Há famílias que transformam a paz do lar em motivo de tédio, como se a harmonia conjugal fosse um defeito e as brigas, um certificado de autenticidade emocional!
Na crônica Lar desfeito, Luís
Fernando Veríssimo usa a ironia para mostrar o absurdo de filhos que,
fascinados pelos dramas alheios, passam a invejar justamente aquilo que deveria
causar tristeza: lares desfeitos, pais separados e conflitos familiares. Sob a
perspectiva cristã tradicional, a sátira nos convida a refletir sobre uma
sociedade que, por vezes, confunde liberdade com desordem, felicidade com
monotonia e sofrimento com experiência de vida.
Afinal, parece que, para alguns, pai e mãe que se amam, permanecem fiéis e vivem em harmonia precisam pedir desculpas aos filhos por não lhes oferecerem um drama digno de novela! O matrimônio cristão, porém, não é um espetáculo de conflitos, mas uma vocação de amor, fidelidade, sacrifício e perseverança.
CRÔNICA:
LAR DESFEITO
Autor:
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
José
e Maria estavam casados há vinte anos e eram muito felizes um com o outro. Tão
felizes que um dia, na mesa, a filha mais velha reclamou:
-
Vocês nunca brigam?
José
e Maria se entreolharam. José respondeu:
-
Não, minha filha. Sua mãe e eu não brigamos.
-
Nunca brigaram? – quis saber Vítor, o filho do meio.
-
Claro que já brigamos, mas sempre fazemos as pazes.
-
Na verdade, brigas, mesmo, nunca tivemos. Desentendimentos, como todo mundo.
Mas sempre nos demos muito bem...
-
Coisa mais chata – disse Venancinho, o menor.
Vera,
a filha mais velha, tinha uma amiga, Nora, que a deixava fascinada com suas
histórias de casa. Os pais de Nora viviam brigando. Era um drama. Nora contava
tudo pra Vera. Ás vezes chorava. Vera consolava a amiga. Mas no fundo tinha uma
certa inveja. Nora era infeliz. Devia ser bacana ser infeliz assim. O sonho de
Vera era ter um problema em casa para poder ser revoltada como Nora. Ter
olheiras como Nora.
Vítor,
o filho do meio, frequentava muito a casa de Sérgio, seu melhor amigo. Os pais
de Sérgio estavam separados. O pai de Sérgio tinha um dia certo para sair com
ele. Domingo. Iam ao parque de diversões, ao cinema, ao futebol. O pai de
Sérgio namorava uma moça de teatro. E a mãe de Sérgio recebia visitas de um
senhor muito camarada que sempre trazia presentes para Sérgio. O sonho de Vítor
era ser irmão de Sérgio.
Venancinho,
o filho menor, também tinha amigos com problemas em casa. A mãe de Haroldo
tinha uma filha de 11 anos que podia tocar o Danúbio Azul espremendo uma mão na
axila, o que deixava a mãe do Haroldo louca. A mãe do Haroldo gritava muito com
o marido.
-
Eu não aguento mais esta situação! – disse Vera, na mesa dramática.
- Que situação, minha filha?
-
Essa felicidade de vocês!
-
Vocês pelo menos deviam ter cuidado de não fazer isso na nossa frente...disse
Vítor.
-
Mas nós não fazemos nada!
-
Exatamente!
Venancinho
batia com o talher na mesa e reivindicava:
-
Briga! Briga! Briga!
José
e Maria concordavam que aquilo não podia continuar. Precisavam pensar nas
crianças. Antes de mais nada, nas crianças. Manteriam uma fachada de desacordo,
ódio e desconfiança na frente deles, para esconder a harmonia. Não seria fácil.
Inventariam coisas. Trocariam acusações fictícias e insultos. Tudo para não
traumatizar os filhos.
-
Víbora não – gritou Maria, começando a erguer-se do seu lugar na mesa com a
faca serrilhada na mão. José também ergueu-se e empurrou a cadeira.
-
Víbora sim! Vem que eu te arrebento.
Maria
avançou. Vera agarrou-se a seu braço.
-
Mamãe. Não!
Vítor
segurou seu pai. Venancinho, que estava de boca aberta e olhos arregalados
desde o começo da discussão - a pior até então -, achou melhor pular da cadeira
e procurar um canto neutro da sala de jantar.
Depois
daquela cena, nada mais havia a fazer. O casal teria que se separar. Os
advogados cuidariam de tudo. Eles não podiam mais se enxergar.
Agora
era Nora que consolava Vera. Os pais eram assim mesmo. Ela tinha experiência. A
família era uma instituição podre. Sozinha, na frente do espelho, Vera imitava
a boca de desdém de Nora.
-
Podre... Tudo podre...
E
esfregava os olhos, para que ficassem vermelhos. Ainda não tinha olheiras, mas
elas viriam com o tempo. Ela seria amarga e agressiva. A pálida filha de um lar
desfeito. Um pouco de pó-de-arroz talvez ajudasse.
Vítor
e Venancinho saíam aos domingos com o pai. Uma vez foram ao Maracanã junto com
o Sérgio e a namorada do pai do Sérgio, a moça do teatro. O pai de Sérgio
perguntou se José não gostaria de conhecer uma amiga de sua namorada. Assim
poderiam fazer mais programas juntos. José disse que achava que não. Precisava
de mais tempo para se acostumar com sua nova situação. Sabe como é.
Maria
não tinha namorado. Mas no mínimo duas vezes por semana desaparecia de casa,
depois voltava menos nervosa. Os filhos tinham certeza de que ela ia se
encontrar com um homem.
-
Eles desconfiam de alguma coisa? - perguntou José (o esposo).
-
Acho que não – respondeu Maria.
Estavam
os dois num hotel onde se encontravam, no mínimo duas vezes por semana,
escondidos.
-
Será que fizemos o certo meu amor?...
-
Acho que sim...As crianças agora não se sentem mais deslocadas no meio dos
amigos. Fizemos o que tinha de ser feito...
-
Será que algum dia vamos poder viver juntos outra vez?
- Quando as crianças saírem de casa. Aí então estaremos livres das convenções sociais. Não precisaremos mais manter as aparências de um lar desfeito.
Me beija...
Conclusão — a ironia que nos faz pensar
A grande ironia da crônica é que José e Maria precisam fingir que se odeiam para que os filhos se sintam iguais aos colegas! Levado ao extremo, o enredo revela o absurdo de uma mentalidade que desvaloriza a estabilidade familiar e chega a considerar a desarmonia uma espécie de privilégio.
Evidentemente, isso não significa que toda família é perfeita, que os conflitos devam ser escondidos ou que casais em situações difíceis devam permanecer juntos a qualquer custo,mesmo com violência física.
A visão cristã reconhece as fragilidades humanas e a necessidade de enfrentar os problemas com verdade, caridade e responsabilidade. Contudo, não devemos romantizar a separação nem transformar o sofrimento em ideal de realização pessoal.
A família, fundada no matrimônio entre homem e mulher, é chamada a ser uma escola de amor, perdão e virtude, na qual os filhos aprendam pelo exemplo.
Que ironia: enquanto tantos lutam para reconstruir um lar desfeito, os personagens da crônica quase precisam destruí-lo para satisfazer a curiosidade dos próprios filhos!
No fim, a pergunta que fica é esta: estamos ensinando nossas crianças a valorizar o amor fiel ou a acreditar que só existe felicidade onde há drama?...
Fonte: VERISSIMO, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
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