a lgreja afirmava sua fé em Cristo, Pessoa Divina e distinta do Pai. Todavia não estava explicada a maneira como se relacionam entre si o Filho e o Pai. No século IV muitos admitiram a Divindade do Filho, subordinando´o, porém, ao Pai; donde resultou a tese do subordinacionismo, que teve em Ário de Alexandria o seu principal arauto. Arianismo O presbítero Ário de Alexandria foi mais longe do que os pensadores anteriores: afirmava que o Filho é criatura do Pai, a primeira e a mais digna de todas, destinada a ser instrumentos para a criação de outros seres. Em virtude da sua perfeição, o Filho ou Logos poderia ser chamado “Filho de Deus”, como reza a tradição. O Bispo Alexandre de Alexandria reuniu um Sínodo local, contando cerca de cem Bispos, que condenaram a doutrina de Ário e dos seus seguidores em 318. A decisão foi comunicada a outros Bispos, inclusive ao Papa S. Silvestre. Ário, porém, conseguiu novos defensores para a sua causa ´ o que tornou mais árdua a controvérsia. Diante dos fatos, o imperador Constantino, que em 324 vencera Licínio, tornando´se Onico senhor do Império, resolveu intervir: tinha como assessor teológico o santo Bispo Ósio de Córdoba (Espanha), que Constantino enviou a Alexandria para aproximar Ário do Bispo Alexandre; a missão, porém, fracassou. Então Constantino resolveu convocar um Concílio ecumênico15 para Nicéia na Ásia Menor em 325, ao qual compareceram cerca de 300 Bispos, provenientes de todas as partes do mundo cristão; o Papa Silvestre, de idade avançada, mandou dois presbíteros seus representantes. As discussões foram longas e agitadas. Por fim, os padres conciliares redigiram o Símbolo de Fé de Nicéia, que afirmava ser o Filho “Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, consubstancial (homoousios) ao Pai; por Ele foram feitas todas as coisas”. A palavra homoousios torna´se, de então por diante, a senha da reta doutrina. Significava que o Filho é da mesma natureza (= Divindade) que o Pai; não saiu do nada como as criaturas, mas desde toda a eternidade foi gerado sem dividir a natureza divina. O Imperador Constantino tomou aos seus cuidados a defesa do Concílio ecumênico de Nicéia. Exilou Ário e quatro Bispos que não queriam aceitar, na íntegra, definição do Concílio. Condenou às chamas os escritos de Ário; seria punido quem os guardasse às ocultas.

As divisões do Arianismo

lnfelizmente, porém, as controvérsias não terminaram. O termo homoousios parecia a alguns suspeito de sabelianismo ou de modalismo. Por isto alguns Bispos e monges puseram´se a combater o Concílio, apoiados pelos Imperadores Constâncio (337´) e Valente (364´78), sucessores de Constantino. Do lado da ortodoxia, destacam´se: S. Atanásio, Bispo de Alexandria desde 328, que sofreu vários exílios; e o Papa Libério, que em 355 foi deportado pelo Imperador Constâncio; alguns historiadores antigos dizem que Libério conseguiu voltar à sua sede de Roma, subscrevendo uma fórmula de fé antinicena e deixando de apoiar S. Atanásio; se isto é verdade, deve´se à fraqueza humana, mas não se tratava de definição solene e sim de um pronunciamento pessoal que o Papa fazia. De resto, sabe´se que Libério, uma vez retornado a Roma, combateu eficazmente o arianismo. Os antinicenos, com o respaldo do Imperador, julgaram´se vencedores, depondo Bispos e reunindo Concílios regionais. Acontece, porém, que se dividiram: tendo negado a identidade de substância entre o Pai e o Filho ou afirmaram uns que o Filho era semelhante (homoiousios) ao Pai, enquanto outros o tinham como dissemelhante (anhomoios). A controvérsia era alimentada também pela sutileza do linguajar; palavras próximas umas das outras tinham significados diferentes: assim homoousios e homoiousios; genetós (feito) e gennetós (gerado), Nikainon (de Nikaia, sede do Concílio ortodoxo de 325) e Nikenon (de Nike, sede de um Concílio herético). Finalmente, após mais de cinqüenta anos de disputas ardentes, a ortodoxia foi prevalecendo, especialmente por obra dos três doutores da Capadócia (Ásia Menor): S. Basílio de Cesaréia († 379), S. Gregório de Naziano(† 390) e S. Gregório de Nissa († 394). Estes elaboraram a fórmula grega: mía ousía kaí treis hypostáseis, uma essência (ou substância) e três pessoas, fórmula que exprimia fielmente o pensamento dos padres nicenos e o conteúdo da reta fé: há uma só Divindade, que se afirma três vezes ou em três Pessoas. O grande protetor da ortodoxia, no fim do século IV, foi o Imperador Teodósio (379´395), que, pouco depois de subir ao trono, convidou todos os habitantes do Império a aderir “aquela fé que professam Dâmaso em Roma e Atanásio em Alexandria”; mandou também entregar as igrejas de Constantinopla aos católicos. O Concílio Ecumênico de Constantinopla I (381) havia de consolidar a proclamação da reta fé contra o arianismo. Isto, porém, não quer dizer qual tal heresia se tenha extinto logo; várias tribos germânicas, entrando dentro das fronteiras do Império, foram evangelizadas por arianos, de modo que abraçaram o Cristianismo ariano sob forma de religião nacional. Resta agora estudar a discussão relativa ao Espírito Santo.

O Macedonianismo

O Espírito Santo, embora atestado por numerosos textos bíblicos (como Jo 14.16), foi menos considerado no decorrer do século IV. É certo, porém, que quem julgava ser o Filho criatura do Pai tinha o Espírito Santo na conta de criatura do Filho; seria um dos espíritos servidores (cf. Hb 1,14), diferente dos anjos apenas por gradação. S. Atanásio, ao combater o arianismo, defendia também a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo. Por isto, um sínodo de Alexandria em 362 reconheceu a Divindade do Espírito Santo. Isto, porém, não bastou para dissipar os erros: Macedôneo, Bispo ariano de Constantinopla deposto em 360, era ferrenho adversário da Divindade do Espírito, reunindo, em torno de si bom número de discípulos, que se chamavam macedonianos ou pneumatômacos (pneuma = espírito; máchomai = combater). Vários Sínodos rejeitaram a doutrina de Macedônio; o mesmo foi feito pelos padres capadócios. Mas o pronunciamento definitivo se deve ao Concílio de Constantinopla I realizado em 381: 150 padres ortodoxos, depois do afastamento de 36 macedonianos, condenaram o macedonianismo e, para explicitar claramente a fé ortodoxa, retomaram o artigo 32 do Símbolo de fé niceno, que rezava apenas: “Cremos no Espírito Santo”; foram´lhe acrescentadas as palavras: “Senhor e Fonte de Vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho, e falou pelos Profetas”. Assim teve origem o Símbolo de fé niceno´constantinopolitano, que refuta tanto a heresia ariana quanto a macedônia. Restava, porém, dirimir ainda uma dúvida: se o Espírito procede do Pai, como se relaciona com o Filho? A resposta foi diversa no Oriente e no Ocidente; todavia a diversidade consiste mais na formulação do que na própria doutrina. Os gregos, desde o século IV afirmam que o Espírito procede do Pai através do Filho, ao passo que os latinos ensinam que procede do Pai e do Filho (Filioque). Na Espanha o Filioque foi inserido no Credo niceno´constantinopolitano em 589 e oficialmente recitado, passando depois para outras regiões de língua latina. Os gregos se recusam a aceitar tal inserção, que se tornou pomo de discórdias nos séculos IX´XI. Atualmente as dificuldades vão sendo superadas, pois em última instância se trata mais de palavras do que de conteúdo.




Galicanismo e Febronianismo



D. ESTEVÃO BETTENCOURT,OSB





A França tornou´se nos séculos XVII/XVIII o principal ponto de referência dos acontecimentos da história da lgreja. Além da questão jansenista, tomou grande vulto então a do Galicanismo.

Galicanismo

O absolutismo dos reis da França começou a se afirmar com Filipe IV o Belo (1285´1314); e manifestou´se fortemente no Exílio de Avinhão e no Grande Cisma do ocidente (séculos XIV/XV); cristalizou´se na Pragmática Sansão de Bourges sob Carlos VII em 1438, tendendo sempre a subtrair ao Papado a lgreja na França e professando implicitamente a teoria conciliarista. Tal estado de coisas chegou ao seu auge no reinado de Luís XIV (1643´1715), o Rei´Sol, que dizia: “L’Etat c’est moi! ´ O Estado sou eu”. Luís XIV era católico, sob a condição de dominar tudo, mesmo a Igreja e o Papado, ao qual ele não poupou humilhações. lnteressa´nos considerar como o nacionalismo eclesiástico se desenvolveu sob esse rei. Em 1680 as Religiosas de S. Pedro Fourier (subúrbio de Paris) estavarn para eleger legitimamente a sua Superiora. Luís XIV, porém, quis impor´lhes uma Superiora de outra ordem. As Irmãs apelaram para Inocêncio XI, que mandou proceder à eleição; todavia a Bula papal foi rejeitada pelo Parlamento francês. ´ O rei resolveu então recorrer a uma assembléia geral do clero francês, que se reuniu em Paris de 1681 a 1682. Alguns prelados e o rei mostraram´se irritados pela “intromissão” do Papa na Igreja da França... intervenção que eles julgavam contrária a uma concordata de 1516, firmada com o Papa LeãoX. Por isto o bispo jacques ´ Bénigne Bossuet (1627´1704), encarregado pela assembléia, redigiu quatro artigos que definiam os limites do poder papal na França. Tais artigos, aprovados pelos presentes, constituem a “Declaração do Clero Galicano”, que tomou o vigor de lei:

1) O Papa recebeu de Deus um poder meramente espiritual. os reis, em questões temporais, não estão sujeitos, nem direta nem indiretamente, a alguma autoridade eclesiástica; por isto não podem ser depostos em nome do poder das chaves, nem os seus súditos desligados do juramento de fidelidade.

2) Os decretos do Concílio de Constança que estabeleceram a supremacia do Concílio sobre o Papa, tem vigor de lei perene.

3) O exercício da autoridade papal e regrado pelos cânones da Igreja Universal, pelos princípios e os usos que, desde época remota, se observam na Igreja Galicana.

4) Em decisões de fé o Papa tem voz preponderante, mas só irreformável após obter o consentimento da lgreja inteira. Bossuet, que redigiu estes artigos, era, de resto, um bispo zeloso, promotor da união de católicos e protestantes e grande orador sacro. Todavia nutria profunda admiração pelo poder absoluto de Luís XIV, que ele apresentava nos seguintes termos: “Todo poder reside inteiramente na pessoa do rei, não podendo existir outra autoridade além da sua. Poder tão grande não emana dos homens, mas sim de Deus, que estabeleceu os reis para governar o mundo em seu nome, os quais a mais ninguém senão a Ele devem prestar contas dos seus atos. os súditos devem ao rei obediência e respeito, toda desobediência é grave falta cometida contra ele. “ Ao tomar conhecimentos da promulgação dos artigos galicanos, o Papa lnocêncio XI protestou, mas não impôs aos franceses alguma censura eclesiástica para evitar a iminente ruptura de relações. Aliás, o próprio Luís XIV não queria separar´se da Igreja Católica, pois sabia que isto lhe tiraria muito do seu prestígio; também as suas convicções religiosas eram assaz firmes para não Ihe permitir que fosse tão longe no seu absolutismo. Diz´se mesmo que declarou a galicanos que impeliam a novas violências: “Se eu quisesse seguir essas idéias, deveria pôr o turbante sobre a cabeça (isto é, eu me faria turco muçulmano)”. Em resposta ao rei, o Papa Inocêncio XI recusou confirmar dois candidatos a bispo que o rei Ihe apresentou e que haviam participado da assembléia galicana. o rei declarou que isto era uma violação da Concordata e proibiu aos bispos que ele nomeava, fossem buscar a sua Bula de confirmação em Roma. A conseqüência deste litígio é que, durante seis anos, os titulares de trinta e cinco dioceses francesas não possuiram a ordenação episcopal (ou não eram bispos). Ainda que o rei nomeasse bispos, somente o Papa podia autorizar a ordenação episcopal desses candidatos. O Jansenismo, suscitando atitude de indiferença e frieza nos cristãos, criava clima próprio ao Galicanismo, como também o Galicanismo favoreceu o Jansenismo. pois ambos lutavam contra Roma.

Febronianismo

Da França o Galicanismo passou para a Alemanha, onde Lutero tinha denunciado os vexames da nação alemã, queixosa das intervenções de Roma na nomeação de prelados, no arrecadamento de taxas, no cerceamento de liberdades, das quais gozavam a França e a Espanha. No século XVIII o descontentamento se fez ouvir de novo modo. Um dos principais transmissores dos erros franceses foi um professor de Direito Canônico em Louvain, Bernardo van Espen († 1728), que por seus escritos e discípulos exerceu grande influxo na Alemanha; as suas obras foram postas repetidas vezes no Index a partir de 1704. Propagava entre os prelados alemães uma onda de episcopalismo, tendência que queria restringir, em favor dos bispos, os direitos do Papa e de seu representante, o Núncio. Essa onde era fomentada por uma antipatia contra a Cúria Romana suscitada pela Concordata de Viena (1448); ver capítulo 28. As idéias de van Espen foram desenvolvidas na Alemanha por um discípulo deste mestre em Louvain, doutor em Direito Canônico e bispo auxiliar de Tráviris: João Nicolau de Hontheim (1701´1790). Empreendeu estudar a situação da lqreja na Alemanha do ponto de vista jurídico. Como fruto de suas reflexões, publicou em 1763. “Justini Febronii de Statu Ecclesiae et Legitima Potestate Romani Pontificis liber singularis ad reuniendos dissidentes in religione Christiana compositus. ´ Livro singular de Justino Febrônio a respeito do estado da Igreja e do legítimo poder do Pontífice Romano, redigido para reunir os cristãos dissidentes na religião”. o autor usou de pseudônimo: Justina era o nome de sua sobrinha, que no mosteiro era chamada Febrônia. Propunha os princípios galicanos de 1682 reforçados por teses de canonistas de Louvain, como se pode ver a seguir. Para restabelecer a unidade entre os cristãos, dizia Febrônio, é preciso reproduzir a constituição da lgreja nascente. Isto implica restituir aos bispos e aos Concílios os seus direitos e limitar os poderes do Papa. Este não é monarca absoluto nem infalível. o poder na Igreja toca, primeiramente, ao conjunto dos bispos ou ao Concílio Ecumênico. As decisões papais só tem vigor quando aprovadas pela lgreja inteira e introduzidas em cada uma das dioceses pelo respectivo bispo. Ao sucessor de Pedro, portanto, só compete um primado de honra em relação aos outros bispos. os únicos direitos que lhe assistem, são os direitos necessários ao exercício da sua tarefa, que é: vigiar pela observância dos canônes, conservar a fé e a unidade da lgreja. Confirmação e deposição de bispos, preenchimento de cargos.eclesiásticos, concessão de dispensas, reservas são falsificações do Direito devidas a evolução errônea. Por conseguinte, os bispos deveriam arrebatar para si essas funções. Como meios aptos para obter a emancipação dos bispos, eram recomendados: propaganda no grande público, convocação de Concílio Ecumênico livre, Sínodos provinciais, união dos bispos com os príncipes seculares; a estes tocaria o direito de sancionar ou não as leis do Papa e de receber as apelações em Tribunal. A obra de Hontheim se difundiu rapidamente e em varias traduções, provocando grave crise na Alemanha. obteve os aplausos dos príncipes civis e dos inimigos da lgreja, principalmente na Austria, cujo lmperador José II a aprovou três vezes, as normas de Febrônio foram introduzidas nos manuais de Direito Eclesiástico. Clemente XIII pôs o livro no Index e exortou os bispos alemães a combatê´lo ´ o que só encontrou execução parcial e hesitante. Em dezembro de 1769 os arcebispos de Tréviris, Mogúncia e Colônia mandaram elaborar um documento em 31 artigos (Avisamenta) sob a presidência de Hontheim, que tinha sabor febroniano. Todavia em 1778, depois de haver triunfado, Hontheim, instado pela Cúria Romana e pelo Arcebispo de Tréviris, declarou que se retratava. Em 1781, porém, publicou o “Comentario à Retratação”, que discretamente manifestava os mesmos principios de Febrônio: usando de estilo atormentado e cheio de restrições, Hontheim não queria nem ofender a verdade nem retratar abertamente uma obra que ele julgava ser a glória de sua carreira. Poucos anos mais tarde, o febronianismo produziu seus efeitos mais nocivos. Em 1785, Pio VI, a pedido do príncipe Carlos Teodoro da Baviera, erigiu uma Nunciatura64 em Munique. Isto muito inquietou os citados arcebispos de Tréviris, Mogúncia e Colônia, assim como o príncipe´bispo de Salzburgo, que temiam uma restrição de sua jurisdição. Mediante delegados seus, elaboraram a “Pontuação de Ems” (1786), que eram 23 artigos de Febronianismo exaltado: exigiam a revogação da jurisdição dos Núncios, o beneplácito dos bispos para as Bulas papais, além de reformas na liturgia, na vida conventual e na pastoral em geral. o documento terminava solicitando ao Imperador José II que dentro de dois anos reunisse um Concílio nacional para abolir os “vexames” da nação alemã. Em breve evidenciou´se a impossibilidade de executar tais postulados. Quando os arcebispos citados quiseram autonomamente conceder certas dispensas, opos´se´lhes o Núncio Pacca, de Colônia, hábil defensor das funções papais, que escreveu uma carta aos párocos; os bispos sufragâneos65 se associaram ao Núncio, pois queriam defender seus interesses ameaçados pela preponderancia dos arcebispos. Estes então tiveram que retroceder; ainda pleitearam um acordo a respeito da Nunciatura em Munique ´ o que o Papa rejeitou energicamente (1789). O febronianismo teve sua aplicação concreta mais rigorosa na Austria sob Maria Teresa a Católica (1740´1780) e principalmente sob D. José II (1780´90), que Frederico II da Prússia chamava “Meu Irmão o Sacristão” ou “o Arqui´sacristão do Império Romano”. Este monarca teria levado a Austria a um cisma, se não o tivesse dissuadido o embaixador espanhol Azara. o Papa Pio VI foi a Viena para entender´se com o monarca; foi muito aclamado pelas populações durante a viagem; teve brilhante recepção na corte imperial, mas, após quatro semanas de permanência, teve que regressar sem ter conseguido demover o monarca de seus propósitos febronianos e de outras medidas drásticas (redução do número de Seminários a cinco ou seis, nos quais só ensinariam professores da confiança do Imperador; supressão das ordens contemplativas e de conventos de outras ordens; proibição, aos bispos, de contato direto com Roma...)

O Sínodo de Pistoia

D.José II da Austria tinha um irmão que era o Grão´Duque Leopoldo II, da Toscana (Itália). A partir de 1780, Leopoldo resolveu introduzir, no seu território reformas semelhantes as de D. José II. A princípio, era moderado; em 1786, porém, publicou um Regulamento para o clero toscano, que continha medidas radicais; devia ser confirmado por um Sínodo nacional. Dos dezoito bispos do Grão´Ducado, poucos se mostravam simpáticos á reforma. Todavia a frente dos que as apoiavam, colocou´se o bispo jansenista e galicano Cipião de Ricci, de Pistoia e Prato. Cipião reuniu o Sínodo diocesano de Pistoia em setembro de 1786, que adotou os quatro artigos galicanos de 1682 e o corpo de doutrinas teológicas, morais e disciplinares do Jansenismo; rejeitou as indulgências, as espórtulas ou honorários do culto, e exigiu que se fechassem todas as ordens Religiosas para se criar uma só, conforme o exemplar de Port´Royal; de modo especial, o Sínodo de Pistoia condenou a devocão ao Sagrado Coracão de Jesus, pois esta afirmava o amor misericordioso do Salvador oferecido gratuitamente a todos os homens, lembrando a todos que o amor de Deus aos homens é anterior ao amor dos homens a Deus (precisamente Jesus apareceu a S. Margarida Maria, 1647´1690, mostrando´lhe o Coração que tanto ama os homens, numa época em que o Jansenismo desacreditava esse amor).

Para confirmar as resolucões de Pistoia, foi convocado o Concílio Nacional de Florença (1787); mas quatorze dos dezessete bispos reunidos repeliram os projetos. o Grão´Duque Leopoldo, indignado, dissolveu a assembléia e publicou decretos reformistas por sua própria autoridade. Aconteceu, porém, que, em 1790, foi chamado para a Austria a fim de ocupar o trono imperial vacante pela morte de seu irmao D. José. o bispo Cipião de Ricci, temendo o povo irritado, fugiu da sua diocese e renunciou a mesma (1791). As leis de reforma foram, em grande parte, revogadas. Em 1794, Pio VI, pela Bula Auctorem fidei, censurou 85 proposicões do Sínodo de Pistoia. Ricci, que passou a viver discreta e moderadamente submeteu´se à Santa Sé em 1805. Nos anos seguintes, o Jansenismo ainda contou um ou outro adepto no clero italiano. Mais duradouras foram as conseqüências do Jansenismo na piedade católica; a exígua freqüência aos sacramentos e a perda do sentido de Igreja universal só começaram a ser superadas pelo movimento de volta as fontes proclamado por S. Pio X (1903´1910).


O Re-batismo e o Donatismo


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB



Enquanto as disputas teológicas no Oriente versavam principalmente sobre Deus e Jesus Cristo, envolvendo problemas altamente especulativos, no Ocidente o debate teológico se voltou mais para questões de ordem prática, abordando especialmente o binômio “santidade e pecado” na Igreja. - Examinaremos, a seguir, três controvérsias que, em última análise, desenvolveram essa temática.

O Re-batismo


À medida que se foram registrando heresias e cismas entre os cristãos, foi-se colocando uma questão nova: o Batismo ministrado por um herege é válido? Se o herege quer converter-se à Igreja Católica, deve ser batizado de novo? Essas perguntas suscitaram respostas contraditórias. A Igreja em Roma seguia a tradição antiga, admitindo a validade do Batismo conferido pelos hereges, pois se dizia, com razão, que é Cristo quem batiza, servindo-se do ministério dos homens. Na África do Norte, porém, a tendência era contrária: em Cartago, o escritor Tertuliano († após 220), homem de retórica e projeção, escreveu o opúsculo “Sobre o Batismo” (em grego e em latim), que rejeitava a validade do Batismo conferido pelos hereges. Três Sínodos, um em Cartago (220) e dois na Ásia Menor (230), adotaram tal sentença, a qual passou a ser observada na prática de muitas dioceses (era o re-batismo). A situação se tornou mais grave quando o bispo S. Cipriano em 255-6 passou a apoiar a sentença e a praxe do re-batismo. Tal posição era fortalecida pelo fato de que os hereges montanistas batizavam “em nome do Pai, do Filho e de Montano ou de Priscila (fundadores da corrente montanista)”. Tal Batismo era evidentemente inválido, pois não observava a fórmula ensinada pelo Senhor Jesus (cf. Mt 28,18-20); se, porém, o batismo dos montanistas era inválido, parecia a muitos cristãos que o batismo de qualquer facção herética devia ser igualmente tido como inválido. Em Roma o Papa S. Estevão opôs-se ao costume do re-batismo, ameaçando de excomunhão os cristãos da África do Norte, caso insistissem em re-batizar os hereges batizados fora da Igreja Católica; apenas se deveria exigir que tivessem penitência para entrarem em comunhão com a Igreja Católica. Dizia textualmente o Papa uma frase que ficou célebre: “Se os hereges vêm a nós, qualquer que seja a sua seita, nada se inove, mas siga-se a Tradição, impondo-lhes as mãos para que façam penitência” (o Papa supunha naturalmente o Batismo conferido segundo a fórmula do Evangelho). O mesmo Pontífice enviou semelhantes determinações aos bispos da Ásia Menor que re-batizavam; em 256, informado de que 87 bispos reunidos em Sínodo haviam reafirmado a necessidade do re-batismo, o Papa os excomungou (não se sabe, porém, se tais bispos tinham recebido previamente as instruções de Estêvão I)

Em conseqüência, a tensão foi assaz forte entre Roma e os bispos da parte oposta. Não tardou, porém, a se amainar, pois morreram mártires Estêvão em 257 e Cipriano em 258. O sucessor de Estêvão I, o Papa Sixto II, aparece em comunhão com os bispos do Norte da África, o que significa que atenderam às disposições de Santa Sé. Houve, porém, casos de re-batismo até o século IV, como atesta o Concílio de Arles em 314. A questão tinha um fundo teológico e não meramente disciplinar. Tertuliano e os cristãos da África tendiam a restringir a Igreja aos santos, de modo que só seriam válidos os sacramentos ministrados por pessoas ortodoxas e de reta conduta de vida; por conseguinte, quem estivesse fora de Igreja ou em pecado mortal não poderia validamente batizar. A concepção eclesiológica de Roma era outra: a Igreja consta de santos e pecadores, pois o Senhor mesmo insinuou que nela o joio e o trigo devem permanecer até o fim dos tempos (cf. Mt 13,24-30); na Igreja quem ministra os sacramentos é o próprio Cristo, que se serve dos homens como instrumentos seus; por isto o batismo conferido por um ministro validamente ordenado que tenha a intenção de fazer o que Cristo faz, é sempre válido. Tal é a concepção até hoje vigente na Igreja Católica. Como se vê os africanos insistiam mais no elemento pessoal, ético e subjetivo da administração dos sacramentos, ao passo que Roma considerava mais o aspecto objetivo da mesma. Este se tornaria mais claro ainda nos tempos de S. Agostinho.

As controvérsias penitenciais


A Igreja antiga tinha viva consciência de que os cristãos deviam dar o testemunho de uma vida pura. Esta consciência se manifestou de maneira extremamente rigorista em alguns momentos da história:

Até o século VI só era concedido uma vez na vida o Sacramento da Reconciliação. Os bispos julgavam que quem precisasse de mais de uma Penitência sacramental, não estava interiormente disposto a recebê-la; tal pecador era confiado diretamente à misericórdia de Deus. Tertuliano († após 220) parece ter sido o primeiro a falar de pecados irremissíveis, que seriam a apostasia, o homicídio e o adultério. O Papa Calixto I (217-220), porém, concedia reconciliação a todo pecador que fizesse a devida penitência. Esta praxe foi confirmada pelos sínodos de Roma e de Cartago sob o Papa Cornélio (251-253). Contra este levantou-se então o presbítero Novaciano, que abriu um cisma, encabeçando uma facção de caráter rigorista: Novaciano negava a reconciliação aos apóstatas mesmo em perigo de morte; estendeu esta severidade aos dois outros pecados ditos capitais na época (homicídio e adultério). Queria constituir uma Igreja de puros e santos; por isto rebatizava os católicos que entrassem nas suas fileiras. Em 251 um Sínodo de Roma, reunindo 60 bispos, excomungou Novaciano e seus seguidores. S. Cipriano de Cartago e Dionísio de Alexandria se lhes opuseram. Apesar disto, a facção novaciana se difundiu largamente, encontrando eco especial no Oriente. Em Cartago deu-se o movimento laxista, chefiado pelo presbítero Novato e pelo diácono Felicíssimo. Pleiteavam a reconciliação dos apóstatas sem a penitência sacramental, desde que fossem recomendados por confessores da fé, isto é, por cristãos que houvessem padecido por causa da fé sem chegar à morte do martírio. S. Cipriano manteve-se firme à disciplina da Igreja, que readmitia, sim, os apóstatas, mas após a prestação da devida penitência sacramental.

Os Donatistas


As controvérsias sobre o batismo dos hereges prolongaram-se na história do Donatismo. Este reavivou a questão: a eficácia dos sacramentos depende da santidade do respectivo ministro ou é algo de objetivo, garantido pelo sacerdócio do próprio Cristo? A problemática donatista teve origem com a morte do bispo Mensúrio de Cartago (311). Foi eleito em seu lugar Ceciliano; este, porém, tinha opositores, pois na perseguição de Diocleciano (284-305) se opusera a uma equívoca veneração e a exagerada exaltação dos confessores da fé18. Espalharam então o rumor de que os bispos sagrantes de Ceciliano, Felix de Aptunga, Fausto de Tuburbo e Novelo de Tyzica foram traidores, isto é, tinham entregue os livros sagrados aos perseguidores; em tais condições, diziam os adversários de Ceciliano, Felix, Fausto e Novelo não podiam ter ordenado validamente o novo bispo de Cartago. Diante dos rumores, 70 bispos da Numídia (Norte da África) se reuniram em Cartago e elegeram o antibispo Majorino, ao qual sucedeu em 315 Donato o Grande. Estava aberto o cisma donatista. A expansão do cisma provocou a intervenção do Imperador Constantino. Este mandou examinar as acusações proferidas contra Ceciliano: um sínodo, presidido em Roma pelo Papa Milcíades (313), reconheceu a legitimidade do bispo Ceciliano e rejeitou os donatistas. Estes não se davam por vencidos. Por isto Constantino convocou em 314 um Sínodo Geral do Ocidente, que, reunido em Arles (França), confirmou a sentença de Roma e acrescentou explicitamente que a ordenação conferida por um bispo traidor é válida; além do que, reprovou o uso, de cristãos da África, de rebatizar quem tivesse sido batizado por hereges. Visto que os donatistas não se rendiam, Constantino mandou, para o exílio os chefes da facção e tirou-lhes as igrejas. Todavia estas medidas só surtiram acréscimo de fanatismo. Os donatistas puseram-se a questionar o direito, do Estado, de intervir em questões da Igreja; retomando o conceito novaciano, declararam ser “a Igreja imaculada dos mártires”, em oposição à Igreja “contaminada por traidores” (os católicos),somente na facção donatista seriam ministrados validamente os sacramentos; por isto também rebatizavam todos os que se lhes agregassem. O número de donatistas foi aumentando a tal ponto que em 336 puderam celebrar um Sínodo em Cartago com 270 bispos. O Imperador Juliano (361-363), desejando restaurar a cultura pagã no Império, praticou uma política simpática aos donatistas. Estes, em parte, se aliaram a grupos fanáticos, chamados “dos circunceliões” (porque cercavam as habitações dos camponeses); praticavam a pilhagem e outros delitos nas regiões campestres. Finalmente dois grandes bispos se puseram a combater o donatismo no campo doutrinário: eram Optato de Milevo (que expôs as origens e a história do cisma no De schismate Donatistarum) e principalmente S. Agostinho de Hipona, que a partir de 393 foi escrevendo seus tratados teológicos contra os donatistas, a respeito de Igreja e da eficácia dos sacramentos. Os bispos católicos em 404 pediram ao imperador Honório que aplicasse aos donatistas as leis do Estado referentes aos hereges - o que de fato aconteceu. S. Agostinho, diante de tal procedimento, foi mudando de alvitre: a princípio era contrário à intervenção do Estado em questões de doutrina e disciplina da Igreja; depois, passou a aceitá-la, apoiando-se no texto do Evangelho de Cl 14,23 (“obriga a entrar”); o Estado teria a obrigação de proteger a Igreja, mesmo aplicando medidas coercitivas com exclusão da pena de morte. Es palavras do S. Doutor escritas ao donatista Vicente: “Outrora era eu de opinião de que ninguém deve ser coagido à unidade do Cristo; dever-se-ia recorrer à palavra, combater mediante discussão e vencer pela razão; caso contrário, teríamos entre nós falsos católicos, em vez de ter contra nós hereges confessos. Tal era minha convicção. Ela teve de se dobrar diante da reflexão de meus contraditores; não diante das palavras deles, mas diante dos fatos que eles citavam. Primeiramente, apontavam-me a história da minha cidade natal, Talaste, que outrora pertenceu toda ao partido de Donato, e que fora de novo levada à unidade católica por força das leis imperiais; agora Talaste é tão alheia ao vosso partido de ódio e de morte que ela parece ter sido sempre estranha a vós. Citavam-me também o exemplo de muitas outras cidades, cuja história me era contada” (epíst. XCIII 5,17). Ademais as violentas incursões e os atentados dos donatistas pareciam a S. Agostinho exigir a intervenção do Imperador. Esta atitude de S. Agostinho há de ser entendida no seu respectivo contexto histórico: os donatistas eram os primeiros a apelar para a autoridade imperial. Em nenhuma de suas outras polêmicas Agostinho pleiteou o apoio do braço civil; em mais de uma passagem de suas obras, o mestre advogou o trato caridoso até dos adversários. Em 411 realizou-se em Cartago uma grande assembléia, da qual participaram 286 bispos católicos e 279 donatistas. Durante três dias os debates não lograram resultado algum, apesar dos esforços de S. Agostinho em prol da reconciliação. O poder civil aplicou suas leis repressivas, que também pouco adiantaram. O DONATISMO só começou a desaparecer do mapa com a invasão dos vândalos do Norte da África a partir de 429; a invasão muçulmana no século VII pôs o termo definitivo à facção de Donato. S. Agostinho, na polêmica antidonatista, teve a ocasião de desenvolver a noção de catolicidade da Igreja; esta, sendo universal, deve compreender bons e maus; o Senhor fará a triagem no fim dos tempos; a seita de Donato jamais se poderia dizer católica.


Heresias Wiclef e Hus


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB




A decadência da disciplina eclesiástica, as desgraças do tempo do Grande Cisma (1378-1417) eram circunstâncias propícias a que se originassem e programassem heresias populares nos séculos XIV/XV. Os seus fundadores são ditos “Reformadores antes da Reforma”, pois de certo modo antecipam os princípios básicos dos Reformadores do século XVI: exaltação unilateral da S. Escritura como fonte de fé, rejeição da tradição e da hierarquia, nacionalismo em oposição à Igreja Romana Universal. Desses pré- reformadores, já vimos Guilherme Occam e Marsílio de Pádua (cf. capítulo 26). Outros foram, além destes dois, a saber: o inglês John Wiclef (1320-84) e o tcheco Jan Hus (1370-1416).

O Wiclefismo


John Wiclef (1320-84) era um nobre inglês que se fez Sacerdote, professor de Filosofia e Teologia na Universidade de Oxford. Como outros muitos reformadores, apregoava um espiritualismo exagerado. Os cristãos na lnglaterra sempre tenderam a se isolar do resto da Igreja (talvez por sua posição geográfica insular)55 ora o separatismo dos ingleses fornecia clima propício às idéias de Wiclef. Em 1366 o Parlamento inglês proibiu o pagamento dos impostos feudais prometidos por João sem Terra a Inocêncio III em 1213, ...impostos que, havia 33 anos, já não eram pagos; ver capítulo 23. Tomando posição em favor do Governo do rei contra o Papado, Wiclef afirmava que os bens temporais são nocivos à lgreja’ e que os príncipes têm, o direito de se apossar dos mesmos quando os clérigos não os utilizam devidamente; o ideal seria que o Estado secularizasse todas as propriedades da Igreja e se encarregasse diretamente do sustento do clero. Wicief tinha em mira especialmente os mosteiros. Tais idéias encontravam eco na corte e entre os nobres. A lnglaterra estava debilitada por causa de seus insucessos na guerra dos Cem Anos contra a França; por isto era tentada a apoderar-se dos bens da Igreja. Em 1373 o Papa Gregório XI condenou dezoito teses de Wiclef; todavia a hierarquia inglesa receava proceder contra o herege por causa do seu prestígio na Inglaterra. Depois da irrupção do Grande Cisma do Ocidente (setembro de 1378), Wiclef atacou o Papado, afirmando que a Igreja não subsiste com a hierarquia, mas é uma comunidade invisível de predestinados: o verdadeiro Papa é Cristo e cada crente é um verdadeiro presbítero diante de Deus; o Papado seria mesmo uma instituição do Anticristo. A S.Escritura seria a única norma de fé; Wiclef mandou traduzir o texto da Vulgata latina para o Inglês, merecendo por isto ser chamado “o Doutor Evangélico”. Rejeitava a real presença de Cristo na Eucaristia; o cristão só receberia espiritualmente o corpo e o sangue de Cristo; a confissão auricular seria uma instituição tardia. Mandava sacerdotes pobres e leigos dois a dois a pregar a “Lei de Deus”; os fiéis católicos chamavam esses pregadores lolardos (de lollium, joio), denominar,ão esta que provinha dos Países-Baixos, onde designava sectários e hereges inflamados. As idéias de Wiclef encontraram grande ressonância também entre os camponeses; estes em 1381 moveram violento ataque contra os nobres em Londres. Wiclef foi responsabilizado por essa revolta e, por isto, perdeu o favor da corte; um Sínodo de Londres em 1382 condenou sua doutrina. Wiclef retirou-se então para a sua paróquia de Lutterworth e lá permaneceu até a morte, divulgando escritos polêmicos em latim e em inglês. O Wiclefismo continuou a se propagar, mesmo perseguido, criando o ambiente receptivo às idéias do século XVI.

João Hus

A messe do wiclefismo, que não pôde amadurecer na lnglaterra, amadureceu meIhor no continente. Ana, irmã do rei Venceslau da Boêmia, estava casada com o rei Ricardo II da Inglaterra. Isto permitia que no século XIV muitos boêmios fossem estudar em Oxford, e muitos ingleses em Praga. Assim vários wiclefistas perseguidos na Inglaterra encontravam refúgio em Praga. O cidadão Jerônimo, da Boêmia, que estudava em Paris e Oxford, levou para Praga as principais obras de Wiclef; ele e seu amigo João Hus tomaram a peito propagar o wiclefismo. Também o solo da Boêmia estava preparado para a fermentação de tais idéias, pois, além de vestígios de antigas seitas (cátaros, valdenses), a decadência moral e a ignorância do povo eram notáveis. João Hus era Sacerdote, professor de Filosofia na Universidade de Praga, e exercia as funções de diretor espiritual na corte. Era homem de costumes irrepreensíveis, bom orador e fanático tanto por motivos religiosos como por razões nacionalistas (os boêmios começavam a se erguer contra o domínio político e cultural dos alemães); certamente as tendências nacionalistas da populacão muito favoreceram as idéias de Hus. O wiclefismo encontrou, a princípio, resistência.O arcebispo Sbinko de Praga mandou queimar escritos de Wiclef, excomungou Hus e seus partidários em 1410 e lançou o interdito sobre Praga em 1411. Tais medidas, porém, tiveram pouco êxito.O pregador retirou-se então para o castelo de um nobre seu amigo, para onde o povo se pôs a peregrinar em massa. O hussismo em breve alcançou influxo predominante na Boêmia. A apostasia de quase um povo inteiro abalou o sentimento cristão ocidental. O Imperador Sigismundo da Alemanha, irmão do rei Venceslau da Boêmia, convidou Hus a comparecer no Concílio de Constança; o herege, de fato, lá apareceu em novembro de 1414, esperando ganhar os conciliares para a sua doutrina; ver capítulo 28. Hus, porém, só encontrou adversidade e rejeição; foi encarcerado e, como não quisesse renunciar às suas teses, foi condenado como herege em 1415. A mesma sorte sofreu o seu companheiro Jerônimo de Praga onze meses mais tarde.

A história do hussismo


É história assaz complicada.

A execução de Hus foi recebida na Boêmia como uma ofensa à nação. A reação hussista-nacionalista foi violenta os sacerdotes não hussistas foram, em grande número,expulsos. A rainha Sofia e damas nobres tomaram aberto partido por Hus como herói e mártir nacional. Quase toda a nobreza da Boêmia e da Morávia mandou um protesto para Constança afirmando que Hus fora virtuoso e ortodoxo e que os boatos de uma “heresia boêmia” eram invenção do inferno. Ao mesmo tempo formou-se uma Liga para a defesa da liberdade de pregação, para a proteção contra a autoridade episcopal e a excomunhão injusta. Introduziu-se a praxe do “cálice dos leigos” (comunhão sob as duas espécies)56 como símbolo da facção hussista. Esta dominou a Boêmia quase totalmente durante vários anos. Em 1419, o rei Venceslau restabeleceu os sacerdotes expulsos - o que deu lugar a revolução violenta; foram assassinados sete conselheiros reais, vindo o rei Venceslau a morrer do coração em conseqüência deste golpe. Ao seu irmão e sucessor Sigismundo os hussistas negaram obediência, como perjuro e assassino de Hus. Assim começaram as guerras hussistas (1420-31). O Papa Martinho V convocou uma cruzada contra tais hereges em 1420; os cruzados, porém, e as tropas de Sigismundo foram derrotados por Zizka, chefe dos taboristas (assim se chamavam os hussitas extremados, por causa da cidade Tabor que haviam fundado). Os hussistas mitigados foram chamados utraquistas (de sub utraque specie, sob ambas as espécies); não rejeitavam um acordo com a Igreja e Sigismundo. Os Taboristas, ao contrário, iam mais longe do que Wiclef e Hus: além de rejeitar os sacramentos e festas tradicionais que julgassem não fundamentadas na Bíblia, abraçaram idéias apocalíptico-milenaristas57; proclamavam a abolição de todas as diferenças de classes; na região que eles dominavam, dava-se total transformação da ordem eclesiástica e social, mediante pilhagem de igrejas e de mosteiros, execução de sacerdotes e monges. A partir de 1427, os Taboristas devastaram a Hungria, a Silésia, a Baviera, a Saxônia até o mar do Norte, sob a direção de André Procópio o Velho, sacerdote católico apóstata. Já que não era possível vencer os hussistas pelas armas, as autoridades civis e eclesiásticas procuraram a via das conversações. O Concílio de Basiléia convidou os hussistas a comparecer - o que de fato ocorreu em 1433. Os hereges, representados por quinze delegados de ambos os partidos (taboristas e utraquistas), formularam suas reivindicações em quatro artigos: pregação livre, cálice dos leigos, proibição de posses temporais do clero, punição dos pecados mortais e dos abusos contra a “lei de Deus”. As conversações no Concílio foram úteis, mas terminaram em Praga com um acordo dito Compactata Pragensia (30/11/1433): os quatro postulados hussistas foram aceitos com certas restrições:

1) o cálice dos leigos, desde que os sacerdotes ensinassem aos fiéis que Cristo está todo presente sob ambas as espécies;

2) a pregação livre desde que realizada por sacerdotes aprovados;

3) a punição dos pecados mortais, desde que públicos, por iniciativa das autoridades competentes, e não de pessoas particulares;

4) a administração idônea, e não a supressão dos bens eclesiásticos.

Os taboristas recusavam-se a aceitar o acordo; foram derrotados pelos utraquistas e os católicos em 1434. O Parlamento da Boêmia em 1436 confirmou o acordo acima e reconheceu Sigismundo como rei. O nome “hussista” foi desaparecendo aos poucos. Aqueles que faziam uso do cálice dos leigos, foram chamados simplesmente “utraquistas” ou “calixtinos”, enquanto os outros católicos da Boêmia eram ditos “subunistas” ou “unistas”. A situação da igreja ainda ficou agitada por muito tempo na Boêmia , até os nossos dias há vestígios de hussismo ou no nacionalismo tcheco. Alguns utraquistas não se deram por satisfeitos com o acordo oficial e procuraram novas formas de religião; eram camponeses que apregoavam uma vida de trabalho manual agrícola, retirada do convívio social e político e uma Igreja despojada e despretensiosa neste mundo. Formaram o Partido da “Unidade dos lrmãos” (Unitas Fratrum) ou dos Irmãos Boêmios; muitos deles incorporaram-se finalmente aos luteranos no século XVI. Somente em 1629 o edito de “Restituição” do Imperador Fernando II aboliu a comunhão sob as duas espécies entre os católicos da Boêmia. Reflexão final: como se vê da exposição feita, o wiclefismo e o hussismo são heresias relacionadas não só com a teologia, mas também com os problemas sociais dos Séculos XIV/XV. - As guerras devastaram a Europa nestes dois séculos: a de Cem Anos (1337-1453), entre a França e a Inglaterra; a das Duas Rosas, entre os nobres ingleses; a guerra entre as Casas da Borgonha e de Orleães, na França; os Países Baixos eram sacudidos por guerras civis entre nobres e democratas; na Alemanha, havia guerras entre príncipes, cavaleiros e cidades. A medida que os príncipes iam centralizando o seu poder, a nobreza perdia prestígio e riqueza, sufocando os camponeses; estes eram os que mais sofriam na sociedade, porque os nobres deprimidos e angustiados ainda queriam viver à custa destes. Assim os tempos se tornaram cada vez mais sombrios. A crueldade das autoridades e dos fortes que obtinham vitórias, tomava proporções extraordinárias; em conseqüência, as insurreições dos camponeses eram freqüentes, visando a todos os poderosos da sociedade; quem obtivesse vitória, crivava os olhos e incendiava as casas dos adversários vencidos. O correr dos acontecimentos havia de levar a revolução religiosa e social do século XVI, associada principalmente ao nome de Martinho Lutero, revolução à qual se oporia a obra de renovação católica associada ao Concílio de Trento e a floração de Santos que encheram o mesmo século XVI.

Orígenes e Reencarnação

D.ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB




Orígenes e origenismo


1. Orígenes (185-254) foi mestre de famosa Escola de Teologia em Alexandria (Egito) no séc. III. Nessa época, os pensadores cristãos tentavam penetrar nos dados do Evangelho mediante o instrumentos da filosofia ou da sabedoria humana (grega) anterior a Cristo. A teologia ainda estava em seus primórdios; as fórmulas oficiais da fé da Igreja eram então muito concisas; em conseqüência, ficava margem assaz ampla para que o estudioso propusesse sentenças destinadas a elucidar, na medida do possível, os artigos da fé. Orígenes entregou-se a essa tarefa, servindo-se da filosofia do seu tempo e, em particular, da filosofia platônica. Ao realizar isso, Orígenes fazia questão de distinguir explicitamente entre proposições de fé, pertencentes ao patrimônio da Revelação cristã, e proposições hipotéticas, que ele formulava em seu nome pessoal, à guisa de sugestões; além disto, professava submissão ao magistério da Igreja caso esta rejeitasse alguma das teses de Orígenes.

Ora, entre as suas proposições pessoais, Orígenes formulou algumas que de fato vieram a ser recusadas pelo magistério da Igreja.

2. Assim, inspirando-se no platonismo, derivava a palavra grega psyché (alma) de psychos (frio), e admitia que as almas humanas unidas à matéria, tais como elas atualmente se acham, são o produto de um resfriamento do fervor de espíritos que Deus criou todos iguais e destinados a viver fora do corpo; a encarnação das almas, portanto, e a criação do mundo material dever-se-iam a um abuso da liberdade ou um pecado dos espíritos primordiais, que Deus terá punido, ligando tais espíritos à matéria. Banidos do céu e encarcerados no corpo, estes sofrem aqui a justa sanção e se vão purificando a fim de voltar a Deus; após a vida presente, alguns ainda precisarão de ser purificados pelo fogo em sua existência póstuma, mas na etapa final da história todos serão salvos e recuperarão o seu lugar junto de Deus; o mundo visível terá então preenchido o seu papel e será aniquilado.

Note-se bem: Orígenes propunha essas idéias como hipóteses, e hipóteses sobre as quais a Igreja não se tinha pronunciado (justamente porque pronunciamentos sobre tais assuntos ainda não haviam sido necessários). Não havia, pois, da parte de Orígenes a intenção de se afastar do ensinamento comum da Igreja a fim de constituir uma escola teológica própria ou uma heresia (“heresia” implica obstinação consciente contra o magistério da Igreja).

3. A desgraça de Orígenes, porém, foi ter tido muitos discípulos e admiradores... Estes atribuíram valor dogmático às proposições do mestre, mesmo depois que o magistério da Igreja as declarou contrarias aos ensinamentos da fé.

É preciso observar ainda o seguinte: Orígenes admitiu também como possível a preexistência das almas humanas. Ora esta doutrina não significa necessariamente reencarnação; apenas quer dizer que, antes de se unir ao corpo, a alma humana viveu algum tempo fora da matéria; encarnou-se depois...; daí não se segue que se deva encarnar mais de uma vez (o que seria a reencarnação propriamente dita).

Aliás, Orígenes se pronunciou diretamente contrário à doutrina da reencarnação... Com efeito, em certa passagem de suas obras considera a teoria do filósofo Basílides, o qual queria basear a reencarnação nas palavras de São Paulo: “Vivi outrora sem lei...” (Rm 7,9). Observa então Orígenes: Basílides não percebeu que a palavra “outrora” não se refere a uma vida anterior de S. Paulo, mas apenas a um período anterior da existência terrestre que o Apóstolo estava vivendo; assim, concluía Origenes, “Basílides rebaixou a doutrina do Apóstolo ao plano das fábulas ineptas e ímpias” (cf. In Rom VIII).

Contudo os discípulos de Orígenes professaram como verdade de fé não somente a preexistência das almas (delicadamente insinuada por Orígenes), mas também a reencarnação (que o mestre não chegou de modo algum a propor, nem como hipótese).

Os principais defensores destas idéias, os chamados “origenistas”, foram monges que viveram no Egito, na Palestina e na Síria nos séc. IV/VI. Esses monges, como se compreende, levando vida muito retirada, entregue ao trabalho manual e à oração, eram pouco versados no estudo e na teologia; admiravam Orígenes principalmente por causa dos seus escritos de ascética e mística, disciplinas em que o mestre mostrou realmente ter autoridade. Não tendo, porém, cabedal para distinguir entre proposições categóricas e meras hipóteses do mestre, os origenistas professavam cegamente como dogma tudo que liam nos escrito de Orígenes; pode-se mesmo dizer que eram tanto mais fanáticos e buliçosos quanto mais simples e ignorantes.

4. A tese da reencarnação, desde que começou a ser sustentada pelos origenistas, encontrou decididos oponentes entre os escritores cristãos mesmos, que a tinham como contrária à fé. Um dos testemunhos mais claros é o de Enéias de Gaza († 5l8), autor do “Diálogo sobre a imortalidade da alma e a ressurreição”, em que se lê o seguinte raciocínio:

“Quando castigo o meu filho ou o meu servo, antes de lhe infligir a punição, repito-lhe várias vezes o motivo pelo qual o castigo, e recomendo-lhe que não o esqueça para que não recaia na mesma falta. Sendo assim, Deus, que estipula... os supremos castigos, não haveria de esclarecer os culpados a respeito do motivo pelo qual Ele os castiga? Haveria de lhes subtrair a recordação de suas faltas, dando-lhes ao mesmo tempo a experimentar muito vivamente as suas penas? Para que serviria o castigo se não fosse acompanhado da recordação da culpa? Só contribuiria para irritar o réu e levá-lo à demência. Uma tal vítima não teria o direito de acusar o seu juiz por ser punida sem ter consciência de haver cometido alguma falta?” (ed. Migne gr., t. LXXXV, 871).

Sem nos demorar sobre este e outros testemunhos contrários à reencarnação no séc. VI, passamos imediatamente à fase culminante da controvérsia origenista.

“Não” à reencarnação

No início do séc. VI estava o origenismo muito em voga nos mosteiros da Palestina, tendo como principal centro de propagação o mosteiro da “Nova Laura” ao sul de Belém: aí se falava, com estima, de preexistência das almas, reencarnação, restauração de todas as criaturas na ordem inicial ou na bem-aventurança celeste... Em 531, o abade São Sabas, que, com seus 92 anos de idade, se opunha energicamente ao origenismo, foi a Constantinopla pedir a proteção do Imperador para a Palestina devastada pelos samaritanos, assim como a expulsão dos monges origenistas. Contudo alguns dos monges que o acompanhavam, sustentaram em Constantinopla opiniões origenistas; regressou à Palestina, para aí morrer aos 5 de dezembro de 532. Após a morte de S. Sabas, a propaganda origenista recrudesceu, invadindo até mesmo o mosteiro do falecido abade (a “Grande Laura”); em conseqüência, o novo abade, Gelásio, expulsou do mosteiro quarenta monges. Estes, unidos aos da “Nova Laura”, não hesitaram em tentar tomar de assalto a “Grande Laura”. Por essa época, os origenistas (pelo fato de combater uma famosa heresia cristológica, dita “monofisitismo”) gozavam de grande prestígio, mesmo em Constantinopla. Com o passar do tempo, a controvérsia entre os monges da Palestina foi-se tornando cada vez mais acesa, exigindo em breve a intervenção das autoridades. Foi o que se deu em 539: o Patriarca de Jerusalém mandou pedir ao Imperador Justiniano de Constantinopla o seu pronunciamento contra o origenismo (naquela época os temas teológicos interessavam ao Imperador tanto quanto as questões de administração pública). Justiniano, em resposta, escreveu um trato contra Orígenes, de tom extremamente violento, que se encerrava com uma série de dez anátemas contra Orígenes, dos quais merecem atenção os seguintes:

“1. Se alguém disser ou julgar que as almas humanas existiam anteriormente, como espíritos ou poderes sagrados, os quais, desviando-se de visão de Deus, se deixaram arrastar ao mal, e, por este motivo, perderam o amor de Deus, foram chamados almas e relegados para dentro de um corpo à guisa de punição, seja anátema.

5. Se algum disser ou julgar que, por ocasião da ressurreição, os corpos humanos ressuscitarão em forma de esfera, sem semelhança com o corpo que atualmente temos, seja anátema.

9. Se alguém disser ou julgar que a pena dos demônios ou dos ímpios não será eterna, mas terá fim, e que se dará uma restauração apokatástasis, reabilitação) dos demônios, seja anátema”. Justiniano em 543 enviou o seu tratado com os anátemas ao Patriarca Menas de Constantinopla, a fim de que este também condenasse Orígenes e obtivesse dos bispos vizinhos e dos abades de mosteiros próximos igual pronunciamento. Assim intimado, Menas reuniu logo o chamado “sínodo permanente” (conselho episcopal) de Constantinopla, o qual, por sua vez, redigiu e promulgou quinze anátemas contra Orígenes, dos quais os quatro primeiros nos interessam de perto:

“1. Se algum crer na fabulosa preexistência das almas e na repudiável reabilitação das mesmas (que é geralmente associada àquela), seja anátema.

2. Se algum disser que os espíritos racionais foram todos criados independentemente de matéria e alheios ao corpo, e que vários deles rejeitaram a visão de Deus, entregando-se a atos ilícitos, cada qual seguindo suas más inclinações, de modo que foram unidos a corpos, uns mais, outros menos perfeitos, seja anátema.

3. Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais a que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema.

4. Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em conseqüência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demônios e espíritos maus, seja anátema”.

O Papa Vigílio e os demais Patriarcas deram a sua aprovação a esses artigos. Como se vê, tal condenação foi promulgada por um sínodo local de Constantinopla reunido em 543, e não pelo Concílio ecumênico de Constantinopla II, o qual só se realizou em 553. Neste Concílio ecumênico, a questão da pré-existência e da sorte póstuma das almas humanas não voltou à baila; verdade é que Orígenes aí foi condenado juntamente com outros escritores cristãos por causa de erros concernentes a Cristo.

Em conclusão, observamos o seguinte:

a) A doutrina da reencarnação nunca foi comum, nem é primitiva na Igreja Católica (atestam-no os depoimentos dos antigos escritores cristãos atrás mencionados);

b) Após Orígenes (séc. III), ela foi professada por grupos particulares de monges orientais, pouco versados em teologia, os quais se prevaleciam de afirmações daquele mestre, exagerando-as (daí a designação de “origenistas”, que lhes coube);

c) Mesmo dentro da corrente origenista, a teoria da reencarnação não teve a voga que tiveram, por exemplo, as teses da preexistência das almas e da restauração de todas as criaturas na suposta bem-aventurança inicial;

d) Por isto as condenações proferidas por bispos e sínodos no séc. VI sobre o origenismo versam explicitamente sobre as doutrinas da preexistência e da restauração das almas (o que naturalmente implica a condenação da própria tese da reencarnação, na medida em que esta tese depende daquelas doutrinas e era professada pelos origenistas);

e) A doutrina da reencarnação foi rejeitada não somente pelo magistério ordinário da Igreja (baseado na palavra da S. Escritura) desde os tempos mais remotos, mas também pelo magistério extraordinário nos concílios ecumênicos de Lião em 1274 (“As almas... são imediatamente recebidas no céu”) e de Florença em 1439 (“As almas... passam imediatamente para o inferno a fim de aí receber a punição”) Cf. Denzinger-Schönmetzer, Enquirídio nº 857 (464) e 1306 (693). Ver também Concílio do Vaticano II, Const. Lumen Gentium nº 48: “Terminado o único curso de nossa vida terrestre, possamos entrar nas bodas”.




Fonte: Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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8 de junho de 2014 01:47

Parabéns pelo excelente trabalho. Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Salve Maria.

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