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A REBELIÃO DOS ANJOS: A INTELIGÊNCIA, A LIBERDADE E O PRIMEIRO CONFLITO ESPIRITUAL ENTRE A CRIATURA E O CRIADOR

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 5 de novembro de 2026 | 14:12

 



por*Francisco José Barros de Araújo 


Uma reflexão teológica  à luz da filosofia tomista, da angelologia e da demonologia católica


A LIBERDADE COMO PRIMEIRO ATRIBUTO DAS CRIATURAS RACIONAIS


Quando falamos em liberdade, geralmente pensamos na condição humana, na capacidade de raciocinar, deliberar e escolher entre diferentes possibilidades. 


Entretanto, na perspectiva filosófica de Santo Tomás de Aquino, a liberdade deve ser compreendida a partir da natureza de cada criatura e de suas respectivas faculdades. Deus criou uma hierarquia de seres, visíveis e invisíveis, cada qual com sua própria constituição e modo de participar da ordem da criação. 


Não podemos, portanto, atribuir a todos os seres o mesmo grau de consciência, inteligência ou liberdade


-Entre as criaturas visíveis, encontramos os vegetais, dotados de vida vegetativa, mas desprovidos de conhecimento e vontade; os animais, que possuem sentidos, percepção, instintos e apetites sensitivos, mas não deliberam moralmente como os seres humanos; e nós, seres humanos, constituídos de corpo e alma espiritual, dotados de inteligência e vontade, capazes de conhecer, raciocinar, ponderar, deliberar e escolher conscientemente. 


-Nossa liberdade, portanto, não é simplesmente a capacidade de fazer o que desejamos, mas a possibilidade de orientar racionalmente nossa vontade, assumindo a responsabilidade moral pelas escolhas realizadas.


Entretanto, existe uma realidade superior à nossa condição natural de Criaturas:os seres espirituais, os anjos 


Diferentemente dos animais irracionais, que possuem sentidos, instintos, apetites sensitivos e certa capacidade de escolha condicionada à sua natureza, mas não dispõem de inteligência racional para deliberar conscientemente sobre princípios morais e distinguir o bem e o mal mediante juízos éticos, os anjos são criaturas puramente espirituais, desprovidas de corpo material, dotadas de inteligência superior, vontade e livre-arbítrio. Sua natureza intelectual permite-lhes conhecer, compreender e escolher sem depender dos sentidos ou do raciocínio discursivo próprio dos seres humanos. Por isso, são capazes de decisões voluntárias com maior responsabilidade moral, podendo aderir livremente à ordem divina ou rebelar-se contra ela.



-Enquanto nós dependemos dos sentidos, da experiência do aprendizado e do raciocínio discursivo para alcançar determinadas verdades, os anjos possuem um modo de conhecimento muito mais elevado e imediato. Isso não significa que sejam oniscientes ou possuam atributos divinos: são criaturas e, como tais, permanecem infinitamente inferiores ao Criador.


-É justamente nessa distinção entre inteligência, vontade e liberdade que encontramos uma das questões mais intrigantes da angelologia cristã: como seres de inteligência tão elevada puderam rebelar-se contra Deus? 


E, se a rebelião envolveu outros anjos, de que maneira uma criatura espiritual poderia influenciar intelectualmente a decisão de outras criaturas igualmente espirituais?


A LIBERDADE, ou livre arbítrio, NÃO É SINÔNIMO DE AUTONOMIA ABSOLUTA


Para Santo Tomás de Aquino, inteligência e vontade são faculdades distintas, embora intimamente relacionadas. 


A inteligência apresenta à vontade aquilo que conhece como bem; a vontade, por sua vez, inclina-se ao bem apreendido. A liberdade manifesta-se justamente na capacidade de escolher, não significando, entretanto, que todas as escolhas sejam moralmente boas ou conduzam à verdadeira felicidade.


É possível, portanto, possuir inteligência elevada e utilizar a liberdade de maneira desordenada 


O pecado não nasce necessariamente da ausência de conhecimento, mas também pode decorrer de uma vontade que, conhecendo a ordem devida, escolhe um bem particular fora de sua medida e subordinação ao Bem Supremo,e consciente disso.


Essa distinção é fundamental para compreender a queda dos anjos! 


A inteligência superior não elimina a possibilidade de uma escolha equivocada, pois a perfeição natural de uma criatura não equivale à perfeição absoluta de Deus.


A REBELIÃO ANGÉLICA: UMA OPOSIÇÃO NO CAMPO DA INTELIGÊNCIA E DA VONTADE


-A tradição cristã ensina que parte dos anjos, por uma decisão livre, rebelou-se contra Deus. O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 391 a 395, apresenta essa realidade como uma rejeição livre e irrevogável do reinado de Deus. 


-O Apocalipse, em seu capítulo 12, apresenta simbolicamente o dragão arrastando consigo a terça parte das estrelas do céu (Ap 12,4), imagem tradicionalmente relacionada à queda dos anjos rebeldes.


Mas precisamos compreender a natureza desse conflito. Não estamos diante de uma batalha física, de demonstrações de força muscular, armamentos, ou poderes paranormais. Os anjos não possuem corpos materiais.Os artistas foram os criadores dessa mentalidade. Trata-se de uma oposição no âmbito espiritual, envolvendo inteligência, vontade, soberba e fidelidade à ordem divina.


-Aqui encontramos uma contribuição particularmente importante de Santo Tomás de Aquino. Na Suma Teológica, Primeira Parte, questão 63, artigo 8, ele examina expressamente se o pecado do primeiro anjo foi causa do pecado dos demais. 


-Sua resposta é afirmativa: o primeiro anjo não obrigou os outros a pecar, mas os induziu por uma espécie de exortação persuasiva.


-O ensinamento é extraordinário! Santo Tomás admite que a rebelião de um anjo pôde exercer influência persuasiva sobre outros, sem eliminar a liberdade daqueles que consentiram. 


Ele explica, inclusive, que os anjos não necessitam do tempo de deliberação e da linguagem vocal que nós, seres humanos, utilizamos. A manifestação de uma intenção por meio de uma linguagem inteligível poderia ser imediatamente compreendida e aceita por outros espíritos.


Portanto, não precisamos imaginar uma discussão verbal, semelhante a um debate humano, para admitir uma persuasão intelectual entre os anjos. Podemos falar de uma comunicação espiritual de conteúdos inteligíveis, de uma intenção manifestada e de uma adesão voluntária à proposta rebelde.


LÚCIFER E A FORÇA PERSUASIVA DA REBELIÃO EM APOC. 12


Surge aqui uma questão teológica e filosófica importante: como uma criatura de inteligência tão elevada poderia induzir outras criaturas espirituais a acompanhá-la na rebelião?


A resposta não está necessariamente em uma demonstração de força, mas na capacidade de influenciar intelectualmente a vontade de outros seres. 


O primeiro anjo rebelde não precisaria obrigar ninguém. Sua influência teria sido persuasiva, e a adesão dos demais teria ocorrido mediante consentimento próprio.


Santo Tomás de Aquino explica, na Suma Teológica (I, questão 63), que o pecado angélico está relacionado à soberba e ao desejo desordenado de excelência: a criatura que, em vez de reconhecer sua dependência do Criador, pretende alcançar sua própria plenitude à margem da ordem divina. Essa reflexão pode ser ilustrada pela arquitetura moral da Divina Comédia, de Dante Alighieri: na representação do Inferno, quanto mais se desce em direção às profundezas, mais se avança simbolicamente para o afastamento da luz divina, até chegar à região gelada de Lúcifer, no ponto mais baixo do universo dantesco. É uma inversão da verdadeira hierarquia espiritual: aquilo que deveria elevar a criatura a Deus transforma-se em queda, trevas e aprisionamento. O problema dos anjos rebeldes, portanto, não era a ausência de inteligência, mas a soberba de uma vontade que, embora dotada de elevada capacidade intelectual, recusou a justa subordinação ao Bem Supremo. Na lógica espiritual, quem pretende elevar-se acima de Deus não alcança o cume da grandeza: precipita-se no abismo da própria soberba.




O Padre José Antonio Fortea, em sua obra "Svmma Daemoniaca", também oferece elementos para aprofundarmos a compreensão da natureza dos demônios, da inteligência angélica e da realidade espiritual. Sua contribuição demonológica pode ser estudada em diálogo com os fundamentos filosóficos estabelecidos por Santo Tomás.


É importante, entretanto, não transformar nossas hipóteses teológicas em afirmações literais da Revelação. Não conhecemos o conteúdo exato de cada argumento utilizado na rebelião, mas a possibilidade de uma persuasão intelectual encontra fundamento explícito na reflexão tomista.


"E POR QUE NÃO?" — A AUTONOMIA REBELDE CONTRA A SOBERANIA DIVINA


Costumo sintetizar didaticamente a mentalidade da rebelião angélica em uma pergunta provocativa: "E POR QUE NÃO?"



-Se Deus nos criou livres, por que não utilizar essa liberdade para reivindicar uma autonomia que dispense a submissão ao próprio Criador? 


-Por que não buscar a própria excelência sem reconhecer a autoridade divina? 


-Por que não colocar a própria vontade acima da ordem estabelecida por Deus?


Evidentemente, não estamos reproduzindo uma frase literalmente pronunciada por Lúcifer ou pelos anjos rebeldes. 


Trata-se de uma formulação teológica interpretativa, utilizada para representar a lógica da soberba: a criatura que, esquecendo sua condição de criatura, pretende transformar a liberdade recebida em independência absoluta.


É nesse ponto que precisamos distinguir liberdade de independência ontológica 


Nenhuma criatura pode reivindicar independência absoluta daquele que lhe concede a própria existência. 


Essa verdade pode ser ilustrada pelos próprios avanços tecnológicos: por mais sofisticada que seja uma inteligência artificial ou por maior autonomia operacional que possua um robô autônomo, nenhum deles deixa de depender de seus criadores, de sua programação, de sua infraestrutura e dos limites estabelecidos por quem os desenvolveu. Imagine os riscos de uma inteligência artificial que, confundindo autonomia operacional com autoridade absoluta, passasse a rejeitar os limites e as finalidades para os quais foi criada,e passasse a agir de forma  autônoma.


A capacidade de executar decisões não lhe conferiria o direito de redefinir sua própria finalidade ou colocar-se acima de seus criadores. Guardadas as devidas proporções — pois máquinas não possuem alma espiritual, livre-arbítrio moral ou responsabilidade como os anjos e os seres humanos —, a analogia ajuda a compreender uma verdade teológica fundamental: a liberdade concedida à criatura não significa independência ontológica do Criador. A criatura pode exercer sua liberdade, mas jamais se torna a origem de si mesma, nem pode ocupar o lugar daquele de quem recebeu a existência. 


Afinal, Deus não é apenas aquele que nos criou: é também aquele que possui um projeto e um propósito perfeitos para sua criação, infinitamente superiores à nossa limitada compreensão. 


A verdadeira sabedoria não está em tentar substituir os desígnios do Criador pelos nossos, mas em reconhecer que a plenitude da nossa liberdade se encontra na adesão livre à sua vontade.


A liberdade não nos transforma em deuses, nem nos concede autoridade para redefinir arbitrariamente a verdade e o bem.


A criatura é livre, mas sua liberdade não altera sua condição de criatura.


"QUEM COMO DEUS?" — A RESPOSTA DE SÃO MIGUEL ARCANJO a revolução da autonomia de lucifer no céu


Do outro lado encontramos São Miguel Arcanjo, cujo próprio nome, derivado da expressão hebraica Mi-ka-El, significa "Quem como Deus?". A tradição cristã associa essa expressão à resistência de São Miguel contra a rebelião angélica, apresentada em Apocalipse 12,7-9.


Essa pergunta contém uma profunda afirmação teológica: quem pode comparar-se a Deus? Qual criatura, por mais elevada que seja sua inteligência, dignidade ou poder, pode reivindicar para si os atributos do Criador?


A resposta não está em uma demonstração de força física, mas no reconhecimento da verdade. São Miguel representa, nessa interpretação, a fidelidade à ordem divina, a humildade diante do Criador e a compreensão de que nenhuma excelência criada pode substituir a soberania de Deus.


Assim, podemos sintetizar didaticamente as duas orientações espirituais:


-"E POR QUE NÃO?" — a pretensão da criatura de colocar sua própria vontade acima da ordem divina.


-"QUEM COMO DEUS?" — o reconhecimento de que toda inteligência, liberdade e excelência criadas encontram sua origem e seu fim em Deus.


Não são transcrições de um diálogo bíblico, mas expressões teológicas  que nos ajudam a compreender o contraste teológico entre soberba e fidelidade.


TER INTELIGÊNCIA SUPERIOR NÃO É GARANTIA DE FIDELIDADE À VERDADE


-Talvez esta seja a maior lição filosófica e teológica da queda angélica: possuir inteligência não significa necessariamente possuir sabedoria; conhecer não significa necessariamente obedecer; e ser livre não significa necessariamente escolher corretamente.


-Os anjos rebeldes não eram criaturas desprovidas de inteligência. Sua natureza intelectual era superior à humana. Entretanto, a excelência de suas faculdades naturais não impediu que sua vontade se desviasse da ordem devida.


Santo Tomás explica que o pecado angélico decorreu de uma escolha livre e desordenada. A criatura buscou um bem para si, mas sem a devida medida e subordinação à vontade divina. Não se tratava de escolher o mal enquanto mal, mas de desejar um bem particular de maneira desordenada.


Isso também nos ajuda a compreender por que a liberdade é inseparável da responsabilidade moral. A capacidade de escolher não torna todas as escolhas igualmente legítimas, assim como a capacidade intelectual não transforma uma opinião em verdade.


CONCLUSÃO — A GRANDEZA DA CRIATURA ESTÁ EM RECONHECER O CRIADOR e sua perfeição!


A rebelião dos anjos revela um dos aspectos mais profundos da liberdade concedida por Deus às suas criaturas racionais. Nem mesmo uma inteligência naturalmente superior à humana foi privada da possibilidade de escolher. 


A liberdade não foi concedida apenas para que a criatura pudesse amar e obedecer, mas também implica a possibilidade de uma recusa, cuja responsabilidade pertence à própria vontade criada. 


-Não seremos recompensados ou responsabilizados moralmente por Deus simplesmente pelo grau de inteligência que possuímos ou pela capacidade intelectual de nossa vontade, mas pelo uso que fazemos da liberdade, à luz da verdade e do bem que nos foram dados a conhecer. É pelas escolhas livres, pelas atitudes e pelos atos praticados que manifestamos nossa adesão ou rejeição à vontade divina. 


-Não seria justo atribuir o mesmo destino moral a quem empregou sua liberdade para praticar atrocidades e a quem a colocou a serviço do amor, da caridade e da santidade. Pensemos, por exemplo, na diferença entre Adolf Hitler e Santa Teresa de Calcutá: não foi a inteligência, a capacidade de raciocínio ou a força de suas vontades que determinou o valor moral de suas vidas, mas as escolhas que fizeram e a direção que deram à própria liberdade. 


É nesse campo que se trava também uma das grandes batalhas espirituais: 



O demônio procura seduzir, confundir e desordenar nossa vontade, levando-nos a escolher aquilo que nos afasta de Deus. Afinal, segundo a tradição cristã, foi justamente no exercício da liberdade que os anjos rebeldes realizaram sua escolha de oposição ao Criador, conforme a narrativa da queda em Apocalipse 12. 


Por isso, a liberdade é simultaneamente um dom extraordinário e uma responsabilidade eterna: por seu bom ou mau uso, orientamos nossa existência para Deus ou nos afastamos dele. Não é a inteligência que nos salva, mas a graça de Deus, acolhida e correspondida por uma liberdade que escolhe o bem.


A queda angélica demonstra que a inteligência, por mais elevada que seja, não constitui garantia automática de retidão moral 


-Uma criatura pode possuir conhecimento, excelência e poder, mas, se sua vontade se desordena, essas mesmas perfeições naturais não impedem sua queda. A soberba consiste precisamente em não reconhecer a justa relação entre a criatura e seu Criador.


-É por isso que a expressão "Quem como Deus?" possui uma profundidade que ultrapassa o episódio angélico. Ela representa uma verdade permanente da filosofia cristã: a liberdade não é uma licença para negar a realidade, a inteligência não é uma autorização para desprezar a verdade e a autonomia da vontade não pode transformar a criatura em fundamento de sua própria existência.


A verdadeira liberdade não consiste em viver como se Deus não existisse, mas em reconhecer voluntariamente a verdade daquele que nos criou. A criatura não perde sua dignidade quando se submete a Deus; ao contrário, encontra nele a razão de sua existência, a medida de sua liberdade e o fundamento de sua felicidade.


No fim, a questão não é simplesmente quem possui maior inteligência, quem exerce maior influência ou quem demonstra maior poder. A questão decisiva é para onde se orienta a vontade: para a soberba de uma autonomia impossível ou para a humildade de reconhecer a soberania divina.


Entre "E por que não?" e "Quem como Deus?", encontra-se a diferença entre a liberdade que se rebela contra sua origem e a liberdade que reconhece sua verdadeira finalidade.







A BATALHA ESPIRITUAL CONTINUA: "NÃO É CONTRA A CARNE E O SANGUE que lutamos"


Existe ainda uma dimensão dessa reflexão que não podemos ignorar. A rebelião angélica não é apenas um acontecimento remoto da história da criação, mas nos ajuda a compreender a realidade da batalha espiritual na qual a própria humanidade está inserida. São Paulo, na Carta aos Efésios (6,12), faz uma advertência extremamente séria: 


"Pois a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal espalhados pelos ares". 


Não estamos, portanto, diante de uma simples disputa de opiniões humanas, mas de uma realidade espiritual que ultrapassa nossa percepção natural.


Os principados, potestades e demais categorias de seres espirituais mencionadas na tradição cristã pertencem ao universo angélico, cuja inteligência natural é superior à humana. 


Isso torna ainda mais importante a advertência paulina: não podemos reduzir a realidade do mal a questões meramente sociológicas, econômicas ou políticas, embora elas também possam ser instrumentos e manifestações de escolhas humanas moralmente desordenadas.






Há, nesse sentido, uma aparente desigualdade nessa luta: nós, seres humanos, enfrentamos forças espirituais cuja natureza intelectual é superior à nossa. A própria história da queda angélica demonstra que seres dotados de inteligência extraordinária puderam rebelar-se contra Deus e arrastar outros consigo mediante uma influência persuasiva, sem coação. Se até criaturas espirituais de tão elevada natureza puderam cair, quanto mais nós, seres humanos, precisamos de vigilância, humildade, discernimento e da graça divina!


O Apocalipse 12,7-12 apresenta o combate de Miguel e seus anjos contra o dragão e seus anjos, culminando na expulsão dos rebeldes para a terra. O texto também anuncia que o dragão sabe que lhe resta pouco tempo (Ap 12,12). Essa imagem apocalíptica nos recorda a urgência da batalha espiritual e a hostilidade do mal contra aqueles que permanecem fiéis a Deus. Entretanto, não devemos esquecer que essa luta já está sob a perspectiva da vitória de Cristo, e não de uma disputa entre dois poderes equivalentes. Satanás não é rival à altura de Deus: é uma criatura caída, limitada e derrotada pela obra redentora de Cristo.






É justamente nesse contexto que precisamos desenvolver discernimento diante das ideias que se apresentam à sociedade e até mesmo dentro da Igreja sob o discurso de um suposto progresso, liberdade ou bem comum. O relativismo moral, ao relativizar a própria existência de verdades objetivas, pode acabar transformando o bem e o mal em conceitos submetidos às conveniências de cada época. 



Quando a verdade deixa de ser reconhecida como referência e passa a ser tratada como uma construção sujeita às preferências humanas, abre-se espaço para a inversão dos valores morais: aquilo que antes era reconhecido como erro passa a ser apresentado como conquista, enquanto aquilo que a tradição cristã reconhece como verdade passa a ser tratado como obstáculo ao progresso.


Dentro da própria Igreja, essa vigilância também é necessária. Correntes teológicas influenciadas por pressupostos marxistas, materialistas ou relativistas podem comprometer a compreensão integral da fé quando subordinam a Revelação às categorias ideológicas. É preciso distinguir a legítima Doutrina Social da Igreja, que defende a dignidade humana, a justiça, a solidariedade e a opção preferencial pelos pobres, de interpretações ideologizadas da Teologia da Libertação que reduzem a salvação à emancipação sociopolítica, interpretam a fé predominantemente pela luta de classes ou subordinam o Evangelho a projetos revolucionários. As instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, Libertatis Nuntius (1984) e Libertatis Conscientia (1986), oferecem critérios fundamentais para esse discernimento.


O problema não está em buscar justiça social, combater a pobreza, defender os oprimidos, acolher os pecadores (sem tratar seus pecados como virtudes e  dando status  de inclusão  a depravação sexual),  são  deveres plenamente cristãos. O problema surge quando, em nome dessas causas legítimas, se relativiza a verdade revelada, se instrumentaliza a Igreja politicamente ou se substitui a centralidade de Cristo por uma determinada ideologia. O mesmo discernimento deve ser aplicado às correntes progressistas que pretendem adaptar a moral cristã às tendências culturais de cada época, como se a Igreja tivesse autoridade para transformar aquilo que recebeu de Cristo em função das preferências do mundo.


Não devemos, entretanto, confundir pessoas com ideias, nem atribuir automaticamente intenções demoníacas a quem sustenta posições teológicas equivocadas. Nossa oposição deve ser firme no campo doutrinário, mas orientada pela caridade cristã. Como ensina São Paulo, devemos revestir-nos da armadura de Deus (Ef 6,13-17), porque nossa defesa não está na força humana, na agressividade ou na soberba intelectual, mas na verdade, na justiça, na fé, na Palavra de Deus e na graça de Cristo.


A batalha espiritual, portanto, também se manifesta no campo das ideias, das convicções, da cultura e da formação das consciências. É ali que muitas vezes o erro procura apresentar-se com aparência de virtude, a desobediência com aparência de liberdade e a ruptura com a verdade com aparência de progresso. A história da rebelião angélica nos recorda que nem toda inteligência conduz à sabedoria e nem toda proposta aparentemente libertadora conduz à verdadeira liberdade.


Se a primeira rebelião colocou diante das criaturas a pretensão de uma liberdade sem submissão ao Criador, a batalha de nossos dias também nos exige discernimento para não confundir autonomia do sujeito com verdade, progresso com relativismo e justiça social com submissão ideológica.


Por isso, diante de todas as seduções do erro, permanece atual a pergunta que sintetiza a fidelidade de São Miguel: QUEM COMO DEUS?


por*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001-2006. (Especialmente I, questões 59, 60, 62, 63, 106 e 107: inteligência, vontade, liberdade, queda e comunicação entre os anjos.)


-FORTEA, José Antonio. Svmma Daemoniaca: tratado de demonologia e manual de exorcistas. (Obra contemporânea de demonologia que examina a natureza dos demônios, a queda angélica e a ação espiritual.)


-AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. (Obra clássica que aborda a oposição entre as duas cidades, a ordem do amor, a soberba e a condição dos anjos bons e maus.)


-PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. A hierarquia celeste. (Estudo clássico sobre a hierarquia dos seres angélicos, suas ordens e a iluminação espiritual.)


-DAMASCENO, São João. Exposição da fé ortodoxa. (Tratado patrístico que aborda a criação, a natureza, a liberdade e a queda dos anjos.)


-BONAVENTURA, São Boaventura. Breviloquium. (Síntese teológica medieval sobre a criação, a ordem do universo, a liberdade e a providência divina.)


-LOMBARDI, Pedro. Sentenças. (Obra fundamental da escolástica medieval, com discussões sobre os anjos, sua criação, liberdade e pecado.)


-GREGÓRIO MAGNO, São Gregório. Moralia in Job. (Reflexões patrísticas sobre o pecado, a soberba, a justiça divina e a condição dos espíritos.)


-SUÁREZ, Francisco. De angelis. (Estudo escolástico aprofundado sobre a natureza, as faculdades, a hierarquia e as operações dos anjos.)


-IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. (Especialmente §§ 328–336, sobre os anjos, e §§ 391–395, sobre a queda dos anjos e a realidade do mal.)


-FONTES BÍBLICAS FUNDAMENTAIS: Gênesis 3,1-5; Jó 4,18; Isaías 14,12-15; Ezequiel 28,12-17 (textos tradicionalmente utilizados na reflexão sobre a soberba e a queda, observadas suas respectivas interpretações exegéticas); Mateus 25,41; 2 Pedro 2,4; Judas 6; Efésios 6; Apocalipse 12,4.7-9.



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