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Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas

Written By Beraká - o blog da família on quarta-feira, 30 de maio de 2018 | 21:21






Os anjos e os demônios não são um fruto da fantasia do homem, nem mera expressão de suas esperanças e temores. Eles existem, são seres reais, dotados de uma natureza puramente espiritual, muito mais perfeita do que a nossa, de uma inteligência agudíssima e uma vontade potencial.Eles intervêm continuamente em nossa vida; os santos anjos, por meio das boas inspirações que nos sugerem; os demônios, pelas tentações a que nos submetem. Quais são os poderes reais dos anjos e dos demônios? Como devemos nos portar diante da ação angélica e como reagir em face da atividade diabólica? Mais especificamente, como resistir às tentações do demônio, à sua ação extraodinária, às infestações e à possessão? O que pensar da feitiçaria, dos sabás e das missas negras? Existem ainda hoje bruxos e feiticeiras? O espiritismo e a macumba têm alguma influência diabólica? Existe alguma relação entre Rock ’n’ Roll e satanismo? Para responder a estas perguntas, os autores de Anjos e demônios — A luta contra o poder das trevas, consultaram um sem-número de obras especializadas, recolhendo o ensinamento de uma centena de teólogos, moralistas e canonistas católicos; percorreram ainda as páginas de numerosos jornais e revistas, tanto nacionais como estrangeiros. Eles apresentam aqui, numa linguagem acessível, o resultado de sua pesquisa, colocando nas mãos do leitor não-especializado um trabalho denso de conteúdo bíblico e teológico e ao mesmo tempo de leitura amena e atraente.



(Gustavo Antônio Solímeo e Luiz Sérgio Solímeo – Editora: Artpress)

                                            
“Sede sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda como um leão que ruge, buscando a quem devorar. Resistí-lhe fortes na fé”.   (Primeira Epístola de São Pedro 5, 8)





OS ANJOS,OS DEMÔNIOS E O HOMEM


“(Jacó) teve um sonho: Uma escada  se erguia da terra e chegava  até o céu, e anjos de Deus subiam e  desciam por ela".    (Gen 28, 12)



CONSIDERANDO ÀS VEZES a beleza de um panorama marítimo, a elegância das ondas que vêm suavemente espraiar-se na areia límpida em um turbilhão de espuma; gaivotas e outros pássaros marinhos que planam docemente, sem esforço aparente, ao sabor das brisas; o brilho da luminosidade que reverbera nas águas e parece confundir-se com elas na linha do horizonte; diante de tudo isso sentimos a tranqüila majestade de Deus, sua imensa sabedoria, amor infinito por nós homens, dando-nos, sem nenhum mérito nosso, tais maravilhas. Mas, se para além dos sentidos naturais, considerássemos o mesmo panorama também com os olhos da Fé, perceberíamos que a maravilha é ainda maior, e a sabedoria e a bondade divinas ainda mais perfeitas; sua solicitude em relação a nós, homens, ainda mais excelente e carinhosa. É que, ao lado de toda aquela perfeição material, guardando-a e dirigindo-a, saberíamos que estão criaturas espirituais, incomparavelmente mais perfeitas do que nós e que têm como uma de suas missões ajudar-nos a melhor conhecer e amar o Criador, aconselhar-nos em nossas dúvidas, proteger-nos em todos os perigos, socorrer-nos em todas as dificuldades: os anjos.


Os Santos Anjos



Coroando a criação, acima dos seres inanimados, do mundo vegetal e animal, do homem que é o Rei dessa obra, Deus colocou os espíritos angélicos, dotados de inteligência (incomparavelmente mais perfeita que a nossa), porém não sujeitos às limitações do corpo, como nós. Explica São Tomás que Deus criou todas as coisas para tornarem manifesta a sua bondade e, de algum modo, participarem dessa bondade. Ora essa participação e manifestação não seriam perfeitíssimas senão no caso em que houvesse, além das criaturas, meramente materiais, outras compostas de matéria e espírito (os homens) e, por fim, outras puramente espirituais, que pudessem as similar de modo mais pleno as perfeições divinas. A verdade maravilhosa da existência dos anjos - seres intermediários entre Deus e os homens — é ilustrada poéticamente na Escrituras pelo sonho de Jacó, Patriarca do Povo eleito: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu e anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gen 28, 12).


Do ápice da escala da criação, os puros espíritos descem até a criaturas inferiores, governando o mundo material, amparando protegendo o homem; e sobem até Deus para oferecer-Lhe a glória da criação, bem como a oração e as boas obras dos justos. Essa realidade angélica foi pressentida pelos povos antigos, em meio às brumas do paganismo e das superstições, sob a forma de gênios benfazejos das fontes, dos bosques, dos mares, os quais garantiriam a harmonia do Universo, e eram propícios aos homens. Mas foi a revelação divina que apresentou aos homens a verdadeira figura dos espíritos angélicos, desembaraçada de toda forma de superstição. As Sagradas Escrituras e a Tradição forneceram os elementos fundamentais, que os grandes teólogos Doutores da Igreja — em especial São Tomás de Aquino — sistematizaram, dando-nos uma doutrina sólida e coerente sobre o mundo angélico.



É essa doutrina que procuramos sintetizar no presente trabalho, seguindo o Doutor Angélico bem como autores mais recentes que trataram do tema. Estamos certos de que o conhecimento desta doutrina será proveitoso para todos os fiéis. Conhecendo melhor os anjos, teremos mais intimidade com eles e seremos assim levados a recorrer mais amiúde à sua proteção e ao seu amparo, nesta nossa jornada terrestre rumo ao Paraíso. Sobretudo na luta tremenda que devemos travar contra o Adversário, o Caluniador, que anda ao redor de nós, no um leão feroz, querendo nos devorar (1 Ped 5, 8-9): Satanás!



Satanás e os anjos rebeldes



Da maravilhosa realidade dos santos anjos, descemos assim para tenebrosa realidade dos espíritos infernais, os demônios. Mais ainda do que em relação aos anjos, os povos pagãos da Antiguidade (como também os primitivos de hoje) tiveram a percepção dos demônios. A tal ponto, que mentalidades racionalistas do século passado e deste quiseram ver na concepção bíblica de anjos e demônios uma mera influência babilônica e grega. Essa apreciação é completamente falsa pois a concepção bíblica e cristã sobre os anjos está inteiramente imune dos absurdos supersticiosos dos pagãos. Em relação aos demônios, os povos antigos (babilônios, caldeus ou gregos) manifestaram uma grande confusão, por não terem conseguido resolver o problema da origem do mal. Em suas concepções, o bem e o mal se mesclam e se confundem de tal maneira que tanto os deuses como os gênios perversos mostram-se ambíguos, representando e praticando, uns e outros, tanto o bem como o mal. Entre os gregos, o vocábulo daimon designava os deuses e outros seres com forças divinas, sobretudo os maléficos, dos quais os homens deveriam guardar-se por meio da magia, da feitiçaria e do esconjuro.



A concepção revelada pela Sagrada Escritura e pela Tradição é bem outra: os demônios não são divindades, mas simples criaturas, dotadas de uma perfeição natural muitíssimo acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de Deus, seu criador, acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de Deus, seu criador. Se eles são perversos, não é por terem uma natureza essencialmente má, e sim por prevaricação; feitos bons por Deus, os anjos maus ou demônios se revoltaram e não quiseram submeter-se Criador, servi-Lo e adorá-Lo como sua condição de criatura o exigia.



Uma vez revoltados, os anjos rebeldes fixaram-se no mal, e passaram a tentar o homem, procurando arrastá-lo à perdição eterna. Essa atividade demoníaca — a tentação — os teólogos qualificam de ordinária, por ser a mais freqüente e também a menos espetacular de suas atuações sobre o homem. Além dessa atividade, ele pode — com a permissão de Deus — perturbar o homem de um modo mais intenso mais sensível, provocando-lhe visões, fazendo-o ouvir ruídos e sentir dores; ou, então, atuando sobre as criaturas inferiores — as planta animais, os elementos atmosféricos — para desse modo atingir o homem. É a infestação pessoal ou local, atividade menos freqüente mais visível, chamada por isso extraordinária. Em certos casos extremos, podem os demônios chegar a possuir o corpo do homem para atormentá-lo. Temos aqui a possessão, a mais rara manifestação extraordinária do Maligno.



Deus não nos deixou à mercê dos espíritos depravados. Além da proteção especial de nosso Anjo da Guarda e demais espíritos celestes, entregou à Igreja os meios preventivos e liberativos para enfrentar a ação do demônio: orações, sacramentos, sacramentais (bênçãos, medalhas, escapulários). O mais efetivo desses meios sobrenaturais, para os casos de infestação e possessão são os exorcismos, pelos quais se dão ordens ao demônio, em virtude do nome Jesus, para abandonar o corpo da pessoa ou o lugar que ele infesta ou possui. Devido à sua importância, nos deteremos um pouco mais no estudo dos exorcismos, considerando os seus fundamentos teológicos, o modo de praticá-los, bem como a legislação da Igreja a respeito.



Da atuação espontânea do demônio, passamos àquela que ele desenvolve a convite do homem, seja pela invocação direta e explicita, seja pela indireta e implícita. Com relação à magia, à feitiçaria e outras formas de superstição, deixamos de lado os aspectos históricos polêmicos (que alongariam por demais o presente estudo e fugiriam ao objetivo dele), limitando-nos a considerar sua possibilidade teológica, afirmada, aliás pelo Magistério da Igreja e pela unanimidade dos teólogos e moralistas.



Dedicamos algumas páginas à revivescência do satanismo nos dias de hoje, salientando o papel do Rock’ n’Roll, sobretudo do Heavy Metal (Rock Pesado) na sua difusão. A título de ilustração da doutrina aqui desenvolvida, apresentamos alguns casos de infestação possessão diabólica, uns decorrentes de intervenção espontânea do espírito das trevas, outros conseqüência de malefícios ou no de pacto explícito com o demônio; acrescentamos por fim o relato de uma série de sacrifícios humanos aqui no Brasil em honra de entidades de macumba e candomblé (as quais entidades não são coisa senão demônios), que revelam, de modo alarmante, o quanto nosso país está envolvido por essa onda de satanismo moderno, conseqüência de sua apostasia da Fé católica.Esperamos que este estudo contribua para reavivar a devoção santos anjos, nossos fiéis amigos, conselheiros e protetores; e ao mesmo tempo, sirva de alerta aos católicos para o perigo das das espíritas ou de macumba, e outras formas de superstição( como o uso de amuletos, adivinhações, etc.), as quais podem conduzir, muitas vezes sem que se queira, à comunicação pelo menos implícita com os espíritos infernais.



Digne-se a Virgem Santíssima — que esmaga para sempre a cabeça da serpente infernal (cf. Gen 3, 15) — proteger e abençoar este modesto esforço. Invocamos também o patrocínio do glorioso Patriarca São José e a proteção do invencível Arcanjo São Miguel — que derrotou Satã no “praelium magnum in caelo”  (Apoc 12, 7-l0) — e dos santos anjos que atenderam ao seu brado de guerra: “Quis ut Deus?” — “Quem é como Deus?”





I - OS PRÍNCIPES DOS EXÉRCITOS DO SENHOR




AS NOÇÕES que correm entre os fiéis, mesmo dentre os mais fervorosos, a respeito dos santos anjos são muito vagas e superficiais. Meras reminiscências e imagens da infância, na maioria dos casos, não muito diferentes de entidades fictícias e de algum modo mitológicas, como as fadas e os duendes.A iconografia corrente, infelizmente, não ajuda a dar a conhecer a verdadeira fisionomia dos anjos, apresentando-nos seres alados, com vestes e aspecto feminimo; ou, então, anjinhos bochechudos, com cara infantil e tola, brincando despreocupadamente sobre nuvens que mais parecem flocos de algodão doce.Esses anjos não existem, nem é deles que tratamos aqui.



A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, dos escritos dos Santos Padres, do ensinamento do Magistério eclesiástico, da lição dos Doutores e teólogos, queremos apresentar a verdadeira natureza dos santos anjos: seres puramente espirituais, dotados de uma inteligência agudíssima e de uma possante vontade livre dominando abaixo de Deus sobre todas as demais criaturas, racionais e irracionais, bem como as forças da natureza, os elementos da atmosfera e subjugando para sempre os espíritos infernais.Eis os santos anjos, príncipes dos exércitos do Senhor, mas também nossos amigos e protetores.

O admirável mundo angélico

"E ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono,e era o número deles milhares de milhares".  ( Ap 5,11)




ALÉM DO MUNDO VISÍVEL e material, criou Deus também o mundo invisível e espiritual, o admirável mundo angélico.A existência dos anjos foi negada na Antiguidade, entre judeus, pela seita dos saduceus (cf. At 23, 8). Mais tarde, por certas seitas protestantes, como os anabatistas. Em nossos dias ela tem por adversários os ateus, materialistas e positivistas, que não crêem senão naquilo que seus olhos vêem e seus sentidos apalpam. Os racionalistas, para encontrar uma excusa aparentemente racional à sua incredulidade, alegam que os anjos foram inventados pelos judeus no tempo do cativeiro da Babilônia, por imitação das entidades ali cultuadas; ou, então, consideram os anjos como simples modo poético e simbólico de referir-se às virtudes divinas e aos vícios humanos.Contra todos esses, falam os dados da razão, a crença comum dos povos e a revelação divina.


Os anjos existem


Pela simples razão, independentemente da revelação, o homem pode chegar de algum modo ao conhecimento da existência dos anjos. Com efeito, a existência de seres puramente espirituais não repugna à razão. E um exame da criação, à mera luz do intelécto pode levar-nos à conclusão de que a existência de criaturas puramente espirituais convém à harmonia do Universo, pois assim estariam representados os três gêneros possíveis de seres: os puramente espirituais, acima do homem; outros, puramente materiais, abaixo do homem; por fim, seres compostos, dotados de matéria e espírito — os homens.



E a crença comum dos povos, constante em todos os lugares e em todas as épocas, sempre afirmou a existência desses seres de natureza superior aos homens e inferior à divindade.Uma coisa, porém, é a mera possibilidade da existência de seres puramente espirituais, e outra é a sua realidade objetiva. A existência dos anjos (e dos demônios, anjos decaídos) seria para nós um problema insolúvel, não houvesse a tal respeito especial revelação divina por meio da Escritura e da Tradição,* que nos garantem a certeza da existência dos anjos.


* Tradiçâo, em sentido amplo, é o conjunto de idéias, sentimentos e costumes, como também de fatos que, numa sociedade, se transmitem de maneira viva de geração geração.


 Em sentido estrito teológico, chama-se Tradição o conjunto de verdades reveladas que os ástolos receberam de Cristo ou do Espírito santo, e transmitiram, independentemente Sagradas Escrituras, à Igreja, que as conserva e transmite sem alteração.Essa revelação foi feita a nossos primeiros pais, e se conservou na Humanidade, por via de transmissão oral pelos Patriarcas. Com o tempo (e também por obra do demônio, sem dúvida), essa revelação primitiva foi-se corrompendo, restando dela meros vestígios no paganismo antigo e no atual. Nas brumas desse paganismo encontramos seres incorpóreos, ora malfazejos ora benignos, quase sempre cultuados como divindades ou quase-divindades.



Para preservar o povo judeu da contaminação por essa deformação politeísta pagã, os Autores sagrados, durante largo período, evitaram mencionar nominalmente o espírito das trevas. E, pela mesma razão, não se encontram muitos pormenores no Antigo Testamento sobre a natureza dos anjos e dos demônios, embora sejam mencionados a cada passo. A revelação definitiva só se verifica Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, a Bíblia não traz toda a revelação sobre o mundo angélico, sendo necessário recorrer à Tradição, Esta, como se sabe, encontra-se recolhida nos documentos dos Santos Padres* e escritores eclesiásticos dos primeiros tempos, assim como nos documentos do Magistério - Papas e Concílio - na Liturgia e nos monumentos da Antiguidade cristã (catacumbas cemitérios, etc.).


*Chamam-se Santos Padres ou Padres da Igreja certos escritores eclesiásticos antigos, que se distinguiram pela doutrina ortodoxa e santidade de vida e são reconhecido Igreja como testemunhas da tradição divina.



A existência dos anjos é uma verdade de fé,* provada pela Escritura e pela Tradição. A Sagrada Escritura refere-se inúmeras vezes a seres racionais, inferiores a Deus e superiores aos homens; logo, segundo ela, esses seres, que nós denominamos anjos, existem.



* Verdade de fé é aquela que se encontra na Revelação e é proposta pela Igreja aos fiéis como verdade que se deve crer. A negação pertinaz de uma verdade de fé constitui a heresia.



Essa verdade foi definida solenemente como dogma pelo concílio IV de Latrão (1215): “Deus.., desde o princípio do tempo criou do nada duas espécies de seres — os espirituais e os corporais, isto é, os anjos e o mundo”. De forma igual se expressa o I Concílio do Vaticano (1870).



Os nove coros angélicos


Existem diferenças entre os anjos, mas não consta na Revelação qual sua origem nem seu modo preciso. É questão de livre discussão se os anjos são todos da mesma espécie, ou se existem tantas espécies quantos são os coros, ou se cada indivíduo constitui uma espécie por si (opinião de São Tomás).De acordo com uma tradição que remonta ao Pseudo-Dionísio Areopagita,* os teólogos costumam agrupá-los em nove ordens ou coros angèlicos, distribuídos em três hierarquias ( os nomes são tomados da Sagrada Escritura):*

*Renomado escritor eclesiástico dos primeiros séculos, cuja identidade não se estabeleceu ainda ao certo, durante muito tempo confundido com o sábio convertido por São Paulo no Areópago de Atenas (cf. At 17, 34). Uma de suas obras mais célebres é De coelesti hierarquia — Sobre a hierarquia celeste, na qual estabelece a ordem dos Anjos, deteminada pelo seu grau de assimilação a Deus, de união com Deus, do dom de luz divina que recebem e transmitem aos Anjos inferiores.


* Por exemplo: Serafins ( Is 6,2); Querubins ( Gen 3,24; Ex 25, 18; 3 Reis 6,23; Sl 17, 11; Ez 10,3; Dan 3,55); Arcanjos ( 1 Tes 4,15; Jud 9); Anjos, Potestades, Virtudes ( 1 Ped 3,22); Principados, Dominações ( Ef 1,20-21); Tronos (Col 1,16).


Primeira hierarquia: Serafins, Querubins, Tronos;
Segunda hierarquia: Dominações, Potestades, Virtudes;
Terceira hierarquia: Principados, Arcanjos e Anjos.


Os anjos dos três primeiros coros ou primeira hierarquia - Serafins, Querubins e Tronos contemplam e glorificam continuamente a Deus: " Vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono... Os Serafins estavam por cima do trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos" (Is 6, 1-3 ). " O Senhor reina ... está sentado sobre querubins" (Sl 98,1); os três coros seguintes - Dominações, Virtudes e Potestades - ocupam-se do governo do mundo; finalmente, os três últimos - Principados, Arcanjos e Anjos - executam as órdens de Deus: "Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras" (Sl 102, 20).


Todos eles podem entretanto ser chamados genericamente anjos, estando à disposição de Deus para executar suas vontades. Embora o Evangelho, na Anunciação a Maria, se refira ao anjo Gabriel ( Lc 1,26), isto não quer dizer que ele pertença à última das hierarquias angélicas, pois a sublimidade dessa embaixada leva a supor que se trate de um dos primeiros espíritos que assistem diante de Deus.Os três arcanjos - como são conhecidos comumente São Miguel, São Gabriel e São Rafael - pertencem, provavelmente, à mais alta hierarquia angélica. Falaremos deles mais adiante.Embora não conheçamos, o número exato dos anjos, sabemos, pelas Escrituras e pela Tradição, que são muitíssimos,. É o que lemos no livro do Apocalipse: "E ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono ... e era o número deles milhares e milhares":


(Apoc 5, 11). E no livro de Daniel: “Eram milhares de milhares de milhares (os anjos) que o serviam, e mil milhões os que assistiam diante dele” (Dan 7, 10).



Muitos teólogos deduzem que o número dos anjos é superior ao dos homens que existiram desde o princípio do mundo e existirão até o fim dos tempos. A razão disso é dada por São Tomás ao dizer que, tendo Deus procurado principalmente a perfeição do universo ao criar os seres, quanto mais estes forem perfeitos, Deus os terá criado com maior prodigalidade. Ora, os anjos são mais perfeitos que os homens, logo foram criados em maior número.


A natureza angélica


“Então o anjo do Senhor tornou-o pelo  alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova" (Dan 14, 32-35)



É TAL O ESPLENDOR de um anjo, que as pessoas às quais eles aparecem muitas vezes se prostram por terra por temor e reverência para adorá-los, pensando que se trata do próprio Deus — conforme relato das Escrituras e da vida dos santos. E assim que São João conta no Apocalipse: “Prostrei-me aos pés do anjo para o adorar; porém ele disse-me: Vê, não faças tal; porque eu sou servo de Deus como tu .... Adora a Deus” (Apoc 22,9).É essa natureza maravilhosa que vamos estudar agora.


Seres racionais, inteligentes e livres



Os anjos são seres intelectuais ou racionais, inferiores a Deus e mais perfeitos que os homens. Eles são puros espíritos, não estando ligados a um corpo como nós; são dotados de uma inteligência luminosa e de vontade livre e possante.Tendo sido criados por Deus do nada, como tudo o mais, os pelo próprio fato de serem puramente espirituais, são imortais, pois não têm nenhuma ligação com a matéria corruptível, como os homens.Ao contrário da natureza do homem, que é composta (isto é, formada de dois elementos distintos, o corpo e a alma) os anjos têm natureza simples, puramente espiritual. Embora a alma humana seja igualmente espiritual, ela foi criada por Deus para viver em união substancial com o corpo; quando se dá a morte e a alma se separa do corpo, ela permanece em um estado de violência, enquanto não se dá a ressurreição dos corpos.Já os anjos não têm necessidade de um corpo como o homem. Desse modo, é um ser muito mais perfeito, sendo inferior, quanto à natureza, apenas ao próprio Deus. Não se pode pois, ao pensar nos anjos, concebê-los à maneira de uma alma humana separada de seu corpo. Esta última não é capaz daquilo que o anjo pode fazer sua simples natureza.Tal como o homem, os anjos existem realmente enquanto pessoas; ou seja, eles são substâncias individuais, dotadas de inteligência e livre arbítrio*. Em outros termos, eles têm uma existência real, distinta da de outros seres, sendo capazes de conhecer, de amar, de servir, de escolher entre uma coisa e outra. Eles não são portanto, seres imaginários, fictícios, concebidos pelo homem como mero modo poético de exprimir-se, ou como personificações das virtudes e dos vícios humanos ou das forças da natureza,nem tampouco emanações do poder de Deus.


* É clássica a definição de pessoa dada por Boécio: “Rationalis naturae individua substantia “— " Substância individual de natureza racional”.



Os anjos foram elevados à ordem sobrenatural, isto é chamados a participar da vida da graça, cujo fim é a visão beatífica de Deus. Esta elevação é gratuita, mas discute-se em que momento se deu (para São Tomás, foi no momento mesmo de sua criação); é de fé que os anjos deveram sofrer uma prova, porém não se sabe qual teria sido. Depois da prova cessou para eles o tempo de merecer; é também de fé que os anjos bons gozaram e gozam para sempre visão beatífica e que os maus foram condenados a uma pena eterna.



Conhecimento e comunicação angélica



É questão de livre discussão tudo quanto se refere ao conhecimento angélico, à comunicação de uns com os outros, bem como o que se refere ao seu ato de vontade; é certo que sua capacidade de conhecer — embora incomparavelmente superior à do homem — é limitada: eles não conhecem naturalmente os mistérios divinos, nem o futuro livre ou contingente;* também é certo que têm pleno livre arbítrio.



*Os anjos (e também os demônios, que são anjos pervertidos), pela sua própria natureza, não têm capacidade de conhecer o futuro que depende de um ato livre de Deus ou do homem; porém, dada sua inteligência agudíssíma e seu conhecimento da natureza e de suas leis, eles podem prever qual o desenrolar dos acontecimentos, postas cenas causas. Também podem, em razão de sua profunda penetração psicológica e do conhecimento da alma humana, fazer conjeturas mais ou menos prováveis de como os homens reagirão diante de determinada circunstância, e assim prever o que decorrerá daí.



Para dar uma idéia da perfeição do conhecimento angélico, parece oportuno transcrever a explicação do Cardeal Lepicier, grande especialista na matéria.Comparando o modo de conhecimento humano com o angélico, ressalta o Cardeal que Deus infundiu no intelecto dos anjos, logo que os criou, representações de todas as coisas naturais. Estas imagens “são não somente representativas de princípios gerais que regulam cada ciência particular, mas encerram também, distintamente, todos os pormenores virtualmente contidos nesses princípios, de maneira que uma e a mesma imagem informa a mente angélica das particularidades de cada ciência. Não poderá pois haver confusão na mente angélica, quando ela passa da observação de um para a observação de outro..." Um anjo, com um simples olhar à imagem que representa — digamos — o reino animal, conhece não só as várias espécies de animais existentes, mas também cada indivíduo que exista ou tenha existido dentro de cada espécie, assim como as suas propriedades particulares e os seus meios de ação. E o mesmo sucede com o conhecimento de qualquer objeto, seja ele qual for, que se encontre no reino da natureza, seja orgânico ou inorgânico, material ou espiritual visível ou invisível.



Chama-se futuro livre ou contingente aquele que depende, seja da vontade divina, seja da humana. Distingue-se do futuro necessário, o qual não depende do livre arbítrio, mas decorre de causas que, uma vez postas, levam necessariamente a um determinado efeito. Assim, à noite sucede o dia; a semente, lançada à terra, germinará dentro de determinado tempo, se se verificarem todas as condições necessárias a isso, independentemente da vontade divina (que já está manifestada no ato da criação da espécie) ou da natureza humana.


“Por aqui se pode ver que a ciência humana é muito excedida pela ciência da mente angélica, tanto em extensão com precisão”.*


* Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível pp. 42-43.



São Tomás explica do seguinte modo a comunicação dos anjos entre si: como nós homens, os anjos têm o verbo interior ou verbo mental, com o qual falamos a nós mesmos ou formulamos os conceitos interiormente. Mas, enquanto nós só podemos comunicar esse pensamento a outros por meio da palavra oral, ou de outro meio externo, pois entre nós e os demais existe a barreira do nosso corpo, que vela o pensamento, os anjos não têm essa barreira corpórea; assim, basta a eles, por um ato de vontade, se dirigirem a outros anjos, para que seu pensamento — ou seja, esse verbo interior ou verbo mental — se manifeste a eles.



Como os anjos são diferentes entre si, e uns são mais perfeitos que outros, os mais perfeitos iluminam os menos perfeitos comunicando-lhes aquilo que eles vêem mais em Deus.Do mesmo modo, eles podem iluminar os homens, comunicando-lhes bons pensamentos, embora de forma diferente daquela pela qual um anjo se comunica com outro. Como a mente humana necessita do concurso da fantasia para entender as coisas, os anjos comunicam as verdades ao homem por meio de imagens sensíveis.Quanto à vontade humana, só Deus ou o próprio homem são capazes de movê-la eficazmente; o anjo, ou outro homem. só podem movê-la por meio da persuasão.



Poder dos anjos sobre a matéria


É um tanto misterioso a nós o modo como os anjos, seres espirituais, possam mover a matéria.No entanto tal poder está formalmente revelado, como se pode ver, por exemplo, no livro de Daniel. O profeta fora jogado na cova dos leões para que perecesse; por ação divina, os animais não fizeram mal: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21). No entanto, para alimentá-lo, Deus quis servir-se do profeta Habacuc, conduzido até a cova por um anjo.



Narra a Escritura: “Estava então o Profeta Habacuc na Judéia, e tinha cozido um caldo, e esfarelado uns pães dentro duma vasilha, e ia levá-los ao campo aos ceifeiros que lá estavam. E o anjo do Senhor disse a Habacuc: Leva a Babilônia essa refeição que tens, para a dares a Daniel que está na cova dos leões. E Habacuc respondeu: Senhor eu nunca vi a Babilônia e não sei onde é a cova. Então o anjo do Senhor tomou-o pelo alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova” (Dan 14, 32-35).O próprio Salvador deixou-se carregar pelo demônio até o alto monte para ser tentado (cf. Mt 4, 5-8).Em São Mateus, sobre a Ressurreição de Nosso Senhor, está escrito: “Um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela” (Mt 28, 2).*


*Cf. Suma Teológica, 1,qq. 52, 107,110-112.



Embora a questão, como dissemos, seja algo misteriosa, procuraremos sintetizar aqui a doutrina de São Tomás de Aquino a respeito.Antes de tudo, convém lembrar o que ensina o santo Doutor a respeito do modo como os anjos encontram-se em um lugar: enquanto os seres corpóreos manifestam sua presença num lugar circunscrevendo-o pelo contato físico de seu corpo com o lugar ocupado, as criaturas incorpóreas delimitam o lugar por meio de um contato operativo. Quer dizer: elas estão no lugar onde agem.



Quanto ao modo como os anjos movem a matéria, é a seguinte explicação tomista:


O ser superior pode mover os inferiores porque tem em si, de um modo mais eminente, as virtualidades desses seres inferiores. Assim, o corpo humano é movido por algo superior a ele, a alma, que é espiritual, a qual, através da vontade, que também é imaterial, move os membros corpóreos a seu bel-prazer; logo, não repugna à razão que uma substância espiritual possa mover a matéria.



Entretanto, no caso da alma humana, ela só pode mover diretamente aquele corpo com o qual está substancialmente unida; as demais coisas, ela só pode mover por meio desse corpo;* ora, como os anjos são seres espirituais, não estando substancialmente unidos a nenhum corpo material, sua força de ação sobre a matéria não está delimitada por nenhum corpo determinado; dai se segue que eles podem mover livremente qualquer matéria.



* Por exemplo, para mover uma caneta sobre o papel no escrever, nós precisamos segurá-la com a mão e através desta imprimir o impulso que fará a caneta deslizar no papel e traçar as letras que desejamos; eu não posso mover diretamente a caneta, por um simples ato de vontade: pelo ato de vontade eu agarro a caneta e movo minha mão segundo meus intentos. Tudo que fazemos é precedido pela vontade, e os anjos são dotados de vontade perfeita e superior a nossa vontade humana.



Esse movimento se produz pelo contato operativo do anjo a matéria, impulsionando um primeiro movimento local; por meio desse primeiro movimento local o anjo pode produzir outros movimentos na matéria utilizando-se dos próprios recursos dela, com o ferreiro se utiliza do fogo para dobrar o ferro.O Cardeal Lepicier observa que, como os anjos possuem conhecimento das leis físicas e químicas que ultrapassa tudo quanto a Ciência possa ter descoberto ou venha a descobrir, e, além do mais, têm um poder imenso sobre a matéria, podemos dizer que dificilmente se encontrarão no Universo fenômenos que os anjos não possam produzir, de um modo ou de outro. Esses fenômenos são por vezes tão surpreendentes, que chegam a parecer verdadeiros milagres. Porém, não são milagres, pois embora ultrapassem de longe a capacidade dos homens, não estão acima do poder angélico. Ele exemplifica:


“Um rápido exame dos fenômenos que ocorrem no mundo físico bastará para nos dar uma idéia dos maravilhosos efeitos a que os seres angélicos podem dar causa. Em primeiro lugar, assim como, devido às forças da natureza, massas enormes se podem deslocar, ou, sob a ação de agentes físicos, os elementos da matérias dissolvem ou trabalham em conjunto, como quando provocam as tempestades, furacões e procelas — assim também um anjo, sem a cooperação de quaisquer agentes intermediários, transfere de um lugar para outro os corpos mais pesados, levanta-os e conserva-os suspensos durante determinado tempo, agita as mais pesadas substâncias e provoca colisões entre elas. Pode o mesmo anjo revolver cidades e vilas, provocar terremotos e encapelar as ondas do mar, originrar tempestades e furacões, parar a corrente dos rios e, se assim o entender, dividir as águas do mar."Além de tudo isso, pode também um anjo, usando das próprias forças, produzir os mais surpreendentes efeitos óticos, não só obrigando substâncias desconhecidas para nós espargir jorros de luz, mas também projetanto sombras que se assemelham a representações fantasmagóricas. Pode ainda, sem a ajuda de qualquer instrumento, pôr em movimento os elementos da matéria, fazer ouvir a música mais harmoniosa ou produzir os mais estranhos ruídos, tais como pancadas repetidas ou explosões súbitas. São ainda os anjos capazes de aglomerar nuvens, provocar relâmpagos e trovões, arrancar árvores gigantescas, arrasar edifícios, rasgar tecidos e quebrar as rochas mais duras. É-lhes também possível fazer com que um lápis escreva, por assim dizer automáticamente, certas frases com um sentido inteligível, assim como dar aos objetos formas diferentes das que são peculiares à sua natureza. Podem, até certo ponto, suspender as funções da vida, parar a respiração dum corpo, acelerar a circulação do sangue e fazer com sementes lançadas à terra cresçam dentro de pouco tempo, até atingirem a altura duma árvore, com folhas, botões e até com frutos."A um anjo é possível fazer todas estas coisas no mais breve espaço de tempo por causa do seu poder sobre os elementos da matéria, e sem a menor dificuldade, imitando perfeitamente as obras da natureza e dando em tudo a impressão de que se trata de efeitos s a causas naturais” .*



*Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível. pp. 74-75.



Poder dos anjos sobre o homem


O anjo pode produzir efeitos corpóreos maravilhosos. Ele pode, através do movimento que imprime à matéria, produzir mudanças nos corpos, mas de tal forma que apenas se sirva da natureza, desdobrando as potencialidades dela.Assim ele pode, nos homens, favorecer ou impedir a nutrição ou provocar doenças. Mas ele não pode fazer qualquer coisa que esteja completamente acima da natureza, como por exemplo ressuscitar pessoas mortas.O anjo tem ainda o poder de favorecer ou impedir os movimentos da sensualidade, a delectação, a dor, a ira, a memória e afetar de vários modos os sentidos externos e internos, isto é, os cinco sentidos, a memória e a imaginação.Do mesmo, modo o anjo pode aguçar a força da inteligência e, de um modo indireto, mover quer o intelecto — excitando imagens na fantasia ou propondo questões — quer a vontade, solicitando-a para que escolha algo.



O anjo pode formar para si um corpo com o qual aparece aos homens como, por exemplo, o arcanjo São Rafael fez com Tobias. Santo Agostinho diz que os anjos aparecem aos homens com um corpo que eles não somente podem ver, mas também tocar, como é provado pela Escritura (Gen 18, 2ss; Lc 1, 26ss; At 12, 7ss; o livro de Tobias).



O anjo move o corpo que assume, como nós poderíamos mover um boneco, dando a impressão de que ele está vivo, fazendo-os imitar os movimentos do homem. Quando São Rafael parecia comer na companhia de Tobias, ele apenas fazia o corpo do qual estava se servindo mover-se como faz um homem nessa circunstância, mas sem consumir o alimento.Os espíritos angélicos não podem fazer milagres propriamente ditos, mas sim coisas maravilhosas, que ultrapassam o poder humano, não porém o angélico. Por exemplo, graças ao seu poder e conhecimento extraordinário, podem curar doenças, restituir a vista a cegos (Tob 11, 15); fazer prodígios como elevar uma pessoa e carregá-la pelos ares (Dan 14, 15), fazer falar serpente (Gen. 3, Iss), etc.


Ministérios dos anjos



"Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor...Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor".(Dan 3, 58-61)



OS MINISTÉRIOS dos anjos são: em relação a Deus, adorá-lo, louvá-Lo, servi-Lo, executando todos os Seus decretos em relação aos demais anjos, quer aos homens, como também a toda a natureza material, animada e inanimada; em relação aos demais anjos, os de natureza superior iluminam os inferiores. dando-lhes a conhecer aquilo que vêm em Deus; em relação aos homens, eles são ministros de Deus para encaminhá-los à pátria celeste, protegendo-os, corrigindo-os, instruindo-os, animando-os; em relação ao mundo material, eles são agentes de Deus para o governo do Universo.



Ministros da liturgia celeste



O principal ministério dos anjos consiste em adorar, louvar e servir a Deus: “Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor ... Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor; louvai-O e exaltai-O por todos os séculos” (Dan 3, 58-61). “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras” (Si 102, 20). “Os Serafins estavam por cima do trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6,2-3).



Os santos anjos desempenham assim a liturgia celeste:



"E vi os sete anjos que estavam de pé diante de Deus ... E veio outro anjo, e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro; e foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus. E o aroma dos perfumes das orações dos santos subiu da mão do anjo até à presença de Deus” (Apoc 8,2-4).



Esses puros espíritos são, pois, ministros do altar e ministros do trono de Deus: eles cantam os louvores de Deus na presença do Altíssimo, e apresentam-Lhe as nossas preces e as nossas boas obras; ao mesmo tempo, descem até nós e nos trazem as graças e bênçãos divinas, verdade belamente expressa na visão da escada de Jacó: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu, e anjos de Deus subiam desciam por ela” (Gen 28, 12).Essa verdade, em termos práticos, significa que eles são intercessores poderosíssimos diante de Deus. A eficácia da intercessão angélica é testemunhada, entre muitas outras passagens da Escritura, por esta do livro do Profeta Zacarias: “E o anjo do senhor replicou e disse: Senhor dos exércitos, até quando diferirás tu o compadecer-te de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais te iraste? Este é já o ano septuagésimo. ... Isto diz o Senhor dos exércitos: Eu sinto um grande zelo por Jerusalém e por Sião... Portanto isto diz o Senhor: Voltarei para Jerusalém com entranhas de misericórdia” (Zac 1,12-16).Isto nos deve mover a recorrer sempre com fervor e cada mais a eles.



Guerreiros dos exércitos do Senhor



As Sagradas Escrituras nos apresentam os anjos numa guerreira, como a milícia dos exércitos do Senhor.Assim, o profeta Miquéias exclama: “Eu vi o Senhor sentado sobre seu trono, e todo o exército do céu ao redor dele, à direita e à esquerda” (3 Reis 22, 19). E o livro de Josué, ao narrar a luta dos judeus para conquistar a Palestina, após saírem do Egito, diz: "Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos e viu diante de si um homem em pé, que tinha uma espada desembainhada. Foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos, ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou o príncipe do Senhor” (Jos 5, 13-14).*


* No Antigo Testamento os anjos são designados das mais diversas formas: "príncipes"; "filhos de Deus"; "santos"; "anjos santos"; "sentidos vigilantes"; "espíritos"; "homem".



O próprio Deus, a quem servem esses anjos guerreiros, é apresentado como o Deus dos exércitos. O profeta Oséias, descrevendo a fidelidade de Jacó, registra: “E o Senhor Deus dos exércitos, este Senhor ficou sempre na sua memória” (Os 12, 4-5). Amós profetiza a prevaricação de Israel em nome do Senhor Deus dos exércitos: "Ouvi isto, e declarai-o à casa de Jacó, diz o Senhor dos exércitos”. E adiante: “Pois sabe, casa de Israel, diz o Senhor Deus dos exércitos, que eu vou suscitar contra vós uma nação vos oprimirá” (Am 3, 13; 6, 15). Na visão do profeta Isaías: "Os serafins .. clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6, 2-3). A mesma expressão é utilizada nos Salmos de Davi: “Quem é esse Rei da Glória ? O Senhor dos exércitos; esse é o Rei da glória “. “O Senhor dos exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa cidadela" ( Sl 23,10; 45, 8).O Senhor Deus dos exércitos, após a desobediência de nossos primeiros pais, “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gen 3,24).



As hostes celestes combateram no Céu uma “grande batalha"  (Apoc 12, 7), derrotando e expulsando Satanás e os anjos rebeldes.E na noite sublime do Natal, esses guerreiros celestes apareceram aos pastores: “E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 8-14).Deus confia à milícia celeste a defesa daqueles que O amam. Segundo os intérpretes, um anjo exterminador matou em meio à noite todos os primogênitos do Egito (Ex 12, 29); e ao serem os judeus perseguidos pelo exército do Faraó, o anjo do Senhor, que ia diante deles, se interpôs entre os egípcios e o povo escolhido (Ex 14, 19). Quando Senaquerib ameaçava o povo eleito, Deus enviou um de seus terríveis guerreiros angélicos: "Naquela mesma noite saiu o anjo de Iavé e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta e cinco mil homens” (4 Reis 19, 35).Às vezes os combatentes celestes se juntam aos combatentes terrestres para dar-lhes a vitória, como se deu numa batalha decisiva de Judas Macabeu:



“Mas, no mais forte do combate, apareceram do céu aos inimigos cinco homens em cavalos adornados de freios de ouro, que serviam de guia aos judeus. Dois deles, tendo no meio de si Macabeu, cobrindo-o com suas armas, guardavam-no para que andasse sem risco da sua pessoa; e lançavam dardos e raios contra os inimigos, que iam caindo feridos de cegueira, e cheios de turbação. Foram pois mortos vinte mil e quinhentos homens, e seiscentos cavalos” (2 Mac 10, 28-32).



O Senhor Deus dos exércitos envia igualmente seus guerreiros para livrar seus amigos das mãos dos ímpios:



“Deitaram (os judeus) as mãos sobre os Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas um anjo do Senhor, abrindo de noite as portas do cárcere, e, tirando-os para fora, disse: Ide, e , apresentando-vos no templo, pregai ao povo toda as palavras desta vida” (At 5, 18-20).



“Herodes ... mandou também prender Pedro ... E eis que sobreveio um anjo do Senhor, e resplandeceu de luz no aposento; e, tocando no lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E caíram as cadeias das suas mãos. E o anjo disse-lhe: Toma a tua cinta, e calça as tuas sandálias. E ele fez assim. E o anjo disse-lhe: Põe sobre ti a tua capa e segue-me. E ele, saindo, seguia-o, e não sabia que era realidade o que por intervenção do anjo, mas julgava ter uma visão. E, depois de passarem a primeira e a segunda guarda, chegaram à porta de ferro que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma. E saindo, passaram uma rua e, imediatamente, o anjo afastou-se dele: Então Pedro, voltando a si, disse: Agora sei verdadeiramente que o Senhor mandou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus” (At 12, 1-11).


O próprio Salvador, para deixar claro aos Apóstolos que Ele sofria a Paixão por espontânea vontade, disse a São Pedro, que O queria defender por meio da espada: “Julgaste por ventura que eu não posso rogar a meu Pai, e que ele não me porá imediatamente aqui de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53).



Executores da Ira Santa de Deus:



Esses guerreiros executam igualmente a ira santa de Deus.Diante dos pecados dos sodomitas, Deus enviou seus anjos:


"Quanto aos homens que estavam à porta (da casa de Lot e queriam abusar dos jovens que lá estavam), eles (os anjos) os feriram com cegueira, do menor ao maior, de modo que não conseguiram achar a entrada “. “Os anjos disseram a Lot ... nós vamos destruir este lugar pois é grande o clamor que se ergueu contra eles diante do Senhor. E o Senhor nos enviou para exterminá-los (Gen 19, 10-13).



"Quando os mensageiros do rei Senaquerib blasfemaram contra ti, teu anjo interveio e feriu cento e oitenta e cinco mil dos seus homens". (1 Mac 7,41).


Herodes Agripa, que perseguira São Pedro e matara São Tiago, foi "ferido pelo anjo do Senhor e comido de vermes” (At 12, 23).

No fim do mundo:


"O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” ( Mt 13, 41-42).



"Quando aparecer o Senhor Jesus (descendo) do céu com os anjos do seu poder, em uma chama de fogo, para tomar vingança daqueles que não conheceram a Deus e que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; os quais serão punidos com a perdição eterna longe da face do Senhor e da glória do seu poder" (2 Tess 1, 7-9).



Mensageiros celestes



O próprio nome de anjos indica já sua função: enviados ou mensageiros de Deus. Com efeito, o original hebraico do Antigo Testamento se refere a esses puros espíritos como mal´âk yahweh, isto é, emissários de Deus. A versão grega utilizou a expressão angelos, a qual foi por sua vez traduzida em latim por angelus, palavra que serviu de base para as línguas ocidentais.O Novo Testamento nos mostra a ação desses emissários de Deus, comunicando aos homens as mais importantes mensagens divinas.Assim, o arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias o nascimento do Precursor, São João Batista: “Eu sou Gabriel, que assisto diante do trono de Deus e fui enviado para falar-te e comunicar-te esta boa nova” (Lc 1,19).O mesmo anjo anuncia à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação: “Foi enviado o anjo Gabriel da parte de Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposaca com um varão de nome José, da casa de David; e o nome da Virgem era Maria” (Lc 1,26-27).Um anjo aparece a São José em sonhos dando-lhe a conhecer também esse mistério: “Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos dizendo: José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) Espírito Santo” (Mt 1,20).



A alegria do nascimento do Salvador foi anunciada pela aos pastores: “Ora naquela mesma região havia uns pastores que velavam e faziam de noite a guarda ao seu rebanho. E eis que apareceu junto deles um anjo do Senhor, e a claridade de Deus os cercou,, e tiveram grande temor. Porém o anjo disse-lhes: Não temais; porque eis que vos anuncio uma grande alegria, que terá todo o povo. Nasceu-vos na cidade de David o Salvador, que é Cristo Senhor. E eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos deitado numa manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,8-14).Um anjo aconselha à Sagrada Família fugir para o Egito por causa da perseguição de Herodes: “Eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, torna o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque Herodes vai procurara menino para o matar” (Mt 2, 13).Depois da morte de Herodes, o anjo torna a aparecer a São José: "Morto Herodes, eis que o anjo do Senhor apareceu em sonho a José no Egito, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque morreram os que procuravam tirar a vida ao menino” (Mt 2, 19-20).



Consoladores e confortadores



Em diversos episódios, a Sagrada Escritura nos mostra os anjos no seu ministério de consoladores e confortadores dos homens em dificuldades.O profeta Elias, sendo perseguido pela ímpia rainha Jezabel (a qual introduzido em Israel o culto idolátrico de Baal), fugiu para o deserto; ali, prostrado de desânimo e fadiga, adormeceu. “E um anjo do Senhor o tocou, e lhe disse: Levanta-te e come". Elias abriu os olhos e viu junto de sua cabeça um pão e um vaso de água; comeu e bebeu e tornou a adormecer. “E voltou segunda vez o anjo do Senhor, e o tocou e lhe disse: Levanta-te e come, porque te resta um longo caminho “. O Profeta levantou-se, e bebeu e, revigorado, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até o Monte Horeb, onde Deus iria manifestar-se a ele(3 Reis 19, 1-8).Em sua vida terrena o próprio Salvador foi servido e confortado anjos.Assim se deu após o prolongado jejum no deserto e a tentação do demônio: “Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximam e o serviam” (Mt 4, 11).Na terrível agonia do Horto das Oliveiras, depois de Jesus exclamar: “Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice “, o Padre enviou um anjo para confortá-Lo: “Então apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava” (Lc 22, 42-43).Na Ressurreição “um anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela; e o seu aspecto era como um relâmpago e as suas vestes brancas como a neve”. E o mesmo anjo consolou as Santas Mulheres que haviam ido ao Sepulcro: “Não temais, porque sei que procurais a Jesus que foi crucificado; ele já não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito” (Mt 28, 2-8).



Agentes de Deus para o governo do Universo



É por meio dos santos anjos que Deus exerce o governo do Universo.Os Padres e Doutores da Igreja reconhecem nos anjos um grande poder, não só sobre as plantas e animais, mas até sobre o próprio homem. A Sagrada Escritura fala-nos também do anjo que tem poder sobre o fogo (Apoc 14, 18), e daquele que manda nas águas (Apoc 16, 5).



Santo Agostinho diz que cada espécie distinta, nos diferentes reinos da natureza, é governada pelo poder angélico.Segundo São Tomás, Deus mesmo estabeleceu, até os mínimos detalhes, seu plano de governo do mundo. Mas ele confia a execução desse plano, em graus variados, primeiro aos anjos, depois aos homens, segundo suas funções diversas, e por fim às outras criaturas.



Os anjos são os agentes da execução de Deus em todos domínios. Como Deus governa tudo, os anjos O ajudam e obedecem em tudo. Ele exerce seus desígnios no Cosmos pelo ministério dos anjos. “E claro que as galáxias do céu, assim como as feras das florestas e os pássaros que cantam para nós, e o trigo de nossos campos, os minerais e os gases, os prótons e os nêutrons sofrem a ação dos anjos” comenta Mons. Cristiani. (Mgr L. CRISTIANI, Les Anges, ces inconus, p. 651.)São Tomás é categórico a esse respeito: “Todas as corporais são governadas pelos anjos. E este é não somente o ensinamento dos Doutores da Igreja, mas também de todos os filósofos" ( Suma contra Gentiles, lib. III, c. 1. ).E o Cardeal Daniélou explica: “Trata-se pois de uma doutrina estabelecida pela tradição e pela razão. E nós, de nossa parte, pensamos que o governo inteligente e forte do qual dá testemunho a ordem do cosmos pode bem ter por ministros os espíritos celestes, em que pese o racionalismo de alguns de nossos contemporâneos”. ( Apud Mgr L. CRISTIANI, art. cit., p.651.)



Guias e protetores dos homens



Os anjos, apesar de sua excelsitude, por desígnio de Deus, são nossos amigos e companheiros. Eles nos protegem nas necessidades, nos guiam nos perigos, nos sugerem continuamente bons propósitos, atos de amor e submissão a Deus.Pela sua importância, a doutrina sobre os Anjos da Guarda merece maior desenvolvimento. É o que faremos em capítulo à parte.Se o próprio Deus se serve continuamente dos anjos, não devemos nós também recorrer sempre aos príncipes dos exércitos do Senhor, aos mensageiros de Deus, invocando-os em todas as nossas necessidades?



Os Anjos da Guarda


“Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei". (Ex 23, 20-23)



DEUS, no seu amor infinito pelos homens, entregou cada um de nós à guarda e cuidado especial de um anjo, que nos acompanha desde o nascimento até a morte: o Anjo da Guarda.Essa doutrina foi sempre ensinada pela Igreja ( Cf. Catecismo Romano, Parte IV, cap. IX, n. 4. ) e se baseia em testemunhos da Sagrada Escritura e da Tradição — Santos Padres, Magistério Eclesiástico, Liturgia.



As Escrituras e os Santos Padres



O Antigo Testamento faz contínuas referências a esses anjos que nos servem de protetores. Mais do que nos ensinar explicitamente tal verdade, parece dá-la por suposta em suas narrações.Jacó ao abençoar seus netos, filhos de José, diz: “Que o anjo que me livrou de todo o mal, abençõe estes meninos” (Gen 48, 16).Nas palavras seguintes de Deus a Moisés encontramos os múltiplos ofícios que incumbem ao Anjo da Guarda, de proteção e de conselho: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei. Respeita-o, e ouve a sua voz, e vê que não o desprezes; porque ele não te perdoará se pecares, e o meu nome está nele. Se ouvirdes a sua voz, e fizerdes tudo o que te digo, eu serei inimigo dos teus inimigos, e afligirei os que te afligem. E o meu anjo caminhará adiante de ti" (Ex 23,20-23).



Por meio do profeta Baruc, Deus comunica a Israel: “Porque o meu anjo está convosco, e eu mesmo terei cuidado das vossas almas" (Bar 6,6)



O Salmo 90 exprime, com muita poesia, a solicitude de Deus para conosco, por meio do Anjo da Guarda: “O mal não virá sobre ti, e o flagelo não se aproximará da tua tenda. Porque mandou (Deus) os seus anjos em teu favor, que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra” (SI 90, 10-12).E outro Salmo proclama: “O anjo do Senhor assenta os seus acampamentos em volta dos que o temem, e os liberta” (SI 33, 8).

Lançado na cova dos leões, por intriga de invejosos, Daniel foi socorrido por um anjo: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou as bocas dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21).



Fala-se, no Livro dos Reis, de um exército de carros que cercavam o profeta Eliseu (4 Reis 6, 14-17). São Tomás vê aí uma imagem do poder dos Anjos Custódios e a preponderância dos anjos bons sobre os maus.

São inúmeras as passagens do Antigo Testamento que fazem referência à doutrina sobre os Anjos da Guarda. Em nenhuma porém, a solicitude dos anjos para com os homens fica tão patente como no livro de Tobias.* E por isso que ele é muito citado sempre que se trata da matéria.

*Este livro da Sagrada Escritura é todo ele rico de ensinamentos sobre esta doutrina, de maneira que não basta transcrever aqui uma ou outra passagem dele; assim, convida-mos o leitor a lê-lo diretamente na Bíblia.



Esse ensinamento se torna mais preciso no Novo Testamento, onde a existência do Anjo da Guarda é confirmada pelo próprio Salvador. Aos seus discípulos, advertindo-os contra os escândalos em relação às crianças, diz: “Vêdes que não desprezeis a um só destes pequeninos, pois eu vos declaro que os seus anjos vêem continuamente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10). Essas palavras deixam claro que mesmo as crianças pequenas têm seus Anjos Custódios, como também que estes anjos mantém a visão beatífica de Deus ao descer à terra para atender e proteger a seus custodiados.Também São Paulo se refere ao papel protetor dos anjos em relação aos homens: “Não são eles todos espíritos a serviço de Deus mandados para exercer o ministério a favor dos que devem obter a salvação?” (Heb 1, 14).


Os Santos Padres ensinam desde cedo essa doutrina.



São Basílio (329-379), entre os gregos, afirma: “Que cada qual tenha um anjo para o dirigir, como pedagogo e pastor, é o ensinamento de Moisés” ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur mission, p. 93. )E, entre os latinos, São Jerônimo (342-420) assim comenta passagem de São Mateus (18, 10), acima citada, sobre os anjos das crianças: “Isto mostra a grande dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo encarregado de sua guarda" (Comm. in Evang. 5. Matth., lib. III, ad cap. XVIII, 10 Apud Card. P. GA5PARRI Catechisme Catholique pour Adultes, p. 346. )A crença na existência e atuação dos Anjos da Guarda está tão firmemente estabelecida na tradição da Igreja, que desde tempos imemoriais foi instituída uma festa especial em louvor deles (2 de outubro).



O ensinamento dos teólogos



A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, teólogos foram explicitando ao longo dos séculos uma doutrina sólida e coerente sobre os Anjos da Guarda.O príncipe dos teólogos, São Tomás de Aquino, na sua célebre Suma Teológica, (Suma Teológico, 1,q. 113.) expõe largamente essa doutrina.O santo Doutor justifica a existência dos Anjos da Guarda pelo princípio de que Deus governa as coisas inferiores e variáveis por meio das superiores e invariáveis. O homem não só é inferior ao anjo, mais ainda está sujeito a instabilidades e variações por causa fraquesa de seu conhecimento, das paixões, etc. Assim, ele é governado e amparado pelos anjos, que servem como instrumentos da providência especial de Deus para com os homens.



A função principal do Anjo da Guarda é iluminar-nos em relação a verdade, à boa doutrina; mas sua custódia tem também muitos efeitos, tais como reprimir os demônios e impedir que nos sejam causados outros danos espirituais ou corporais.Cada homem tem um anjo especialmente encarregado de guardá-lo, distinto do das coletividades humanas de que façam parte. Estas têm anjos especiais para custodiá-las; enquanto os anjos dos indivíduos pertencem ao último coro angélico, o das coletividades ou instituições podem fazer parte dos coros e hierarquias superiores.Como há vários títulos pelos quais um homem necessita ser especialmente protegido (ou seja, considerado enquanto particular ou como ocupando um cargo ou função na Igreja a ou na sociedade), um mesmo homem pode ter vários anjos para custodiá-lo.


A Virgem Santíssima, Rainha dos Anjos, teve também não um, mas os Anjos da Guarda. Enquanto homem, Jesus teve Anjos da Guarda; não evidentemente para protegê-Lo, pois o inferior não guarda o superior, mas para servi-Lo.


Mesmo os infiéis têm Anjos da Guarda e até o Anti-Cristo o terá.



O Anjo da Guarda nunca abandonará o homem, mesmo após a morte, se ele for para o Paraíso, pois a custódia angélica é parte da providência especial de Deus para com o homem, o qual jamais estará totalmente privado da providência divina. Embora estejam normalmente no Céu, contemplando a Deus, os Anjos da Guarda conhecem tudo o que se passa na terra com seus protegidos; podem, então, quase imediatamente, passar de um lugar ao outro para protegê-los ou influenciá-los beneficamente.

Santo Agostinho pergunta: “Como podem os anjos estar longe, quando nos foram dados por Deus para ajudar-nos?” E responde:

“Eles não se apartam de nós, embora aquele que é assaltado pelas tentações pense que estão longe”. (Apud A. J. MacINTYRE, Os anjos, urna realidade admirável p. 321. )



Os Anjos Custódios nunca estão em oposição ou divergência real entre si. O relato bíblico da luta entre o anjo da Pérsia e o anjo Protetor dos Judeus (cf. Dan 10, 13-21) em que o primeiro queria reter os hebreus na Babilônia e o segundo desejava conduzi-los de volta à sua pátria encontra a seguinte explicação: às vezes Deus não revela aos anjos os méritos ou os deméritos das diversas nações ou indivíduos que eles custodiam. Enquanto não conhecem com certeza a vontade divina, os Anjos da Guarda procuram, santamente, proteger de todas as formas os que estão sob a sua proteção, mesmo contrariando os desejos de outros Anjos Custódios. Mas logo que a vontade de Deus fica clara para eles, todos se submetem pressurosos, pois o que desejam sempre é fazer a vontade divina.Do mesmo modo que os homens, também as instituições, os povos e os países contam com um anjo especialmente encarregado de velar por eles.Essa doutrina tem base nas palavras da Sagrada Escritura, onde é dito que um anjo conduzia o povo judeu pelo deserto (Ex 23,20), e também na passagem já referida sobre a luta entre o anjo dos Judeus e o anjo dos Persas (Dan 10, 13-21).



É também o que ensina São Basílio: “Entre os anjos, uns são prepostos às nações; os outros são companheiros dos fiéis”. ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur Mission, p. 93. )

São Miguel Arcanjo era o protetor de Israel enquanto povo eleito (Dan 10, 13-21); atualmente ele é o protetor do novo povo de eleição, a Igreja. As aparições de Nossa Senhora em Fátima. foram precedidas pela do Anjo de Portugal.


Efeitos da custódia dos anjos



Os efeitos da custódia dos anjos são, uns corporais, outros espirituais, ordenados, uns e outros, à salvação eterna do homem.Os efeitos são corporais, na medida em que impedem ou livram dos perigos ou males do corpo, ou auxiliam os homens nas questões materiais, conforme consta no livro de Tobias (cap. 5 e seguintes).E são espirituais, sempre que os anjos nos defendem contra os demônios (Tob 8, 3); rezam por nós e oferecem nossas preces a Deus, tornando-as mais eficazes pelas sua intercessão (Apoc 8, 3; 12); nos sugerem bons pensamentos, incitando-nos assim a fazer o bem (At 8, 26; 10, 3ss),* por meio de estímulos da imaginação ou do apetite sensitivo; do mesmo modo, quando nos infligem penas medicinais para nos corrigir (2 Reis 24, 16); ou ainda, na hora da morte, fortalecem-nos contra o demônio; os anjos conduzem diretamente para o Céu as almas daqueles que morrem sem precisar passar pelo Purgatório, e levam para o Paraíso as almas que já passaram pela purgação necessária; eles também visitam as almas do Purgatório para as consolar e fortalecer, esclarecendo-as glória do céu, etc.



*Há vários exemplos disso na Sagrada Escritura:Os Atos dos Apóstolos relatam a aparição de um anjo ao Centurião Cornélio, homem religi oso e temente a Deus, para instruí-lo sobre como proceder para conhecer a verdadeira religião: "Este (Cornélio) viu claramente numa visão. quase à noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele, e lhe dizia: Cornélio ... as tuas ora ções e as tuas esmolas subiram como memorial à presença de Deus. E agora envia homens a Jope a cham ar um certo Simão que tem por sobrenome Pedro ... ele te dirá o que deves fazer" (At 10, 1-6). E nos mesmos Atos se lê como um anjo inspira São Filipe Diácono a desviar-se de seu caminho, para fazê-lo encontrar-se com o ministro da Rainha Candace, da Etiópia, e batizá-lo, depois de instruí-lo na doutrina cristã (At 8, 26)



A custódia dos anjos nos livra de inúmeros perigos tanto para a alma como para o corpo. Entretanto, ela não nos livra de todas as cruzes e sofrimentos desta vida, que Deus nos manda para nossa provação e purificação; nem daquelas tentações que Deus permite para que mostremos nossa fidelidade. Porém eles sempre nos ajudam a tudo suportar com paciência e vencer com perseverança.Às vezes parece que os anjos não nos estão atendendo; é preciso então rezar com mais insistência até que esse socorro se perceba. Mas pode ocorrer de não sermos ouvidos, não porque faltem aos anjos poder ou desejo de nos ajudar, mas é que aquilo que estamos pedindo não é o melhor para a nossa eterna salvação, que é o que antes de tudo eles procuram.


Nossos deveres em relação aos Santos Anjos Custódio


São Bernardo resume assim nossos deveres em relação aos nossos Anjos da Guarda:

a. Respeito pela sua presença. Devemos evitar tudo o que pode contristar um espírito assim puro e santo. Sobretudo, evitar o pecado.

“Como te atreverias — interpela o santo Doutor — a fazer na presença dos anjos aquilo que não farias estando eu diante de ti?"

b. Confiança na sua proteção. Sendo tão poderoso e estando continuamente diante de Deus, e ao mesmo tempo conhecendo as nossas necessidades, como não confiar na sua proteção? A melhor maneira de provar essa confiança é recorrer a ele pela oração nos momentos difíceis, especialmente nas tentações.

c. Amor e reconhecimento por sua proteção. Devemos amá-lo como a um benfeitor, um amigo e um irmão, e ser agradecidos pela sua proteção diligentíssima.

“Sejamos, pois, devotos” — escreve o mesmo São Bernardo. “Sejamos agradecidos a guardiões tão dignos de apreço, correspondamos a seu amor, honremos-lhe quanto possamos e quanto devemos!” ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo — Introducciones, p. 930. )

A oração por excelência para invocar e honrar o Anjo da Guarda da é o Santo anjo do Senhor:



“Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina".


Os Três Gloriosos Arcanjos


"Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes".(Dan 10, 13)


“Eu sou Gabriel, que assisto diante (do trono) de Deus".(Lc 1, 19,)


“Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor”.(Tob 12, 15)


A Igreja e o povo fiel veneram de modo especial os três gloriosos Arcanjos — São Miguel, São Gabriel e São RafaeLEmbora eles sejam comumente chamados de Arcanjos, segundo teólogos e comentaristas das Escrituras, eles certamente pertencem ao primeiro dos coros angélicos, o dos Serafins.


São Miguel: “Quem é como Deus?”



Em hebraico: mîkâ’êl, que significa: “Quem (é) como Deus?” As Escrituras se referem nominalmente ao Arcanjo São Miguel em quatro passagens: duas delas na profecia de Daniel (cap. 10, 13 e 21; e ap. 12, 1); uma na Epístola de São Judas Tadeu (cap. único, vers. 9 ) e finalmente no Apocalipse (cap. 12, 7-12).No livro de Daniel o Santo Arcanjo aparece como “príncipe e protetor de Israel”, que se opõe ao “príncipe” ou celestial protetor dos persas.* Segundo São Jerônimo e outros comentadores, o anjo protetor da Pérsia teria desejado que ficassem ali alguns judeus para mais dilatarem o conhecimento de Deus; porém São Miguel teria desejado e pedido a Deus que todos os judeus voltassem logo para a Palestina, a fim de que o templo do Senhor fosse reconstruído mais depressa. Essa luta espiritual entre os dois anjos teria durado vinte e um dias.

* Nas escrituras os anjos são chamados com freqüência príncipes.

São Judas, na sua Epístola, alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava tomá-lo conhecido, com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por influência dos povos pagãos circunvizinhos. No Apocalipse, São João apresenta São Miguel capitaneando os anjos bons em uma grande batalha no céu contra os anjo rebeldes chefiados por Satanás, ali chamado dragão:

“E houve no céu unia grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão e seus anjos pelejavam contra ele; porém, estes não prevaleceram, e o seu lugar não se achou mais no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra, e foram precipitados com seus anjos” (Apoc 12, 7-12).



A Igreja não definiu nada de particular sobre São Miguel, mas tem permitido que as crenças nascidas da tradição cristã a respeito do glorioso Arcanjo tenham livre curso na piedade dos fiéis e na elaboração dos teólogos:



A primeira crença é a de que São Miguel era, no Antigo Testamento, o defensor do povo escolhido — Israel; e hoje o é do novo povo escolhido — a Igreja. Tal piedosa crença está em consonância com o que é dito no livro de Daniel: “Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes. ... Miguel. que é o vosso príncipe” — isto é, dos judeus (10, 13 e 21). “Se levantará o grande príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo” — de Israel (12, 1). Essa crença é muito antiga, sendo já confirmada pelo Pastor de Hermas, célebre livro cristão do século II, no qual se lê: “O grande e digno Miguel é aquele que tem poder sobre este povo” (os cristãos). Ademais, tal crença é partilhada pelos teólogos e pela própria Igreja, que a manifesta de muitas maneiras.



A segunda crença geral é a de que São Miguel tem o poder de admitir ou não as almas no Paraíso. No Oficio Romano deste Santo no antigo Breviário, São Miguel era chamado de “Praepositus paradisi” — “Guarda do paraíso”, ao qual o próprio Deus se dirige nos seguintes termos: “Constitui te Principem super omnes animais suscipiendas” — “Eu te constituí chefe sobre todas as almas a serem admitidas”. E na Missa pelos defuntos rezava-se: " Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam” — "O ' Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa”.



A terceira crença, ou melhor, opinião, é a de que São Miguel ocupa o primeiro lugar na hierarquia angélica. Sobre este ponto há divergência entre os teólogos, mas tal opinião tem a seu favor vários Padres da Igreja gregos e parece ser corroborada pela liturgia latina, que se referia ao glorioso Arcanjo como "Princeps militiae coelestis quem honorificant coelorum cives” — "Príncipe da milicia celeste, a quem honram os habitantes do Céu"; e pela liturgia grega que o chama “Archistrátegos “, isto é, "Generalíssimo."



O grande comentador das Sagradas Escrituras, Pe. Cornélio a Lapide, jesuíta do século XVI, escreve:



"Muitos julgam que Miguel, tanto pela dignidade de natureza, como de graça e de glória é absolutamente o primeiro e o Príncipe de todos os anjos. E isso se prova, primeiro, pelo Apocalipse (12, 7), onde se diz que Miguel lutou contra Lúcifer e seus anjos, resistindo à sua soberba com o brado cheio de humildade: 'Quem (é) como Deus?’ Portanto, assim como Lúcifer é o chefe dos demônios, Miguel o é dos anjos, sendo o primeiro entre os serafins. Segundo, porque a Igreja o chama de Príncipe da Milícia Celeste, que está posto à entrada do Paraíso. E é em seu nome que se celebra a festa de todos os anjos. Terceiro, porque Miguel é hoje ao cultuado como o protetor da Igreja como outrora o foi da Sinagoga. Finalmente, em quarto lugar, prova-se que São Miguel é o Príncipe de todos os anjos, e por isso o primeiro entre os Serafins, porque diz São Basílio na Homilia De Angelis: ‘A ti, ó Miguel, general dos espíritos celestes, que por honra e dignidade estais posto à frente de todos os outros espíritos celestiais, a ti suplico...' ". ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 112-114 )


O mesmo dizem inúmeros outros autores, entre os quais São Roberto Bellarmino.Na Idade Média, São Miguel era padroeiro especial das Ordens de Cavalaria, que defendiam a Cristandade contra o perigo metano.


São Gabriel: “Força de Deus”



Em hebraico: gabrî’êl, que quer dizer: “Homem de Deus" ou “Deus se mostrou forte” ou, ainda, “Força de Deus".O próprio Arcanjo disse a Zacarias: “Eu sou Gabriel que assisto diante (do trono) de Deus” (Lc 1, 29). Isto leva a crer que se trata de um dos primeiros espíritos angélicos. O já citado Cornélio a Lápide argumenta do seguinte modo, para comprovar esta opinião:



1. Se os Serafins alguma vez são enviados por Deus em missão junto aos homens, um deles devia ser enviado à Mãe do Redentor para anunciar o insigne mistério da Encarnação do Verbo. Não somente pela excelsitude de tal mistério, mas porque a Santíssima Virgem supera a todos os coros de anjos em dignidade e graça.

2. Ora, São Paulo, na Epístola aos Hebreus (1, 14), afirma que Deus pode enviar como mensageiro um anjo de qualquer hierarquia: “Porventura não são todos esses espíritos uns ministros ( de Deus) enviados para exercer o seu ministério a favor daqueles que hão de receber a herança da salvação?”


3. Logo, deve-se crer que São Gabriel pertence à mais alta categoria angélica, isto é, ao coro dos Serafins. ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 142-143 )



São Gabriel, o Anjo da Encarnação, é considerado igualmente como o Anjo da Consolação e da Misericórdia; mas, de com o significado de seu próprio nome, representa o poder de Deus. É por isso que as Escrituras, ao referir-se a ele, utilizam expressões como poder, força, grande, poderoso (cf. Dan 8-10). A tradição judáica atribuía a esse glorioso Arcanjo a destruição de Sodoma ( cf. Gen 19, 1-29), bem como o ter marcado com um Tau a fronte dos eleitos (Ez 9, 4); e apresentava-o como o Anjo do Julgamento Final.A tradição cristã vê nele o anjo que apareceu aos pastores para anunciar o nascimento do Salvador (Lc 2, 8-14), e a São José, em sonhos, para explicar a concepção virginal de Maria Santíssima (Mt 1,20). Teria sido ele também quem confortara Jesus em sua agonia no Horto (cf. Hino de Laudes do dia 24 de março).



São Rafael: “Medicina de Deus”


Em hebráico: refâ’êl, cujo sentido — é igual a: “Deus curou” ou "Medicina de Deus”.Ele próprio revelou sua elevada hierarquia, depois de ajudar o jovem Tobias, que cria estar em presença de um simples homem: "Eu sou o anjo Rafael, um dos sete (espíritos principais) que assistimos diante do Senhor” (Tob 12, 15).Cornélio a Lapide também considera o Arcanjo São Rafael Serafim. ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in, Scripturam Sacram, t. 4, p. 282.) Este insigne Arcanjo é protetor especial contra o demônio, padroeiro e guia dos viajantes, sanador dos enfermos.Todos esses ofícios estão amplamente ilustrados no livro de Tobias: ele protege na viagem o jovem Tobias (caps. 5 a 10); restitui a vista ao velho Tobias, mediante a aplicação do fel de um peixe (cap. 11, 13-15); livra o jovem Tobias e Sara das insídias do demônio, mediante a fumaça das vísceras do mesmo peixe, e encadeia o demônio no deserto do Egito (cap. 8, 2-3); apresenta as boas obras e as orações do velho Tobias a Deus (cap. 12, 12).




Devoção aos Santos Anjos


"Formamos com os anjos uma única cidade de Deus...”.(Santo Agostinho)


A DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS é uma dessas devoções quase espontâneas do povo cristão.A legitimidade do culto aos anjos constitui uma verdade de fè, afirmada pelo Magistério ordinário da Igreja, interpretante da Tradição: condenação dos iconoclastas no século V pelo 2° Concílio de Nicéia, e dos protestantes no século XVI pelo Concílio de Trento.



Origem e desenvolvimento da devoção aos anjos


Entre os judeus e na Antiguidade cristã



Com exceção dos saduceus, que não criam neles, ( “Os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjos, nem espírito" ( At 23,8) ) essa devoção já existia entre os judeus, que veneravam particularmente o “grande príncipe Miguel”, protetor dos filhos do povo de Israel (Dan 12, 1).Nos primeiros tempos do Cristianismo essa devoção não era muito acentuada em razão do paganismo ainda dominante na sociedade, que podia levar os gentios neo-convertidos a confundirem os espíritos celestes com os gênios — espécies de divindades menores falsamente cultuadas por certas religiões —, o que equivaleria a cair no politeísmo pagão.Porém, já no século II, São Justino e Atenágoras dão testemunho sobre o culto cristão aos santos anjos. Dídimo Alexandrino (+ 395) atesta que desde os primórdios do Cristianismo surgiram igrejas e oratórios consagrados a Deus sob a invocação dos arcanjos.


Santo Ambrósio (séc. IV) já exortava os fiéis: “Os anjos devem ser invocados por nós, pois para nossa proteção nos foram dados". (De Viduis, cap. IV, 55; PL 16, 264c Apud Mons. F. TINELLO, La devozione agli angeli, col. 1252.) E Santo Agostinho ensinava: “Formamos com os anjos uma única cidade de Deus ... da qual uma parte somos nós, peregrinos por este mundo, e a outra, que são os anjos, está sempre pronta a socorrer-nos.


"Se aquele, junto de quem devemos exercer obras de misericórdia do qual as recebemos, com razão se chama nosso próximo que no preceito a nós imposto de amar o próximo estão incluídos os anjos, dos quais todos os dias recebemos tantos e tão insignes atos de misericórdia."Os anjos nos amam ... por nossa causa, porque lhes somos semelhantes na natureza racional; por causa deles próprios, porque nos querem sentados naqueles tronos de glória que eram dos anjos que prevaricaram” . ( Apud Archibald J. MacINTYRE, Os anjos, uma realidade admirável, pp. 320- 321.)



Na Idade Média



A "doce primavera da fé” (para empregar a bela expressão com que Montalembert se refere à Idade Média) foi uma época angélica, não só pela pureza dos costumes e das doutrinas, e pelo fervor seráfico do povo fiel, mas também pela familiaridade com os santos anjos. Foi nessa época que surgiu a prece ao mesmo tempo tão singela, tão doce e tão confiante: “Santo anjo do Senhor...”Foi igualmente nessa época que surgiram os grandes tratados sobre os anjos, dos quais o mais admirável é aquele, precisamente, de autoria do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino.São Bernardo de Claraval, cantor da Rainha dos Anjos, deu um particular impulso a essa devoção; a Igreja fez suas as palavras do insigne Doutor, para louvar os espíritos celestiais no Breviáirio ( festa dos Anjos Custódios, 2 de outubro). Sua fórmula reflete e sintetiza a tradição ininterrupta da Igreja: aos anjos devemos “reverência por sua presença, devoção por sua benevolência, confiança por sua custódia”. ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo — Indroducciones, p.931.)



Na Contra-Reforma


Os ímpios Lutero e Calvino, depois do culto dos santos, rejeitaram também o dos anjos. Mas a devoção aos espíritos angélicos recebeu novo alento com os paladinos da Contra-Reforma.Santo Inácio recomenda aos seus religiosos imitarem a pureza dos anjos. Por obra dos jesuítas multiplicam-se os tratados manuais de piedade sobre os anjos. Entre eles, o Tratado e pratica da devoção aos anjos, de São Francisco de Borja, e o Tratado dos anjos custódios, do Pe. Francisco Albertini. Também contribuíram muito para a difusão dessa devoção o Cardeal de Bérulle e o Venerável Olier.O Concilio de Trento, condenando a ímpia doutrina dos pretensos reformadores, definiu a legitimidade dessa devoção, que adquiria assim maiores títulos para ser divulgada.



Igrejas e santuários — Ladainhas e orações



Já no século IV encontram-se testemunhos sobre a ereção de igrejas e oratórios em honra dos arcanjos. No tempo de São Gregório Magno (+604) o culto a São Miguel já tinha um centro no Monte Gargano (na Apúlia, região da Itália junto ao Adriático), onde o Arcanjo havia aparecido no tempo do Papa São Gelásio I (+496), pedindo que lhe erguessem ali um santuário.No século VII o Príncipe da Milícia celeste apareceu sobre um rochedo da Normandia (França), o Monte Tombes, onde se praticavam cultos pagãos, e ali se ergueu uma abadia que se tornou um dos mais célebres santuários em louvor do santo Arcanjo. E o monte passou a chamar-se Mont Saint-Michel.Em Roma, no século IX, sete oratórios eram já dedicados ao santo Arcanjo.Surgiram várias festas litúrgicas em honra dos santos anjos: São Gabriel (24 de março); Aparição de São Miguel no Monte Gargano (8 de maio); Dedicação de São Miguel Arcanjo (29 de setembro); Santos Anjos Custódios (2 de outubro); São Rafael Arcanjo ( 24 de outubro ).Existem orações e ladainhas em louvor de cada um dos três dos Arcanjos, dos Santos Anjos, do Anjo da Guarda. Talvez a oração mais divulgada seja o “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador..."


— bela expressão da piedade medieval para com nosso angélico guardião. Outra bela oração (que teria sido inspirada pela própria Rainha dos Anjos) é aquela que começa pelas palavras "Augusta Rainha dos Céus e soberana Senhora dos Anjos “, de caráter exorcístico deprecativo muito eficaz.*



*Essa bela oração foi composta em 1863 pelo Venerável Padre Louis de Cestac (1801- 1868 ) por inspiração de Nossa Senhora. Na antiga disciplina tinha 500 dias de indulgência decreto da sagrada Congregação das Indulgências, de 8 de julho de 1908 e da Sagrada Penitenciaria, de 28 de março de 1935. Seu texto completo é o seguinte:


Augusta Rainha dos Céus e soberana Senhora dos Anjos, Vós que, desde o primeiro instante de vossa existência, recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, humildemente vô-lo pedimos, enviai as legiões celestes dos santos anjos perse guirem, por vosso poder e sob vossas ordens, os demônios, combatendo-os por toda a parte , reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os nas profundezas do abismo.Quem é como Deus?Ó boa e terna Mãe, sêde sempre o nosso amor e a nossa esperança.Ó Mãe divina, mandai-nos os vossos santos anjos que nos defendam, e repilam para bem longe de nós o maldito demônio, nosso cruel inimigo.Santos anjos e arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Amén.



A devoção aos santos anjos é, pois, não só lícita, mas extremamente louvável e recomendável. Como em toda devoção, cumpre entretanto observar sempre fielmente as prescrições da Santa Igreja, afim de evitar que desvios doutrinários ou práticas mal sonantes se introduzam nela. Desde os primeiros séculos, para evitar superstições, a Igreja permitiu o culto nominal apenas aos três anjos cujo nome consta na Sagrada Escritura - São Miguel, São Gabriel e São Rafael - proibindo a invocação de anjos pelos nomes mencionados em escritos apócrifos ou conhecidos apenas mediante revelação particular.



II - SATANÁS E OS ANJOS REBELDES



DUAS POSIÇÕES EXTREMADAS devem ser evitadas no que diz respeito ao demônio:


1)- A primeira consiste em negar sua existência ou, senão, qualquer influência na História e na vida dos homens ( o que, em termos práticos, equivale a negar que exista). Esta é a oposição de agnósticos, racionalistas e materialistas. Dentre estes alguns procuram colorir sua descrença com tintas de ciência: o demônio seria simplesmente a personificação de nossos próprios defeitos...


2)- A segunda posição errada está em atribuir-lhe um papel exagerado nos acontecimentos, conferindo-lhe poderes excessivos, quase como se fosse um deus com sinal negativo. E a posição de satanistas e ocultistas, bem como daqueles que, sem chegar a esse extremo, se entregam entretanto a práticas mágicas e supersticiosas, como ocorre em muitas das religiões de povos primitivos, hoje tão em voga mesmo em círculos cultos...



O demônio não é nem uma coisa nem outra: nem uma simples personificação do mal, nem uma espécie de divindade maligna. Ele é simplesmente um anjo decaído, que conserva os poderes (e as limitações) da natureza angélica, porém só pode fazer uso deles na medida que Deus o permita. E Deus só permite sua atuação quando ela redunde na glória divina, ou contribua para a salvação dos homens ou, ainda, sirva para o castigo destes, quando merecedores. A posição equilibrada é aquela ensinada pela doutrina católica, que vê o demônio como ele é, de acordo com os dados da Revelação, o ensinamento dos Papas e dos Concílios e a doutrina elaborada pelos Doutores. Essa é a doutrina que passamos a expor.


O problema do mal


“E Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas".(Gen 1,31)



ANTES DE ESTUDARMOS a queda de uma parte dos anjos, assim como a figura e a ação do demônio, parece conveniente deter-nos, ainda que rapidamente, no exame do problema do mal. Pois evidente que, se o mal não existisse, não haveria possibilidade de existirem seres malignos, que não visam senão o mal: os demônios.



Natureza e origem do mal



De onde procede o mal? Como se podem conciliar a bondade a onipotência de Deus com a existência do mal? Se Deus podia impedir o mal, e não o quis impedir, onde está a sua bondade? E se Deus queria impedir o mal e não o pôde, onde está a sua onipotência? Em ambos os casos, onde está a sua Providência?Esse foi um dos problemas que mais angustiaram a Humanidade em todos os tempos, e que só encontra uma solução satisfatória com o Cristianismo.



Os povos pagãos antigos, premidos por duas realidades aparentemente inconciliáveis — de um lado, a bondade e a onipotência de Deus; do outro, a existência do mal —, procurando evitar o absurdo de atribuir ao ser bom por excelência (Deus) a origem do mal, caíram em outro absurdo, que é o de supor a existência de dois um deuses:um deus bom, criador do bem, ao lado do um deus mau, que seria o criador do mal.Essa concepção — conhecida em filosofia como dualismo - é tão absurda como se, para explicar a noite e o frio se admitisse a existência de um sol negro e gélido, distinto do sol radioso e quente, fonte do dia e do calor. Como é evidente, é o mesmo e único sol que dá origem ao dia quando nasce e provoca a noite quando se esconde; que aquece quando está próximo da terra e faz com que surja o frio quando dela se afasta.Assim também, não é necessário imaginar dois princípios antagônicos — ou seja, dois deuses — para explicar a origem do mal. O que é preciso, antes de tudo, é determinar a natureza do mal, para depois indagar qual a sua origem.O dualismo erra não somente ao conceber duas causas primeiras, contraditórias entre si, para o Universo - uma originando o bem e outra o mal — mas também ao tomar o mal como se fosse um ser, uma coisa que existe por si mesma.



Ora, como ensinou Santo Agostinho: “O mal não tem uma natureza: aquilo que é chamado mal é mera falta de bem. “(De Civ. Dei 11,9.) Ou, no dizer de São Tomás de Aquino: "Nisto consiste a essência do mal: a privação do bem".(Suma Teológica, 1, q. 14, a. 10.)



O mal não é, portanto, uma coisa, e sim a falta de alguma coisa. Por isso, o mal não existe por si mesmo, mas apenas como deficiência, como privação de algo. Logo, não foi criado por ninguém.Não é, porém, qualquer privação que dá origem ao mal, mas somente privação de algo que é próprio, necessário por natureza à integridade de um determinado ser. Por exemplo, a privação da capacidade de voar não constitui um mal para o homem, uma vez que não é próprio á sua natureza; já a privação da vista é um mal para ele pois enxergar é próprio à natureza humana.



De onde procede essa possibilidade de a criatura sofrer a privação do bem que é próprio à sua natureza? Em outros termos, qual é a raiz primeira, a origem, aquilo que toma possível o mal?



Deus fez boas todas as criaturas, porém não as poderia ter dotado de uma perfeição infinita, absoluta, pois a perfeição absoluta só é possível no ser infinito, ou seja, no próprio Deus. Para fazer criaturas dotadas de uma perfeição absoluta, Deus teria que criar outros deuses, o que é absurdo; logo, só podia criar seres finitos, limitados; portanto, imperfeitos, sujeitos a privações.É nessa limitação inerente â condição de criatura que os filósofos, seguindo Santo Agostinho, vêem a raiz primeira do mal.Daí decorre que a única maneira de evitar o mal seria Deus não ter feito a criação, pois toda criatura é necessariamente limitada.O mal pode ser considerado sob diversos aspectos, de acordo com a privação a que se refere.

Se ocorre privação de um bem físico ou da natureza inanimada, temos o mal físico ou natural; se a privação se refere a um bem moral ou uma perfeição espiritual, estamos diante do mal moral.



O mal físico compreende todas as desordens da natureza inanimada: terremotos, inundações, incêndios; e em particular as desordens das criaturas sensíveis: o sofrimento, as doenças e a morte. O mal moral compreende as desordens da vida moral: o pecado, o vício, a injustiça, a violação das leis estabelecidas por Deus.



Por que Deus permite o mal?



Por que Deus permite as catástrofes mais ou menos freqüêntes, as doenças, a morte, enfim? Como pode um pai deixar sofrer assim os seus filhos? Não tem Ele poder para impedir o mal? E se não Lhe falta poder, onde está a sua bondade, se não o impede?Ensina São Tomás que Deus não permite o mal físico senão de um modo inteiramente acidental, como ocasião para os justos exercerem a virtude da constância, praticarem a caridade para com os menos favorecidos ou doentes, etc. Por outro lado, ele deseja alguns males físicos como pena devida ao pecado, como forma de restabelecer a justiça ultrajada pelas faltas voluntárias.



Com relação à morte, longe de ser o termo da vida, ela é a passagem para uma nova vida, onde a felicidade é completa, sem mesclar de sofrimento e onde se atinge o Sumo Bem, que é o próprio Deus.



Quanto ao mal moral ou pecado, Deus não pode querê-lo nem mesmo indiretamente; mas ele pode tirar, corno do mal físico, algum bem, como por exemplo, do pecado do perseguidor a manifestação d constância dos mártires.A possibilidade do mal moral — ensinam os filósofos — é ao mesmo tempo a conseqüência de um grande bem, a liberdade; e a condição de um bem ainda maior, o mérito.



As criaturas racionais (os anjos e os homens), por serem dotados de inteligência, possuem o livre arbítrio, a liberdade de escolher entre bens possíveis. A capacidade de livre escolha decorre da natureza inteligente desses seres, do conhecimento que eles têm de várias ações, de seus fins últimos e dos meios para chegar a eles. A liberdade mesmo imperfeita, é a mais bela prerrogativa do ser racional; é pois digno da bondade divina tê-la concedido.Deus não podia suprimir no anjo e no homem a possibilidade de fazerem o mal, a não ser recusando-lhes a liberdade ou dando-lhes liberdade incapaz de falhar; na primeira hipótese, eles ficariam rebaixados ao nível dos irracionais, o que seria indigno de criaturas espirituais; na segunda, eles se tornariam iguais a Deus, o que é um absurdo.


Deus quer que a criatura racional observe suas leis, não como o animal desprovido de razão, que age seguindo os meros instintos, mas moralmente e meritoriamente; ora, sem a possibilidade do mal moral, não haveria mérito na prática do bem, pois não há mérito senão se faz o bem podendo não fazê-lo.Deus quis que os anjos e os homens fossem os agentes de sua própria felicidade ou se tornassem responsáveis pela própria desgraça, escolhendo por si mesmos se colaboravam ou não com a graça divina.

Quando os anjos pecaram e quando os homens pecam, fazem um uso desviado de sua liberdade; Deus, porém, não tolhe a liberdade de suas criaturas racionais em razão do seu uso desviado, porque é próprio a Ele criar e não destruir; seria contrariar-se a si mesmo fazer criaturas livres e depois tolher-lhes a liberdade quando a usam mal. Por outro lado, a existência de seres racionais não-livres é absurda.


O mal, conseqüência do pecado


A estas considerações de ordem filosófica, o Cristianismo acrescenta os dados revelados por Deus. Estes não somente confrmam as descobertas da razão, conferindo-lhes uma certeza absoluta, mas, indo além, nos dão os meios de saber ao certo aquilo que de outro modo não passaria de mera suposição: corno o mal manifestou concretamente entre os anjos e os homens.



O Cristianismo rejeita toda e qualquer forma de dualismo: tudo quanto existe provém de um só e único princípio, puro e bom.



Sendo Deus substancialmente bom e santo, tudo quanto provêm dele tem que ser, necessariamente, bom em si mesmo. Por isso, todas as criaturas, em si mesmas, são boas e aptas para propósitos do Criador.Assim, lemos no primeiro livro da Bíblia: “E Deus viu toas as coisas que tinha feito. e eram muito boas” (Gen 1, 31). O livro do Eclesiástico completa: “Todas as obras do Senhor são boas e cada uma delas, chegada a sua hora, fará seu serviço" (Ecli 39, 39). E o livro da Sabedoria explicita: “Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Porquanto criou Êle criou todas as coisas para que subsistissem e não havia nelas nenhum veneno mortífero, nem o domínio da morte existia sobre a terra” (Sal, 1, 13-14).



Diz ainda a Escritura que “foi na soberba que teve início a perdição” (Tob4, 14).



Parte dos anjos se revoltou contra Deus, e foram expulsos do Céu, transformando-se em demônios; do mesmo modo, nos primeiros pais desobedeceram o Criador com o pecado original perderam o estado de inocência e de integridade, sendo expulsos do Paraíso terrestre.Como decorrência do pecado original, houve uma debilitação da natureza humana, tornando-se o homem mais vulnerável às paixões e às seduções do demônio, e mais inclinado ao pecado; em castigo desse mesmo pecado, Deus permitiu que o sofrimento se abatesse sobre o homem e a terra se lhe tomasse ingrata. No Gênesis, depois da narração da primeira desobediência, vêm as palavras do Criador ao primeiro homem: “Porque deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que eu te tinha ordenado que não comesses, a terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos” (Gen 3, 17-18). E o inspirado autor do Eclesiástico escreve, numa alusão ao pecado original: “Da mulher nasceu o princípio do pecado e por causa dela é que todos morremos" (Eccli 25, 33).



O Apóstolo São Paulo resume magnificamente essa doutrina sobre o pecado original, nos seguintes termos: “Assim como por um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram...Pois o salário do pecado é a morte” (Rom 5, 12, 23).



Em virtude da Redenção operada por Jesus Cristo, entretanto, o sofrimento e a morte podem ser aproveitados pelo homem como meio de aperfeiçoamento moral, de santificação. É assim que o mesmo São Paulo exclama: “A morte foi tragada na vitória ( de Cristo). Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está teu aguilhão?” E prossegue: “Sejam dadas graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, meus irmãos amados, sêde firmes, constantes, progredi sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso esforço não é inútil no Senhor (1 Cor 15, 54-58).Está esperança que nos dá a força para lutar contra a ação do mal em nós mesmos e no mundo. E é a doutrina a respeito do pecado original que nos esclarece quanto á origem histórica do mal e quanto ao verdadeiro sentido da presença do mal no mundo. Do contrário, o problema do mal ficaria insolúvel e nos atiraria no desespero da incompreensão e da revolta.


Parte 02


Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas

A queda dos anjos maus

"Tu, desde o principio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!”(Jer 2,20)

DEUS CRIOU OS ANJOS num alto estado de perfeição natural e além disso os elevou à ordem sobrenatural. É de fé que todos os espíritos angélicos foram criados bons.*

*Essa é uma conseqüência obrigatória da verdade de fé, de que todos os espíritos angélicos foram criados por Deus, atestada pelo símbolo niceno-constantinopolitano ( o Credo da Missa), o qual proclama: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, criador ... das coisas visíveis e invisíveis”; essa verdade foi ainda definida nos Concílios IV de Latrão e I do Vaticano.



A Sagrada Escritura, com efeito, chama-os “filhos de Deus" (Jó 38, 7), “santos” (Dan 8, 13), “anjos de luz” (2 Cor 11, 14). Entretanto, os próprios Livros Sagrados se referem a “espírito imundos” (Lc 8, 29); “espíritos malignos” (Ef 6, 12); “espíritos piores" (Lc 11, 26); e outras expressões análogas.Isto indica que certos anjos tornaram-se maus, tiveram sua vontade pervertida. Em suma: pecaram.


A batalha no Céu

“Tu, desde o princípio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!” (Jer 2, 20).



Este versículo do Profeta Jeremias sobre a revolta do povo eleito contra Deus tem sido aplicado à revolta de Lúcifer. M de rebelião de Lúcifer “Não servirei!” — respondeu São Miguel com o brado de fidelidade: “Quem é como Deus!” (significado do nome Miguel em hebraico).No apocalipse, São João descreve essa misteriosa batalha que então se travou no céu:



"E houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejavam contra ele; porém estes não prevaleceram e o seu lugar não se achou no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama o Demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra e foram precipitados com ele os seus anjos” (Apoc 12,7-9).


O próprio Jesus dá testemunho dessa queda: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18). “(O Demônio) foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade" (Jo 8,44)


Os anjos podiam pecar



Como poderia o anjo ter pecado, uma vez que ele não está sujeito às paixões ou ao erro no entendimento, como nós homens?

"Como compreender semelhante opção e rebelião a Deus em seres de tão viva inteligência?” — pergunta João Paulo II. O Pontífice responde: “Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de cegueira, produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de ocultar a supremacia de Deus, a qual exigia, ao contrário, um ato de dócil e obediente submissão. Tudo isto parece expresso de maneira concisa nas palavras: "Não servirei" (Jer 2, 20), que manifestam a radical e irreversível rejeição de tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. Satanás, o espírito rebelde, quer seu próprio reino, não o de Deus, e se levanta como o primeiro adversário do Criador, como opositor da Providência, antagonista da sabedoria amorosa de Deus”  (Apud Mons.C. BALDUCCI, El díablo, p. 20.)



E o Papa explica que os anjos, por serem criaturas racionais, são livres,  isto é, têm a capacidade de escolher a favor ou contra aquilo que conhecem ser o bem: “Também para os anjos a liberdade significa possibilidade de escolha a favor ou contra o bem que eles conhecem, quer dizer, o próprio Deus”. (João Paulo II, Mcm, ibidem.)



Criando os anjos racionais e livres, quis Deus que eles - com o auxílio da graça — fossem os agentes de sua própria felicidade ou de sua perda, caso cooperassem ou resistissem à graça. Para que merecessem a felicidade eterna, submeteu-os a uma prova.É de fé que todos os espíritos angélicos foram submetidos a uma prova. Entretanto, não sabemos qual teria sido essa prova. Os teólogos procuram excogitar qual teria sido.


O pecado dos anjos maus

Qual teria sido a prova a que foram submetidos os anjos? E qual teria sido o pecado dos que sucumbiram à prova?


Um pecado de soberba



Acredita-se comumente que tenha sido um pecado de orgulho,  de soberba, pois a Escritura diz que “foi na soberba que teve início toda a perdição” (Tob 4, 14).

Santo Atanásio (séc. IV) o afirma explicitamente: "O grande remédio para a salvação da alma é a humildade.  Com efeito, Satanás não caiu por fornicação, adultério ou roubo, mas foi o seu orgulho que o precipitou ao fundo do inferno.  Porque ele falou assim: "Eu subirei e colocarei meu trono diante de Deus e serei semelhante ao Altíssimo" (Is 14, 14). E é por essas palavras que ele caiu e que o fogo eterno se tornou sua sorte e sua herança”.(Apud Card. P. GASPARRI, Catechisme Catholique pour Adultes. p. 345.)



Em que teria consistido essa soberba?



Segundo São Tomás de Aquino, essa soberba consistiu em que os anjos maus desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus, por obra da graça, e sim por sua virtude própria, como mera decorrência de sua natureza. Desse modo, quiseram manifestar sua independência em relação a Deus; eles recusaram assim a homenagem que deviam a Deus como seu criador e desejaram substituir-se a Ele e ter o domínio sobre todas as coisas: ser como deuses (cf.Gen 3,5).



São Tomás faz igualmente referência à seguinte passagem de Isaías — referente ao rei de Babilônia, mas geralmente aplicada a Satanás — para ilustrar o pecado dele e dos anjos maus que o acompanharam na revolta: “Como caíste do céu, ó astro brilhante [em latim: “Lúcifer”J, que, ao nascer do dia brilhavas? ... Que dizias no teu coração: ... serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14).



O pecado de Lúcifer e dos anjos que se revoltaram com ele teria sido, pois, um pecado de soberba, ou seja de complacência na própria excelência, com menoscabo da honra e respeito devidos a Deus.Estes elementos se encontram em todo pecado — explica o Pe. Bujanda — pois quem ofende a Deus prefere a própria vontade, em vez da vontade divina, e nela se compraz.


Revelação da Encarnação



Não está formalmente revelado no que consistiu exatamente a prova dos anjos; os teólogos fazem hipóteses teológicas, como a de São Tomás, e Francisco Suárez, teólogo jesuíta do século XVII, levanta esta hipótese:

A prova dos anjos teria consistido na revelação antecipada por Deus, da Encarnação do Verbo. Os anjos maus se teriam revoltado contra a submissão em que ficariam em relação à natureza humana do Verbo Encarnado, a qual, enquanto natureza, seria à natureza angélica. Uma variante dessa hipótese é a que afirma que Lúcifer e os anjos revoltados não quiseram submeter-se à Mãe do Verbo Encarnado, pela sua dignidade ficaria colocada acima dos próprios anjos, embora inferior a eles por natureza. Essa hipótese, entretanto, está ligada a uma outra questão: se o Verbo se teria encarnado mesmo sem o pecado de Adão. Suárez, com algumas adaptações, segue a opinião de Duns Escoto e de Santo Alberto Magno, a qual sustenta que sim; São Francisco de Sales também participa dessa opinião.



São Tomás, porém, é de outro parecer. Argumenta ele: "Seguindo a Sagrada Escritura, que por toda a parte apresenta como razão da Encarnação o pecado do primeiro homem, é conveniente dizer-se que a obra da Encarnação está ordenada por Deus como remédio contra o pecado. De tal modo que, se não existisse o pecado não teria havido a Encarnação, embora a potência divina não esteja limitada pelo pecado, podendo, pois, Deus encarnar-se, mesmo que não houvesse o pecado”  (Suma Teológica, 3, q. 1, a. 3.)


São Boaventura reconhece que a opinião tomista é mais consoante com a Fé, enquanto a outra favorece mais a razão. (In III Sent.,Dist.I,a.2,q.2.)Embora ambas as opiniões sejam sustentáveis, o comum dos Doutores acha que a hipótese tomista é mais provável, sendo predominante entre os Santos Padres.Santo Agostinho afirma: “Se o homem não tivesse caído não se teria feito carne” (Serm. 174,2.)Em favor dela fala igualmente o Símbolo dos Apóstolos, isto é,  o Credo, quando proclama: “O Qual [o Verbo], por nós homens, e por nossa salvação, desceu dos céus “. Também a liturgia pascal, que canta: “Ó culpa feliz, que nos mereceu um tal Redentor!"


O Pe. Christiano Pesch S.J. diz que a posição tomista de tal modo se tornou comum, que hoje há poucos defensores da esposada por Suárez, quanto à Encarnação do Verbo.Daí decorreria que a hipótese de Suárez com relação ao pecado dos anjos ficaria também prejudicada. (C. PESCH 53, De Angelis, III, p. 71; cf. também Mons. P. PARENTE. Incarnazioni, col 1.751; I. SOLANO, De Verbo incarnato, pp. 15-24).)



A obstinação dos demônios



Nós homens temos certa dificuldade psicológica em compreender que os demônios, por um só pecado, tenham sido condenados eternamente, enquanto Adão e Eva puderam ser perdoados. Por isso, desde os primeiros tempos do Cristianismo, não faltaram autores que sustentaram a possibilidade de reconciliação dos anjos decaídos com Deus.Essa doutrina foi condenada pela Igreja e São Tomás explica a razão pela qual isso não é possível:


Em primeiro lugar porque a prova a que os anjos foram submetidos, a fim de merecerem a bem-aventurança eterna, teve para eles o mesmo efeito que tem para nós homens a morte; ou seja, encerra o período em que podemos adquirir méritos, e nos introduz na vida eterna, imutável por natureza. Os anjos bons, tendo sido fiéis, passaram a gozar da bem-aventurança eterna; os anjos maus ou demônios foram precipitados no inferno por toda a eternidade.


Em segundo lugar, por causa da natureza angélica: os anjos, uma vez feita uma escolha, não podem voltar atrás, seja para o bem, seja para o mal. Porque eles não estão sujeitos à mobilidade das paixões humanas, sua inteligência é perfeita, de modo que eles não podem fazer escolhas provisórias, como o homem. Antes de fazer uma escolha, o anjo é perfeitamente livre; feita esta, sua vontade adere a ela para sempre, pois todas as razões que o levaram a fazer essa escolha já estavam perfeitamente claras para ele antes que a fizesse.



O lugar de condenação dos demônios


O Inferno


A tremenda realidade do inferno, como lugar criado para os e os demônios e os precitos, é atestada pelo Divino Salvador ao falar do Juízo Final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o Demônio e para os seus anjos” (Mt 25,41).



São Pedro ensina que Deus não perdoou aos anjos que pecaram prepitou-os no tártaro, para serem atormentados (2 Ped 2, 4).E São Judas escreve que Deus “prendeu em cadeias eternas, no seio das trevas “, os anjos prevaricadores (Jud v. 6).



Assim como o lugar para os anjos bons é o Céu, para os demônios é o inferno. Mas os demônios têm dois lugares de tormento: um em razão de sua culpa, que é o inferno; outro, em função das tentações a que submetem os homens: a atmosfera tenebrosa, pelo menos até terminar o mundo.


Os demônios dos ares


A doutrina de que os demônios vagueiam pelos ares para tentar os homens é claramente afirmada por São Paulo na Epístola aos Efésios: “O príncipe que exerce o poder sobre este ar ...  os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 2,2; 6, 12).



E é confirmada pela Igreja, por exemplo, na oração a São Miguel Arcanjo, que o Papa Leão XIII compôs e mandou recitar ao fim da Missa, na qual invoca o Príncipe da milícia celeste, para que — pelo divino poder — precipite no inferno " a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.


 A “hierarquia” entre os demônios


Entre os demônios existe urna “hierarquia”, que decorre do fato de, sendo anjos, uns terem a natureza mais perfeita do que outros. Por isso se diz que Satanás é o príncipe, o chefe dos demônios.Não que exista entre eles uma submissão por amor ou respeito, como na verdadeira hierarquia; os demônios se odeiam muituamente e só se unem circunstancialmente para atormentar os homens.  É o mesmo que — explica São Tomás — se dá entre os homens maus: eles formam quadrilhas e se submetem a um chefe, apenas como meio de melhor cometerem seus roubos ou homicídios contra os homens honestos ( Suma Teológica, 1,Q. 109, A.1-2. )


Os nomes dos demônios


Os judeus não tinham uma palavra específica para indicar os espíritos malignos; a designação geral de demônio para os anjos decaídos vem da versão grega do Antigo Testamento. A palavra daimon, entre os gregos, designava os seres com forças sobre-humanas, especialmente os maléficos. A palavra hebráica sâtân significa adversário, acusador; Satanás, o chefe dos demônios, é também conhecido nas Escrituras como Diabo (do grego diábolos, que quer dizer caluniador).



Nas Sagradas Escrituras aparecem os nomes de vários demônios: Azazel, demônio que habita o deserto (Lev 16, 8-10, 26); Asmodeu, que matou os sete maridos de Sara (Tob 3, 8); o nome Belzebu ( ou Beelzebul, cuja significação parece ser “deus do esterco”, nome com que os rabinos indicariam os sacrifícios oferecidos aos ídolos ) é apresentado como sinônimo para Satanás ou príncipe dos demônios (Mt 12, 14; Mc 3, 22-26); Lúcifer foi palavra escolhida na Vulgata* para traduzir para o latim a expressão “astro brilhante" ou  “estrela brilhante”, da profecia de Isaías (Is 14, 12), que costuma ser interpretada como uma referência à queda do Demônio; em geral esse apelativo é utilizado igualmente como sinônimo de Satanás.


* Chama-se Vulgata a tradução latina da Bíblia feita em grande parte por são Jerônimo, que iniciou seu trabalho por volta do ano 384. Essa tradução latina foi aperfeiçoada por iniciatiiva da santa Sé, dando origem a chamada Vulgata Sixto-Clementina publicada em 1592 pelo Papa Clemento VIII, em uso ainda hoje.


Psicologia do demônio

"Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade é mentiroso e pai da mentira".(Jo 8,44)



Com base nas Sagradas Escrituras e em outras fontes, poderíamos ressaltar alguns aspectos da psicologia de Satanás e seus anjos malignos.Embora os demônios sejam diferentes entre si, assemelham-se em seu desejo de fazer o mal e em sua natureza decaída; por isso o que é dito a respeito de Satanás, seu chefe, pode-se dizer dos outros demônios.


Uma vontade pervertida


Os demônios, puros espíritos, como anjos que são, não têm as fraquezas e as debilidades dos homens; de onde, sua revolta contra Deus ser permanente, imutável, eterna. Sua vontade, deixando de ter como objeto o Sumo Bem, tornou-se uma vontade pervertida fixada no mal. Dessa forma, os demônios não desejam senão o mal em todos os seus atos voluntários, e mesmo quando fazem algum bem (como, por exemplo, restituir a saúde a alguém, obter-lhe riquezas ou ensinar-lhe algo), fazem-no apenas para dai tirar o mal, conduzir a pessoa à perdição eterna, que é a única coisa que almejam para os homens.Tendo sido criados bons por Deus, sua natureza ainda continua boa em si mesma; porém, eles se tornaram seres pervertidos em sua vontade, buscando não mais seu fim último, que é o serviço e a glória de Deus, mas justamente o contrário, isto é, tudo fazer para impedir que Deus seja glorificado. Não podendo atingi-Lo diretamente, eles procuram agir sobre as criaturas de Deus, na medida em que Ele o permite.


Homicida e mentiroso— Astuto, falso e enganador


O divino Redentor resumiu em poucas palavras essa psicologia diabólica: “Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira,fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44).O demônio é homicida e o pai da mentira, o mentiroso por excelência que odeia a verdade, porque a verdade nos conduz a Deus: "Eu sou o caminho, a verdade, a vida” (Jo 14, 5); ele odeia o Criador e, tendo-se separado de Deus, separou-se para sempre da verdade e da vida. E através da mentira que ele dá a morte, a morte espiritual.



Santo Agostinho, a respeito da afirmação de Jesus de que o demônio é homicida e mentiroso, comenta: “Perguntamos de onde veio ao diabo o ser homicida desde o princípio, e respondemos que matou o primeiro homem, não enterrando-lhe o punhal ou infligindo-lhe qualquer outro dano no corpo, senão persuadindo-o a que pecasse precipitando-o da felicidade do paraíso”. (Apud J. MALDONADO S.J., Comentarios a los Cuatro Evangelios, p. 563)


Pe. João Maldonado, erudito exegeta jesuíta do século XVI, observa sobre essa mesma frase -  “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44): “A maior parte dos autores entendem isto daquelas palavras que o diabo disse a Eva: ‘Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ (Gen 3, 5); palavras em que  evidentemente mentiu; quer dizer, uniu a mentira com o homicídio (espiritual), perpetrando os dois crimes ao mesmo tempo. ... Chama-se ao diabo pai da mentira porque é ele o autor e inventor da mesma, de tal modo que pode dizer-se que deu à luz a ela”  (J. MALDONADO S.J., op. cit., pp. 564-566).Quando tenta o homem, procurando afastá-lo de Deus, ele mente apresentando uma falsa imagem da realidade, escondendo seus verdadeiros fins e enredando sua vítima no engano, no sofisma e na falsidade.



Ele é astuto, falso, enganador.



“Satanás se distingue por sua astúcia — escreve Mons. Cristiani. O que quer dizer esta palavra? A astúcia é um artifício enganador. O ser que age por astúcia tem más intenções. Se ele fala, não é para dizer a verdade, mas para enganar, para conduzir ao erro, à inverdade. Satanás é falso. Não se pode confiar nele. O que falta antes de tudo nele é a eqüidade, a lealdade, a franqueza. Ele é equivoco, voluntariamente obscuro e dissimulado” (Mgr L. CRI5TIANI, Présence de satan dons le monde moderne, p. 306.)


Soberba demencial, inveja mortal


Por detrás dessa dissimulação se esconde o seu desejo oculto, assim expresso por Mons. Cristiani: “Ser como Deus! Este ato de orgulho é o fundo mesmo da psicologia de Satanás! ... ‘Vós sereis como deuses!’ Ele próprio, na sua queda, se considera como um deus. Seu orgulho não está morto. O orgulho levado até à adoração de si mesmo é o que faz o demônio voltar-se contra o Criador. É o orgulho que, tendo-o afastado de Deus, fez dele o Adversário. No livro do Eclesiástico esta conseqüência do orgulho é posta em evidência: ‘O princípio do orgulho é abandonar o Senhor e ter seu coração afastado do Criador, porque o princípio do orgulho é o pecado, aquele que se entrega a ele espalha a abominação.‘ (Ecli 10, 12-13). ... Compreendemos, então, porque Jesus Cristo, que é a Via, a Verdade, a Vida, tenha definido Satanás como o Pai da mentira,  o homicida desde o começo. E, para nós, este termo de homicida longe de ser excessivo, não diz senão um aspecto da verdade total: Satanás é, com efeito, acima de tudo, o DEICIDA!” (Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 308.)



O orgulho de Satanás e seus anjos malignos não conhece limites:


"Que orgulho demencial — comenta ainda Mons. Cristiani — nessa palavra de Satanás a Cristo, mostrando-lhe em espírito todos os reinos da terra: ‘Tudo isto eu te darei se prostrado por terra me adorares!´O fundo último da ambição satânica é este: Tirar de Deus seus adoradores, fazer convergir as adorações dos homens para ele próprio!"Resuimàmo-nos: o orgulho, a vontade de se fazer deus, a astúcia, a inveja e o ódio do homem, tudo isto desembocando na mentira, no homicídio, no deicídio: eis Satanás!”. (Mgr L.CRISTIANI, op. cit., p. 308.)


Não lhe importam as derrotas que sofre continuamente, nem mesmo a final e definitiva a que está condenado; sua soberba se satisfaz com os pequenos triunfos que obtém, no esforço de levar as almas à eterna perdição.



Comenta o Cardeal Lepicier: “Escudado na satisfação de certas vitórias parciais e na esperança de grandes triunfos e, ao mesmo tempo, não se preocupando com as vergonhosas derrotas sofridas, Satanás prossegue loucamente na sua faina de tentar arrastar as almas para a eterna perdição. O seu pendão está sempre erguido e o seu grito insensato de desafio e revolta ouve-se por toda parte: ‘Eu não quero servir! ‘ (Jer 2, 20)”. (Card. A.LEPICIER. O Mundo invisível p. 240.)



O pai da vulgaridade



Outro aspecto da psicologia maldita do demônio é a vulgaridade. Odiando a Deus, ele odeia tudo aquilo que é verdadeiro, belo, bom. Ele odeia a compostura, a dignidade, a seriedade, a serenidade.O abade João Cassiano já observava no século V: “É fora de dúvida que existe entre os espíritos impuros o que o vulgo chama espíritos vagabundos, que são antes de tudo sedutores e bufões. Eles se postam constantemente em certos lugares e se divertem em enganar, muito mais do que em atormentar, aqueles que eles encontram.  Eles se contentam em fatigá-los por seus escárnios e suas ilusões..." (Apud Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 311.)


São os famosos demônios bufões, que fazem talhar a manteiga, secam o leite das vacas, desencadeiam enxames de vespas ou de abelhas, etc., tudo para fazre os homens perderem a paciência, praguejarem , blasfemarem.Mons. F. M. Catherinet, demonólogo francês, analisando a ação dos demônios segundo as narrações evangélicas, traça deles o seguinte perfil:  "Medrosos, obsequiosos, poderosos, malfazejos, versáteis e mesmo grotescos... ( Mgr F. M. CATHERINET, Les Démoniaques dans l´Évangile, P.319. )


Em carta a Mons. Cristiani, o Pe. Berger-Bergès, famoso exorcista, escreve:  "Vós me perguntais ... qual é a psicologia de Satanás, quando ele está submetido à ação dos exorcismos... É preciso definir e resumir a psicologia de Satanás por estas palavras:  ORGULHO, DESPREZO DE SUA VÍTIMA, TENACIDADE!" |(Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 312.)


O poder dos demônios

"O próprio Satanás se disfarça em anjo de luz”.(2 Cor 11, 14)


TUDO QUANTO DISSEMOS a respeito do poder e do modo de agir dos anjos sobre a matéria aplica-se igualmente aos demônios, que são anjos decaídos, mas que conservaram a natureza angélica e os poderes a ela inerentes.



Poder dos demônios sobre a matéria



Já vimos anteriormente como a presença dos anjos em um lugar não se dá fisicamente (contato físico), pois são seres incorpóreos, e sim por meio de sua atuação (contato operativo): os anjos estão onde atuam.Em virtude de sua natureza espiritual, eles podem exercer sua atividade e tanto de fora dos corpos, como no interior deles, conforme observa São Boaventura: “Os demônios, em razão de sua sutileza e espiritualidade, podem penetrar em qualquer corpo e aí permanecer sem o menor obstáculo e impedimento”. (In II Sent., Dist. 8, p. 2, a. um., q. 1, apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p.12.)


De um modo direto e imediato os demônios podem produzir na matéria apenas movimentos locais, ou extrínsecos, transferindo uma coisa de um lugar para outro, sem entretanto alterar a natureza ou substância dessa coisa; de modo indireto, através desses movimentos locais, eles podem agir sobre a própria substância da matéria, ao modificar a posição ou a quantidade dos elementos constitutivos da mesma.Caso Deus o permitisse, os demônios, por sua natureza angélica, poderiam causar toda espécie de transtornos físicos. O Cardeal Lepicier afirma que se pode dizer que praticamente não há fenômeno no mundo que não possa ser realizado, de um modo ou outro, pelos anjos; logo, também pelos demônios.(Cardeal A. LEPICIER, O Mundo invisível, pp. 74.75.) E não raro o fazem, provocando tempestades, cataclismos, incêndios e outros desastres como também aparições fantasmagóricas, ruídos infernais e perturbações de toda ordem.



Poder dos demônios sobre o homem


Em relação ao homem, os demônios só podem operar de modo direto e imediato sobre aquilo que nele é matéria, ou está e necessária dependência dela; podem agir nas funções da vida vegetativa, enquanto ligadas à matéria, e sobre a vida sensitiva, porque esta depende de órgãos corporais. No que se refere às funções próprias da vida intelectiva, os demônios só podem chegar a elas indireta e mediatamente, quer dizer, atuando sobre a parte corpórea e sobre a vida sensitiva, das quais a alma deve servir-se para desenvolver suas atividades espirituais. Em outros termos, os demônios podem agir diretamente sobre a parte corpórea do homem, mas apenas indiretamente sobre sua inteligência e sua vontade.



Conforme ensina São Tomás,(Suma Teológico. 1-2, q. 80, a. 1-3.) o entendimento, por inclinação própria só se move quando algo o ilumina em ordem ao conhecimento da verdade. Ora, os demônios não querem conduzir o entendimento à verdade, mas, pelo contrário, entenebrecê-lo como meio de levar o homem ao pecado. Por isso, eles não conseguem mover diretamente a inteligência do homem, e procuram então influir sobre ela indiretamente, através de sua ação sobre a imaginação e a sensibilidade.



Os demônios não podem tampouco mover diretamente a vontade humana, pois isto só o próprio homem ou Deus podem fazer; mesmo que o  Maligno, por permissão divina, se assenhoreie do corpo do homem e entenebreça sua mente — como se dá na possessão — , ele não pode obrigá-lo a pecar, pois a vontade não participaria dos atos maus assim realizados, os quais seriam em conseqüência pecados apenas materiais.Para mover a vontade do homem, os demônios precisam, de algum modo, convencê-lo, persuadi-lo a praticar uma ação má, ainda que sob a aparência de um bem.



A ação persuasiva do demônio


"O demônio não força; ele propõe, sugere, persuade, alicia”


O demônio não tem o poder de obrigar os homens a fazer ou deixarem de fazer algo; por isso procura persuadi-los para que se deixem conduzir pelo seu mal.



"Ele não os força: ele propõe, sugere, persuade, alicia” escreve o Pe. J. de Tonquédec S.J., exorcista e demonólogo francês. E acrescenta: “No Éden, ele deu a Eva razões para ela transgredir a ordem divina (Gen 3, 4-5, 13); no deserto, solicitou Nosso Senhor pela atração de uma dominação universal (Mt 4, 26-27)”. (J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´ation de Satan en ce monde, p. 495.)



São Tomás também se refere a essa obra de persuasão do demônio, explicando que a vontade humana só se move internamente por ação do próprio homem ou de Deus; externamente ela pode ser solicitada pelo objeto que, entretanto, não força o homem a escolher o que não quer. (Suma Teológico, 1-2, q. 80, a. 1.)



O Pe. Cândido Lumbreras O.P., assim comenta essa passagem do Doutor Angélico: “Que influência pode exercer o demônio nos pecados dos homens? ... O demônio pode oferecer aos sentidos seu objeto, falar à razão, seja interiormente, seja exteriormente; alterar os humores e produzir imagens perigosas, excitar enfim as paixões que podem mover a vontade e assenhorear-se do entendimento” .(C. LUMBRERAS O.P., Tratado de los vicios y los pecados — Introducción. p. 766.) Em comentário a outra passagem de São Tomás, explica Pe. Jesus Valbuena O.P.:


“Que os anjos possam iluminar e de fato iluminem o entendimento humano, é uma verdade que se atesta por uma multidão lugares nas Sagradas Escrituras ... Também os anjos maus são capazes de produzir, com sua virtude natural, falsas iluminações no entendimento dos homens, conforme nos admoesta São Paulo para que estejamos alerta ´pois o próprio Satanás se disfarça em luz’ (2 Cor 11, 14).



“Afirma São Tomás que nos sentidos do homem, sejam internos, sejam externos, os anjos podem influir e agir a partir de fora e a partir de dentro dos mesmos, quer dizer, extrínseca e intrisecamente; mas, em relação ao entendimento e à vontade humanas, só os podem mover e influir indireta e exteriormente, quer dizer propondo a estas potências espirituais de uma maneira acomodada a elas seus objetos, que são a verdade e o bem e influindo nelas indiretamente mediante os sentidos, as paixões, as alterações corporais sensíveis, etc., embora não possam nunca chegar a dobrar ou completamente a vontade do homem, se este se acha em estado normal” (J. VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo— Introduccion, p. 898.)



Nos casos de Eva e de Nosso Senhor, o demônio “apresentou suas razões” tomando uma forma corpórea, produzindo sons e articulando as palavras oralmente; no geral dos casos, entretanto, o demônio, para persuadir o homem a pecar, conjuga sua ação sensibilidade, a memória e a imaginação.



As doutrinas perversas do demônio



O demônio tem uma doutrina mentirosa, que opõe à doutrina de Cristo.Em sua introdução ao Tratado sobre os anjos, de São de Aquino, comenta o Pe. Aureliano Martínez O.P.: “O demônio tem suas doutrinas perversas, às quais o Apóstolo chama espírito do erro e ensinamentos do demônio (1 Tim 4, 1), com as quais como deus deste mundo, cega a inteligência dos homens para que não brilhe nelas a luz do Evangelho (2 Cor 4, 4); doutrinas que propala mediante falsos apóstolos e operários enganadores que se disfarçam em apóstolos de Cristo; e não é de espantar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz (2 Cor 11, 13-14), tentando os fiéis de incontinência (1 Cor 7, 5) e de ira (Ef 4, 27)”. (A MARTÍNEZ O.P., Tratado de Los Angeles — Introducción, p. 511.)



Foi por essa razão que o Divino Salvador definiu o demônio como aquele "que não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).Por meio dessa ação de persuasão o demônio procura na tentação, não apenas induzir-nos a cometer este ou aquele pecado, mas afastar-nos completamente de Deus.



Limites à ação do demônio



Por mais poderoso que seja, com uma capacidade de ação superior à de qualquer outro ser criado, o demônio, entretanto, não é onipotente. Sendo mera criatura, ele tem suas limitações, decorrentes de três fatores: sua própria natureza, a condição particular de cada demônio e a vontade permissiva de Deus.



Limites impostos por sua própria natureza



Com toda criatura, o demônio está limitado em sua atuação pela sua própria natureza: por mais elevado que seja seu poder, este não pode ultrapassar os limites de sua natureza criada.Ele é um ser finito, contingente. Não se deve pois de forma alguma julgar que ele é capaz de saber tudo (oniciência), de poder tudo (onipotência) e estar em todo lugar (onipresença): esses atributos são exclusivos de Deus.Sua inteligência, embora se tenha mantido intacta, está privada de todo auxílio sobrenatural. Os demônios perderam, com o pecado, toda forma de conhecimento sobrenatural; enquanto os anjos bons vêem em Deus o estado de uma alma (se ela está na graça divina ou em pecado), os demônios só podem fazer conjetura a respeito, O mesmo se deve dizer quanto a certos acontecimentos futuros que Deus revela aos anjos.



Por sua natureza, nem os anjos bons nem os demônios podem conhecer o futuro livre ou futuro contingente isto é, aquele que depende da vontade divina e do livre arbítrio humano mas apenas Deus, que o pode revelar aos seus anjos.Outro limite natural à ação do demônio é, como vimos, sua impossibilidade de agir diretamente sobre a inteligência e a vontade humanas; ele tem de usar meios indiretos: a sensibilidade, a imaginação, as paixões, e sobretudo a persuasão.



Limites devidos à condição particular de cada demônio



Outro limite à atuação demoníaca vem da diversa condição de cada demônio. Assim como existem desigualdades entre o homens, também entre os anjos e os demônios não há dois iguais.  Por isso, nem todos os demônios têm o mesmo poder.Outro fator de limitação é a posição relativa de cada demônio na escala dos anjos decaídos, e as eventuais ordens e proibições que existam entre eles.


Limites impostos por Deus


O demônio só pode agir em detrimento do homem com a permissão de Deus.Ensina o Cardeal Lepicier: “É preciso que nos lembremos sempre de que, por muito grande que seja o poder do demônio, tem limites que lhe foram sabiamente determinados pelo Todo-Poderoso. Ele pode, sem dúvida, fazer-nos mal, mas não além daquilo que lhe é permitido, e bem conhece que o seu poder não pode durar muito. Pode ser que o conhecimento da curta duração do seu reino contribua para que redobre a sua atividade nos tempos que vão correndo; mas todos os seus esforços obedecem aos impenetráveis desígnios da Providência que só permite que a sua influência seja exercida até certo grau, de forma que nos possamos colocar debaixo da proteção de Deus e ganhar, pelos nossos méritos, a vitória final e a coroa da imortal glória que nos espera no Céu" ( Cardeal A. LÉPICIER, O.S.M., O Mundo invisível, p.242.)



No livro de Jó, no qual é nomeado pela primeira vez nas Escrituras, Satanás aparece como agente do mal, porém absolutamente subordinado a Deus.Embora tenha inveja do justo Jó e queira pôr sua virtude à prova, por meio da infelicidade, Satanás não pode agir senão com a autorização divina.  Ele tem necessidade de uma permissão, ou até mesmo de uma delegação do Senhor.  Sua ação é estritamente limitada à vontade de Deus, que permite, primeiro atacar seu servidor exclusivamente em seus bens e não em sua pessoa; depois em sua pessoa, mantendo entretanto sua vida (Jó 1, 6-12; 2, 1-7).


São Paulo nos tranqüiliza:  "Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças; antes, com a tentação, vos dará as forças necessárias para sair dela e para suportá-la" (1 Cor 10,13).



Por que Deus permite que o demônio tente o homem, como também o prejudique, muitas vezes, de tantos modos?  Como fica patente em tantas passagens da Escritura e ensinamentos do Magistério eclesiástico, essa permissão divina tem como escopo santificar o homem por meio de provações, puní-lo por alguma falta grave, servir de ocasião para que se manifeste o poder divino de um modo visível, como no caso dos exorcismos de possessos.



Poder dos anjos bons sobre os demônios



Ensina São Tomás que os anjos bons, mesmo que por natureza pertençam a uma hierarquia inferior à de algum demônio ( por exemplo em ralação a Satanás), sempre têm um domínio sobre os anjos decaídos.  Pois os anjos gozam de perfeição da amizade de Deus, da qual estão privados os demônio; e esta perfeição é superior à mera excelência natural, a única que permanecesse nos demônios ( Suma Teológica, 1,q. 109,a.4. )Por isso observa o Cardeal Lepicier:  " A sabedoria de Deus torna-se ainda mais manifesta , quando consideramos que ele colocou os espíritos malignos debaixo do domínio dos anjos bons e deu a cada homem, neste mundo, um anjo bom que o ilumina, guia os seus passos e o defende contra os seus inimigos.  Por isso, os assaltos do inimigo das almas são aniquilados pela intervenção daqueles espíritos que se conservam fiéis a Deus, e o demônio acaba por contribuir para a maior glória do Criador". (Cardeal A. LÉPICIER, op. cit., p. 241. )



III - AÇÃO ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO




DEUS GOVERNA O MUNDO, respeitando sua ordem e suas leis; isto é, a normalidade, a simplicidade, o usual das coisas; tudo aquilo que sai desta linha e que parece maravilhoso, prodigioso, milagroso é excepcional, muito raro. Deus nos criou livres e espera de nós um livre consentimento à fé, sem que nisto sejamos influenciados por uma manifestação habitual do preternatural e do sobrenatural. Entretanto, para provar-nos, para que mereçamos a bem-aventurança eterna, como também, muitas vezes, para castigo nosso, permite Deus que o demônio nos atormente.



A inclinação para o mal nos provém de três causas: de nossa natureza, ferida pelo pecado original; do mundo e do demônio. Entretanto Satanás desperta em nós, continuamente, a tríplice concupiscência com insistentes tentações de soberba e orgulho, de luxúria, de avidez em todos os níveis.Essa é a ação ordinária, comum, corrente do demônio — ou seja, a tentação. Além dela, pode o Maligno exercer uma ação extraordinária.



A ação ou atividade demoníaca extraordinária pode ser assim qualificada por duas razões: em primeiro lugar, pelo seu caráter surpreendente, sensacional, espetacular; em segundo, pela sua relativa raridade (se comparada com a ação ordinária). Estamos nos referindo à infestação e à possessão diabólica.Trataremos em primeiro lugar da tentação; a seguir, das duas formas de infestação - a local e a pessoal; no  capítulo seguinte, da possessão.


1)- A tentação

“Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação. porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus promete aos que o amam".(Tiag 1,12)



A AÇÃO MAIS COMUM e constante do demônio, em relação ao homem, é a tentação. Por esse seu aspecto comum e também por ser a mais freqüente, pode-se chamá-la de ação ordinária do demônio.


Natureza da tentação



Em seu sentido etimológico, tentar alguém significa pô-lo à prova para que se conheçam suas disposições ou qualidades.


Tentação probatória e tentação enganadora ou sedutora



Santo Agostinho estabeleceu uma distinção, que se tomou clássica, entre a tentação probatória (tentatio probationis) e a tentação enganadora ou sedutora (tentatio decepcionis vel seducionis):


A tentação probatória não visa levar ao pecado, e sim tornar patente a virtude de alguém ou fortalecê-la por meio da provação.  Nesse sentido é que se pode falar de tentação de Deus, como, por exemplo, as provações que o Criador, servindo-se do demônio, enviou a Jó para provar sua fidelidade (cf. Jó 14, 1 ss).Pode-se falar também de tentar a Deus quando se pretende pôr Deus à prova, exigindo dele um milagre ou uma ação extraordinária, com o fim de satisfazer nossa curiosidade, nossos caprichos, ou livrar-nos das conseqüências de nossas irreflexões ou imprudências. “Tentar a Deus — escreve D. Duarte Leopoldo e Silva - é expor-se ao perigo, a grandes tentações, sem necessidade, e depois pedir um milagre para não sucumbir. Deus protege no perigo, mas nem por isso devemos expor-nos temerariamente, porque, diz o Espírito Santo, quem ama o perigo nele perecerá” . (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, Concordancia dos Sanctos Evangelhos, Escola Typographica Salesiana, São Paulo, I edição, 1903.)



A tentação enganadora ou sedutora visa levar o homem à ruína espiritual; ela propõe-lhe um mal sob a aparência de um bem, procurando arrastá-lo ao desejo desse mal, isto é, ao pecado. Pode, então, ser definida como uma incitação ao pecado. Consiste em um estímulo, uma solicitação da vontade para o mal.Quando procede de nós mesmos (tentação interna), pode ser indicada mais bem como inclinação, arrebatamento, estímulo; se provém de outros inclusive do demônio podemos referir-nos a ela como convite, solicitação, incitação.



Causas naturais da tentação: o mundo e a carne


Nem todas as tentações que o homem padece provém do demônio; também o mundo e a carne têm nelas uma grande parte: "Nem todos os pecados são cometidos por instigação do demônio, mas alguns são cometidos pela livre vontade e corrupção da carne” - ensina São Tomás. ( Suma Teológica, 1,q.114,a.3.)



A raiz mesma da tentação está na própria natureza humana, livre porém demasiado frágil, sobretudo depois que decaiu de sua integridade, em conseqüência do pecado original. “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e o alicia” - escreve o Apóstolo São Tiago (Tiag 1, 14), que repete a mesma idéia pouco à frente: “De onde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros?” (Tiag 4, 1).



São Paulo descreve em termos dramáticos essa terrível realidade: "Sinto imperar em mim unia lei: querendo fazer o bem, eis que o mal se apresenta a mim. Segundo o homem interior, acho satisfação na lei de Deus; mas em meus membros experimento outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me encadeia à lei do pecado que reina em meus membros” (Rom 7, 21-24)*


 *“São Paulo descreve a luta que se trava no interior do homem entre a carne e o e espírito.  O homem reconhece a justiça e a bondade da lei, mas a concupiscência excita-o fortemente a desobedecer-lhe” (Pe. MATOS SOARES).  A carne, aqui, significa a natureza humana decaída em conseqüência do pecado original, que a tornou desregrada. De si, a carne ou seja, a natureza humana é boa, pois criada por Deus.


Essa a lei da carne


Também o mundo procura arrastar-nos ao pecado, pois "está  sob o jugo do maligno” (1 Jo 5, 19), e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” (Tiag 4, 4). Se rompermos com o mundo ele nos perseguirá, adverte o Salvador, pois não somos do mundo ( Jo 15, 19). Por isso, Jesus disse expressamente que não rezava pelo mundo (Jo 17, 9).


Um homem pode ser tentador de outro homem, segundo o espírito do mundo. Foi o que fez São Pedro, procurando desviar o Senhor do caminho da Cruz: “A partir daquele momento, começou Jesus a revelar a seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém, padecesse muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e fosse condenado à morte, e ao terceiro dia ressuscitasse. Pedro, tomando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: ´Deus te livre, Senhor! Isto não te pode acontecer!´Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: 'Retira-te de mim, Satanás! Pois és para mim obstáculo (isto é, tentação); os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!' “ (Mt 16, 21-23).



Somos, pois, tentados pela nossa própria fragilidade, pelo nosso temperamento, nossa índole, formação, ambiente, familiares, amigos, situações e ocasiões; em uma palavra: pela carne e pelo mundo.



A tentação demoníaca


Porém, conforme ensina o Apóstolo, “não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espiritos malignos espalhados pelos ares.. “(Ef 6, 10-11).É fora de dúvida que muitíssimas tentações são obra direta do demônio, cujo oficio próprio — diz São Tomás — é tentar. ( Suma Teológica, 1,q. 114,a .2. ) A maior parte da atividade demoníaca se concretiza na tentação. Por isso o demônio, no Evangelho, é chamado tentador (cf. Mt 4, 3).



As demais causas da tentação — o mundo e a carne — podem atuar dependentemente umas das outras; entretanto, é comum que, nas tentações, a atração do mundo se una à revolta da sensualidade, e a ambas se some a ação aliciante do demônio.De tal modo que, embora os teólogos aceitem no plano teórico a possilidade de a tentação poder ter uma causa apenas natural o mundo ou a carne sem entrar necessariamente a ação do demônio, no plano prático, em geral, admitem que o Maligno, sempre à espreita, se aproveita de todas as circunstâncias para cavalgar a tentação e aumentar a sua intensidade ou malícia.


De onde a advertência de São Paulo: “Se sentirdes raiva, seja sem pecar: não se ponha o sol sobre vossa ira, para não dardes oportunidade ao demônio” (Ef 4, 26-27).



O homem diante da tentação - A tentação não é pecado


A tentação, de si mesma, obviamente não é pecado. Pois o próprio salvador permitiu ser tentado pelo demônio (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).Como dissemos, o demônio não pode agir diretamente sobre a inteligência ou a vontade humanas e por isso procura influenciá-las por meios indiretos, em seu escopo de fazer-nos pecar. Mesmo podendo resistir ao tentador, o homem freqüentemente se deixa seduzir.


Para nos tentar, o demônio pode excitar a imaginação de modo a formar nela imagens e representações lúbricas ou perturbadoras; interferir em movimentos corporais que favoreçam os maus atos ou maus pensamentos, intensificar as paixões, procurar enredar-nos em sofismas, em erros, etc.Entretanto, o homem não é culpado das tentações que sofre, a não ser quando elas são conseqüência de imprudências, permitidas ou procuradas voluntariamente, por exemplo, com olhares indevidos, freqüência a lugares perigosos, más companhias, etc. Do contrário, ele só será culpado nos casos em que der um consentimento pleno e deliberado ás solicitações das tentações.*


 *“Três coisas devemos distinguir na tentação: a sugestão, a deleitação e o consentimento.  A sugestão não é um pecado, porque não depende da nossa vontade, A simples deleitação, quando involuntária, também não é pecado. Só o consentimento é sempre criminoso, porque depende exclusivamente de nós o aceitar ou não a sugestão do pecado" (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, op. cit., p. 34, n. 5).



Por mais intensa que seja uma tentação, se o homem lutou contra ela o tempo todo, não cometeu a menor falta; pelo contrário adquiriu méritos para sua santificação, segundo escreve São Tiago Apóstolo: “Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam” (Tiag 1, 12).



Necessidade da vigilância e da oração



Devemos estar sempre alertas para enfrentar as provocações, como nos recomendou Nosso Senhor na hora de sua Paixão: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). O mesmo aconselha São Pedro: “Séde sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda ao redor como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Ped 5,8).



Vigiar, porém, não basta. É preciso resistir ao demônio: "Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (Tiag 4, 7) — nos assegura São Tiago. “Resisti-lhe [ao demônio] fortes na fé” — manda São Pedro (1 Ped 5,9).


E São Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do demônio. ... tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade, e vestindo a couraça da justiça ... tomai o escudo da fé com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno, tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito ( que é a palavra de Deus)” (Ef 6, 11-17).


Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças



Devemos, entretanto, ter sempre presente esta consoladora verdade: é certo que Deus não permite sejamos tentados além de nossas forças. Este é o ensinamento de São Paulo: “Nenhuma tentação vos sobreveio que superasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças: mas, com a tentação, vos dará também o meio de sair dela e a força para que suportá-la” (1 Cor 10,13).



 2)- A infestação



"Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares.. "(Ef 6, 10-11)



A TERMINOLOGIA a respeito da ação extraordinária do demônio sobre os homens, as coisas e os locais, não é uniforme: alguns autores falam em obsessão, para designar essa atuação demônio, quer se trate de sua simples presença local, quer de atuação sobre o homem, mas sem possuí-lo, quer da possessão. Outros criam termos especiais como circumissessão, para designar a ação demoníaca externa ao homem.Adotamos aqui a terminologia utilizada por Mons. Corrado Balducci, por parecer-nos mais simples e direta: infestação local, infestação pessoal e possessão diabólica. (Cf Mons. C. BALDIJCcI, Gli indemoniati, p. 3; El diablo, pp. 156-158.)Trataremos em primeiro lugar das duas formas de infestação — a local e a pessoal; no capítulo seguinte, da possessão.



Infestação local



A infestação local consiste em uma atividade perturbara que o demônio exerce diretamente sobre a natureza inanimada (reino mineral, elementos atmosféricos, etc.) e animada inferior (reino vegetal e reino animal), e também sobre lugares, procurando desse modo atingir indiretamente o homem, sempre em modo maléfico.



Com efeito, todas as criaturas, mesmo as irracionais, por maldição do pecado, ficaram sob o poder do demônio (cf. Rom 8, 21ss). Assim, os lugares e as coisas, do mesmo modo que as pessoas, estão sujeitas à infestação demoníaca. E preciso não esquecer a atuação dos demônios dos ares, a respeito das quais nos adverte o Apóstolo: “Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares...” (Ef 6, 10-11).



Entram nessa categoria as casas e lugares infestados: objetos que voam ou se deslocam de lugar, sons estranhos ou perturbadores (passos, pedradas nas vidraças ou no telhado, uivos, gritos, gargalhadas); impressão de presenças invisíveis, sensação de perigos inexistentes, etc.; distúrbios visíveis, estranhos e repentinos que se verificam no mundo vegetal e no mundo animal (árvores ou plantações que secam repentinamente, doenças desconhecidas nos animais, pragas, etc.).


Certos fenômenos ou calamidades de aparência e estruturas naturais (tempestades, terremotos e outros cataclismos, incêndios, desastres, etc.) podem ter igualmente o demônio como autor, senão único direto (como na possessão), ao menos parcial e dirigente.  Por exemplo, o raio que caiu do céu e consumiu os pastores e as ovelhas de Jó, do mesmo modo que o vento do deserto que fez cair a casa dos filhos do Patriarca, esmagando-os sob as ruínas, foram suscitados por Satanás (Jó 2, 16-19). Nesse caso, podem ser incluídos essas manifestações demoníacas extraordinárias.Muitas vezes, tais manifestações ocorrem em concomitância com casos de infestação pessoal ou de possessão diabólica.


Infestação pessoal



A infestação pessoal é uma perturbação que o demônio exerce, já não mais sobre o mundo material e as criaturas irracionais, mas sobre uma pessoa, diretamente, sem contudo impedir-lhe o uso da inteligência e da livre vontade. Apesar de ser excepcional, é talvez o mais freqüente dos três tipos de atividade maléfica extraordinária - isto é, infestação local, infestação pessoal, possessão.Como a infestação local, a pessoal também comporta graus de intensidade, e diversa modalidade.A infestação pessoal pode ser externa ou física e interna ou psicológica, conforme se exerça sobre os sentidos externos ou internos e sobre as paixões do homem. Com freqüência, a infestação é simultaneamente externa e interna.Na infestação externa ou física, demônio age sobre nossos sentidos externos: a vista, provocando aparições sedutoras ou, contrário, apavorantes; a audição, fazendo ouvir rumores, palavras ou canções obscenas, blasfêmias, convites, agrados ou ameaças; o tacto, com sensações provocantes, abraços, movimentos carnais; então dores, doenças, etc.


Mas o demônio pode atuar também sobre os sentidos internos (fantasia e memória) e sobre as paixões:



A infestação interna ou psicológica consiste em sugestões violentas e tenazes: idéias fixas, imagens expressivas e absorventes, movimentos profundos de emotividade e de paixão - por exemplo, desgostos, amargura, ressentimentos, ódio, angústias, desespero; ou, ao contrário, inclinação para algum objeto ilícito, ou inclinação, de si lícita, mas desregrada quanto ao modo e à intensidade.



Comenta o Pe. Tanquerey: “A pessoa se sente, embora com desgosto, invadida por fantasias importunas, tediosas, que persistem não obstante os esforços vigorosos para afastá-las; ou então por frêmitos de ira, angústia, desespero, ímpetos instintivos de antipatia; ou pelo contrário, por perigosas ternuras sem razão alguma que as justifiquem” . (Adolphe TANQUEREY, Precis de Théotogie Ascétique ei Mystique. p. 958.)



Os acessos de melancolia e os transportes de furor que afligiam Saúl, por obra de um demônio e por permissão divina ( cf. 1 Reis 16, 14-23), são característicos da infestação pessoal interna, infestação psicológica.Diferentemente do possesso, o infestado guarda a disposição de seus atos exteriores, embora em muitos casos tenha sua liberdade diminuída. Ele conserva o poder de reagir contra as sugestões do interior ( por exemplo, sugestões de blasfêmias), de julgar sobre o valor moral destas sugestões, achando-as abomináveis.



Uma das modalidades de infestação pessoal, talvez das mais freqüentes são as doenças, muitas vezes desconhecidas e incuráveis, que chegam a levar à morte, se Deus o permitir. É o que, aliás, lemos no livro de Já: “Disse, pois, o Senhor a Satanás: Eis que ele (Jó) está na tua mão; conserva, porém, a sua vida” (Jó 2, 6).As escrituras apresentam vários casos de tais enfemidades de origem de diabólica. Exemplo clássico, é a lepra que cobre de chagas o justo Jó, da planta dos pés até o alto da cabeça (Já 2, 7-8).Seriam igualmente vítimas de infestação diabólica a mulher encurvada, atormentada pelo demônio havia dezoito anos, de tal sorte que não se podia endireitar, e que foi curada por Nosso Senhor (Luc 13, 11); o menino epilético (Mt 17, 14; Mc 9, 17; Luc 9, 38); o mudo (Mt 9,32); e o cego mudo (Mt 12, 22).



Mons. Balduecci se refere a doenças de origem demoníaca, por efeito de maleficios, observando que nestes casos os distúrbios são com freqüência de ordem física, sendo dificilmente diagnosticados pelos médicos; outras vezes se trata de inconvenientes que atacam a vida psíquica, a própria personalidade do indivíduo, tomando-o difícil, raivoso e até incapaz de atuar no âmbito de sua vida familiar e social.(Cf. Mons. C.BALDUCCI, El diablo, p. 184.)



Convém precisar que muitas das manifestações acima descritas, embora próprias às infestações locais ou pessoais, não são exclusivas delas e nem sempre são de origem demôniaca; várias anomalias de ordem psíquica (ilusões, alucinações, delírios) podem se externar pelos mesmos fenômenos; um cuidadoso exame do indivíduo e das circunstâncias que acompanham os fatos poderá revelar a origem natural patológica ou demoníaca dos distúrbios.



Vítimas prediletas da infestação



Se bem que qualquer pessoa possa ser vítima desse tipo de tormento diabólico, Mons. Balducci indica três categorias de pessoas que estariam mais sujeitas a ele: os santos, os exorcistas e demonólogos, e os maleficiados (vítimas de malefício).



Os santos, por causa do ódio que o demônio tem daqueles que de modo especial amam a Deus e procuram a perfeição; isto, do lado da intenção do demônio; do lado da permissão divina, esta é dada como provação especial a almas muito eleitas. Vários santos a experimentaram. Entre os antigos, basta lembrar Santo Antão; do mesmo modo Santa Catarina de Siena (1347-1380); São Francisco Xavier (1506-1552); Santa Teresa de Jesus (1515-1582); Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607); São João Batista Vianney, o Cura d’Ars (1786-1859) São João Bosco (1815-1888); Santa Gemma Galgani (1878-1903).*



*Os exorcistas e demonólogos: a razão é tão óbvia que quase não é preciso dá-la; os primeiros, com seu ministério, fazem diminuir a presença do demônio no mundo e libertam suas vítimas; os segundos, com seus estudos, esclarecem os fiéis com relação à existência e atividade demoníacas.



Os maleficiados (vítimas de malefício), por permissão de Deus, para seu castigo, ou provação, ou para manifestar o poder divino. ( Cf. Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 179.)


*Esta Santa leiga, grande mística, recebeu os estigmas da Paixão, tinha freqüentes visões de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, e um comércio quase contínuo com seu Anjo da Guarda. Foi muito atormentada pelo  demônio que a espancava com uma vara durante horas e horas, às vezes a noite inteira, causando-lhe profundas esquimoses no corpo, que duravam vários dias, até que Nosso Senhor as curasse. Perseguia-a por toda a parte, em casa, na rua, na igreja, com aparições, assumindo o aspecto de um cachorro, de um gato, de um macaco, de pessoas conhecidas, ou de homens ferozes e espantosos. Várias vezes um desses homens horríveis a jogou na lama quando saia de casa para ir comungar. O demônio lhe aparecia também sob a figura de seu confessor, Mons. Volpi e outras debaixo da aparência do Anjo da Guarda, chegando a confundi-la; de certa feita o Maligno assumiu a figura de Jesus flagelado, com o coração aberto e todo ensangüentado, para pedir-lhe maiores penitências, com a dupla finalidade de fazer deteriorar sua já delicada saúde e incitá-la a desobedecer o confessor que as havia proibido ( Mons. C. BALDUCCI, El diablo PP. 179-181).


 3)- A possessão


“E pela tarde apresentaram-lhe muitos possessos do demônio".(Mt 8, 16)


A POSSESSÃO é a mais espetacular das manifestações diabólicas e a que mais impressiona as imaginações; a tal ponto, que deixa na penumbra o trabalho constante do demônio que, por meio da tentação, procura seduzir os homens ao pecado.


Realidade da possessão diabólica



No que se refere à possessão diabólica, há duas posições erradas que é preciso evitar:

a) - A primeira, consiste em acreditar com facilidade que uma pessoa está possessa, sem maior exame, pela impressão causada por sintomas que podem bem corresponder a outros estados, não sendo de si suficientes para caracterizar a possessão;


b)- A segunda posição está em negar que hoje ocorram casos de possessão; chega mesmo a negar que alguma vez se tenham dado. Esta posição extremada se choca com uma verdade claramente ensinada pela Sagrada Escritura, pela Tradição e pela prática da Igreja.Os racionalistas pretendem que os casos de possessão diabólica relatados na Escritura não passam de casos patológicos — mania, loucura, histeria e epilepsia. Dizem que Jesus não pretendia que esses infelizes enfermos, chamados endemoniados, estivessem realmente possessos, mas tratava-os de acordo com as convicções dos seus contemporâneos, os quais acreditavam na ação demoníaca.Nada mais falso, e os Evangelistas distinguem bem entre a doença e a possessão.Assim, São Marcos escreve: “E de tarde, sendo já posto o sol, traziam-lhe (a Jesus) todos os que estavam doentes e os possessos do demônio E curou muitos que se achavam oprimidos com varias doenças. e expeliu muitos demonios” (Mc 1, 32-34).E em São Mateus está escrito: “E pela tarde apresentaram-lhe muitos possessos do demônio, e ele com a (sua) palavra expelia os espíritos maus, e curou todos os enfermos” (Mt 8, 16).Do mesmo modo São Lucas: “E quando foi sol posto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias, traziam-lhos. E ele impondo as mãos sobre cada um, sarava-os. E de muitos saíam demônios gritando” (Lc 4,40-41).É evidente nestas passagens que os Evangelistas se referem à cura de doentes e à expulsão de demônios como dois casos diferentes.De resto, o próprio Salvador afirma que expulsava os demônios dos possessos. Por exemplo, aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de  Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente chegou a vós reino de Deus”(Lc 11,20).E Ele mesmo distingue bem os casos de doença dos de possessão, ao dizer: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32).






A Liturgia e a prática da Igreja, com a instituição dos exorcismos, bem como o ensinamento dos teólogos, e pronunciamentos oficiais dos últimos papas, indicam que a Igreja crê na possessão diabólica. Ao mesmo tempo, estabelecendo que os exorcismos sobre possessos não sejam feitos senão depois de maduro exame e mediante especial autorização, a Igreja indica que não se deve crer levianamente nos casos de possessão. Em resumo, que se tenham dado alguns casos, pelo menos de verdadeira possessão diabólica, como os relatados nos Evangelhos, é verdade de fé; que depois se tenham dado outros, é doutrina comum dos teólogos, que não pode ser negada sem temeridade.


Natureza da possessão


A possessão consiste em um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma pessoa. Esta se converte em um instrumento cego, dócil, fatalmente obediente ao poder perverso e despótico do demônio.O indivíduo em tal estado é chamado justamente possesso, endemoniado, enquanto instrumento, vitima do poder demoníaco, ou energúmeno, porque mostra uma agitação insólita.


Características



A possessão se caracteriza por dois elementos:

a) Presença do demônio no corpo do homem.

b) Exercício de um poder por parte demônio sobre o mesmo.


Quanto â presença demoníaca, ela não significa uma presença física, como anjo (decaído), o demônio é puro espírito; sua presença se dá pelo contacto operativo, isto é, o demônio está onde atua desse modo, o demônio pode desenvolver sua atividade por toda a parte, tanto fora como dentro dos corpos humanos. Sendo assim, um indivíduo pode  estar possuído por vários demônios (os quais operam simultaneamente sobre ele, embora sob aspectos diversos), como um só demônio pode possuir várias pessoas (atuando sucessivamente sobre cada uma delas).


O modo como se opera a possessão é explicado por São Tomás de Aquino:



"Os anjos bons e os maus têm o poder, em virtude de sua natureza, de modificar nossos corpos, como qualquer outro objeto material. E como eles estão presentes num lugar na medida em que operam nele, assim eles penetram em nossos corpos. Do mesmo modo, ainda, eles impressionam as faculdades ligadas a nossos órgãos: às modificações dos órgãos respondem as modificações das faculdades. Mas a impressão não chega até à vontade, porque a vontade, nem seu exercício, nem em seu objeto, depende de um órgão corporal; ela recebe seu objeto da inteligência, na medida em que esta desentranha, do que ela percebe, a noção de bondade do ser”. (In 2dum Sent., Dist. VIII, q. un. a. 5, sol. apud L. ROURE, Possession Diabolique, col.) Em outro lugar o Santo Doutor explica que o diabo não pode penetrar diretamente na alma do homem, pois isto somente a Santíssima Trindade pode fazer. (Suma Teológica, 3,q. 8,a.8) Isto quer dizer que, na possessão, embora o demônio domine o corpo, sobretudo o sistema nervoso, e possa impedir o uso das potências da alma, ele não pode penetrar nela e obrigar sua vítima a cometer um pecado, ou aceitar as doutrinas diabólicas.


O possesso de certa forma, não é moralmente responsável por seus atos, por piores que sejam, uma vez que não tem plena consciência deles,  nem existe colaboração da vontade.


Efeitos da ação do demônio sobre o possesso



A presença operante do demônio no endemoniado não é contínua, mas se manifesta por períodos de crise. Não falta ao demônio poder nem  vontade de atormentar ininterruptamente sua vítima, tal o ódio ao homem; Deus é que não o permite, pois a pessoa não resistiria.A influência do demônio sobre os possessos não é simplesmente indireta ou moral, como, por exemplo, nas tentações, mesmo as mais fortes; ela é uma ação direta e física, exercida pelos espírito das trevas sobre os órgãos corporais do infeliz submetido ao seu império. De onde resulta para este último um estado doentio, estranho, que sai das leis ordinárias das afecções mórbidas, embora freqüentemente acompanhado de fenômenos de ordem puramente natural, que o demônio determina nele, simultaneamente com aqueles que ultrapassam a esfera própria aos agentes físicos. Esses fenômenos são habitualmente uma superexcitação geral e profunda de todo o sistema nervoso.


Outras vezes, ao contrário, o demônio comunica à sua vítima um crescimento extraordinário da força muscular. O infeliz entra em fúria a ponto de espumar de raiva, ranger os dentes, soltar gritos espantosos, precipitar-se na água ou no fogo. Ele se torna então perigoso para aqueles que se aproximam dele; destrói, como simples pedaço de palha, as cadeias de feno com as quais o querem prender; e, se ele não puder atingir os outros, volta conta si mesmo o seu furor, arranhando-se com as unhas, machucando-se com as pedras do caminho.Essa ação perturbadora e nociva do demônio sobre os órgãos corporais expande-se sobre as faculdades mistas, como a imaginação, a memória, a sensibilidade. Estende-se mesmo mais longe e mais alto no ser humano, porque ela tem sua repercussão até na inteligência.  As operações intelectuais apresentam, às vezes, um tal caráter de incoerência, que os demoníacos parecem atingidos  de alienação mental. Não é raro também ver-se produzir, no domínio do espírito, um fenômeno análogo àquele que se passa no seus órgãos. Assim como o demônio, em lugar de paralisar as energias corporais do demoníaco, aumenta seu poder, do mesmo modo, em vez de diminuir suas luzes naturais, ele comunica à sua inteligência conhecimentos que ultrapassam de muito seu poder.


Possessão e infestação: fenômenos da mesma espécie



A infestação pessoal (ou obsessão) e a possessão constituem fenômenos da mesma espécie, variando apenas em grau, e são classificadas pelos teólogos como ações extraordinárias e diretas do demônio, enquanto a tentação é indicada como ordinária e indireta. Observa o Cardeal Lepicier que a diferença entre a infestação pessoal e a possessão não é um diferença de espécie, mas somente de grau, visto que estas formas diferem mais ou menos, conforme for maior ou menor o grau do poder exercido pelo demônio sobre o corpo do indivíduo a quem ele resolveu atormentar. Os fenômenos de infestação pessoal não são, por vezes, menos graves do que os de possessão. De fato, o Ritual Romano não estabelece diferença alguma entre eles, e as línguas latina e italiana têm apenas uma palavra clássica para designar ambas as formas, isto é, obsessão diabólica. (Cf. Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, p. 277.)



É verdade — explica o Pe. Roure — que a possessão não penetra até o íntimo da alma; conseqüentemente ela não pode ditar, impor ao possesso um ato pessoal de inteligência ou de vontade; mas a ação diabólica chega a neutralizar, a impedir o exercício da inteligência e da vontade, de modo que o possesso torna-se incapaz de conhecer, de julgar e de querer tudo o que se passa e se agita nele.  Na infestação tal não se dá; a vítima conserva o domínio de suas faculdades superiores (a inteligência e a vontade), e pode mesmo servir-se delas para enfrentar os assaltos do Maligno. Dessa forma acontece que a efervescência diabólica pode deixar o fundo da alma em paz. (Cf. L. ROURE, Possession Diabolique, cols. 2645-2646.)


Causas da possessão



1)- Punição e provação



A permissão dada por Deus ao demônio de, na possessão apoderar-se assim dos órgãos corporais e das faculdades espirituais de uma criatura humana, é, às vezes, punição de certos pecados graves cometidos pelos possessos, em particular os pecados da carne.  Entretanto não é sempre assim. Um endemoniado não é necessariamente culpado. Algumas vezes, Deus permite esse estado para ressaltar sua glória pela intervenção ostensiva de seu poder absoluto (cf. Jo 9, 1-8), ou para provar os possessos.



São Boaventura explica que Deus permite a possessão “seja em vista de manifestar sua glória, obrigando o demônio pela boca possesso a confessar, por exemplo, a divindade de Cristo, seja para punição do pecado, seja para nossa instrução. Mas, por qual dessas causas precisamente ele deixa o demônio possuir um homem, é o  que escapa à sagacidade humana: os julgamentos de Deus são escodidos aos homens. O que é certo, é que eles são sempre justos” (In 2dum Sent. dist. VIII. part II. q. 1 art único apud L. ROURE, Possession Diabolique., col. 2644.)


O caráter espetacular da possessão acaba por apresentar um efeito apologético e ascético benéfico, pois torna patente e quase visível a existência do Espírito das trevas. Esta é uma das razões pelas quais Deus permite a possessão diabólica, pois obriga o Maligno a agir como que a descoberto, dando mostras públicas da sua maldade, do seu ódio contra o homem e a criação.


2)- Práticas supersticiosas, espiritismo, macumba, etc.


Não devemos esquecer, entre as causas das infestações e da possessão, as práticas supersticiosas, o recurso a magos, pais-de-santo, cartomantes, adivinhos, etc.

"O demônio, quando um homem colabora com ele em práticas superti ciosas, facilmente exerce sobre esse indivíduo a mais cruel e implacável tirania” — observa o Cardeal Lepicier. Ele chama a atenção para as práticas espíritas: “Não pode haver dúvida de que atuar como médium é o mesmo que expor-se aos perigos da obsessão diabólica ... Recorrer a um médium é, pois, equivalente a cooperar na obsessão de uma pessoa”. (Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 222-223.)


Uma das causas muito comuns da ação extraordinária do demônio sobre pessoas é o malefício, a respeito do qual falaremos adiante. O Pe. Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma, afirma que os casos mais difíceis de infestação e de possessão diabólica que ele tem encontrado são os resultantes de macumbas realizadas no Brasil e na África. (Cf. G. AMORTH, Un  esocista racconta, pp. 116 e 157.)


Existem ainda casos de possessão voluntária, em que a pessoa que recorreu ao diabo e fez um pacto com ele pode agir como um instrumento do Maligno para levar avante os desígnios dele. A figura típica do médium de Satanás, foi Hitler, segundo julga o teólogo e demonólogo beneditino austríaco Dom Aloïs Mager.("Não há nenhuma outra definição mais breve, mais precisa, mais adaptada à natureza de Hitler que esta tão absolutamente expressiva: Medium de Satã” (D. Aloïs MAGER O.S.B., Satan de nos jours, p. 639).)  Poderiam ser mencionadas igualmente as figuras sinistras de Lenin, Stalin, e tantos outros.



Freqüência da possessão



Após o estabelecimento da Igreja, o número dos endemoníados diminuiu, de muito, nas nações tomadas cristãs. E que, pelo Batismo e demais Sacramentos, os fiéis são preservados desses ataques sensíveis do demônio. Este perdeu seu império, mesmo sobre aqueles que, embora batizados, vivem de maneira pouco conforme com à Fé de seu Batismo. Membros da Igreja, embora membros mortos, eles encontram nessa união, entretanto imperfeita, ao Corpo Místico de Cristo, um socorro em geral suficiente para que o demônio não possa apoderar-se deles, como faria, se se tratasse de pagãos.



“Entretanto — observa o Pe. Ortolan — não somente nas regiões que não receberam o Evangelho, mas também naqueles em que a Igreja está estabelecida, encontram-se ainda demoníacos. Seu número aumenta na proporção do grau de apostasia das nações que, outrora católicas, abandonam pouco a pouco a Fé, e retornam ao paganismo teórico e prático” (T. ORTOLAN, Demoniaque, col.410.) Para avaliarmos corretamente a presença e atuação do demônio no mundo atual é preciso considerar que o estado de apostasia a que se referia o Pe. Ortolan há mais de quarenta anos — chegou em nossos dias a um grau inimaginável. E que, mais ainda do que os casos de possessão, o número dos infestados é sem conta.


Possessão diabólica:



O diagnóstico


"Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais indicados no Ritual Romano”.(Dom Louis de Cooman, Bispo-missionário e exorcista)



Estados patológicos e possessão diabólica

Problema complexo


Um dos problemas mais complexos colocados pela ação diabólica extraordinária sobre o homem é o seu diagnóstico. (Paranormal, ou preternatural ?).A questão consiste em saber quando estamos realmente em presença de uma ação preternatural (isto é, provocada por anjos ou demônios) ou diante meras manifestações de morbidez, ou de outro gênero, por certo incomuns, mas que não escapam ao âmbito dos fenômenos naturais da alçada da Medicina e outras ciências (paranormal).Nem sempre é fácil distinguir entre as infestações e possessões demoniácas e certos fenômenos de natureza mórbida, pois é sabido que inúmeros distúrbios patológicos, especialmente de caráter neuro-psiquiátrico, provocam estados de extrema agitação, decuplicam as forças físicas, provocam fobias em relação às coisas sacras, etc. Em resumo, fazem o pobre doente parecer um possesso.



É o que faz notar o Cardeal Alexis Henri Marie Lépicier, O.SM.:



Sabemos que em algumas pessoas a imaginação, estando fora do normal, pode ultrapassar os seus naturais limites (paranormais), e ser a origem de manifestações estranhas que, à primeira vista, apresentam uma certa afinidade com ocorrências preternaturais [isto é, produzidas por anjos ou demônios]. Todos nós sabemos quantas perturbações pode causar uma doença nervosa em certas criaturas, como, por exemplo, nas que sofrem de histeria. Há, de fato, nas ações destes indivíduos muitas coisas que causam admiração.Mas é principalmente nos períodos de paroxismo que a histeria está mais apta a exibir muitos e curiosos fenômenos, o principal dos quais é a alucinação.


“Toda gente vê, portanto, a necessidade imperiosa de estabelecer a distinção entre estes fenômenos paranormais, e os que são devidos a causas preternaturais” (Card. A. LEPICIER, O Mundo invisível, p. 201.)



Outras vezes, são fenômenos da natureza, insuficientemente explicados pelos cientistas, ou simplesmente fora de alcance de pessoas sem formação especializada: luminosidades, movimentos de massas de ar, variações térmicas, etc., os quais podem parecer fenômenos maravilhosos provocados por ação diabólica.



Objetividade e rigor científico



Mons. F. X. Maquart — renomado estudioso da matéria - compara o diagnóstico do exorcista ao diagnóstico médico.O exorcista deve proceder com a mesma objetividade, o mesmo rigor que o exame do médico, de modo a não deixar fora do exame nenhuma das manifestações apresentadas pelo comportamento do paciente, evitando com isso deixar-se levar pela impressão, que pode ser enganosa. Esse exame crítico tem por finalidade eliminar alguma possível explicação natural observável na presumida manifestação diabólica.Mons. Maquart explica que um certo número de sintomas da possessão são comuns com os de algumas doenças como a psicastenia, a histeria, algumas formas de epilepsia, etc. Como fazer para discernir então entre um simples doente mental e um possesso pelo demônio? Entram em jogo os outros sinais da possessão, que não têm explicação natural: falar línguas estrangeiras não aprendidas,  conhecer fatos à distância, revelar ciência ou força física muito em desproporção com a idade, etc. ( Cf. F. X. MAQUART. L´Exorciste devant les manifestations diaboliques, pp. 338-339.) Essa posição exige, ao mesmo tempo, muita objetividade e bom senso, ao lado de muita fé. Pois, como é evidente, não se pode, sob pretexto de que o extranatural é uma exceção, negar em princípio toda a ação demoníaca, ou proceder de tal forma como se sempre se tivesse que encontrar, a qualquer preço, uma explicação natural.



Perigos de um diagnóstico errado



Um diagnóstico errado não é isento de perigos, tanto de ordem moral e espiritual, como até mesmo física.Em primeiro lugar, a prática de exorcismos em simples doentes mentais, sem que estes, obviamente, experimentem qualquer melhora, pode conduzir ao descrédito em relação aos mesmos exorcismo e às coisas sagradas de modo geral. Pode ainda oferecer argumentos aos céticos, que se aproveitarão para tachar a prática dos exorcismos como puramente supersticiosa. Além do mais, a prática dos exorcismos solenes representa para o exorcista um desgaste muito grande, o qual seria sem fruto em caso de erro de diagnóstico.


ATENÇÃO !!! Exorcizar doentes mentais oferece o perigo de agravar seus males, seja pela grande tensão e esforço mental e até físico, que o exorcismo comporta, seja pelo caráter impressionante deste. É o que afirma Mons. Maquart, experimentado demonólogo francês:  “Não seria sem inconvenientes graves exorcizar, sob simples aparências de possessão, doentes mentais. Em vez de os curar, o exorcismo teria o risco de agravar seu mal”. (Mgr F. X. MAQUART, L ‘Exorciste devam les manjfestations diaboliques, p. 328.)



O mesmo assegura Dom Gustavo Waffelaert (Bispo de Bruges):



"Há inconveniente real em exorcizar uma pessoa não possessa. Por ela, antes de tudo; pois o exorcismo, pela forte impressão que produz, pode afetar desfavoravelmente um sistema nervoso já perturbado e acabar de o arruinar; ele é também um poderoso meio de sugestão e arrisca desenvolver, num indivíduo fraco, hábitos mórbidos. Além do que, não se tem o direito de empregar, sem motivo grave, as orações sagradas do Ritual: é preciso que elas tenham um objeto. Dessa forma, a Igreja, para pemitir o exorcismo, requer a prudência e um julgamento moralmente certo ou ao menos provável da possessão” . (Mgr G. 3. WAFFELAERT, Possession Diabolique. col. 55.)



Em muitos lugares, como nas dioceses de Roma e Veneza, os exorcistas trabalham sempre em estreita união com psiquiatras católicos, os quais os ajudam a distinguir meros doentes de eventuais possessos; por seu lado, esses profissionais, muitas vezes, recorrem aos serviços dos exorcistas, quando percebem em seus clientes sinais que ultrapassam os limites da Medicina. Na realidade, certas manifestações, à primeira vista patológicas, podem esconder a ação do Maligno. Por isso o médico católico não deve excluir sem mais a possibilidade dessa ação, conforme observa Mons. Catherinet: “O médico que quiser manter-se um homem completo, sobretudo se ele possuir as luzes da fé, não excluirá, a priori, a presença do demônio, podendo, em certos casos, suspeitar, por trás da doença, a presença e a ação de alguma força oculta (cujo estudo ele pedirá ao filósofo ou ao teólogo, os quais se guiam segundo seus próprios métodos). (Mgr F. M. CATHERJNET. Les Demoniaques dons l Évangile, pp. 324-32.)



Critérios seguros



A Igreja nunca negou essa dificuldade de diagnóstico da possessão; ao contrário, sempre foi muito cautelosa no pronunciar-se sobre os casos concretos, recomendando que na avaliação de cada um deles se examine com muito cuidado se o fenômeno pode ter uma origem natural. Só depois de diligente e acurado exame, e de descartadas todas as possibilidades de explicação natural, é que a Igreja autoriza a proceder aos exorcismos solenes sobre os possessos. Para garantir tal rigor de procedimento, a Igreja estabeleceu que esses exorcismos só podem ser praticados por sacerdotes devidamente autorizados pelo Ordinário do lugar para cada caso concreto; bispo não pode dar essa autorização senão a um padre de conhecida ciência, prudência, piedade e integridade de vida. (Cf. Código de Direita Canônico, cânon 1172 § § 1 e 2.)



Dom Louis de Cooman, antigo Vigário Apostólico no Vietnã ( ele próprio exorcista em um caso famoso de possessão coletiva, que será relatado adiante), dá o único critério que considera seguro para se determinar se há ou não possessão: “Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais clássicos indicados pela Igreja no Ritual Romano” (Mgr Louis de COOMAN, Le Diable au Couvent, p. 12.)



O Ritual Romano (que data do século XVI) estabeleceu, para orientar exorcistas, os seguintes indícios por parte do suposto possesso:


1. Falar ou compreender fluentemente, línguas estrangeiras (principalmente: hebraico, aramaico e grego) sem tê-las antes aprendido, ou até mesmo ouvido.
2. Revelar coisas secretas ou distantes.
3. Manifestar força física acima de sua idade e condição.
4. E outras manifestações do mesmo gênero, que quanto mais numerosas forem, mais constituem indícios. (Rituale Romanum, Tit. XI, Cap. 1, n. 3.)



Se certas manifestações (como, por exemplo, demonstrar uma força extraordinária, dar uivos animalescos, gritar blasfêmias ou palavrões) podem ser causadas por uma doença, a revelação de pensamentos ocultos ou o conhecimento de coisas que se passam à distância já não podem ter a mesma explicação.Hoje em dia muitas pessoas (infelizmente até sacerdotes) pretendem negar, senão doutrinariamente, ao menos na prática, toda possibilidade de possessão ou infestação diabólica, apresentando explicações pseudo-cientificas em nome da Parapsicologia. A esse respeito observa Mons. Louis Cristiani: querer dar uma explicação natural às manifestações demoníacas pela Parapsicologia é explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda.


(Continua na parte: IV - A LUTA CONTRA O PODER DAS TREVAS)



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