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Teologia da unção: "alguém pode ser mais ungido que outro? É sinal de salvação, ou risco de condenação?"

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 28 de janeiro de 2018 | 13:40

(foto reprodução)


"Nem todo o que Me diz: 'Senhor, Senhor!' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus. Muitos Me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome? Não expulsamos demônios em Teu nome? Não realizamos muitos milagres em Teu nome?' Então Eu lhes direi claramente: 'Nunca vos conheci! Afastai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade.'" (Mt 7,21-23)



Poucos temas despertam tantas dúvidas entre os cristãos quanto a chamada "teologia da unção"


-Afinal, o que significa ser um "ungido de Deus"? 

-É correto afirmar que alguém é "mais ungido" do que outra pessoa? 

-A unção é um sinal seguro de santidade e de salvação? 

-A realização de milagres, profecias e curas comprova necessariamente que uma pessoa vive em plena comunhão com Deus? 

-Ou será que a Sagrada Escritura nos convida a compreender a unção de maneira muito mais profunda do que simplesmente a manifestação de dons extraordinários?



Essas perguntas são importantes porque, ao longo da história da Igreja, diversas expressões religiosas utilizaram o termo "ungido" em sentidos diferentes. Muitas vezes surgem mal-entendidos não porque exista má-fé, mas porque determinados grupos utilizam uma linguagem própria, perfeitamente compreendida por seus membros, mas frequentemente interpretada de maneira equivocada por quem está de fora. Isso acontece entre progressistas, tradicionalistas, pentecostais, membros da Renovação Carismática Católica (RCC) e até mesmo entre católicos que nunca tiveram contato com determinados ambientes eclesiais.



Um desses termos é justamente "ungido". Para muitos cristãos de espiritualidade pentecostal e para numerosos membros da RCC, chamar alguém de "ungido de Deus" não significa atribuir-lhe uma superioridade espiritual absoluta nem colocá-lo acima da Igreja, mas reconhecer que Deus lhe confiou uma missão específica, um ministério ou um serviço particular em favor do povo de Deus. Em outras palavras, trata-se de alguém chamado e capacitado por Deus para desempenhar determinada vocação ou missão na economia da salvação.



Essa compreensão, quando corretamente entendida, possui sólido fundamento bíblico. A própria palavra Cristo (do grego Christós) traduz o hebraico Messias (Mashiach), que significa literalmente "Ungido". Portanto, "Cristo" não constitui um sobrenome de Jesus, como ocorre com nossos nomes civis; trata-se de um título messiânico que revela Sua identidade e Sua missão salvífica. O próprio Senhor aplica essa profecia a Si mesmo quando, na sinagoga de Nazaré, proclama as palavras de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu..." (Lc 4,17-22). Assim, Jesus é o Ungido por excelência, do qual toda unção do Antigo Testamento era apenas figura e preparação.


A palavra "ungir" possui inicialmente um significado material: derramar óleo ou azeite sobre alguém. No mundo antigo, o óleo possuía inúmeras finalidades práticas. Entre os atletas e lutadores, por exemplo, era utilizado para proteger o corpo e dificultar que fossem agarrados pelos adversários durante os combates. Essa prática acabou adquirindo também um rico simbolismo religioso: o óleo passou a representar força, proteção, consagração, abundância e a ação do Espírito de Deus sobre uma pessoa escolhida para uma missão.




(unção com óleo de lutadores para o combate)



Na dimensão espiritual, portanto, a unção significa que Deus comunica graças particulares para o cumprimento de uma determinada vocação. Ela representa capacitação, proteção, fortaleza, sabedoria, coragem e perseverança para realizar aquilo que Deus confiou ao seu servo. Não é um prêmio por santidade já alcançada, mas um auxílio divino para que a missão possa ser cumprida fielmente.


Mesmo fora do contexto bíblico, diversas civilizações antigas atribuíam aos seus governantes uma espécie de escolha divina. Na mitologia e na cultura política do Oriente Próximo, era comum considerar que certos reis haviam sido escolhidos pelos deuses para governar seus povos. Personagens históricos como Sargão II, Tutancâmon, Ciro, Alexandre Magno e outros eram frequentemente apresentados como governantes investidos de uma missão concedida pela divindade. No entanto, na revelação bíblica essa eleição assume um significado completamente diferente: não nasce de uma lenda nem de um culto ao governante, mas da livre iniciativa do Deus único e verdadeiro.


Entre os israelitas, a unção possuía um significado profundamente religioso. Reis, sacerdotes e, em alguns casos, profetas eram ungidos com óleo para indicar publicamente que Deus os havia separado para um serviço específico. Saul, Davi, Salomão e os sumos sacerdotes receberam essa unção. Até mesmo Ciro, rei da Pérsia, é chamado por Deus de "meu ungido" (Is 45,1), não porque pertencesse ao povo eleito, mas porque foi instrumento da Providência para libertar Israel do exílio babilônico.


A palavra "ungido" significa também "consagrado", "separado" ou "dedicado" ao serviço de Deus. No Antigo Testamento, aquele que era ungido deixava de pertencer exclusivamente a si mesmo para assumir uma missão em benefício de todo o povo. O azeite derramado sobre sua cabeça tornava visível diante da comunidade aquilo que Deus havia realizado invisivelmente: a escolha daquele homem para um ofício determinado.


Como Israel vivia sob uma organização teocrática, na qual Deus era reconhecido como verdadeiro Rei do povo, a unção possuía enorme importância religiosa. O rei tornava-se representante da autoridade política recebida de Deus; o sacerdote exercia a mediação litúrgica entre Deus e o povo; e o profeta anunciava fielmente a Palavra divina. Cada um possuía uma missão diferente, mas todos dependiam igualmente da fidelidade ao Senhor.


Contudo, é precisamente aqui que surge uma importante advertência feita pelo próprio Cristo. Receber uma unção, exercer um ministério, realizar milagres ou manifestar dons extraordinários jamais constituiu garantia automática de santidade nem de salvação eterna. 



A passagem de Mateus 7,21-23 demonstra que alguém pode até profetizar, expulsar demônios e operar milagres em nome de Jesus, mas ainda assim perder a salvação se não permanecer fiel à vontade de Deus. A verdadeira unção nunca dispensa a conversão, a obediência, a humildade e a vida de graça. Pelo contrário: quanto maior a missão recebida, maior também será a responsabilidade diante do Senhor.





Contudo, temos que atentar para o fato de que Deus escolheu a alguns, mas a outros não!




E isso é claramente visível nos reinados que sucederam a Salomão. Ou seja, o povo pediu um rei, assim como tinham os demais povos. Deus escolheu a Saul, mas depois o rejeitou. 


Portanto Saul não permaneceu um "escolhido" e um "ungido" até o final de seu reinado, não tendo, inclusive, descendente que assumisse o trono em seu lugar. 


Por ter Deus rejeitado a Saul (e consequentemente a sua descendência), tornou Deus a escolher outro rei, Davi, e isso quando Saul ainda ocupava o trono, numa prova cabal de que a "unção" estava sendo transferida para outro.









A Davi o próprio Deus escolheu a Salomão como rei (1Cr 22, 8-10). Com a morte de Salomão o reino foi dividido em dois: Israel e Judá. E a partir daí temos uma sequência de reinados por linhagem, como acontece em qualquer outra monarquia. 


Ou seja, os "ungidos" agora eram ungidos por consequência da linhagem e descendência real, e não por terem sido "escolhidos" e "consagrados" pelo próprio Deus. 


E isso é facilmente verificado em todos os reinados de Israel e em parte dos reinados de Judá, com seus reis apóstatas e idólatras. No entanto, eram reis "ungidos".




Afinal de contas, quem são os "ungidos de Deus", segundo o Novo Testamento?


Encontramos em 1João 2, 20- 27 a seguinte informação: "E vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo. E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis"


Encontramos ainda, em 1Cor.1:21-22, o seguinte: "Mas o que nos confirma convosco em Cristo, e o que nos ungiu, é Deus, O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações". Todo batizado é um UNGIDO. E o sacramento do batismo é o único sacramento, que independe das disposições interiores de quem o recebe, pois, ele é marca e selo indelével da vontade de Deus que nos escolheu gratuitamente (João 15,16).Porém, a partir destes pressupostos, podemos concluir que existem sim, sacramentos e unções que apesar de legitimamente válidas, são nulas e ineficazes. 


Existem sacramentos legitimamente celebrados, tais como: Matrimônio, confissão, unção dos enfermos e até Confirmação, que são nulos e ineficazes (sem frutos), por faltar as legítimas  e genuínas disposições e sinceridades interiores para sua eficácia frutuosa! 


Quanto a isto o CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA esclarece:




CIC §1128: “Este o sentido da afirmação da Igreja: os sacramentos atuam ex opere operato (literalmente: "pelo próprio fato de a ação ser realizada"), isto é, em virtude da obra salvífica de Cristo, realizada uma vez por todas. Daí segue-se que "o sacramento não é realizado pela justiça do homem que o confere ou o recebe, mas pelo poder de Deus". A partir de momento em que um sacramento é celebrado em conformidade com a intenção da Igreja, o poder de Cristo e de seu Espírito agem nele e por ele, independentemente da santidade pessoal do ministro. Contudo, os frutos dos sacramentos dependem também das disposições de quem os recebe.”






Quando a pessoa era ungida com óleo, este era derramado sobre a cabeça, de onde escorria pela barba e pelo colar da veste. (Sal 133,2) Nos tempos da história bíblica, tanto os hebreus como alguns dos não-hebreus ungiam cerimonialmente os governantes. Isto constituía a confirmação de sua nomeação oficial para o cargo. (Jz 9,8, 15; 1Sa 9,16; 2Sa 19,10). 



-Samuel ungiu Saul como rei depois de Deus ter designado Saul como Sua escolha. (1Sa 10,1) 

-Davi foi ungido como rei em três ocasiões diferentes: uma vez por Samuel, depois por homens de Judá e finalmente por todas as tribos. (1Sa 16,13; 2Sa 2,4; 5,3) 

-Arão foi ungido depois de sua designação para o cargo de sumo sacerdote. (Lev 8,12). 


Depois disto, espargiu-se um pouco do óleo de unção junto com o sangue dos sacrifícios sobre as vestes de Arão e de seus filhos, mas Arão foi o único sobre cuja cabeça se derramou óleo. Lev 8,30. 


As coisas dedicadas como sagradas também eram ungidas. Jacó tomou a pedra sobre a qual descansara a cabeça quando teve um sonho inspirado, erigiu-a como coluna e ungiu-a, desta forma marcando aquele lugar como sagrado; e ele chamou o lugar de Betel, que significa “Casa de Deus”. (Gên 28,18-19) Pouco depois, Javé  reconheceu que essa pedra havia sido ungida. (Gên 31,13) 


No ermo de Sinai, às ordens de Javé, Moisés ungiu o tabernáculo e sua mobília, indicando que se tratava de coisas dedicadas, santas.  Ex 30,26-28. 






Há exemplos na bíblia também, em que uma pessoa foi considerada ungida por ter sido designada por Deus, embora não se tivesse derramado óleo sobre sua cabeça:





Este princípio foi demonstrado quando Javé mandou Elias ungir Hazael como rei da Síria, a Jeú como rei de Israel e a Eliseu como profeta em seu lugar. (1Rs 19,15-16). O registro bíblico prossegue mostrando que um dos filhos dos profetas associados com Eliseu realmente ungiu Jeú com óleo literal, para ser rei de Israel. (2Rs 9,1-6).Mas não há registro algum de que alguém tenha ungido com óleo, quer a Hazael, quer a Eliseu. 



-Moisés foi chamado de Cristo, ou Ungido, embora não tenha sido ungido com óleo, porque Moisés foi designado por Deus para ser seu profeta e representante, o líder e libertador de Israel. (He 11,24-26). 


-Outro caso pertinente é o do rei persa Ciro, que Isaías predissera que Deus usaria como Seu ungido. (Is 45,1). Ciro não foi realmente ungido com óleo por um dos representantes de Deus, mas, por ter sido designado por Javé para determinada obra, ele podia ser chamado de ungido. 




Na Lei que Deus deu a Moisés, ele prescreveu uma fórmula para o óleo de unção. Era uma composição especial dos ingredientes mais seletos : mirra, canela fragrante, cálamo fragrante, cássia e azeite de oliveira. (Êx 30,22-25) Era pecado capital preparar essa mistura e usá-la para algum propósito comum ou não autorizado. (Êx 30,31-33) Isto demonstrava figurativamente a importância e a sacralidade de uma designação para um cargo que fora confirmada pela unção com óleo sagrado. 



Cumprindo muitas profecias das Escrituras Hebraicas, Jesus de Nazaré demonstrou ser o Ungido de Deus e pôde corretamente ser chamado de Messias, ou Cristo, títulos estes que transmitem essa idéia. (Mt 1,16; He 1,8-9). Em vez de ser ungido com óleo literal, ele foi ungido com o próprio Espírito de Javé. (Mt 3,16). Foi assim que Deus o designou Rei, Profeta e Sumo Sacerdote, de modo que ele foi chamado de Ungido de Deus. (Sal 2,2; At 3,20-26; 4,26-27; Heb 5,5- 6). 


Na cidade em que foi criado, Nazaré, Jesus admitiu essa unção ao aplicar a si mesmo a profecia de Isaías 61,1, onde aparece a frase: “Javé me ungiu.” (Lu 4,18).Jesus Cristo é o único nas Escrituras que detém uma unção para os três cargos: profeta, sumo sacerdote e rei. Jesus foi ungido com “óleo de exultação mais do que a [seus] associados” (os outros reis da linhagem de Davi). Isto foi porque ele recebeu a unção diretamente do próprio Deus, não com óleo material, mas com o Espírito santo, não para um reinado terrestre, mas para um reinado celestial conjugado com o cargo de Sumo Sacerdote celestial.  Heb 1,9; Sal 45,7. 



Como no caso de Jesus, os seguidores de suas pisadas, que foram gerados pelo espírito e ungidos com espírito santo, podem ser chamados de ungidos. (2Cor 1,21) 



Assim como Arão foi diretamente ungido como cabeça do sacerdócio, mas não se derramou óleo na cabeça dos seus filhos, individualmente, da mesma forma Jesus foi ungido diretamente por Deus, e sua congregação de irmãos espirituais recebe a unção como corpo de pessoas por meio de Jesus Cristo. (At 2,1-4. 32, 33).O apóstolo João indicou que a unção pelo Espírito santo que os cristãos recebem lhes ensina. (1Jo 2,27) Ela os comissiona e qualifica para o ministério cristão do novo pacto.  2Cor 3,5-6.




Conclusão




-Deus ama aqueles que chama para uma missão e vela cuidadosamente por eles. A Sagrada Escritura testemunha esse cuidado especial para com os seus ungidos: "Não toqueis nos meus ungidos" (1Cr 16,22; Sl 105,15). O salmista proclama que o Senhor conhece e socorre o seu ungido (Sl 20,6), e Jesus assegura que Deus fará justiça aos seus eleitos que clamam a Ele dia e noite (Lc 18,7). 


-Davi compreendeu profundamente essa verdade. Embora Saul estivesse perseguindo-o injustamente, recusou-se a levantar a mão contra ele, pois reconhecia que havia sido ungido pelo Senhor e que somente Deus tinha autoridade para julgá-lo e depô-lo no tempo oportuno (1Sm 24,6; 26,9-11.23). Davi nos ensina que a vingança não pertence ao homem, mas a Deus.



Entretanto, esse ensinamento jamais pode ser utilizado para criar uma espécie de "blindagem espiritual" em torno de líderes religiosos ou autoridades eclesiásticas, como se fossem imunes à correção fraterna, ao discernimento ou ao exame de seus ensinamentos. 


A própria Escritura ordena: "Examinai tudo e ficai com o que é bom" (1Ts 5,21). São João adverte: "Não acrediteis em qualquer espírito, mas provai os espíritos para ver se vêm de Deus" (1Jo 4,1). 


E São Paulo chega a afirmar que, ainda que um anjo do céu anunciasse um evangelho diferente daquele já recebido, deveria ser rejeitado (Gl 1,8). Portanto, o verdadeiro respeito à autoridade jamais elimina o dever do discernimento, especialmente quando está em jogo a integridade da fé apostólica.




Na Igreja Católica, a autoridade não é absoluta nem arbitrária. Ela está submetida à Palavra de Deus, à Sagrada Tradição e ao Magistério autêntico da Igreja. Nenhum bispo, sacerdote, diácono, pregador, fundador de comunidade ou líder leigo possui autoridade para ensinar doutrinas contrárias ao depósito da fé. A obediência cristã nunca é uma obediência cega a pessoas, mas uma obediência inteligente e sobrenatural à verdade revelada por Cristo e guardada pela Sua Igreja.



Infelizmente, ao longo da história, alguns utilizaram a expressão "não toqueis no ungido do Senhor" para impedir qualquer questionamento de suas atitudes ou ensinamentos. 


Criou-se, em certos ambientes, a falsa ideia de que toda crítica respeitosa ou pedido de esclarecimento seria sinônimo de rebelião contra Deus. 


Quem ousa perguntar passa a ser acusado de insubmisso; quem deseja confrontar determinado ensinamento com a Escritura, a Tradição e o Magistério é frequentemente rotulado de rebelde, divisivo ou até mesmo de "caído da graça". Trata-se de uma grave distorção do sentido bíblico da unção.



Esse tipo de comportamento aproxima-se muito mais do farisaísmo denunciado por Cristo do que da autêntica autoridade cristã. Nosso Senhor censurou aqueles que substituíam os mandamentos de Deus por tradições meramente humanas (Mc 7,8-13). O verdadeiro pastor nunca teme que seus ensinamentos sejam examinados à luz da Palavra de Deus e do Magistério, pois sabe que a verdade não teme investigação. Ao contrário, somente o erro necessita de intimidação para sobreviver.



Vale recordar um exemplo frequentemente esquecido. Muitos recorrem à história de Davi e Saul para sustentar uma suposta imunidade dos "ungidos". Entretanto, quase ninguém menciona Elias diante do rei Acab. Ora, Acab também havia sido legitimamente constituído rei de Israel e, portanto, exercia uma autoridade reconhecida. Nem por isso o profeta Elias deixou de denunciar seus pecados, sua idolatria e sua cumplicidade com a perversidade de Jezabel (1Rs 18-21). O respeito ao cargo nunca impediu a denúncia do pecado. A fidelidade a Deus sempre esteve acima da conveniência humana.



O mesmo aconteceu com São João Batista diante de Herodes; com Santo Ambrósio diante do imperador Teodósio; com Santa Catarina de Sena exortando os Papas de seu tempo; com São Paulo corrigindo publicamente São Pedro em Antioquia (Gl 2,11-14), não por rejeitar sua autoridade, mas para preservar a verdade do Evangelho. Em todos esses casos, a correção nasceu do amor à verdade e jamais do espírito de rebeldia.



Vivemos, de fato, tempos em que o erro procura apresentar-se com aparência de verdade. A Escritura fala de uma grande apostasia e adverte que surgiriam falsos profetas capazes de enganar, se possível, até os próprios eleitos (Mt 24,24; 2Ts 2,3). Em muitos aspectos, nossos dias recordam os tempos de Elias, de Acab e de Jezabel: tempos de confusão doutrinária, relativismo moral, culto à personalidade e abandono da verdadeira fé. Contudo, Deus nunca abandona a Sua Igreja. Assim como disse ao profeta: "Reservei para Mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal" (1Rs 19,18), também hoje o Senhor conserva um povo fiel que permanece firme na sã doutrina.



Esses "sete mil" não são necessariamente os mais famosos, os que realizam mais milagres, os que arrastam multidões ou possuem maior influência nas redes sociais. São aqueles que permanecem fiéis a Cristo, aos Sacramentos, ao Magistério autêntico, à oração, à caridade e à vida de santidade. Porque, no fim das contas, Deus não nos perguntará quantos seguidores tivemos, quantos milagres afirmamos realizar ou quantas pessoas nos chamavam de "ungidos". A pergunta decisiva será se fizemos ou não a vontade do Pai.



A verdadeira unção manifesta-se muito mais pelos frutos da graça do que pelos dons extraordinários. Carismas podem impressionar; santidade transforma. Dons podem ser concedidos até para o benefício dos outros; a caridade, porém, é o sinal inequívoco da presença de Deus na alma. Como ensina São Paulo, ainda que alguém fale a língua dos anjos, profetize, possua toda a ciência e opere grandes prodígios, se não tiver caridade, nada será (1Cor 13).




Somos todos membros do Corpo de Cristo, judeus e gentios, ricos e pobres, ministros ordenados e leigos, cada qual exercendo os diversos dons distribuídos pelo mesmo Espírito Santo. A verdadeira grandeza não consiste em possuir uma unção mais extraordinária, mas em corresponder fielmente à graça recebida. Antes de anunciar o Evangelho, somos chamados a vivê-lo. Como ensina São Tiago, "a fé sem obras é morta" (Tg 2,17). São os frutos que autenticam a árvore, e não os títulos que ela ostenta.



Quanto ao chamado "sucesso", o critério de Deus é completamente diferente do critério do mundo. Jesus, o Bom Pastor, exerceu seu ministério público por cerca de três anos e meio. Formou apenas doze Apóstolos e um deles O traiu. Sob critérios meramente humanos, alguém poderia considerar esse resultado um fracasso. Contudo, foi justamente esse aparente fracasso que transformou definitivamente a história da humanidade. Por isso o mundo é dividido entre antes e depois de Cristo, o verdadeiro Messias, o único Ungido por excelência.








Sejamos, portanto, sóbrios, humildes e perseverantes. Conservemos a simplicidade do Evangelho, permaneçamos unidos à Igreja fundada por Cristo e guardemos o precioso depósito da fé recebido dos Apóstolos. Não nos deixemos seduzir por personalismos, modismos religiosos nem por falsas doutrinas. "O mundo passa com as suas concupiscências; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre" (1Jo 2,17). 



E jamais esqueçamos o critério definitivo ensinado pelo próprio Senhor: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16).


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+ Comentário. Deixe o seu! + 6 Comentário. Deixe o seu!

21 de maio de 2019 às 09:45

Cheguei até aqui com uma duvida e li o artigo, o qual achei muito interessante, e ele quase respondeu minha duvida. Porém gostaria de perguntar aos escritores, o seguinte: o sistema religioso atual nos ensina que se formos "ungidos" (diaconos, presbiteros, pastores, e mais algumas unções), não temos autoridade no mundo espiritual, ou seja, seriamos incapazes por exemplo de expulsar um demônio. Por exemplo, estamos visitando uma pessoa e falando do amor de Deus, e começamos a orar, derrepente a pessoa manifesta o demônio, mas ninguém ali é diácono, ou presbítero ou, qualquer outra coisa (que necessita de unção), dai é preciso chamar um "ungido" para poder expulsar o demônio. Isso é verdade?

28 de junho de 2019 às 21:01

@odiloko : Lucas 9:1 Reunindo os Doze, Jesus deu-lhes poder e autoridade para expulsar todos os demônios e curar doenças,

A autoridade vem de Deus que nos unge com o seu Espirito Santo, os discipulos não foram ungidos com oleo, mas sim com o Espirito Santo na nova aliança.

16 de outubro de 2019 às 22:56

A paz do senhor a todos , li todo o artigo mas continuei com minha dúvida rsrsrsrs , quando uma pessoa já foi ungida ao diaconato ela pode fazer alguma renovação dessa unção ? Ou ser ungida novamente ?

8 de janeiro de 2020 às 01:19

A autoridade não está em você e sim no nome de Jesus. Este nome t autoridade e a partir do momento que você o aceita e declara Ele como seu salvador e Senhor (pelo batismo), está autoridade está sobre você.

Anônimo
23 de julho de 2022 às 16:33

E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão.

Anônimo
25 de julho de 2026 às 11:04

Muito obrigado, Odilloko, por ler o artigo com atenção e por deixar um comentário tão pertinente. Sua dúvida é bastante comum e merece alguns esclarecimentos, sobretudo para evitar confusões entre unção, carismas, ministério e autoridade na Igreja.

Em primeiro lugar, a autoridade sobre Satanás não vem de um cargo eclesiástico, mas de Jesus Cristo. Foi Ele quem afirmou: "Em meu nome expulsarão os demônios" (Mc 16,17). Da mesma forma, São Lucas registra que Jesus concedeu aos discípulos autoridade sobre os espíritos malignos (Lc 10,17-20). Portanto, é Cristo quem vence o demônio, e não uma pessoa por possuir determinado título ou ministério.

Na Igreja Católica, porém, é preciso distinguir duas situações. Existe aquilo que chamamos de oração de libertação, que qualquer fiel batizado pode fazer por si mesmo ou por outra pessoa, sempre invocando o nome de Jesus, rezando com humildade e confiança. Outra realidade, bem diferente, é o exorcismo solene, que é um sacramental oficial da Igreja e só pode ser realizado por um sacerdote expressamente autorizado pelo bispo diocesano (cf. Código de Direito Canônico, cân. 1172). Essa norma existe para proteger tanto a pessoa atormentada quanto quem realiza o ministério.

Se, durante uma oração ou evangelização, alguém apresentar sinais de possível possessão, não significa que os presentes devam fugir ou se considerar impotentes. Devem permanecer serenos, rezar, invocar o Santíssimo Nome de Jesus, pedir a intercessão da Virgem Maria e dos santos, e procurar encaminhar a situação ao sacerdote responsável pela comunidade, que saberá discernir se se trata de um problema espiritual, psicológico ou se há necessidade de recorrer ao exorcista designado pelo bispo.

Portanto, não é correto afirmar que somente um diácono, presbítero ou pastor possua qualquer autoridade espiritual. Todo cristão batizado participa, de alguma forma, da missão de Cristo e pode rezar com fé. Entretanto, também não seria correto concluir que qualquer cristão possa realizar um exorcismo solene por conta própria. A Igreja, com prudência e sabedoria, faz essa distinção.

Em resumo: todo exorcista é sacerdote autorizado, mas nem todo sacerdote é exorcista; e todo cristão pode rezar e pedir a libertação de alguém, embora o rito oficial de exorcismo pertença ao ministério confiado pela Igreja a sacerdotes legitimamente designados.

Mais uma vez, agradeço sua excelente pergunta. Espero ter contribuído para esclarecer essa distinção, que é importante tanto do ponto de vista bíblico quanto da doutrina católica. Que Deus o abençoe e o conduza sempre na busca sincera da verdade.

Everaldo - Apostolado Berakash

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