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AS 10 PRINCIPAIS VIRTUDES DE MARIA SANTÍSSIMA REVELADAS DURANTE SUA VIDA TERRENA

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017 | 15:24




por*Francisco José Barros de Araújo 




Falar das virtudes de Maria Santíssima é entrar, de certo modo, no próprio coração da vida cristã. Maria não é apenas aquela que foi escolhida para ser a Mãe do Salvador; é também, por singular privilégio da graça, o exemplo mais sublime de como uma criatura humana pode corresponder livre, perfeita e plenamente à ação de Deus. 


Nela contemplamos a graça não como uma realidade abstrata, mas como uma vida efetivamente transformada pela presença, pela vontade e pelo amor de Deus.


Por virtude entendem-se aqueles hábitos bons e estáveis que aperfeiçoam as potências da alma, tornando-as prontas, firmes e inclinadas para a prática do bem. 


Na ordem natural, as virtudes permitem ao homem agir segundo a reta razão; na ordem sobrenatural, as virtudes infusas elevam suas faculdades para que possa viver e agir de acordo com a graça e alcançar seu fim último, que é o próprio Deus. Assim, a virtude não consiste simplesmente em realizar ocasionalmente uma boa ação, mas em adquirir uma disposição interior que inclina a pessoa a escolher e praticar o bem com maior prontidão, facilidade e constância.

Aqui se torna importante distinguir a graça santificante das virtudes. A graça santificante é o princípio fundamental da vida sobrenatural: ela nos torna participantes da vida divina e amigos de Deus. Entretanto, para que essa vida sobrenatural se manifeste nas ações concretas, Deus infunde também na alma as virtudes sobrenaturais, juntamente com os dons que aperfeiçoam sua docilidade à ação do Espírito Santo. Por isso, podemos dizer que a graça santificante constitui o princípio ontológico da vida sobrenatural, enquanto as virtudes infusas dispõem e aperfeiçoam as potências da alma para o exercício das ações próprias dessa vida.

Existe, portanto, uma analogia entre a ordem natural e a sobrenatural. Assim como a alma humana possui faculdades pelas quais conhece, deseja e age, a vida sobrenatural recebida de Deus também não permanece simplesmente como uma realidade passiva: ela produz em nós novas disposições para conhecer, amar e servir a Deus. A inteligência é elevada pela fé; a vontade, pela esperança e pela caridade; e as virtudes morais, infundidas pela graça, ordenam os afetos e ações segundo a reta razão iluminada pela fé.



É nesse horizonte que devemos compreender a singularidade de Maria Santíssima.Nossa Senhora não recebeu a graça como uma recompensa posterior aos seus méritos pessoais. Por especial privilégio divino e em vista dos méritos de Cristo, foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção. É o mistério da Imaculada Conceição. Aquela que seria escolhida para ser a Mãe do Verbo Encarnado foi, desde o princípio de sua existência, preservada da privação da graça original. Por isso, a tradição católica contempla Maria como a "cheia de graça", expressão que encontra sua fundamentação no anúncio do Anjo: "Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo" (Lc 1,28).

A plenitude de graça em Maria, contudo, não significa ausência de liberdade ou de crescimento espiritual. Pelo contrário: quanto mais perfeita é a graça, mais perfeita pode ser a livre correspondência da criatura à ação divina. Maria não foi um instrumento mecânico nas mãos de Deus. Sua santidade manifesta precisamente a harmonia entre a graça divina e a liberdade humana. Ela recebeu gratuitamente de Deus dons extraordinários, mas respondeu a eles mediante uma vida inteira de fé, obediência, humildade, caridade, pureza, fortaleza e perseverança.

Seu "fiat" — "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38) — não foi apenas uma resposta momentânea ao anúncio da Encarnação. Foi a expressão de uma disposição interior que atravessou toda a sua existência. Maria disse "sim" quando recebeu o anúncio do Anjo; disse "sim" quando precisou enfrentar as circunstâncias extraordinárias da gravidez; disse "sim" diante das dificuldades de Belém; disse "sim" diante da profecia de Simeão; disse "sim" na fuga para o Egito; disse "sim" na vida oculta de Nazaré; e, de maneira particularmente dolorosa, permaneceu dizendo "sim" aos pés da Cruz.Por isso, contemplar as virtudes de Maria é contemplar a própria ação da graça em uma criatura humana que correspondeu perfeitamente ao desígnio divino.


Deus, fonte de toda perfeição


Todo esse raciocínio possui um fundamento anterior: Deus é a fonte primeira de todo ser, de toda verdade, de todo bem e, consequentemente, de toda verdadeira perfeição encontrada nas criaturas.

Santo Tomás de Aquino, seguindo a tradição filosófica clássica, ensina que Deus é a causa primeira de tudo quanto existe. As criaturas possuem verdadeira causalidade, mas são causas segundas, dependentes da causalidade primeira de Deus. Somente Deus é o Ser por essência — Ipsum Esse Subsistens — enquanto todas as criaturas recebem o ser por participação.

Por isso, nenhuma criatura pode ser considerada a fonte absoluta da verdade ou do bem. Toda perfeição criada é participação limitada de uma Perfeição que existe em Deus de maneira plena e absoluta. As criaturas, em sua diversidade, refletem de maneira analógica alguma perfeição divina. Quanto mais elevada a criatura em sua ordem própria, maior é a manifestação dessas perfeições participadas.

Essa compreensão é fundamental para uma verdadeira teologia das virtudes. O homem não "inventa" o bem moral nem cria arbitrariamente a verdade. Ele pode descobrir, conhecer, desenvolver e praticar o bem, mas o fundamento último da verdade e da moralidade encontra-se em Deus, que é o Bem Supremo e o Fim Último de toda criatura racional.

Como ensina Santo Tomás, Deus é causa eficiente, exemplar e final de todas as coisas. É causa eficiente porque tudo o que existe recebe dele o ser; é causa exemplar porque toda criatura encontra na sabedoria divina o modelo segundo o qual foi criada; e é causa final porque todas as coisas tendem, segundo sua natureza, para o fim determinado por Deus.

Nesse sentido, a criação inteira possui uma ordem. As criaturas não existem de maneira absolutamente independente ou sem finalidade. Cada ser possui uma natureza, uma finalidade e uma medida própria de perfeição. A criatura racional, entretanto, possui uma dignidade singular: é capaz de conhecer a verdade, amar o bem e dirigir-se livremente para Deus.É justamente nessa ordem que se encontra a moral cristã.

A verdade moral não é uma simples construção cultural ou uma invenção subjetiva do indivíduo. Ela possui fundamento na realidade criada por Deus e encontra sua plenitude na Revelação divina. A razão humana pode conhecer princípios fundamentais da lei natural, enquanto a Revelação eleva e aperfeiçoa esse conhecimento, conduzindo o homem à verdade sobrenatural e ao seu destino eterno.



A ordem da criação e o mistério de Cristo



A criação encontra sua expressão mais elevada no mistério de Cristo. São João inicia seu Evangelho proclamando:"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito." (Jo 1,1-3)

O Verbo eterno é o Filho de Deus, por meio de quem todas as coisas foram criadas. A criação não é, portanto, uma realidade separada do mistério trinitário. O Pai cria por meio do Filho, no Espírito Santo. Toda a criação procede do Deus Uno e Trino como de seu princípio primeiro.

Santo Tomás explica que Deus produz as criaturas segundo a ideia existente em sua Sabedoria divina. O Verbo é a Sabedoria eterna do Pai, e todas as criaturas encontram nele seu exemplar supremo. Por isso, a criação pode ser compreendida como uma manifestação limitada e participada da perfeição divina.

Aqui encontramos uma chave particularmente importante para compreender Maria.Se toda criatura manifesta alguma perfeição de Deus segundo o modo que lhe é próprio, Maria, pela singularidade de sua missão e pela plenitude da graça que recebeu, ocupa um lugar absolutamente extraordinário na ordem da criação. Ela é criatura, e somente criatura; não é deusa, nem possui a natureza divina. Mas é a criatura humana que, pela graça de Cristo, foi elevada à mais alta dignidade possível para uma criatura: ser Mãe do Verbo Encarnado.


A grandeza de Maria não diminui a grandeza de Deus. Pelo contrário: quanto mais reconhecemos aquilo que Deus realizou nela, mais reconhecemos a grandeza daquele que a criou, preservou, santificou e elevou.É precisamente por isso que a devoção mariana autenticamente católica nunca termina em Maria como se ela fosse o fim último. Maria conduz a Cristo, e Cristo conduz ao Pai, no Espírito Santo. Toda verdadeira honra prestada à Mãe aponta para a grandeza do Filho.



Maria como modelo perfeito de vida virtuosa


Maria é, portanto, um modelo singular de vida virtuosa porque nela contemplamos a correspondência mais perfeita possível entre a graça recebida e a resposta livre da criatura.

A humildade de Maria aparece quando ela se reconhece como "serva do Senhor". Sua fé manifesta-se quando acredita na palavra divina mesmo sem compreender plenamente todos os seus desdobramentos. Sua obediência aparece no "faça-se" pronunciado diante do Anjo. Sua caridade manifesta-se na prontidão com que visita Isabel. Sua prudência aparece na maneira como guarda e medita os acontecimentos em seu coração. Sua pureza corresponde à sua singular consagração a Deus. Sua fortaleza manifesta-se diante das provações. Sua paciência aparece diante dos sofrimentos que não podia imediatamente compreender. Sua perseverança torna-se especialmente evidente quando permanece junto à Cruz.

Assim, quando estudamos as virtudes de Maria, não estamos simplesmente fazendo uma enumeração de qualidades morais. Estamos procurando compreender como a graça de Deus pode transformar concretamente a existência humana quando encontra uma resposta livre, fiel e amorosa.



A vida de Nossa Senhora constitui, nesse sentido, uma verdadeira escola de santidade.



Nela aprendemos que santidade não é mera ausência de pecado; é união com Deus. Não é apenas cumprir exteriormente mandamentos; é permitir que a vontade seja progressivamente conformada à vontade divina. Não é uma espiritualidade baseada em sentimentos passageiros; é fidelidade perseverante. Não é uma fuga das realidades humanas; é vivê-las na presença de Deus e ordená-las ao fim último.


Maria viveu uma existência aparentemente simples e, ao mesmo tempo, extraordinariamente profunda. Viveu no silêncio de Nazaré, no cotidiano de uma família, no trabalho, na oração, na espera, na dor e na esperança. 


Não realizou grandes feitos segundo os critérios humanos de poder e reconhecimento. Entretanto, cooperou de maneira singular com o plano da salvação e permaneceu fiel ao desígnio de Deus até o fim.



Por isso, estudar suas virtudes não é apenas olhar para o passado. É perguntar como devemos viver no presente?


-Ao contemplarmos Maria, somos convidados a perguntar: temos a humildade de reconhecer nossa dependência de Deus? 

-Temos a fé necessária para confiar quando não compreendemos? Somos obedientes à verdade revelada? 

-Sabemos perseverar nas dificuldades? Nossa caridade é concreta? 

-Nossa pureza alcança também os pensamentos e intenções do coração? 

-Temos a fortaleza necessária para permanecer fiéis quando ser fiel se torna difícil?



As virtudes de Maria não são privilégios destinados a permanecer apenas na contemplação dos santos. Embora a plenitude de graça e a Imaculada Conceição sejam dons singulares e irrepetíveis, o caminho virtuoso que contemplamos nela aponta para aquilo que todo cristão é chamado a buscar: a configuração cada vez maior a Cristo.

É por isso que a Igreja apresenta Maria como modelo e Mãe na ordem da graça. Ela não substitui Cristo, porque somente Cristo é o Salvador e Mediador por excelência; mas, por vontade do próprio Deus e em total dependência dos méritos de seu Filho, Maria participa de maneira singular da obra da salvação e conduz os fiéis à conformidade com Ele.

As dez virtudes que serão apresentadas a seguir devem, portanto, ser compreendidas dentro dessa perspectiva: não como uma simples lista de virtudes humanas, mas como expressões concretas da santidade de uma mulher que viveu inteiramente orientada para Deus.

Contemplar Maria é contemplar a graça de Deus produzindo frutos em uma criatura. É contemplar a humildade que se abre à grandeza, a fé que acolhe o mistério, a obediência que se transforma em liberdade, a caridade que se torna serviço e a fortaleza que permanece de pé mesmo diante da Cruz.

Em Maria Santíssima encontramos, assim, uma verdadeira síntese da vida virtuosa: uma criatura que nada possui de si mesma em oposição a Deus, mas que recebeu de Deus e correspondeu livremente a tudo aquilo que a tornou, depois de Cristo e por causa de Cristo, a mais perfeita obra da graça divina.

É sob essa perspectiva que passaremos a considerar as dez principais virtudes de Maria Santíssima reveladas ao longo de sua vida terrena, procurando não apenas identificá-las nas Escrituras e na Tradição da Igreja, mas compreender o que elas significam teologicamente e, sobretudo, o que podem ensinar a cada cristão que deseja caminhar rumo à santidade.





ESTRUTURA DO ORGANISMO SOBRENATURAL





O homem é um composto de corpo e alma. A pessoa humana resulta da composição substancial desses dois elementos. Embora a alma seja a forma do corpo e lhe transmita toda a sua perfeição, não é por si mesma imediatamente operativa, necessitando das potências da inteligência e da vontade para que possa obrar. 


Elas, apesar de terem na alma sua raiz, se distinguem dela, assim como se distinguem mutuamente entre si. Assim, a alma depende de todo um princípio formal, a graça santificante (elemento estável) e das potências, virtudes infusas e dons , que residem nas faculdades com o fim de elevar-las a ordem sobrenatural, proporcionando ao homem o aproveitamento máximo de sua antropologia. Através da graça santificante, se dá uma participação estável de Deus no homem, produzindo neste uma orientação para seu fim último, que é o mesmo Deus. O principal efeito da graça santificante consiste em fazer-nos partícipes da natureza divina. Lembramos aqui o exposto sobre participação. 



A graça santificante se constitui no único elemento de ordem estável e de caráter estático do organismo sobrenatural. Como elemento de ordem estável e de caráter dinâmico deve-se assinalar as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo. Estes fluem da essência da graça santificante, a fim de dar-lhes operação, uma vez que a mesma carece de princípios imediatamente operativos (Conforme Marin A. R.: “las virtudes infusas son hábitos operativos infundidos por Dios en las potencias del alma para disponerlas a obrar según el dictámen de la razón iluminada por la Fe”).


A divisão das virtudes infusas é análoga a dos hábitos naturais. Umas ordenam as potencias a seu fim , outras as dispõem com relação aos meios. O primeiro especifica as virtudes teologais, o segundo as morais. As primeiras respondem, na ordem da graça ao que são no da natureza os princípios morais, que ordenam o homem a seu fim sobrenatural; as segundas respondem as virtudes adquiridas, que lhe aperfeiçoam com relação aos meios. Os dons do Espírito Santo se constituem em perfeições infundidas por Deus na alma humana, e que são transcendentes a simples razão natural. 






São muitas as diferenças que se dão entre os dons e as virtudes infusas!





A primeira distinção se dá em relação a causa motora. Primeiramente lembramos que não se deve confundir causa motora com causa eficiente. 


A causa eficiente é a mesma, tanto para os dons como para as virtudes, ou seja, o mesmo Deus, enquanto Autor de toda a obra sobrenatural. Já a causa motora das virtudes infusas é a razão humana. 


No caso dos dons, a causa motora, é o próprio Deus, na Pessoa do Espírito Santo, atuando diretamente sobre o agente.


A imagem natural de Deus existe em todo o homem, bom ou mau, justo ou injusto. Mas, nos justos mediante a graça se dá uma imagem muito mais perfeita, que alcança o Sumo grau de perfeição para os que alcançam a visão beatífica. 






Tomás de Aquino explica que a imagem de Deus no homem pode ser considerada de três modos:





1) Primeiro, enquanto que o homem possui uma atitude natural para conhecer e amar a Deus, atitude que consiste na natureza da mente;




2) Segundo, enquanto que o homem conhece e ama atual ou habitualmente a Deus, mas de um modo imperfeito; esta é a imagem procedente da conformidade pela graça.




3) Terceiro, enquanto que o homem conhece atualmente a Deus de um modo perfeito; esta é a imagem que resulta da semelhança da glória.





Este homem criado para a glória divina vive em uma ordem moral na qual está contido o Direito, ou seja, o justo natural, aquilo que é seu, propriamente seu, pelo fato de que existe uma lei anterior que o determina, ou seja , a lei natural.






A lei de Deus conforme o Aquinate, de duas formas conduz o homem para a santidade:





1)-Internamente, através da graça santificante.




2)-E externamente, através dos preceitos divinos.





A graça se constitui em um elemento de caráter sobrenatural destinada a santificar internamente o homem. As leis direcionam o comportamento humano externo por meio de regras que lhe determinam o que pode ser feito e o que deve ser evitado. 


O Doutor Angélico ensina que a lei consiste em uma prescrição da razão em ordem ao bem comum, promulgada por aquele que tem o cuidado da comunidade (“ Lex ninhil aliud est quam quaedam rationis ordinatio ad bonum commun, ab eo quí cuam communitatis habet, promulgata”. 18 Cfme. Suma Teológica, I q. 93, art.4).


Aqui, retomamos a teoria da causalidade aristotélica já referida anteriormente no tema da criação. Ainda que a existência da lei eterna encontre oposição no mundo moderno por aqueles sistemas que prescindem da existência de Deus, o pensamento antigo sempre admitiu a existência de uma lei eterna imutável responsável por toda a admirável ordem do mundo. 


O pensamento cristão concebe e lei eterna, como consequência da divina providência. É a razão mesma de Deus. É o próprio Deus.Sem a providência divina não seria inteligível a ordem universal. Deus, autor do universo, o governa por sua providência divina, que é sua prudência governativa. Por meio de sua providência, segundo sua inteligência e vontade, Deus conduz a ordem das coisas para seus fins próprios e fim último de todo o universo. 


Tomás de Aquino define a lei eterna como “a razão da divina sabedoria divina enquanto princípio diretivo de todo o ato e todo o movimento”.A lei eterna é concebida como verdadeira lei. Se chama lei porque é um ditame da razão divina e eterna, porque em Deus nada tem fim. Ao admitirmos que a lei eterna é o mesmo Deus reconhecemos sua sobreposição sobre as demais. Esta ideia é comum entre os Santos Padres:



“Assim, pois, sendo a lei eterna a razão ou o plano de governo existente no supremo governo, todos os planos do governo existentes nos governos inferiores necessariamente hão de derivar da lei eterna E estas razões ou planos dos governantes inferiores são todas as demais leis menos a lei eterna. Por conseguinte, toda lei, na medida em que participa da razão , se deriva da lei eterna. Por isso disse Santo Agostinho em I De lib. Arb. Que nada há justo e legítimo na lei temporal que não tenham tomado os homens da lei eterna” . 




Cabe acrescentar que as leis criadas funcionam como causas segundas em dependência de Deus, sua primeira causa motiva que dá moção as demais leis, e que na verdade não são outra coisas que a mesma lei eterna. 




A lei eterna tem em si algo de absolutamente íntimo e imediato a cada lei inferior, que encontra sua razão de ser. Dessa afirmação chegamos a seguinte conclusão: a lei humana, em verdade, está muito mais intimamente ligada a lei eterna que a lei natural, ainda que aparentemente nos pareça o contrário.


O exercício das virtudes nos impulsionam a viver conforme a vontade e o plano perfeito de Deus para a humanidade, embora Deus respeite a nossa liberdade em aderir ou não. O desacordo com a lei eterna produz a desordem e o desequilíbrio porque em todas as causas ordenadas, o efeito depende mais da primeira que da causa segunda, porque a causa segunda só atua em virtude da causa primeira.




Retornando a "teoria da causalidade aristotélica" (causa não causada de todas as causas), podemos observar que a lei eterna é causa eficiente, exemplar e final de todas as demais leis. 


Se diz que é causa eficiente, uma vez que todas as leis são movidas pela lei eterna, e só assim podem regular matéria própria e também porque depende dela a autoridade que vem de Deus. Se diz que é causa exemplar uma vez que toda lei deve imitar em sua regulação sua verdade e justiça. Também dizemos afirmamos a causalidade final porque todos os fins especificados pelas leis estão ordenados ao bem comum que por essência é objeto próprio da lei eterna. 


A participação da lei eterna na criatura racional chamamos lei natural, a qual caracteriza-se por ser única, universal, imutável e indelével Da sequência lei eterna, lei natural deve surgir a lei humana. Partindo do suposto que a existência da lei humana não deixa dúvidas, nos aprece conveniente uma justificação racional das mesmas.


O homem chega a necessidade da lei humana devido a necessidade de determinar normas particulares, a partir dos primeiros princípios ditados pela lei natural. Estas leis, bem como o exercício das virtudes no entanto, devem sempre constituir-se em conclusões racionais dos princípios morais. 


Enquanto prolongamento da lei natural deverá obviamente ser justa, uma vez que a virtude da justiça é produto da razão, elemento essencial a caracterização da lei.


Assim se conclui que o Direito Natural e o Direito Positivo, a lei natural e a lei positiva não deveriam se contrapor, mas se complementarem. O reconhecimento de Deus como fonte da Justiça nos leva a concluir que o primeiro princípio que sustenta e da qual depende todo o Direito consiste em “Amar a Deus sobre todas as coisas”. 



A sentença se justifica porque




1 – Deus é o Criador de tudo quanto é e existe;

2 – Deus é o Governador Universal;

3 – Existe uma dependência absoluta e ontológica de todo o ser criado ao Ser Divino;

4 – Deus está no mais íntimo de toda a criatura;

5 – Deus se constitui no Bem por excelência, para o qual o homem tende e deseja ainda que inconscientemente.





A hierarquia natural da caridade por justiça, põe em primeiro lugar o Amor a Deus, do qual depende a manutenção da vida em todos os seus aspectos. O amor ao próximo está condicionado e subordinado ao amor a Deus, e não o contrário, que se constitui em uma inversão da ordem. E isto porque, se por um lado Deus é infinitamente mais perfeito; por outro, a relação entre a criatura e o Criador é infinitamente mais íntima e necessária que qualquer relação entre criaturas. O homem desperto pelo amor divino procura exercitar todas as virtudes a fim de colocar-se ao serviço de Deus por amor a Ele e para o bem comum dos outros. O amor divino estimula a prática de toda s as demais virtudes. Pelo amor divino o homem pode compreender e empreender coisas grandes. E por compreender o sentido o sentido das coisas, o homem pode praticar a justiça e com isso, obter a paz e o gozo espiritual. 


ATENÇÃO! O homem que põe em primeiro plano o amor ao próximo comete a primeira grande injustiça, que abre espaço para todas as demais. Se a consideração a Deus não for absoluta, toda a lei divino-positiva passaria a ser relativa. Daí surgem os adultérios, as calúnias, os abortos, libertinagem, homicídios, etc. 


-O melhor exemplo se encontra no divórcio. Se o homem não vê no matrimônio uma consideração sobrenatural, muito facilmente passa a defender o divórcio. 


Portanto, o entendimento e devido cumprimento da lei de Deus é imprescindível para o bom ordenamento de tudo. No entanto, isso não significa que Deus seja implacável. O paradoxo está em que Deus perdoa os erros e os homens que não o temem. Porém, é muito profunda a diferença entre perdão e aprovação. 




Vejamos agora, sucintamente, como agiram na belíssima alma de Maria, esses hábitos operantes sobrenaturais infusos: virtudes e dons, com seus perfeitos atos correspondentes, os frutos e as bem-aventuranças. 



Maria Santíssima praticou de maneira admirável todas as virtudes convenientes à sua condição humana. Convenientes, disse, porque é claro que nem todas as virtudes são praticáveis por todos. Com efeito, a virtude, que em si mesma significa perfeição, porque é o hábito de operar o bem, nem sempre supõe perfeita a pessoa que a possui. 


Assim, há virtudes que tendem a liberar o homem do pecado ou das conseqüências deste, virtudes que somente podem aflorar numa consciência antes maculada pela iniqüidade. Claro está que tais virtudes não se poderiam encontrar nem em Jesus nem em Maria. 


Por exemplo, não diremos que Ela tenha praticado a penitência, pois sempre foi inocente, nem as outras virtudes pelas quais o homem domina suas paixões, porque essas lutas interiores nunca perturbaram a serena e tranqüila liberdade de espírito da Mãe de Deus. 


Exceção feita dessas virtudes, a Virgem Santíssima praticou todas as demais, de maneira extraordinária. Infelizmente, pouco conhecemos da vida de Maria para podermos nos deliciar na contemplação detalhada de todos os atos virtuosos por Ela praticados.




Todavia, as breves notícias que temos a respeito nos Evangelhos, podem nos dar pelo menos uma idéia das exímias e visíveis virtudes em maria santíssima!    


*Atenção! Virtude é diferente de graça: A Graça é dada, porém, a virtude é exercitada!









1)- Profunda humildade: Maria sabia reconhecer-se como humilde serva, sentia-se nada diante do Senhor, sem vaidade nenhuma oferecia ao Senhor os louvores que recebia e não havia nada em seu coração que centrasse nela própria. Ela era simples, todos seus atos eram feitos no silêncio e no escondimento. A humildade de Maria é a principal virtude que esmaga a cabeça do demônio. 


Nossa Senhora nunca se esqueceu que tudo nela era dom de Deus (Tiago 4,6;João 3,27; I Cor 4,7).Ela se alegrava em servir ao próximo e se colocava sempre em último lugar.


Imitando essa virtude: Devemos buscar a humildade, pensando sempre que se temos qualidades e potenciais tudo devemos a Deus, tudo isso é dom de Deus. Compreendamos que o homem sem Deus não é nada e nada possui. 

Nunca se deixar levar pelo orgulho, pela vaidade e soberba. Ser modestos, comedidos, sem vaidade, sempre dispostos a servir aos outros, ter simplicidade na maneira de se apresentar e quando receber um elogio dar os créditos a Deus. A humildade se opõe a soberba. 


“Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva.” (Lc. 1,48) 


“Derrubou os poderosos de seus tronos E exaltou os humildes.” (Lc. 1,52).






2)- Paciência: Nossa Senhora passou por muitos momentos estressantes de provação, de incômodo e de dor, durante toda sua vida, mas suportou tudo com paciência. 


-Sua tolerância era admirável! Nunca se revoltou contra os acontecimentos, nem mesmo quando viu o próprio filho na Cruz! 


-Sabia que tudo era vontade de Deus e meditava tudo isso em seu coração. 


Maria, nossa mãe, teve sempre paciência, sabendo aguardar em paz aquilo, que ainda não se tenha obtido, acreditando que iria conseguir, pela espera em Deus. 


Imitando essa virtude: Ter paciência é não perder a calma, manter a serenidade e o controlo emocional. Além disso é saber suportar, como Maria, os desabores e contrariedades do dia a dia, saber suportar com paciências nossas próprias cruzes. 


Devemos saber ouvir as pessoas com calma e atenção, sem pressa, exercitando assim a virtude da caridade. Fazer um esforço para nos calarmos frente aquelas situações mais irritantes e estressantes. Quando houver um momento de impaciência pode-se rezar uma oração, como por exemplo, um Pai-nosso, buscando se acalmar para depois tentar resolver o conflito. 


Devemos nos propor, firmemente não nos queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no autocarro lotado, do tempo que levamos sem comer nada… 


Temos que renunciar, frases típicas, que são ditas pelos impacientes: “Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você…!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, “Estou farto disso!”. 


Fugir da ira, se calando ou rezando nesses momentos. A paciência se opõe à ira! 


“Não só isso, mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança.”(Rom. 5,3-4) 


“Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, esta­rá sujeito ao inferno de fogo.”(Mat 5,22).






3)- Oração contínua: Nossa Senhora era silenciosa, estava sempre num espírito perfeito de oração. Tinha a vida mergulhada em Deus, tudo fazia em Sua presença. Mulher de oração e contemplação, sempre centrada em Deus. 


Diante dos grandes desafios e incompreensões que sofia, buscava a solidão e o retiro, pois é na solidão que Deus fala aos corações. “Eu a levarei à solidão e falarei a seu coração (Os 2, 14)” 


Em sua vida a oração era contínua e perseverante, meditando a Palavra de Deus em seu coração, louvando a Deus no Magnificat, pedindo em Caná, oferecendo as dores tremendas que sentiu na crucificação de Jesus, etc. 


Imitando essa virtude: Buscar uma vida interior na presença de Deus, um “espírito” contínuo de oração. Não se limitar somente as orações ao levar, ao se deitar e nas refeições, estender a oração para a vida, no trabalho, nos caminhos, em fim, em todas as situações, buscando a vontade de Deus em sua vidas. 


“Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. (Cl 3,17). 


“Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a acção de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.”(Fil 6,6-7).





4)- Obediência: Maria disse seu “sim” a Deus e ao projeto da salvação, livremente, por obediência a vontade suprema de Deus. 


Um “sim” amoroso, numa obediência perfeita, sem negar nada, sem reservas, sem impor condições (Maria Santíssima poderia ter pedido ao anjo para interceder por ela para que deixasse a gravidez para depois do casamento com São José).


Durante toda a vida Nossa Mãezinha foi sempre fiel ao amor de Deus e em tudo o obedeceu. Ela também respeitava e obedecia as autoridades, pois sabia que toda a autoridade vem de Deus. 


Imitando essa virtude: O Catecismo da Igreja Católica indica que a obediência é a livre submissão à palavra escutada, cuja verdade está garantida por Deus, que é a Verdade em si mesma. Esforcemo-nos para obedecer a requisitos ou a proibições. 


A subordinação da vontade a uma autoridade, o acatamento de uma instrução, o cumprimento de um pedido ou a abstenção de algo que é proibido, nos faz crescer. 


Rezar pelos superiores. Obedecer sempre a Deus em primeiro lugar e depois aos superiores. Obedecer a Deus é obedecer seus Mandamentos, ser dócil a Sua vontade. Também é ouvir a palavra e a colocar em prática. 


“Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Luc 1, 38).






5)- Suprema "Caridade Maternal": Nossa Mãe cheia de graça ama toda a humanidade com a totalidade do seu coração. 


Cheia de amor, puro e incondicional de mãe, nos ama com todo o seu coração imaculado, com toda energia de sua alma. Nada recusa, nada reclama, em tudo é a humilde serva do Pai. Viveu o amor a Deus, cumprindo perfeitamente o primeiro mandamento. Fez sempre a Vontade Divina e por amor a Deus aceitou também amar incondicionalmente os filhos que recebeu na cruz. 


Era cheia da virtude da caridade, amou sempre seu próximo, como quando visitou Isabel, sua prima, para a ajudar, ou nas bodas de Caná, preocupada porque não tinham mais vinho.


Imitando essa virtude: Todos os homens são chamados a crescer no amor até à perfeição e inteira doação de si mesmo, conforme o plano de Deus para sua vida. Devemos buscar o verdadeiro amor em Deus, o amor ágape, que nos une a todos como irmãos. Praticar o amor ao próximo, a bondade, benevolência e compaixão. O amor é doação, assim como Maria doou sua vida e como Jesus se doou no cruz para nos salvar, também devemos nos doar ao próximo, por essa razão o amor é a essência do cristianismo e a marca de todo católico. 


“Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor – estes três. Porém, o maior deles é o amor.” (I Cor. 13,13).






6)- Virtude da Mortificação: Maria, mulher forte que assume a dor e o sofrimento unida a Jesus e ao seu plano de salvação. Sabe sofrer por amor, sabe amar sofrendo e oferecendo dores e sacrifícios. 


Sabe unir-se ao plano redentor, oferecendo a Vítima e oferecendo-se com Ela. Maria empreendeu, e abraçou uma vida cheia de enormes sofrimentos, e os suportou, não só com paciência, mas com alegria sobrenatural. Nada de revolta, nada de queixas, nada de repreensões ou mau humor. 


Pelo contrário, dedicou-se à meditação para buscar entender o motivo que leva um Deus perfeito a permitir aqueles acontecimentos. Pela meditação, pela submissão, pela humildade, Ela encontrou a verdade. 


Imitando essa virtude: Muitas vezes Deus nos envia provações que não compreendemos, portanto devemos seguir o exemplo de Nossa Senhora e meditar os motivos que levam um Deus perfeito a permitir essas provações, aceitá-las e saber oferecer todas as nossas dores a Jesus em expiação dos nossos pecados, pelos pecados de todos e pelas almas, unindo nossos sofrimentos aos sofrimentos de Jesus na Cruz. 


Não devemos oferecer somente os grandes sofrimentos, devemos oferecer também o jejum, fugir do excesso de conforto e prazeres e, na medida do possível, oferecer alguns sacrifícios a Deus, seja no comer (renunciar de algum alimento que se tenha preferência ou simplesmente esperar alguns instantes para beber água quando se tem sede), nas diversões (televisão principalmente), nos desconfortos que a vida oferece (calor, trabalho, etc.), sabendo suportar os outros, tendo paciência em tudo. 


É indispensável sorrir quando se está cansado, terminar uma tarefa no horário previsto, ter presente na cabeça problemas ou necessidades daquelas pessoas que nos são caras e não só os próprios. Oferecer os sofrimentos, desconfortos da vida, jejuns e sacrifícios a Deus pela salvação das almas. 


“Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta.” (Lamentações 1,12).






7)- Virtude da Doçura: Entre as virtudes que podemos contemplar em Maria Santíssima encontra-se também a doçura, uma disposição interior que une mansidão, bondade, serenidade, misericórdia e delicadeza no trato com Deus e com o próximo. 

A doçura cristã não deve ser confundida com fraqueza, passividade ou falta de firmeza. Ao contrário, trata-se de uma força interior que permanece serena mesmo diante das adversidades, porque está fundada na confiança em Deus.

Nossa Senhora, a Cheia de Graça (Lc 1,28), manifesta essa doçura de maneira particularmente bela. Sua grandeza não se expressa pela violência, pela imposição ou pela agressividade, mas pela humildade da Serva do Senhor: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Aquela que foi escolhida para ser Mãe de Deus não se apresenta como alguém que busca dominar, mas como aquela que se entrega inteiramente à vontade divina.

A própria Escritura nos permite contemplar essa delicadeza no episódio da Visitação. Ao saber que Isabel estava grávida, Maria “partiu apressadamente” para servi-la (Lc 1,39). Sua primeira atitude depois da Anunciação não foi voltar-se para si mesma, mas colocar-se a caminho para levar auxílio à sua prima. Sua presença é tão portadora da graça que, ao ouvir a saudação de Maria, João Batista estremece de alegria no ventre de Isabel, e esta, cheia do Espírito Santo, proclama a bem-aventurança daquela que acreditou (Lc 1,41-45).

Também nas Bodas de Caná encontramos uma manifestação admirável da delicadeza de Maria. Ela percebe uma necessidade antes mesmo de que os demais a apresentem publicamente: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Maria não acusa, não constrange os responsáveis pela festa e não dramatiza a situação. Simplesmente apresenta a necessidade ao seu Filho e, depois, dirige aos servidores uma das mais belas expressões de sua missão maternal: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Sua doçura não afasta de Cristo; ao contrário, conduz a Ele.

A doçura de Maria encontra, portanto, sua fonte em Deus. Ela não é sentimentalismo, ingenuidade ou incapacidade de enfrentar o mal. É uma força serena, uma coragem sem violência, uma firmeza sem dureza e uma caridade sem agressividade. A verdadeira doçura pode conviver com a dor, com a correção, com a firmeza e até com o sofrimento profundo. Maria permaneceu junto à Cruz (Jo 19,25), e ali vemos que sua mansidão não significava ausência de sofrimento, mas fidelidade no meio do sofrimento.

É importante compreender também que a doçura cristã não significa tolerar o erro ou permanecer indiferente diante do mal. O próprio Cristo é manso e, ao mesmo tempo, firme diante do pecado. A mansidão não elimina a verdade; ela determina como a verdade deve ser defendida: sem ódio, sem crueldade, sem desejo de vingança e sem transformar a correção do erro em violência contra a pessoa.

São Paulo apresenta precisamente essa perspectiva quando exorta os cristãos:“Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência.” (Cl 3,12)

A doçura, portanto, nasce de um coração revestido de misericórdia. É a capacidade de tratar o outro com dignidade mesmo quando é necessário corrigir, discordar ou advertir. É responder à agressividade sem reproduzi-la; enfrentar a injustiça sem tornar-se injusto; defender a verdade sem abandonar a caridade.

Outra passagem bíblica ilumina ainda mais essa virtude:“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.”(Mt 11,29)

Aqui encontramos o fundamento último da doçura mariana: Maria é doce porque é profundamente configurada ao seu Filho. Toda virtude autenticamente cristã encontra em Cristo sua fonte e seu modelo. Maria, a primeira e mais perfeita discípula, conduz-nos justamente para essa escola de mansidão e humildade.

A terceira passagem bíblica nos recorda que a verdadeira mansidão possui também uma dimensão missionária: “A vossa mansidão seja conhecida de todos os homens. O Senhor está próximo.” (Fl 4,5)

Não se trata, portanto, de uma virtude meramente privada. A mansidão deve tornar-se perceptível no modo como o cristão fala, responde, corrige, ensina, evangeliza e convive. Uma pessoa verdadeiramente transformada pela graça não precisa recorrer permanentemente à agressividade para defender aquilo em que acredita. Sua firmeza pode ser acompanhada pela serenidade; sua convicção, pela caridade; sua defesa da verdade, pela mansidão.



Imitando Maria na virtude da doçura:Imitar Maria na doçura significa aprender a possuir uma coragem sem violência, uma força sem dureza, uma firmeza sem arrogância e um amor sem cólera desordenada. Significa compreender que nem toda batalha precisa ser travada com agressividade e que a defesa da verdade perde parte de sua fecundidade quando é realizada sem caridade.Maria nos ensina a falar sem ferir desnecessariamente, corrigir sem humilhar, discordar sem odiar, sofrer sem desesperar e servir sem buscar reconhecimento.

Sua doçura é a serenidade de quem confia em Deus.Por isso, diante das dificuldades, das perseguições, das incompreensões e até das forças do mal, o cristão não deve viver dominado pelo medo. Nossa confiança não está em nossas próprias forças, nem em Maria como se ela fosse a fonte da salvação, mas em Deus, por Cristo, a quem Maria sempre conduz. A tradição da Igreja reconhece a poderosa intercessão da Mãe de Deus e sua especial união com a obra de seu Filho, mas toda vitória sobre o pecado e o demônio pertence, em primeiro lugar, a Cristo, único Salvador e Senhor.

Assim, a doçura de Maria não é fragilidade: é força espiritual submetida à caridade. É a paz daquele que sabe que Deus permanece Senhor da história. É a serenidade de quem, mesmo diante da Cruz, permanece de pé. É a ternura de uma Mãe que aponta para Cristo e nos ensina a fazer aquilo que Ele disser.

Nossa Senhora da Doçura, ensinai-nos a ser firmes sem sermos violentos, verdadeiros sem sermos agressivos, corajosos sem perdermos a mansidão e caridosos sem jamais abandonarmos a verdade. Amém.






8)- Fé viva: Feliz porque acreditou, aderiu com seu “sim” incondicional aos planos de Deus, sem ver, sem entender, sem perceber. Nossa Senhora gerou para o mundo a salvação porque acreditou nas palavras do anjo, sua fé salvou Adão e toda a sua descendéncia. Por causa desta fé, proclamou-a Isabel bem-aventurada: 


“E bem-aventurada tu, que creste, porque se cumprirão as coisas que da parte do Senhor te foram ditas” (Lc 1,45). 

A inabalável fé de Nossa Senhora sofreu imensas provas: – A prova do invisível: Viu Jesus no estábulo de Belém e acreditou que era o Filho de Deus; – A prova do incompreensível: Viu-O nascer no tempo e acreditou que Ele é eterno; – A prova das aparências contrárias: Viu-O finalmente maltratado e crucificado e creu que Ele realmente tinha todo poder. Senhora da fé, viveu intensamente sua adesão aos planos de Deus com humildade e obediência. 


Imitando essa virtude: A fé é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, uma virtude, devemos pedir a Jesus como fizeram os apóstolos para aumentar a nossa fé. Porém ter fé não é o bastante, é preciso ser coerente e viver de acordo com o que se crê. 

“Porque assim como sem o espírito o corpo está morto, morta é a fé, sem as obras” Tg (2,26). 

Ter fé é acreditar que se recebe uma graça muito antes de a possuir e é, acima de tudo, ter uma confiança inabalável em Deus! 

“Disse o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá.” (Luc 17,6).





9)- Pureza e Castidade Divina: Senhora da castidade, sempre virgem, mãe puríssima, sem apego algum as coisas do mundo, Deus era o primeiro em seu coração, sempre teve o corpo, a alma, os sentidos, o coração, centrados no Senhor. O esplendor da Virgindade da Mãe de Deus, fez dela a criatura mais radiosa que se possa imaginar. O dogma de fé na Virgindade Perpétua na alma e no corpo de Maria Santíssima, envolve a concepção Virginal de Jesus por obra do Espírito Santo, assim como sua maternidade virginal. Para resgatar o mundo, Cristo tomou o corpo isento do pecado original, portanto imaculado, de Maria de Nazaré. 


Imitando essa virtude: Esta preciosa virtude leva o homem até o céu, pela semelhança que ela dá com os anjos, e com o próprio Jesus Cristo. Nossa Senhora disse, na aparição de Fátima, que os pecados que mais mandam almas para o inferno, são os pecados contra a pureza. Não que estes sejam os mais graves, e sim os mais frequentes. 


Praticar a virtude da castidade, buscando a pureza nos pensamentos, palavras e ações! Os olhos são os espelhos da alma. 


Quem usa seus olhos para explorar o corpo do outro com malícia perde a pureza. Portanto, coloque seus olhos em contemplação, por exemplo na Adoração, e receba a luz que santifica. 


Quem luta pela castidade deve buscá-la por três meios: o jejum, a fugida das ocasiões de pecado e a oração. Como dizia Pe Pio: "Só os covardes vencem os pecados e as tentações"  


“Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade” (I Cor.5,8).






10)- Sabedoria divina: Desde a criação do mundo até a plenitude dos tempos, só a Virgem de Nazaré encontrou graça diante de Deus, para si e para todo gênero humano, a ponto de ser considerada digna de trazer ao mundo Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada. Ainda hoje, só a Mãe de Deus tem o poder, por virtude do Espírito Santo, de “encarnar” a Sabedoria nos predestinados. Pela sublimidade de suas virtudes, [Maria] mereceu esse bem infinito, de “tornar-se Mãe, Senhora e Trono da divina Sabedoria” (SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Amor da Sabedoria Eterna, 203)e continua a sua missão materna até a consumação eterna de todos os eleitos (Constituição Dogmática Lumen Gentium, 62). 


A Virgem Maria é Mãe da Sabedoria porque a encarnou e a colocou no mundo como fruto de suas entranhas. “Onde quer que esteja Jesus – no Céu ou na Terra, nos tabernáculos ou nos corações – poder-se-á sempre afirmar com verdade que Ele é fruto e obra de Maria, que só Maria é a Árvore da vida e que Jesus é o seu único Fruto". Por isso, se quisermos trazer esse Fruto maravilhoso em nosso coração, devemos trazer em nós a Árvore que O produziu; se queremos possuir Jesus, devemos possuir Maria. 


“se queremos […] ser cristãos, devemos também ser marianos, isto é, devemos reconhecer [a sua maternidade divina] a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele”


A Santíssima Virgem é senhora da Sabedoria, não porque ela esteja acima da Sabedoria divina ou que Lhe seja igual – pensar ou afirmar uma ou outra como verdade de fé seria blasfêmia.



“mas porque Deus Filho, a Sabedoria eterna, submeteu-se perfeitamente a Maria, como sua Mãe; deu-lhe sobre si mesmo um incompreensível poder materno e natural, não apenas durante a vida terrena, mas também no Céu, já que a glória não só não destrói a natureza, mas até a aperfeiçoa. Isso faz com que, no Céu, Jesus seja, mais do que nunca, filho de Maria, e Maria, mais do que nunca, Mãe de Jesus”


O Senhor Jesus é submisso a Nossa Senhora porque, dessa forma, lhe agrada. Por suas poderosas preces e graças ao dom da maternidade divina, a Virgem Maria “obtém de Jesus tudo o que deseja, comunica-o a quem quer e O gera, cada dia, nas almas que ela quer” (Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 27, 29, 164-165). 


Jesus Cristo veio ao mundo por meio de Maria e é por meio dela que podemos obter a Sabedoria divina. No entanto, para receber dom tão grandioso como a Sabedoria, quem somos nós para oferecer-Lhe uma casa, ainda que esta seja o nosso coração? Não podemos receber a Sabedoria num coração manchado, impuro, carnal, cheio de paixões e, por isso, indigno de Deus. Mas, foi o próprio Jesus quem construiu para si uma casa, conforme nos revelou o Senhor pelo profeta Natã: 


“É ele que me construirá uma casa e firmarei seu trono para sempre” (1 Cr 17, 12). 


Para tornar nosso coração digno da Majestade divina, “eis aqui o grande conselho, o segredo admirável: façamos entrar Maria em nossa casa (Cf. Jo 19, 27: 


“E desde aquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa”), consagrando-nos a Jesus por meio dela, sem qualquer reserva, na qualidade de seus servos e escravos!”.Devemos nos desapegar de tudo, nada reservando para nós, para que a Mãe de Jesus se entregue inteiramente a nós, de maneira incompreensível, mas autêntica. Desse modo, “a Sabedoria eterna virá morar nela como em seu trono real mais glorioso” (Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 68-77).


Imitando esta virtude: Portanto, se conseguirmos acolher a Virgem Maria em nosso coração, no mais íntimo de nosso interior, facilmente e em pouco tempo, por seu intermédio, alcançaremos a divina Sabedoria. Já dizia SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT:


“Dentre todos os meios para alcançar Jesus Cristo, Maria é o mais seguro, o mais fácil, o mais curto[o mais perfeito]e o mais santo”


Ainda que fizéssemos as mais duras penitências, os trabalhos mais fatigantes, ou até chegássemos a derramar nosso próprio sangue, sem a devoção e a intercessão da Mãe de Deus, estes esforços seriam inúteis e incapazes de nos obter a Sabedoria. 



“Porém, se Maria disser uma simples palavra em nosso favor, se em nós reinar o seu amor, se estivermos marcados com o sinal de seus fiéis servos, que andam pelos seus caminhos, alcançamos logo e sem fadiga a divina Sabedoria”. 


Por todas essas razões, nos consagremos inteiramente a Santíssima Virgem Maria, para alcançar Jesus Cristo, a Sabedoria eterna, e O acolher mais dignamente em nossos corações. Nossa Senhora, Mãe de Deus e Mãe da Sabedoria, rogai por nós!






CONCLUSÃO




Depois de percorrermos os fundamentos da virtude, da graça, da lei natural, da ordem moral e da finalidade última do homem, podemos compreender com maior profundidade por que Maria Santíssima ocupa um lugar tão singular na vida cristã. 


As virtudes que nela contemplamos não são simples qualidades humanas isoladas, nem manifestações de uma perfeição construída segundo critérios subjetivos. Elas são frutos da graça divina acolhida e correspondida por uma criatura que, desde o primeiro instante de sua existência, foi preservada do pecado original e destinada a uma missão única na história da salvação: ser a Mãe do Verbo Encarnado.



Santo Tomás de Aquino ensina que a lei é uma ordenação da razão para o bem comum, promulgada por aquele que tem o cuidado da comunidade. Toda verdadeira ordem moral, portanto, possui uma finalidade: conduzir a criatura ao bem. Entretanto, quando consideramos a vida sobrenatural, percebemos que o homem não alcança seu destino último somente pelas forças da razão natural. A graça eleva a natureza, aperfeiçoa suas faculdades e torna possível uma participação real na vida divina. Por isso, a santidade não é simplesmente o resultado de uma vida moralmente correta; é a vida humana transformada e elevada pela graça de Deus.









É exatamente isso que contemplamos em Maria.Nela, a graça não permaneceu como uma realidade abstrata, mas tornou-se vida, resposta, obediência, serviço, silêncio, sofrimento, perseverança e amor. As virtudes de Maria revelam concretamente aquilo que a teologia ensina em nível especulativo: Deus é o princípio de toda perfeição, e a criatura alcança sua verdadeira realização quando ordena livremente sua inteligência, sua vontade e toda a sua existência ao seu Criador e Senhor.

Maria Santíssima é, portanto, uma expressão privilegiada da ordem querida por Deus. Sua humildade não é mera inferioridade psicológica; é o reconhecimento da verdade sobre Deus e sobre si mesma. Sua fé não é credulidade; é adesão racional e sobrenatural à Palavra divina. Sua obediência não é servilismo; é a livre submissão de sua vontade à vontade daquele que é o Sumo Bem. Sua caridade não é simples sentimento; é participação no próprio amor de Deus. Sua fortaleza não é ausência de sofrimento; é a capacidade de permanecer fiel no sofrimento. Sua pureza não é apenas ausência de pecado; é inteira orientação do coração para Deus.


Por isso, contemplar as virtudes de Nossa Senhora é contemplar a harmonia entre natureza, graça, liberdade e verdade.



A lei natural, enquanto participação da lei eterna na criatura racional, permite ao homem reconhecer os primeiros princípios do bem e ordenar sua vida segundo a razão. A graça, porém, não destrói essa natureza nem a substitui: eleva-a e aperfeiçoa-a. Em Maria vemos essa elevação realizada de modo singular. Sua vida demonstra que a verdadeira liberdade não consiste em afastar-se da verdade ou em fazer simplesmente aquilo que se deseja, mas em possuir a capacidade de escolher e realizar o bem com plena conformidade à vontade de Deus.

Nesse sentido, Maria é também uma resposta à crise contemporânea da verdade moral. Em uma época na qual frequentemente se pretende separar liberdade de verdade, direitos de deveres, natureza de finalidade e moralidade de transcendência, Nossa Senhora permanece como testemunho de que o homem não se realiza contra a ordem criada por Deus, mas precisamente quando vive de acordo com ela.

O afastamento de Deus não amplia verdadeiramente a liberdade humana; ao contrário, obscurece a inteligência e desordena a vontade. Quando a criatura deixa de reconhecer seu Criador como princípio e fim último, corre o risco de transformar seus próprios desejos em medida absoluta do bem e do mal. A tradição filosófica e teológica cristã, especialmente em Santo Tomás de Aquino, recorda-nos que a criatura somente encontra sua plena realização quando permanece ordenada ao seu fim.



Maria manifesta isso de maneira perfeita.Ela nunca colocou a si mesma no centro. Toda a sua existência está orientada para Deus e, inseparavelmente, para Cristo. Seu Magnificat resume essa atitude: “Minha alma engrandece o Senhor” (Lc 1,46). Maria não atribui a si mesma a origem de sua grandeza; reconhece que “o Todo-Poderoso fez grandes coisas” nela (Lc 1,49). A grandeza de Maria, portanto, é a grandeza da graça de Deus manifestada em uma criatura que respondeu plenamente ao seu chamado.



Aqui se encontra também a verdadeira chave da devoção mariana. Honrar Maria não significa colocá-la no lugar de Deus, mas reconhecer aquilo que Deus realizou nela. Toda verdadeira devoção mariana é essencialmente cristocêntrica: Maria aponta para Cristo, conduz a Cristo e deseja que Cristo seja conhecido, amado e obedecido. Nas bodas de Caná, sua orientação continua sendo o programa de toda verdadeira espiritualidade mariana: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Assim, as virtudes de Maria não devem ser contempladas apenas como objeto de admiração, mas como caminho de imitação. Não podemos reproduzir os privilégios singulares que Deus lhe concedeu, como a Imaculada Conceição ou a maternidade divina, mas podemos — pela graça de Deus — procurar imitar sua fé, sua humildade, sua caridade, sua obediência, sua pureza, sua prudência, sua fortaleza, sua paciência, sua perseverança e sua confiança absoluta na Providência.



É justamente aqui que o estudo das dez principais virtudes de Maria Santíssima reveladas durante sua vida terrena alcança seu verdadeiro propósito.Não se trata simplesmente de conhecer melhor Nossa Senhora, mas de permitir que, através dela, conheçamos melhor aquilo que Deus deseja realizar em nós. Maria é modelo porque sua vida revela o que acontece quando uma criatura se deixa conduzir inteiramente pela graça. Ela nos mostra que a santidade é possível, que a fidelidade é possível, que a pureza é possível, que a perseverança é possível e que a vontade humana, quando iluminada pela verdade e fortalecida pela graça, pode responder generosamente ao chamado de Deus.

O ponto de partida é Deus, porque Deus é a fonte de todo ser, toda verdade e todo bem. O caminho é a graça, porque sem Cristo nada podemos fazer de modo sobrenaturalmente meritório. A resposta é a virtude, porque a graça recebida deve transformar concretamente a existência. E o modelo, depois de Cristo e em total dependência dele, é Maria Santíssima, a criatura que correspondeu de maneira singularíssima à vontade divina.

Por isso, a conclusão de todo este estudo não pode ser simplesmente intelectual. Ela deve conduzir à conversão.Ao contemplarmos a humildade de Maria, devemos perguntar se somos humildes. Ao contemplarmos sua fé, devemos perguntar se realmente confiamos na Palavra de Deus. Ao contemplarmos sua obediência, devemos perguntar se submetemos nossa vontade à verdade. Ao contemplarmos sua caridade, devemos perguntar se sabemos servir. Ao contemplarmos sua fortaleza, devemos perguntar se permanecemos fiéis nas provações. Ao contemplarmos sua pureza, devemos perguntar se nosso coração pertence verdadeiramente a Deus.

Maria não nos chama para permanecer diante dela como simples admiradores, mas para caminhar com ela na direção de seu Filho.

Ela é a Virgem fiel, a Serva do Senhor, a Mãe do Salvador, a Mulher do Fiat, aquela que permaneceu de pé junto à Cruz e que, unida aos Apóstolos, perseverou em oração enquanto aguardava a manifestação do Espírito Santo. Sua existência inteira pode ser compreendida como uma resposta contínua à graça: 


“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).Esse fiat resume a essência de sua vida virtuosa.


Em Maria, portanto, encontramos uma criatura que não reivindica autonomia diante de Deus, mas encontra precisamente em Deus sua verdadeira liberdade; que não procura sua própria glória, mas proclama as maravilhas do Senhor; que não foge da Cruz, mas permanece junto dela; que não guarda para si aquilo que recebeu, mas conduz todos a Cristo.

E é justamente por isso que a Igreja, ao longo dos séculos, não cessa de contemplá-la, venerá-la e apresentá-la aos fiéis como modelo de santidade.

Que o estudo dessas dez virtudes não permaneça, portanto, apenas como conhecimento teológico ou exercício intelectual. Que se transforme em oração, exame de consciência e propósito de vida. Que, olhando para Maria, aprendamos a dizer também nós, em cada circunstância de nossa existência, aquilo que constitui o centro de sua santidade: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Porque, no fim, toda verdadeira virtude conduz ao Bem Supremo, toda verdadeira graça conduz a Cristo e toda verdadeira devoção a Maria nos ensina a repetir, com ela e por meio dela, o mesmo desejo: que Deus seja conhecido, amado, servido e glorificado em todas as coisas.




Para reflexão:






1)- Como está meu relacionamento com Maria Santíssima, mãe do Deus encarnado e nossa Mãe?





2)- Tenho suplicado com ardente convicção por meus irmãos, autoridades legitimamente constituídas, e por suas necessidades junto a Maria?





3)- Tenho desejado crescer nas virtudes de Maria? (Conheço e exercito essas virtudes? Que são diferentes de graças?) 





4)-Tenho ajudado meus irmãos (ãs) a conhecer esta mãe amorosa, e a crescerem nas virtudes de Maria?



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 









BIBLIOGRAFIA





-CLÁ DIAS, JOÃO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Artpress. São Paulo, 1997, pp. 473-476



-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. IIª Seção da IIª Parte, Introdução e notas das virtudes teologais por Antonin-Marcel Henri e da prudência por Albert Raulin. São Paulo: Loyola, 2004.



-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Volume I, III e IV. São Paulo: Loyola, 2004



-ALBERTUNI, Carlos Alberto. Tese: O conceito de Sindérese na moral de Tomás de Aquino. Campinas: UNICAMP, 2006.



-http://www.acnsf.org.br/article/3938/I—As-virtudes-teologais-e-cardeais-de-Maria.html



-ARISTÓTELES. Ética a Nicomaque.


-DERISI, O. Os fundamentos metafísicos e da orden moral - Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, Instituto de Filosofi, 1941.


-A Doutrina sobre a Inteligência de Aristóteles a Santo Tomás. Buenos Aires: Cursos de Cultura Católica: 1945.












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