A expressão “Teologia da Libertação” não pode ser compreendida de maneira simplista, como se toda reflexão teológica sobre a pobreza, as injustiças sociais e a libertação dos oprimidos fosse necessariamente incompatível com a fé católica.
Pelo contrário, a Igreja, fiel às Sagradas Escrituras, à Tradição Apostólica e ao seu Magistério, sempre ensinou que a promoção da justiça, a defesa da dignidade humana e a libertação de todas as formas de opressão fazem parte da missão cristã.
A questão fundamental, portanto, não é se a Igreja deve ou não se preocupar com os pobres, mas qual é a concepção de libertação que orienta essa preocupação, quais são os seus fundamentos doutrinais e quais meios são empregados para alcançar seus objetivos.
É precisamente nesse contexto que se torna indispensável compreender o pensamento de São João Paulo II sobre a Teologia da Libertação. Em sua carta aos bispos brasileiros, datada de 9 de abril de 1986, o Santo Padre reconheceu expressamente que uma reflexão teológica voltada para a libertação, a justiça social e a defesa dos direitos humanos poderia ser “oportuna”, “útil” e “necessária”.
Entretanto, essa aprovação não foi irrestrita: o Papa estabeleceu como condição indispensável que tal reflexão permanecesse em perfeita sintonia com o Evangelho, a Tradição viva, o perene Magistério da Igreja e a Doutrina Social Católica, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, até a Laborem Exercens, de João Paulo II.
O mesmo documento papal deixa claro que a libertação cristã não pode ser reduzida a um projeto meramente econômico, político ou ideológico.
Ao criticar tanto o capitalismo desenfreado quanto o coletivismo e o capitalismo de Estado, João Paulo II recorda que nenhum sistema econômico, por si só, é capaz de assegurar a libertação integral trazida por Jesus Cristo.
A pessoa humana não precisa apenas de melhores condições materiais: precisa também de libertação do pecado, da conversão do coração, da restauração de sua relação com Deus e da construção de relações sociais fundamentadas na verdade, na justiça, na caridade e na fraternidade.
É aqui que encontramos a distinção essencial: uma coisa é a teologia da libertação compreendida em continuidade com a fé católica; outra, muito diferente, é a interpretação da libertação que subordina o Evangelho a uma ideologia política e transforma categorias marxistas — como a luta de classes entendida como princípio determinante da história — em critérios de interpretação da Revelação. Quando isso acontece, corre-se o risco de reduzir a salvação a uma emancipação sociopolítica, interpretar a Igreja predominantemente segundo conflitos de classe e substituir a conversão e a caridade cristãs pela lógica do antagonismo ideológico.
Não se trata, portanto, de opor a fé à justiça social, nem de defender os privilégios dos poderosos em detrimento dos pobres. Trata-se de reconhecer que a Igreja possui uma concepção própria de libertação, cuja fonte é Jesus Cristo e cujo horizonte é a salvação integral do ser humano. Essa libertação inclui, sem dúvida, o combate à miséria, à exploração e às estruturas injustas, mas não se limita a essas dimensões, tampouco autoriza a adoção indiscriminada de métodos e pressupostos incompatíveis com a antropologia cristã.
Para esclarecer definitivamente essa questão, é necessário recorrer também às duas instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, publicadas sob a autoridade de São João Paulo II: Libertatis nuntius (1984), sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, e Libertatis conscientia (1986), sobre a liberdade cristã e a libertação. Lidas em conjunto, elas demonstram que a Igreja não rejeita a legítima aspiração à libertação dos pobres e oprimidos; ao contrário, purifica essa aspiração de reducionismos ideológicos e apresenta seus fundamentos teológicos e morais.
A pergunta que orienta este estudo, portanto, é decisiva: se São João Paulo II reconheceu uma teologia da libertação justa, necessária e fiel ao Evangelho, qual é a outra — aquela que precisa ser criticamente examinada à luz da Revelação divina e do Magistério da Igreja?
É o que procuraremos responder, distinguindo a legítima preocupação cristã com a libertação integral do ser humano das interpretações que subordinam a fé católica ao marxismo ou a qualquer outra ideologia.
Fonte principal: São João Paulo II, Carta aos bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Vaticano, 9 de abril de 1986.
UM "EX EXPOENTE DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO" VER AGORA TUDO QUE DEFENDEU COM OUTROS OLHOS:
“A meu ver, a Teologia da Libertação "prescreveu”
historicamente. Deu o que tinha que dar: conscientizar a Igreja sobre a opção
preferencial pelos pobres. Ora, isso foi fundamentalmente incorporado, sem mais
discussão, pelo discurso normal da Igreja. Assim, a corrente liberacionista
reentra, finalmente, na grande correnteza da teologia católica ou universal,
reforçando e atualizando aquilo que foi sempre uma riqueza da Igreja: o amor "preferencial" (não exclusivo) pelos sofredores de toda a sorte. A Teologia da Libertação poderia
até permanecer como um espécimen da chamada "teologia do genitivo”,
teologia necessariamente parcial, como quando se fala na "teologia da
graça”, na "teologia do casamento” ou ainda na "teologia de São
Paulo”. Essas teologias particulares são apenas tematizações de um aspecto da
fé (não contempla o todo). Foi nesse sentido, como teologia parcial, sintonizada com o todo da fé, que
a Teologia da Libertação foi declarada por João Paulo II, em Carta aos Bispos
do Brasil (09/04/1986) "oportuna, útil e necessária” (n. 5). Mas, desde quando a
Teologia da Libertação pretendeu ser uma teologia completa, ela não tem mais futuro
dentro da Igreja. Ela, de fato, vai perdendo cada vez mais sua força e espaço dentro dela.”(
Frei Clodovis M. Boff – Irmão de Leonardo Boff).
Partindo destes
princípios, existe não apenas uma, mas várias teologias da Libertação!
Uma que
é útil e necessária, que aquela propagada e defendida pelo magistério da Igreja
e que encontra fermento e ressonância em teólogos como: Gustavo
Gutierrez,Clodovis Boff, Libânio e em Dom Helder Câmara o profeta da não
violência, que propõem uma Teologia mais integral, abrangendo as questões
sociais com as existenciais e transcendentais.Porém temos que admitir que existe
uma teologia ou teologias da libertação nem tão justa e nem tão necessária,que
é aquela defendida por teólogos como: Leonardo Boff, Frei Beto,Marcelo de
Barros e Dom Pedro Casaldáglia que já chegou a afirmar que “quando o povo pega
em armas deve ser respeitado.”
É uma teologia exclusivista e excludente, de caráter meramente imanente, portanto, não integral, pois faz uma opção não
preferencial pelo pobre e as questões sociais, mas faz uma opção exclusiva e
excludente por estes, não dando espaço a outros temas, considerando-os inúteis
e desnecessários.A foto logo abaixo mostra de forma muito clara os dois principais
tipos de teologia da libertação:
Uma de caráter ideológico-revolucionário e Marxista-armamentista,
representada pelo padre Ernesto Cardenal, e a outra representada por Dom Helder
Cãmara de caráter evangélico e Cristológico.
Em 2 de março de
1983, o mundo ficou boquiaberto com uma cena insólita:
O santo Papa São João
Paulo II metendo o dedo cara de um sacerdote, e lhe dando uma bronca, diante
das câmeras de TV! Esse passa-sabão épico e histórico aconteceu na Nicarágua,
na ocasião da chegada do Papa João Paulo II a este país.Logo ao chegar no aeroporto, assim que avistou o padre Ernesto Cardenal,
o santo papa meteu o dedo na cara do padre guerrilheiro, e mandou abandonar o cargo de
Ministro da Cultura, que o padre ocupava há cera de quatro anos.
Por que São João Paulo II fez aquilo?
Porque quem estava no
poder na Nicarágua na época eram os sandinistas, membros de um movimento político
que professa o Marxismo – ideologia formalmente condenada pela Igreja
por dez papas (inclusive pelo Papa Francisco). Se presenciassem hoje aquela
atitude do santo papa Polonês, muitos católicos que teimam em defender o
Marxismo certamente diriam:“Ain, quanto ódio! Mais amor, por favor!”Claro seria como
sempre a velha indignação seletiva, pois os Sandinistas e Marxistas, matam e
torturam seus adversários.Porém, contudo, entretanto, todavia,como todo herege
impenitente, o padre Marxista Cardenal desobedeceu ao Papa, e continuou por
mais quatro anos como funcionário do governo sandinista.
A Santa Sé, então, mui sábia e prudentemente, suspendeu o
padre Cardenal “ad divinis” em 1985, pois seu cargo político era incompatível
com a missão sacerdotal. Desde então, ele foi proibido de atuar como
sacerdote (graças a Deus!).
(foto reprodução)
Já o nosso querido Dom Hélder Pessoa Câmara (1909-1999), bispo auxiliar do Rio de Janeiro, profeta da não violência, que foi
transferido para o nordeste do país e se tornou arcebispo metropolitano de
Olinda-Recife. Este ítalo-brasileiro também, é lembrado como um dos grandes
defensores da chamada “Teologia da Libertação”.
É fato que esta teologia de
caráter revolucionário e reformista, engloba várias correntes de pensamento que
interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma “libertação”, ou
condições mais justas, sejam elas econômicas, políticas ou sociais.
Vamos
deixar aqui nas próprias palavras de Dom Helder (já na fase final de sua vida), o que ele pensava sobre a
teologia da libertação partindo de sua própria perspectiva:
“Ninguém suporta a desigualdade e
a falta de honestidade por muito tempo. Os
cristãos não querem ódio em seus corações. Eles sabem que o ódio é o contrário
do amor. Deus é a representação máxima do amor, e o ódio, bem como a ganância,
podem ser consideradas o anti-Deus, o oposto de tudo que é bom. As pessoas
religiosas de bom coração sabem que violência atrai violência. E sabem que é
loucura apelar para as armas. Pessoas que acreditam em Deus e no
amor possuem armas diferentes. Elas creem na justiça. No direito de cada um,
não para pisar em outros, mas para não deixar que ninguém venha a pisar nos
direitos do povo. ‘Presentes’ estes que não são nem do governo, nem dos ricos.
São presentes do Criador e do Pai, que em seu amor sempre desejou uma sociedade
bem mais justa. ”
Dom Hélder Câmara poderá virar santo!
Por Zenit - Agência de Notícia Católica
O site Zenit divulgou
no dia 06/06/2014, uma entrevista com dom Antônio Fernando Saburido
(OSB), arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, na qual conversam
sobre o processo de beatificação e a vida de dom Hélder.Confira: No fim de maio de
2014, a arquidiocese de Olinda e Recife enviou à Congregação para Causa dos
Santos, no Vaticano, o pedido de abertura para o processo de beatificação de dom Hélder
Câmara. O anúncio foi feito por dom Antônio Fernando Saburino (OSB), arcebispo
metropolitano da Igreja local, onde viveu e faleceu dom Hélder. Na
ocasião, dom Antônio apresentou a carta enviada ao Vaticano com o pedido de
beatificação e canonização. O parecer dos bispos do Regional
Nordeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil foi positivo e unânime.
Uma vez aberto o processo, frei Jociel Gomes se torna vice-postulador da causa.
Um pouco da história de dom Hélder (o profeta da não violência ativa)
(foto reprodução)
-Conhecido como “Dom
da Paz”, Hélder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza,
Ceará. Mas, foi no Rio de Janeiro e em Pernambuco que ganhou destaque com o
exercício frutuoso do ministério episcopal voltado para os pobres.
-Aos
27 anos, já como sacerdote, foi para a arquidiocese de São Sebastião do Rio de
Janeiro, onde, em 1952, se tornou bispo auxiliar. Lá, fundou a Cruzada São
Sebastião, em prol das famílias carentes que sonhavam com uma moradia digna, e
o Banco Providência, voltado para a redução da desigualdade social e
desenvolvimento humano nas comunidades mais pobres.
-Ainda no Rio,
articulou a realização do 36º Congresso Eucarístico Internacional, em 1955.Em 1964 recebeu a missão de dirigir a arquidiocese de Olinda e Recife
como arcebispo metropolitano. Neste ínterim, criou a Comissão de Justiça e Paz,
que defendeu presos políticos e perseguidos da ditadura militar, assim como
protegeu os excluídos sociais.
-Dom Hélder também
ajudou na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na qual exerceu
o cargo de secretário geral, e o Conselho Episcopal Latino Americano (Celam),
do qual foi vice-presidente.
-Incansável, o Dom da
Paz lutou contra a fome e a miséria no Brasil. Em 1990 lançou a
campanha Ano 2000 sem Miséria. Com uma
vida toda dedicada aos pobres, dom Hélder chegou a ser indicado quatro vezes ao
Prêmio Nobel da Paz.
Acompanhe a entrevista de dom Antônio Fernando ao Zenit:
(foto reprodução)
-ZENIT: Como e quando surgiu a iniciativa de dar entrada
no processo de canonização de dom Hélder? Já existem relatos de milagres?
Desde minha chegada a Recife em 2009, como arcebispo, as pessoas me pedem
para iniciar o processo visando a canonização de dom Hélder Pessoa Câmara. Por enquanto, não
tenho conhecimento de milagres alcançados através da intercessão de dom Hélder.
Isso somente será exigido bem mais adiante. Uma vez iniciado o processo,
acredito que as pessoas vão começar a nos procurar para relatar fatos dessa
natureza.
-ZENIT: Quando haverá resposta do Vaticano sobre o início
de processo de beatificação?
Não existe tempo determinado para
a resposta da Congregação para a Causa dos Santos, a quem cabe autorizar o
início do processo.
(foto reprodução)
-ZENIT: O senhor conheceu dom Hélder? Como era o
relacionamento dele com o povo?
Conheci sim, porém, como monge
beneditino vivia no Mosteiro de São Bento de Olinda e não tinha muito contato
com dom Hélder. Foi
ele, porém, quem me ordenou presbítero. Sempre nutri grande
admiração por sua pessoa, sobretudo, quando tive oportunidade de ler suas
cartas circulares, escritas durante o Concílio Ecumênico Vaticano II –
redigidas durante as vigílias diárias que costumava fazer no silêncio da madrugada
para rezar e escrever. O “Dom”, como o chamavam, era franzino e baixinho, porém
um gigante quando fazia uso da palavra e tomava determinadas atitudes. Contraditoriamente, era um contemplativo,
uma inteligência além da média, e de uma sensibilidade surpreendente para com
as pessoas mais pobres e excluídas.
-ZENIT: O que significou para dom Hélder o encontro com o
Papa, em Recife, em 1980?
Eu estava presente no meio da
multidão quando o Papa João Paulo II o
abraçou carinhosamente e na homilia o saudou dizendo:
“Irmão dos pobres e meu irmão”. Acredito
que aquele abraço e saudação marcou muito sua pessoa.
-ZENIT: Qual era a intenção de dom Hélder com a criação da
CNBB e do CELAM?
Certamente, a intenção de Dom
Hélder ao criar a CNBB e CELAM foi promover
o diálogo e a cooperação mútua entre os bispos do Brasil e de toda a América
Latina. Essas importantes instituições vêm crescendo e se consolidando a
cada dia.
-ZENIT: Em 1970, Dom Hélder denunciou a prática da tortura
a presos políticos no Brasil. No período da ditadura militar, quais foram as
principais ações de dom Hélder?
Dom Hélder foi vítima da ditadura
militar no Brasil, sobretudo pelo apoio que sempre deu aos presos e perseguidos
políticos. Pagou alto preço com a impossibilidade de falar através dos meios de
comunicação social em todo o país e, sobretudo, com o brutal assassinato do
jovem padre Antônio Henrique Pereira, seu assessor para a Pastoral da
Juventude, falecido após três anos de ministério sacerdotal.
-ZENIT: Qual era a concepção de dom Hélder a respeito da
Teologia da Libertação?
Dom Hélder entendia que a prática do Evangelho liberta de todas as
amarras. N’Ele (no Evangelho), encontrava forças para enfrentar os desafios seguindo a linha da
“opção preferencial, não exclusiva e nem excludente”, pelos
pobres”.
-ZENIT: Como é para o senhor, dom Antônio Fernando, estar
à frente de uma arquidiocese que foi dirigida por um santo em potencial?
Para mim é grande honra e
responsabilidade estar à frente desta querida arquidiocese de Olinda e Recife com uma história tão bonita e por onde
passaram grandes bispos, como Dom Frei Vital Maria
Gonçalves de Oliveira (1871 – 1878) – cujo processo de canonização já se
encontra na fase romana -, Dom Hélder Pessoa Câmara (1964 – 1985) e
tantos outros que aqui deixaram seu legado. Peço que rezem por mim para que seja sempre um bom pastor, tendo por
modelo o Pastor dos pastores: Jesus.
Verdades, erros, e perigos nas "Teologias" da Libertação!
Por Cardeal Agnelo Rossi: 19-03-1985
Introdução
A
pavorosa miséria de irmãos nossos na América Latina, suscitou o nascimento
(1960-1970) e o desenvolvimento da Teologia da Libertação, entre nós, uma
espécie de “teologia política”, recebida com muito entusiasmo, paixão e até
fanatismo por pessoas de boa vontade que julgam ter descoberto a verdadeira
face do cristianismo, com o caminho da verdadeira redenção da humanidade.Se a causa é justa, necessária e urgente, a
estrada escolhida por muitos liberacionistas é perigosa e errada e até pode ser
fatal para a fé cristã e a humanidade: é o teor do recente documento da Sagrada
Congregação da Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação ( 06/08/1984 ) .Na
verdade, a paixão é frequentemente má conselheira. Não Bastante a reta intenção
e a boa vontade empregadas na difusão e implantação da Teologia da Libertação
radical e de verdades que contem e propugna, peca gravemente por um
unilateralismo radical, tomando apenas uma dimensão do problema humano – o
social e político – como a teologia do homem e da religião, o que não só se
opõe à realidade e à verdade e, consequentemente à justiça, mas prejudica a
solução do mesmo objetivo desejado, de conseguir a plena libertação dos pobres
e da pobreza e pagando o alto preço de uma distorção fatal da fé cristã.

Para esclarecer quanto dissemos,
basta consultar a história, mestra da vida:
Ela
registra numerosas religiões, denominações e seitas que fixando-se numa
dimensão ou aspecto verdadeiro mas não único, da realidade ou, então,
fixando-se numa aparente verdade, forjada na ambiguidade, obtiveram, graças a
um proselitismo bem organizado, porém, em campo de deficiente formação
teológica, a adesão e o apoio de muitos, inclusive de bons católicos que,
honestamente, depois, confessam não mais pertencer à Igreja Católica, porque
renegaram a sua doutrina e autoridade, como pode suceder com alguns que
sofreram a lavagem cerebral liberacionista.
Mas tomemos os fatos da história:
Mesmo
antes do cristianismo, o judaísmo professava verdades, como o puro monoteísmo
(um só Deus), o livro sagrado (a Bíblia do Antigo Testamento), a esperança do
Messias e da salvação. Mas apegou-se de tal forma ao Antigo Testamento e ao
pacto de Deus com o povo de Israel, que não reconheceu Cristo como o Messias e
o Novo Testamento, a ser pregado a todos os povos, como Aperfeiçoamento do
Antigo Testamento. Nós católicos aceitamos o Antigo Testamento e a escolha do
povo de Israel, como fatos verdadeiros, mas não únicos, porque foram uma
preparação para a completa e mais perfeita revelação do Filho de Deus, feito
homem.É
verdade, repetimos, que o Antigo Testamento é um livro sagrado, mas não é
verdade que seja o único livro sagrado. É verdade que Israel foi o povo de Deus
mas, depois de Cristo, Salvador da humanidade, não é mais o único povo de Deus.É
preciso portanto, não converter em verdade absoluta, aquilo que só o é
parcialmente, porque nenhuma realidade puramente humana realiza o absoluto, que
é Deus.Exemplifiquemos. Se digo: “Antônio é um bom
estudante” afirmo algo que pode ser verdadeiro. Quando, porém, avanço e digo:
“Só Antônio é um bom estudante” faço uma restrição e excluo outros, o que pode
ser falso.No caso: a opção pelos pobres e mesmo a opção preferencial pelos
pobres é uma afirmação verdadeira. Só a opção pelos pobres já é uma restrição
ou exclusão.

Prossigamos na história:
1)- Os
ortodoxos conservam doutrinas genuinamente cristãs mas as cristalizam de tal
forma nos seus ritos e tradições que reduzem a Igreja às dimensões nacionais
(restrição da catolicidade) e, consequentemente, assumem também uma coloração
política.
2)- As
ideias da “fé” em Lutero, de “predestinação” para Calvino, tomadas em sentido diverso
daquele da Bíblia, graças ao livre exame (releitura da Bíblia e restrição de
conceito), fizeram nascer as denominações protestantes pulverizadas dos
luteranos e calvinistas, com seus diversos matizes, introduzidos pelos seus
sucessores, contraditórias entre si.O mesmo se diga das seitas. Tomam uma base
bíblica, como “o batismo dos adultos” para os batistas, o “sábado” para os
adventistas do sétimo dia, “o juízo final” para os testemunhas de Jeová e sobre
essa base única constróem depois, até com uma regular lógica, os seus sistemas
e crenças.Mas todos eles não se julgam católicos. Ao contrário, se dizem
anti-papistas, anti-católicos.
3)- Não
sucede o mesmo, porém, com os Teólogos da Libertação, mesmo daqueles que
empregam os mesmos métodos de subversão das verdades reveladas. Primam em ser católicos,
dos mais genuínos, e querem continuar a ser considerados católicos, filhos da
verdadeira Igreja de Cristo.
Faz-se mister distinguir Como os
cogumelos: uns são bons e outros venenosos:
Quando
defendem a libertação integral, colocando a raiz de todo o mal no pecado e
exigem a conversão do coração para a edificação da sociedade justa, empregando
o legítimo pluralismo teológico e baseando e na opção PREFERENCIAL pelos
pobres, mantém-se totalmente no campo católico. Pena quando, por razão de moda,
empregam ambíguas, que seria melhor evitar.São
perigosos os que, mesmo propugnando uma justa libertação sócio-política da
miséria e uma mais honrada pobreza, jogam toda a culpa do mal em algumas
estruturas sociais e políticas e descarregam suas iras sobre o pecado social
dos outros. Recorrem a estratagemas e práticas ambíguas para justificar
biblicamente sua tese que, na prática, para ser mais eficaz, descamba na
análise marxista, que envenena toda a pretensa libertação.
Para tanto, a Teologia da
Libertação faz mais sociologia e política do que teologia:
A
semelhança dos marxistas, erigem a economia como a norma suprema da humanidade
e, assim, sacrificam na área da economia a teologia, que se despoja as sua
veste espiritual para vestir o macacão proletário. Deve lutar, então, contra o
capitalismo e deixando as armas da fé, assume aquelas do marxismo, que lhe quer
tomar o lugar para erigir, em última análise, o capitalismo de Estado, ou
melhor, da classe dominante, camuflada nas famosas e ilusórias “democracias populares
” .Nosso
grande jurista Sobral Pinto, que estudou, com seriedade, por mais de 50 anos, o
marxismo, sentiu-se obrigado, em consciência, de levantar seu brado de fiel
católico, impelido pelo canon 212 § 3 do Código de Direito Canônico (que vale,
com maior razão para mim), para advertir que a Teologia da Libertação, que
vigora entre nós, pretende desastrosamente enxertar o materialismo marxista na
teologia espiritualista.Pareceu-me,
entretanto, útil para ajudar a discernir melhor a Teologia da Libertação
redigir, em forma simples, concisa e popular, as verdades, os erros e os
perigos da Teologia da Libertação, como a análise marxista, de que faia o já
citado documento da Santa Sé.Advertimos que não se pode deixar de reconhecer o
vivo e sincero desejo de muitos liberacionistas de resolver o problema da
miséria na América Latina, de uma forma atual e eficiente, quanto dizem, de
acordo com o Concílio e a Conferência de Puebla. Mas não bastam a boa vontade e
a reta intenção, principalmente quando aliadas à ingenuidade, para enfrentar e
resolver todos os aspectos de uma realidade complexa.Por isso
mesmo o Concílio Vaticano II requer a interpretação dos “sinais dos tempos”, à
luz do Evangelho. Porque o Evangelho é a revelação de Deus trazida à terra por
Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem e transmitida à sua Igreja.Os problemas
do homem, a sua dignidade, o seu destino, estão nas mãos de Deus, que criou o
homem livre, para, da liberdade, fazer bom o meritório uso.
Veremos como para a Teologia da
Libertação, em geral, não bastam a revelação de Deus e a experiência milenar da
Igreja:
Em
virtude de um “aggiornamento” (atualização) mal compreendido, porque exagerado
e exclusivo, quer inovar, trilhar novos caminhos, encontrar novas fontes de
verdade, pois, em última análise, a experiência da Igreja, segundo os Teólogos
da Libertação, teria fracassado na América Latina, por não ter resolvido o
problema da miséria. É necessário, portanto, barganhar o Evangelho, ou melhor,
seus métodos ou espírito, a luz do Palavra de Deus pelas ciências humanas.Parece
até que exageramos e pintamos um monstro para o combater mais facilmente. Oxalá
estivéssemos sonhando e para melhor despertar à realidade, nesta exposição
sumário, que não abrange nem aprofunda todos os aspectos da questão, vamos
tratar dos seguintes pontos:
I – supostas VERDADES DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
1.
Análise realista da situação de miséria da América Latina e, concretamente, no Brasil.
2. A
necessidade de uma teologia atualizada e correspondente à índole cultura e local do
povo.
3. Alguns
bons frutos da Teologia da Libertação nas CEB's: espírito de fraternidade e partilha de bens materiais e espirituais.
4. A
instrução serena e verdadeira da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé sobre "Alguns aspectos (positivos) da Teologia da Libertação" (aquela de caráter INTEGRAL).
II – ERROS DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
1. Ambiguidade moral e doutrinária, Pluralismo liberacionista, releitura exclusivista e não preferencial (mas de caráter praticamente EXCLUSIVO) na autêntica “opção preferencial pelos pobres”, do Evangelho, e de
Puebla.
2. A
politização e formação de militãncia partidária de esquerda nas comunidades eclesiais de base (CEB's), colocando-se contra a igreja hierárquica e suas lideranças que não são de linha progressista.
3. A
interpretação marxista da história, da bíblia, e da religião.
4. A falsa libertação no suposto "paraíso socialista na terra", propondo uma Libertação meramente social e não moral, ou seja, do pecado.
5. Alguns de seus teólogos professam a "Heresia Eclesiológica" (uma falsa e incompleta concepção da Igreja hierárquica e carismática/de serviço laical).
III – PERIGOS DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO de caráter marxista e ateu:
1.
Lavagem cerebral (não se permitem autocríticas, e nem suportam serem questionados) – Consideram-se infalíveis em
suas ideias e práxis metodológica.
2. Abusos absurdos e constantes, de linha pastoral, doutrinal, e litúrgica, muito difundidas no Brasil por padres, bispos, teólogos e lideranças Católicas dessa linha.
3. "Igreja
Popular" e democrática, sem verdade, e sem hierarquia (Anárquica).
Situação de miséria na América Latina e,
concretamente no Brasil:
É um
espetáculo desolador e inquietante a miséria e à fome num continente
superdotado de possibilidades e recursos naturais, como é a América Latina. Em
se tratando, então, do Brasil, país privilegiado, com terras férteis e
abundantes, a miséria e a fome não deviam existir.Faltam homens dirigentes que,
bem formados, saibam desfrutar dos recursos naturais em favor do bem comum,
enquanto outros governantes ou elementos à eles associados se locupletam à
forra, espezinhando direitos e aspirações legítimas dos subalternos e
subordinados.Há, portanto, sem nenhuma divida, estruturas injustas que devem
ser reparadas, tanto no campo nacional como no internacional de relações com
nações mais desenvolvidas economicamente e ricas e que fazem sentir o peso do
capitalismo desenfreado na sociedade latino-americana.Vê-se logo que é mais uma questão de
educação, que para nós é evangelização (no qual se deve empenhar seriamente a
Igreja ), do que de guerrilhas ou revolução.Para a
evangelização são eloquentes os ensinamentos e orientações da Doutrina Social
da Igreja, que tem por finalidade a implantação da justiça social, da liberdade
e dignidade da pessoa humana, por meios evangélicos. Insistentemente os Papas
clamam em favor dos oprimidos e reclamam uma ordem mais justa e estabeleceram e
aprovaram não só inúmeras obras de beneficência, mais um dicastério dedicado à
“Justiça e Paz”.Francamente não agrada aos liberacionistas essa doutrina, que
apodam de reformismo. Fixam seus objetivos de luta e reivindicações contra o
detestável “pecado social” que oprime os mais pobres e deserdados.Não
insistem na atuação decisiva do pecado pessoal, que existe tanto nos dirigentes
que abusam do seu poder mas também nos subalternos.A grande verdade é que por questões culturais
arraigadas de dependência, nosso povo quando com saúde e trabalhando, não
produzem mais e melhor e não sabem ou não procuram economizar.Evidentemente
condições climatéricas (muito calor) podem não estimular o trabalho e esses
fatores se verificam em todas as nações, embora o elemento local esteja mais
habilitado a vencer esses rigores da região.É impressionante, porém, examinar a
história dos imigrantes Europeus e orientais em nossos países e Latino
Americanos.Chegaram quase todos em situação de miséria e se deram generosa e
heroicamente ao trabalho, fazendo também não pequenas economias, e hoje é quase
impossível encontrar um descendente de imigrantes na miséria.Nem tudo,
portanto, depende unicamente das estruturas públicas.Há
situações extraordinárias de seca, inundações ou de outras calamidades
(guerrilha) que podem favorecer a miséria ou a fome. Doloroso é o desemprego,
hoje tão grave problema para todos os povos, principalmente quando se abandonam
os campos pela cidade.Mas também existem, é mister dizê-lo, em alguns a
indolência, o abandono das terras, o alcoolismo, gastos imprevidentes e
exagerados, como de moradores de favelas que dispendem fartamente no Carnaval.É fácil atribuir a culpa de todo o mal
às estruturas injustas e pecaminosas. Também lá, como na vida individual,
a raiz de todos os males é o pecado.O pecado introduziu o mal no mundo e o
mantém. Atacar essa raiz, com a formação e a prática da vida cristã e favorecer
a virtude, é o objetivo de uma teologia da Libertação ideal ( possível e
legítima), inspirada nos Evangelhos e digna de aplausos. Assim mesmo, tal
Teologia seria apenas uma parte da Doutrina Social da Igreja e não, como é
concebida em nosso meio, como a Teologia que abarca e interpreta toda a
religião.
O discurso de João Paulo II, em
Puebla, traçou as coordenadas da Teologia da Libertação autêntica:
A verdade
sobre a igreja, verdade sobre Jesus Cristo e verdade sobre o homem. Nessa
perspectiva a opção preferencial pelos pobres recebe seu verdadeiro
significado, que é evangélico e se mostra plenamente justificado. Implantar a
“civilização do amor”, tão reclamada por Paulo VI e João Paulo II, é a única
Teologia de Libertação louvável.Infelizmente, não é esse porém, o tipo de Teologia de Libertação comumente difundido na
América Latina e no Brasil, que rejeita, em ultima análise, a Doutrina Social
da Igreja porque segundo seus teólogos, a julgam "teórética" ideologicamente (teologicamente contra o
capitalismo, mas na prática, reforça o sistema dominante) e praticamente não
eficiente e por isso, mesmo quando alguém não a considera erronea, é
insuficiente e deve ser enriquecida pela Teologia da Libertação, com métodos
mais modernos, eficazes e científicos, que são os da análise marxista.É justa, repetimos, necessária e louvável a
defesa dos pobres, não só sociologicamente como religiosamente, mas o modo de
agir da Teologia da Libertação não é evangélico, porque o amor ao próximo(ricos
e pobres), é a suprema norma social do Evangelho, que se aceita por convicção e
não por imposição. O processo evangélico será muito mais lento, mas é mais
humano e definitivo; como o operado no mundo pagão e bárbaro.
A necessidade de uma teologia atualizada e correspondente à índole e cultura do povo!
O
Concílio Vaticano II foi desejado por João XXIII e confirmado por Paulo VI,
mantendo a fidelidade ao sacro patrimônio da verdade revelada, para enfrentar
as novas condições e formas de vida, introduzidas no mundo hodierno.Era o
famoso “aggiornamento” (atualização), querido por João XXIII e a
“inculturação”, auspiciada por Paulo VI, afim de apresentar aos povos de uma
forma acentuadamente pastoral a doutrina da Igreja.Fazia-se também um apelo à
iniciativa dos teólogos para encontrar expressões mais adequadas para a vivência
cristã nos nossos dias.Respondeu
séria e corajosamente a esse desafio o Conselho Episcopal Latino-Americano na
Conferência Geral do Episcopado em Puebla, no México, tendo baseado seus
estudos numa ampla rede de consultas e estudos de toda a Igreja na América
LatinaÉ curioso como os Teólogos da Libertação procuraram boicotar Puebla.
Diziam que Puebla não era “el puebio”. Mas realmente, em Puebla, falava “el
pueblo de Dios”.Organizaram, durante a Assembleia, uma Conferência paralela
(anti-Puebla), da qual participaram alguns membros também do Episcopado e,
curiosamente, agora, fundamentando-se em apenas algumas expressões da
Conferência de Puebla, em releitura pré-fabricada, se julgam os verdadeiros
protagonistas e executores de Puebla.Para gáudio dos libertacionistas, puderam
depois cantar vitória da aplicação concreta de suas ideias em Nicarágua, com os
sandinistas e ministros sacerdotes e a Igreja Popular.
“Aggiornamento” da Igreja não
significa uma mudança radical:
Não é
reforma, mas atualização, ou seja viver Cristamente o dia atual da Igreja,
fundada por Jesus Cristo e que deve atravessar os séculos, imutável na doutrina
revelada, assistida pelo Espírito Santo, mas com os pés na terra, tanto quando
caminha na praia, como nas montanhas ou no asfalto. É a mesma Igreja, peregrina
neste mundo, que se faz viva e salvífica, adaptando-se, sem deixar de ser o que
é, às circunstâncias do tempo. e do lugar.Atualização,
portanto, deve ser também inculturação, isto é, com capacidade de transmitir a
– mensagem salvadora de Cristo aos diversos povos, encontrando as expressões
mais adequadas para ser compreendida melhor pelos homens, que vivem em
situações e ambientes os mais diversos.Atualização e inculturação da Igreja foram
interpretadas por alguns teólogos, como uma libertação da teologia tradicional
para adotar, sem restrições, fórmulas novas de maior abertura cristã para o
mundo e seu empenho sobre as realidades terrestres com uso das ciências humanas
(psicologia, pedagogia, interpretação marxista da história etc. Assim
promoveram uma revolução destruindo o passado, considerado superado, e
fabricando formas modernas, alheias à teologia, e, portanto, reclamam uma nova
interpretação do Evangelho de Cristo.Nós
católicos, porém, cremos na divindade de Cristo, na sua verdadeira e definitiva
revelação pública, e não podemos, por conseguinte, aceitar nem as
interpretações do Alcorão, dos Vedas, nem as de Marx, embora se apresentem ao
mundo como as mais eficazes e atualizadas.Mesmo quando não se rejeita o passado
e se julga aperfeiçoar o patrimônio cultural e artístico, é de mal gosto,
fazê-lo, desfigurando suas mais belas expressões, como se para melhorar uma pintura
clássica se usassem rabiscos e borrões de arte moderna,por cima da arte
original.Se esta aplicação de atualização e inculturação é errônea e
desastrada para uma arte, com maior razão o será para a Igreja, que não é
invenção nem obra de homens, mas de Deus, criador e Redentor.
Os "três principais frutos negativos" da Teologia da Libertação?
Não sei
como se possa, honestamente, negar ou ficar indiferente a existência da árvore má da Teologia da
Libertação, na sua espécie mais agreste, rude, azeda e radical, quando seus
frutos da pior espécie, aparecem já abundantes no Brasil, América Latina, e Terceiro mundo afora.
Acenamos
aqui apenas a alguns desses "maus frutos", pois haveria muitos outros em relação à
liturgia, à vida religiosa,e a autêntica sã doutrina da libertação e salvação!
1)- A
decadência da teologia, depreciada em favor da sociologia e política partidária de caráter progressista, o vazio da autêntica espiritualidade milenar que fez os grandes santos e santas da igreja, a militância meramente social e política, os anseios dos futuros
sacerdotes manifestados agressivamente contra a autoridade e hierarquia, tanto nas universidades como até nos
convites para a ordenação; a indisponibilidade para o apostolado cultural (pastoral da elites), uma verdadeira lavagem cerebral de seminaristas (não todos felizmente,
pois muitos bispos sabem preservá-los) em certos Seminários ou comunidades do
Brasil, saltam à vista de quem não é cego e quer ver tudo com os dois olhos, direito e esquerdo, e não simplesmente tapar o sol com a peneira, passando pano, e querendo ver e julgar tudo segundo a ótica esquerdista, como se fosse infalível e plena.
2)- O que
se pode esperar desses futuros e pobres sacerdotes, munidos apenas com essa
“teologia da enxada”, que não tem nem sequer a exposição sistemática e orgânica
da nossa fé? Querem saciar a sede o povo com água poluida de ideologia e cisternas rachadas. Pregações sólidas e doutrinárias? Essa já escasseiam nas comunidades onde a constante é a reivindicação amarga, impositiva, e irritante da "justiça
social a qualquer custo em moldes socialistas", onde os fins justificam os meios até violentos. Agem como se nosso povo não tivesse o direito de
saciar sua “fome e sede de Deus” com a sua Palavra INTEGRAL na homilia e no culto sagrado, que
não se deve confundir nem concorrer com comícios políticos partidários, despropositados e impertinentes no altar.
3)- E
depois, esses que "negam o pão INTEGRAL do Evangelho" aos fiéis, não reconhecendo sua
falta de responsabilidade, vão acusar posteriormente outros organismos ou países como
responsáveis e promotores da invasão e crescimento assustador das seitas e de
outras formas de religião? Ora, tenha paciência! Na verdade, colhem o que plantam: confusão, ambiguidades, divisão e ódio de classe dentro e fora da igreja.
Cardeal Agnelo Rossi 19-03-1985
CONCLUSÃO: QUANDO A OPÇÃO PELOS POBRES DEIXA DE SER EVANGÉLICA E SE TRANSFORMA EM IDEOLOGIA
A reflexão desenvolvida ao longo deste estudo nos conduz a uma conclusão fundamental: nem toda Teologia da Libertação conduz à mesma compreensão do Evangelho, e nem toda proposta que se apresenta em nome dos pobres é, por esse simples fato, fiel a Jesus Cristo. É precisamente aqui que precisamos distinguir a legítima preocupação cristã com os oprimidos de uma interpretação ideológica da fé que pretende subordinar a Revelação divina a projetos políticos de transformação social.
O problema nunca esteve em defender os pobres, combater a fome, denunciar a exploração ou exigir justiça. Tudo isso encontra fundamento nas Sagradas Escrituras e na Doutrina Social da Igreja. O problema surge quando uma causa legítima passa a reivindicar exclusividade, quando a política ocupa o lugar da teologia e quando a esperança cristã é reduzida à promessa de uma sociedade supostamente redimida pela revolução.
A declaração de Frei Clodovis Boff, irmão de Leonardo Boff e um dos nomes associados à reflexão teológica latino-americana, merece atenção especial justamente por reconhecer os limites históricos e teológicos da corrente liberacionista. Ao afirmar que a Teologia da Libertação já teria cumprido sua função histórica ao conscientizar a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres, ele chama a atenção para uma verdade essencial: a opção preferencial pelos pobres pertence ao patrimônio permanente da fé católica, mas nenhuma corrente teológica particular pode reivindicar para si o monopólio da interpretação do Evangelho. Quando uma reflexão parcial pretende converter-se em explicação total da fé, corre o risco de deformar aquilo que deveria servir.
Não basta, portanto, proclamar-se defensor dos pobres; é necessário perguntar se os meios propostos respeitam a dignidade humana, a liberdade, a verdade, a justiça e a caridade. Uma teologia autenticamente católica não pode transformar os pobres em instrumentos de mobilização partidária, nem os ricos em inimigos por definição. A Igreja denuncia a exploração cometida pelos poderosos, mas também chama cada pessoa à conversão; combate estruturas injustas, sem ignorar a responsabilidade moral individual; exige mudanças sociais, sem prometer que a simples substituição de um sistema econômico por outro eliminará o pecado, o egoísmo, a corrupção e a sede de poder.
"Jesus não morreu na cruz por uma classe social,mas por todos pecadores,sejam pobres como Lázaro,ou ricos como Zaqueu e Nicodemos"
É justamente por isso que a distinção entre a opção preferencial e a opção exclusiva ou excludente pelos pobres é tão importante. Preferência evangélica não significa indiferença aos demais seres humanos, mas atenção especial àqueles cuja vulnerabilidade exige uma resposta concreta. Cristo acolhe os pobres, os doentes, os pecadores, os marginalizados e os esquecidos, sem deixar de chamar todos à conversão.
Seu amor não é seletivo segundo a classe social, a filiação partidária ou a posição econômica. A caridade cristã não pergunta primeiro a qual grupo ideológico alguém pertence, mas reconhece em cada pessoa uma criatura de Deus, dotada de dignidade inviolável.
Nesse sentido, a experiência de Dom Hélder Câmara, conhecido por sua defesa dos pobres e pela não violência ativa, oferece um contraponto importante às propostas revolucionárias que justificam a violência em nome da libertação. Sua atuação social, sua denúncia da miséria e sua defesa dos perseguidos demonstram que é possível enfrentar injustiças estruturais sem transformar a luta política em religião substitutiva.
A justiça não exige o ódio; a denúncia não exige a desumanização do adversário; a defesa dos direitos dos oprimidos não exige a renúncia aos princípios morais que devem orientar a própria luta. Quando a libertação abandona a dignidade de todos e passa a justificar qualquer meio em nome de um fim político, ela contradiz os princípios que afirma defender.
O caso do sacerdote Ernesto Cardenal, que integrou o governo sandinista da Nicarágua, ilustra outra questão decisiva: a relação entre o ministério sacerdotal, a autoridade eclesiástica e a militância política. Em 1983, São João Paulo II o advertiu publicamente sobre a incompatibilidade entre sua condição sacerdotal e a permanência em um cargo governamental exercido sem a necessária conformidade com as normas da Igreja. Cardenal permaneceu no governo e, em 1985, recebeu a suspensão do exercício do ministério sacerdotal. Posteriormente, em 2019, o Papa Francisco levantou as sanções canônicas que ainda o impediam de exercer o ministério. Esse desfecho histórico não apaga o conflito anterior, mas recorda que a disciplina eclesiástica deve ser compreendida dentro de uma história concreta, e não como pretexto para ataques pessoais.
A questão de fundo, entretanto, permanece: a Igreja não pode ser reduzida a uma organização de militância política, assim como o sacerdote não pode substituir sua missão espiritual pela função de dirigente partidário. A Igreja tem o dever de iluminar as realidades temporais com o Evangelho, formar consciências, denunciar injustiças e promover o bem comum. Isso, porém, não significa canonizar partidos, governos ou revoluções. Nenhum movimento político, de direita ou de esquerda, está acima do julgamento moral do Evangelho. A fidelidade católica exige discernimento, e não submissão automática a qualquer projeto que utilize palavras como povo, justiça, igualdade ou libertação.
É igualmente necessário recordar que a crítica católica ao marxismo não se confunde com a defesa irrestrita do capitalismo. São João Paulo II, na carta aos bispos brasileiros de 9 de abril de 1986, foi explícito ao advertir que tanto o capitalismo desenfreado quanto o coletivismo ou capitalismo de Estado são incapazes, por si mesmos, de garantir a libertação trazida por Jesus Cristo. A Doutrina Social da Igreja não oferece uma bênção religiosa a qualquer sistema econômico: apresenta princípios para avaliar a organização da sociedade, entre eles a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade e a destinação universal dos bens. Portanto, rejeitar a instrumentalização marxista da fé não significa aceitar a exploração capitalista, a indiferença diante da fome ou a concentração injusta de riquezas. A diferença está nos fundamentos, nos meios e nos fins. A fé cristã reconhece que a injustiça pode estar inscrita em estruturas sociais e econômicas, mas não admite que toda a realidade humana seja explicada exclusivamente pela luta de classes.
O marxismo clássico, em suas formulações materialistas e ateias, entra em conflito com elementos fundamentais da visão cristã do homem, da liberdade, da propriedade, da religião e do destino transcendente da pessoa. Quando categorias marxistas deixam de ser objeto de análise crítica e passam a funcionar como critérios determinantes de interpretação da Bíblia, da Igreja e da história da salvação, o risco não é apenas político: é propriamente teológico. A fé passa a ser instrumentalizada por uma visão de mundo que não consegue abarcar a totalidade da Revelação.
A advertência de São João Paulo II e das instruções Libertatis nuntius, de 1984, e Libertatis conscientia, de 1986, deve ser compreendida nesse horizonte. A Igreja não condena toda reflexão sobre a libertação, nem considera suspeito todo cristão que denuncia injustiças sociais. Pelo contrário, reconhece a legitimidade e a necessidade de combater a opressão. O que ela questiona são as interpretações que, sob o pretexto de libertar o homem, reduzem sua existência à dimensão econômica e política, relativizam a verdade revelada ou legitimam práticas incompatíveis com a moral cristã. A libertação integral inclui as condições materiais de vida, mas também a liberdade moral, a conversão, a reconciliação com Deus e a esperança da vida eterna.
Por isso, é insuficiente falar de libertação sem falar do pecado; de justiça sem falar da verdade; de direitos sem falar de deveres; de transformação social sem falar da responsabilidade pessoal; de solidariedade sem falar da caridade; e de esperança histórica sem reconhecer que nenhum projeto terreno pode realizar plenamente o Reino de Deus. A Igreja não anuncia uma utopia política que será instaurada pela tomada do poder, mas Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, Senhor da história e Salvador da humanidade. Seu Reino já atua na história, inspira a construção de uma sociedade mais justa, mas não se identifica com nenhum regime, partido ou revolução.
Eis, portanto, a grande lição deste debate: o Evangelho deve julgar as ideologias, e não ser julgado, mutilado ou reinterpretado para caber dentro delas. Se uma proposta política contém elementos compatíveis com a justiça e o bem comum, eles podem ser reconhecidos e aproveitados mediante discernimento moral. Mas, quando exige que a Igreja silencie sobre a verdade, abandone sua doutrina ou justifique meios violentos em nome de uma suposta emancipação histórica, a resposta católica precisa ser firme. Nenhuma causa social, por mais urgente que seja, torna moralmente legítimo tudo aquilo que se faz em seu nome.
A verdadeira opção pelos pobres não consiste em transformá-los em massa de manobra, em prometer-lhes um paraíso socialista ou em alimentar ressentimentos permanentes entre classes sociais. Consiste em reconhecer sua dignidade, aliviar concretamente seu sofrimento, promover condições justas de trabalho, educação, moradia e participação social, defender seus direitos e oferecer-lhes, sem reducionismos, a totalidade da mensagem cristã. Os pobres precisam de pão, justiça, oportunidades e liberdade; mas também têm direito à Palavra de Deus, aos sacramentos, à formação doutrinal, à oração e à esperança da salvação. Negar-lhes qualquer dessas dimensões seria oferecer uma libertação incompleta.
A advertência vale também para a própria Igreja: uma pastoral que se converta em palanque partidário, que substitua a formação doutrinal por palavras de ordem ou que transforme a homilia em instrumento de propaganda corre o risco de privar os fiéis da riqueza integral do Evangelho. Isso não significa proibir a reflexão política ou o compromisso social dos católicos, mas recordar que a missão eclesial não se esgota em nenhuma agenda temporal. A Igreja deve formar leigos capazes de atuar na política com consciência cristã, e não simplesmente reproduzir, dentro das comunidades, as divisões e os antagonismos da disputa partidária.
Por fim, a história da Teologia da Libertação deve ser examinada sem caricaturas e sem complacência. Houve nela perguntas legítimas, denúncias necessárias, iniciativas pastorais fecundas e contribuições que ajudaram a Igreja a olhar com maior atenção para a pobreza. Houve também correntes e interpretações que mereceram críticas doutrinais sérias, especialmente quando incorporaram pressupostos marxistas de maneira incompatível com a fé. Reconhecer os primeiros elementos não obriga a absolver os segundos; criticar os erros não autoriza desprezar o sofrimento dos pobres nem desqualificar indiscriminadamente todos os seus defensores.
A conclusão é inequívoca: a libertação cristã não pode ser reduzida à libertação de uma classe contra outra, porque seu horizonte é a libertação integral de toda a humanidade em Jesus Cristo. Não existe fidelidade ao Evangelho quando a justiça é separada da verdade, quando a solidariedade se transforma em ódio ou quando a esperança cristã é substituída pela promessa de uma salvação exclusivamente política. O cristão deve combater a miséria sem fazer da luta de classes um dogma, denunciar a opressão sem abandonar a caridade e transformar a sociedade sem sacrificar a dignidade humana aos interesses de qualquer ideologia.
É por isso que a posição de São João Paulo II continua tão atual: a Igreja deve estar ao lado dos pobres, mas não pode entregar o Evangelho a uma ideologia; deve promover a justiça, mas sem esquecer a verdade; deve trabalhar pela libertação humana, mas sem reduzir a salvação a um projeto terreno. A opção preferencial pelos pobres é evangélica; a absolutização ideológica dessa opção, quando exclui a integralidade da fé, não é. O critério definitivo não é a fidelidade a uma corrente teológica, a um partido ou a uma revolução, mas a fidelidade a Jesus Cristo, à Revelação divina e ao Magistério autêntico da Igreja.
Porque, no fim das contas, não é a ideologia que salva o homem: é Cristo. E toda proposta de libertação que pretenda ocupar o lugar de Cristo, por mais sedutora que pareça, deixa de ser caminho de salvação para se tornar uma promessa humana incapaz de realizar aquilo que anuncia.
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