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O que é o amor esponsal conforme as escrituras e tradição Cristã?

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 29 de março de 2014 | 20:35


por*Francisco José Barros de Araújo 



Para compreender o que a Igreja chama de “amor esponsal”, é necessário começar pela própria Revelação divina. Não se trata de uma expressão criada por uma espiritualidade particular, nem de uma linguagem restrita à vida religiosa ou consagrada. A imagem do Esposo e da Esposa atravessa toda a história da salvação e constitui uma das mais profundas maneiras pelas quais a Sagrada Escritura revela a relação de amor, aliança e comunhão entre Deus e o seu povo.

Desde o Antigo Testamento, os profetas recorrem à linguagem matrimonial para falar da relação entre Deus e Israel. A Aliança não é apresentada apenas como um contrato ou um conjunto de normas, mas como uma relação de amor e fidelidade. Deus é aquele que escolhe, ama, busca, perdoa e permanece fiel, enquanto o povo é chamado a responder com fidelidade. Quando Israel abandona o Senhor para seguir outros deuses, os profetas frequentemente descrevem essa infidelidade como uma espécie de adultério espiritual. Essa linguagem revela algo fundamental: Deus deseja muito mais do que uma obediência exterior; deseja o coração inteiro do seu povo.

Essa imagem alcança sua plenitude no Novo Testamento com a revelação de Jesus Cristo como o Esposo. Ele mesmo utiliza essa linguagem quando, respondendo aos discípulos de João Batista sobre o jejum, pergunta: “Por acaso podem os convidados para o casamento ficar de luto enquanto o noivo está com eles?” (Mt 9,15). Cristo apresenta-se, assim, como o Noivo que veio realizar a nova e definitiva Aliança.


Mas quem é a noiva?


É a Igreja, o novo Povo de Deus, o Corpo de Cristo. São Paulo afirma que Deus colocou todas as coisas sob os pés de Cristo e o constituiu “Cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (Ef 1,22-23). Essa união entre Cristo e sua Igreja não é meramente institucional ou jurídica. É uma união de amor, de graça, de vida e de comunhão. Cristo ama sua Igreja como o esposo ama a esposa e, mais ainda, entrega-se totalmente por ela: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

É justamente aqui que encontramos o núcleo do amor esponsal cristão: a entrega total de si por amor ao outro. O amor de Cristo não é possessivo, egoísta ou simplesmente afetivo. É um amor que se oferece, se sacrifica, purifica, santifica e conduz à comunhão. Na Cruz, o Esposo manifesta a medida do seu amor pela Esposa. Cristo não apenas diz que ama: Ele entrega a própria vida.

Por isso, a Tradição cristã sempre viu na Cruz de Cristo a manifestação suprema do amor esponsal. O Esposo entrega-se pela sua Esposa para torná-la santa e apresentá-la diante de si “sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante” (Ef 5,27). O objetivo dessa união não é simplesmente uma proximidade sentimental, mas uma verdadeira comunhão de vida, produzida pela graça.

Essa realidade encontra uma manifestação extraordinária em Pentecostes. Reunidos em oração, os primeiros membros da Igreja recebem o Espírito Santo, que desce sobre eles com poder e os capacita para a missão. O Espírito Santo é o dom de Cristo à sua Igreja e aquele que a vivifica interiormente. São Paulo ensina que, tendo ouvido a palavra da verdade e acreditado em Cristo, os cristãos foram “selados com o Espírito Santo da promessa”, que é o penhor da nossa herança (Ef 1,13-14).

A imagem do penhor é particularmente significativa. O Espírito Santo é, por assim dizer, a antecipação daquilo que Deus promete conceder plenamente na consumação dos tempos. A Igreja já possui, pela graça, aquilo que será levado à plenitude na glória. O dom do Espírito é, portanto, sinal de que a Aliança foi estabelecida e de que a Igreja caminha para a consumação definitiva de sua união com Cristo.

É importante, contudo, compreender corretamente essa linguagem. Quando falamos de Cristo como Esposo e da Igreja como Esposa, não estamos falando de uma relação sexual ou de uma união conjugal no sentido humano e biológico. A linguagem é analógica e espiritual. Ela expressa uma realidade muito mais profunda: a união de pessoas pelo amor, pela entrega, pela fidelidade e pela comunhão de vida. É por isso que essa linguagem pode ser aplicada à relação de cada cristão com Cristo sem qualquer conotação sexual.

São Paulo utiliza precisamente essa imagem quando escreve aos cristãos de Corinto. Ele afirma: “Eu vos desposei a um único esposo, para vos apresentar a Cristo como uma virgem pura” (2Cor 11,2). O apóstolo utiliza aqui a linguagem do noivado para expressar a relação dos cristãos com Cristo e, imediatamente, manifesta sua preocupação com a fidelidade deles. Seu temor é que sejam enganados e afastados da “simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Cor 11,3).

Portanto, o amor esponsal implica necessariamente fidelidade. Aquele que pertence a Cristo não pode dividir o coração entre Cristo e aquilo que se opõe a Ele. A metáfora matrimonial torna-se extremamente profunda: assim como a fidelidade é essencial à aliança entre esposo e esposa, também o cristão é chamado a permanecer fiel à Aliança recebida no Batismo.

Nesse sentido, o pecado pode ser compreendido também como uma ruptura ou ferida na relação de aliança com Deus. Não é simplesmente a transgressão fria de uma norma. É uma recusa do amor, uma infidelidade àquele que nos amou primeiro. Daí a importância da conversão: converter-se é voltar para o Esposo, abandonar aquilo que nos separa dele e permitir que a graça restaure em nós a imagem e a semelhança para as quais fomos criados.

A dimensão esponsal alcança seu ponto culminante no Apocalipse, quando a história da salvação é apresentada sob a imagem das núpcias do Cordeiro. João contempla a realização definitiva da união entre Cristo e sua Igreja: “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro!” (Ap 19,9). A imagem aponta para a consumação escatológica: aquilo que a Igreja vive agora pela fé, pela graça e pelos sacramentos encontrará sua plenitude na eternidade.

Assim, podemos perceber uma grande dinâmica bíblica: Deus estabelece uma Aliança com seu povo; Cristo vem como o Esposo; entrega-se pela Igreja; derrama sobre ela o Espírito Santo; a Igreja permanece fiel enquanto aguarda a consumação das núpcias do Cordeiro. A história da salvação pode, portanto, ser contemplada também como a história de um Deus que busca unir-se definitivamente à humanidade por meio de seu Filho.

E aqui encontramos uma consequência fundamental para a espiritualidade cristã: se Cristo é o Esposo da Igreja, então todo membro da Igreja é chamado a viver uma relação pessoal de amor com Cristo. Isso não significa que cada pessoa seja, individualmente e em sentido estrito, “a esposa” de Cristo da mesma maneira que a Igreja inteira o é. A dimensão principal e objetiva da linguagem esponsal pertence à relação entre Cristo e sua Igreja. Entretanto, cada batizado participa dessa união porque foi incorporado ao Corpo de Cristo.

É justamente por isso que a espiritualidade cristã pôde, ao longo dos séculos, falar também da alma como amada por Cristo. Santos e místicos utilizaram a linguagem do amor esponsal para expressar a profundidade da união espiritual com Deus. Não estavam afirmando uma realidade conjugal carnal, mas procurando traduzir, com as palavras humanas mais fortes que possuíam, a realidade sobrenatural de uma alma que se entrega inteiramente ao Amor.

Essa compreensão é especialmente importante para evitar dois extremos. De um lado, não devemos reduzir o amor esponsal a uma experiência emocional, como se bastasse “sentir” Jesus próximo. De outro, não devemos esvaziá-lo de sua dimensão afetiva, como se a fé cristã fosse apenas adesão intelectual a verdades doutrinais. O cristianismo envolve inteligência, vontade, liberdade, afetividade e toda a pessoa. Conhecemos a Cristo, cremos nele, obedecemos à sua Palavra, recebemos sua graça e, acima de tudo, somos chamados a amá-lo.

O amor esponsal, portanto, não significa sentimentalismo religioso. Ele significa pertença e entrega. Significa permitir que Cristo ocupe o centro da existência; permanecer fiel à sua Palavra; rejeitar aquilo que contradiz o Evangelho; receber sua graça; deixar-se transformar pelo Espírito Santo e caminhar para a plena comunhão com Ele.

É também por isso que essa espiritualidade não deve ser confundida com a vocação matrimonial nem colocada em oposição a ela. O sacramento do Matrimônio possui sua própria realidade e dignidade, enquanto a união de Cristo com a Igreja é o grande mistério para o qual o matrimônio cristão aponta. O casal cristão não deixa de pertencer a Cristo por estar unido sacramentalmente ao seu cônjuge. Pelo contrário, é justamente porque ambos pertencem a Cristo que podem viver o matrimônio como verdadeira vocação de amor, fidelidade e entrega.

O amor humano, quando vivido em Deus, torna-se sinal de uma realidade maior. E, ao mesmo tempo, o amor de Cristo ilumina e purifica o amor humano, ensinando-nos que amar não é simplesmente possuir ou ser correspondido, mas entregar-se pelo bem do outro.

Por isso, quando um cristão diz: “Jesus é o Amado da minha alma”, está professando uma verdade profundamente cristã. Está reconhecendo que nenhuma criatura pode ocupar o lugar que pertence ao Criador; que o coração humano foi criado para a comunhão com Deus; que Cristo não deseja ser apenas conhecido de longe, mas acolhido, seguido e amado; e que a vida cristã caminha para uma união cada vez mais profunda com Ele.

Em última análise, o amor esponsal é uma linguagem que nos conduz ao coração do Evangelho: Deus nos amou primeiro e, em Cristo, entregou-se por nós para nos conduzir à comunhão consigo. A Igreja é a Esposa que aguarda o Esposo; o Espírito Santo é o dom que já antecipa a herança futura; os sacramentos alimentam e fortalecem essa união; a vida cristã é o caminho de fidelidade; e a eternidade será a consumação das núpcias do Cordeiro.

Por isso, compreender o amor esponsal é compreender que a fé cristã não é apenas uma obrigação religiosa, mas uma resposta de amor a um Deus que nos amou até o extremo. Cristo é o Esposo que não abandona sua Igreja, o Cordeiro que se entrega, o Senhor que derrama o Espírito e o Amado que chama cada pessoa à comunhão com Ele.

E é precisamente nessa perspectiva bíblica e tradicional que podemos compreender, sem constrangimento e sem equívocos, a profunda afirmação espiritual: “Jesus é o Esposo da minha alma.” Não se trata de negar nossa identidade, nosso estado de vida ou nossa vocação, mas de reconhecer a verdade mais profunda de nossa existência: fomos criados para o Amor e, em Cristo, esse Amor veio ao nosso encontro.



O AMOR ESPONSAL EM  SÃO JOÃO DA CRUZ


Em toda a obra de João da Cruz, a cor principal, a principal tonalidade do amor de Jesus é a do Amor Esponsal. De fato, o amor de Cristo Esposo é a realidade central, a mais profunda, que unifica todos os escritos do doutor místico, e sobretudo, que nos permite uma interpretação constantemente cristocêntrica.

No Evangelho, Jesus se define como Esposo (cf. Mt 9,15) e este título cristológico se explica em todas as obras de São João da Cruz, com toda a sua potência de amor, do amor infinito. Por outro lado, é digno de nota que em todos os escritos do nosso santo, o termo “Esposo” é utilizado muito mais que o termo “Cristo”.

Símbolo e conceito: matrimônio espiritual e união com Deus


Em relação com o Esposo encontramos, evidentemente, a Esposa, assim como o grande símbolo da sua união de amor, ou seja, o matrimônio espiritual. A mesma realidade que São João da Cruz indica conceitualmente em temos de “união com Deus”, ele a traduz de maneira ainda mais rica e mais profunda quando usa a expressão simbólica de matrimônio espiritual.

De fato, o símbolo do matrimônio espiritual é mais explicitamente cristológico que o conceito “união com Deus”.

Neste grande poeta que é São João da Cruz, o símbolo vem sempre antes do conceito: mais amplo que o conceito, este sempre o ilumina e ultrapassa. Por isso, o matrimônio espiritual, que indica essencialmente a relação com o Cristo Esposo, mostra que a união com Deus aqui tratada é sempre união com Deus em Jesus, “por ele, com ele e nele”.

A teologia simbólica


Através do uso da teologia simbólica, colocada em relação com a teologia especulativa, que usa os conceitos, e sobretudo com a teologia mística, que vai além de qualquer símbolo e conceito no silêncio da santa escuridão, São João da Cruz se insere na posteridade de Dionísio, o Areopagita, uma das suas principais fontes patrísticas. É nesta prospectiva patrística que convém interpretar a teologia especulativa de São João da Cruz.



A linguagem simbólica é aquela privilegiada da Revelação de Deus na Sagrada Escritura, porque é a linguagem mais encarnada, aquela que anuncia a Encarnação no Antigo Testamento. É a linguagem própria da Encarnação; o Verbo Encarnado se exprime de modo simbólico nas parábolas e na instituição dos Sacramentos.

Assim, a simbólica cristã exprime aquilo que Charles Péguy define com exatidão “a misteriosa ligação do carnal e do espiritual”: no homem criado carne e espírito, e sobretudo em Jesus, o Verbo Encarnado “no qual habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Col 2,9), Jesus, o Esposo que “UNE” esponsal e definitivamente  na sua pessoa a Divindade e a humanidade.

Assim a ação simbólica de Deus, unindo a divindade e a humanidade na pessoa do Deus-Homem vem reparar a dramática separação causada pelo pecado, sugerido ao homem por uma vontade diabólica.

A lógica do amor divino é simbólica: sempre une, recolhe, enquanto a lógica do pecado é diabólica: divide e contrapõe.


A simbologia cristã expressa este grande mistério de união, grande mistério de amor, do amor de Jesus. Em Jesus, Deus mesmo se revela doando-se humanamente, Deus mesmo se comunica corporalmente dando-se corporalmente, porque “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. A simbólica cristã é a expressão da comunhão total do homem com Deus em Jesus; por isto a Virgem Maria foi a primeira a comunicar totalmente o mistério de Jesus, com todo o seu ser, corpo e alma, ela da qual o Evangelho diz que “recolhia” literalmente que “simbolizava” tudo no seu coração (sumballousa) (Lc 2,19).

São João da Cruz, na sua teologia simbólica, recolhe a intimidade do seu coração todo o conteúdo da Sagrada Escritura em relação à palavra de Jesus que revela a si mesmo como Esposo.


Podemos afirmar que ele acolheu esta palavra com todo o coração e nos convida a recebê-la do mesmo modo, sem medo, sem “desconfiança”, mas com confiança na sua potência de amor.

Nos escritos do doutor e místico, a simbólica esponsal é uma linguagem de amor extremamente forte e extremamente pura:

“a sua força é a mistura da sua pureza, uma pureza virginal. Quanto mais o acolhemos, mais purificará o nosso coração. Dado que todos somos chamados à santidade, não existe dúvida de que cada coração é chamado à mesma realidade deste grandíssimo amor.”


Esplendor do coração humano no amor de Jesus


Na escola dos santos, aprendemos a descobrir sempre mais o esplendor do coração humano, a obra maravilhosa de Deus, imagem e semelhança do seu mistério de amor. O coração humano foi feito por amor e para o amor, para ser amado e para amar infinitamente, na mais profunda comunhão com o coração de Jesus. O nosso coração humano poderia ser comparado a um maravilhoso instrumento musical, um instrumento cujas cordas se diferenciam de acordo com o coração ser de homem ou de mulher. Estas cordas são principalmente aquela do amor materno e do amor paterno, do amor filial e do amor fraterno e, enfim, do amor esponsal. No coração humano estas cordas são essenciais. O pecado não as destruiu mas as desafinou, de tal forma que frequentemente desafinam. O Espírito Santo as afina sem quebrá-las, e quando as faz vibrar, emitem um maravilhoso som. A santidade, longe de ser uma mutilação do coração humano, é a sua maturação mais plena no amor de Jesus.


Em São João da Cruz, a corda do amor esponsal vibra harmoniosamente com todas as outras cordas:

“aquela do amor filial que responde ao amor paterno, a do amor materno e a do amor fraterno. Trata-se de todas as vibrações do coração humano no amor de Jesus.”

A alma-esposa: um “conceito simbólico”


É conveniente precisar o sentido deste termo tão utilizado por João da Cruz: este é mais simbólico que conceitual.

Podemos ainda dizer que nele a alma é um conceito simbólico. Com efeito, do ponto de vista conceitual (teologia especulativa), a alma é considerada na sua relação com o corpo, distinta do corpo e unida intimamente ao corpo, enquanto do ponto de vista da teologia simbólica, a alma indica a Esposa na sua relação com o Esposo, na união de amor mais íntima com Jesus Esposo.

Principalmente neste último significado, João da Cruz fala da alma(Humanidade); trata-se na realidade do homem todo inteiro, corpo e alma, mas que é simbolizado por um nome feminino, a alma, como Esposa de Cristo.


Hoje falaríamos mais de bom grado de pessoa, um conceito que também tem a vantagem de ser um nome feminino.Vimos que o símbolo do matrimônio espiritual dá ao conceito de união com Deus todo um significado cristológico. É o mesmo para o símbolo da Esposa que projeta esta idêntica luz cristológica sobre o conceito de alma:

portanto, quando João da Cruz fala de alma, se está referindo sempre à alma Esposa em relação com o Cristo Esposo.

O outro paradoxo do matrimônio espiritual: A tensão escatológica entre o  “já” e o “ainda não”


Deste ponto de vista, o matrimônio espiritual é também um grande paradoxo, paradoxo do “já” e do “ainda não”: “já”, da parte do Esposo, “ainda não” da nossa parte. É muito importante insistir sobre o já para não considerar o matrimônio espiritual como distante graça extraordinária, enquanto se trata da santidade naquilo que tem de mais normal.

Quando se lê João da Cruz se compreende melhor o grande ensinamento do Concilio Vaticano II em relação ao chamado universal à santidade (Lumem Gentium, V). Para o cristão é normal tornar-se santo, é anormal o contrário. A santidade é simplesmente a graça do Batismo plenamente vivida, plenamente desenvolvida.

O Batismo nos imergiu no Cristo morto e ressuscitado; toda a verdade, a profundidade e a beleza desta imersão se manifesta quando a alma alcança a santidade. Nas últimas estrofes do Cântico Espiritual, João da Cruz mostra tudo isso de forma esplendida. A alma correspondeu ao amor do seu Esposo na “profundeza do mistério da Cruz” e de conseqüência pode agora penetrar na profundidade do mistério de Jesus, o Deus-Homem.

Por Fr. François-Marie Léthel, o.c.d.



O AMOR ESPONSAL NA VOCAÇÃO SHALOM



Amor Esponsal: chama viva que inflama e purifica o coração capacitando-o a aderir incondicionalmente e com vigor a bem-aventurada vontade do Pai.


“O Espírito Santo começou a trabalhar em nossas almas e a levá-las ao cerne de nossa vocação: o amor esponsal a Nosso Senhor Jesus Cristo” (Regras da Comunidade Shalom).

O amor esponsal a Jesus Cristo é o centro, a mola mestra da vocação Shalom em todas as suas expressões. Este amor, característico das almas a quem Jesus desposa, vive em nós com todas as suas exigências. Este é, sem dúvida, um presente especialíssimo do Espírito para uma comunidade que abriga casais, celibatários e sacerdotes. É uma “novidade do Espírito” que constantemente renova a Igreja com o poder do seu Amor: “Todos são chamados a possuir o amor esponsal, todos são almas esposas de Jesus. Todos devem buscar ser as virgens prudentes que esperam o momento das núpcias mantendo acesa a chama do amor em suas lâmpadas” (Regras da Comunidade Shalom).


Ao dizermos “sim” à vocação Shalom, dizemos igualmente nosso “sim” ao amor incondicional a Jesus Cristo em sua paixão, morte e ressurreição e, como Ele e com Ele, nos dispomos a unir perfeitamente nossa vontade à vontade do Pai, seja como for, custe o que custar, pois “um coração inflamado por este amor tudo realiza, a tudo se dispõe” (Regras da Comunidade Shalom).

Estamos cientes de que tal amor é uma grande graça que caracteriza a graça maior do nosso chamado de pertencer fiel e sem medidas a Jesus Cristo para consumirmos nossa vida em total doação de amor a Ele e ao seu Reino, servindo aos nossos irmãos e à Igreja.

O amor esponsal sempre foi visto como algo próprio da relação da vida religiosa com Jesus. Sempre foi associado ao celibato na vida religiosa consagrada.No entanto, na Vocação, no Carisma Shalom  o amor esponsal  "vem" como uma grande profecia para Igreja. É uma novidade do Espírito, da Igreja.

O AMOR ESPONSAL no carisma Shalom é para TODOS e para toda Igreja.

Somos chamados a vivermos como almas esposas de Jesus: mulheres, homens, crianças, idosos, adolescentes, jovens, solteiros, casados, celibatários...TODOS! Somos chamados a nos relacionarmos desta forma com Jesus, como ALMAS ESPOSAS. Deus nos deu essa pérola preciosa como o cerne de nosso carisma.


É preciso que mais do que ouvir falar, passemos a experimentar dentro de nós algumas das graças que este amor esponsal nos dá na vida com o Senhor, essa forma que Deus quis que nós no Carisma Shalom, nos relacionássemos com Jesus, como almas esposas do Senhor.A medida que vamos experimentando este dom da esponsalidade, nossa alma é convocada a agir e assumir características próprias desse relacionamento.


Existem muitas vocações e é Deus quem escolhe como vai se manifestar no meio dos homens para gerar um "relacionamento" e as características próprias desse relacionamento. Cada vocação é chamada a se relacionar de uma forma, com Jesus redentor, Jesus libertador, Jesus misericordioso,enfim,  na Vocação Shalom somos chamados a nos relacionar com Jesus como o Esposo de nossas almas. O Amado da minha alma.



Muitos homens podem se incomodar com essa forma de relacionamento com Jesus: o Esposo da Alma, o Amado. Mas essa forma expressa o grau de intimidade com o Senhor Jesus, o grau de intensidade. É algo concreto, real. Amar Jesus Cristo esponsalmente é concreto e real,não é algo abstrato, que paira no ar, que ninguém consegue tocar de tão alto, não é simplesmente suspiros romantizados das almas tipo:


"Ahhh sou alma esposa de Jesus..." NÃO! Porque esse amor é experimentado na carne na nossa humanidade ferida, mas assumida pelo Cristo esposo que se uniu a nossa humanidade de forma irrevogável e definitiva. Não é uma união sacramental que contemple as duas dimensões do sacramento do matrimônio que são a unitiva e a procriativa, até mesmo porque pensar desta forma equivocada, como algumas celibatárias concebem, seria colocar os homens celibatários em uma situação bastante constrangedora, pensando estarem assumindo uma relação homo afetiva com Cristo.


O amor esponsal é tão concreto que Moysés, o nosso fundador, escreve  que é fruto de uma vida. Ele não sentou para pensar o que seria o amor esponsal. Escreveu o que é fruto de sua experiência intensa, concreta e real dele com Deus, e dos primeiros membros da comunidade que também fizeram essa experiência.



Tudo que vivemos na Vocação Shalom é próprio da manifestação do carisma por meio de uma experiência de vida de um homem que fez uma experiência e tem sua vida transformada, que depois  comunica, partilha como se possível fosse transpor tudo o que estava em seu coração, em seu interior .Partilha e convida-nos a vivermos como almas esposas de Jesus.Para melhor entendermos esta questão da experiência, é preciso sabermos que é próprio da Cultura Judaica, a experiência com Deus do qual se faz memória, ao contrário da Cultura grega que é especulativa. O Judeu experimenta Deus que intervém na sua história pessoal e comunitária, já na cultura grega, se pensa naquilo que possa ser Deus: Causa não causada de todas as causas. Cristo como pertencente a esta cultura Judaica,nos traz a experiência de Deus como Pai, e revela aquilo que ele também experimenta: A Paternidade divina.


Precisamos como protagonistas deste novo, desta obra nova na Igreja,entender a intensidade que é esse amor esponsal em nossas vidas.Não é um sentimento, uma ideia, não é um conjunto de  minhas aspirações, mas é uma vida, é um viver e morrer por amor a Cristo, apesar de...É essa a  forma que o Pai escolheu para nos relacionarmos com seu Filho na eleição que Ele nos deu e que é profundamente real,verdadeira e vivencial.



O amor esponsal no carisma, na vocação Shalom tem marcas. Esse amor porta marcas específicas. Encontramos as marcas desse amor em nossa vida, dentro de nós Deus vai nos marcando e nos constituindo no Carisma. É algo intenso verdadeiro.E quem nos dá essa experiência, quem gera em nos esse amor  é o Espírito Santo. É preciso nos abrir-se.Peçamos que o Espirito Santo aja em cada coração que deseja compreender esse chamado. Portanto precisamos mergulhar no entendimento que se portamos essa vocação o Senhor nos escolheu para sermos almas esposas.Todas as marcas que carregamos desse amor já existem em nós.


O amor esponsal não é uma ideia é uma experiência


Um eleito de Deus na vocação Shalom é marcado pelo AMOR INCONDICIONAL A JESUS CRISTO, por aquela vontade, aquela força que nos leva pra Ele como desejo, que é muito mais que vontade, aí nasce o Shalom de Deus! Aí, não há nada e nem ninguém que nos impeça de amar.É um AMOR SEM CONDIÇÕES.


Aí vai acontecendo assim: cada vez mais vamos esquecendo de nós mesmos, das nossas vontades, vamos nos esquecendo de nossos interesses, de nossa vida, e num movimento de graça, vai surgindo um desejo profundo de amar a Jesus incondicionalmente.Para fazer a vontade dEle, cuidar dos interesses dEle, unir a minha vontade à dEle,por gratidão, apesar de...



Muitas vezes caimos na tentação do acho que não vou conseguir,e logo percebemos que é meu coração se endurecendo no orgulho e na auto suficiência, como se dependesse de mim,da minha vontade, do meu querer. Esquecemos da primazia da graça, da qual sem ela, não podemos fazer nada.Ao dizer sim e fazer uma experiência concreta e verdadeira com esse amo fica impossível voltar atras, calar a voz que grita dentro em nós, conter os impulsos da nossa alma,pois ela se inquieta e nos A.R.R.A.S.T.A. para tudo o que vem de Deus.


A súplica ao Espirito Santo é necessária para nos conduzir e fazer-nos compreender esse AMOR ESPONSAL que é o cerne da Vocação Shalom.


Via Sacra do Amor Esponsal - (Baseada no Escrito “Amor Esponsal” da Comunidade Católica Shalom)


(Maria Emmir Oquendo Nogueira - Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom)



1)-PRIMEIRA ESTAÇÃO


JESUS É CONDENADO À MORTE


V. Nós te adoramos, Amado Nosso, e te bendizemos.

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo e nos ensinaste a medida do amor.

Do Evangelho de S. Marcos, 15, 14-15

Eles gritaram ainda mais: “Crucifica-O!” Pilatos, decidido a satisfazer a multidão, soltou-lhes Barrabás e, quanto a Jesus, o entregou para que o açoitassem e o crucificassem.

Meditação

No meio da multidão, Esposo meu, olho, ansioso, o teu rosto. Quando ouves “Barrabás” sabes que serás crucificado. No entanto, mesmo à distância, vejo em teus olhos a esperança de poder dar-lhe uma segunda chance. A chance do Novo Testamento. Tu sabes bem, Jesus, que Barrabás, assim como eu, é vaso de argila. Está dentre os menores, os piores, os miseráveis. Nos desígnios de Misericórdia, o Pai, de forma incompreensível, te troca pelo pior dos malfeitores. Misteriosamente, Barrabás recebe a tua entrega total por ele em forma de segunda chance. Ele não sabe o que se passa. Não consegue medir, nem imaginar. Eu, sim. E, em minha miséria, uno-me a ele, Deus de minha vida, eu, o menor, o pior, e acolho a Ti, dado em troca de mim. Acolho-te todo, sem nada deixar de acolher e, ao acolher-te, entrego-me todo a Ti. Tu, tomas sobre ti todo o meu pecado e todo o meu ser, dado em troca pelo Teu. Por isso, ainda que eu não abra a boca, perdido na multidão, por causa do mistério escondido nesta troca, grito também: “Crucifica-O!”

Aclamações

V. Jesus, Esposo Meu, livremente entregue à cruz em meu lugar,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a entregar-me livremente pelos miseráveis.

V. Jesus, Esposo Meu, trocado pelos menores, pelos piores,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a me dar por eles.

V. Venha teu Reinado,

R. Cumpra-se teu desígnio na terra como no céu.

Pai Nosso


2)-SEGUNDA ESTAÇÃO


JESUS É CARREGADO COM A CRUZ


V. Nós te adoramos, Amado nosso, e te bendizemos

R. Porque por tua santa cruz remistes o mundo

Do Evangelho de São Marcos, 15,20

Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Levaram-no, então, para O crucificarem.

Meditação

“O Amor não é amado!” Com São Francisco, Amado meu, meu coração reconhece que, das mais diversas formas te escarneceu, cuspiu-te na Face, enterrou-te a coroa com pancadas surdas. Oh, meu Deus, não te amei! Esqueci de onde me tiraste, esqueci que me escolheste e, envolto no dia a dia, escarneci de Ti, ignorei a Tua vontade que é sempre amor. Perdoa-me, Deus de minha vida. Perdoa-me! Deixa-me lavar teu sangue com minhas lágrimas. Deixa-me ungi-lo com meu arrependimento, mais uma vez, mais uma vez! Ah, Senhor, o quanto deves me amar para perdoar-me tantas vezes! Inflamo-me de gratidão por me amares tanto apesar de tantos escárnios de minha parte. Vejo-te a caminhar para a cruz, pronto a amar sempre mais e mais. Uno-me a esta cruz, que acende o teu amor. E Tu, loucamente, te unes a mim, cuja ingratidão constante só te leva a amar mais.

Aclamações

V. Jesus Cristo, Amor do Pai Inflamado,

R. Tem piedade de mim, cujo pecado inflama teu amor!

V. Jesus Cristo, Amor que não é amado,

R. Tem piedade de mim, que me amo tanto, e me leva a amar sempre mais e mais

V. Perdoa-nos nossas ofensas,

R. Como nós também perdoamos aos que nos ofendem.

Pai Nosso



3)-TERCEIRA ESTAÇÃO



JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ


V. Nós te adoramos, Amado Nosso, e Te bendizemos,

R. Porque por Tua santa cruz remiste o mundo.

Do livro do profeta Isaías 53,4-6

Na verdade, ele suportou nossos sofrimentos e carregou nossas dores, nós o tivemos como um contagiado, ferido de Deus e afligido. Ele, ao contrário, foi trespassado por causa de nossas rebeliões, triturado por causa de nossos crimes. Sobre ele descarregou o castigo que nos cura, e com suas cicatrizes nos curamos. Todos nós andávamos perdidos como ovelhas, cada um para seu lado, e o Senhor fez cair sobre ele todos os nossos crimes.

Meditação

Vejo-te, Amado meu, por terra. Caído. Um cordeiro, um cordeirinho sangrando, caído sob a cruz. Quero socorrer-te. Não me deixam! Quero rebelar-me, gritar diante de tamanha injustiça. Não me deixas! Guardo, compungido, meu grito. Uno-me a ti em tua queda. Entendo, vendo-te assim, que santo não é quem não cai, mas quem confia inteiramente na misericórdia do Pai, como tu fazes agora. Olho ao meu redor, atingido pelos gritos de ódio. Misteriosamente, eles passam por mim, mas não me atingem. Atingem a ti, pois por recebê-los estás contagiado, ferido, afligido. Os chicotes não te deixam. Nem te deixam as nossas quedas. Volto a olhar ao meu redor e, agora, entendo: também eu devo deixar-me contagiar, acolher e afligir-me – ferido – os vários gritos de ódio dos não-amáveis.

Aclamações

V. Amado, Cordeiro de Deus, silencioso e caído, inteiramente abandonado ao Pai,

R. Tem piedade de mim que não admito cair e nem sempre confio em tua misericórdia!

V. Cordeiro, Esposo, entregue totalmente às nossas mãos assassinas,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a entregar-me, amorosamente, ao não-amável!

V. Não nos deixes, Pai, sucumbir à prova,

R. E livra-nos do Maligno.

Pai Nosso



4)- QUARTA ESTAÇÃO



JESUS ENCONTRA SUA MÃE

Maria encontra-se com  Jesus

V. Nós te adoramos, Filho, e te bendizemos,

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Lucas 2, 34-35,51

Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: “Vê: Este está posto de forma que todos em Israel ou caiam ou se levantarem; será uma bandeira disputada, e assim ficarão evidentes os pensamentos de todos. Quanto a ti, uma espada te atravessará. Desceu com eles, foi a Nazaré e continuou sob sua autoridade. Sua mãe guardava tudo isso em seu íntimo.

Meditação

Tu e eu a vemos, Filho, e, nela, Tu e eu nos encontramos. Não é só a Mãe que encontras. É na Mãe que, mais uma vez, te encontras, em Tua humanidade bendita. Vejo, no Teu olhar a ela o mesmo que no dela a ti: “Deus! Só Deus! O Pai! Só o Pai! A vontade do Pai! Fiat! Fiat!” Nenhum dos dois pensa em si. Ambos só vêm o Esposo, o Pai, a Santa Vontade do Pai, o Amor do Pai, o amor ao Pai. Bebo, ávido, até a última gota das lágrimas de alegria deste olhar. Há dor, mas é dor de amor. E dor de amor, Amado – me ensinaste! – é alegria. É ressurreição. Tira, Deus de minha vida, meus olhos de mim mesmo, e, por esta santa troca de olhares, inflama-me para que eu busque cada vez mais o esquecimento de mim, de minha própria vontade, de meus próprios interesses, de minha própria vida e que, cada vez mais inflamado de amor por ti busque somente a Ti, a vontade do Pai, os interesses Dele, a vida Dele, a obra Dele.

Aclamação

V. Jesus, Filho de Deus, Filho de Maria, a ela unido em eterno “Sim”

R. Tem piedade de mim e ensina-me a ser, como ela, sempre “sim”

V. Jesus, unido a Maria no amor ao Pai, que aos dois basta,

R. Ensina-me a buscar somente a Sua santa vontade e confiar que só Tu, Deus meu, me bastas.

V. Cumpra-se o teu desígnio,

R. Na terra como no céu.

Pai Nosso



5)-QUINTA  ESTAÇÃO



JESUS É AJUDADO PELO CIRENEU A LEVAR A CRUZ

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V. Nós te adoramos, Amado Humílimo, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo

Do Evangelho de São Marcos, 15,21-22

Passava por ali, voltando do campo, certo Simão de Cirene (pai de Alexandre e Rufo), e forçaram-no a carregar a cruz. Conduziram-no al Gólgota (que significa Lugar da Caveira).

Meditação

Vejo o Cireneu, cansado depois de um dia de trabalho no campo, ser obrigado a ajudarte, Amado meu. Por que não me escolheram a mim, penso, em meu orgulho. Iria com o maior prazer, seria uma honra sem igual. Logo entendo o cuidado com que o Pai preparou este teu caminho. O Cireneu era mais um a quem querias beneficiar com a tua paixão. Primeiro, o malfeitor tinha uma segunda chance. Agora, o pai de família, cansado do trabalho do campo, com a idade que teria, talvez, o próprio José, teu pai adotivo. Também ele te ajudou. Terá o Pai pensado nele? Tê-lo-á recompensado salvando este Simão? Nele, Senhor meu, pedes a todas as famílias, a todos os pais e mães, que carreguem a Tua cruz, a bendita e feliz cruz de morrer para que seus filhos tenham vida, de se darem para que seus filhos, mesmo não tendo tudo, tenham a eles, sua presença, suas renúncias, seu amor. É belo ver-Te em Teu caminho de cruz, a tocar os casais, as famílias, a ensinar-lhes que também deles Te fizestes Esposo e também a eles chamas ao Amor Esponsal vivido no marido, na mulher, nos muitos filhos.

Aclamação

V. Humilde Amado, que te deixar ajudar por um cansado pai que vem do campo,

R. Tem piedade de mim que me fecho em minha auto-suficiência.

V. Jesus querido, que aprendeste o amor humano na família de Nazaré,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a rezar, amar e servir em família.

V. Pai nosso do céu,

R. Seja respeitada a santidade do teu nome.

Pai Nosso



6)-SEXTA  ESTAÇÃO



A VERÔNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS

V. Nós Te adoramos, Amado Único, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do livro do profeta Isaías 53,2-3

Cresceu (…)sem presença nem beleza para atrair nossos olhsares, nem aspecto que nos cativasse. Desprezado e evitado pela gente, homem acostumado a sofrer, curtido na dor; ao vêlo cobriam o rosto; desprezado nos o tivemos por nada.

Meditação

Correu a Verônica entre a guarda. Enxugou-te o rosto, colheu o suor de exaustão; comprimiu o sangue do sacrifício, secou as lágrimas de tantas emoções. Não tinha filhos por quem chorar. Não tinha esposo, esta Verônica. Eras, naquele momento, seu Esposo, seu Filho, seu Tudo. Amava-te, isso lhe bastava. O que faria esta Verônica com o seu lenço, com o teu Rosto? Para minha surpresa, não o guardou ciosamente. Posso vê-la, ainda virgem, ainda sem filhos, ainda sem marido, com o mesmo lenço, a vestir os nus, a cobrir os que têm frio, a enchê-lo de pão para os que têm fome, a encharcá-lo de água para os que têm sede, a acenar trégua aos prisioneiros. Esperta como sempre, ungida de sua virgindade consagrada, escorrega por entre as estruturas para amar-Te onde quer que estejas. Entendeu, esta Verônica, que o amor ao irmão é maneira concreta de mostrarmos o quanto te amamos.

Aclamações

V. Jesus, que imprimes tua Face Santa em cada pessoa, em cada jovem,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a pureza e a modéstia, que preservam em nós a

tua santa imagem.

V. Amado Esposo, que chamas tantos a se consagrarem inteiramente a Ti,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a beleza de amar aqueles por quem destes a vida.

V. Pai do céu,

R. Dá-nos hoje o pão de cada dia.

Pai Nosso



7)-SÉTIMA  ESTAÇÃO



JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ

V. Nos te adoramos, Cordeiro Amado, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do livro das Lamentações 3, 1-2.9.16:

Eu sou um homem que provou a dor sob a vara de sua cólera, porque ele me guiou e conduziu para as trevas e não para a luz; (…) fechou-me a passagem com pedras, retorceu minhas sendas (…) meus dentes rangem mordendo cascalhos, e me revolvo no pó.

Meditação

Novamente, Amado meu, te vejo no chão! Sobrecarregado por meus pecados, conduzido para as trevas, tu que és a Luz. Acolhes minha escuridão para que eu tenha a Luz. Minhas trevas, porém, com a de todos os outros de todos os tempos, sugam o brilho de tua humanidade. Cais sob o meu peso. Ergo-me sobre teu esmagamento. Olho-te: o suor não consegue remoer o sangue que secou sobre tua pele. Os primeiros escarros, já secos, mantêm grudados entre si os fios de tua barba. Os escarros recentes formam grandes gotas esverdeadas que insistem em não cair. Reconheço longinquamente teus olhos por entre as pálpebras inchadas. Os muitos cortes, abertos, já não sangram tanto; escondem-se sob sangue coalhado e salmoura. O cheiro de sangue fresco mistura-se com o de sangue velho e suor. Doume conta, Senhor meu, que tu fedes. Caído por terra, tens o aspecto do alcoólatra inchado jogado em nossas sarjetas e calçadas. Semi-escondido pela cruz, assemelhas-te ao fétido miserável, a colher lixo e papel em sua carroça; como tua cruz, pesa mais que ele. Como um mendigo fedorento a suor, sujo de catarro e urina, faminto, tu olhas para mim, a pedir que te levante. És, assim, tu mesmo, o não-amável que sou chamado a amar.

Aclamação

V. Senhor Jesus, que te rebaixaste mais do que todos nós por amor a quem não te ama,

R. Tem piedade de nós, que fugimos da crueza da participação de tua paixão e cruz. Ensina-nos que isso é amor esponsal.

V. Cordeiro esmagado por nossos pecados,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a acolher-te quando estás sujo, fedorento, fraco e deformado. Ensina-nos que isso é amor esponsal.

V. Pai do céu,

R. Venha o teu Reinado!

Pai Nosso



8)-OITAVA  ESTAÇÃO



JESUS ENCONTRA AS MULHERES DE JERUSALÉM

V. Nós te adoramos, Filho do Homem, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Lucas 23, 28-31

Jesus voltou-se e lhes disse: “Moradoras de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós e por vossos filhos. Porque chegará um dia em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não pariram, os peitos que não amamentaram! Então começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre nós’; e às colinas: ‘Sepultai-nos’. Pois, se tratam assim a árvore viçosa, o que não farão com a seca?

Meditação

Ah, Senhor, Filho de Deus, Filho do Homem! Como não ultrapassar o olhar da exegese e ver, aqui, tua admoestação para a mulher, hoje! Não estamos nós vivendo um tempo no qual as estéreis são consideradas felizes? Não estamos vivendo um tempo em que as mulheres se fazem esterilizar para serem, secundo elas, mais felizes? Não seremos nós as mulheres cujos ventres negam-se a parir, matando seus filhos para viverem melhor? Não estão secando nossos peitos à força de hormônios para a amamentação não deforma-los, para voltarmos mais cedo ao trabalho? Jesus, tu, o Filho do Homem, Inocente, recebeste de nós o pior dos tratamentos em tua paixão. Hoje, porém, Senhor, nós mulheres, te matamos nos abortos cirúrgicos, nos abortos advindos do diu, das pílulas e demais métodos artificiais que não deixam desenvolver-se nenhuma vida que consiga escapar ao seu cerco. Criaste-nos para acolher e promover a vida, e eis-nos hospedando e provocando a morte! Chamaste-nos a humanizar o homem e eis-nos ultrajando seu direito mais básico! Criaste-nos para sermos presença disponível e eis-nos sendo ausência ocupada! Fizeste-nos ternura e eis-nos rispidez, competição, ódio aos nossos próprios filhos. Hoje, Jesus, não temos por quem chorar. Nem por nós – que julgamos o choro sinal de fraqueza- nem por nossos filhos – que não existem mais! Que fizemos, Senhor, que fizemos ao lenho verde!

Aclamações

V. Amado Filho do Homem, acolhido por Maria sem restrições,

R. Tem piedade de nós!

V. Jesus, criança assassinada, criança solitária, criança abandonada,

R. Tem piedade de nós!

V. Pai do céu,

R. Não nos deixes sucumbir à prova!



9)-NONA  ESTAÇÃO



JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ

V. Nós te adoramos, Filho de Deus feito Homem, e te bendizemos

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo

Do Livro das Lamentações 3,27-32

É bom para o homem carregar o jugo desde a sua mocidade. É bom ele sentar-se solitário e silencioso quando o Senhor lho impuser; por sua boca no pó, onde talvez encontre esperança; estender a face a quem o fere e suportar as afrontas. Porque o Senhor não repele para sempre. Após haver afligido, tem compaixão, porque é grande a sua misericórdia.

Meditação

Sei, Amado meu, que esta tua terceira queda é a minha última oportunidade de cair contigo e deixar-te cair comigo. Para ser tua alma esposa, é preciso que eu encontre o segredo da queda. É preciso que me una a ti e aprenda a partilhar contigo o pó e nele encontrar esperança. Ajuda-me, Senhor, a cairmos juntos. Ajuda-me a fazer-me pequeno contigo, pois meu alvo é a santidade e a santidade nunca foi para os grandes, para os que nunca caem e julgam tudo saber, tudo poder. Desejo, meu Jesus, cair contigo. Não terei medo de ser esquecido, de ser escarnecido, de ser rejeitado. Meu alvo, Amado meu, é a santidade, não o sucesso. Desejo, meu Senhor, permitir que caias comigo; permitir que me ajudes em minha solidão, em meu pó, no jugo que carrego desde a mocidade. Desejo, contigo, estender a face ao que me fere, pois meu alvo, como já disse é a santidade. Não só alvo, mas vocação, sem presunção nenhuma de grandeza. Nesta queda conjunta, meu Querido, tua e minha, está a nossa esperança. Não é exatamente lá, no pó, que ela se esconde? Não é na queda que ela se oculta? Não é lá que ela sussurra o Teu Amor por mim? Esta queda, como as outras, é a minha queda, a nossa queda, o nosso segredo para encontrar a pequenez, a confiança no Amor, a esperança escondida no pó que se mistura ao teu sangue.

Aclamações

V. Jesus, que escondeste no pó a virtude da esperança ,

R. Tem piedade de mim e livra-me de querer encontrar-te nas grandezas.

V. Cristo, que aceitas trilharmos juntos o caminho da queda,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a suportar as afrontas dos que me são mais caros.

V. Pai do céu,

R. Perdoa nossas ofensas.

Pai Nosso



10)-DÉCIMA  ESTAÇÃO



JESUS É DESPOJADO DE SUAS VESTES

V. Nós te adoramos, Cristo, Novo Adão, e te bendizemos,

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Marcos 15,24

Os soldados repartiram entre si as suas vestes, sorteando-as para verem o que levava cada um.

Meditação

É inevitável, Senhor meu, ver-te, assim, despido, e não recordar que a santidade é a veste nupcial para as bodas do Cordeiro. É inevitável, também, ver de quantas vestes me visto. De quantas defesas, de quantas vontades, de quantas imagens, de quantas teimosias. Inevitável ver de quanta vaidade me adorno, em quanto orgulho me abrigo, em quanta altivez me defendo. Inevitável colocar-me, tão altivo, tão protegido, tão cheio de mim mesmo, diante de ti, despido, ferido, ensangüentado e sujo. Inevitável reconhecer o óbvio de qual das duas vestes é a da santidade. Impossível não distinguir qual dos dois está preparado para as núpcias! Quando, Senhor, te terei como meu único Amor, quando só tu me bastarás, de fato, para que eu não só permita, mas deseje despojar-me de minhas vestes tão baixas, deixando, feliz, que as disputem quem nelas se interesse e que tirem a sorte como queiram, uma vez que minha fortuna é estar despido, pronto para as nossas Bodas.

Aclamações

V. Jesus, Novo Adão, vestido de nudez,

R. Tem piedade de mim e dá-me a coragem do amor.

V. Jesus, Noivo e Cordeiro,

R. Tem piedade de mim e veste-me de tua nudez.

V. Pai do céu,

R. Venha o teu Reinado.



11)-DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO



JESUS É PREGADO NA CRUZ

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Meditação

Vejo-te, Jesus, imóvel por alguns instantes, tomado da imobilidade do amor. Sei que logo arquejarás, que em breve entrarás em tetania, em agonia, e consumarás teu sacrifício de amor. No entanto, guardo como a um tesouro, este instante quando tu, pregado, te entregas imóvel nas mãos do Pai e do Espírito, nas mãos dos homens. Não estás pregado em um madeiro. Não! Pendes do amor absoluto e não encontras outra causa para amar a não ser o próprio Amor! Talvez por isso, pendas, imóvel, do ápice da Caridade. Aos teus pés, exponho a ti minha fraqueza, desejando amar-te cada vez mais perdidamente, como se tu precisasses de justificativas para amar até a consumação de ti mesmo.

Aclamações

V. Jesus, Cordeiro Imóvel, vítima do Amor, pendente do Amor Absoluto,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que não há santidade sem cruz.

V. Jesus, Pobre e Nu, vítima da Dor,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que os pobres são a salvação e a esperança da humanidade.

V. Pai do céu,

R. Seja respeitada a santidade do Teu Nome!



12)-DECIMA SEGUNDA ESTAÇÃO



JESUS MORRE NA CRUZ

Cristo

Meditação

Cristo, Ungido do Pai, Sacerdote, Vítima, Altar, Esposo! Desejo dar-te o que me dás. E posso dar-te mais que me dás, pois, dando-te a mim, comigo dou-te a ti, que és unido a mim. Nunca irei sozinho ao Pai. Acolho a tua morte e vivo. Acolhes minha vida e morres. Vida e morte, em tua cruz, são uma só coisa. Sacerdote e vítima, são uma só coisa. Entrega e acolhida, uma coisa só. Tudo é amor. Tu morres por todos. Eu morro por ti e sei que isso significa morrer por meu irmão. O amor é assim: não permite que se morra por si mesmo. Tornamo-nos, assim, sacerdotes e vítimas no Único Sacerdote, Única Vítima e, por isso, Único Esposo que, unido às famílias e aos virgens, une-se agora aos sacerdotes em uma única Oferta, um único Altar, únicos Esponsais com toda a família humana. “Pai, perdoai-lhes”, ouço-te dizer. “Eu te absolvo dos teus pecados”, ouço-o dizer. “Fazei isso em memória de mim!”, ouço-te. “Eis o Cordeiro de Deus”, ouço-o. É uma só esta voz sacerdotal, esta voz esponsal que oferta a vida!

Aclamações

V. Jesus, Sacerdote, Vítima, Altar, Esposo,

R. Tem piedade de mim, ensina-me que só o amor da cruz é o teu, e que só ele permanece

V. Jesus, Esposo Imolado,

R. Abre os olhos de minha oração; que eu te veja, que eu veja!

V. Pai do céu,

R. Santificado seja o teu nome!

Pai Nosso



13)-DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO




JESUS É DESCIDO DA CRUZ

Meditação

Vejo-te, Senhor, sendo lavado, às pressas e, cuidadosamente, lentamente, atentamente, sem nenhuma pressa, desejo lavar-te ao lavar meu irmão. Sinto o cheiro do lençol que te envolve: cheiro de linho cru. Carinhosamente, atento a todo detalhe, uso todo o tempo do mundo para tecer o lençol que envolve meu irmão, suas ofensas, seus queixumes. Inalo o perfume do óleo apressado e guardo-o na memória, cuidadoso. Dele disponho para ungir meu irmão ferido, ofendido, faminto, doente, moribundo. Pois é amando assim, concretamente, ao meu irmão, que te estarei amando da forma mais perfeita. É assim que serei tua alma esposa, no amor efetivo ao meu irmão. Assim, estarei fazendo a tua vontade: “Que vos ameis como vos amo”. Assim, Esposo meu, te envolverei a cada dia, um corpo inerte, sobre o qual não se tem esperança, sobre o qual se meneia a cabeça. Em teu e meu coração, porém, sabemos, que não há caso perdido, não há maldade humana, não há corpo inerte que, por causa do Amor, não vá encontrar a ressurreição.

Aclamações

V. Jesus, inerte nos braços dos homens,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a amar nosso irmão.

V. Cristo, Corpo Santo preparado às pressas,

R. Ensina-nos a perfeição do amor: amar o outro como tu nos amas.

V. Pai do céu,

R. Também na terra, seja feita a tua vontade.



14)-DÉCIMA QUARTA  ESTAÇÃO



JESUS É DEPOSITADO NO SEPULCRO

Meditação

Vejo-te, Senhor, pelos olhos da Madalena. Observo como te colocam. Vejo como te ungiram. Como não lembrar-me das outras unções? Fico atenta a como rolaram a grande pedra, ao ângulo do qual a empurraram. Nada me escapa. Não te deixarei só. Estarei contigo nas ruas, no trabalho, nas escolas, nos motéis, nos estádios, nos bares, nas praias, nos shoppings. Estarei contigo onde a comida é farta e onde bóia o minguado punhado de feijão na panela de ferro. Estarei contigo onde o conhecimento ilumina e onde a ignorância cega. Estarei contigo onde a vida se inicia e onde finda. Estarei contigo nos gritos de alegria e nos gemidos de agonia. Estarei contigo, Amado meu, a velar-te no homem, em cada homem, ao longo das nossas pobres noites. Até que venha a tua Ressurreição. Até que a veja brilhar nos olhos deles, de cada um, e possa, eu mesmo, dormir em paz, apoiado em teu braço, envolvido no estandarte da Caridade, sob as flores de maçã da tua eternidade, Esposo meu.

V. Amado meu, Esposo meu, enquanto aguardamos a Tua ressurreição,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a perfeição do único Amor.

V. Jesus, Amado meu, Esposo meu, enquanto aguardamos a Tua vinda,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que amar é servir.

V. Pai do céu,

R. Daí-nos hoje o pão deste dia.



Fonte: saopio.wordpress.com/via-sacra-do-amor-esponsal/




Conclusão — Jesus, o Esposo e o Amado de nossas almas



Ao chegarmos ao final desta reflexão, podemos compreender com maior clareza que afirmar “Jesus é o Esposo da minha alma” não é uma expressão estranha, sentimentalista ou reservada exclusivamente às pessoas consagradas. Trata-se de uma linguagem profundamente enraizada nas Sagradas Escrituras e na Tradição viva da Igreja, que procura expressar, com a imagem humana do amor esponsal, a profundidade da relação de amor e de comunhão que Deus deseja estabelecer com a humanidade.


A Bíblia inteira nos conduz progressivamente a esse mistério. Deus estabelece uma Aliança com seu povo; os profetas apresentam essa Aliança mediante a imagem do esposo e da esposa; Cristo manifesta-se como o Esposo; a Igreja é apresentada como sua Esposa e seu Corpo; o Espírito Santo é derramado sobre ela como dom e penhor da herança futura; e o Apocalipse aponta para a consumação definitiva dessa união nas núpcias do Cordeiro.


Não estamos, portanto, diante de uma simples metáfora bonita. A linguagem esponsal revela algo essencial sobre o próprio projeto de Deus: Ele não quer apenas que o ser humano saiba que Ele existe, mas que entre em comunhão de amor com Ele. A salvação não consiste somente em escapar da condenação, mas em participar da própria vida divina.

É por isso que Cristo não veio simplesmente ensinar uma doutrina. Ele veio entregar-se. Na Cruz, o Esposo manifesta a medida do seu amor pela Igreja: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Seu amor é oblativo, fiel e total. Ele não ama enquanto recebe algo em troca; ama primeiro, ama até o fim e permanece fiel mesmo diante da infidelidade humana.

Diante de tão grande amor, a resposta cristã não pode ser apenas intelectual. É preciso crer, acolher, corresponder e permanecer. O verdadeiro discípulo não é aquele que apenas conhece coisas sobre Jesus, mas aquele que progressivamente aprende a conhecê-lo, amá-lo e conformar sua própria vida à dele.

Nesse sentido, dizer que Jesus é o Amado de nossa alma significa reconhecer que somente nele o coração humano encontra sua realização última. Pessoas podem nos amar profundamente, a família pode nos oferecer vínculos preciosos, o matrimônio pode ser uma magnífica vocação de amor e os amigos podem ocupar um lugar importantíssimo em nossa existência. Entretanto, nenhuma criatura pode preencher o espaço que pertence exclusivamente ao Criador.

Por isso, o amor de Cristo não compete com o amor humano; ele o ordena, purifica e eleva. O homem casado não precisa abandonar sua esposa para amar Cristo como seu maior Amor. A mulher casada não precisa diminuir o amor pelo marido para pertencer inteiramente a Cristo. Os solteiros também não precisam estar destinados à vida consagrada para viver essa dimensão espiritual. E aqueles que abraçam o celibato pelo Reino testemunham de maneira particularmente visível essa realidade, antecipando já nesta vida algo da entrega total a Deus que encontrará sua plenitude na eternidade.

Assim, podemos compreender também por que um homem não precisa sentir-se diminuído em sua masculinidade ao utilizar a linguagem esponsal. A alma humana, diante de Deus, não é definida biologicamente como homem ou mulher para poder receber seu amor. Todos somos criaturas diante do Criador e todos somos chamados a acolher o amor daquele que nos amou primeiro. A linguagem esponsal não fala de sexualidade, mas de aliança, fidelidade, pertença, entrega e comunhão.

E justamente por isso ela nos interpela profundamente. Se Cristo é o Esposo, então não podemos tratá-lo como alguém secundário em nossa existência. Se somos chamados à comunhão com Ele, não podemos viver uma fé superficial, dividida entre Cristo e tudo aquilo que contradiz o Evangelho. O amor esponsal exige fidelidade.

A exortação de São Paulo aos coríntios permanece atual: conservar-se como “virgem pura” para Cristo (2Cor 11,2) significa guardar o coração daquilo que pode corromper nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Não se trata de uma pureza meramente exterior, mas de uma inteireza interior: não permitir que outros “deuses” ocupem o lugar daquele que deve ser o centro de nossa vida.

Nesse sentido, o pecado não é apenas a violação de uma norma. É também uma ferida na relação de amor com Deus. E a conversão significa retornar ao Esposo, voltar para aquele que nunca deixou de nos procurar. A misericórdia de Deus torna possível recomeçar, porque o amor de Cristo não é descartável nem condicionado à nossa perfeição.

A vida sacramental da Igreja também pode ser compreendida nessa perspectiva. Pelo Batismo, somos incorporados a Cristo; na Eucaristia, somos alimentados por sua própria vida; na Reconciliação, somos restaurados quando nos afastamos; na oração, aprofundamos nossa comunhão com Ele; e, pela ação do Espírito Santo, somos progressivamente transformados à imagem de Cristo.

Tudo isso nos conduz para uma realidade maior: as núpcias eternas do Cordeiro. Aquilo que agora vivemos na fé, de maneira ainda imperfeita e muitas vezes marcada por lutas e quedas, será um dia levado à plenitude. A Igreja caminha para esse encontro definitivo com seu Senhor. Por isso, a vida cristã possui uma dimensão profundamente escatológica: somos um povo que caminha ao encontro do Esposo.

Talvez seja justamente isso que Santo Agostinho tenha experimentado de maneira tão intensa quando reconheceu que havia procurado fora aquilo que somente Deus poderia oferecer. Sua célebre confissão — “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” — traduz o drama de todo coração humano que procura sua felicidade em muitas coisas e, finalmente, descobre que foi criado para Deus.

No fundo, a espiritualidade esponsal nos convida a fazer essa mesma descoberta: Jesus não quer ocupar apenas uma parte da nossa vida; Ele quer o nosso coração inteiro. Não deseja apenas nossas palavras, nossas devoções ou alguns momentos de oração, mas nossa própria existência.

Por isso, talvez a pergunta mais importante ao terminar esta reflexão não seja simplesmente: “Posso dizer que Jesus é o Esposo da minha alma?” A resposta, à luz das Escrituras e da Tradição cristã, é sim, desde que compreendamos corretamente o sentido dessa linguagem.

A pergunta verdadeiramente decisiva é outra:

-Se Cristo é o Esposo, estou vivendo como alguém que realmente pertence a Ele?

-Se Ele é o Amado, meu coração corresponde ao seu amor?

-Se Ele entregou sua vida por mim, estou disposto a entregar minha vida por Ele?

-Se Ele é fiel à sua Igreja, estou procurando permanecer fiel à sua Palavra?

-Se o Espírito Santo é o penhor da nossa herança, estou permitindo que Ele transforme minha vida?

Porque, no final, o amor esponsal cristão não é apenas uma expressão para ser compreendida; é uma realidade para ser vivida.

É viver sabendo que fomos procurados por um Amor que nos precede. É permitir que Cristo ocupe o primeiro lugar. É permanecer com Ele nas alegrias e nas provações. É retornar quando caímos. É deixar que sua graça purifique aquilo que ainda precisa ser transformado em nós. É aprender, dia após dia, a responder ao Amor com amor.

E quando chegar o fim da nossa peregrinação terrestre, esperamos ouvir o chamado para participar daquilo que o Apocalipse anuncia: “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9).

Então compreenderemos plenamente aquilo que nesta vida apenas começamos a experimentar: que nossa existência inteira era uma caminhada em direção ao encontro com o Esposo.

Jesus Cristo é o Esposo da Igreja, o Amado de nossas almas e o Amor que dá sentido último à nossa existência. Nele encontramos não apenas alguém a quem seguir, mas aquele por quem fomos criados, aquele que nos amou primeiro, aquele que se entregou por nós e aquele que, no fim dos tempos, nos chama para a comunhão eterna consigo.

Que possamos, portanto, fazer nossa a oração de toda alma que descobriu o verdadeiro Amor:

“Senhor Jesus, Tu és o Amado da minha alma. Ensina-me a amar-Te, a permanecer fiel a Ti e a viver cada dia na esperança do encontro definitivo contigo. Que nada ocupe em meu coração o lugar que pertence somente a Ti. Amém.”



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 





BIBLIOGRAFIA — O AMOR ESPONSAL NA ESCRITURA, NA TRADIÇÃO E NA TEOLOGIA CRISTÃ



-BENTO XVI, Papa. Deus caritas est: carta encíclica sobre o amor cristão. São Paulo: Paulinas, 2006.(Fundamental para compreender a natureza do amor cristão, a relação entre eros e ágape e a transformação do amor humano pelo amor de Deus. A encíclica também relaciona o amor bíblico de Deus por Israel com a linguagem esponsal e o Cântico dos Cânticos.)

-JOÃO PAULO II, Papa. Teologia do corpo: o amor humano no plano divino. Campinas: Ecclesiae, 2019.(Obra fundamental para compreender o “significado esponsal do corpo”, a pessoa como dom de si, o matrimônio, a virgindade pelo Reino e a relação entre Cristo e a Igreja. As catequeses desenvolvem amplamente o significado teológico da esponsalidade.)

-JOÃO PAULO II, Papa. Mulieris dignitatem: carta apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher. São Paulo: Paulinas, 1988.(Explora a dimensão esponsal da pessoa humana, a relação entre homem e mulher, a Igreja como Esposa de Cristo e a vocação à comunhão e ao dom de si.)

-JOÃO PAULO II, Papa. Familiaris consortio: exortação apostólica sobre a missão da família cristã no mundo de hoje. São Paulo: Paulinas, 1981.(Apresenta o matrimônio cristão como participação no amor esponsal de Cristo pela Igreja e ajuda a compreender a relação entre amor conjugal, sacramento e vocação cristã.)

-JOÃO PAULO II, Papa. Redemptoris donum: exortação apostólica sobre a consagração religiosa à luz do mistério da Redenção. São Paulo: Paulinas, 1984.(Importante para compreender a dimensão esponsal da vida consagrada e a entrega total a Cristo como resposta ao amor do Esposo.)

-NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo. Amor esponsal. 6. ed. Fortaleza: Edições Shalom, 2026.(Obra diretamente dedicada ao tema do amor esponsal, especialmente à experiência espiritual de entrega total a Deus e à vivência da vocação Shalom. É particularmente útil para aprofundar a dimensão espiritual e prática da relação de amor entre Cristo e a alma.) A edição atualmente catalogada pela Edições Shalom é a 6ª edição, de 2026, com 180 páginas.

-WEST, Christopher. Teologia do corpo para iniciantes: redescobrindo o significado da vida, do amor, do sexo e do gênero. São Paulo: Cultor de Livros, 2018.(Apresenta de maneira acessível a Teologia do Corpo de João Paulo II, especialmente o significado esponsal do corpo, a vocação ao dom de si e a relação entre amor humano e amor divino.)

-WEST, Christopher. Teologia do corpo explicada: um comentário sobre “Homem e mulher os criou”, de João Paulo II. Boston: Pauline Books & Media, 2007.(Comentário aprofundado às catequeses de João Paulo II, mostrando como o significado esponsal do corpo está relacionado à criação, redenção, matrimônio, virgindade e união de Cristo com a Igreja.)

-EVERT, Jason. Teologia do corpo em uma hora. São Paulo: Paulus, 2019.(Introdução breve e acessível à Teologia do Corpo, útil para apresentar o significado esponsal do corpo e a vocação humana ao amor como dom de si.)

-HEALY, Mary. Men and women are from Eden: a study guide to John Paul II's Theology of the Body. Cincinnati: Servant Books, 2005.(Estudo da antropologia cristã de João Paulo II a partir do Gênesis, explorando a masculinidade, a feminilidade, o dom de si e o significado esponsal do corpo.)

-MERECKI, Jaroslaw. Corpo e transcendência: a antropologia filosófica na Teologia do Corpo de São João Paulo II. Brasília, DF: CNBB, 2014.(Aprofunda filosoficamente a compreensão da pessoa humana e do corpo na Teologia do Corpo, mostrando como o corpo participa da capacidade humana de realizar o dom de si e a comunhão.)

-BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. On the Song of Songs: sermons 21–46. Kalamazoo: Cistercian Publications, 1971.(Clássico da tradição monástica e mística cristã. Bernardo interpreta o Cântico dos Cânticos como expressão da relação de amor entre Deus e a alma, sendo uma das fontes mais importantes da tradição esponsal da espiritualidade cristã.)

-AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 1997.(Embora não seja uma obra sistemática sobre o amor esponsal, apresenta magistralmente a busca do coração humano por Deus e a descoberta de que somente nele encontra seu verdadeiro repouso. É especialmente importante para compreender Cristo como o Amado da alma.)

-JOÃO DA CRUZ, São. Cântico espiritual. Petrópolis: Vozes, 2014.(Uma das grandes obras da mística cristã sobre a união da alma com Deus. Utiliza a linguagem do esposo e da esposa para descrever o caminho de purificação, entrega e união transformante com Cristo.)

-TERESA DE JESUS, Santa. Castelo interior ou moradas. São Paulo: Paulus, 2014.(Apresenta o itinerário da alma rumo à união com Deus. Nas moradas mais profundas, Santa Teresa utiliza a linguagem nupcial para descrever a união espiritual da alma com Cristo e a transformação produzida pelo amor divino.)


REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES DO MAGISTÉRIO


Para fundamentar especialmente a dimensão bíblico-teológica e magisterial do estudo, também são particularmente importantes:



-CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen gentium sobre a Igreja. São Paulo: Paulinas, 2018.(Fundamental para compreender a Igreja como Corpo de Cristo, Povo de Deus e comunidade unida ao seu Senhor.)

-CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2018.(Importante para a compreensão cristã da pessoa humana, do amor conjugal, da dignidade humana e da vocação ao dom de si.)

-Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.(Fonte primária indispensável para o estudo do tema: Gênesis 2–3; Oseias; Isaías; Ezequiel; Cântico dos Cânticos; Mateus 9 e 19; João 2 e 3; 2 Coríntios 11; Efésios 5; Apocalipse 19 e 21.)


OBSERVAÇÃO BIBLIOGRÁFICA



Entre essas referências, três conjuntos são particularmente importantes para o texto desenvolvido:



1. A Sagrada Escritura — constitui a fonte primária da linguagem esponsal: Deus–Israel, Cristo–Igreja e Cordeiro–Esposa.

2. São João Paulo II — oferece a elaboração teológica mais sistemática sobre o significado esponsal do corpo, o dom de si e a relação entre matrimônio, virgindade e Reino de Deus. O próprio Papa afirma que a tradição cristã reconheceu Cristo como Esposo da Igreja e das almas, relacionando a virgindade consagrada à resposta ao amor do Esposo.

3. A tradição mística — especialmente Santo Agostinho, São Bernardo, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mostra como a linguagem esponsal foi utilizada para expressar a experiência interior da alma que busca, encontra e se une a Deus.

Assim, Maria Emmir Oquendo Nogueira pode ser apresentada no trabalho como uma autora contemporânea que desenvolve pastoral e espiritualmente uma tradição muito mais ampla, cujas raízes estão na Escritura e que atravessa o Magistério, a Teologia do Corpo e a grande tradição mística da Igreja.



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Anônimo
27 de agosto de 2026 às 12:27

Muito obrigada! Exelente postagem!

Shalom!

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