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Entre Fé e Razão: Tomás de Aquino, Averróis e a Recepção do Aristotelismo

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 15 de março de 2014 | 21:47






Qual a relação entre Tomás de Aquino, Averróis e o racionalismo Aristotélico ?


Por *Francisco José Barros Araújo 




São Tomás de Aquino, utilizando-se do pensamento de Aristóteles, realizou na Idade Média uma profunda adaptação filosófica que reinterpretou os textos do filósofo grego à luz do cristianismo, dando origem à chamada filosofia Aristotélico-Tomista. Assim como Agostinho de Hipona havia cristianizado a filosofia de Platão nos primeiros séculos da era cristã, Tomás transformou o pensamento aristotélico em um padrão aceitável pela Igreja Católica, mostrando que a razão e a fé poderiam caminhar juntas.
  










Embora Aristóteles não tenha conhecido a revelação cristã, Tomás reconheceu a originalidade e a autenticidade de sua obra na busca da verdade, entendendo que ela, de forma paralela, não contradizia os dogmas cristãos e, ao contrário, estava em harmonia com o saber contido na Bíblia. Ao aplicar os princípios aristotélicos à teologia, Tomás construiu uma base racional sólida para o pensamento cristão, conciliando fé e razão, e retificando o materialismo exacerbado do filósofo grego, de modo a integrar a reflexão filosófica ao compromisso religioso.  





O grande mérito de Tomás foi, portanto, sintetizar o cristianismo dentro de uma visão aristotélica do mundo, introduzindo o aristotelismo, que havia sido redescoberto na Idade Média através da escolástica, e harmonizando a razão filosófica com a fé cristã. A escolástica, movimento intelectual dominante nas universidades medievais, buscava organizar o conhecimento de forma lógica e sistemática, conciliando filosofia, teologia e ciência, e Tomás tornou-se seu principal expoente. 



Sua contribuição consistiu em demonstrar que a razão humana, quando corretamente orientada, não apenas complementa a fé, mas é capaz de iluminar e aprofundar a compreensão da revelação divina. 



Em suas obras mais conhecidas, a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles, Tomás sistematizou todo o conhecimento teológico e filosófico de sua época, apresentando de forma clara e ordenada argumentos sobre a existência de Deus, a natureza humana, a moralidade, a criação e a relação entre o mundo material e espiritual.  Para Tomás, filosofia e teologia são campos distintos, mas complementares: a primeira se baseia no exercício da razão humana, enquanto a segunda se fundamenta na revelação divina. 




Ele sustentava que não poderia haver contradição entre fé e razão, pois ambas emanam de Deus, e cada uma ilumina a verdade de forma própria. Defendia, ainda, que toda a criação é boa, pois participa do ser divino, e que o mal consiste apenas na ausência ou privação do bem. Essa visão não apenas proporciona uma compreensão metafísica da realidade, mas também estabelece uma ética coerente, fundamentada na ordenação racional da vontade e da ação humanas em relação a Deus e ao próximo.  




Além de suas contribuições à teologia e à filosofia, Tomás de Aquino desenvolveu uma teoria do conhecimento que explora como a mente humana apreende a realidade, uma antropologia que analisa a natureza e a finalidade do ser humano, e deixou escritos sobre política e ética, como Do governo do Príncipe, dirigido ao rei de Chipre, oferecendo uma visão moral do exercício do poder que contrasta com a perspectiva pragmática e muitas vezes maquiavélica apresentada por Maquiavel em O Príncipe. Sua obra influenciou profundamente o desenvolvimento do pensamento cristão, servindo de base para a doutrina oficial da Igreja Católica e inspirando gerações de filósofos, teólogos e educadores.  



Um elemento central para compreender o pensamento de Tomás é a influência de Averróis (Ibn Rushd), filósofo, jurista e comentarista muçulmano do século XII, conhecido por seus comentários extensivos sobre Aristóteles. Averróis desempenhou um papel decisivo na transmissão do racionalismo aristotélico à Europa medieval: suas interpretações sistematizaram e clarificaram conceitos complexos de lógica, metafísica, ética e ciência natural contidos nos escritos de Aristóteles, tornando-os acessíveis aos estudiosos cristãos. Através das traduções das obras de Averróis para o latim, Tomás teve acesso a uma versão crítica e aprofundada do pensamento aristotélico, incluindo reflexões sobre a causalidade, a substância, a alma e a moralidade, que serviram de base para sua síntese teológica.  



Tomás adotou de Averróis o rigor lógico e a ênfase na razão como instrumento de compreensão da realidade, mas criticou ou adaptou certas interpretações que pareciam incompatíveis com a fé cristã, como a concepção da eternidade do mundo ou a separação da inteligência individual da inteligência divina. 



Nesse sentido, Averróis funcionou como mediador entre Aristóteles e Tomás, fornecendo o aparato racional necessário para que o filósofo cristão pudesse conciliar o pensamento grego com a doutrina cristã, criando uma filosofia sistemática em que fé e razão se reforçam mutuamente. A partir dessa mediação, Tomás construiu uma síntese intelectual capaz de integrar a razão humana à revelação divina de forma coerente, estabelecendo um modelo de teologia racional que influenciaria toda a tradição escolástica posterior.  



Santo Tomás de Aquino é, sem dúvida, a figura mais destacada do pensamento cristão medieval, tendo elaborado os princípios da doutrina cristã numa síntese filosófica de grande profundidade, baseada na razão, na revelação e no estudo rigoroso da natureza humana e do cosmos. Sua obra permanece até hoje referência central para compreender a relação entre fé e razão, a moralidade, a teologia sistemática e a filosofia prática, evidenciando que a busca pela verdade e pelo conhecimento é uma dimensão essencial da experiência humana e espiritual, mediada pelo diálogo entre tradições filosóficas diversas e pelo esforço de harmonizar razão e fé.





Aristóteles: Talvez o maior filósofo grego (384-322 a.C.)



Aristóteles é amplamente reconhecido como um dos maiores filósofos da Antiguidade e uma das figuras mais influentes da história do pensamento ocidental. 





Nascido em Estagira, na Macedônia, em 384 a.C., destacou-se desde cedo por sua extraordinária capacidade intelectual. Aos dezessete anos de idade, mudou-se para Atenas, onde ingressou na Academia de Platão, tornando-se seu discípulo mais brilhante. Permaneceu ao lado de seu mestre por aproximadamente vinte anos, período em que assimilou profundamente a filosofia platônica, ao mesmo tempo em que desenvolveu um pensamento próprio, frequentemente crítico em relação às ideias de Platão.  



Embora tenha sido discípulo de Platão, Aristóteles afastou-se do idealismo platônico, sobretudo no que diz respeito à teoria das Ideias, optando por uma filosofia mais realista, fundada na observação da natureza e na experiência sensível. Seu pensamento inaugura uma abordagem sistemática do conhecimento, abrangendo praticamente todos os campos do saber de sua época: lógica, metafísica, ética, política, biologia, física, retórica e poética.










Nesse sentido, Aristóteles pode ser considerado um dos precursores do método científico, pois valorizava a investigação empírica, a classificação dos fenômenos naturais e a busca pelas causas primeiras das coisas.  



No campo da filosofia natural, Aristóteles desenvolveu teorias que, em muitos aspectos, antecipam reflexões que mais tarde seriam associadas à ideia de evolução, especialmente ao estudar a gradação dos seres vivos e suas finalidades próprias. 




Para Aristóteles, a natureza é ordenada e orientada por causas finais, isto é, cada ser tende a realizar sua essência própria. Essa concepção teleológica marcou profundamente o pensamento filosófico e científico durante séculos.  No âmbito antropológico, Aristóteles define o homem como um “animal racional”, isto é, um ser cuja característica distintiva é a razão. A racionalidade humana permite o conhecimento da verdade, a vida moral e a organização política da sociedade. 





Sua ética fundamenta-se na busca da virtude como meio termo entre os excessos, tendo como fim último a felicidade (eudaimonia), alcançada por meio de uma vida conforme a razão.  Do ponto de vista teológico, Aristóteles concebe Deus como o “Motor Imóvel”, princípio supremo da realidade, causa primeira de todo movimento e de toda ordem no universo. Contudo, diferentemente da concepção cristã posterior, esse Deus não é criador no sentido de produzir o mundo a partir do nada. Segundo Aristóteles, a matéria é eterna e coexiste com Deus; por isso, não haveria uma criação propriamente dita, pois a matéria seria indigna da perfeição divina. Deus, em sua filosofia, é puro ato, pensamento que pensa a si mesmo, completamente separado do mundo material (Enciclopédia Universo, Editora Delta, p. 366).  





Apesar da grandeza de sua obra, a filosofia aristotélica não exerceu influência contínua ao longo da Antiguidade. Durante os períodos helenístico e greco-romano, sua recepção foi limitada, sendo muitas vezes ofuscada por outras correntes filosóficas, como o estoicismo, o epicurismo e o neoplatonismo. Grande parte de seus escritos ficou esquecida ou restrita a círculos específicos de estudiosos, o que explica por que Aristóteles só seria plenamente redescoberto séculos mais tarde.  Foi apenas na Idade Média, sobretudo por meio das traduções árabes e dos comentários de filósofos islâmicos como Averróis, que o pensamento aristotélico retornou com força ao Ocidente cristão. 





Essa redescoberta permitiria que sua filosofia se tornasse o fundamento racional da escolástica medieval e, posteriormente, da síntese realizada por São Tomás de Aquino, que integraria o aristotelismo à teologia cristã, conferindo-lhe um lugar central na tradição intelectual da Igreja.







A transmissão do pensamento aristotélico: do mundo islâmico à escolástica medieval  





Foram os árabes, especialmente por meio da obra de Averróis (Ibn Rushd), e os pensadores da Europa Ocidental do século XII que promoveram a redescoberta sistemática da filosofia de Aristóteles. Após séculos de relativo esquecimento no Ocidente latino, os escritos aristotélicos haviam sido preservados, estudados e comentados no mundo islâmico, onde encontraram um ambiente intelectual favorável ao desenvolvimento das ciências, da lógica e da metafísica. 










Averróis destacou-se como o mais importante comentarista de Aristóteles, produzindo interpretações detalhadas que buscavam restaurar o pensamento original do filósofo grego, depurando-o de leituras neoplatônicas e enfatizando seu caráter racional e sistemático.  Por meio das traduções das obras de Aristóteles e dos comentários de Averróis do árabe para o latim — realizadas sobretudo nos centros de tradução da Espanha medieval, como Toledo — o pensamento aristotélico voltou a circular intensamente na Europa cristã. 



Essa redescoberta, entretanto, não ocorreu sem tensões. Em um primeiro momento, a difusão das ideias aristotélicas causou inquietação e desconfiança por parte da Igreja, especialmente devido a certos pontos que pareciam incompatíveis com a doutrina cristã, como a eternidade do mundo, a negação da criação a partir do nada e algumas interpretações sobre a alma e o intelecto humano.  




Foi no século XIII que essa tensão começou a ser superada, principalmente graças à obra de São Tomás de Aquino. Na Summa Theologiae e na Summa Contra Gentiles, Tomás realizou uma síntese profunda entre a filosofia aristotélica e os dogmas cristãos, demonstrando que a razão natural, quando corretamente compreendida, não se opõe à fé revelada. 




Ao integrar os princípios metafísicos e lógicos de Aristóteles à teologia cristã, Tomás estabeleceu os fundamentos da Escolástica, método que buscava organizar racionalmente o conhecimento teológico e filosófico. 





A partir dessa síntese, o aristotelismo deixou de ser visto como uma ameaça e passou a ser reconhecido como instrumento legítimo para a compreensão da fé cristã.  Nos séculos XVI e XVII, com o surgimento da ciência moderna, muitas das concepções aristotélicas sobre a natureza e o movimento foram submetidas a severas críticas. As pesquisas científicas conduzidas por pensadores como Galileu Galilei e René Descartes demonstraram as limitações da física aristotélica, especialmente no que se refere à explicação do movimento dos corpos e à estrutura do universo. 



O método experimental e o uso da matemática como linguagem da natureza substituíram progressivamente a física baseada em qualidades e finalidades naturais proposta por Aristóteles.  




Entretanto, apesar do declínio de sua física, a lógica aristotélica permaneceu praticamente inabalável. Seus princípios fundamentais — como o silogismo, o princípio da não contradição e as regras do raciocínio dedutivo — continuaram a ser a base do pensamento lógico durante séculos, influenciando tanto a filosofia quanto a teologia e as ciências formais. 



Assim, mesmo diante das transformações científicas da modernidade, Aristóteles manteve um papel central na história do pensamento ocidental, sobretudo no campo da lógica e da metodologia racional, confirmando a duradoura relevância de sua obra.





Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) O grande mediador do aristotelismo entre o Islã e o Ocidente cristão




1. Vida, formação e contexto intelectual




Averróis (Ibn Rushd), filósofo, médico e polímata muçulmano andaluz, nasceu em Córdoba, importante centro cultural do Al-Ándalus, em 1126, e faleceu em Marraquexe em 1198. Seu nome latino, “Averróis”, é uma adaptação do antropônimo árabe. Proveniente de uma respeitada família de juristas, recebeu sólida formação em direito islâmico, medicina, astronomia e filosofia, destacando-se como uma das maiores inteligências do mundo medieval.





Foi um dos mais profundos conhecedores da obra de Aristóteles, a quem dedicou comentários extensos, médios e breves, razão pela qual ficou conhecido no Ocidente como “o Comentador”. Graças aos árabes — e, em especial, aos comentários de Averróis — Aristóteles foi redescoberto na Europa medieval, após séculos de esquecimento no Ocidente latino.












2. Averróis e o aristotelismo racionalista




A filosofia de Averróis é fundamentalmente aristotélica, embora apresente algumas influências neoplatônicas. Do aristotelismo, Averróis assume a centralidade da razão, a autonomia da filosofia e a concepção de um universo regido por leis racionais necessárias. 



Defende a ideia de que o mundo existe de modo independente de Deus, sendo ambos coeternos, e sustenta que Deus não exerce providência direta sobre os acontecimentos particulares do mundo.



Essas teses entram em choque tanto com o cristianismo quanto com interpretações tradicionais do Islã. 



Já a influência platônica aparece em sua concepção da inteligência como uma realidade una, impessoal e separada dos indivíduos, concepção que terá consequências profundas em sua teoria do conhecimento e da alma.







3. Religião, razão e interpretação do Alcorão



No âmbito religioso, Averróis desenvolve uma teoria original da interpretação do Alcorão, segundo a qual existem níveis distintos de acesso à verdade, conforme a capacidade intelectual dos homens:




-Verdades evidentes – destinadas ao povo simples, transmitidas por imagens, símbolos e narrativas.

-Verdades teológicas – acessíveis aos teólogos, por meio da reflexão religiosa.

-Verdades filosóficas e científicas – reservadas aos filósofos, alcançadas pela razão demonstrativa.




Segundo Averróis, essas verdades podem entrar em conflito entre si. Quando isso ocorre, os textos religiosos devem ser interpretados alegoricamente, de modo a se adequarem às conclusões da razão. 



Dessa concepção deriva a famosa — e controversa — teoria da dupla verdade, segundo a qual uma proposição pode ser verdadeira do ponto de vista filosófico e falsa do ponto de vista teológico, ou vice-versa.








4. A “Destruição da destruição” e a defesa da filosofia



Entre suas obras mais célebres está Tahāfut al-Tahāfut (A destruição da destruição ou Incoerência da incoerência), na qual Averróis responde às críticas de al-Ghazali (Algazali), que havia acusado a filosofia de contradizer a fé islâmica. Nessa obra, Averróis defende o aristotelismo e o uso rigoroso da razão contra o que considera ataques irracionais à filosofia. Essa obra teve enorme repercussão no Ocidente cristão, sobretudo na Universidade de Paris, onde seus escritos deram origem ao movimento conhecido como averroísmo latino.




5. O averroísmo latino e a crise na cristandade medieval




Os averroístas latinos adotaram várias teses de Averróis, entre elas:



-Deus como motor imóvel, que move eternamente um mundo eternamente existente;

-A eternidade do mundo, em oposição à criação a partir do nada;

-A negação da imortalidade da alma individual, considerada perecível e corruptível.



Essas ideias chocavam-se frontalmente com a doutrina cristã. 



Para resolver a contradição, os averroístas defenderam explicitamente a teoria da dupla verdade:





1ª)- Uma verdade teológica, válida no plano da fé;



2ª)- Uma verdade filosófica, válida no plano da razão.




Assim, seria verdadeiro segundo a fé que o mundo foi criado e que a alma é imortal, mas verdadeiro segundo a razão que o mundo é eterno e a alma é mortal.




6. Repercussões históricas e condenações




Essa separação radical entre fé e razão foi duramente combatida pela Igreja Católica, que condenou as teses averroístas mais extremas. 



São Tomás de Aquino, embora profundamente influenciado por Averróis como intérprete de Aristóteles, opôs-se firmemente ao seu naturalismo racionalista, defendendo a unidade da verdade e a harmonia entre fé e razão. Nos séculos XVIII e XIX, entretanto, a teoria da autonomia total da razão diante da fé foi retomada por pensadores racionalistas, em oposição direta à tese agostiniana — e tomista — de que a verdade é una.




7. Teoria do intelecto e negação da imortalidade da alma




Averróis divide a inteligência humana em duas instâncias:



7.1 Intelecto potencialÉ o intelecto individual de cada ser humano, capaz de conhecer, mas apenas em potência. Ele necessita ser iluminado pelo intelecto ativo para produzir conhecimento, assim como o olho necessita da luz para ver as cores.


7.2 Intelecto ativo ou possível É uma inteligência universal, impessoal e eterna, comparada ao sol, que ilumina todos os intelectos potenciais. Todo conhecimento verdadeiro reside nesse intelecto universal; os indivíduos apenas participam dele de forma parcial e temporária.



Dessa concepção decorre a negação da imortalidade da alma individual: a alma nasce e morre com o corpo, enquanto o conhecimento e a ciência permanecem eternos no "intelecto universal".



8. Ciência, felicidade e religião



Para Averróis, o conhecimento científico é o caminho supremo para a felicidade humana e para o êxtase espiritual. A filosofia é o mais alto culto que o homem pode oferecer a Deus, pois conhecer profundamente a ordem racional do mundo equivale a contemplar a obra divina.



A religião, por sua vez, tem função moral e pedagógica: orientar a conduta dos homens e promover a virtude. Filosofia e religião não se opõem em sua finalidade última, mas diferem em seus métodos e públicos.




9. Exílio, legado e transmissão de sua obra




Averróis gozou inicialmente do favor dos califas andaluzes, mas acabou sendo desterrado por al-Mansur, que considerou suas ideias perigosas e incompatíveis com o Alcorão. Muitas de suas obras foram proibidas e destruídas. 



Grande parte de seus escritos sobre lógica e metafísica sobreviveu apenas por meio de traduções em hebraico e latim, realizadas por autores como Jacob Anatoli por volta de 1200. Seu principal discípulo foi Ibn Tumlus, que deu continuidade à sua obra intelectual. Apesar das perseguições, Averróis exerceu influência decisiva sobre o pensamento cristão medieval e renascentista, sendo figura-chave na introdução do aristotelismo no Ocidente.

 

 

 

A filosofia do conhecimento de Averróis

 

 

A filosofia do conhecimento de Averróis encontra sua formulação mais sistemática no Grande Comentário a Aristóteles, no qual o pensador andalusino desenvolve uma sofisticada noética baseada na distinção aristotélica entre dois princípios fundamentais do intelecto: 


-O nous pathetikós (intelecto receptivo ou material) 


-O  nous poietikós (intelecto agente). 



Essa distinção constitui o eixo central de sua explicação acerca da possibilidade do conhecimento humano e da apreensão dos universais.



A noética averroísta representa um esforço decisivo para libertar a reflexão filosófica das especulações míticas, teológicas ou políticas, situando o problema do conhecimento no âmbito da análise racional da natureza humana. 



Averróis busca esclarecer como um ser finito e perecível pode alcançar verdades universais e necessárias, que transcendem a experiência sensível imediata. 



Para isso, ele parte da convicção de que todo conhecimento tem sua origem na percepção sensível, mas não se esgota nela.Embora profundamente aristotélico, Averróis afasta-se de Aristóteles em pontos relevantes, sobretudo ao reconhecer o papel fisiológico dos nervos e ao localizar no cérebro determinadas faculdades cognitivas, como a imaginação e a memória. 




Para ele, a intelecção inicia-se na apreensão sensível dos objetos individuais e culmina na universalização, que não existe fora da alma, mas constitui um princípio próprio dos seres vivos dotados de intelecto. 



O processo cognitivo, portanto, desenvolve-se em três momentos fundamentais: 


-Sentir


-Imaginar 


-Por fim, captar o universal.



O universal, em Averróis, não possui existência autônoma fora da alma, mas existe enquanto universal apenas no intelecto, embora corresponda à estrutura real do particular. É o entendimento que confere universalidade aos dados sensíveis, tornando possível o conhecimento científico. 



Por essa razão, Averróis sustenta, especialmente no Tahâfut al-Tahâfut, que a ciência deve adequar-se à realidade concreta e particular, pois não há conhecimento direto dos universais enquanto tais, mas apenas enquanto abstraídos da experiência sensível.


A concepção averroísta do intelecto apresenta variações ao longo de sua obra, mas, em sua formulação mais desenvolvida, ele distingue quatro momentos ou tipos de intelecto, correspondentes às etapas da gênese do conhecimento:



1)-Intelecto material ou receptivo, que é pura potência para receber as formas inteligíveis;


2)-Intelecto habitual, que corresponde à disposição adquirida para compreender os inteligíveis;


3)-Intelecto agente, princípio ativo que atualiza as formas inteligíveis e atua como causa eficiente e formal do conhecimento, existindo na alma humana;


4)-Intelecto adquirido, que expressa a união do intelecto humano com os inteligíveis plenamente atualizados.



Além disso, Averróis estabelece uma distinção fundamental entre dois sujeitos do conhecimento: 



-O primeiro é o sujeito dos inteligíveis em ato, isto é, aquele mediante o qual os inteligíveis são verdadeiros, correspondendo às formas enquanto imagens fiéis da realidade. 


-O segundo é o sujeito pelo qual os inteligíveis existem enquanto entes no mundo, identificado com o intelecto material. Dessa forma, o sujeito da sensação — pelo qual a percepção é verdadeira — encontra-se fora da alma, nos objetos sensíveis, enquanto o sujeito do intelecto — pelo qual o conhecimento é verdadeiro — encontra-se no interior da alma.



Essa articulação complexa entre sensação, imaginação e intelecção permite a Averróis construir uma teoria do conhecimento que preserva tanto a dependência empírica do saber humano quanto a possibilidade da universalidade científica, exercendo influência decisiva sobre a filosofia medieval latina e o desenvolvimento posterior do racionalismo aristotélico.



 

Transcendência, razão e religião no averroísmo




Apesar da condenação formal de 219 teses averroístas pelo bispo parisiense Étienne Tempier, em 1277, sob a alegação de incompatibilidade com a doutrina católica, o impacto intelectual de Averróis mostrou-se duradouro e profundo. Muitas dessas teses sobreviveram e reapareceram, de modo explícito ou implícito, na obra de pensadores do Renascimento como Giordano Bruno e Pico della Mirandola, demonstrando que o averroísmo não foi um episódio marginal, mas um vetor decisivo da história da filosofia ocidental.



Entre os elementos herdados desses autores encontra-se a defesa da superioridade da vida contemplativa e teórica sobre a vida prática, em consonância com a posição aristotélica exposta na Ética a Nicômaco. Para Averróis, a atividade mais elevada do ser humano é a contemplação racional da verdade, pois nela se realiza plenamente a função própria do intelecto. A vida prática, embora necessária à organização social e moral, permanece subordinada à vida intelectual.


Nesse contexto, Averróis sustenta também uma concepção instrumental e político-social da religião, entendida como uma doutrina destinada ao governo e à educação moral das massas que não são capazes de alcançar, por meio da razão demonstrativa, o conhecimento das causas últimas da realidade. Em sua obra Tahâfut al-tahâfut, o filósofo afirma que a lei religiosa proporciona ao conjunto da sociedade a mesma verdade que o filósofo atinge por meio da investigação racional da natureza e das causas dos entes. Isso, contudo, não implica que a filosofia substitua a religião, nem que os filósofos possam prescindir dela.




Averróis é explícito ao afirmar que “os filósofos creem que as religiões são construções necessárias para a civilização”, pois a religião desempenha uma função insubstituível de coesão social, orientação moral e integração política. Além disso, a existência da religião é também necessária para a integração do próprio filósofo na comunidade civil, evitando o isolamento intelectual e o conflito com a ordem social.


Teses metafísicas e noéticas fundamentais de Averróis



Entre as teses mais controversas atribuídas a Averróis — e que motivaram parte significativa das condenações medievais — destacam-se as seguintes:


-A eternidade do mundo, em oposição à doutrina cristã da criação temporal;


-A divisão da alma em dois princípios, sendo um individual e perecível (intelecto passivo) e outro eterno e divino (intelecto ativo);


-A universalidade do intelecto ativo, que é comum a todos os seres humanos;


-A relação dinâmica entre intelecto ativo e passivo, segundo a qual o intelecto ativo atualiza as formas contidas em potência nas imagens fornecidas pela imaginação.


Nesse processo cognitivo, as imagens sensíveis, produzidas pela atividade dos sentidos e elaboradas pela imaginação, são transmitidas ao intelecto passivo. As formas inteligíveis presentes em potência nessas imagens são então atualizadas pelo intelecto ativo, convertendo-se em conceitos e juízos universais. É precisamente essa teoria que fundamenta a possibilidade do conhecimento científico e da verdade universal. Para mitigar o conflito entre essas teses e a doutrina cristã, Siger de Brabant, um dos principais representantes do averroísmo latino, formulou a célebre doutrina da dupla verdade, segundo a qual uma proposição pode ser verdadeira no plano filosófico-científico e falsa no plano teológico, ou vice-versa. Embora essa doutrina não possa ser atribuída diretamente a Averróis, ela foi amplamente adotada por seus seguidores europeus como estratégia de conciliação.



O Kitab fasl al-maqal e a harmonia entre Filosofia e Religião



No Kitab fasl al-maqal (Tratado decisivo sobre a harmonia entre Religião e Filosofia), Averróis apresenta sua defesa mais sistemática da legitimidade da filosofia no interior da lei islâmica. Os principais argumentos do tratado podem ser sintetizados nos seguintes pontos:


-A Lei divina obriga ao estudo da filosofia, pois ordena o conhecimento racional da criação;


-Se o estudo do mundo implica investigação filosófica, e a Lei ordena tal investigação, então a Lei ordena a filosofia;


-O método adequado para esses estudos é o raciocínio demonstrativo, o mais elevado dos modos de conhecimento;


-Para dominar esse método, é necessário um estudo prévio da lógica, tal como o jurista deve estudar o raciocínio jurídico;


-A lógica deve ser aprendida com os mestres da Antiguidade, independentemente de sua religião;


-Proibir o estudo da filosofia antiga é um erro, pois seus perigos são apenas acidentais, assim como os perigos de qualquer ciência;


-A Lei prevê diferentes caminhos para a verdade, conforme a natureza dos indivíduos: demonstrativo, dialético ou retórico;


-A filosofia não contém nada que se oponha à verdadeira religião;


-A verdade demonstrativa não pode contradizer a verdade das Escrituras;


-Quando há conflito aparente, deve-se recorrer à interpretação alegórica;


-O erro cometido por um sábio qualificado é perdoável, enquanto o erro do ignorante não o é;


-As interpretações filosóficas não devem ser ensinadas à maioria, pois podem destruir a fé simples sem substituí-la por outra;


-O objetivo das Escrituras é ensinar tanto as ciências teóricas quanto as práticas e formar atitudes corretas;


-O uso adequado de símbolos depende da capacidade intelectual do público;


-Revelar o sentido interno a quem não está preparado conduz à descrença;


-O próprio Corão reconhece os limites da compreensão humana e oferece métodos pedagógicos adequados a todos os níveis intelectuais.



Averróis na literatura



A influência de Averróis ultrapassa os limites da filosofia e alcança a literatura moderna. Ele é o protagonista do conto “La busca de Averroes”, presente em El Aleph, de Jorge Luis Borges, no qual o filósofo é retratado como símbolo do esforço humano de compreensão racional diante dos limites impostos pela linguagem, pela cultura e pela tradição.



Entre as obras mais relevantes de Averróis destacam-se:



-Colliget (obra médica de Averróis, também conhecida pelo título árabe Kitāb al-Kulliyyāt fī al-Ṭibb (Livro das Generalidades da Medicina). Nela, Averróis não se dedica à prática clínica direta, mas aos princípios teóricos universais da medicina).


-Tahâfut al-tahâfut (A incoerência do incoerente)


-Kitab fasl al-maqal (Sobre a harmonia entre Religião e Filosofia)


-Bidayat al-Mujtahid (obra jurídica)


-Comentários menores (Yawami), médios (Taljisat) e maiores (Tafasir) ao Corpus aristotelicum


-Exposição da República de Platão


-Comentários a Ptolomeu, Alexandre de Afrodísias, Galeno, al-Farabi, Avicena e Avempace


-De Substantia Orbis


-Escritos teológicos: Fasl al-Maqal, Kasf al-Manahij e Damima


-Kitab al-kulliyyat al-Tibb (Livro das generalidades da medicina)








III - Tomás de Aquino (1226-1274) 




1. Vida e contexto intelectual




Tomás de Aquino nasceu em 1226, nas proximidades de Nápoles, no sul da Itália, e faleceu em 1274, no convento de Fossanova, aos 49 anos de idade. Frade dominicano, teólogo e filósofo, é amplamente reconhecido como a maior figura do pensamento escolástico medieval e um dos mais influentes intelectuais da história do cristianismo ocidental. Sua obra surge em um contexto marcado pela redescoberta do pensamento aristotélico no Ocidente latino, mediada principalmente pelas traduções e comentários árabes, especialmente os de Averróis. Diante do impacto dessas ideias, Tomás de Aquino empreendeu uma tarefa inédita: integrar sistematicamente a filosofia aristotélica à teologia cristã, sem subordinar uma à outra de modo indevido.



2. Finalidade da filosofia tomista




A filosofia de Tomás de Aquino — conhecida como Tomismo — possui objetivos claros e bem definidos:


-Não contrariar a fé cristã, mas também não dispensar o uso da razão;

-Organizar racionalmente os conteúdos da revelação, oferecendo argumentos filosóficos que os tornassem inteligíveis e defensáveis;

-Utilizar Aristóteles como instrumento racional, e não como autoridade absoluta, colocando sua filosofia a serviço da teologia católica.



Para Tomás, a razão humana, corretamente exercida, não apenas é compatível com a fé, como também a prepara e a sustenta.








3. Princípios fundamentais do realismo tomista



Tomás de Aquino enfatiza a primazia da realidade sensível como ponto de partida do conhecimento humano. A partir dessa perspectiva, ele sistematiza cinco princípios fundamentais:



3.1 Princípio da não contradição - O ser é ou não é. Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Este é o fundamento lógico de toda racionalidade.


3.2 Princípio da substância - Em todo ente distingue-se a substância (aquilo que a coisa é em si mesma) e os acidentes (qualidades não essenciais que podem mudar sem alterar a essência).


3.3 Princípio da causa eficiente - Os seres percebidos pelos sentidos são contingentes: não possuem em si a causa de sua própria existência. Dependem, portanto, de uma causa exterior, culminando na necessidade de um Ser necessário.


3.4 Princípio da finalidade - Nada existe sem finalidade. Todo ser age em vista de um fim, ainda que não tenha consciência disso. A ordem do mundo aponta para uma inteligência ordenadora.


3.5 Princípio do ato e da potência -  Todo ser contingente possui potência (o que pode vir a ser) e ato (o que já é). A mudança é explicada pela passagem da potência ao ato, culminando em Deus como Ato Puro.



4. "Elementos não aristotélicos" do pensamento tomista


Embora profundamente inspirado por Aristóteles, o sistema tomista incorpora elementos diferentes ao aristotelismo clássico:



-A criação do mundo por um Deus único, livre e pessoal;

-A afirmação de que "o vir-a-ser depende de Deus", e não de uma necessidade interna da matéria;

-A distinção entre essência e existência: nas criaturas, essência e ser não se identificam; somente em Deus ambos coincidem;

-Deus é definido como Ser subsistente, fundamento ontológico de toda realidade criada.



5. As cinco vias para a existência de Deus



Na Suma Teológica, Tomás de Aquino apresenta cinco argumentos racionais — as chamadas Cinco Vias — para demonstrar a existência de Deus:



1ª) O Primeiro Motor ImóvelTudo o que se move é movido por outro. No entanto, não é possível um regressso infinito de movimentos. Portanto, deve existir um primeiro motor que cause todo movimento sem ser movido por nada — esse motor imóvel é Deus.


2ª) A Causa Eficiente Primeira - Nada pode ser causa eficiente de si mesmo. Todas as coisas existentes são efeitos de causas anteriores. Para evitar uma cadeia infinita de causas, é necessário admitir uma causa primeira, não causada por outra, que origina todas as demais — Deus (a causa não causada de todas as causas).


3ª) O Ser Necessário - Os seres do mundo são contingentes: existem, mas poderiam não existir. Se tudo fosse contingente, em algum momento nada teria existido. Para que algo exista, é preciso um ser necessário, que exista por si mesmo e seja a causa da existência dos demais — Deus.


4ª) Os Graus de Perfeição - Observamos nos seres diferentes graus de perfeição (bondade, verdade, nobreza). A existência desses graus implica um máximo como referência. Esse ser absolutamente perfeito, que é a medida de todas as perfeições, é Deus.


5ª) A Finalidade ou Governo do Mundo - Seres naturais, mesmo sem inteligência, agem de modo ordenado e orientado a fins. Isso indica a ação de uma inteligência ordenadora, que dirige todas as coisas a seus fins próprios — Deus.



Essas vias não pretendem esgotar o mistério divino, mas demonstrar racionalmente que a fé em Deus não é irracional. Formuladas com notável rigor lógico, profunda coerência metafísica e rara clareza conceitual, elas revelam a firmeza e a racionalidade de uma inteligência excepcional.




Por essa razão, apesar das transformações históricas do pensamento filosófico e científico, tais argumentos continuam a desafiar tentativas de refutação definitiva, permanecendo como referências centrais no debate filosófico contemporâneo sobre a existência de Deus, a causalidade, a ordem do mundo e o fundamento último do ser.




6. Fé e razão: unidade sem confusão



Um dos maiores legados de Tomás de Aquino é sua tese central: "não pode haver contradição entre fé e razão, pois ambas procedem do mesmo Deus." A razão alcança verdades naturais; a fé revela verdades sobrenaturais. Quando corretamente compreendidas, elas se complementam. 



Essa síntese consagrou Tomás como “Doutor Angélico” e “Doutor Comum da Igreja”.




7. Recepção, críticas e legado histórico




Tomás de Aquino é permanentemente reverenciado no pensamento católico como o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios. 




No entanto, filósofos não cristãos — como Bertrand Russell — questionaram seus méritos filosóficos, considerando sua obra excessivamente subordinada à teologia. Apesar dessas críticas, é praticamente unânime o reconhecimento de que o tomismo representa o auge do pensamento medieval cristão e exerceu influência decisiva tanto no catolicismo quanto, de forma indireta, em diversas tradições protestantes.









8. Tomás de Aquino e Aristóteles no cristianismo


Duas constatações merecem destaque:



-A teologia tomista é amplamente estruturada a partir da filosofia aristotélica, reinterpretada à luz da revelação cristã.

-Grande parte do cristianismo ocidental — inclusive denominações evangélicas — opera, consciente ou inconscientemente, com categorias aristotélico-tomistas.



Tomás contribuiu decisivamente para que a Igreja deixasse de considerar Aristóteles um pensador pagão indigno, reconhecendo o valor da razão natural como dom divino. Ele com sua inteligência iluminada pela graça de Deus, demonstrou que a razão não ameaça a fé, mas a fortalece; que a filosofia não substitui a teologia, mas a serve; e que a verdade é una, ainda que acessível por vias distintas. Sua obra permanece, até hoje, como um dos pilares intelectuais da Igreja Católica e da tradição filosófica do Ocidente.





CONCLUSÃO:





Desde Aristóteles, a filosofia ocidental passou a dispor de uma estrutura racional capaz de investigar o ser, o movimento, a causalidade e a finalidade da realidade. Ao afirmar que nada ocorre sem causa, que o conhecimento nasce da experiência sensível e que o mundo apresenta uma ordem inteligível, Aristóteles lançou os fundamentos da metafísica e da lógica que atravessariam séculos. Embora alheio à revelação cristã, seu pensamento forneceu instrumentos conceituais indispensáveis para a reflexão filosófica posterior, especialmente no que diz respeito à racionalidade do real e à possibilidade de conhecimento universal.


Averróis desempenhou papel decisivo na preservação, interpretação e transmissão desse legado aristotélico ao Ocidente medieval. Ao comentar sistematicamente a obra de Aristóteles, reafirmou a autonomia da razão e defendeu que a investigação filosófica, quando corretamente conduzida, não pode contradizer a verdade religiosa. Ainda que suas conclusões — como a eternidade do mundo e a negação da imortalidade individual da alma — tenham entrado em conflito com o cristianismo, sua obra foi fundamental para reacender o debate sobre a relação entre fé, razão e ciência, preparando o terreno intelectual no qual a escolástica floresceria.


É nesse contexto que se destaca São Tomás de Aquino, cuja genialidade consistiu em realizar uma síntese sem precedentes entre a filosofia aristotélica, mediada em parte pelos comentários de Averróis, e a teologia cristã. 



Diferentemente do averroísmo latino, Tomás rejeitou a separação radical entre fé e razão, afirmando que ambas procedem de Deus e, portanto, não podem estar em contradição. Utilizando os princípios metafísicos de Aristóteles, Tomás elaborou uma teologia racionalmente estruturada, culminando nas Cinco Vias, nas quais demonstra, a partir da experiência sensível e da ordem do mundo, a necessidade de um fundamento último do ser.



Assim, a tradição que se inicia em Aristóteles, passa por Averróis e alcança sua maturidade em Tomás de Aquino revela uma continuidade intelectual marcada pela confiança na razão humana e na inteligibilidade da realidade. As Cinco Vias não são meros argumentos históricos, mas expressões duradouras de uma racionalidade firme e consistente, que resistiu ao tempo por não depender de pressupostos científicos contingentes, mas de princípios universais do ser. Essa síntese tomista permanece como um dos mais altos momentos do pensamento filosófico e teológico, demonstrando que a busca racional pela verdade não afasta o homem de Deus, mas o conduz a reconhecer, com lucidez e coerência, o fundamento supremo de toda a realidade.



*Francisco José Barros Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17




BIBLIOGRAFIA:

 

 

-AVERRÓIS, Discurso Decisivo sobre a Harmonia entre a Religião e a Filosofia (trad. Port. de Catarina Belo), Lisboa, 2007


-Enciclopédia Universo, Editora Delta.


-BADAWI, A. La trasmission de la philosophie grecque au monde arabe. Paris, 1968.


-BENMKHLOUF, Ali. Averróis. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.


-BRAGHIROLLI, Elaine Maria, Psicologia Geral, p. 13


-Readers Digest,A História do Homem nos Últimos Dois Milhões de Anos, p. 291


-GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.





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16 de maio de 2016 às 17:15

Muito bom, tudo oq já estudei sobre o Tomás bate igualmente com o conteúdo, e não encontrei tantas informações sobre o Averrois
Parabéns, continue na verdade, e peça ao Espirito Santo que te mostre mais sobre ela
vlws

18 de janeiro de 2019 às 07:43

Excelente base de conhecimento pra o ser humano animal racional.

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