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Por que o Projeto Político do PT faliu e está falindo o Brasil ? – Veja a opinião dos especialistas pró e contra

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 17 de julho de 2015 | 09:38








I - NA VISÃO DOS SOCIALISTAS



Ao comemorar 35 anos de sua fundação, o PT vê o governo Dilma alcançar o mais alto índice de desprestígio depois de aplicar um ajuste fiscal contra os trabalhadores.




A crise do governo e o envolvimento dos dirigentes partidários em tremendas denúncias de corrupção na Petrobras atinge duramente o partido. Milhões de trabalhadores se sentem enganados pelas promessas do PT, decepcionados, traídos e se afastam da organização. A direita ganha confiança e até mesmo setores que defendem a volta dos militares saem às ruas para disputar a insatisfação popular.





O PT atual não é sequer uma caricatura do partido que gerou uma grande expectativa em milhares de militantes: a de que era possível construir um verdadeiro partido de trabalhadores, defensor dos explorados e oprimidos, que combatesse a corrupção e fosse capaz de liderar uma mudança social profunda no país.Essa esperança se foi. Não se trata, portanto, de uma crise circunstancial, passageira. É a crise de um projeto político, de uma estratégia de governo, de um programa, de uma política de alianças, de um modelo de partido.


Diante de um abalo de tamanha proporção é preciso buscar as explicações mais profundas para a degeneração do PT:




O PT foi se adaptando à política burguesa e terminou aplicando os mesmos métodos que dizia combater. Isso é parte da verdade. Mas por que se adaptaram? Por que se corromperam? Por que não houve resistência de setores dirigentes? Qual foi a lógica política e a ideologia que sustentaram este caminho?




A resposta a essas e outras perguntas é decisiva para o futuro da classe trabalhadora no Brasil. A etapa aberta com a fundação do PT e da CUT no começo dos anos 1980 chegou a um beco sem saída. É preciso encontrar uma nova estratégia e um novo caminho que retome a luta histórica dos trabalhadores e dos oprimidos deste país.



O projeto estratégico do PT



A estratégia que norteou a política dos governos do PT nestes 13 anos não nasceu de hoje nem foi fruto de uma traição. Foi fruto de um projeto que começou a ser elaborado muito antes.É verdade que em sua fundação e nos primeiros anos de sua existência, o PT se dizia um partido que defendia os direitos dos trabalhadores e demais setores explorados, lutava contra a ditadura militar e contra o imperialismo (defendia, por exemplo, a ruptura com o FMI e a moratória da dívida externa) e se autodenominava, genericamente, socialista. A contradição é que sua direção, encabeçada por Lula, procurava desde o início impor uma concepção de aliança com partidos burgueses para governar.




A queda do stalinismo:



A partir 1989, com a derrota de Lula diante de Fernando Collor e com a nova situação criada a partir dos regimes stalinistas no Leste Europeu e na União Soviética (URSS), essa concepção estratégica se impôs plenamente. Em que consistia?Para a direção do PT, o diagnóstico da situação mundial era claro. Afirmava que a queda da URSS e dos demais regimes stalinistas significava que o socialismo havia fracassado. E que, portanto, o capitalismo tinha demonstrado ser um regime forte e poderoso, inquestionável. Nesse quadro, o socialismo era uma utopia inalcançável. Os trabalhadores deveriam abrir mão do objetivo de tomar o poder e formar o seu próprio governo.




A única estratégia possível seria chegar ao governo por meio de eleições e alianças com setores burgueses “progressistas”. Essa política se materializou na eleição de Lula tendo como vice José Alencar, o maior empresário têxtil do país, e, depois, nas alianças com partidos de direita, como PMDB, PTB e até PP, para governar.Essa estratégia obrigou o partido a defender o sistema capitalista e o regime político antidemocrático que existe no país, isto é, a Constituição atual, o Estado de Direito e suas instituições como o Judiciário, o Legislativo e, principalmente, as Forças Armadas, que defendem claramente as classes exploradoras.




Supostamente, essas alianças estariam justificadas para que um governo do PT pudesse realizar reformas que melhorassem a situação dos trabalhadores e diminuíssem a desigualdade social por meio de uma melhor distribuição de renda, tirando um setor da população brasileira da miséria absoluta.




O mito do Empreendedorismo




O PT e seus governos inculcaram entre os trabalhadores a ideia de que seria possível uma ascensão social duradoura através de políticas distributivas. Entre elas, estavam as políticas sociais compensatórias como o Bolsa Família. De outro lado, estava o acesso ao crédito para facilitar o consumo, a educação superior privada (Prouni) e o empreendedorismo individual dos pequenos negócios. Com isso, se criou o mito de que estaria surgindo uma nova classe média.




Mas não se pode governar dentro do capitalismo sem privilegiar os donos do capital, ou seja, as multinacionais, os bancos, as grandes indústrias, o agronegócio e as empreiteiras. No governo, o PT fez isso de diferentes maneiras: mantendo as altas taxas de juros que favoreceram os bancos; aprovando isenções fiscais a setores empresariais como o setor automobilístico; com as privatizações disfarçadas sob a forma de concessões etc. Além disso, o BNDES atuou como instrumento de fortalecimento de grandes grupos nacionais; as empreiteiras foram tremendamente favorecidas com as obras de infraestrutura e da Petrobras, e os grandes grupos privados do setor educacional foram beneficiados com o ProUni e outros programas.




Relações internacionais



Em relação ao lugar do Brasil no mundo, a direção do PT semeou ilusões de que o país poderia chegar a ser uma nação capitalista desenvolvida, uma grande potência, um país soberano e independente sem romper com o imperialismo e seus organismos e tratados. Ao contrário, em boas relações e em acordo com os Estados Unidos.A Carta aos Brasileiros, publicada por Lula antes das eleições de 2002, em que ele se comprometia a respeitar os acordos firmados pelo país (leia-se pagar a dívida externa e interna aos banqueiros nacionais e internacionais e respeitar a propriedade capitalista), foi a manifestação mais clara do compromisso do PT com o capital financeiro nacional e internacional.



Cooptação das centrais sindicais



Para levar a cabo este projeto era essencial para o PT não só o apoio dos sindicatos e dos movimentos sociais ao governo como também sua atuação para impedir possíveis mobilizações. Para isso, utilizou várias medidas de cooptação: ganhar os ativistas para priorizar as eleições, ter como objetivo a eleição de parlamentares; integrar sindicalistas em cargos de confiança e em postos chave do governo; o controle pelos sindicatos dos fundos de pensão, como a Previ e a Funcef; destinar parte do imposto sindical para as Centrais Sindicais etc. Com isso, as principais centrais e grande parte dos movimentos sociais passaram a ser meros instrumentos de desmobilização dos trabalhadores e de defesa do governo.




Gestores da crise do capitalismo



O discurso da direção do PT procura aparentar uma mistura de reformismo (de que é possível reformas dentro do capitalismo) com o antigo discurso burguês nacional-desenvolvimentista.


Mas por que esse discurso não surte mais efeito e é repudiado como hipócrita por milhões de trabalhadores?

Porque a realidade fala mais que milhares de palavras. A prática do governo do PT é oposta ao seu discurso. O governo tem sido o principal agente do imperialismo e da burguesia para fazer o ajuste econômico que nada mais é que obrigar os trabalhadores a pagarem pela crise. Para isso, o governo Dilma encabeça o ataque aos direitos sociais como o seguro-desemprego; aumenta a tarifa de luz e os combustíveis; e coloca o ministro da Fazenda, o banqueiro Joaquim Levy, para negociar o PL das terceirizações no Congresso.




No governo de um Estado capitalista, o PT não pode fugir da lógica de um gerente de negócios do capital. Quando chegam as crises produz-se, inevitavelmente, uma redução da renda nacional. A burguesia procura aumentar a exploração e destrói as políticas de distribuição de renda anteriores. No plano internacional, o imperialismo aumenta a exploração dos países dependentes para tentar superar a crise econômica mundial. O gerente obedece as ordens dos patrões. O PT cumpre as determinações dos verdadeiros donos do poder de Estado, defende o capitalismo e ataca os trabalhadores. Essa é a essência da crise atual do governo.




Corrupção



O envolvimento do PT nos grandes esquemas de corrupção e na formação dos cartéis de grandes obras e serviços, além da óbvia corrupção de seus dirigentes, obedece à mesma lógica. A corrupção é um instrumento a serviço da acumulação capitalista burguesa baseada na pilhagem do Estado. Em todos os países capitalistas, no Brasil talvez de forma exacerbada, a corrupção e o roubo fazem parte do jogo democrático. Ao se colocar à frente do Estado burguês capitalista, a direção do PT passou a reproduzir os métodos burgueses de gestão pública.




Uma alternativa ao PT



A conclusão é evidente: o projeto do PT faliu e entrou em crise junto com o partido. É preciso que surja uma nova alternativa partidária que represente os interesses históricos da classe trabalhadora. Estão abertas as condições para que esta alternativa se desenvolva.No entanto, não é nenhuma solução o surgimento de novos partidos de esquerda que repitam e privilegiem a mesma estratégia do PT.


Que tipo de partido, programa e organização de classe necessitamos?


Começar este debate para construir um forte partido socialista dos trabalhadores será uma tarefa de milhares de ativistas do movimento sindical e popular.


Em uma entrevista para o Blog do Zé Dirceu, *Lincoln Secco aprofunda questões que deveriam  estar em debate no 5º Congresso do PT. Ele é um dos signatários do manifesto O PT não vai matar o Petismo, apesar de não ser um de seus organizadores. E explica o que o atraiu no texto: “ele pede que o PT internalize a democracia que defende para a sociedade. No 4º Congresso o PT tinha avançado nisso. As mulheres têm que ser metade da direção e foi aprovada a rotatividade dos mandatos parlamentares. A pergunta é: isso será respeitado?




O que será do PT se ele não mudar?”


Para Secco, o problema do PT não é de conteúdo, é de forma. O PT precisa internalizar a democracia que defende para a sociedade. Como essas duas questões (forma e conteúdo) são intrinsecamente ligadas, o fato de o PT ter deixado de fazer trabalho de base e ter priorizado as questões institucionais afastou-o dos movimentos vivos na sociedade.


“Mais que retomar origens, é preciso aprender com aqueles que reinventam o que PT foi. Veja Junho de 2013: Ali se inaugurou para o bem ou para o mal um novo ciclo político. Ele teve a ver com as transformações que Lula promoveu, mas também com alterações da forma. O PT foi inovador, não é mais. As militantes e os militantes promovem hangouts, o facebook se massificou no Brasil em 2013 e o ‘zap zap’ na gíria popular funciona mais do que qualquer panelaço”, diz ele.Quer saber como fazer? Veja os novos coletivos, aprenda com eles. Produza uma pauta única e agregadora, antecipe respostas.Um exemplo: a criminalização da esquerda seria algo para o PT debater no 5º Congresso. Mas como o PT do poder é pragmático, ele só repete a ladainha do republicanismo e não mobiliza ninguém.”



Quando vence, os “aliados” voltam logo para preencher os cargos. É que o Brasil vive desde 2005 aquilo que o filósofo Paulo Arantes chama de polarização assimétrica:


“A direita só quer impedir um governo, um governo que sequer reage. Nós temos um antecedente histórico. Quando Getúlio Vargas ganhou em 1950 disse que o governo seria popular e o ministério reacionário. A esquerda tinha que ser pragmática, e a direita ideológica. O problema é que a ideologia da direita brasileira é a do liberalismo oligárquico, de fachada. Quando ela radicaliza, apela para golpes. Dava para entender o medo do Getúlio porque o exército o ameaçava toda hora e ele já tinha sido derrubado uma vez. Mas o petismo tem outra situação histórica. Poderia mobilizar mais, mesmo num país conservador. Ele foi ao poder para mudar e não para conservar. Eu sei que os constrangimentos da presidenta são enormes. O nosso problema foi que com o fim do “poder moderador” das Forças Armadas a dominação de classe se ancorou no judiciário. O PT sofre com isso e os novíssimos movimentos sociais também. A criminalização da esquerda seria algo para o PT debater no 5º Congresso. Mas como o PT do poder é pragmático, ele só repete a ladainha do republicanismo e não mobiliza ninguém.”


*(Lincoln Secco é professor Livre Docente de História Contemporânea na USP e autor de História do PT - Editora Ateliê).


Artigo da série “Crise e degeneração do PT”, lançada na edição Nº 495 do jornal Opinião Socialista



II - NA VISÃO CONTRÁRIA AOS SOCIALISTAS




O Brasil do PT



A entrevista do teórico do PT, Marco Aurélio Garcia, no Jornal da Tarde de 12 de janeiro, mostra que, por trás de uma tranquilizante fachada moderninha, esse partido não tem nada a propor senão o bom e velho comunismo.



Segundo o entrevistado, o governo do PT não será socialista. Os ingênuos tomam esta promessa como uma garantia. Mas, prossegue Marco Aurélio, esse governo será uma "democracia popular" e constituirá "um aperfeiçoamento do capitalismo" com vistas a "um horizonte socialista"; um horizonte vago e indistinto o bastante para não alarmar o eleitorado.


O que o eleitorado, novo e inculto, ignora por completo é que aperfeiçoar o capitalismo para chegar ao socialismo não é nenhuma proposta nova, mas sim a única estratégia de governo comunista que já existiu e a única que poderia existir, já que, segundo Marx, o socialismo não pode ser implantado antes que o capitalismo desenvolva suas potencialidades até o esgotamento.



O PTISMO COMO GOVERNO DE TRANSIÇÃO AO COMUNISMO



A função do governo de transição, "democrático-popular", é acelerar esse esgotamento. Na Rússia, essa fase intermediária chamou-se NEP, Nova Política Econômica, implantada por Lênin logo após a tomada do poder pelos comunistas.


Se o próprio Lênin, subindo ao poder no bojo de uma revolução armada, não implantou logo o comunismo, e sim apenas um "capitalismo aperfeiçoado", por que o PT haveria de fazer mais, levado ao poder pela via gradual e pacífica do gramscismo?



Marco Aurélio Garcia, prosseguindo na linha tranquilizante, assegura que os empresários nada perderão e terão tudo a ganhar no Brasil petista:


"Se queremos desenvolver um grande mercado de massas, é claro que grande parte da burguesia vai tirar proveito disso." Mas é exatamente o que dizia Lênin: não se pode fazer a transição para o socialismo sem que, na passagem, a burguesia ganhe um bocado de dinheiro com o incremento dos negócios. Nisto consistiu precisamente a NEP. Mas não se pense que os comunistas fiquem tristes com a súbita prosperidade dos seus desafetos. Ao contrário: acenando com a promessa de ganhos rápidos, o governo comunista faz trabalhar em favor da revolução a cobiça imediatista dos burgueses, cumprindo a profecia de Lênin: "A burguesia tece a corda com que será enforcada." O truque é simples: com o progresso rápido do capitalismo, cresce também rapidamente o proletariado, base de apoio do governo comunista. Tão logo esta base esteja firme para sustentar o governo sem a ajuda dos burgueses, o governo puxa o laço. Em seguida os burgueses mortos ou banidos são substituídos em suas funções dirigentes por uma nova classe de burocratas de origem proletária ao menos nominal.



Garcia diz que o PT quer um "Estado forte", dotado de "mecanismos de controle do Parlamento, da Justiça, do Tribunal de Contas e das estatais". Mas que diabo é isto senão o totalitarismo mais descarado?



Nas democracias, a autonomia dos três poderes tem sido um mecanismo confiável e suficiente para o controle do poder. O que o PT advoga é que dois desses poderes sejam controlados por um terceiro, o Executivo, desde o momento em que este caia nas mãos do sr. Luís Inácio Lula da Silva. Nesta hipótese, dará na mesma que o Executivo policie os outros dois poderes diretamente, numa ditadura ostensiva, ou que o faça por intermédio de organizações autonomeadas representantes da sociedade civil — sindicatos, ONGs, grupos de intelectuais, grêmios estudantis — e controladas, por sua vez, pela facção política dominante, isto é, pelo PT: em ambos os casos, o que teremos será o crescimento hipertrófico do poder e seu absoluto descontrole.



Interrogado sobre o destino que o governo petista dará às Forças Armadas, Garcia responde, com toda a clareza de quem diz exatamente o que pensa:




Mudar a Constituição, para que as Forças Armadas deixem de ter, entre suas atribuições, a de combater inimigos internos, e passem a se incumbir exclusivamente da defesa das fronteiras nacionais. Ora, mandadas para a fronteira, desligadas do combate a inimigos internos, as Forças Armadas estarão duplamente impedidas — pela obrigação constitucional e pela distância — de mover um só dedo contra o crime organizado, que, sob aplausos de uma certa intelectualidade esquerdista, já domina um Estado da Federação. Se, ampliando o que hoje acontece no Rio, uma aliança entre políticos e delinquentes atear fogo ao país inteiro, as Forças Armadas nada poderão fazer contra isso, porque estarão, fiéis ao dever constitucional, aquarteladas num cafundó amazônico, velando contra a “iminente” invasão boliviana ou talvez dando nos marines uma surra de fazer inveja ao vietcongue.



Mas será estranho que um dirigente petista alimente esse projeto insano, quando seu partido também tem, entre seus principais quadros teóricos, um tal sr. César Benjamin, biógrafo-apologista do fundador do Comando Vermelho?


Recordemos: escrito com a ajuda deste teórico petista, o livro em que o quadrilheiro William Lima da Silva faz a apologia do crime foi publicado pela Editora Vozes, da esquerda católica, e lançado, com noite de autógrafos e muita badalação, em cerimônia realizada na sede da ABI em 199l. Apesar do que dispõe o Art. 287 do Código Penal, ninguém foi processado. Alguns vêem em fatos como esse perigosos sinais de ligações entre as esquerdas e o crime organizado. Se há ou não aí uma aliança política subterrânea, é algo que só o tempo dirá. Mas que as esquerdas estão ligadas ao Comando Vermelho pelo passado comum e por uma profunda afinidade "espiritual" baseada no culto dos mesmos mitos e dos mesmos rancores, é coisa que está fora de dúvida. E como os senhores do crime não haveriam de sentir essa afinidade como um verdadeiro reconforto, diante da promessa petista de tirar do seu caminho o único obstáculo que ainda pode inibir suas ambições?



A proposta petista de aumentar a dotação orçamentaria das Forças Armadas em troca de retirar delas a responsabilidade pelo combate ao inimigo interno é puro suborno, em que o PT veste implicitamente a carapuça de inimigo interno. Se ainda existe consciência estratégica entre os militares, a proposta indecente será repelida.


Enfim, se Marco Aurélio Garcia procura aplacar o temor ante o espectro comunista dizendo que o regime petista não será socialismo e sim "democracia popular", também nisto não há novidade alguma: todos os regimes comunistas se intitulavam "democracias populares".



O PT, seguindo a lição de Hitler, não se dá sequer o trabalho de ocultar o que pretende fazer:


Anuncia seus planos abertamente, contando com a certeza de que o wishfulthinking popular dará às suas palavras um sentido atenuado e inocente, sem enxergar qualquer periculosidade mesmo nas ameaças mais explícitas. Afinal, quanto mais assoberbado de males se encontra um povo, mais ansioso fica de crer em alguma coisa e menos disposto a encarar com realismo a iminência de males ainda maiores. Nessas horas, a maneira mais segura de ocultar uma intenção maligna é proclamá-la cinicamente, para que, tomada como inverossímil em seu sentido literal, seja interpretada metaforicamente e aceita por todos com aquela benevolência compulsiva que nasce do medo de ter medo. Quando Hitler prometeu dar um fim aos judeus, também foi interpretado em sentido metafórico.



A predisposição da opinião pública para não enxergar o risco evidente nasce, por um lado, da própria hegemonia que as ideologias de esquerda exercem sobre o nosso panorama cultural, impondo viseiras psicológicas mesmo a pessoas que, politicamente, divergem da esquerda. A política é apenas uma superfície da vida social, e de nada adianta divergir na superfície se, no fundo — nas convicções morais, nos sentimentos básicos, nas atitudes vitais elementares — copiamos servilmente o figurino mental do adversário.



Nasce, por outro lado, da ilusão de que o comunismo está morto. É um excesso de ingenuidade — ou, talvez, medo de ter medo — supor que o fracasso do comunismo no Leste europeu liquidou de vez as ambições dos comunistas em toda parte:


“O ressentimento move montanhas, dizia Nietzsche.”


Particularmente no Brasil, é muito profunda nas esquerdas a aspiração mítica de alcançar uma vitória local que, pelo seu próprio caráter inesperado e tardio, possa resgatar a honra do movimento comunista humilhado em todo o mundo.


Permitir que o PT realize seus planos de "democracia popular", sob o pretexto de que o comunismo é um cavalo morto, é arriscar-se a um coice que provará a vitalidade do defunto.



Ademais, os movimentos das ideias no Brasil não acompanha pari passu a evolução do mundo, mas fica sempre atrás:


1)-Em 1930, quando o positivismo de Augusto Comte já era peça de museu no seu país de origem, uma revolução tomou o poder no Brasil inspirada no modelo positivista do Estado.


2)- O espiritismo, moda européia que morreu por volta da Primeira Guerra sem nunca mais reencarnar, ainda é no Brasil quase uma religião oficial.


3)- Nossos intelectuais ainda estão empenhados no combate ao lusitanismo em literatura, quase um século depois de rompido o intercâmbio literário entre Brasil e Portugal.


4)- As velhas religiões africanas, que os negros de todo o mundo vão abandonando para aderir ao islamismo, aqui vão conquistando novas massas de crentes entre os brancos.


Enfim, o tempo nesta parte do mundo corre ao contrário. Por que o comunismo, morto ou moribundo em toda parte, não poderá ressurgir neste país, fiel ao atraso crônico do nosso calendário mental? Pelo menos é o que nos promete a entrevista de Marco Aurélio Garcia: se depender dele, não falharemos em nossa missão cósmica de coletores do lixo refugado pela História.



Homens de formação arraigadamente marxista, insensíveis durante toda uma vida a quaisquer outras correntes de idéias, simplesmente não podem, no breve prazo decorrido desde a queda do Muro de Berlim, ter feito uma revisão profunda e séria de suas convicções:




Mudanças, se houve, foram epidérmicas, para não dizer simuladas. A força atrativa do messianismo comunista não acabou: refluiu para a obscuridade, de onde, vitalizada pelo apelo nostálgico e pela ânsia de um renouveau transfigurador, está pronta a ressurgir ao menor sinal de uma oportunidade.


Declarações improvisadas de arrependimento nada significam, sobretudo em homens que, habituados por uma praxe do cerimonial comunista a utilizar-se de rituais de "autocrítica" como instrumentos de sobrevivência política, acabaram por assimilar profundamente o vício da linguagem dúplice, a ponto de torná-la uma segunda natureza. Um século de história do comunismo prova que nada iguala a capacidade da esquerda de tapar os próprios ouvidos à verdade, senão a sua habilidade de desviar dela os olhos alheios.


A pressa mesma com que alguns próceres comunistas compareceram ante as câmeras de TV para declarar a falência do comunismo é suspeita, uma vez que em nenhum deles a desilusão foi profunda a ponto de fazê-lo desejar abandonar a política.(”O próprio Lênin dizia que na luta pela implantação do Comunismo ás vezes é necessário dar um passo para a frente e dois para trás”).Do dia para a noite, desvestiram a camisa soviética, vestiram um modelito novo, e sem mais delonga reapareceram, prontos para outra, com o maior vigor e animação, discursando com aquela certeza, com aquela segurança de quem jamais tivesse sido desmentido pelos fatos. Acredite nessa gente quem quiser.



Da minha parte, não duvido de todos os comunistas. Acredito em Antonio Gramsci, quando diz que:

“O Partido é o novo "Príncipe" de Maquiavel, e acredito em Bertolt Brecht, quando diz que para um comunista a verdade e a mentira são apenas instrumentos, ambos igualmente úteis à prática da única virtude que conta, que é a de lutar pelo comunismo.




Observações finais:



Expondo em conferências as idéias que depois viria a registrar neste livro, muitas vezes recebi dos ouvintes a exigência de uma "definição política". Sentiam-se desconfortáveis ante um interlocutor sem filiação identificável, algo assim como um UFO ideológico, e desejavam saber com quem estavam falando.


Minha resposta, invariavelmente, tem sido a seguinte:


O pressuposto dessa exigência é que não se pode criticar uma ideologia senão em nome de uma outra ideologia, dentre as reconhecidas no catálogo do momento. Esse pressuposto, por sua vez, funda-se num preconceito meio historicista, meio sociologista, segundo o qual todo pensamento individual é apenas "expressão" de algum anseio coletivo, e deve a este sua validade. Em oposição a este preconceito e àquele pressuposto, estou profundamente convicto de que somente o pensamento do indivíduo como tal pode ter validade objetiva, pois não há verdade senão para a consciência reflexiva, que só existe no indivíduo. As correntes de pensamento coletivas apenas manifestam desejos, anseios, temores, e jamais se levantam ao nível de autoconsciência crítica no qual a distinção entre verdade e falsidade pode ter algum sentido. Somente a autoconsciência do indivíduo pode captar essa distinção, ascender à esfera dos juízos universalmente válidos e da veracidade objetiva. Logo, é ela quem é juiz do pensamento coletivo.


A monstruosa inversão que submete o juízo da consciência individual ao critério das ideologias coletivas provém de uma mutilação da mente moderna, incapaz de atinar com alguma "universalidade" que não seja meramente quantitativa, reduzida portanto à "generalidade" e, em última análise, à validação puramente estatística. Como, de outro lado, toda prova estatística pressupõe a validade universal das leis da aritmética elementar, cujo fundamento é a evidência apodíctica somente acessível à consciência individual, o primado do pensamento coletivo repousa numa autocontradição pela qual nega sua própria validade.



Para piorar ainda mais as coisas, o pensamento coletivista, não tendo acesso à esfera da validade objetiva, logo perde toda referência ao "objeto" como tal e se fecha num subjetivismo coletivo: da estatística dos "fatos" caímos para a estatística das "opiniões", e a contagem dos votos se torna o supremo critério da veracidade. Este processo, que se inicia na esfera da política, termina por contaminar a ciência mesma, onde hoje em dia ouvimos apelos generalizados em favor da aceitação de critérios puramente retóricos de argumentação como fundamentos legítimos da credibilidade cientítica. O marketing, em suma, é elevado a ciência suprema, modelo e juiz de todas as outras ciências.



Ou aceitamos esse resultado, ou devemos negar pela raiz o primado do pensamento coletivo, restaurando a consciência individual no posto de dignidade que lhe cabe. E, neste caso, deveremos admitir que o indivíduo humano possa elevar-se acima das ideologias e julgá-las, contanto que não o faça em nome de um protesto pessoal e subjetivo, mas em nome da veracidade universal e apodíctica, da qual ele, com todas as suas fraquezas, com todos os seus condicionamentos limitantes, continua, afinal, o único representante sobre a Terra.



No século XX, a consciência individual sofreu, das pseudociências emergentes, os mais violentos ataques, que pretenderam negá-la, reduzi-la a um epifenômeno dos papéis sociais introjetados, a uma projeção do instinto de sobrevivência, a uma ficção gramatical, a mil e uma formas do falso e do ilusório. De outro lado, no campo das técnicas psicológicas, nunca se investiu tanto na busca de meios para subjugar a consciência individual, quebrar sua autonomia, forçá-la a repetir mecanicamente o discurso coletivo.


Se o nosso é o século do marxismo, da psicanálise, do estruturalismo, é também o da hipnose, o das técnicas de influência subliminar, o da lavagem cerebral, o da "modificação de comportamento" e o da Programação Neurolinguística. Se, por um lado, tudo se faz para demonstrar teoricamente a inanidade da consciência individual, de outro lado não se poupam esforços para reprimi-la e subjugá-la.


Ora, estas duas séries de fatos, quando confrontadas, sugerem uma pergunta: para que tanto empenho em derrotar na prática algo que, em teoria, não existe? Se o cavalo está morto, para que açoitá-lo com tanta fúria?



Este é alias o tema de um livro que estou preparando, A Alienação da Consciência:


É uma resenha dos ataques teóricos e práticos dirigidos pelas doutrinas pseudocientíficas, em aliança com os governos totalitários ou com o establishment tecnocrático, contra a autonomia da consciência individual. Foi este estudo, precisamente, que me levou à rejeição completa e taxativa de todo pensamento ideológico.


Não me perguntem, portanto, em nome de que ideologia combato esta ou aquela ideologia. Combato-a desde um plano que não é acessível ao pensamento ideológico, e que só existe para a autoconsciência individual, quando firmemente decidida a não abdicar de seu direito — e de seu dever — à verdade e à universalidade. Em consequência, também não me dirijo a ouvintes e leitores enquanto representantes desta ou daquela facção ou grupo, mas enquanto portadores de uma inteligência universalmente válida, capaz de sobrepor-se ao discurso de facções e grupos e julgá-lo objetivamente.


Não converso com fantoches coletivos, mas com seres humanos, investidos da dignidade suprema da autoconsciência, que os torna imagens de Deus. Se, enquanto apegada à identidade biológica e sujeita portanto à ilusão passional, a consciência do indivíduo é pura Maya, por outro lado é somente o indivíduo, e não o aglomerado estatístico das coletividades, que pode ascender ao plano da universalidade onde é lícito dizer: Eu sou Brahman.


Aos que, lido este apêndice, enxergarem no autor um hidrófobo “antipetista”, advirto que votei em Lula para presidente e o faria de novo, com prazer, se ele tomasse as seguintes providências:



1)- Banir do seu partido o elenco de vedettes intelectuais que, formadas numa atmosfera marxista, e apegadas a ela como um bebê à saia da mãe, insistem em manter aprisionado nela o movimento socialista que anseia por novas idéias. Exorcizar de vez os fantasmas de Marx, Lênin, Débray, Althusser, Gramsci e tutti quanti, e permitir que a idéia socialista cresça livre de gurus e totens. Quando Lula diz que nossas elites viveram "com os olhos voltados para a França e a bunda voltada para o Brasil", não percebe ele que isso é uma descrição exata da elite intelectual petista, e esquerdista em geral?



2)- Reprimir o uso de táticas de movimento clandestino e revolucionário, que são indecentes num partido que professa conviver democraticamente com outros partidos num Estado de direito. Infiltração, espionagem, delação, boicote moral podem ser necessários e inevitáveis a um movimento de oposição que queira sobreviver numa ditadura. Em regime de liberdade, são práticas intoleráveis, principalmente em políticos que posam de professores de ética. Quando os apóstolos da ética citam como um exemplo para o Brasil o que os americanos fizeram com Nixon após o caso Watergate, esquecem de dizer que Nixon não caiu por causa de um desvio de verbas, mas por causa da prática de espionagem. Se a corrupção é um crime, a espionagem é um ato de guerra, que destrói, pela base, o edifício democrático.


Lula é um homem decente e, como disse Francisco Weffort:

“é alguém maior do que o seu partido.Se ele se utilizar da tremenda força do seu prestígio para exterminar esses dois vícios: o marxismo e o clandestinismo, o Partido dos Trabalhadores se transformará naquilo que seu nome promete, deixando de ser apenas o partido da nostalgia comunista.”

Olavo de Carvalho

Fonte: www.olavodecarvalho.org/livros/nefinais.htm
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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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