por*Francisco José Barros de Araújo
A palavra progresso possui, em si mesma, um significado positivo. O ser humano foi dotado por Deus de inteligência, liberdade, criatividade e capacidade de aperfeiçoamento.
Por isso, desenvolver a ciência, melhorar as condições de vida, combater doenças, aperfeiçoar as instituições, diminuir a pobreza, promover a justiça e construir uma sociedade mais humana são aspirações perfeitamente compatíveis com a fé cristã.
O cristianismo não é inimigo do desenvolvimento, da ciência, da cultura ou das legítimas transformações sociais. Ao contrário, reconhece que o homem, como criatura dotada de razão e liberdade, é chamado a colaborar com Deus na construção do bem.
O problema começa quando confundimos progresso com progressismo ideológico!
Progresso significa caminhar para algo melhor. Progressismo ideológico, porém, pode transformar a própria ideia de mudança em um critério absoluto, como se tudo aquilo que é novo fosse necessariamente melhor e tudo aquilo que pertence à tradição fosse automaticamente ultrapassado.
Nesse processo, valores morais objetivos podem passar a ser tratados como meras construções históricas e culturais, enquanto a verdade deixa de ser algo a ser buscado e reconhecido para tornar-se algo que cada geração se considera autorizada a redefinir.
Para o cristianismo, entretanto, existe uma diferença fundamental: nem toda mudança representa progresso e nem toda novidade representa aperfeiçoamento. Há mudanças que libertam e mudanças que escravizam; mudanças que aperfeiçoam e mudanças que degradam; mudanças que aproximam o homem da verdade e mudanças que o afastam dela.
Mas é importante esclarecer desde o início:
Combater o progressismo ideológico não significa defender qualquer espécie de conservadorismo. Dentro da própria Igreja existem dois extremos que precisam ser discernidos à luz do Evangelho.
De um lado, encontramos um ultraconservadorismo fechado, rígido e, por vezes, engessado, que pode transformar a legítima defesa da tradição em uma espécie de imobilismo religioso. É aquele que olha para qualquer desenvolvimento, renovação pastoral ou mudança prudencial com desconfiança, como se toda novidade fosse necessariamente uma ameaça à fé. Nesse extremo, existe o risco de confundir Tradição com tradicionalismo, fidelidade com imobilismo e prudência com medo.
A Igreja, porém, é um organismo vivo. Ela possui raízes profundas, mas não é uma peça de museu. O Espírito Santo continua agindo na história, conduzindo a Igreja à compreensão cada vez mais profunda da verdade recebida de Cristo. Por isso, conservar a fé não significa congelá-la em uma determinada época, linguagem, costume ou forma cultural. A fidelidade cristã não consiste em impedir toda mudança, mas em discernir quais mudanças podem ser acolhidas sem romper a continuidade da fé apostólica.
No extremo oposto, encontramos um progressismo ideológico dentro da Igreja, que pode transformar a adaptação ao mundo contemporâneo em verdadeiro princípio teológico. Em nome de uma suposta modernização da fé, determinados setores acabam relativizando verdades morais, reinterpretando ensinamentos permanentes e tratando como ultrapassado aquilo que contraria os valores dominantes de determinada época.
Aqui aparece uma diferença decisiva: acolher o pecador é cristão; acolher o pecado como se fosse virtude não é!
Jesus Cristo jamais ensinou a rejeição do pecador. Pelo contrário, aproximou-se dos marginalizados, dos doentes, dos arrependidos e daqueles que eram desprezados pela sociedade. Sua misericórdia alcançava justamente aqueles que precisavam ser restaurados. Entretanto, a misericórdia de Cristo nunca significou transformar o pecado em virtude ou declarar que aquilo que destrói o homem passou a ser moralmente bom.
Cristo acolhe o pecador para libertá-lo, e não para convencê-lo de que sua escravidão é liberdade.
É justamente aqui que certas formas de progressismo moral entram em choque com o cristianismo. Quando a Igreja deixa de chamar o pecado de pecado para evitar confrontar a cultura; quando a misericórdia passa a significar aprovação; quando a tolerância deixa de ser respeito pela pessoa e passa a significar aceitação indiscriminada de comportamentos moralmente desordenados; quando vícios são apresentados como direitos e limitações morais são tratadas automaticamente como opressão, estamos diante de uma profunda inversão da lógica do Evangelho.
O cristianismo é inclusivo com o pecador, mas não pode ser inclusivo com o pecado.
Essa distinção é fundamental. A pessoa humana possui dignidade e jamais deve ser reduzida aos seus erros, vícios ou pecados. Todo pecador pode encontrar na Igreja acolhimento, misericórdia, perdão e um caminho de conversão. Mas exatamente porque a Igreja ama o pecador, ela não pode mentir para ele sobre aquilo que o destrói.
Uma Igreja que simplesmente confirma o homem em todos os seus desejos pode até parecer mais acolhedora aos olhos do mundo, mas deixa de oferecer aquilo que somente Cristo pode oferecer: a verdadeira libertação.
-Porque existe uma enorme diferença entre dizer: “você é acolhido apesar do seu pecado” - e dizer: “aquilo que você chama de pecado deixou de ser pecado porque a cultura mudou.”
-A primeira afirmação é profundamente cristã. A segunda relativiza a verdade moral.
E o problema não termina no campo da moral individual. Existe também um segundo tipo de progressismo que merece atenção: aquele que, sob a linguagem da justiça social, dos pobres, da igualdade e da transformação das estruturas, pode incorporar categorias próprias do marxismo e apresentá-las, indevidamente, como se fossem simplesmente a Doutrina Social da Igreja.
-A Igreja deve estar ao lado dos pobres? Sem dúvida!
-Deve combater a injustiça? Sim!
-Deve defender a dignidade do trabalhador? Sim!
-Deve denunciar a exploração, a corrupção e os abusos de poder?Certamente!
Mas a preocupação cristã com os pobres não nasceu com Marx, e a Igreja não precisa do marxismo para defender a justiça social.
A Doutrina Social da Igreja possui fundamentos próprios: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça, a responsabilidade, a família, o trabalho e a busca de uma ordem social que respeite integralmente o ser humano. Transformar essa doutrina em uma simples versão religiosa da luta de classes significa empobrecer profundamente a própria mensagem cristã.
O cristianismo não olha para o ser humano apenas como membro de uma classe econômica. Ele o enxerga como criatura de Deus, marcada pelo pecado, redimida por Cristo e chamada à santidade.
Por isso, a Igreja não pode substituir a conversão pela revolução, a caridade pela luta de classes ou o Evangelho por um projeto político.Da mesma maneira, não pode substituir a ação viva do Espírito Santo pelo medo de qualquer desenvolvimento legítimo.
Entre o ultraconservadorismo que pretende congelar a Igreja e o progressismo que pretende reinventá-la existe um caminho de equilíbrio: a fidelidade.
Não se trata de escolher entre tradição e renovação, como se uma necessariamente excluísse a outra. Trata-se de compreender que a verdadeira renovação cristã acontece em continuidade com a verdade recebida, e não mediante sua negação.
A Igreja não precisa escolher entre ser antiga ou moderna. Ela precisa ser fiel a Cristo!
-Pode mudar ou atualizar os métodos sem mudar a verdade.
-Pode renovar linguagens sem alterar o conteúdo da fé.
-Pode dialogar com o mundo sem submeter-se ao espírito do mundo.
-Pode acolher o pecador sem aprovar o pecado.
-Pode defender os pobres sem abraçar o marxismo.
-Pode promover justiça social sem transformar-se em partido político.
-Pode valorizar a tradição sem transformar-se em tradicionalismo rígido.
-E pode acolher legítimos desenvolvimentos sem transformar toda novidade em dogma e relativisar os dógmas solenemente declarados.
É justamente nessa tensão entre fidelidade e renovação, verdade e misericórdia, tradição e desenvolvimento, justiça e caridade que o discernimento cristão se torna indispensável.
O verdadeiro desafio da Igreja não é ser simplesmente “conservadora” ou “progressista”. Seu desafio é permanecer católica, isto é, universal, fiel à Revelação, à Sagrada Escritura, à Tradição apostólica e ao ensinamento legítimo do Magistério, sempre aberta à ação do Espírito Santo.
Porque o Espírito Santo não conduz a Igreja para longe de Cristo.E também não permite que a Igreja transforme o passado em um ídolo.O Espírito Santo não nos chama a congelar a verdade nem a reinventá-la; chama-nos a vivê-la com fidelidade em cada tempo da história.
É a partir dessa perspectiva que precisamos analisar criticamente os dois extremos:
-De um lado, o ultraconservadorismo que pode transformar a tradição em imobilismo e dificultar a ação renovadora do Espírito Santo;
-De outro, o progressismo ideológico que pode transformar a mudança em critério absoluto e, em nome de uma falsa atualização, relativizar a moral cristã e incorporar ideologias políticas estranhas ao Evangelho.
Entre esses dois extremos está o caminho mais difícil, porém mais autenticamente cristão: não abandonar as raízes para parecer moderno, nem fechar-se ao novo por medo de perder a tradição, mas discernir tudo à luz de Cristo, da verdade e da ação do Espírito Santo.
Afinal, nem tudo que é antigo é verdadeiro, mas também nem tudo que é novo é melhor.
O cristão não é chamado a ser escravo nem do passado nem da novidade.
principais ideólogos e representantes do progressismo fora e *dentro da igreja
Quando falamos em progressismo ideológico, é importante distinguir suas diferentes correntes. Nem todos os autores possuem as mesmas ideias, mas alguns exerceram enorme influência sobre o pensamento progressista contemporâneo, seja na política, na cultura, na educação, na moral ou na teologia.
1. KARL MARX — O FUNDAMENTO DO MARXISMO: Karl Marx é uma das principais referências da esquerda revolucionária moderna. Sua análise da sociedade a partir das relações econômicas, da luta de classes e do conflito entre capital e trabalho influenciou profundamente diversas correntes políticas e culturais posteriores.
2. ANTONIO GRAMSCI — A HEGEMONIA CULTURAL: Gramsci ampliou a influência marxista para além da economia, dando grande importância à cultura, à educação, aos intelectuais e à formação do consenso social. Seu conceito de hegemonia cultural tornou-se especialmente influente nas discussões sobre transformação da sociedade.
3. ESCOLA DE FRANKFURT — A CRÍTICA CULTURAL: Pensadores como Theodor Adorno e Max Horkheimer desenvolveram uma crítica ampla da sociedade, da cultura e das estruturas de dominação. Posteriormente, suas ideias influenciaram diversos setores da esquerda cultural.
4. HERBERT MARCUSE — A NOVA ESQUERDA: Marcuse tornou-se uma das referências intelectuais da chamada Nova Esquerda, especialmente entre movimentos estudantis e culturais. Sua crítica à sociedade ocidental influenciou profundamente setores progressistas a partir da década de 1960.
5. PAULO FREIRE — EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO: Paulo Freire foi um dos mais influentes educadores brasileiros. Sua pedagogia enfatiza conscientização, emancipação e transformação social. Seu pensamento recebeu influências de diferentes correntes filosóficas, entre elas o marxismo e autores como Gramsci.
6. GUSTAVO GUTIÉRREZ — TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: Sacerdote peruano e um dos principais formuladores da Teologia da Libertação. Procurou interpretar a fé cristã a partir da realidade dos pobres e das injustiças sociais latino-americanas.
7. LEONARDO BOFF — TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO BRASIL: Um dos nomes mais conhecidos da Teologia da Libertação brasileira. Sua produção relacionou teologia, pobreza, transformação social, política e, posteriormente, questões ecológicas.
8. JUAN LUIS SEGUNDO — FÉ E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: Jesuíta uruguaio e importante representante da Teologia da Libertação. Desenvolveu uma reflexão teológica fortemente relacionada à realidade histórica e às transformações sociais.
9. HUGO ASSMANN — TEOLOGIA E CRÍTICA SOCIAL: Teólogo brasileiro ligado às origens da Teologia da Libertação. Sua reflexão incorporou categorias de análise social e econômica na elaboração teológica.
10. PROGRESSISMO MORAL E TEOLÓGICO: No campo internacional, nomes como Hans Küng, Edward Schillebeeckx, John Shelby Spong, John Dominic Crossan e Richard Rohr aparecem associados, em diferentes graus e contextos, a correntes de teologia progressista.
*UMA RESSALVA IMPORTANTE:Não é correto afirmar que todo progressista é marxista ou que todos esses autores defendem exatamente as mesmas ideias. Existem diferenças enormes entre marxismo, progressismo cultural, progressismo moral, teologia liberal, Teologia da Libertação e cristianismo progressista.
O ponto que precisa ser investigado é outro: exatamente quando uma ideologia deixa de ser apenas uma ferramenta de análise social e passa a determinar a própria interpretação do evangelho?
É justamente aí que surge o problema:
-A Igreja pode defender os pobres sem ser marxista.
-Pode defender justiça social sem abraçar a luta de classes.
-Pode combater a exploração sem transformar o Evangelho em revolução política.
-Pode acolher o pecador sem aprovar e recomendar o pecado como virtude ou algo bom.
-E pode dialogar com o mundo moderno sem submeter a verdade do Evangelho às ideologias de cada época.
O cristianismo não precisa ser progressista nem reacionário, precisa apenas ser fiel a cristo e seu evangelho.
1. PROGRESSO NÃO É SINÔNIMO DE VERDADE
Uma das maiores confusões do pensamento progressista está em imaginar que a história caminha necessariamente para melhor.
-Mas a experiência humana demonstra exatamente o contrário. O homem pode progredir tecnologicamente e regredir moralmente. Pode produzir computadores cada vez mais sofisticados e, ao mesmo tempo, tornar-se incapaz de estabelecer relações humanas saudáveis. Pode aumentar sua riqueza e perder o sentido da vida. Pode conquistar novos direitos e, simultaneamente, banalizar a vida humana.
-A técnica pode avançar sem que a virtude avance na mesma proporção.Por isso, o cristianismo não mede o progresso simplesmente pela novidade. O verdadeiro progresso precisa considerar a dignidade integral da pessoa humana.
-A pergunta cristã não é apenas: “Isso é novo?”
-Mas: “Isso é verdadeiro? Isso é bom? Isso conduz o ser humano ao seu verdadeiro bem?”
Essa diferença é fundamental.
2. O CRISTIANISMO NÃO SUBMETE A VERDADE ÀS MODAS CULTURAIS
O cristianismo acredita que existem verdades que não dependem da aprovação de uma maioria.
Se uma sociedade inteira decidir que determinada injustiça é aceitável, ela não se torna justa simplesmente porque passou a ser socialmente aceita. Se uma determinada época considerar determinada conduta moralmente correta, isso não significa automaticamente que ela seja moralmente boa.
A consciência humana precisa ser formada pela verdade; a verdade não deve ser moldada pela consciência deformada.
É por isso que Jesus não disse simplesmente: “Eu sou aquilo que a sociedade considerar verdadeiro”. Ele afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (Jo 14,6)
Aqui está uma das grandes diferenças entre o cristianismo e qualquer ideologia que pretenda colocar a transformação cultural acima da verdade.
Para o cristão, Cristo é o critério; a ideologia não é!
3. O PROGRESSISMO MORAL: QUANDO LIBERDADE e LIBERTINAGEM É CONFUNDIDA COM LIBERTAÇÃO
-Uma das manifestações mais problemáticas do progressismo contemporâneo é o progressismo moral. Sua lógica frequentemente parte de uma premissa aparentemente atraente: o homem precisa ser livre para escolher sua própria maneira de viver.
-Até aqui, existe uma verdade cristã: Deus criou o homem livre. O problema está em perguntar: Livre para quê?
A liberdade cristã não significa simplesmente poder escolher qualquer coisa. Liberdade, para o cristianismo, está relacionada à capacidade de escolher o bem.
São Paulo resume essa realidade ao afirmar: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.” (Gl 5,1)
Portanto, a liberdade cristã não significa libertação da verdade, da moral ou da responsabilidade, mas libertação do pecado e da escravidão que ele produz.
Quando alguém passa a acreditar que toda limitação moral é uma forma de opressão, a liberdade deixa de ser compreendida como a capacidade de escolher e realizar o bem e passa a ser reduzida à simples ausência de limites. Isso, porém, não é a liberdade ensinada por Cristo, mas uma concepção equivocada de liberdade, ainda que defendida com sinceridade.
Afinal, a sinceridade, por mais legítima que seja, não é o único critério da verdade. Uma pessoa pode estar sinceramente convencida de algo e, mesmo assim, estar sinceramente enganada. E isso também pode acontecer com grupos inteiros, sociedades e até comunidades religiosas. O fato de alguém acreditar sinceramente em determinada ideia não transforma essa ideia automaticamente em verdadeira.
Para o cristão, o critério último não é aquilo que sentimos, desejamos ou consideramos correto, mas aquilo que está de acordo com Cristo, com o Evangelho e com o ensinamento legítimo da Igreja. Nossa consciência precisa ser formada pela verdade, e não a verdade submetida à nossa consciência. Por isso, a Igreja não pode simplesmente adaptar a moral cristã a cada mudança dos costumes para parecer mais acolhedora ou moderna.
Sua missão é anunciar a verdade com caridade, acolher o pecador, mas jamais transformar o pecado em virtude. Cristo é a verdade que liberta, e não a relativização da verdade em nome de uma falsa liberdade. Como ensina São João: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
4. CRISTO NÃO VEIO APENAS CONSOLAR O PECADOR, MAS CONVERTÊ-LO
Aqui encontramos talvez uma das maiores diferenças entre o cristianismo autêntico e determinadas formas de progressismo moral.
Jesus acolhia o pecador. Mas acolher o pecador nunca significou chamar o pecado de virtude.
Cristo perdoava, curava, restaurava e oferecia uma nova vida. O encontro com Ele não terminava simplesmente com a confirmação da pessoa em sua situação anterior.O Evangelho é simultaneamente misericórdia e conversão.
Cristo não diz ao pecador: “permaneça exatamente como está, porque nada precisa mudar”. Tampouco diz que, para acolhê-lo e impedir que se sinta excluído, somos nós que devemos mudar a verdade, relativizar a moral e aceitar como virtudes aquilo que a doutrina cristã reconhece como pecado. Essa inversão não ajuda o pecador a se libertar; pelo contrário, pode aprisioná-lo ainda mais.
Quando dizemos a alguém que ele está certo simplesmente para não contrariá-lo, enquanto afirmamos que a doutrina cristã está errada ou ultrapassada, estamos oferecendo uma falsa acolhida. O verdadeiro amor cristão não consiste em adaptar a verdade à pessoa, mas em ajudar a pessoa a encontrar-se com a verdade que liberta.
Jesus acolhia o pecador, aproximava-se dele com misericórdia e jamais o tratava com desprezo, mas também não transformava o pecado em virtude para evitar constrangimentos. O encontro com Cristo sempre contém um chamado à conversão e à mudança de vida. A Igreja deve abrir suas portas a todos, mas não precisa abandonar seus ensinamentos para que ninguém se sinta excluído. Acolher não significa aprovar; amar não significa concordar com tudo; ter misericórdia não significa declarar que o pecado deixou de ser pecado.
Se nós precisamos mudar para acolher alguém, que seja para crescer em amor, paciência e caridade, e não para negar a verdade do Evangelho.
Porque dizer ao pecador que ele está certo quando Cristo o chama à conversão não é libertá-lo, é privá-lo da possibilidade de reconhecer aquilo que precisa ser transformado. Cristo não veio apenas nos dizer que somos amados como estamos; veio também nos mostrar que, pela graça, podemos nos tornar pessoas novas. Como disse à mulher adúltera: “vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11).
Uma pastoral que apresenta apenas acolhimento, mas abandona a conversão, corre o risco de transformar a misericórdia em mera aprovação.
A Igreja não existe para condenar o pecador, mas também não existe para canonizar o pecado.Ela existe para anunciar a salvação.
5. MISERICÓRDIA NÃO É APROVAÇÃO
É perfeitamente possível amar alguém sem concordar com todas as suas escolhas.Aliás, essa é uma característica essencial do amor cristão.
A misericórdia verdadeira não diz: “Como Deus ama você, então tudo aquilo que você faz é necessariamente bom.” Ela diz: “Deus ama você e, justamente por isso, chama você a uma vida nova.”
A Igreja precisa acolher pessoas feridas, pecadoras, afastadas e confusas. Mas acolhimento não pode significar abandono da verdade.
Uma mãe que ama o filho não considera saudável tudo aquilo que ele faz apenas para evitar contrariá-lo.
Da mesma forma, a Igreja, como mãe, deve acolher seus filhos e, ao mesmo tempo, ensinar-lhes o caminho da verdade.
6. QUANDO O “NOVO” PASSA A SER MAIS IMPORTANTE QUE A TRADIÇÃO
Outro problema aparece quando determinadas correntes progressistas tratam a tradição cristã quase como sinônimo de atraso.
Mas existe uma diferença enorme entre Tradição e simples costumes humanos. A Tradição da Igreja é parte da transmissão da fé apostólica. Por isso, não pode ser descartada simplesmente porque uma determinada geração considera determinados ensinamentos inconvenientes.
A Igreja pode aprofundar sua compreensão, desenvolver sua linguagem e adaptar métodos pastorais.Mas não pode simplesmente reinventar o conteúdo da fé para adequá-lo ao espírito de cada época.
A pergunta correta não é: “O que a sociedade atual pensa?” Mas: “O que Cristo ensinou e como a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, recebeu e transmitiu esse ensinamento?”
7. A IGREJA DEVE DEFENDER OS POBRES — MAS NÃO PRECISA SER MARXISTA PARA FAZÊ-LO
É aqui que precisamos fazer uma distinção muito importante!
A Doutrina Social da Igreja não é marxista! Pelo contrário, a Igreja possui uma tradição própria de reflexão social fundamentada na dignidade da pessoa humana, no bem comum, na solidariedade, na subsidiariedade, na justiça, na propriedade privada com função social, na responsabilidade e na busca de condições dignas para o trabalho e para a família.
O problema surge quando alguém utiliza seletivamente elementos da Doutrina Social da Igreja para introduzir nela uma interpretação ideológica baseada em categorias estranhas ao cristianismo.
O fato de a Igreja defender os pobres não transforma a Igreja em marxista.O próprio Evangelho apresenta uma preocupação profunda com os pobres e marginalizados. Portanto, a preocupação com os pobres é cristã; o marxismo não é condição necessária para defendê-los.
8. MARXISMO E CRISTIANISMO: PRINCÍPIOS, MEIOS E FINS RADICALMENTE DIFERENTES
Para compreender por que marxismo e cristianismo não podem ser simplesmente misturados, é necessário ir além das aparências e comparar aquilo que está na raiz de cada visão: seus princípios, seus meios e seus fins.
É possível que ambos denunciem a pobreza, a exploração, determinadas formas de desigualdade e situações de injustiça. Entretanto, chegar a diagnósticos semelhantes em alguns pontos não significa partir da mesma filosofia, utilizar os mesmos métodos ou buscar o mesmo objetivo.
PRINCÍPIOS: DE ONDE CADA UM PARTE?
-O marxismo parte de uma concepção essencialmente materialista da realidade e da história. Em sua formulação clássica, as condições materiais da existência, especialmente as relações de produção e as estruturas econômicas, possuem papel fundamental na explicação da organização social e das transformações históricas. A sociedade é compreendida a partir das relações entre classes e dos conflitos decorrentes de interesses econômicos e sociais antagônicos.
-O cristianismo parte de um princípio completamente diferente: Deus é o fundamento último da realidade e o homem é criatura de Deus, criado à sua imagem e semelhança. A pessoa humana não é simplesmente resultado das condições materiais, nem pode ser reduzida à sua classe, função econômica ou posição social. Ela possui dignidade própria, liberdade, responsabilidade moral e uma vocação que ultrapassa a existência terrena.
No marxismo, portanto, a análise parte prioritariamente da matéria, das relações sociais e econômicas e da história.
No cristianismo, parte-se de Deus, da pessoa humana, da criação, da lei moral, do pecado, da redenção e da dignidade transcendente do homem.
Essa diferença de princípio é decisiva. Para o marxismo, o conflito de classes ocupa lugar central na compreensão da história. Para o cristianismo, o conflito fundamental do homem não é simplesmente entre uma classe e outra, mas entre o bem e o mal, entre a graça e o pecado, entre o homem voltado para Deus e o homem fechado em si mesmo.
O DIAGNÓSTICO DO MAL TAMBÉM É DIFERENTE NO MARXISMO E CRISTIANISMO
O marxismo identifica a exploração e a desigualdade principalmente nas estruturas econômicas e nas relações de classe. O cristianismo, sem negar a existência dessas injustiças, vai além: reconhece que a raiz última do mal está no pecado.
Por isso, para o cristianismo, não basta perguntar: “Qual classe está oprimindo qual classe?”. É preciso perguntar também: “O que aconteceu com o coração humano para que ele explore, humilhe, roube, oprima e abuse do outro?”
O empresário pode pecar, mas o trabalhador também pode. O governante pode abusar do poder, mas o militante também pode. O rico pode ser ganancioso, mas o pobre também pode ser injusto. A mudança de posição social não elimina automaticamente a inclinação humana ao pecado.
Assim, o cristianismo não acredita que seja possível construir uma sociedade verdadeiramente justa simplesmente eliminando determinado grupo social ou substituindo uma classe dominante por outra.
MEIOS: COMO CADA UM PRETENDE TRANSFORMAR A REALIDADE?
Aqui encontramos outra diferença fundamental entre o marxismo e o cristianismo: não basta perguntar qual sociedade cada um deseja construir; é preciso perguntar também quais meios considera legítimos para chegar a esse objetivo.
-O marxismo clássico entende a transformação social dentro de uma dinâmica de conflito e luta de classes. Em suas diferentes interpretações históricas, isso levou à defesa de formas de mobilização revolucionária destinadas a superar as estruturas consideradas responsáveis pela exploração. A transformação da sociedade passa, portanto, pelo enfrentamento das classes e pela transformação radical das relações de propriedade e produção.
-O cristianismo segue uma lógica profundamente diferente: conversão, verdade, justiça, caridade, solidariedade, responsabilidade pessoal, reforma das estruturas injustas e busca do bem comum. O cristão não é chamado a permanecer indiferente diante da exploração ou da injustiça. Pelo contrário: deve combatê-las. Porém, não precisa transformar o adversário em um inimigo absoluto, nem considerar a violência, o ódio ou o conflito permanente como instrumentos necessários para alcançar a justiça.
E aqui está uma diferença ética fundamental: para o cristianismo, um fim bom não santifica qualquer meio utilizado para alcançá-lo. Não se pode praticar deliberadamente o mal sob a justificativa de que, no futuro, dele nascerá um bem maior.
A justiça precisa ser buscada também por meios justos. A dignidade da pessoa humana não pode ser sacrificada simplesmente porque ela pertence à classe, ao grupo ou à ideologia considerada responsável pela injustiça.
O Evangelho apresenta uma exigência ainda mais radical: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). Isso não significa aceitar passivamente a injustiça, abandonar a defesa dos inocentes ou deixar de corrigir estruturas injustas. Significa reconhecer que, mesmo aquele que erra, explora ou se opõe a nós continua sendo uma pessoa humana, dotada de dignidade e, portanto, jamais pode ser reduzida simplesmente à condição de inimigo a ser eliminado.
Por isso, enquanto determinadas interpretações revolucionárias do marxismo colocam o conflito entre classes no centro do processo de transformação histórica, o cristianismo coloca no centro a transformação do ser humano e, a partir dela, a transformação da sociedade. O cristão combate o pecado, a injustiça e as estruturas perversas, mas procura fazê-lo pela verdade, pela justiça, pela caridade e pelo respeito à dignidade humana.
Em síntese: não é suficiente querer uma sociedade justa; é preciso buscá-la de maneira justa. Para o cristianismo, não são os fins que justificam os meios; são fins verdadeiramente bons que exigem também meios moralmente bons e compatíveis com a dignidade humana. É justamente aí que aparece uma das diferenças mais profundas entre a ética cristã e a lógica revolucionária baseada na luta de classes.
O CRISTIANISMO NÃO PROPÕE UMA REVOLUÇÃO CONTRA UMA CLASSE, MAS UMA CONVERSÃO DO HOMEM
Essa distinção é essencial.Se o problema fundamental fosse simplesmente uma determinada classe social, bastaria eliminar ou substituir essa classe para solucionar o problema. Mas a experiência histórica demonstra que novas elites podem surgir, novos grupos podem assumir o poder e novas formas de opressão podem aparecer.
O cristianismo possui uma explicação mais profunda: o problema acompanha o homem porque o pecado acompanha o homem.Por isso, Cristo não veio simplesmente substituir uma classe dominante por outra. Ele veio redimir o ser humano.
O cristianismo não diz ao rico: “Você é mau simplesmente porque é rico”. Tampouco diz ao pobre: “Você é virtuoso simplesmente porque é pobre”. O Evangelho julga cada pessoa pela sua relação com Deus, com a verdade e com o próximo.
A riqueza pode ser utilizada para o bem ou transformada em instrumento de exploração. A pobreza pode ser uma situação injustamente imposta, mas também não transforma automaticamente ninguém em modelo de virtude. A dignidade humana não depende da classe econômica.
FINS: PARA ONDE CADA UM QUER LEVAR O HOMEM?
É justamente nos fins que a diferença se torna ainda mais evidente!
O marxismo busca uma transformação radical da sociedade histórica, visando superar as relações de exploração e construir uma sociedade sem classes. Seu horizonte fundamental permanece ligado à transformação da existência humana dentro da história e das condições materiais.
O cristianismo, entretanto, não coloca sua esperança última em nenhum sistema político, econômico ou social. Seu fim último é Deus.
O homem foi criado para Deus e sua realização plena não consiste simplesmente em viver em uma sociedade economicamente igualitária. O cristianismo busca a salvação, a santificação e a vida eterna, sem deixar de trabalhar pela justiça e pelo bem comum já nesta vida.
Portanto, enquanto uma ideologia política pode prometer uma espécie de redenção histórica através da transformação da sociedade, o cristianismo anuncia a redenção do homem em Cristo.
É por isso que o cristão pode e deve lutar contra a pobreza, defender o trabalhador, denunciar a exploração, combater a corrupção e exigir justiça, mas sem transformar a política em religião ou um sistema econômico em salvador da humanidade.
DUAS VISÕES DIFERENTES DE LIBERTAÇÃO
Até mesmo a palavra “libertação” possui significados diferentes!
-Para determinadas correntes marxistas, a libertação está relacionada à superação das estruturas econômicas e sociais consideradas responsáveis pela exploração e pela alienação.
-Para o cristianismo, existe uma libertação ainda mais profunda: a libertação do pecado e da escravidão espiritual.
Jesus não veio apenas libertar o homem de uma estrutura econômica. Veio libertá-lo daquilo que o separa de Deus.
Por isso Cristo afirma: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
A libertação cristã não consiste simplesmente em trocar de posição dentro de uma estrutura social. É uma transformação interior que deve produzir também consequências concretas na vida social.
DUAS VISÕES DIFERENTES DE IGUALDADE
Também aqui existe uma diferença importante.O cristianismo afirma a igual dignidade de todos os seres humanos diante de Deus. Rico e pobre, patrão e empregado, governante e governado possuem a mesma dignidade fundamental porque todos são criaturas de Deus.
Isso não significa que todos tenham exatamente as mesmas funções, capacidades, responsabilidades ou condições materiais.
O marxismo, por sua vez, coloca a igualdade econômica e a superação das classes no centro de seu projeto social. O cristianismo não reduz a justiça à igualdade econômica. Para a fé cristã, justiça significa também dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido, respeitar sua dignidade, promover o bem comum e proteger especialmente os mais vulneráveis.
9. O FIM CRISTÃO NÃO É UMA SOCIEDADE PERFEITA, MAS UM HOMEM REDIMIDO E UMA SOCIEDADE ORDENADA AO BEM
Aqui está talvez a diferença mais importante.O cristianismo sabe que nenhuma estrutura terrestre eliminará completamente o pecado. Por isso, não promete um paraíso político na Terra.
O cristão trabalha pela construção de uma sociedade mais justa, mas sabe que o Reino de Deus não se confunde com nenhum regime político, sistema econômico ou projeto ideológico.
A transformação social é necessária, mas não é a prioridade Cristã, e sim, a salvação!
Uma sociedade pode mudar suas instituições e continuar corrompida. Pode mudar seu sistema econômico e continuar produzindo violência. Pode redistribuir riquezas e continuar produzindo egoísmo, mentira, inveja e abuso de poder.Porque o problema não está apenas nas estruturas; está também no coração humano.
EM SÍNTESE, Podemos resumir a diferença da seguinte maneira:
MARXISMO — PRINCÍPIO: materialismo histórico, relações materiais, estruturas econômicas e luta de classes.
CRISTIANISMO — PRINCÍPIO: Deus, criação, dignidade da pessoa humana, lei moral, pecado, graça e redenção.
MARXISMO — MEIO: transformação estrutural, conflito e luta de classes, revolução em suas correntes revolucionárias.
CRISTIANISMO — MEIO: conversão, verdade, justiça, caridade, solidariedade, responsabilidade, bem comum e transformação das estruturas injustas sem reduzir o homem à sua classe.
MARXISMO — FIM: superação das classes e construção de uma sociedade organizada segundo seu projeto histórico-material.
CRISTIANISMO — FIM: santificação e salvação do homem em Cristo, vida eterna e ordenação da sociedade ao bem comum e à dignidade humana.
Portanto, marxismo e cristianismo podem até se encontrar na denúncia de determinadas injustiças, mas não podem ser confundidos quanto aos seus fundamentos. Um cristão pode concordar que existe exploração sem tornar-se marxista; pode defender os pobres sem defender a luta de classes; pode defender o trabalhador sem abraçar o materialismo; pode lutar por justiça social sem transformar o Evangelho em ideologia política.
A Igreja não precisa do marxismo para defender os pobres, porque a preocupação com os pobres, com a justiça e com a dignidade humana é muito anterior ao marxismo e possui fundamento próprio na Revelação cristã.
O cristianismo não quer simplesmente mudar quem ocupa o lugar do poder. Quer mudar o coração de quem exerce o poder, de quem sofre o poder e de toda pessoa chamada a viver segundo a verdade, a justiça e a caridade.
É justamente por isso que a resposta cristã à injustiça não pode terminar na revolução das estruturas. Ela precisa chegar à conversão do homem. Porque estruturas são construídas por pessoas; e pessoas marcadas pelo pecado podem transformar até mesmo estruturas criadas com boas intenções em instrumentos de novas injustiças.
No cristianismo, portanto, a verdadeira libertação não é simplesmente libertação de alguém, mas libertação do pecado, para a verdade, para o bem, para o amor e, finalmente, para Deus.
10. A LUTA DE CLASSES NÃO PODE SUBSTITUIR A FRATERNIDADE CRISTÃ
Uma interpretação marxista da sociedade tende a enxergar a história a partir do antagonismo entre classes.
O cristianismo, ao contrário, apresenta uma visão universal da fraternidade humana.Isso não significa negar a existência de injustiças concretas ou fingir que conflitos sociais não existem.
Significa que a solução cristã não pode consistir simplesmente em substituir um grupo dominante por outro.
Se uma revolução troca os antigos opressores pelos novos opressores, a injustiça simplesmente muda de mãos.
O Evangelho oferece uma solução muito mais profunda: a conversão do coração, a justiça, a caridade, o perdão, a responsabilidade e a construção do bem comum.
-O cristão não precisa odiar o rico para amar o pobre.
-Não precisa demonizar o empresário para defender o trabalhador.
-Não precisa destruir a propriedade privada para combater a pobreza.
-Não precisa transformar a sociedade em uma permanente guerra de classes para defender a justiça.
11. JUSTIÇA SOCIAL NÃO É SINÔNIMO DE SOCIALISMO
Esse ponto precisa ser repetido porque frequentemente existe uma confusão deliberada ou involuntária.
-Justiça social não é socialismo.
-Defender o trabalhador não é marxismo.
-Combater a pobreza não é marxismo.
-Defender políticas públicas voltadas aos vulneráveis não é automaticamente marxismo.
-Criticar a exploração econômica não é marxismo.
A Igreja sempre teve preocupação social. O problema aparece quando conceitos cristãos são preenchidos com conteúdos ideológicos estranhos à fé. Quando “justiça” passa a significar simplesmente nivelamento econômico.
Quando “pobre” passa a ser automaticamente sinônimo de “bom”, só porque é pobre materialmente. Nem todo rico vai para o inferno e nem todo pobre vai automaticamente para o céu por ser pobre.
Quando todo “rico” passa a ser automaticamente sinônimo de “mau”.
Quando toda desigualdade natural é interpretada como injustiça.
Quando a luta de classes substitui a caridade.
Quando a política substitui a conversão.
Nesse momento, já não estamos simplesmente diante da Doutrina Social da Igreja, mas diante de uma ideologização da fé.
12. O CRISTIANISMO NÃO PROMETE O PARAÍSO NA TERRA
Outro ponto fundamental é a esperança cristã.
O cristianismo não promete construir um paraíso terrestre através de determinado sistema político.O Reino de Deus não pode ser reduzido a um Estado, a um partido, a um modelo econômico ou a uma revolução.
Toda tentativa de construir o paraíso exclusivamente através da política acaba enfrentando uma realidade que nenhuma ideologia consegue eliminar:o pecado humano.
Trocar o sistema não transforma automaticamente o coração.
É possível criar uma nova estrutura social e conservar os mesmos vícios humanos: corrupção, autoritarismo, egoísmo, violência, mentira e busca pelo poder.
Por isso, o cristianismo não despreza a transformação das estruturas, mas sabe que estruturas são construídas por pessoas.
E pessoas precisam de conversão.
13. O PERIGO DE TRANSFORMAR A IGREJA EM PALANQUE IDEOLÓGICO
A Igreja possui todo o direito e até o dever de denunciar injustiças.Mas existe uma diferença entre aplicar o Evangelho à realidade política e transformar o Evangelho em instrumento de uma ideologia política.
Quando a homilia se transforma em comício, a pastoral em militância partidária e a catequese em doutrinação ideológica, a centralidade de Cristo começa a desaparecer.
A Igreja não pode pertencer à esquerda, à direita, ao centro ou a qualquer partido.Ela pertence a Cristo.
Isso não significa que os católicos não possam participar da política. Podem e devem, quando chamados, fazê-lo de acordo com sua consciência e com a doutrina cristã.
Mas nenhum partido político pode reivindicar para si o monopólio do Evangelho.
14. O CRISTÃO NÃO DEVE SER REFÉM NEM DO CONSERVADORISMO NEM DO PROGRESSISMO
Essa conclusão também é necessária para evitar outro erro.Combater o progressismo ideológico não significa transformar o cristianismo em simples conservadorismo político.O cristão não é chamado a idolatrar uma ideologia de direita.A Igreja também pode denunciar injustiças cometidas por governos conservadores, defender os pobres diante de políticas injustas, criticar abusos econômicos, condenar corrupção e exigir responsabilidade social.
O critério cristão não é: “Isso é de esquerda ou de direita?” O critério é: “Isso é compatível com a verdade, a dignidade humana, a justiça e o Evangelho?”
O cristianismo transcende as ideologias.Por isso, o católico deve possuir discernimento suficiente para reconhecer a verdade onde ela estiver e rejeitar o erro, venha ele da direita ou da esquerda.
15. A IGREJA NÃO PRECISA DE UM EVANGELHO NOVO
O grande desafio da Igreja no mundo contemporâneo não é inventar um novo cristianismo suficientemente adaptado às modas culturais.
É anunciar novamente o Evangelho eterno em uma linguagem que o homem contemporâneo possa compreender.
-A Igreja precisa dialogar com o mundo, mas diálogo não significa submissão.
-Precisa escutar, mas não significa abandonar a verdade.
-Precisa acolher, mas não significa aprovar tudo.
-Precisa acompanhar as pessoas, mas acompanhá-las significa também ajudá-las a caminhar em direção a Cristo.
A Igreja não precisa de um Evangelho progressista.Também não precisa de um Evangelho reacionário. Precisa do Evangelho de Jesus Cristo.
CONCLUSÃO: A IGREJA DEVE PROGREDIR SEM ABANDONAR A VERDADE
O verdadeiro cristianismo não tem medo do progresso.A Igreja não precisa voltar ao passado para ser fiel a Cristo, assim como não precisa correr atrás de cada novidade cultural para parecer moderna.
Ela precisa permanecer fiel àquilo que recebeu de Cristo e dos Apóstolos, discernindo, à luz da fé, aquilo que pode e aquilo que não pode ser acolhido pelas mudanças históricas.
O cristão deve desejar uma sociedade melhor. Deve combater a pobreza, defender a dignidade humana, proteger os vulneráveis, denunciar injustiças, promover a paz e trabalhar pelo bem comum.
Mas deve fazer tudo isso sem transformar o Evangelho em ideologia.
A Igreja não pode trocar a conversão pela revolução.
Não pode trocar a santidade pela militância.
Não pode trocar a caridade pela luta de classes.
Não pode trocar a misericórdia pela aprovação do pecado.
Não pode trocar a verdade pela conveniência cultural.
E não pode apresentar como Doutrina Social da Igreja aquilo que, na realidade, é uma interpretação política contaminada por categorias ideológicas estranhas à fé cristã.
O cristianismo não é inimigo dos pobres, dos trabalhadores ou da justiça social. Muito pelo contrário: a dignidade de cada pessoa humana está no centro da mensagem cristã. Mas justamente porque a Igreja leva o ser humano a sério, ela não pode reduzir o homem à sua classe social, à sua condição econômica, à sua sexualidade, à sua identidade política ou a qualquer outra categoria ideológica.
O homem é mais do que aquilo que possui, mais do que aquilo que produz e mais do que aquilo que a sociedade diz que ele é. Ele é criatura de Deus, dotada de dignidade e chamada à santidade.
Por isso, a verdadeira libertação cristã não consiste simplesmente em libertar o homem de estruturas econômicas, sociais ou culturais. Ela precisa alcançar a raiz mais profunda de sua escravidão: o pecado.
Cristo não veio apenas tornar o mundo exterior mais confortável. Veio salvar o homem inteiro.
E aqui está o ponto que nenhuma ideologia pode substituir:o mundo não será verdadeiramente transformado enquanto o coração humano não for transformado.
Podemos mudar governos, sistemas econômicos, leis, costumes e instituições. Tudo isso pode ser necessário e legítimo. Mas, se o coração permanecer dominado pelo egoísmo, pela ganância, pelo orgulho, pela violência e pela mentira, simplesmente construiremos novas estruturas para reproduzir os velhos pecados.
Por isso, o cristão não deve perguntar apenas: “Que sociedade queremos construir?” Deve perguntar primeiro:“Que tipo de homem estamos formando?”
Porque uma sociedade verdadeiramente humana não nasce apenas de boas estruturas. Nasce também de pessoas capazes de verdade, justiça, responsabilidade, solidariedade, perdão e amor.
O cristianismo, portanto, não precisa escolher entre passado e futuro. Precisa escolher entre verdade e erro.
Nem tudo que é antigo é verdadeiro.
Mas também nem tudo que é novo é melhor.
O cristão pode caminhar para o futuro sem abandonar suas raízes. Pode acolher o verdadeiro progresso sem transformar a mudança em religião. Pode defender a justiça social sem abraçar o marxismo. Pode amar o pobre sem odiar o rico. Pode defender a liberdade sem transformar o pecado em virtude. Pode acolher o pecador sem chamar o pecado de bem.
E pode, acima de tudo, dialogar com o mundo sem deixar que o mundo determine aquilo que a Igreja deve acreditar.
Porque a Igreja não existe para acompanhar todas as mudanças do mundo; existe para anunciar ao mundo aquilo que não muda: Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8).
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em
Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo
Nº 003/17
BIBLIOGRAFIA
-MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. São Paulo: Boitempo, 2007. (Obra fundamental para compreender a concepção materialista da história, a relação entre condições materiais, consciência e transformação social. É uma fonte primária indispensável para analisar o marxismo.)
-GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. (Fundamental para estudar o conceito de hegemonia cultural, o papel dos intelectuais, da educação e da cultura na transformação da sociedade.)
-MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982. (Representa uma vertente importante da Escola de Frankfurt e da chamada Nova Esquerda, articulando crítica social, cultura, liberdade e repressão.)
-FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 71. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019. (Apresenta a proposta pedagógica de conscientização e emancipação dos oprimidos, sendo uma referência fundamental para compreender a dimensão político-social da pedagogia freireana.)
-GUTIÉRREZ, Gustavo. Teología de la liberación: perspectivas. Salamanca: Sígueme, 1972. (Uma das obras fundadoras da Teologia da Libertação; permite compreender diretamente sua interpretação da fé cristã, da pobreza e da libertação.)
-BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder: ensaios de eclesiologia militante. Petrópolis: Vozes, 1981. (Obra importante para compreender a eclesiologia de Leonardo Boff e determinadas propostas de transformação das estruturas eclesiais; a obra foi objeto de exame doutrinal pela Congregação para a Doutrina da Fé.)
-BOFF, Clodovis M. Teologia da libertação e volta ao fundamento. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, v. 67, n. 268, p. 1001-1022, 2007. (Particularmente importante para o seu tema porque o próprio Clodovis Boff faz uma revisão crítica dos fundamentos metodológicos da Teologia da Libertação e insiste na centralidade de Cristo.)
-ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980. (Análise crítica das ideologias políticas e, especialmente, da relação entre intelectuais, marxismo e compromisso ideológico; ajuda a introduzir uma perspectiva sociológica não confessional.)
-DE LUBAC, Henri. O drama do humanismo ateu. São Paulo: Loyola, 2001. (Analisa as raízes filosóficas do ateísmo moderno, passando por Feuerbach, Marx, Nietzsche e Comte, e apresenta uma resposta antropológica cristã.)
-MARITAIN, Jacques. O homem e o Estado. Rio de Janeiro: Agir, 1952. (Oferece uma perspectiva de filosofia política cristã, abordando pessoa humana, democracia, Estado, direitos e bem comum sem reduzir a sociedade à luta de classes.)
-LEÃO XIII. Rerum novarum: sobre a condição dos operários. Vaticano, 1891. (Documento fundamental da Doutrina Social da Igreja. Trata da questão operária, pobreza, trabalho, propriedade privada e justiça social, mostrando que a preocupação cristã com os trabalhadores é anterior ao marxismo.)
-PAULO VI. Populorum progressio: sobre o desenvolvimento dos povos. Vaticano, 1967. (Essencial para diferenciar desenvolvimento humano integral de simples crescimento econômico ou tecnológico. É especialmente importante para a primeira parte do seu texto, sobre o verdadeiro significado de “progresso”.)
-JOÃO PAULO II. Veritatis splendor: sobre algumas questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja. Vaticano, 1993. (Fundamental para a discussão sobre liberdade, verdade, consciência e relativismo moral. A encíclica rejeita a ideia de que a liberdade humana possa transformar-se em critério absoluto para determinar o bem e o mal.)
-BENTO XVI. Caritas in veritate: sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Vaticano, 2009. (Uma das fontes mais importantes para a ideia de que verdadeiro progresso não pode ser reduzido ao desenvolvimento técnico ou econômico, mas deve considerar a pessoa humana integralmente.)
-CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação” – Libertatis nuntius. Vaticano, 1984. (Fonte primária indispensável para apresentar a posição oficial da Igreja sobre determinadas correntes da Teologia da Libertação e sobre a utilização acrítica de categorias provenientes do marxismo.)
-CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação – Libertatis conscientia. Vaticano, 1986. (Complementa a instrução anterior apresentando positivamente a liberdade cristã, a dignidade humana e a libertação integral, distinguindo a libertação cristã de reduções meramente políticas ou econômicas.)
-PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004.(Talvez a fonte mais abrangente para a parte social do seu estudo: dignidade humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade, trabalho, propriedade, família e participação social.)
OBSERVAÇÕES SOBRE A BIBLIOGRAFIA
1. Fontes primárias do pensamento marxista e progressista: Marx e Engels, Gramsci, Marcuse, Freire e Gutiérrez.
2. Autores de análise e crítica: Raymond Aron, Henri de Lubac, Jacques Maritain e Clodovis Boff.
3. Magistério social e moral: Leão XIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.
4. Documentos diretamente relacionados ao problema da ideologia e da Teologia da Libertação: Libertatis nuntius, Libertatis conscientia e o Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
Essa composição é particularmente interessante porque não apresenta o marxismo ou o progressismo apenas por caricaturas: oferece algumas fontes dos próprios autores e, paralelamente, coloca diante delas a antropologia cristã, a Doutrina Social e os documentos do Magistério.
A própria Santa Sé, por exemplo, reconhece que a aspiração à libertação e à justiça pode conter elementos legítimos, mas adverte contra determinadas formas de utilização acrítica de categorias marxistas incompatíveis com a fé cristã.
É importante a distinção entre progresso legítimo e progressismo ideológico: Caritas in veritate apresenta o desenvolvimento como algo positivo, mas afirma que o verdadeiro desenvolvimento deve ser integral, abrangendo “o homem todo e todos os homens”, enquanto Veritatis splendor relaciona a verdadeira liberdade à verdade e ao bem.
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