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QUE IGREJA QUEREMOS ? QUE PRIORISE AS QUESTÕES SOCIAIS DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO OU AS QUESTÕES EXISTENCIAIS COMO NA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA ?

Written By Beraká - o blog da família on segunda-feira, 24 de janeiro de 2011 | 00:23

QUE IGREJA QUEREMOS ?
A perspectica ek-xistência de Heidegger, define a estrutura ontológica do ser humano como " BIDIMENSIONAL", isto é, tem tanto um lado objetivo quanto um lado subjetivo. 


Essa consciência da bidimensionalidade estruturante do existir vem à tona nos chamados momentos de crise pessoal e ou, social,como um voltar-se para fora,para o mundo e no mundo, ou um voltar-se para dentro de si na busca de solução e respostas.




A Teologia da Libertação ao fazer uma opção preferencial e quase exclusiva pelo probre, deixou de pastorear a classe média e rica que debandaram para o protestantismo.
Ao tratar somente da questão social, deixou as questões existencias sem respostas, e este mesmo probre também foi buscar as respostas nas seitas.

A Renovação Carismática vem preencher este vazio doutrinal e pastoral não suprido e considerado irrelevante  pela TL.
Porém a RCC não tem a experiência para tratar das necessárias questões sociais, e por isto fui duramente atacada e excluida da Igreja por esta ala, que a taxou de alienada e emotiva.

Diante destes dois temas relevantes na atualiadade fazemos a pergunta :
Qual Igreja queremos ?


Autor: João Roberto dos Santos da Costa e Silva * 

*Administrador de Empresa, Filósofo, Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Ciência Política e Humanidades, atualmente trabalha com Consultoria Filosófica. 2 A pesquisa no Doutorado teve inicio em 2000 na Universidad de Navarra, em Pamplona. A tese sobre a liberdade individual no pensamento de Tocqueville foi apresentada no dia 18 de dezembro de 2008 na Universidade San Pablo CEU de Madri. Considero que o pensamento de Karol Wojtyla ajudou-me substancialmente na compreensão dos temas tocquevillianos sobre a dignidade do homem como homem.

Resumo: Neste artigo apresento um tema relevante para superar a crise moral do mundo moderno. Examino um dos grandes legados do Venerável Papa João Paulo II, que inserem a doutrina do Concílio Ecumênico Vaticano II nos debates sobre a vida, a sociedade e a cultura. Ele apresentou a liberdade responsável como uma realidade que fará com que o homem moderno responda, de verdade, ao sempre atual convite de Jesus Cristo, “vem e segue-me”. Sua resposta é não somente a porta para a liberdade responsável, mas também para a Salvação. O Pontífice dedicou-se à antropologia cristã, que ensina o homem a ser homem, superando as teses de Kant sobre a ordem moral convencional.
Palavras Chave: Liberdade responsável. Consciência moral. Opções vitais fundamentais. História da Salvação. Filosofia perene.

 A “Carta Encíclica Veritatis Splendor” pertence ao conjunto de documentos da doutrina social da Igreja, e está centrada na permanente Aliança de Deus com os homens. Neste texto mostro um aspecto do método pedagógico de Karol Wojtyla direcionado para o conhecimento da realidade espiritual e material: a análise fenomenológica. Ele considera, fundamentado na verdade revelada nas Sagradas Escrituras, dois fulcros, suportes ou “chão” próprios do mundo cristão, que são a amizade de Deus com cada pessoa humana e a paz que o homem encontra quando dá sua adesão ao convite de Jesus Cristo de realizar efetivamente a vida cristã.
O Pontífice analisa comparativamente a situação do jovem do Evangelho e a do homem moderno. Ele quer ensinar o dinâmico projeto da civilização do amor e da paz. Com essa intenção, oferece subsídios para a efetiva formação da consciência moral da pessoa. Evidentemente, a ordem moral constitui a chave da liberdade responsável.
Veremos que João Paulo II convida o homem moderno a decidir-se pela liberdade responsável. Sua meta é a construção de uma verdadeira vida intelectual, moral e espiritual, fato que auxilia a pessoa a desenvolver a inteligência.
1- A estrutura lógica da Carta Encíclica Veritatis Splendor: o objeto de análise, o método pedagógico, o objetivo e a justificativa:
O objeto de análise da Encíclica concentra-se nos problemas que envolvem a vida humana no mundo contemporâneo e na possibilidade do homem, isto é, cada um de nós (inclusive eu e cada leitor), de descobrir o caminho da liberdade em sua união com Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado. De modo análogo ao jovem rico do Evangelho, em seu encontro pessoal com Cristo, o homem contemporâneo está chamado a responder objetivamente a seus desafios. Entretanto, para abraçar a doutrina cristã em plenitude, precisa de uma adequada formação da consciência moral que lhe ajude a responder com o adequado uso da razão às exigências da liberdade responsável. Não podemos esquecer que o jovem rico só foi capaz de responder emotivamente, uma resposta vinculada a um sentimento mesquinho do possuir que anulou a verdadeira dimensão do seu ser.

O drama do jovem rico do Evangelho constitui um método pedagógico importante nesta Encíclica. O Pontífice estabelece uma analogia entre o jovem que não aceita o convite de Jesus e o homem contemporâneo que vive de costas para Deus. Com isso, ele questiona alguns problemas que arruínam o mundo intelectual contemporâneo. 3
Por exemplo, o historicismo, uma doutrina no campo da história segundo a qual a história de cada indivíduo seria suficiente para explicar sua natureza e valor. Essa epistemologia provoca um reducionismo antropológico e põe em evidência as teorias desenvolvidas pelos filósofos da Ilustração que negaram a fé.
A crítica a esse modo irreal de fazer história constitui o ponto de partida do objetivo do Pontífice. Na verdade, ele quer dar subsídios para que cada ser humano possa recuperar o lugar que lhe é devido na construção de sua própria história abraçando o bem espontaneamente. Nessa dinâmica de grandeza antropológica, a vontade precisa ser adequadamente educada porque jogará um papel essencial na realização plena do ser. Essa meta é a identificação com Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida. Está estabelecida, portanto, a contraposição entre a antropologia de Karol Wojtyla e a antropologia de Immanuel Kant.


Esta temática se justifica devido à luta de João Paulo II contra as diversas formas de totalitarismo e os demais erros da modernidade no campo social, político, econômico, jurídico, cultural, entre outras dimensões da vida humana que sofrem a influência nefasta do excessivo racionalismo. João Paulo II põe o dedo em algumas feridas da modernidade. Por exemplo, o pensamento de George Hegel e sua teoria da história; os totalitarismos do século XX como o marxismo, o nazismo, e o fascismo; e a opção pela economia neoliberal. Esse conjunto de ideologias destroça a qualidade da vida humana.

O argumento da liberdade responsável com referência ao educador cristão (a verdadeira liberdade)
João Paulo II no Magistério Pontifício considera o quadro intelectual de nossos dias, e mostra ao educador cristão que a formação da consciência moral e a conquista da liberdade responsável constituem duas tarefas urgentes para solucionar a crise de identidade no mundo moderno. A evangelização, a catequese e a escola cristãs ganham novo alento com a “Carta Encíclica Veritatis Splendor”. Surge um novo sentido da vida diante da missão urgente do reencontro do homem com Deus e consigo próprio.

Na Encíclica é manifesta a vontade de dialogar com os demais especialistas em cristianismo, moral, antropologia e ciências sociais. Ele mostra que a capacidade de cada ser humano de realizar opções vitais fundamentais está intrinsecamente unida ao conteúdo de sua formação e grau de liberdade. O homem é um ser que quer viver em liberdade. Por essa razão, como cabeça visível da Igreja, ele exorta os responsáveis pela formação humana a ensinar a todos o caminho para a Aliança com Deus e a felicidade.

A liberdade responsável está vinculada a uma verdadeira liberdade, a qual transcende todos os tempos. Neste sentido, a Carta Encíclica Veritatis Splendor ajuda cada ser humano a reencontrar a linha da história pessoal em relação com a História Universal e a História da Salvação. Em seu combate ao historicismo, Wojtyla explica que o Verbo de Deus se encontra presente a cada momento da história, e que essa presença é decisiva para conduzir os homens até Deus. O célebre “a Deus, por Cristo no Espírito Santo” constitui uma verdade de fé que a comunidade científica está chamada a compreender, a viver e a apoiar, em defesa das opções vitais fundamentais de cada ser humano.

No contexto da doutrina cristã, a escolha consciente vincula-se inequivocamente ao equilíbrio entre a fé e a razão. Escreve o Pontífice:
O interesse pela liberdade, hoje particularmente sentido, induz muitos estudiosos de ciências, quer humanas quer teológicas, a desenvolver uma análise mais profunda da sua natureza e dos seus dinamismos. Salienta-se acertadamente que a liberdade não é só a escolha, “decisão sobre si mesmo” e determinação da própria vida a favor ou contra o Bem, a favor ou contra a Verdade, em última análise, a favor ou contra Deus. Justamente se destaca a elevada importância de algumas opções, que dão “forma” a toda a vida moral de um homem, configurando-se como o sulco dentro do qual poderão encontrar espaço e incremento as demais escolhas cotidianas particulares (JOÃO PAULO II, 1993, p. 102, art. 65).
Com esta referência ao pro-Deo e o contra-Deum, o conversio e o anversio de Santo Agostinho, estamos em presença dos dois elementos que definem a linha de análise fenomenológica da Veritatis Splendor. Como já me referi anteriormente na introdução, para examinar a liberdade responsável é preciso considerar a amizade de Deus com cada pessoa humana e a paz que o homem encontra quando dá sua adesão ao convite de Jesus Cristo de realizar efetivamente a vida cristã.
Segundo a História da Salvação, a Aliança de Deus com os homens vincula-se à misericórdia, ao amor, ao perdão. Além disso, a paz é um dom que só Cristo pode dar. Para construir a civilização da paz e do amor caberá a cada ser humano empenhar-se com todo empenho na realidade espiritual e material. Não há a menor sombra de dúvida. Essa dimensão vital depende do querer livre, a liberdade responsável. A amizade originária de Deus com o homem está presente na doutrina social de João Paulo II, o grande mestre da filosofia perene.

Em seu magistério, João Paulo II mostra as diversas enfermidades pessoais e sociais que arruínam a vida individual e coletiva. Os graves problemas da modernidade estão, de certo modo, vinculados a acontecimentos difíceis, os conflitos conjugais e familiares, os graves problemas trabalhistas, a solidão, entre outros acontecimentos. Tudo isso prejudica e leva a uma ruptura das relações familiares, sociais e profissionais. Evidentemente tudo isso provoca a crise existencial e espiritual na qual o indivíduo humano torna-se incapaz de perceber o sentido da própria vida.
O Pontífice refere-se ao drama do jovem egoísta que se mostrou incapaz de dar sua adesão ao convite de Jesus. Nesse argumento é nítida a falta da liberdade responsável, o elemento que lhe permite explicar as causas que levam o homem contemporâneo a rechaçar o convite de Jesus de segui-lo incondicionalmente. O jovem rico, que, durante toda a vida, tinha cumprido os mandamentos em referência a um querer meramente formal e convencional, sem dizer o que lhe vinha de dentro do coração deixou-se levar pela tristeza, o emocional, no momento que o Senhor lhe dirigiu o convite “vai e vende o que tens e dá-o aos pobres”. Seguir o Senhor teria sido o grande passo de sua vida. Infelizmente, ao invés de permanecer nas páginas do Evangelho, desapareceu sem deixar rastro por ter achado que Jesus pedia demais...

Este é o drama pessoal de um personagem que poderia ter-se dedicado à educação cristã com seu exemplo, mas que, por falta de uma maior grandeza de alma, não estava preparado para assumir compromissos efetivos e duradouros. O convite de Jesus colocava em contraposição a soberba do ter e a humildade do ser, uma contraposição difícil de administrar devido à soberba. O homem pecador necessita de um elevado grau de maturidade aliado à graça para realizar a escolha acertada.

João Paulo II participa do debate moral da atualidade, em torno ao qual aparecem inúmeras tendências e teorias que questionam e negam os fundamentos da doutrina moral cristã. No entanto, a moral cristã é o aspecto ético da Revelação de Deus aos homens, na pessoa histórica, concreta e viva de Jesus Cristo, o Verbo de Deus Encarnado, a sólida rocha na qual os cristãos depositam sua esperança na construção de um mundo onde exista a caridade, a solidariedade e a subsidiariedade. João Paulo II examina a condição humana do homem contemporâneo, indica sua falta de liberdade e reitera a importância de propor às pessoas, e especialmente aos jovens, os modelos e as experiências que os ajudem a crescer nas dimensões humana, espiritual, psicológica, moral e intelectual. A cultura moderna apresenta um déficit de pontos de referência. Ora, isso é um perigo porque a falta de modelos contribui para fragilizar a pessoa humana induzindo-a a considerar que todos os comportamentos se equivalem.

Diante desse quadro, é fundamental que a família, a escola, os movimentos de jovens, as associações paroquiais e os educadores passem a cuidar da formação da pessoa humana no sentido de revogar o predomínio do relativismo, do utilitarismo e do pragmatismo. A antropologia pedagógica foi desenvolvida de modo inovador no Concílio Ecumênico Vaticano II, que representa o grande empenho de João XXIII de estabelecer o diálogo da Igreja com o mundo moderno, o célebre aggiornamento proposto pelo Vat. II.

Com o importante diálogo da Igreja com o mundo será possível fazer frente à falta de fé e conquistar a liberdade responsável. Entretanto, João Paulo II questiona a facilidade com que aumenta o número de teorias que se afastam das verdades do Evangelho e que agravam a crise de identidade do homem contemporâneo. Essa é uma crise da unidade, da verdade, da bondade, e da beleza do ato especificamente humano.

Como já foi dito anteriormente, esse reducionismo antropológico põe em evidência as teorias desenvolvidas pelos filósofos da Ilustração, aqueles que exaltaram o uso da razão na conquista do conhecimento científico e ignoraram a fé para o conhecimento da verdade. Parece um paradoxo, mas essas teorias desprovidas do sentido comum encontram-se na origem da crise da razão. O saber depende em grande medida da verdadeira liberdade.

O Papa Bento XVI esteve em Chipre no início de junho. Teve um encontro com o presidente da república, as autoridades civis e o corpo diplomático no jardim do palácio presidencial de Nicósia, onde mencionou a Carta Encíclica Veritatis Splendor de João Paulo II. Enfocou a questão da obrigação moral, que não pode ser vista como uma lei que se impõe de fora e que exige um tipo de obediência sem sentido. A criatura humana encontra o princípio da ordem moral no encontro com a Realidade Absoluta, cujo reflexo encontra correspondência na consciência bem formada. Nesse encontro, Cristo faz o convite para que o homem sirva a verdade, a justiça e o amor. Desse modo amadurece o sentido de responsabilidade individual pela integridade e o mútuo respeito, acontecem as relações humanas que consolidam a confiança e se estreitam os vínculos de amizade pessoal e institucional.

Segundo a Carta Encíclica Veritatis Splendor, é fundamental retomar a filosofia perene porque os grandes pensadores ensinaram como construir a ordem moral. Essa tarefa é uma decisão humana irrenunciável para consolidar a presença de Deus na modernidade e superar a atual crise dos valores cristãos em sua dimensão global. Por certo, na Encíclica lemos que o Magistério da Igreja está chamado a ajudar o homem contemporâneo em seu desafio de alcançar o discernimento sobre os fundamentos hermenêuticos do Evangelho centrado na pessoa real de Jesus Cristo. Transcrevo a recomendação em defesa da liberdade responsável:

Precisamente sobre as questões que caracterizam hoje o debate moral e à volta das quais se desenvolveram novas tendências e teorias, o Magistério, por fidelidade a Jesus Cristo e em continuidade com a tradição da Igreja, sente com maior urgência o dever de oferecer o próprio discernimento e ensinamento, para ajudar o homem no seu caminho em busca da verdade e da liberdade (JOÃO PAULO II, 1993, p. 48, art. 27).

O título deste documento Carta Encíclica Veritatis Splendor (o esplendor do sol da verdade) vincula-se à pessoa de Jesus Cristo, através da assistência do Espírito Santo. Estas duas pessoas da Santíssima Trindade prestam uma inestimável ajuda na tarefa de discernir e interpretar a Lei de Deus. Encontro uma referência ao atual problema da fé e da razão no estudo realizado pelo bispo de Grosseto na Itália. Dom Angelo Scola explica a causa da incapacidade do homem moderno de reconhecer nas palavras de Jesus Cristo o caminho para uma autêntica vida moral assentada nos princípios da filosofia perene. Este estudo coloca em contraposição a antropologia de Wojtyla e a antropologia de Kant, o autor que fundamenta o comportamento do homem em uma norma universal, formal e convencional, e nega a pessoa de Jesus Cristo como o sol para onde cada um de nós deve dirigir a própria vida, assim como se fosse um girassol em busca da luz que faz circular a seiva.

Essa contraposição entre o pensamento kantiano e a Doutrina Social da Igreja, segundo Dom Angelo Scola(1995, p. 4), é conseqüência da persistência da provocação iluminista, à qual Kant deu rigor, pela qual um acontecimento histórico (Jesus Cristo) não poderia ser fundamento e prova de verdades universais e necessárias. Em síntese, afirma-se que não existe homogeneidade entre o acontecimento de Jesus Cristo e a lei moral. Mais ainda, assegura-se explicitamente sua recíproca heterogeneidade, chegando à conclusão de que é impossível que desse acontecimento derive a norma moral.

Agora bem, a matriz iluminista do pensamento de Kant está profundamente enraizada na moderna tendência ao individualismo. Trata-se de uma epistemologia que nega qualquer fundamento metafísico da norma moral e incapacita o homem para aceitar o convite de Jesus de segui-lo incondicionalmente.

O bispo de Grosseto ainda assinala a crítica de João Paulo II ao mau uso do conjunto de teorias desenvolvidas na Ilustração, a que Kant deu continuidade. Por exemplo, no campo da teoria política e econômica, assim como no campo social e cultural. Em franca oposição a essas teorias, o Pontífice recorda as duas leis morais da Tradição cristã. A primeira é a Lei de Deus e a segunda é a Lei Natural. A Lei de Deus é a Lei Eterna e Universal por antonomásia, e a Lei Natural faz-se presente em cada homem e em cada realidade social, assim como uma resposta às exigências do sentido comum e do bom senso. Estas duas leis são a base sólida da liberdade responsável, um bem irrenunciável para assegurar a dignidade de cada homem que vive ordenado ao fim último, que é o próprio Deus. Nesta perspectiva teleológica a Lei Natural também se constitui como o fundamento prático de uma consistente relação de deveres e de direitos, a qual possibilita a consolidação do amor e da paz entre os homens. A Lei Natural é uma realidade comum a cada pessoa humana, e reflete a Lei de Deus inscrita em cada coração.

Para mostrar a contraposição entre a sua antropologia e a antropologia de Kant, o Pontífice utiliza a experiência daquele jovem que se aproxima de Jesus Cristo porque tem a intuição de que naquele Mestre se encontram a unidade, a verdade, a bondade e a beleza do ato especificamente humano. Ele havia buscado esses bens ao longo de sua vida, e lhe parecia que estava próximo de alcançá-los. Por certo, sua pergunta possui caráter universal: “Que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” (JOÃO PAULO II, 1993, p. 19, art. 9).

Jesus responde através de um singular convite constituído por duas máximas. A primeira é o “vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres” (JOÃO PAULO II, 1993, p. 35, art. 18); e a segunda é o “vem e segue-me” (JOÃO PAULO II, 1993, p. 35, art. 18). Este chamado põe em contraste a soberba do ter e a humildade do ser, em uma perspectiva de vida onde cabe falar na pobreza do Evangelho.

Segundo a Escritura, o homem tendo aquilo que comer e vestir já é o suficiente. Há uma contraposição clara entre o que a Escritura define como pobreza cristã (ou mais exatamente “pobreza paulina” – o homem e a mulher tendo roupa e vestuário seria o bastante –) e a pobreza para a qual Cristo chama o jovem rico. Em outras palavras, existe aqui a distinção entre a pobreza cristã comum e a não comum, própria de um determinado estado de vida inteiramente entregue à causa do Evangelho.

CONCLUSÃO:

Em seu projeto para reformar a mentalidade moderna, Wojtyla reforça o argumento de que quando o homem estreita laços de amizade com Deus passa a amar e 11
a identificar-se com o fazer e o querer de Deus. Nesse dinâmico relacionamento constrói a própria identidade. O homem alcança esse ápice na sequela Christi (JOÃO PAULO II, 1993, p. 35, art. 19), ou seja, quando segue a Jesus incondicionalmente. Essa é uma opção vital fundamental que prepara a inteligência e a vontade de cada indivÍduo humano para uma vida digna e efetivamente livre. Isto significa que quando a pessoa conquista a liberdade responsável nasce pela segunda vez9. João Paulo II refere-se ao coração do homem como um santuário, no qual cada ser humano guarda e segue a Lei de Deus e vive segundo os preceitos da Lei Natural. Este santuário é a própria consciência moral, sede da importante relação entre a liberdade e a verdade.

Segundo a doutrina de Santo Agostinho(2009, p. 274), o homem tem uma lei inscrita no coração pelo próprio Deus, e sua identidade está enraizada em sua obediência incondicional a essa Lei que lhe ilumina o coração. Para penetrar na antropologia do Concílio Ecumênico Vaticano II é indispensável compreender a magnitude desse encontro permanente com o Verbo de Deus feito Homem. Para isso a liberdade responsável, verdadeira e individual, é um fator indispensável.

Infelizmente, essa liberdade foi freqüentemente negada na modernidade e no âmbito do cristianismo protestante. Na verdade, as religiões da Reforma defendem uma antropologia do homem corrompido incapaz de alcançar a salvação pelo mérito de suas obras e não apenas inclinado pelas três concupiscências (da carne, dos olhos e a soberba da vida) para o mal (1 Jo 2, 15-17). No protestantismo não cabe falar em liberdade responsável para o encontro com o Logos divino que age no âmbito da criação e da redenção e os que negam a possibilidade desse encontro espontâneo, como foi o caso de Kant, reduzem o homem a um simples agente capaz apenas de obedecer a normas morais gerais e convencionais.

Ainda que essa antropologia reducionista possa, de algum modo, contribuir para uma justa avaliação das diversas situações vividas pelo homem em seu dia a dia, nunca poderá substituir o valor absoluto da vontade iluminada pelo intelecto (o livre arbítrio) nas horas de cada decisão. A pessoa livre reconhece sua fraqueza e volta-se para Jesus Cristo que lhe ajuda a definir sabiamente suas opções vitais fundamentais (JOÃO PAULO II, 1993, p. 55, art. 90).

Encontra-se um famoso exemplo de liberdade individual, da dignidade do pensamento e capacidade de discernimento em Mateus 11, que Blaise Pascal trabalha de forma admirável em seus Pensées (Pensamentos) quando define o homem como um caniço agitado pelo vento (PASCAL, 2005, p. 86). Para ele o princípio da ordem moral é pensar bem, corretamente, principalmente sobre as verdades divinas11. Desse modo, o homem alcança sua real dignidade. O erudito francês recorre ao mesmo método que Cristo utiliza ao examinar o papel de João Batista como anunciador da civilização do amor e da paz: “O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta?” .. (Mt 11, 7-9).

Antes de terminar, digo ainda, com o Papa Bento XVI, que toda a história da teologia é, no fundo, o exercício do compromisso de uma inteligência capaz de mostrar a inteligibilidade da fé, sua harmonia e articulação interna, o seu bom senso e a sua capacidade para promover o bem do homem. O Pontífice examina a colaboração entre a fé e a razão em São Tomás de Aquino, recorda o compromisso de seu antecessor com a dignidade humana e propõe o nexo entre a Lei Natural e a responsabilidade para a reconstrução da ordem moral no mundo contemporâneo.

É preciso ver que na Encíclica Evangelium vitae João Paulo II afirmou que uma democracia sadia, livre e soberana depende de valores humanos e morais essenciais e naturais. Estamos uma vez mais em presença do que muita gente rejeita hoje em dia, que é a Lei Natural. No entanto, essa lei deriva da própria verdade do ser humano, exprime e tutela a dignidade da pessoa e consagra a civilização do amor e da paz:


“A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica?”. Bento XVI, “Para uma visão ampla e confiante da razão humana”, L’Osservatore Romano, Ano XLI, número 25 (2.113), sábado 19 de junho de 2010, pp. 4-5.

Portanto, no contexto de uma rigorosa ciência política, a democracia verdadeira, livre e soberana constitui um ato humano de primeira grandeza. Para que as sociedades contemporâneas superem tanto o relativismo ético no plano individual como o totalitarismo do Estado no plano político, precisarão privilegiar a liberdade responsável.

Bibliografia Específica :

BENTO XVI, “Três modos para realizar a verdade moral na política”, L’Osservatore Romano, Ano XLI, número 24 (2.112), sábado 12 de junho de 2010, p. 4.
BENTO XVI, “Para uma visão ampla e confiante da razão humana”, L’Osservatore Romano, Ano XLI, número 25 (2.113), sábado 19 de junho de 2010, pp. 3-4.
BÍBLIA SAGRADA, tradução dos originais mediante a versão dos monges de Maredsous. São Paulo: Editora Ave-Maria, 1997.
FAUS, Francisco, A voz da consciência. São Paulo: Quadrante, 1966.
JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Veritatis Splendor; 2ª. ed, São Paulo: Edições Paulinas, 1993.
JOÃO PAULO II, Discurso do Papa João Paulo II aos participantes na Conferência Internacional sobre "A Depressão". Pontifical Council for Health Pastoral Care, sexta-feira, 14 de Novembro de 2003.Disponível em: http://www.healthpastoral.org/text.php?cid=155&sec=5&docid=57&lang=br
Acessado em: 9 de junho de 2010.
LITURGIA DAS HORAS, Gráfica de Coimbra, 1993. VII semana do Tempo Comum, volume III.
PASCAL, Blaise, Pensamentos. 2ª ed.- São Paulo: Martins Fontes, 2005 (Paidéia).
SANTO AGOSTINHO, Confissões; tradução de J. de Oliveira e A. Ambrósio de Pina. -24ª ed.- Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
SCOLA, Mons. Angelo, “Jesucristo, ley vivente y personal”, en: Reflexiones sobre la encíclica Veritatis Splendor. Barcelona: Servei De Documentació Montalegre. 3a. època; any XII, setmanes 35 i 36. 17 de setembre de 1995, p. 4.
YEPES STORK, Ricardo e ARANGUREN ECHEVARRÍA, Javier, Fundamentos de Antropologia. Um ideal de excelência humana; tradução de Ptraatrícia Carol Dwyer. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2005.

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