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“Tarde Te amei!” - De Santo Agostinho, uma das mais belas oração esponsal de todos os tempos!

Written By Beraká - o blog da família on quarta-feira, 5 de agosto de 2020 | 12:17





por*Francisco José Barros de Araújo




“Tarde Te amei!” Talvez poucas palavras expressem com tanta profundidade o drama do coração humano que passa grande parte da vida procurando fora aquilo que somente Deus pode preencher dentro de nós. Santo Agostinho transforma sua própria experiência de conversão em uma verdadeira oração esponsal, um diálogo de amor entre a criatura e o seu Criador, entre a alma que finalmente encontra Aquele que sempre esteve à sua procura. Não se trata apenas do lamento por ter conhecido Deus tardiamente, mas da descoberta de uma verdade que muda toda a existência: Deus nunca esteve distante; nós é que estávamos longe d’Ele. Agostinho procurava a felicidade nas criaturas, nos prazeres, no conhecimento e nas realizações humanas, sem perceber que todas as coisas belas que encontrava eram apenas reflexos da Beleza eterna que seu coração desejava.


Por isso, quando afirma: “E eis que estavas dentro de mim, e eu estava fora”, Santo Agostinho revela uma das grandes chaves de sua espiritualidade: é necessário entrar no próprio interior para encontrar Deus, não porque Deus esteja limitado ao interior do homem, mas porque é ali que o homem precisa abrir-se à presença daquele que o criou e sustenta. Sua história é a história de tantos homens e mulheres que passam pela vida dizendo “amanhã” à conversão, adiando o encontro com Deus enquanto procuram preencher o coração com aquilo que jamais poderá satisfazê-lo plenamente. Entretanto, a misericórdia divina não desiste do homem. Deus chama, insiste, ilumina, rompe a surdez e conduz a alma de volta à sua verdadeira morada.


É justamente essa experiência que torna o texto de Santo Agostinho tão atual. “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” não é apenas uma confissão pessoal do Bispo de Hipona; é o grito de uma alma que finalmente compreendeu que nasceu para Deus e que somente n’Ele encontra seu verdadeiro repouso. Como ele próprio ensina: 

“Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.” 

A oração que segue é, portanto, um convite para que também nós façamos essa viagem interior, reconheçamos nossas próprias fugas, nossas falsas seguranças e descubramos que, por trás de toda busca humana pela verdade, pela beleza, pelo amor e pela felicidade, existe uma sede muito mais profunda: a sede de Deus.

“Et ecce intus eras et ego foris et ibi te  esquaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam…”

Tradução:“E eis que estavas dentro de mim, e eu estava fora, e aí te procurava; e, deformado, eu me lançava sobre essas coisas formosas que criaste.”





1.Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.



2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…



3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.




4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.



5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.


6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!



7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…



8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!




Fonte: Santo Agostinho - Livro Confissões 10, 27-29



Conclusão



Ao chegar ao final dessa oração, compreendemos que “Tarde Te amei” não é simplesmente uma lamentação pelo tempo perdido, mas uma declaração apaixonada de amor daquele que finalmente encontrou o sentido de sua existência. Santo Agostinho olha para o passado e reconhece seus erros, suas ilusões e seus afastamentos, mas não permanece prisioneiro deles. 


Ele olha para a misericórdia de Deus e percebe que, apesar de ter caminhado por tantos caminhos, Deus nunca deixou de procurá-lo. A graça foi paciente, insistente e misericordiosa. Quando Agostinho finalmente abriu os olhos, percebeu que Aquele que buscava já estava junto dele.


Há, portanto, uma mensagem profundamente esperançosa nessa oração: 


Nunca é tarde demais para voltar para Deus. Podemos ter desperdiçado anos, feito escolhas erradas, colocado nossa esperança em coisas passageiras ou procurado felicidade onde ela jamais poderia estar. Podemos ter dito muitas vezes “amanhã”. Contudo, enquanto houver vida, a voz de Deus continua chamando: “Pega e lê! Pega e lê!” Continua existindo um caminho de retorno, porque a misericórdia de Deus é maior que nossas quedas e sua graça pode transformar uma vida inteira.


Santo Agostinho descobriu que as criaturas eram belas, mas que sua beleza era apenas um reflexo da Beleza incriada; descobriu que o amor humano é precioso, mas que todo amor verdadeiro encontra sua fonte no Amor eterno; descobriu que a verdade pode ser procurada na filosofia e na ciência, mas que a Verdade plena possui um rosto: Jesus Cristo. Por isso, depois de provar as coisas do mundo e permanecer inquieto, ele finalmente pôde dizer: 


“Provei-Te, e agora tenho fome e sede de Ti.”


Essa é a grande transformação operada pela graça: antes, procurávamos Deus sem saber que era Deus que procurávamos; depois de encontrá-Lo, percebemos que todas as nossas buscas encontravam n’Ele sua verdadeira resposta. O coração deixa de correr atrás das criaturas como se fossem seu fim último e passa a contemplá-las como dons do Criador.



Por isso, a oração de Santo Agostinho continua sendo também a nossa oração: Senhor, perdoa-nos por tantas vezes Te procurarmos fora, quando Tu nos chamavas para dentro; por tantas vezes escolhermos o que passa, quando Tu nos oferecias o que permanece; por tantas vezes adiarmos o Teu chamado, dizendo “amanhã”, quando a graça nos dizia “hoje”.


E, finalmente, que possamos chegar à mesma descoberta de Agostinho: Deus é a origem, o caminho e o destino de toda verdadeira felicidade. Quem O encontra não perde o mundo; aprende a contemplá-lo corretamente. Quem ama a Deus aprende a amar verdadeiramente as criaturas. Quem repousa n’Ele encontra a paz que nenhuma criatura pode oferecer.



“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” 


Que essas palavras deixem de ser apenas a oração de Santo Agostinho e se tornem também a oração de cada coração que, depois de tantas buscas, finalmente compreende: 


“Senhor, eras Tu que eu procurava. Estavas comigo, mas eu não estava Contigo. Agora que Te encontrei, não quero mais viver longe de Ti.”



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17

 



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