Ernesto Cardenal Martínez (1925–2020) foi uma das figuras mais complexas e controversas da história intelectual, religiosa e política da América Latina no século XX. Poeta de reconhecimento internacional, sacerdote católico, teólogo da libertação e militante revolucionário, sua vida foi marcada por uma permanente tensão entre fé, arte e engajamento político. Formado em instituições de prestígio no México e nos Estados Unidos, discípulo do monge trapista Thomas Merton, Cardenal uniu mística cristã, poesia e ação social de modo singular. Contudo, sua trajetória também foi atravessada por escolhas ideológicas radicais, especialmente sua adesão ao sandinismo e ao marxismo, que o colocaram em rota de colisão tanto com a hierarquia da Igreja quanto, mais tarde, com o próprio movimento revolucionário que ajudou a legitimar. Sua história pessoal se confunde com a própria ascensão, triunfo e degeneração da Revolução Sandinista, da qual foi símbolo, vítima e crítico implacável.
Ernesto Cardenal Martínez (Granada, 20 de janeiro de 1925 – Manágua, 1 de março de 2020) foi um escritor, sacerdote e teólogo nicaraguense. Dissidente sandinista, considerado um dos mais importantes poetas da América Latina.
No ensino médio estudou no "Colegio Centroamérica de los Jesuitas" em Granada. Depois estudou na "Facultad de Filosofía y Letras" da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), nessa época publicou seus primeiros poemas. Depois obteve doutorado na Universidade de Columbia em Nova Iorque.Entre 1949 e 1950, viajou pela Europa. Em 1952, fundou una pequena editora de poesia denominada "El hilo azul".
Em abril de 1954, participou de um movimento armado que tentou assaltar o Palácio Presidencial em Manágua, na época do regime de Anastásio Somoza (Rebelião de Abril).Em 1957, decidiu tornar-se um monge trapista no Monastério de Nossa Senhora de Gethsemani, em Kentucky (EUA), onde foi discípulo de Thomas Merton.
Depois passou dois anos no Monastério Beneditino de Cuernavaca (México). Em 1961, continuou seus estudos de teologia em La Ceja (Colômbia).Foi ordenado padre em 1965 e depois ajudou a fundar uma comunidade religiosa em Mancarrón, uma ilha do arquipélago de Solentiname, no Lago Nicarágua, que se tornou um foco de resistência à ditadura dos Somoza.
Em 1970, viajou à Cuba e aderiu ao marxismo, cujo ideal de uma sociedade sem classes seria semelhante, para ele, ao cristianismo das origens. Depois da comunidade religiosa, onde residia, ter sido destruída pela Guarda Nacional da Nicarágua, juntou-se à Frente Sandinista de Nacional de Libertação (FSLN), onde ficou conhecido como "El Padre", pelos jovens guerrilheiros.Em julho de 1979, com a chegada dos sandinistas ao poder, integrou a Junta de Governo como Ministro de Cultura, função que exerceu até 1987.
Em 1983, durante a visita do Papa João Paulo II à Nicarágua, ajoelhou-se perante este, no tapete de recepção no Aeroporto de Manágua.
Diante das câmaras de televisão, o Papa censurou Cardenal veementemente, agitando-lhe o indicador, intimando-o a abandonar o cargo de ministro. Seis anos depois, em 1985, foi suspenso "ad divinis" pelo Vaticano, que considerou incompatível a sua missão sacerdotal com o seu cargo político.
Em 1994, rompeu com a FSLN.Em 2013, era um crítico do governo de Daniel Ortega apoiado pela FSLN, tendo inclusive intitulado o terceiro tomo das suas memórias como "A Revolução Perdida".
Em fevereiro de 2019, o Papa Francisco retirou todas as sanções canônicas aplicadas ao Ernesto Cardenal, reintegrando-o plenamente à Igreja Católica Romana.Morreu no dia 1 de março de de 2020, aos 95 anos.
A missa de corpo presente foi profanada por sandinistas, obrigando os familiares a retirarem o caixão pela lateral da catedral de Manágua. O corpo foi, em seguida, cremado e levado para Solentiname, arquipélago paradisíaco no Grande Lago da Nicarágua, onde Cardenal fundou uma comunidade de artistas, artesãos e religiosos.
"Não deve ser fácil escolher o momento mais feliz da vida quando se tem 94 anos"
A reportagem é de Javier Lafuente, publicada no jornal El País, 01-03-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto
Ernesto Cardenal, poeta, sacerdote, revolucionário e agora também, vingado por alguns dos que um dia foram seus amigos, tem muito claro que o sonho do qual nunca quis despertar ocorreu no dia 19 de julho de 1979, com o triunfo da revolução sandinista.
Três décadas depois, não resta nenhum resquício daqueles momentos, e a situação política da Nicarágua é mais parecida com um pesadelo do qual Cardenal não consegue se desfazer. Sua liberdade foi sendo restringida por Daniel Ortega desde que, em 1994, se desligou da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) pela decadência autoritária que o atual presidente nicaraguense começava a tomar.
Criticado e vilipendiado junto a quem, como ele, não quis seguir o caminho marcado pelo sandinismo oficialista – os escritores Sergio Ramírez, Gioconda Belli e um longo etc. –, com Cardenal foram mais adiante. “Tenho liberdade para tudo, menos para dizer o que penso em público”, lamenta-se o poeta octogenário, de caráter rude, um tanto esquivo.
Sente-se sua violência ao falar de Ortega. Tenta cortar em seco qualquer pergunta sobre ele, como se estivesse a ponto de explodir frente à possibilidade de se expressar abertamente. Motivos lhe sobram, ele que é autor de "La revolución perdida". Uma das últimas vezes que criticou publicamente a situação política do seu país foi no verão passado. Acusou Ortega de “ladrão”, durante sua visita ao Paraguai, por motivo da posse do presidente Fernando Lugo.
O líder nicaraguense não participou por supostos problemas em seu avião, mesmo que os movimentos feministas declararam-lhe guerra pela acusação de estupro à sua enteada Zoilamérica Narváez.Logo após, em agosto de 2008, Cardenal foi condenado a pagar uma multa de 20 mil córdobas (cerca de 700 euros) por insultar o empresário alemão Inmanuel Zerger, um crime do qual havia sido absolvido em 2005, por uma disputa de terras no arquipélago de Solentiname, onde o poeta fundou uma comunidade quase monástica em 1965 – fez isso com os cinco mil dólares que ganhou do Prêmio Nacional Rubén Darío – na qual ensinou dezenas de agricultores a ler e escrever. O juiz Daniel Rojas, próximo de Daniel Ortega, foi quem abriu o caso. O advogado de Zerger é o mesmo que, em 1998, defendeu Ortega quando este foi acusado por Zoilamérica. Cardenal não aceitou a condenação por “injustiça” e “ilegal”. Seus bens – escassos, pois doou quase tudo o que recebia durante anos à luta sandinista – foram embargados.
O sacerdote conhece perfeitamente o presidente nicaraguense, mas se nega a dar sua versão de como chegou a se converter no caudilho que é hoje. Hoje não. Não pode. Não quer. “Era muito diferente. Não entendemos a mudança que ele teve”, é o único que se atreve a dizer, no plural, porque sabe que não é o único que pensa assim. Imediatamente, como se se arrependesse do que disse antes, indica: “Mas eu não tenho liberdade para falar do governo da Nicarágua pelas represálias que sempre me fizeram quando eu falei. Temos uma ditadura, e eu não posso dizer mais. Tenho que me calar”.
Consciente ou não disso, o silêncio de Cardenal transmite muito mais do que toda a verborréia que possa lançar contra o seu outrora companheiro de luta. Tem medo? “Quando Franco estava vivo, não se podia viver na Espanha, sair ao exterior, dizer verdades e voltar. Eu estou nessa situação”, responde com uma sinceridade e completude à qual há pouco a se acrescentar.
Apesar de tudo, o escritor, que recebeu em Madri a homenagem da Casa de América, sempre se manteve firme. Em nenhum caso se arrepende do que disse no Paraguai. “Tinha a obrigação de fazer isso. Calar teria sido um pecado”.Os que conhecem Cardenal dizem que é uma pessoa que se engrandece mais e engrandeceram mais ao atacá-lo.
Ao escutar esse comentário, é uma das poucas vezes em toda a conversa que ele faz uma careta, o mais parecida a um sorriso. É momentânea. “É possível que seja assim, mas eu não gosto desse tipo de engrandecimento. Não gosto que me ataquem”, diz sinceramente.
A ponto de se completar os 30 anos da derrocada do ditador Anastasio Somoza, Cardenal rememora como se uniu ao sandinismo
“Foi um conselho de meu mentor [o monge trapista] Thomas Merton, que a
vida contemplativa não devia ser indiferente aos problemas sociais e políticos. Muito
menos na América Latina, onde existiam ditaduras militares. O contemplativo, me dizia, tem que se interessar pelos
problemas do seu povo. Isso fez com que eu me interessasse por tudo aquilo,
mesmo que sempre tivesse uma vocação de rebeldia política”. Alguns dos jovens
de sua comunidade participaram na luta armada e morreram. “Sua ausência
é terrível, terrível, terrível. Alguns eram presos, e não sabíamos que haviam
sido assassinados até que a revolução não triunfou. Tinha a esperança de que
estivessem vivos em alguma prisão. Mas não era assim”.
Não se arrepende,
“em absoluto”, de ter sido partícipe daquela revolução!
“Para mim, foi muito bonita! Apoiei-a de todo o coração”! E agora, segue
crendo que a luta armada é legítima? “O Papa Paulo VI
disse que a revolução armada era legítima contra uma ditadura evidente e
prolongada. Isso ocorre agora o mesmo na América Latina! Há meios de
comunicação, partidos políticos, denúncia civil. Não há poque ir para a luta
armada”.
Consolidada a
revolução, sendo Cardenal ministro da Cultura, em 1983, aconteceu um dos
episódios mais sonhados em sua vida política:
O momento em que João Paulo II, em sua chegada a Manágua, repreendeu-o publicamente. “Ele me disse: ‘Você sabe que deve regular a sua situação’, mas de uma forma muito imponente, rude. Como eu não quis responder, repetiu novamente”.
Não lhe importou muito. Ele prefere recordar a visita do Pontífice pela atormentada missa que celebrou em Manágua. “Ele chegou para derrocar a revolução.
Nicarágua era um país católico, com um governo de esquerda, de orientação marxista, mas apoiado pelos cristãos e pelos sacerdotes. Chegou a falar contra a revolução diante de 700 mil pessoas, um terço do país, para que o aplaudissem, o apoiassem e que a revolução caísse. Mas o povo se rebelou e lhe faltou com respeito. As pessoas gritavam: ‘Poder popular! Poder popular!’, e o Papa, ‘Silêncio!’, enfatiza.
Muitos foram
as conquistas da revolução para um dos maiores expoentes da Teologia da
Libertação. “A derrocada da ditadura, depois a transformação do país, onde se
fez um trabalho verdadeiramente voluntário, como a vacinação de todas as
crianças ou a alfabetização. Essas coisas só são possíveis em uma revolução...”
Seu país, que em sua
opinião precisa de outra revolução! Assim como para o resto do mundo, a Nicarágua deixou de ser
uma referência há anos!
A que se deve esse desencanto pela Nicarágua? Ernesto Cardenal, agora assim, não tem dúvida, diz de um golpe só, sem pensar duas vezes:
“À derrota da revolução e à traição que os que agora governam a Nicarágua fizeram dela! Aí não há nada de esquerda, nada de revolução, nada de *sandinismo! O que há, é nada mais do que corrupção e ditadura! Uma ditadura fascista, familiar, de Daniel Ortega, sua mulher e seus filhos”.
*Sandinismo, na Nicarágua, é o nome da corrente política e ideológica inspirada em Augusto César Sandino, líder nacionalista que lutou contra a ocupação militar dos Estados Unidos nos anos 1920–30. De forma resumida, o sandinismo defende:
-Nacionalismo e soberania da Nicarágua
-Justiça social e combate às desigualdades
-Anti-imperialismo, sobretudo contra a influência dos EUA
-Reformas sociais (educação, saúde, reforma agrária)
Na prática histórica, o sandinismo ficou identificado com a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que derrubou a ditadura da família Somoza em 1979. Com o tempo, porém, especialmente sob o governo de Daniel Ortega, o sandinismo passou a ser criticado por muitos antigos aliados — como Ernesto Cardenal — por ter se transformado em um regime autoritário, distante dos ideais originais da revolução. Em síntese: o sandinismo nasceu como um movimento de libertação nacional, mas, para muitos críticos, acabou se degenerando em poder concentrado e autoritarismo.
Bibliografia
-Paul W. Borgeson. Hacia el hombre nuevo, poesia e
pensamiento de Ernesto Cardenal. Londres, Tamesis, 1984.
-https://elpais.com/diario/2009/03/01/internacional/1235862006_850215.html
-https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernesto_Cardenal
-https://pt.churchpop.com/igreja-concede-o-perdao-para-padre-socialista-que-se-arrependeu/
-https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-02/papa-retira-sancoes-canonicas-pe-ernesto-cardenal-nicaraguense.html
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Resta a pergunta incômoda — não apenas à esquerda nicaraguense, mas também à latino-americana e, em especial, à brasileira:
-"Sobre quando se terá a honestidade intelectual de admitir que certas revoluções, longe de libertar os povos, apenas mudam os nomes dos opressores?"...
Tinoco
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