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Da Igreja Triunfante à Ideologia do Paraíso Terrestre: Uma análise crítica da substituição da Escatologia Cristã por projetos utopistas

Written By Beraká - o blog da família on quarta-feira, 22 de maio de 2019 | 23:00






por *Francisco José Barros de Araújo 





Trocar a Igreja Triunfante pela chamada “ideologia triunfalista do paraíso na terra” não seria, no fundo, trocar seis por meia dúzia? A pergunta não é meramente retórica, tampouco provocação superficial. 




Trata-se de um problema teológico, pastoral e sociológico de grande relevância para o cristianismo contemporâneo: a substituição progressiva da escatologia cristã — centrada na cruz, na tribulação e na esperança futura — por narrativas ideológicas que prometem vitória plena, sucesso histórico e realização definitiva já neste mundo.  



Igreja triunfante ou Igreja da tribulação? Essa tensão atravessa toda a história do cristianismo. Desde os primeiros séculos, a fé cristã se construiu não sobre a promessa de um paraíso terreno, mas sobre a fidelidade a Cristo em meio à perseguição, à precariedade e à espera escatológica.









No entanto, em tempos recentes, observa-se o avanço de um discurso que confunde a vitória de Cristo com a imunidade do cristão ao sofrimento, e a esperança cristã com projetos humanos de prosperidade, hegemonia cultural ou engenharia social.  Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o termo “triunfalismo” ingressa oficialmente no léxico brasileiro em 1965, inicialmente designando a “atitude, crença ou doutrina de que determinado credo religioso é superior a todos os outros”. Já em 1980, o termo adquire um sentido ainda mais revelador: “atitude excessivamente triunfante; sentimento exagerado de triunfo”. Essa evolução semântica não é neutra. Ela revela como um conceito originalmente descritivo passa a carregar uma conotação crítica, indicando exagero, distorção e perda de equilíbrio — inclusive no campo religioso.  Não por acaso, a infiltração do triunfalismo no discurso cristão é relativamente recente e coincide com leituras seletivas das Escrituras, frequentemente desvinculadas da tradição teológica, da cruz e da pedagogia do sofrimento presente no Evangelho







Ao prometer vitórias totais, prosperidade contínua e soluções imediatas para todos os males da existência, esse discurso acaba por substituir a esperança cristã por uma caricatura ideológica da fé, transformando a graça em direito, a promessa em contrato e Deus em garantidor de projetos humanos.  




É nesse contexto que se impõe uma distinção fundamental — e muitas vezes negligenciada: pregação triunfante não é o mesmo que pregação triunfalista. 



Compreender essa diferença é essencial para preservar a integridade do Evangelho e evitar que a fé cristã seja reduzida a um instrumento de autoafirmação, prosperidade material ou redenção intramundana.





DIFERENÇAS ENTRE A "PREGAÇÃO" TRIUNFANTE E TRIUNFALISTA?






Contudo, diferente da pregação triunfalista, a pregação triunfante, encontrada nas Escrituras, reconhece que: 







"é preciso passar por muitos sofrimentos para poder entrar no Reino de Deus” (Atos 14,22).






-A pregação triunfalista apregoa uma felicidade ingênua. Pois é impossível viver a vida sem experimentar dor e sofrimento!




A pregação triunfante, por sua vez, apregoa felicidade ‘apesar de’. Pois a felicidade nas Escrituras não é um sentimento, mas sim uma certeza que prevalece em meio às incertezas da vida.





-A pregação triunfalista anuncia vitória sem cruz! Esse tipo de pregação massageia o ego das pessoas! A pregação triunfalista existe para fazer as pessoas se sentirem bem, e prega a falsa ideia de que ‘todos os seus sonhos podem ser realizados’! 




A pregação triunfante, por sua vez, celebra a vitória definitiva de Cristo sobre o diabo, mas reconhece a necessidade de passar pela cruz antes de chegar ao túmulo vazio.





-A pregação triunfalista quer a ressurreição sem passar pela cruz!




A pregação triunfante sabe que para se chegar à ressurreição é preciso passar pela cruz. A pregação triunfante sabe que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ele continuará a ser apenas um grão; mas se morrer, produzirá muito trigo. Por isso, a pregação triunfante implora para que a glória de Deus esmague o ego das pessoas, levando-as a dizer “já não sou eu mais que vivo, mais Cristo vive e em mim, e a vida que vivo agora, vivo-a para Cristo”.





-A pregação triunfalista focaliza o trono! 





A pregação triunfante focaliza a cruz.





-A pregação triunfalista não pede, exige de Deus, como se Ele fosse capacho de nossos desejos!






A pregação triunfante se humilha e clama pela graça conforme sua santíssima vontade, e não no tempo e de acordo as nossas exigências.




-A pregação triunfalista é pregada por falsos super-apóstolos! São gurus que se apresentam como seres espirituais especiais, capazes de fazer o céu descer à terra, quando, na verdade, simplesmente promovem um espetáculo teatral religioso sobre a terra, arrancando fervorosos aplausos de uma plateia interessada não no Filho do Homem, mas nos milagres do Filho do Homem! (Mateus 12,38-39). 






A pregação triunfante, por sua vez, é pregada por vasos de barro, imperfeitos, gente de carne e osso, pois o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. A pregação triunfante é apresentada por vasos de barro que escondem o tesouro do evangelho dentro deles. A pregação triunfalista é apresentada por sepulcros caiados que são bonitos por fora, mas escondem dentro de si ossos podres.












-A pregação triunfalista produz gente frustrada e decepcionada com a Igreja! Isso porque essas pessoas acreditaram nos contos promovidos pelo triunfalismo, mas quando se depararam com as provas da vida, se desencantaram!






A pregação triunfante, por sua vez, produz gente comprometida com a Igreja. Pois as pessoas que acreditam no Cristo crucificado e ressurreto aprenderam a viver contente em toda e qualquer situação, e sabem que suas vidas só terão sentido se consagradas Àquele que por elas morreu e ressuscitou. Por isso, as pessoas transformadas pela pregação triunfante servem alegremente a Cristo e a Igreja de Cristo.





DIFERENÇAS ENTRE A "IGREJA" TRIUNFALISTA E A IGREJA  TRIUNFANTE?














-A igreja triunfalista marcha pelo caminho largo!

A igreja triunfante anda pelo caminho estreito (Mt 7,13-14).

-A igreja triunfalista gosta de shows e exibicionismos! 

A igreja triunfante adora a Deus no silêncio, em espírito e verdade (Jo 4,23-24).

-A igreja triunfalista anima auditórios! 

A igreja triunfante prega a Palavra oportuna e inoportunamente em qualquer lugar ou circunstãncia (2 Tm 4,1-2).

-A igreja triunfalista prega o que mundo quer ouvir! 

A igreja triunfante prega o que o mundo precisa ouvir.

-A igreja triunfalista é tolerante e "inclusiva" até com o pecado e a depravação! 

A igreja triunfante mãe mestra, apresenta a verdade que liberta com amor e firmeza, sem subterfúgios e duplicidade.

-A igreja triunfalista quer mostrar a sua força pelo poder de seu braço!

A igreja triunfante humilha-se debaixo da potente mão de Deus (1 Ped 5,6).









-A igreja triunfalista decreta e determina! 


A igreja triunfante clama, roga e humildemente pede (Jr 33,3; 29,13; Mt 7,7-8).


-A igreja humana e triunfalista, partidária, e ideologizada, quer salvar apenas uma classe social: a dos pobres e excluídos! 


A Igreja triunfante a exemplo de Cristo, quer salvar a TODOS os pecadores.


-A Igreja meramente humana e triunfalista, defende a revolta armada e é capaz de matar! 


A Igreja triunfante como Cristo, não mata, mas a exemplo de Jesus Cristo, dá a vida.


-A igreja triunfalista só quer prosperidade econômica e social!


A igreja triunfante quer que o homem integralmente, prospere em tudo, principalmente em sua salvação (Sl 1,1-3).

-A igreja triunfalista prioriza os bens materiais que passam! 


A igreja triunfante busca as coisas que são de cima, e que não passam.(Cl 3,1-2).


-A igreja triunfalista é antropocêntrica! 


A igreja triunfante é cristocêntrica (1 Cor 1,22-23).



-A igreja triunfalista quer dominar o mundo com sua ideologia! 



A igreja triunfante quer morar e levar todos para o Céu (Flp 3,20-21).





No final, a pregação triunfalista promete o céu na terra, mas conduz pela mentira ao inferno, são cegos conduzindo outros cegos! A pregação triunfante anuncia sem meias verdades, o inferno e a condenação eterna, mas, nos conduz à verdade que verdadeiramente nos liberta, e nos conduz ao Reino de Deus e não ao reino do homens.







CONCLUSÃO:


A verdadeira vitória do cristão não se funda em conquistas materiais, hegemonias políticas ou promessas de bem-estar imediato, mas na graça de Deus que, como ensina o apóstolo Paulo, “sempre nos faz triunfar em Cristo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o perfume do seu conhecimento” (2Cor 2,14). Esse triunfo, contudo, não deve ser confundido com o triunfalismo — isto é, com a pretensão humana de antecipar, neste mundo, a plenitude escatológica que pertence exclusivamente ao Reino definitivo de Deus.




O Evangelho nunca prometeu a supressão do sofrimento, da tribulação ou da perseguição na vida cristã. Pelo contrário, a Escritura é inequívoca ao afirmar que “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12) e que, neste mundo, os discípulos de Cristo enfrentariam aflições (Jo 16,33). 




A tentativa de eliminar essas realidades do anúncio cristão revela não uma evolução da fé, mas uma deformação do Evangelho, substituindo a cruz pela barganha e a graça pelo direito.











Nesse sentido, tanto a chamada teologia da prosperidade quanto certas leituras ideologizadas da teologia da libertação convergem no mesmo equívoco fundamental: a construção de um paraíso terrestre, limitado, histórico e provisório, apresentado como finalidade última da fé cristã. Ambas reduzem a salvação à esfera material ou sociopolítica e instrumentalizam o Evangelho para fins humanos, esquecendo que a redenção oferecida por Cristo visa прежде de tudo a conversão do coração e a restauração da comunhão com Deus — realidade que transcende qualquer projeto histórico.



Cristo não foi crucificado para garantir prosperidade, sucesso ou reconhecimento social aos seus seguidores. 



Ele sofreu, foi perseguido e morto; os apóstolos padeceram perseguições; e a Igreja, ao longo da história, cresceu não pela promessa de conforto, mas pelo testemunho fiel em meio à tribulação. Ensinar um cristianismo sem cruz é, portanto, ensinar algo estranho às Escrituras e à Tradição.











A Igreja triunfante de Cristo não é aquela que domina o mundo, mas aquela que persevera na fidelidade, mesmo quando o mundo a rejeita. Seu triunfo não se mede por números, influência política ou conquistas temporais, mas pela vitória já consumada de Cristo sobre o pecado e a morte. Por isso, a esperança cristã não está na instalação de uma utopia social, nem na conversão numérica da totalidade do mundo antes da Parusia. O próprio Senhor advertiu: “Quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18,8).











A missão confiada à Igreja é clara: anunciar o Evangelho a todos, sem distinção, como testemunho — não como imposição, nem como projeto de redenção histórica definitiva (At 1,7-8; Mc 16,15; Mt 24,14). A plenitude do Reino não se realiza aqui, mas será consumada nos “novos céus e na nova terra” prometidos por Deus.




Diante disso, impõe-se uma escolha consciente: crer na Igreja triunfante de Cristo, que caminha entre perseguições e consolações, ou aderir aos triunfalismos humanos que prometem paraísos temporais e inevitavelmente frustram. 



A fé cristã autêntica não foge da cruz, pois sabe que é justamente por meio dela que se chega à verdadeira vitória — aquela que não passa, não se corrompe e não depende das limitações da história.




*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 - Perfil curricular no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.






BIBLIOGRAFIA




-BENTO XVI (Papa). Spe Salvi: Sobre a esperança cristã. São Paulo: Paulinas, 2018.

-BENTO XVI (Papa). A Misericórdia Divina. São Paulo: Paulinas, 2016.

-AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. O cristão diante da morte. 3. ed. Lorena: Cléofas, 2017.

-CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 1993.

-AUGUSTINUS, S. Confissões. Trad. var. São Paulo: Paulus, edição católica.

-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Trad. var. São Paulo: Loyola, edição em português.

-CALVINO, Jean (Ed.). Comentário sobre as últimas coisas (escatologia) — obra patrística reunida. São Paulo: Paulus, edição católica (compilação; exemplo de estudo sobre escatologia cristã).

-AUGUSTO, Dom Henrique Soares da Costa. Escatologia: Sobre o fim do mundo. São Paulo: Cléofas, 2021.

-SCHÖNBORN, Christoph (Cardeal). A fé explicada. São Paulo: Loyola, edição católica (obra de introdução e defesa da fé).




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Anônimo
7 de julho de 2024 às 12:48

Fato!

Infelizmente, temos ouvido falar de um evangelho triunfalista, um evangelho que a Bíblia nunca enfatizou. Expressões como: “pare de sofrer, saia da miséria, corra atrás de seus direitos, lute pela justiça, viva uma vida próspera”, sempre ouvimos com frequência em certos lugares.A teologia da prosperidade e da libertação, ambas são irmãs gêmeas, pois as duas visão o mesmo fim: o paraíso na terra, tem sido ensinada e buscada por muitos que se deixam manipular.

Graça Soares - Natal RN

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