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Crônica: lar desfeito de Luís Fernando Veríssimo

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 29 de outubro de 2026 | 13:43




Há famílias que transformam a paz do lar em motivo de tédio, como se a harmonia conjugal fosse um defeito e as brigas, um certificado de autenticidade emocional! 


Na crônica Lar desfeito, Luís Fernando Veríssimo usa a ironia para mostrar o absurdo de filhos que, fascinados pelos dramas alheios, passam a invejar justamente aquilo que deveria causar tristeza: lares desfeitos, pais separados e conflitos familiares. Sob a perspectiva cristã tradicional, a sátira nos convida a refletir sobre uma sociedade que, por vezes, confunde liberdade com desordem, felicidade com monotonia e sofrimento com experiência de vida. 


Afinal, parece que, para alguns, pai e mãe que se amam, permanecem fiéis e vivem em harmonia precisam pedir desculpas aos filhos por não lhes oferecerem um drama digno de novela! O matrimônio cristão, porém, não é um espetáculo de conflitos, mas uma vocação de amor, fidelidade, sacrifício e perseverança.



CRÔNICA: LAR DESFEITO

 

Autor: LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

 

José e Maria estavam casados há vinte anos e eram muito felizes um com o outro. Tão felizes que um dia, na mesa, a filha mais velha reclamou:

- Vocês nunca brigam?

José e Maria se entreolharam. José respondeu:

- Não, minha filha. Sua mãe e eu não brigamos.

- Nunca brigaram? – quis saber Vítor, o filho do meio.

- Claro que já brigamos, mas sempre fazemos as pazes.

- Na verdade, brigas, mesmo, nunca tivemos. Desentendimentos, como todo mundo. Mas sempre nos demos muito bem...

- Coisa mais chata – disse Venancinho, o menor.


Vera, a filha mais velha, tinha uma amiga, Nora, que a deixava fascinada com suas histórias de casa. Os pais de Nora viviam brigando. Era um drama. Nora contava tudo pra Vera. Ás vezes chorava. Vera consolava a amiga. Mas no fundo tinha uma certa inveja. Nora era infeliz. Devia ser bacana ser infeliz assim. O sonho de Vera era ter um problema em casa para poder ser revoltada como Nora. Ter olheiras como Nora.

 

Vítor, o filho do meio, frequentava muito a casa de Sérgio, seu melhor amigo. Os pais de Sérgio estavam separados. O pai de Sérgio tinha um dia certo para sair com ele. Domingo. Iam ao parque de diversões, ao cinema, ao futebol. O pai de Sérgio namorava uma moça de teatro. E a mãe de Sérgio recebia visitas de um senhor muito camarada que sempre trazia presentes para Sérgio. O sonho de Vítor era ser irmão de Sérgio.


Venancinho, o filho menor, também tinha amigos com problemas em casa. A mãe de Haroldo tinha uma filha de 11 anos que podia tocar o Danúbio Azul espremendo uma mão na axila, o que deixava a mãe do Haroldo louca. A mãe do Haroldo gritava muito com o marido.


- Eu não aguento mais esta situação! – disse Vera, na mesa dramática.

 

- Que situação, minha filha?

- Essa felicidade de vocês!

- Vocês pelo menos deviam ter cuidado de não fazer isso na nossa frente...disse Vítor.

- Mas nós não fazemos nada!

- Exatamente!

Venancinho batia com o talher na mesa e reivindicava:

- Briga! Briga! Briga!

José e Maria concordavam que aquilo não podia continuar. Precisavam pensar nas crianças. Antes de mais nada, nas crianças. Manteriam uma fachada de desacordo, ódio e desconfiança na frente deles, para esconder a harmonia. Não seria fácil. Inventariam coisas. Trocariam acusações fictícias e insultos. Tudo para não traumatizar os filhos.

- Víbora não – gritou Maria, começando a erguer-se do seu lugar na mesa com a faca serrilhada na mão. José também ergueu-se e empurrou a cadeira.

- Víbora sim! Vem que eu te arrebento.

Maria avançou. Vera agarrou-se a seu braço.

- Mamãe. Não!

Vítor segurou seu pai. Venancinho, que estava de boca aberta e olhos arregalados desde o começo da discussão - a pior até então -, achou melhor pular da cadeira e procurar um canto neutro da sala de jantar.

Depois daquela cena, nada mais havia a fazer. O casal teria que se separar. Os advogados cuidariam de tudo. Eles não podiam mais se enxergar.

Agora era Nora que consolava Vera. Os pais eram assim mesmo. Ela tinha experiência. A família era uma instituição podre. Sozinha, na frente do espelho, Vera imitava a boca de desdém de Nora.

- Podre... Tudo podre...

E esfregava os olhos, para que ficassem vermelhos. Ainda não tinha olheiras, mas elas viriam com o tempo. Ela seria amarga e agressiva. A pálida filha de um lar desfeito. Um pouco de pó-de-arroz talvez ajudasse.

 

Vítor e Venancinho saíam aos domingos com o pai. Uma vez foram ao Maracanã junto com o Sérgio e a namorada do pai do Sérgio, a moça do teatro. O pai de Sérgio perguntou se José não gostaria de conhecer uma amiga de sua namorada. Assim poderiam fazer mais programas juntos. José disse que achava que não. Precisava de mais tempo para se acostumar com sua nova situação. Sabe como é.


Maria não tinha namorado. Mas no mínimo duas vezes por semana desaparecia de casa, depois voltava menos nervosa. Os filhos tinham certeza de que ela ia se encontrar com um homem.

- Eles desconfiam de alguma coisa? - perguntou José (o esposo).

- Acho que não – respondeu Maria.

Estavam os dois num hotel onde se encontravam, no mínimo duas vezes por semana, escondidos.

- Será que fizemos o certo meu amor?...

- Acho que sim...As crianças agora não se sentem mais deslocadas no meio dos amigos. Fizemos o que tinha de ser feito...

- Será que algum dia vamos poder viver juntos outra vez?

- Quando as crianças saírem de casa. Aí então estaremos livres das convenções sociais. Não precisaremos mais manter as aparências de um lar desfeito.

Me beija...



Conclusão — a ironia que nos faz pensar



A grande ironia da crônica é que José e Maria precisam fingir que se odeiam para que os filhos se sintam iguais aos colegas! Levado ao extremo, o enredo revela o absurdo de uma mentalidade que desvaloriza a estabilidade familiar e chega a considerar a desarmonia uma espécie de privilégio. 


Evidentemente, isso não significa que toda família  é  perfeita, que os conflitos devam ser escondidos ou que casais em situações difíceis devam permanecer juntos a qualquer custo,mesmo com violência física. 


A visão cristã reconhece as fragilidades humanas e a necessidade de enfrentar os problemas com verdade, caridade e responsabilidade. Contudo, não devemos romantizar a separação nem transformar o sofrimento em ideal de realização pessoal. 


A família, fundada no matrimônio entre homem e mulher, é chamada a ser uma escola de amor, perdão e virtude, na qual os filhos aprendam pelo exemplo. 


Que ironia: enquanto tantos lutam para reconstruir um lar desfeito, os personagens da crônica quase precisam destruí-lo para satisfazer a curiosidade dos próprios filhos! 


No fim, a pergunta que fica é esta: estamos ensinando nossas crianças a valorizar o amor fiel ou a acreditar que só existe felicidade onde há drama?...



Fonte:  VERISSIMO, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.




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