
por*Francisco José Barros de Araújo
“Tarde Te amei!” Talvez poucas palavras expressem com tanta profundidade o drama do coração humano que passa grande parte da vida procurando fora aquilo que somente Deus pode preencher dentro de nós. Santo Agostinho transforma sua própria experiência de conversão em uma verdadeira oração esponsal, um diálogo de amor entre a criatura e o seu Criador, entre a alma que finalmente encontra Aquele que sempre esteve à sua procura. Não se trata apenas do lamento por ter conhecido Deus tardiamente, mas da descoberta de uma verdade que muda toda a existência: Deus nunca esteve distante; nós é que estávamos longe d’Ele. Agostinho procurava a felicidade nas criaturas, nos prazeres, no conhecimento e nas realizações humanas, sem perceber que todas as coisas belas que encontrava eram apenas reflexos da Beleza eterna que seu coração desejava.
Por isso, quando afirma: “E eis que estavas dentro de mim, e eu estava fora”, Santo Agostinho revela uma das grandes chaves de sua espiritualidade: é necessário entrar no próprio interior para encontrar Deus, não porque Deus esteja limitado ao interior do homem, mas porque é ali que o homem precisa abrir-se à presença daquele que o criou e sustenta. Sua história é a história de tantos homens e mulheres que passam pela vida dizendo “amanhã” à conversão, adiando o encontro com Deus enquanto procuram preencher o coração com aquilo que jamais poderá satisfazê-lo plenamente. Entretanto, a misericórdia divina não desiste do homem. Deus chama, insiste, ilumina, rompe a surdez e conduz a alma de volta à sua verdadeira morada.
É justamente essa experiência que torna o texto de Santo Agostinho tão atual. “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” não é apenas uma confissão pessoal do Bispo de Hipona; é o grito de uma alma que finalmente compreendeu que nasceu para Deus e que somente n’Ele encontra seu verdadeiro repouso. Como ele próprio ensina:
“Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.”
A oração que segue é, portanto, um convite para que também nós façamos essa viagem interior, reconheçamos nossas próprias fugas, nossas falsas seguranças e descubramos que, por trás de toda busca humana pela verdade, pela beleza, pelo amor e pela felicidade, existe uma sede muito mais profunda: a sede de Deus.
“Et ecce
intus eras et ego foris et ibi te esquaerebam,
et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam…”
Tradução:“E eis que estavas dentro de mim, e eu estava fora, e aí te procurava; e, deformado, eu me lançava sobre essas coisas formosas que criaste.”
1.Tarde
Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive
longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu
era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas
Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque
Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui,
porque Tu Te fizeste meu auxílio.
2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem
para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos
mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos
astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de
minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar
cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas
dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam
senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…
3. Mas Tu
me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me
entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido.
Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim
de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu
estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse:
“Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos
debatemos em nossa carne”. Assim me
encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando
deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da
casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.
4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a
minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o
qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta
de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na
devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor
Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim.
Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.
5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por
Ti! Deus… de Quem separar-se é
morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de
Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar
seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem
conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no
fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.
6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus
começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz
Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna
Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite
desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre
mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!
7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a
Ti! Só ardo por Ti!…
8. Tarde
te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te
amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava,
disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas
comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me
longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por
mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou
minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te
desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!
Conclusão
Ao chegar ao final dessa oração, compreendemos que “Tarde Te amei” não é simplesmente uma lamentação pelo tempo perdido, mas uma declaração apaixonada de amor daquele que finalmente encontrou o sentido de sua existência. Santo Agostinho olha para o passado e reconhece seus erros, suas ilusões e seus afastamentos, mas não permanece prisioneiro deles.
Ele olha para a misericórdia de Deus e percebe que, apesar de ter caminhado por tantos caminhos, Deus nunca deixou de procurá-lo. A graça foi paciente, insistente e misericordiosa. Quando Agostinho finalmente abriu os olhos, percebeu que Aquele que buscava já estava junto dele.
Há, portanto, uma mensagem profundamente esperançosa nessa oração:
Nunca é tarde demais para voltar para Deus. Podemos ter desperdiçado anos, feito escolhas erradas, colocado nossa esperança em coisas passageiras ou procurado felicidade onde ela jamais poderia estar. Podemos ter dito muitas vezes “amanhã”. Contudo, enquanto houver vida, a voz de Deus continua chamando: “Pega e lê! Pega e lê!” Continua existindo um caminho de retorno, porque a misericórdia de Deus é maior que nossas quedas e sua graça pode transformar uma vida inteira.
Santo Agostinho descobriu que as criaturas eram belas, mas que sua beleza era apenas um reflexo da Beleza incriada; descobriu que o amor humano é precioso, mas que todo amor verdadeiro encontra sua fonte no Amor eterno; descobriu que a verdade pode ser procurada na filosofia e na ciência, mas que a Verdade plena possui um rosto: Jesus Cristo. Por isso, depois de provar as coisas do mundo e permanecer inquieto, ele finalmente pôde dizer:
“Provei-Te, e agora tenho fome e sede de Ti.”
Essa é a grande transformação operada pela graça: antes, procurávamos Deus sem saber que era Deus que procurávamos; depois de encontrá-Lo, percebemos que todas as nossas buscas encontravam n’Ele sua verdadeira resposta. O coração deixa de correr atrás das criaturas como se fossem seu fim último e passa a contemplá-las como dons do Criador.
Por isso, a oração de Santo Agostinho continua sendo também a nossa oração: Senhor, perdoa-nos por tantas vezes Te procurarmos fora, quando Tu nos chamavas para dentro; por tantas vezes escolhermos o que passa, quando Tu nos oferecias o que permanece; por tantas vezes adiarmos o Teu chamado, dizendo “amanhã”, quando a graça nos dizia “hoje”.
E, finalmente, que possamos chegar à mesma descoberta de Agostinho: Deus é a origem, o caminho e o destino de toda verdadeira felicidade. Quem O encontra não perde o mundo; aprende a contemplá-lo corretamente. Quem ama a Deus aprende a amar verdadeiramente as criaturas. Quem repousa n’Ele encontra a paz que nenhuma criatura pode oferecer.
“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!”
Que essas palavras deixem de ser apenas a oração de Santo Agostinho e se tornem também a oração de cada coração que, depois de tantas buscas, finalmente compreende:
“Senhor, eras Tu que eu procurava. Estavas comigo, mas eu não estava Contigo. Agora que Te encontrei, não quero mais viver longe de Ti.”
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em
Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo
Nº 003/17
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