por *Francisco José Barros de Araújo
“Homo sum: nihil humani a me alienum puto.” (Sou homem: nada do que é humano me é estranho.)
A célebre máxima é de autoria de Públio Terêncio Afro, dramaturgo e poeta latino, nascido entre 195 e 185 a.C., falecido por volta de 159 a.C.. A frase aparece em sua comédia Heautontimorumenos (O algoz de si mesmo) e atravessou os séculos como uma das mais sintéticas e profundas expressões do humanismo clássico. Em poucas palavras, Terêncio condensou uma visão de mundo que reconhece, na condição humana, um elo universal capaz de unir indivíduos separados por tempo, cultura, moral ou destino.
Ao longo da história intelectual do Ocidente, essa sentença foi retomada por inúmeros pensadores, escritores e moralistas. Entre nós, destaca-se Machado de Assis, que, segundo diversos estudiosos, nutria por ela uma predileção especial, recorrendo à máxima em mais de uma ocasião. Curiosamente, o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas tinha o hábito de citá-la de forma incompleta, omitindo o último termo — puto — por receio de interpretações equivocadas por parte dos leitores. Tal cautela, ainda que compreensível, revela mais sobre as ambiguidades da recepção linguística moderna do que sobre a frase em si, já que o vocábulo latino nada tem a ver com seu homônimo vulgar na língua portuguesa.
Trata-se de uma daquelas sentenças que, uma vez conhecidas, dificilmente nos abandonam. Passam a funcionar como uma espécie de máxima existencial, constantemente evocada diante das experiências humanas mais diversas: o sofrimento alheio, a queda moral, o heroísmo inesperado, a miséria, a grandeza e a contradição que habitam o coração humano. Gosto particularmente dessa frase por suas ricas implicações filosóficas, entre as quais destaco duas perspectivas fundamentais.
1) A perspectiva da comunhão humana e da compaixão moral - A primeira leitura possível parte de uma constatação simples e poderosa: enquanto humanos, somos essencialmente semelhantes. As diferenças de cultura, posição social, caráter ou circunstância não anulam o fato de que partilhamos a mesma natureza. Dessa premissa decorre a conclusão de que nada do que acontece a outro ser humano — por mais distante, estranho ou diferente que ele me pareça — deveria ser encarado como totalmente alheio a mim. Esse reconhecimento funda uma ética da compaixão. Não se trata de sentimentalismo ingênuo, mas de uma compreensão racional de que o sofrimento do outro poderia, em condições semelhantes, ser o meu próprio sofrimento. Assim, a máxima de Terêncio funciona como um antídoto contra a indiferença, o desprezo e a desumanização, lembrando-nos de que a dor, a fragilidade e a esperança são experiências universalmente partilhadas.
2) A perspectiva da lucidez moral e da humildade diante do mal - A segunda implicação é talvez ainda mais desconcertante. Se nada do que é humano me é estranho, então nada do que outro ser humano faz deveria me surpreender absolutamente. Isso inclui não apenas os atos de grandeza, coragem e sacrifício, mas também os mais baixos, vis e moralmente condenáveis.
Essa perspectiva exige humildade. Ela nos impede de assumir uma posição de superioridade moral confortável, na qual o mal é sempre atributo exclusivo do outro. Dadas determinadas circunstâncias — pressões extremas, medo, desespero, ideologia, conveniência ou fraqueza — não podemos ter certeza absoluta de que não seríamos capazes de cometer atos semelhantes. A história, aliás, está repleta de exemplos que confirmam essa trágica verdade. Reconhecer isso não equivale a justificar o mal, mas a compreendê-lo em sua raiz humana. Trata-se de um convite à vigilância moral, à responsabilidade pessoal e à recusa das ilusões que nos fazem acreditar imunes à queda.
Em cada um de nós habita, simultaneamente, um herói e um vilão, ambos latentes, ambos reais, ambos prontos para emergir tão logo as circunstâncias internas e externas o permitam. Não se trata de uma figura de linguagem exagerada, mas de uma constatação antropológica elementar: a condição humana é estruturalmente ambígua.
Por isso, ninguém deveria jactar-se de possuir controle absoluto sobre si mesmo e sobre seus atos. Isso não significa negar a possibilidade — e a necessidade — do autocontrole. Pelo contrário: a vida em sociedade só é viável graças à repressão consciente de impulsos, desejos e inclinações que, se seguidos livremente, tornariam impossível qualquer convivência minimamente civilizada. A cultura, a moral, a lei e a educação existem exatamente para conter o caos que nos habita.
Entretanto, reconhecer a importância do autocontrole não nos autoriza a esquecer que o “homem velho” — o vilão interior — permanece sempre à espreita. Ele não desaparece; apenas é contido. E basta que as circunstâncias se alterem de modo suficientemente favorável ou adverso para que volte a agir.
É por isso que, em consonância com a sábia premissa terenciana, assumi como princípio não me deixar surpreender por ato algum emanado de qualquer ser humano. Não porque tudo seja aceitável, mas porque eu próprio não posso me julgar absolutamente imune à possibilidade de proceder de maneira semelhante — ou talvez até pior.
A erosão da fraternidade nos tempos ego-narcísicos
Vivemos tempos marcados por um ego-narcisismo crescente, no qual a noção de humanidade compartilhada vai sendo substituída por máximas individualistas e cínicas. Já não se ouve com tanta frequência o apelo à responsabilidade mútua, mas sim ditados como:
Essas fórmulas populares, longe de serem inofensivas, revelam uma mudança profunda de mentalidade: a perda da ideia de que pertencemos a uma mesma comunidade humana, interdependente e corresponsável. O outro deixa de ser irmão e passa a ser obstáculo, ameaça ou espetáculo.
Terêncio e o sentido original da frase
Na comédia Heautontimorumenos (O Atormentador de Si Mesmo), de Terêncio, o famoso verso surge em um contexto bastante específico — e pouco edificante. A peça narra a história de um vizinho intrometido, curioso e inconveniente, que se mete na vida alheia sem perceber que problemas muito mais graves se desenrolam dentro de sua própria casa. Ao ser questionado sobre sua atitude invasiva, ele se justifica dizendo:
“Homo sum: humani nil a me alienum puto.”Sou homem, e nada do que é humano julgo que me seja alheio.
Nesse contexto, a frase não expressa solidariedade, compaixão ou fraternidade, mas funciona quase como uma licença moral para a intromissão, a futrica e a curiosidade mórbida. É a legitimação do olhar que esquadrinha o outro para desviar-se de si mesmo.
Marx, a modernidade e a inversão do sentido
Séculos depois, Marx e outros pensadores modernos reinterpretaram a frase em sentido quase oposto:
Como um chamado à consciência coletiva, ao reconhecimento da humanidade como projeto comum — algo próximo da máxima “um por todos, todos por um”.
Entretanto, ironicamente, nos tempos atuais estamos mais próximos da acepção terenciana original do que da leitura humanista posterior. O que se vê é a consagração do direito à curiosidade invasiva, à fofoca, ao voyeurismo moral. Uma parte significativa da mídia — altamente lucrativa — especializou-se na exposição sistemática da intimidade alheia, transformando vidas humanas em espetáculo:
-as delícias dos bem-sucedidos,
-o inferno cotidiano dos miseráveis,
-a queda moral convertida em entretenimento,
-a dor transformada em mercadoria.
“Nada do que é humano nos é estranho?” Nem sempre!
A afirmação soa bela, mas a realidade é menos generosa. Nem tudo o que é humano nos é suportável. Curiosamente, toleramos com relativa facilidade odores e dejetos de animais, acariciamos um cavalo suado, caminhamos por currais e estábulos, desviamos de fezes caninas ou felinas sem maior perturbação.
Entretanto, os odores, fluidos e resíduos humanos nos causam repulsa. O suor humano incomoda. Banheiros são vistos como locais de castigo. Excrementos humanos provocam nojo. Do mesmo modo, desviamos o olhar de mendigos, doentes crônicos, menores abandonados — como se fossem uma afronta à nossa ilusão de ordem.
O sonho contemporâneo: afastar-se do humano
Talvez por isso, para muitos, o ideal de paz e felicidade consista em afastar-se do maior número possível de seres humanos:
-uma ilha paradisíaca,
-um condomínio fechado,
-o alto de uma montanha,
-uma praia privativa,
-um lugar inacessível.
-preferir conviver, cuidar e adotar animais (pets) que a seres humanos em dificuldades.
No máximo, aceita-se acompanhar a humanidade à distância, por telas e redes, horrorizando-se ou alegrando-se virtualmente com seus dramas — desde que não chegue perto demais.Parodiando Nietzsche, talvez seja preciso lamentar:
"tudo isso ainda é humano, demasiado humano..."
O verdadeiro sentido: lucidez, não relativismo
Dizer “sou humano e nada do que é humano não me é estranho” não significa relativizar o bem e o mal, mas reconhecer uma verdade incômoda:
-o que você faz, de pior ou melhor, dependendo as cirscunstâncias, eu também poderia fazer;
-o seu comportamento não me é ontologicamente estranho;
Compartilhamos a mesma maquinaria biológica, os mesmos impulsos, os mesmos mecanismos psíquicos. Por isso, nada do que o ser humano faz — seja sublime ou horrível — deixa de ser humano.
Chamar alguém de “monstro” não desumaniza ninguém; apenas rotula. Mesmo o mal extremo continua sendo humano, e isso é precisamente o que o torna tão aterrador
Misericórdia como resposta final
Se é verdade que somos capazes do pior, também é verdade que somos capazes do melhor. É nesse horizonte que se insere a intuição profunda de São João Paulo II, ao afirmar que:
"O século XXI será evangelizado pela misericórdia de Deus"
Não pela negação do mal, mas pela lucidez diante da fragilidade humana. Não pela ingenuidade moral, mas pelo reconhecimento de que somos todos imagem e semelhança de Deus, mesmo quando deformados pelo pecado, pelas circunstâncias ou pela miséria.
Talvez seja essa a forma mais elevada — e mais difícil — de viver a máxima de Terêncio:
-não como desculpa para a curiosidade,
-não como licença para o julgamento,
-mas como fundamento para a misericórdia.
Conclusão — A humanidade redimida pela Kenosis de Jesus o plenamente humano por excelência
Nada há de mais destrutivo no ser humano do que perder a capacidade de reconhecer a dignidade do outro, fixando o olhar quase exclusivamente nas imperfeições alheias. Esse empobrecimento do olhar moral costuma nascer quando nos colocamos, ainda que inconscientemente, em um patamar superior de virtude, esquecendo-nos de sondar o próprio coração. Quando isso acontece, deixamos de reconhecer uma verdade fundamental: somos feitos da mesma matéria moral, submetidos às mesmas fragilidades, inclinações e possibilidades — tanto para o bem quanto para o mal.
O erro do outro, quase sempre, não é um espetáculo a ser julgado, mas uma queda que clama por auxílio. Quem está caído precisa de mão estendida, não de dedo apontado; de amor, não de repulsa; de perdão, não de exclusão. O esquecimento dessa verdade nos torna semelhantes ao fariseu da parábola, que “em pé” diante de Deus não rezava, mas se justificava, apresentando um currículo moral e comparando-se aos demais. Já o publicano, consciente de sua miséria, foi o único que voltou justificado (Lc 18,9-14). O critério de Cristo é claro: quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado.
É nesse ponto que o cristianismo se distingue radicalmente de toda forma de moralismo ascendente. Desde a revelação a Moisés no Sinai, quando Deus diz: “Eu vi a aflição do meu povo e ouvi o seu clamor” (Ex 3,7), fica evidente que, na fé judaico-cristã, não é o ser humano que sobe até Deus, mas é Deus que desce até o ser humano. Essa descida encontra seu ápice no mistério da Encarnação. O Papa Leão Magno expressou essa verdade de forma magistral ao afirmar:
“Jesus é humano, muito humano — tão humano como só Deus pode ser humano.”
Deus não apenas se aproxima da humanidade; Ele assume plenamente a condição humana. O Salvador do mundo começa sua vida histórica com uma mulher simples da Galileia chamada Maria. Trabalha com mãos de homem, pensa com inteligência de homem, age com vontade de homem e ama com coração de homem (cf. Gaudium et Spes, 22). Tudo isso para que a humanidade pudesse viver sua mais alta dignidade: a de ser filha amada de Deus, e não serva humilhada de um ideal inalcançável.
Essa verdade ilumina a afirmação decisiva:Cristo veio nos mostrar o caminho para quem quer ser divino — e esse caminho passa, antes de tudo, por ser profundamente humano.A reflexão mais antiga que possuímos sobre esse mistério está no hino cristológico preservado por São Paulo na Carta aos Filipenses (Fl 2,6-11). Nele, o apóstolo contrasta dois movimentos opostos:o movimento humano natural, marcado pelo desejo de ascensão, domínio e autoexaltação; e o movimento de Cristo, caracterizado pela kenosis, o esvaziamento voluntário. Jesus, “existindo em condição divina”, não se apega a essa posição. Ao contrário, desce. Desce até tornar-se servo. Desce até a humilhação. Desce até a cruz. A descida só termina na execração pública da crucificação — mais baixo do que isso, impossível. É precisamente aí, no ponto mais baixo aos olhos do mundo, que Deus revela a plenitude do amor.
Essa lógica subverte definitivamente todo farisaísmo. Se Deus escolheu descer até os pecadores, com que direito nós nos colocamos acima deles? Se Cristo não se escandalizou com a miséria humana, mas a assumiu para redimi-la, como ousamos tratar o outro com desprezo quando ele cai? Talvez seja por isso que São João Paulo II tenha afirmado que o século XXI será evangelizado pela misericórdia. Não por discursos altivos, não por currículos morais apresentados a Deus, mas por homens e mulheres que, conscientes de sua própria fragilidade, aprendem a ver no outro não um inimigo moral, mas um irmão ferido. No fim das contas, homo sum não é apenas uma máxima filosófica; é uma confissão cristã. Nada do que é humano nos é estranho — nem o pecado, nem a queda, nem a possibilidade da redenção. E é justamente aí que reside nossa esperança: se Deus não se afastou da humanidade, tampouco nós temos o direito de fazê-lo.
*Francisco José
Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme
diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular no
sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
Bibliografia
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Tudo isso significa que para mim nada praticado pelo ser humano de bom ou ruim me é estranho, pois somos da mesma espécie , ou seja o que você faz eu também posso fazer igualmente de bom ou ruim! Pode significar também que o seu comportamento não é diferente do meu, pois faria a mesma coisa que você se estivesse no seu lugar, ou nas mesmas condições às quais você foi submetido antes e durante o evento.Pelo fato de ser humano você compreende, as vezes se identifica, com coisas humanas, nem sempre se escandalizando pelas atitudes humanas (quando estas forem atípicas, anormais, esquisitas), já que sabe que é passível também do estranho, pelo fato de possuir a mesma maquinaria biológica, os mesmos miólos regendo a forma como interpreta o mundo e reage a suas ações. Na minha imperfeita e limitada opinião, acho que quer dizer que nada que as pessoas fazem por mais belo ou mais horrível que seja, deixa de ser humano. Exemplo: dizer algo como "Ele(a) é um monstro" apenas rotula, mas não desumanisa, pois somos eternamente imagem e semelhança de Deus! Porque no fim das contas é apenas o humano,que assim agiu sob diversas circunstâncias agravantes para o mal, ou atenuantes e favoráveis para o bem!
Evelyn
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