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O Conceito de Deus nas religiões Afro

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 20 de maio de 2014 | 23:42

(foto reprodução)


Ao longo da história da humanidade, o homem sempre buscou compreender a existência de Deus através da razão natural e das manifestações religiosas presentes nas diversas culturas. 




A própria Igreja Católica sempre reconheceu, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica, que existem nas religiões não cristãs "sementes do Verbo", ou seja, fragmentos de verdade que refletem a busca humana pelo Criador. 



Nesse sentido, não é surpreendente que religiões afro-brasileiras apresentem a ideia de um Deus supremo, criador e sustentador do universo, pois esta noção corresponde àquilo que a filosofia chama de conhecimento natural de Deus, acessível à razão humana, como já ensinava São Tomás de Aquino.



Entretanto, a teologia católica tradicional sempre fez uma distinção fundamental entre o conhecimento natural de Deus e a Revelação sobrenatural plena realizada em Jesus Cristo. Enquanto diversas religiões podem chegar a reconhecer a existência de um Ser Supremo, somente o cristianismo afirma possuir a plenitude da Revelação divina, não fruto de especulações humanas ou tradições culturais, mas da iniciativa do próprio Deus que entrou na história para se revelar definitivamente.



Sob esta ótica, pode-se observar que o conceito de um Deus criador presente nas religiões afro-brasileiras demonstra uma intuição religiosa válida, pois reconhece atributos divinos como onipotência, onisciência e justiça. Contudo, ao mesmo tempo, levanta questões teológicas sérias quando este Deus é colocado numa relação de dependência funcional de intermediários espirituais ou quando se afirma que todas as formas de culto seriam igualmente válidas diante Dele.



A doutrina católica sempre ensinou que Deus pode ser conhecido imperfeitamente pela razão, mas somente pode ser verdadeiramente conhecido através da Revelação e da mediação única de Cristo, conforme afirma a Escritura: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6). Assim, qualquer sistema religioso deve ser analisado à luz da verdade revelada e não apenas pela sinceridade de seus praticantes ou pela antiguidade de suas tradições.

Portanto, um estudo comparativo exige não apenas respeito à dignidade das pessoas, mas também clareza doutrinária, pois a caridade cristã nunca pode ser separada da verdade. Como afirmava Santo Agostinho, o maior erro não é procurar Deus, mas parar no caminho e confundir sombras da verdade com a própria Verdade.





O Conceito de Deus nas  religiões Afro


* Por Mário Filho


Olódùmàrè, Elédùmàrè, Olórun, Olòfin, Elèmí, Alágbára Gbogbo, Olúwa, Àwámárìdí são alguns nomes pelos quais os seguidores do Candomblé de tradição Iorubá (Yorùbá) e os da Umbanda nomeiam o Ser Supremo. Ele é o Único Deus, Todopoderoso, o Criador de todo o Universo, o Autor de tudo o que existe, existiu e existirá. O Supremo Arquiteto e Criador do céu, da terra, das águas e da vida.
Como Ser Supremo é Ele que rege e governa todos os seres por Ele criados. Foi Ele que deu alento (èmi) e vida aos seres humanos para que, em Seu nome, tirassem seu sustento da Terra, servindo-se da imprescindível ajuda e auxílio dos Seres Espirituais por Ele concebidos que habitam o Òrún1 e estão representados nas forças e elementos da Natureza e que formam parte da Ordem Universal que foi estabelecida por Ele, o Criador.











Olódùmàrè é comumente o nome usado para nomear a Deus, Todopoderoso. Uma das etimologias da composição de Seu nome pode ser vista da seguinte forma:


- Olu: senhor, dono, possuidor;


- Odù: caminho, destino;


-Màrè: o mais além, aquilo que não sabemos, conhecemos ou imaginamos, sem limites.








Assim, podemos ver que Ele é o princípio e o fim. A semente de onde saiu toda a Criação: a imortal, invariável e eterna transformação da matéria objetiva e sutil e seu caráter indestrutível como componente vital de tudo quanto existiu, existe e existirá pois ela (Criação) é Sua obra.Ele é o Criador da primeira e única energia que deu força e vida a tudo aquilo que existe no Cosmo. Ele é o Supremo e Único autor que rege a Ordem Universal existente, de forma que o Universo exista em harmonia.Ele é o Incomensurável, a Origem de todas as coisas. Ele é o Conhecimento, o Poder e a Sabedoria plena e perfeita, que está, esteve e estará para todo o sempre. Ele é Aquele que está em toda parte e em todas as coisas, velando zelosamente pela eterna e perfeita harmonia que rege toda atividade do Cosmo.Tão sublime, Ele é a Divindade Suprema que reconhece toda e qualquer forma de adoração a Ele, pois é O mesmo Deus Todo-poderoso adorado pelos seguidores de outras religiões, pois Ele se manifestou aos seres humanos de diversas maneiras, em lugares e épocas distintas – apesar do exclusivismo de alguns movimentos religiosos que O querem só para eles –, utilizando-se para isso da eterna e sensível linguagem da Natureza, expressa principalmente nos Orixás e nos espíritos ancestrais, sendo ela a mais direta via de comunicação com os seres humanos, quando quis nos transmitir suas mensagens sagradas, dotando os seres humanos de capacidades sensoriais muito sofisticadas, de forma que pudessem perceber a clara evidência de sua presença em tudo o que existe ao nosso redor.Salvo algumas exceções (fruto do livre-arbítrio que nos foi dado por Deus), nenhum ser vivente está isento de percebê-LO, de sentir Sua presença em cada instante de sua vida, em cada coisa que vê e percebe.Ele criou as estações do ano, o ar que nos dá vida. Ele criou o vulcão, a força do furacão e do terremoto, o poder do mar, a força misteriosa que move os astros no Universo. Sem Ele não pode existir vida em nenhuma parte. Não reconhecer e/ou negar Sua existência é tolice, porque Ele, através de Sua obra, está em tudo e em todas as partes e lugares. Ele nos dá a vida e a inevitável morte; dá-nos o alimento diário que precisamos para viver e desenvolver nossa existência; Ele nos dá as substâncias que curam nossas doenças; dá-nos a terra em que pisamos, o Sol que nos ilumina, o ar que respiramos.










Por sobre todas as entidades espirituais (Orixás, seres espirituais e ancestrais) com todo Seu poder, honra e majestade está Deus Todo-poderoso, O Incomparável, que possui atributos tão nobres, refinados e abstratos. Ele é O Onisciente, O Onipresente, O Onipotente. É um Juiz Justo e Imparcial. É chamado de Olórun Adaké Dájó (Deus, silencioso, mas ativo Juiz). Ele é Olóre, O Beneficente; Alánu, O Misericordioso. A Criação de todas as coisas Lhe é atribuída, por isso possui o título de Eleda, o Criador. Ele é Elemi, Aquele que soprou o espírito em nosso corpo; Alàye, O Vivente, o que dá a vida. Esse conceito a respeito de Deus, que se assemelha ao do Cristianismo e Islamismo, levou alguns estudiosos a acreditar que essa idéia havia sido copiada dessas religiões; no entanto esse é um erro, pois há Ìtàn (lendas) que falam a respeito de Olódùmàrè que são mais antigas que as religiões citadas.Olódùmàrè não é um Deus ausente que, depois de ter realizado a Criação, retirou-Se para descansar, encerrando-Se no Céu, sentando-se em Seu Trono, porém, segundo a crença afro-brasileira, por Sua elevada natureza necessita da presença dos intermediários, que são Seus assistentes, aos quais são dirigidas orações, pedidos e sacrifícios. No entanto, somente a Ele são oferecidas orações específicas, que mostram a existência na crença da rapidez em ajudar a humanidade, em ocasiões de urgência ou de calamidades, bem com a crença em Sua atividade no Mundo e uma gratidão extremada a Ele.A crença na Onisciência de Olódùmàrè é muito grande. Isto pode ser visto no ditado: Bi ènia kò ri o Òlorun kò ri o? (Se uma pessoa não o vê, pode Deus vê-lo?). Esta crença pode ser ilustrada por um dos Seus títulos mais utilizados: Oba a ri inó (ou inu) ri ode, O Rei que vê o interior e o exterior do homem.A crença na Onipotência de Olódùmàré faz com que sejamos humildes e sabedores de nossa dependência d’Ele, de forma que Ele nos protege e nos conserva, sendo-Lhe dirigidas orações em momentos de extrema dificuldade, quando a situação exige que se recorra ao maior poder conhecido pelo ser humano. Para os seguidores das religiões afro-brasileiras Olódùmàré só deve ser chamado quando não há mais a quem recorrer, quando os Orixás, ancestrais e seres espirituais não derem conta da demanda. Acreditam que Deus tem muito mais coisas a fazer.










As religiões afro-brasileiras se baseiam em sistemas religiosos primevos, por isso possuem um caráter extremamente absorvente.Todas as etapas da vida estão rodeadas de várias características religiosas, sendo que estas permanecem constantes na vida dos crentes, que devem permanecer profundamente conscientes de sua relação com os poderes sobrenaturais.Deles se pode dizer que vivem religiosamente, comem religiosamente e morrem religiosamente. É por esse motivo que é tão fácil serem religiões sincréticas.







RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS






1)- CANDOMBLÉ





Candomblé é uma das religiões afro-brasileiras praticada principalmente no Brasil mas também em países adjacentes como Uruguai, Argentina e Venezuela.A religião foi desenvolvida no Brasil com o conhecimento dos sacerdotes africanos que foram escravizados e trazidos da África para o Brasil, juntamente com seus Orixás, sua cultura, e seus dialetos, entre 1549 e 1888.Embora confinado originalmente à população de escravos, proibido pela igreja Católica, e criminalizado por alguns governos, o Candomblé prosperou nos quatro séculos, e expandiu consideravelmente desde o fim da escravatura em 1888.É agora uma das religiões principais estabelecidas, com seguidores de todas as classes sociais e dezenas de milhares de templos.Na cidade de Salvador existem 2230 terreiros registrados na federação Baiana de Cultos Afro-brasileiros. Entretanto, na cultura brasileira as religiões não são vistas mutuamente como exclusivas, e muitos povos de outras crenças religiosas participam em rituais do Candomblé, regularmente ou ocasionalmente. Orixás do Candomblé, os rituais, e as festas são agora uma parte integrante da cultura e uma parte do folclore brasileiro.




Crenças




Candomblé pode ser considerada uma religião monoteista, onde a palavra de Deus é traduzida nas várias línguas utilizadas em seus rituais.Os Orixás, Voduns e Inkices não são considerados deuses e nem são comparados à Deus, também é considerado uma forma de espiritualismo por cultuarem outros espiritos, derivados das religiões africanos.Os Orixás da Mitologia Yorubá, foram criados por um Deus supremo, Olorun(Olorum) dos Yorubá;Os Voduns da Mitologia Fon ou Mitologia Ewe, foram criados por Mawu o Deus supremo dos Fon;Os Inkices da Mitilogia Bantu, foram criados por Zambi, Zanbiapongo Deus supremo e criador.





2)- QUIMBANDA





É um culto afro-brasileiro, derivado da Umbanda, que tem como linha principal a devoção aos Exus e Pomba-Giras, consideradas entidades inferiores pelos umbandistas. Adota suas próprias práticas, como o sacrifício rituais de animais e a utilização de voduns.






3)- UMBANDA





Uma aproximação entre o espiritismo, o cristianismo, as religiões indígenas e as religiões afro-brasileiras.Na umbanda, os orixás do candomblé são cultuadas. Os guias, entidades espirituais, se apresentam na forma de espírito indígena, pretos velhos ou pomba-gira que dão conselhos e passes. Surgida no Rio de Janeiro na década de 1920 é uma mistura de elementos religiosos afro-brasileiros e do espiritismo - um sincretismo religioso.




Mário Filho:Especialista em Ciência da Religião. Mestrando em Ciência da Religião (ambos pela PUC/SP)





Fonte: Verger, Pierre. Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns. São Paulo: Edusp, 2000.




Conclusão 




Do ponto de vista do catolicismo tradicional, embora se possa reconhecer que certas religiões afro-brasileiras conservam a noção de um Deus supremo criador, a semelhança terminológica com o cristianismo não significa identidade doutrinária. Existe uma diferença essencial entre reconhecer um Deus criador e conhecer o Deus Uno e Trino revelado na história da salvação.

A principal divergência teológica está na questão da mediação espiritual. Enquanto o cristianismo ensina que existe um único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo (1Tm 2,5), nas religiões afro-brasileiras existe uma multiplicidade de intermediários espirituais aos quais se dirigem pedidos, oferendas e invocações. Sob a ótica da teologia católica tradicional, isso levanta um sério problema doutrinal, pois relativiza a mediação única de Cristo e pode levar a uma dependência espiritual de entidades cuja natureza não é claramente discernida à luz da Revelação cristã.

Outro ponto de contraste importante está na ideia de que todas as formas de culto seriam igualmente aceitas por Deus. A tradição católica sempre rejeitou esse relativismo religioso, afirmando que Deus não pode se contradizer e, portanto, não pode querer ao mesmo tempo doutrinas incompatíveis entre si. Se Cristo é verdadeiramente Deus encarnado, como a Igreja ensina há dois mil anos, então não pode ser apenas uma manifestação entre muitas, mas sim a Revelação definitiva.

Além disso, a espiritualidade católica sempre alertou contra o perigo do sincretismo religioso, isto é, a mistura de crenças incompatíveis. Historicamente, a Igreja combateu esse risco justamente porque ele pode diluir a verdade revelada e transformar a religião numa construção humana adaptável às preferências culturais. A fé católica tradicional sustenta que a religião verdadeira não é fruto de uma soma de tradições, mas da Revelação divina transmitida pelos Apóstolos e preservada pela Igreja.

Também existe uma diferença fundamental na compreensão da salvação. Enquanto nas religiões afro-brasileiras existe frequentemente uma busca de equilíbrio com forças espirituais e naturais, o cristianismo ensina que o problema central do homem é o pecado e que a solução não está em harmonizações espirituais, mas na redenção operada pelo sacrifício de Cristo no Calvário, renovado sacramentalmente na Santa Missa.

Por fim, sob uma perspectiva apologética tradicional, pode-se afirmar que as semelhanças conceituais sobre Deus demonstram mais a universalidade da busca humana pelo Criador do que uma equivalência entre religiões. Como ensinava a teologia clássica, onde existe verdade, ela pertence a Deus; onde existe erro, ele deve ser corrigido pela luz da Revelação.



Assim, a posição católica tradicional não deve ser nem de desprezo pelas pessoas nem de relativização da verdade, mas de clareza: reconhecer o que há de busca sincera por Deus, mas também afirmar, sem ambiguidades, que a plenitude da verdade religiosa subsiste na Igreja fundada por Cristo. 



Pois, como sempre sustentou a tradição católica, não basta procurar Deus sinceramente; é necessário também encontrá-Lo na verdade que Ele mesmo revelou.



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