 |
| (O Cristo que ri) |
por*Francisco
José Barros de Araújo
A morte sempre foi o maior drama da existência humana. Diante dela, caem as ilusões do poder, da riqueza e da autonomia humana. Nenhuma filosofia puramente humana conseguiu eliminar o medo fundamental que ela provoca no coração do homem. Basta estar diante do túmulo de alguém amado para perceber como a morte revela nossa fragilidade e nossa incapacidade de salvar a nós mesmos.
O próprio Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não ignorou essa realidade. Diante do túmulo de Lázaro, o Evangelho registra uma das frases mais comoventes da Escritura: “Jesus chorou” (Jo 11,35). O Filho de Deus não permaneceu indiferente diante da dor humana. Ele entrou no drama da morte para vencê-la desde dentro.
Entretanto, a fé cristã não termina no túmulo. Se o choro de Cristo revela sua verdadeira humanidade, sua Ressurreição revela sua divindade e sua vitória definitiva. O cristianismo não é a religião do túmulo fechado, mas do sepulcro vazio. Não é a religião da derrota, mas da vitória. Não é a religião do desespero, mas da esperança. Por isso São Paulo proclama com ousadia:
“Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55)
A Ressurreição de Cristo muda completamente o sentido da morte. Ela deixa de ser um fim absoluto e torna-se uma passagem. Deixa de ser derrota definitiva e torna-se porta para a eternidade. Deixa de ser o triunfo do mal e torna-se o lugar onde Deus manifesta sua vitória. É por isso que o cristão, mesmo envelhecendo exteriormente, rejuvenesce interiormente pela graça, como ensina São Paulo:
A esperança cristã não é um otimismo psicológico, mas uma certeza baseada num fato histórico: Cristo ressuscitou. E porque Ele vive, aqueles que nele creem também viverão.
Conforme as palavras do
apóstolo Paulo, essa pessoa constantemente rejuvenesce em seu interior:
“…mesmo
que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se
renova de dia em dia.”
Essa pessoa é possuidora da
juventude vinda da graça daqueles que se
confiam em Cristo, pois assim nos assegura o Salmo 103,1-5:
“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim
bendiga o seu santo nome! Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te
esqueças de nenhum de seus benefícios! Ele é o que perdoa todas as tuas
iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades! Que
redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia.Que
farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia...”
Esse
é o fato eterno e maravilhoso!
“Através da Sua morte, Jesus Cristo nos reconciliou e nos religou
com Deus! A ponte quebrada em virtude do pecado, foi reconstruída! Ele nos
libertou do poder de Satanás! Ele nos salvou do caráter deste mundo inteiro que jaz sob o poder do malígno ( 1 João 5,19)
E por que a expressão "o
mundo inteiro jaz..."?
-Essa expressão "jaz" significa estar sob o poder do mal, ser mantido em
submissão pelo diabo.
-Indica “alguém” que aceita o domínio do mal e o aprova.Temos
aqui a menção do sistema mundano (o império da besta). A Bíblia nos diz que o
diabo é o deus deste século. “nos quais o deus deste século cegou o
entendimento dos incrédulos…” (2Cor 4, 4).
-João tem em vista aqui a
sociedade sem Deus, e sem os valores Cristãos, dominada pelo diabo e pelo
pecado. É uma constatação! Todo o nosso mundo, quando não tem Deus como guia,
está entregue nas mãos do diabo e sob o domínio de seu mal, prevalece a lei do
mais forte, esfria a caridade e impera a violência, vícios e o egoismo,
fazendo-se cumpri a profecia:
-"E,
ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos
esfriará". (Mt 24,12)
E no Maligno?
Aqui temos uma menção clara ao diabo e ao mal. Note que no
versículo o termo “Maligno” é grafado com a primeira letra em maiúscula,
apontando para o representante de todo mal, o diabo. Ele é mencionado como o
“deus” que domina a sociedade mundana. Juntando toda a expressão, e considerando
o contexto, podemos observar que essa expressão significa que o sistema
mundano, ou seja, sem Deus, jaz, ou seja, está sob o poder do diabo, está
submisso a Ele e ao seu mal.
Sem Deus, o mundo está aberto à ação do Maligno,
principalmente, através das tentações que levam as pessoas a optarem pela vida
de pecado. Uma vez consumado, o pecado gera a morte: “Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o
pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1. 15). Somente voltando-se a Deus pode-se quebrar esse domínio do
Maligno, como vemos no versículo anterior: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado;
antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca.” (1Jo 5.
18).
Por sua morte e ressurreição, Ele
nos concedeu a verdeira vida e a verdadeira liberdade, além do prêmio da vida
eterna. “Se é só para esta vida que esperamos
em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima.” O apóstolo aproxima-se do fim da carta que estava escrevendo.
Embora a finalidade precípua dela já houvesse sido alcançada, Ele precisava
tocar num ponto fundamental para a melhor consistência espiritual daquela
igreja.
Como
crentes na Ressurreição e vida eterna, o que o Cristão deve esperar do futuro?
Para Paulo, “a fé na
ressurreição correspondia à própria vitalidade e saúde do cristianismo”. O
apóstolo queria lembrar aos coríntios o que lhes havia ensinado quando ali estivera,
sobre a ressurreição do crente. “Muitas vezes, o que mais precisamos, não é de
algo novo, mas de relembrar com vivacidade, aquilo que já aprendemos e
experimentamos em Cristo!”
Paulo vai responder a
algumas heresias que estavam se introduzindo na comunidade:
1) O corpo ressurreto logo
após a morte é corpo espiritual e não físico!
2) Negar a ressurreição
correspondia a negar a fé em Cristo!
3) Sem a fé na certeza da ressurreição
o Cristão torna-se o mais infeliz dos homens, sem nenhuma esperança! Portanto: “...comamos e bebamos pois amanhã morreremos!” ( 1
Cor 15,32)
Alguns líderes infiéis a verdadeira TRADIÇÃO DOS APÓSTOLOS,
disseminavam na igreja primitiva a ideia de que a ressurreição não existia!
Para Paulo, negar a ressurreição, uma das doutrinas fundamentais
do cristianismo, era algo como destruir a própria fé cristã! Vai basear-se no
testemunho de várias pessoas vivas ainda, algumas delas conhecidas até dos
coríntios, e finalmente, no seu próprio testemunho, para proclamar em alto e bom
som que, “se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé, e ainda estais
(mortos) nos vossos pecados.”
Por
isso, é que de forma semelhante a como lhes passara o mandamento da Ceia do
Senhor, ele começa a expor (1 Cor 15,1-8):
“Porque primeiramente vos entreguei o que também
recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi
sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. É
quando vai então citar 6 aparições de Jesus Cristo, das quais tinha tomado
conhecimento pessoal.”
Daí
em diante Paulo vai ensinar:
1)- A razão essencial da ressurreição:
1 Cor 15,9-19
2)- Cristo, se tornou a
“primícias dos que dormem”: 1 Cor 15,20-23;
3)- A ressurreição de Cristo
e a implantação do seu reino: 1 Cor 15,24-30;
4)- Para desafiá-los então à
vida nova em Cristo: 1 Cor 15,31-34)
5)- E, finalmente: Os que já
morreram em Cristo terão outro corpo, o
corpo espiritual: 1 Cor 15,35-49
Em 1Coríntios 15,50-54 Paulo vai explicar-lhes algo
essencial para os que criam que o corpo físico não podia ser ressurreto "por se
tratar de algo ruim em si mesmo". Ele
lhes fala então da transformação que ocorreria:
-1Coríntios 15,50-54: “...a ressurreição nos daria um corpo
espiritual 50. Mas digo isto, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o
reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção. 51. Eis aqui vos digo um
mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados, 52. num
momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a
trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos
transformados. 53. Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da
incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.
54. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade,
e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra
que está escrito: Tragada foi a morte na vitória!”
-E para proclamar esta
verdade basilar do Evangelho, o apóstolo vai terminar o texto sobre a
ressurreição dos crentes em Cristo, com um verdadeiro hino de vitória! Este
sentimento de confiança deve levar-nos então a uma vida de firmeza e segurança
na fé em Cristo:“55. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está,
ó morte, o teu aguilhão? 56. O aguilhão da morte é o pecado, e a força do
pecado é a lei. 57. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor
Jesus Cristo. 58. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes,
sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no
Senhor!”
1Coríntios
16 - Neste último capítulo da carta, o apóstolo, escreve então:
1) Sobre o espírito de
solidariedade e amor da igreja de Cristo (1-4);
2) Sobre sua próxima visita
à igreja (5-7)
3) Sobre seus projetos
missionários (8-12);
4) Sobre as recomendações
apostólicas que julgava necessárias (13-18);
5) Sua saudação final (19-24)
Conclusão reflexiva:
-Você realmente crê na ressurreição
daquele(a) que crer em Jesus e anda em boas obras, para a vida eterna?
-Que argumento o convence
desta verdade?
-Você sente em seu coração
a alegria da certeza desta ressurreição para a glória eterna?
-De que forma podemos
testemunhar o Ressuscitado que passou pela Cruz ?
Diante da ressurreição de Cristo, o cristão não pode permanecer indiferente. A vitória proclamada pelo apóstolo Paulo — “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” — não é apenas uma afirmação teológica, mas um chamado à transformação da vida.
A ressurreição revela que a morte não é o destino final do homem.
O aguilhão da morte é o pecado, e Cristo venceu justamente aquilo que dava
poder à morte. Ao reconciliar a humanidade com Deus, Ele reconstruiu a ponte
que havia sido quebrada pelo pecado original. A cruz, que parecia instrumento
de derrota, tornou-se o lugar da vitória divina. A ressurreição, por sua vez, é
a confirmação de que o amor de Deus é mais forte do que o pecado, o mal e a
própria morte.
Essa verdade tem profundas implicações espirituais e
existenciais:
-Em primeiro lugar, recorda ao cristão que sua esperança não se
limita às realidades deste mundo. Como ensina Paulo, se a nossa esperança em
Cristo se restringisse apenas à vida presente, seríamos os mais infelizes entre
os homens. A fé cristã aponta para uma realidade futura, onde a morte será
definitivamente vencida e a vida eterna se manifestará plenamente.
-Em segundo lugar, a ressurreição exige uma vida nova. A vitória
de Cristo não é apenas um evento do passado, mas uma realidade que transforma o
presente. Quem crê na ressurreição é chamado a viver de modo coerente com essa
esperança: firme na fé, perseverante na caridade e abundante nas obras do
Senhor. A certeza da vida eterna dá sentido ao esforço diário, às lutas espirituais
e aos sacrifícios da vida cristã.
-Além disso, a fé na ressurreição ilumina também o drama do mundo
atual. A Escritura afirma que “o mundo inteiro jaz sob o poder do Maligno” (1Jo
5,19). Isso significa que uma sociedade afastada de Deus tende a cair sob o
domínio do pecado, da violência, do egoísmo e da injustiça. Quando Deus é
excluído da vida humana, instala-se uma ordem marcada pela lei do mais forte e
pelo esfriamento da caridade, exatamente como advertiu o próprio Cristo: “por
causa do aumento da iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12).
Contudo, o cristão não vive dominado pelo pessimismo. A ressurreição de Cristo inaugura uma nova realidade no coração daqueles que se voltam para Deus. Quem nasce de Deus é guardado por Ele, e o Maligno não pode dominá-lo plenamente. Assim, mesmo em meio às contradições do mundo, o cristão permanece como testemunha da esperança.
Por fim, a ressurreição convida cada fiel a viver como testemunha
do Ressuscitado. Testemunhar Cristo não significa apenas proclamar palavras,
mas manifestar na própria vida os sinais da vitória divina: a fé firme, a
esperança inabalável e a caridade concreta. Cada gesto de amor, cada obra de
misericórdia e cada ato de fidelidade a Deus tornam presente no mundo a
realidade da ressurreição.
Assim, o cristão caminha pela história com os olhos voltados para a eternidade. Mesmo diante da morte, ele pode proclamar com confiança o hino de vitória do apóstolo:
“Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.”
E sustentado por essa esperança, vive com coragem, sabendo que a última palavra da história não será da morte, mas da vida. Em Cristo ressuscitado, a morte foi vencida, e a humanidade recebeu a promessa da glória eterna.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17
Bibliografia
-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005. (Obra clássica da teologia cristã que aborda profundamente temas como redenção, ressurreição e vida eterna.)
-AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes, 2012. (Reflexão sobre a história humana à luz da eternidade, destacando a vitória final de Deus sobre o mal e a morte.)
-BENTO XVI. Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011. (Análise teológica e histórica do mistério pascal e da ressurreição de Cristo.)
-BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.(Tradução bíblica amplamente utilizada na teologia, com notas e comentários que auxiliam na interpretação dos textos sobre ressurreição.)
-COMBLIN, José. A esperança cristã. Petrópolis: Vozes, 1997. (Estudo sobre a dimensão escatológica da fé e o sentido da esperança cristã.)
-CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta sobre algumas questões de escatologia. São Paulo: Paulinas, 1983. (Documentação magisterial que esclarece a doutrina católica sobre morte, ressurreição e vida eterna.)
-FRANCISCO, Papa. Lumen Fidei. São Paulo: Paulinas, 2013. (Encíclica que reflete sobre a fé cristã como luz que ilumina a vida e a esperança humana.)
-JOÃO PAULO II. Audiências sobre o Credo – A Ressurreição da Carne e a Vida Eterna. São Paulo: Loyola, 2000. (Catequeses papais que explicam a esperança cristã na ressurreição final.)
-LÉON-DUFOUR, Xavier. Vocabulário de Teologia Bíblica. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obra de referência para compreender conceitos bíblicos fundamentais como morte, vida eterna e ressurreição.)
-PADRE ANTONIO ROYO MARÍN. Teologia da Perfeição Cristã. São Paulo: Cultor de Livros, 2017. (Estudo espiritual que aborda o crescimento da vida interior pela graça.)
-SHEEN, Fulton. A Vida de Cristo. São Paulo: Ecclesiae, 2014. (Clássico espiritual que contempla a missão redentora de Cristo culminando na ressurreição.)
-SESBOÜÉ, Bernard. Creio na Ressurreição da Carne. São Paulo: Loyola, 2004. (Estudo teológico sobre a doutrina da ressurreição na tradição cristã.)
-SPROUL, R. C. A Ressurreição de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2015. (Defesa bíblica e teológica da ressurreição como fundamento da fé cristã.)
Postar um comentário
Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.