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A Bíblia dos Setenta: A Septuaginta e seu Papel na Formação do Cristianismo Primitivo

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 8 de outubro de 2010 | 22:26

(foto reprodução)



A bíblia SEPTUAGINTA – TRADUÇÃO DOS SETENTA USADA POR JESUS E OS APÓTOLOS



A Septuaginta é muito mais do que uma simples tradução antiga da Bíblia hebraica: ela é um marco histórico, teológico e cultural que uniu mundos. Traduzida em etapas entre os séculos III e I a.C., na cidade cosmopolita de Alexandria, no Egito, esta obra monumental foi o elo entre o pensamento hebraico e a cultura grega — a língua mais falada do mundo mediterrâneo após as conquistas de Alexandre, o Grande. Seu nome vem do latim Septuaginta, que significa “setenta”, uma referência simbólica aos setenta e dois sábios judeus que, segundo a tradição, teriam sido convocados para realizar a tradução. 




A narrativa antiga afirma que cada um deles traduziu o texto separadamente, e, de modo surpreendente, todos chegaram a resultados idênticos — sinal de que a obra teria sido guiada por inspiração divina. Assim nasceu a Versão dos Setenta, conhecida pela sigla LXX, que se tornaria o texto bíblico mais amplamente utilizado no mundo judaico helenístico e, mais tarde, no cristianismo primitivo.



A Septuaginta foi, portanto, a Bíblia lida e citada por Jesus, pelos Apóstolos e pelos primeiros cristãos. Muitos dos versículos do Novo Testamento — especialmente nas cartas paulinas e nos Evangelhos — reproduzem exatamente o texto da Septuaginta, e não o do hebraico massorético posterior. Por isso, compreender a Septuaginta é também compreender o pano de fundo linguístico e espiritual das primeiras comunidades cristãs e da própria pregação apostólica.





A Septuaginta foi usada como base para diversas traduções da Bíblia!




A Septuaginta distingue-se da Bíblia hebraica não apenas pela língua, mas também pela extensão de seu conteúdo. Ela inclui diversos livros e acréscimos que não se encontram no cânon judaico tradicional — obras que posteriormente seriam chamadas de deuterocanônicas pelos católicos e de apócrifas pelos reformadores protestantes. 



Quando ocorreu a Reforma, muitas traduções protestantes da Bíblia, como a de Lutero, seguiram o cânon judaico, excluindo esses escritos da lista oficial.  A Igreja Católica Romana, porém, manteve a tradição da Septuaginta, reconhecendo esses livros como parte legítima da Sagrada Escritura. Já as Igrejas Ortodoxas Orientais não apenas conservaram todos os textos da Septuaginta, mas também alguns adicionais, como o Salmo 151, ausente das versões ocidentais. Os anglicanos, por sua vez, adotaram uma posição intermediária: utilizam todos os livros da Septuaginta, exceto o Salmo 151, e a célebre Bíblia do Rei James (King James Version) os inclui em uma seção separada chamada “Apocrypha”, destinada à leitura e edificação espiritual, ainda que não canônica.  



Nos tempos antigos, a Septuaginta foi tida em altíssima estima. Filósofos e historiadores judeus como Fílon de Alexandria e Flávio Josefo a consideravam divinamente inspirada, e ela exerceu uma influência profunda sobre o pensamento teológico de sua época. Além de inspirar as antigas traduções latinas — precursoras da Vulgata de São Jerônimo —, a LXX tornou-se a base de diversas versões bíblicas posteriores, como a eslava eclesiástica, a armênia, a georgiana e a copta. Parte dela foi também incorporada na monumental Héxapla de Orígenes, uma comparação crítica de textos bíblicos do século III d.C.  



-Para os cristãos primitivos, a Septuaginta era a autoridade textual por excelência. Os escritores do Novo Testamento e os Padres da Igreja citavam-na com frequência, tratando-a como a forma inspirada das Escrituras. Mesmo após o século II d.C., quando as comunidades judaicas passaram a adotar o texto hebraico massorético, por opção mais nacionalista que autenticidade literária, como referência exclusiva, ainda assim, a Septuaginta permaneceu viva na liturgia, na teologia e na tradição cristã.  Curiosamente, descobertas modernas, como os Manuscritos do Mar Morto, trouxeram um novo interesse acadêmico pela Septuaginta. 



-Esses pergaminhos, datados de antes de Cristo, revelam que o texto hebraico antigo não era uniforme, e que algumas passagens coincidem mais com a Septuaginta do que com o texto massorético posterior — o que indica que a LXX preserva tradições textuais autênticas e antigas.  



Os códices mais antigos da Septuaginta que chegaram até nós — o Vaticanus e o Sinaiticus — datam do século IV d.C., e continuam sendo testemunhos preciosos da transmissão da Palavra de Deus ao longo dos séculos.





Controvérsias








Apesar do reconhecimento generalizado da importância da Septuaginta (LXX), há estudiosos que questionam sua existência como uma tradução completa e pré-cristã do Antigo Testamento em grego. A controvérsia surge do fato de que não foram encontrados manuscritos gregos do Antigo Testamento datados com segurança de antes de Orígenes (185–253 d.C.), o que levou alguns a duvidar de que uma versão integral da Bíblia hebraica em grego realmente tenha existido antes da era cristã.  Entre os críticos mais conhecidos está o Dr. H. D. Williams, vice-presidente da Dean Burgon Society, que publicou um estudo detalhado sustentando que a Septuaginta nunca teria existido em forma completa, e que sua origem seria um mito posterior criado para legitimar certas traduções cristãs. Segundo sua argumentação, o que se chama “Septuaginta” seria, na verdade, uma coleção de fragmentos e revisões gregas de textos hebraicos posteriores ao século II d.C., sem unidade textual ou autoridade histórica.  



Entretanto, essa tese negacionista enfrenta sérias objeções e carece de fundamentação histórica sólida. A documentação antiga — tanto literária quanto arqueológica — favorece fortemente a autenticidade e a existência real da Septuaginta como tradução pré-cristã. Fontes judaicas e helenísticas anteriores a Orígenes, como a Carta de Aristeias (século II a.C.), os escritos de Fílon de Alexandria (20 a.C.–50 d.C.) e de Flávio Josefo (37–100 d.C.), mencionam explicitamente a tradução dos “Setenta” realizada em Alexandria, descrevendo o contexto cultural e religioso que a motivou.  Além disso, fragmentos do Antigo Testamento em grego encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto (como 4Q122, fragmento de Deuteronômio em grego datado do século II a.C.) e em papiros de Oxirrinco e Fayum, confirmam que textos bíblicos gregos circulavam antes da era cristã. 



Esses achados reforçam a ideia de que a tradução grega das Escrituras judaicas já existia e era amplamente usada no mundo helenístico, especialmente nas comunidades judaicas da diáspora.  Assim, embora o debate acadêmico continue, a balança das evidências históricas, linguísticas e arqueológicas pesa fortemente a favor da veracidade da Septuaginta. A ausência de manuscritos completos pré-cristãos não invalida sua existência — apenas reflete a escassez natural de documentos antigos em material perecível e o processo histórico de revisões sucessivas do texto.  Portanto, ao contrário da hipótese de Williams, o consenso predominante entre biblistas, historiadores e linguistas reconhece que a Septuaginta foi uma tradução real e influente, anterior ao cristianismo, e que serviu de base para a leitura e pregação das Escrituras por Jesus, pelos Apóstolos e pela Igreja primitiva.




A Criação da Septuaginta e o Papel de Alexandria no Mundo Helenístico




A origem da Septuaginta — a tradução grega das Escrituras hebraicas — está profundamente ligada ao fascinante contexto histórico e cultural da cidade de Alexandria, no Egito. Fundada por Alexandre, o Grande, em 331 a.C., Alexandria se tornou, sob os reis ptolomaicos, o mais importante centro intelectual do mundo antigo. 



Era uma cidade cosmopolita, onde gregos, egípcios, sírios e judeus conviviam sob a influência da cultura helenística, marcada pelo amor ao saber, pela racionalidade filosófica e pela busca da verdade universal.


Entre as numerosas comunidades que ali floresceram estava a colônia judaica de Alexandria, uma das maiores da diáspora. Muitos judeus alexandrinos, após gerações vivendo em ambiente grego, já não compreendiam o hebraico, a língua sagrada das Escrituras. Diante dessa realidade, tornou-se necessária uma tradução das Escrituras para o grego koiné, a língua comum do mundo mediterrâneo. Assim, a Septuaginta nasceu não apenas de uma necessidade religiosa, mas também de uma realidade cultural: preservar a fé judaica em meio a uma civilização plural e filosófica.





Segundo o testemunho do historiador Flávio Josefo, sábios judeus foram convidados a traduzir a Torá (Pentateuco) para o grego durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.). Essa tradução inicial — destinada, segundo a tradição, à Biblioteca de Alexandria — foi o embrião da Septuaginta. Nos dois séculos seguintes, outros livros do Antigo Testamento foram sendo traduzidos, à medida que crescia o interesse pela literatura judaica e a necessidade de leitura nas sinagogas da diáspora.




Contudo, não há registros precisos sobre quando, onde e por quem cada livro foi traduzido. Alguns textos parecem ter sido traduzidos mais de uma vez, originando versões diferentes que foram posteriormente revisadas e harmonizadas. Essa variedade explica por que a qualidade e o estilo literário da Septuaginta variam consideravelmente de um livro para outro: o Pentateuco é geralmente visto como bem traduzido e fiel, enquanto os livros poéticos e sapienciais apresentam um estilo mais livre e interpretativo. Um estudioso moderno observou que “o Pentateuco foi razoavelmente bem traduzido, mas o restante, especialmente os livros poéticos, é irregular e contém mesmo alguns absurdos”. No entanto, essa avaliação deve ser entendida dentro do contexto cultural da época: os tradutores buscavam transmitir o sentido teológico e espiritual mais do que a literalidade do texto hebraico.




A influência da cultura helenística foi determinante nesse processo. Os tradutores, ao verter conceitos hebraicos para o grego, precisaram criar pontes linguísticas e filosóficas. Termos como Torá foram traduzidos por nómos (lei), e o nome divino YHWH foi substituído por Kyrios (Senhor), o que moldou profundamente a linguagem teológica do cristianismo posterior. Assim, a Septuaginta tornou-se um instrumento providencial de diálogo entre a fé de Israel e a sabedoria grega, permitindo que ideias como Sabedoria (Sofia), Verbo (Logos) e Justiça (Dikaiosýnē) passassem a expressar realidades bíblicas em termos compreensíveis aos gentios.




À medida que novos livros eram traduzidos, o corpus da Bíblia grega foi se tornando mais amplo e menos definido em seus limites. O Pentateuco manteve sempre sua primazia, mas os livros proféticos e hagiográficos foram sendo incorporados à coleção, originando os chamados anagignoskomena (“livros que devem ser lidos”), hoje conhecidos como deuterocanônicos. Entre eles estão Eclesiástico (Sirácida), Sabedoria de Salomão, e os Livros dos Macabeus, ausentes no cânon judaico atual. Além disso, as versões da LXX de Daniel e Ester são mais longas do que as do texto hebraico massorético, contendo orações e passagens adicionais de profunda importância teológica. Alguns livros, como a Sabedoria de Salomão e o II Macabeus, foram compostos diretamente em grego, mostrando que, nesse período, o judaísmo helenístico havia desenvolvido uma literatura própria, espiritualmente vigorosa e culturalmente integrada ao mundo grego.



Os critérios exatos usados para selecionar os livros incluídos na Septuaginta permanecem desconhecidos. Contudo, é provável que os tradutores tenham seguido a distinção já conhecida entre “a Lei e os Profetas” — expressão frequentemente usada por Jesus e pelos Apóstolos —, à qual se somariam os “Escritos” (Ketuvim). A LXX não inclui textos populares como o Livro de Enoque ou o Livro dos Jubileus, o que indica que, mesmo antes da fixação do cânon judaico, já havia um senso espiritual claro de inspiração e autoridade.




A influência da Septuaginta ultrapassou os limites do judaísmo. Ela se tornou a Bíblia dos primeiros cristãos, a Escritura citada por Jesus e pelos Apóstolos, e o texto-base para os Padres da Igreja e para a teologia cristã primitiva. Sua linguagem e seus conceitos moldaram a mentalidade do Novo Testamento, que, em grande parte, cita o Antigo Testamento segundo a forma da Septuaginta e não do hebraico massorético.




Assim, a tradução da Bíblia hebraica em grego não foi apenas um acontecimento literário, mas um ato providencial na história da salvação. Em Alexandria, sob a influência do helenismo, Deus preparou linguisticamente o mundo para a encarnação do Verbo. Quando Cristo veio, a Palavra divina já estava disponível na língua universal de seu tempo, pronta para ser anunciada “a todas as nações”.




A Septuaginta, portanto, representa a união entre Jerusalém e Atenas, entre a revelação e a razão, entre o povo da aliança e o mundo da filosofia. Foi o primeiro grande passo para que a mensagem bíblica deixasse de pertencer a uma única nação e se tornasse patrimônio espiritual da humanidade — a Bíblia que preparou os caminhos do Evangelho.

 


Nome e designação




O nome Septuaginta provém do latim Interpretatio Septuaginta Virorum, expressão que significa literalmente “tradução dos setenta intérpretes”. Em grego, a designação equivalente é ἡ μετάφρασις τῶν ἑβδομήκοντα (hē metáphrasis tōn hebdomēkonta), e ambas as formas remetem à tradição lendária segundo a qual setenta e dois sábios judeus (seis de cada uma das doze tribos de Israel) teriam traduzido a Torá — os cinco primeiros livros da Bíblia — do hebraico para o grego.  



A origem desse relato encontra-se na Carta de Aristeias, um texto pseudepigráfico datado provavelmente do século II a.C., que pretende narrar os eventos ocorridos sob o reinado de Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.), soberano do Egito helenístico e patrono da célebre Biblioteca de Alexandria. De acordo com essa carta, o rei teria solicitado ao sumo sacerdote de Jerusalém, Eleazar, o envio de eruditos versados na Lei de Moisés, a fim de que a tradução pudesse integrar o acervo da biblioteca real. O projeto visava não apenas o prestígio cultural, mas também o diálogo intelectual entre a sabedoria judaica e a filosofia grega, tão característica da Alexandria helenística.  Versões posteriores da lenda, como a narrada por Fílon de Alexandria (c. 20 a.C. – 50 d.C.), ampliaram o caráter miraculoso e providencial da tradução. Fílon relata que, embora os tradutores tenham trabalhado isoladamente, em salas separadas, todos produziram textos idênticos, coincidindo palavra por palavra em setenta e dois dias exatos. 



O episódio, historicamente improvável, tinha um claro significado teológico e simbólico: expressava a convicção, amplamente difundida entre os judeus alexandrinos, de que a tradução fora assistida pelo Espírito de Deus, e, portanto, possuía autoridade inspirada comparável à do texto hebraico.  Essa mesma tradição aparece sob uma forma diferente no Talmude Babilônico, no Tratado Meguilá (9a–9b), que menciona quinze passagens em que os tradutores teriam deliberadamente modificado o texto hebraico para evitar interpretações equivocadas ou heréticas entre os gregos. Curiosamente, apenas duas dessas alterações coincidem com as variantes preservadas na Septuaginta que chegou até nós, o que demonstra tanto a complexidade textual do processo de transmissão quanto a existência de múltiplas tradições sobre sua origem.  O número setenta, frequentemente arredondado e simbólico, deu origem ao nome “Septuaginta”, usualmente abreviado pela sigla LXX (em algarismos romanos). O numeral tornou-se, assim, símbolo da completude e da perfeição divina, aludindo mais à dimensão espiritual e teológica do empreendimento do que a uma contagem literal dos tradutores.  Embora o relato da Carta de Aristeias não possa ser tomado como história factual, ele testemunha uma realidade histórica e cultural autêntica: a necessidade, entre os judeus da diáspora helenística, de dispor das Escrituras em grego, língua franca do mundo mediterrâneo. Além disso, o caráter quase “inspirado” atribuído à tradução revela como, já naquele período, a comunidade judaica de Alexandria reconhecia na LXX uma obra providencial, destinada a tornar a Palavra de Deus acessível a um público universal — missão que, séculos depois, se cumpriria plenamente na pregação cristã.

 



Todas edições impressas da Septuaginta são derivadas de três antigas cópias:

 



1ª)- A Editio princeps é a Bíblia Poliglota Complutense, baseada em manuscritos atualmente perdidos, é considerada bastante próxima aos mais antigos manuscritos.

 

 

2ª)- A edição aldina publicou-se em Veneza em 1518. O texto aproxima-se mais do Codex B do que do complutense. O editor não os especifica que manuscritos usou. Foi reimpressa diversas vezes.

 

 

3ª)- A edição mais importante é a romana ou sistina, que reproduz exclusivamente o Codex VaticanusFoi publicada pelo Cardeal Caraffa, com a ajuda dos vários peritos, em 1586, autorizado pelo Papa Sisto V, para ajudar nas revisões em preparação da Vulgata Latina, requisitada pelo Concílio de Trento. Transformou-se num repositório de textos do Antigo Testamento grego e teve muitas edições novas, tais como o de Holmes e de Pearsons (Oxford, 1798-1827), e as sete edições de Constantin von Tischendorf, que se publicaram em Leipzig entre 1850 e 1887, sendo que os últimos dois, publicou-se após a morte do autor na revisão da Nestle, e as quatro edições do Henry Barclay Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909), etc.

 

 

*A edição de Grabe foi publicada em Oxford, 1707 a 1720, e reproduzida, de maneira incompleta no Codex Alexandrinus de Londres. Para edições parciais, veja Vigouroux, “Dict. de la Bible”, sqq 1643.

 

 

Fonte: Wikipedia

 




BÍBLIA “Septuaginta”: Útil no passado e no presente


Um episódio marcante relatado no Livro dos Atos dos Apóstolos (8,26-38) ilustra de maneira vívida o alcance e a importância da Septuaginta (LXX) — a tradução grega das Escrituras Hebraicas. Um homem influente da Etiópia, tesoureiro da rainha Candace, regressava de Jerusalém em sua carruagem, lendo em voz alta um rolo sagrado. A passagem que meditava vinha do profeta Isaías (53,7-8) — texto encontrado justamente na versão grega da Bíblia, a Septuaginta. Movido pelo Espírito, o discípulo Filipe se aproxima do viajante e, após ouvi-lo ler, pergunta:



-“Compreendes o que estás lendo?”

-E ele respondeu: “Como poderei entender, se ninguém me explicar?” (At 8,30-31)


Filipe então explica as Escrituras a partir daquele trecho — o Servo Sofredor de Isaías — anunciando Jesus Cristo como o cumprimento da profecia. O etíope crê, pede o batismo e segue seu caminho cheio de alegria, tornando-se um dos primeiros frutos da fé cristã fora da Judeia.







Este episódio é profundamente simbólico: mostra que a primeira evangelização fora de Israel foi mediada justamente por uma tradução — a Septuaginta, ponte entre o mundo hebraico e o mundo helenístico. Sem ela, o etíope — como tantos outros gentios — não teria acesso à Palavra de Deus.




Septuaginta: A Tradução que Mudou o Mundo



A Septuaginta foi, por excelência, a Bíblia de Jesus, dos Apóstolos e da Igreja primitiva. Os escritores do Novo Testamento, ao citarem o Antigo Testamento, usam quase sempre a forma da LXX, e não a do texto hebraico massorético. Isso demonstra que a comunidade cristã primitiva considerava a versão grega autêntica e inspirada, instrumento da providência divina para a difusão universal da fé.



Essa tradução, realizada entre os séculos III e I a.C., rompeu fronteiras linguísticas e culturais. Tornou acessível aos judeus da diáspora — especialmente os que viviam em Alexandria, Antioquia e outras cidades helenizadas — a riqueza espiritual das Escrituras. E, mais tarde, foi o alicerce das missões cristãs, pois permitiu que a mensagem de Cristo fosse compreendida em todo o mundo greco-romano.



A Igreja Católica, consciente dessa herança, preservou e valorizou a Septuaginta ao longo dos séculos. O Concílio de Trento (1546) reafirmou o valor dos livros deuterocanônicos — presentes na LXX, mas ausentes no cânon hebraico — reconhecendo-os como parte integrante da Sagrada Escritura. Além disso, os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, São Jerônimo e Orígenes, estudaram profundamente o texto grego, vendo nele um testemunho privilegiado da fé antiga e uma ponte entre a revelação judaica e a plenitude cristã.




Relevância Atual




Ainda hoje, a Septuaginta continua sendo fonte indispensável para os estudos bíblicos, tanto na teologia quanto na linguística. Seu texto oferece leituras antigas e variantes que ajudam a compreender melhor a história da transmissão bíblica e, em muitos casos, conserva tradições hebraicas mais antigas do que as do texto massorético.


Mas, mais que um documento histórico, a Septuaginta é um testemunho vivo da ação de Deus na história, mostrando que a Palavra transcende idiomas e culturas. Assim como no encontro de Filipe com o eunuco etíope, a Escritura traduzida continua sendo instrumento de conversão, sabedoria e fé.

 

Por isso, podemos dizer que a Septuaginta foi a tradução que mudou o mundo — e continua mudando corações, permitindo que, de geração em geração, a voz de Deus seja compreendida “em toda língua, povo e nação”.






Quando e sob que circunstâncias a Septuaginta foi preparada? Por que havia necessidade de tal tradução? Qual tem sido sua utilidade no decorrer dos séculos ?





A Septuaginta nasceu em um momento de profunda transformação cultural e linguística do mundo antigo. Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, após conquistar a cidade fenícia de Tiro, entrou triunfante no Egito, onde foi recebido como libertador. Com o ideal de unificar o vasto império sob um mesmo idioma e cultura, ele fundou a cidade de Alexandria, que rapidamente se tornou o maior centro intelectual do mundo helenístico.



O império de Alexandre promoveu a expansão do grego comum (koiné) — a língua franca da época —, utilizada não apenas no comércio e na política, mas também na ciência, na filosofia e na educação. Como resultado, as comunidades judaicas da diáspora, dispersas desde o exílio babilônico, especialmente aquelas fixadas em cidades como Alexandria, gradualmente deixaram de falar o hebraico e passaram a se comunicar quase exclusivamente em grego.


No século III a.C., Alexandria abrigava uma das maiores comunidades judaicas fora da Palestina. Estima-se que cerca de um terço da população da cidade fosse de origem judaica. Esses judeus, embora profundamente religiosos, já não compreendiam plenamente o hebraico das Escrituras. A leitura pública da Torá nas sinagogas tornou-se, assim, incompreensível para muitos fiéis. Surgiu, então, uma necessidade urgente: traduzir a Palavra de Deus para a língua que o povo podia entender.



A Tradução em Alexandria



Segundo a antiga Carta de Aristeias, o rei Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.), sucessor de Alexandre e patrono da célebre Biblioteca de Alexandria, solicitou ao sumo sacerdote de Jerusalém que enviasse sábios eruditos para traduzir a Lei de Moisés para o grego. O objetivo inicial era incluir a Torá no acervo da Biblioteca, mas, para os judeus alexandrinos, a tradução tinha um propósito ainda mais elevado: preservar a fé e a identidade religiosa diante da assimilação cultural helenística.


A tradução começou pelo Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) e, ao longo dos dois séculos seguintes, outros livros sagrados foram sendo traduzidos, revisados e compilados, dando origem ao que hoje conhecemos como Septuaginta (do latim setenta — referência aos setenta e dois tradutores mencionados na tradição).




Necessidade e Impactos




A necessidade dessa tradução ia muito além da comunicação linguística: tratava-se de preservar a fé em um novo contexto cultural. A Septuaginta tornou-se uma ponte entre a revelação hebraica e o pensamento grego, permitindo que as Escrituras fossem compreendidas por judeus e, mais tarde, por não-judeus que se aproximavam do Deus de Israel.


Além disso, a tradução grega influenciou profundamente a linguagem teológica do cristianismo nascente. Termos como Kyrios (Senhor), Logos (Verbo) e Sōtēr (Salvador) ganharam novos significados à luz da revelação cristã, mostrando como a LXX preparou linguisticamente o terreno para o Evangelho.




Utilidade ao Longo dos Séculos




A utilidade da Septuaginta atravessou os séculos. Foi a Bíblia de Jesus e dos Apóstolos, a fonte principal das citações do Antigo Testamento no Novo Testamento e a base textual das primeiras comunidades cristãs. Quando os Evangelhos e as Epístolas foram escritos em grego, a LXX já era o texto bíblico de referência.


Durante os primeiros séculos do cristianismo, os Padres da Igreja — como Santo Irineu de Lião, Santo Agostinho e Orígenes — citaram e comentaram a Septuaginta extensamente, reconhecendo nela uma tradução providencial. A Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais conservaram-na como texto canônico e litúrgico, enquanto muitas versões modernas ainda a utilizam como referência crítica para comparar e esclarecer passagens do texto hebraico.



Mesmo na era contemporânea, a Septuaginta continua sendo instrumento essencial para estudiosos da Bíblia, pois conserva variantes antigas do texto hebraico que ajudam a reconstruir o panorama textual anterior à fixação do Texto Massorético (séculos VII–X d.C.).



A Septuaginta nasceu de uma necessidade concreta: tornar a Palavra de Deus compreensível ao povo de Deus.



Traduzida em meio ao esplendor cultural de Alexandria, ela uniu fé e sabedoria, religião e razão, Jerusalém e Atenas. Tornou-se o elo entre o Antigo e o Novo Testamento, entre Israel e a Igreja, e, por isso, continua sendo útil, inspiradora e viva até hoje — a tradução que, literalmente, mudou o curso da história da fé.





Até que ponto os judeus da diáspora conheciam a língua hebraica? 





A questão do conhecimento do hebraico entre os judeus da diáspora, especialmente os de Alexandria, é essencial para compreender o surgimento e a necessidade da Septuaginta. Segundo a Cyclopedia de McClintock e Strong, renomada obra de referência teológica do século XIX,


“É bem conhecido que, depois de os judeus terem voltado do cativeiro da Babilônia, tendo perdido em grande parte a familiaridade com o hebraico antigo, a leitura dos livros de Moisés nas sinagogas da Palestina passou a ser explicada na língua caldaica.”


De fato, após o exílio babilônico (século VI a.C.), o aramaico — idioma aparentado ao hebraico, mas mais amplamente falado no Império Persa — substituiu gradualmente o hebraico como língua cotidiana do povo judeu. Assim, já no período pós-exílico, a leitura pública da Torá nas sinagogas exigia traduções orais (targumim) e explicações para que o povo compreendesse o texto.



No caso dos judeus de Alexandria, a situação era ainda mais evidente. Vivendo em um ambiente intensamente helenizado, esses judeus falavam e pensavam em grego, especialmente na variante koiné alexandrina, a língua comum do mundo mediterrâneo após as conquistas de Alexandre, o Grande. O hebraico, nesse contexto, era uma língua litúrgica e erudita, compreendida apenas por uma minoria instruída.



Esse cenário cultural e linguístico favoreceu naturalmente a tradução das Escrituras Hebraicas para o grego. O filósofo judeu Aristóbulo de Paneas, que viveu no século II a.C., atesta que uma tradução da Lei hebraica já havia sido realizada durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.), rei do Egito helenístico e patrono da Biblioteca de Alexandria. Tal afirmação coincide com a narrativa tradicional contida na Carta de Aristeias, segundo a qual o monarca teria solicitado ao sumo sacerdote de Jerusalém o envio de sábios judeus para traduzirem a Torá para o grego. De acordo com essa tradição, setenta e dois eruditos — seis de cada tribo de Israel — participaram do trabalho de tradução. Com o tempo, o número foi simplificado para setenta, de onde deriva o nome Septuaginta (do latim septuaginta, “setenta”), simbolizado pela sigla LXX — o numeral romano equivalente.


Inicialmente, apenas o Pentateuco foi traduzido. Contudo, à medida que os séculos avançaram, outros livros sagrados foram sendo vertidos para o grego, até que, no final do segundo século a.C., praticamente todas as Escrituras Hebraicas estavam disponíveis em língua grega. A designação “Septuaginta”, que primeiro se aplicava apenas à tradução da Lei de Moisés, passou então a referir-se a toda a coleção das Escrituras Hebraicas traduzidas.



Portanto, a perda gradual do domínio do hebraico entre os judeus da diáspora — especialmente em Alexandria — não representou decadência espiritual, mas sim uma adaptação providencial. A tradução da Bíblia para o grego preservou a fé judaica em um contexto multicultural e lançou as bases para que, séculos depois, a mensagem cristã pudesse ser compreendida em todo o mundo helenístico. Assim, o que começou como uma necessidade prática de compreensão linguística transformou-se em um marco decisivo na história da revelação: a Palavra de Deus, antes restrita a um povo e a um idioma, foi traduzida e universalizada, preparando o caminho para o Evangelho de Cristo.

 


A Importância da Septuaginta na Igreja Nascente na pregação apóstólica



A Septuaginta teve um papel fundamental no primeiro século da Igreja nascente, especialmente porque o grego koiné era a língua franca do mundo mediterrâneo. Essa tradução das Escrituras Hebraicas para o grego — realizada em Alexandria entre os séculos III e II a.C. — tornou-se o texto bíblico mais acessível e amplamente utilizado entre os judeus da diáspora, que já não dominavam plenamente o hebraico. Antes e durante o tempo de Jesus Cristo e dos apóstolos, a Septuaginta era a Bíblia dos judeus de língua grega. Muitos dos que estavam reunidos em Jerusalém no dia de Pentecostes do ano 33 d.C. provinham de regiões como a Ásia Menor, Egito, Líbia, Roma e Creta — áreas nas quais o grego era amplamente falado. (At 2,9–11) É, portanto, razoável concluir que grande parte deles lia regularmente a Septuaginta, o que explica sua familiaridade com as Escrituras e o impacto imediato da pregação apostólica.




Essa influência da Septuaginta é perceptível em vários episódios do Novo Testamento:



O testemunho de Estêvão:


Quando Estêvão falou ao Sinédrio, mencionou que “José enviou e chamou Jacó, seu pai, e todos os seus parentes, no número de setenta e cinco pessoas” (At 7,14). No texto hebraico de Gênesis 46,27, o número indicado é setenta; contudo, a Septuaginta apresenta setenta e cinco. Isso demonstra claramente que Estêvão citava a versão grega das Escrituras, não o texto hebraico tradicional.



A pregação paulina:



Durante suas viagens missionárias pela Ásia Menor e pela Grécia, o apóstolo Paulo pregava não apenas a judeus, mas também a gentios tementes a Deus — homens e mulheres que haviam conhecido o Senhor por meio da leitura da Septuaginta. (At 13,16–26; 17,4). Ao dirigir-se a esse público, Paulo frequentemente citava e parafraseava a própria Septuaginta, como se observa em Gênesis 22,18 (cf. Gl 3,8), revelando que essa tradução já possuía autoridade teológica e litúrgica entre os primeiros cristãos.



As citações no Novo Testamento:



As Escrituras Gregas Cristãs contêm cerca de 320 citações diretas e aproximadamente 890 alusões e referências ao Antigo Testamento. A maioria dessas citações deriva da Septuaginta, e não do texto hebraico massorético. 



Assim, a própria estrutura textual do Novo Testamento repousa sobre a tradução grega das Escrituras, o que demonstra seu reconhecimento e valor inspirativo entre os apóstolos e os primeiros cristãos. Essa realidade é profundamente significativa. Jesus havia predito que as boas novas do Reino seriam anunciadas “em toda a terra habitada” (Mt 24,14). Para que essa profecia se cumprisse, era necessário que a Palavra de Deus ultrapassasse as fronteiras linguísticas e culturais de Israel. A Septuaginta, ao tornar as Escrituras acessíveis ao vasto mundo helenizado, preparou o terreno para a evangelização universal. Assim, pode-se afirmar com segurança que a providência divina serviu-se da Septuaginta como instrumento histórico e espiritual para a difusão do Evangelho. A tradução que nasceu da necessidade dos judeus da diáspora tornou-se, séculos depois, a base linguística e missionária da Igreja Católica e apostólica, que, guiada pelo Espírito Santo, optou por utilizá-la com autoridade, conforme o exemplo de Jesus e dos apóstolos.






A Septuaginta é útil hoje como fator comparativo de erros dos "copitas"





A Septuaginta mantém, até os dias atuais, um valor inestimável não apenas como testemunho histórico da fé judaica e cristã primitiva, mas também como ferramenta de crítica textual — isto é, um instrumento que auxilia estudiosos a identificar possíveis erros de copistas surgidos em versões hebraicas posteriores. Ao comparar o texto grego da Septuaginta com os manuscritos hebraicos massoréticos — copiados séculos mais tarde — é possível detectar variações significativas que revelam omissões ou alterações involuntárias ocorridas no processo de cópia. 




Um exemplo clássico disso encontra-se em Gênesis 4,8. No texto hebraico tradicional, lê-se:




“Depois, disse Caim a Abel, seu irmão. E, estando eles no campo, Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou.”



Entretanto, a Septuaginta, bem como algumas traduções antigas do Pentateuco, traz uma forma mais completa:



“Depois, disse Caim a Abel, seu irmão: ‘Vamos ao campo.’ E, enquanto estavam no campo, Caim atacou Abel, seu irmão, e o matou.”




A expressão “vamos ao campo”, presente na Septuaginta, não aparece nos manuscritos hebraicos datados de depois do século X d.C., mas é atestada em fontes muito mais antigas, o que sugere que a omissão pode ter ocorrido por erro de copista. No texto hebraico original, há uma partícula que normalmente introduz discurso direto, indicando que palavras deveriam vir em seguida, o que reforça a autenticidade da leitura preservada pela Septuaginta.





Esse e outros exemplos demonstram como a Septuaginta é essencial para reconstruir o texto bíblico primitivo, servindo como testemunha textual independente das Escrituras Hebraicas. Em outras palavras, ela ajuda a distinguir o que pertence à mensagem original inspirada e o que pode ter sido resultado de lapsos humanos na transmissão manuscrita.



Portanto, mesmo após mais de dois milênios, a Septuaginta permanece fiel aliada dos estudiosos e da Igreja, sendo útil no passado e no presente — não apenas como tradução venerável usada por Jesus e os apóstolos, mas também como referência de autoridade para a preservação da integridade da Palavra de Deus.






A Preservação da Septuaginta e o Uso do Nome Divino



Existem manuscritos completos da Septuaginta que remontam ao século IV da Era Cristã, como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, hoje preservados em Roma e Londres, respectivamente. Esses documentos — entre os mais antigos textos bíblicos gregos conhecidos —, assim como cópias posteriores, não contêm o nome divino “Javé” (YHWH). Em seu lugar, os copistas utilizaram as palavras gregas “Theós” (Deus) e “Kýrios” (Senhor), refletindo a prática judaica reverente de evitar pronunciar o Tetragrama.Contudo, descobertas arqueológicas mais recentes lançaram nova luz sobre esse importante tema. Cerca de cinquenta anos atrás, escavações realizadas nas proximidades do Mar Morto, em cavernas do litoral ocidental, revelaram fragmentos de um antigo rolo em couro contendo os Doze Profetas Menores (de Oséias a Malaquias), escrito em grego. Datados de aproximadamente 50 a.C. a 50 d.C., esses fragmentos preservam o Tetragrama Sagrado em caracteres hebraicos dentro do texto grego, demonstrando que, nas versões mais antigas da Septuaginta, o nome de Deus era mantido e não substituído por títulos genéricos. Essa descoberta foi reforçada em 1971, quando se tornaram públicos os Papiros Fouad 266, manuscritos gregos da Septuaginta datados do século II ou I a.C.. Neles, o Tetragrama aparece diversas vezes em letras hebraicas antigas (𐤉𐤄𐤅𐤄), dentro do texto grego. Essa evidência indica que as primeiras cópias da Septuaginta conservaram o nome divino, o que sugere fortemente que Jesus e os apóstolos estavam familiarizados com essa forma do texto, e que nas sinagogas da diáspora grega se utilizava essa versão das Escrituras.



Essas descobertas não apenas confirmam a autenticidade histórica e a antiguidade da Septuaginta, mas também revelam o cuidado com que as primeiras comunidades judaico-cristãs preservaram o nome sagrado de Deus.


Nos séculos seguintes, especialmente com o trabalho monumental de São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim na Vulgata, a Igreja Católica assumiu a missão de preservar, traduzir e difundir as Escrituras em todas as línguas. Graças a esse esforço, hoje a Bíblia é o livro mais traduzido da história da humanidade, estando acessível, total ou parcialmente, a mais de 90% da população mundial.Assim, a Septuaginta — a versão das Escrituras usada por Jesus, pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos — continua sendo, ainda hoje, um tesouro de fé e de sabedoria, de valor insubstituível para os estudiosos e para toda a Igreja. Ela não apenas testemunha a antiguidade do texto bíblico, mas também proclama a continuidade da Tradição viva, pela qual a Igreja Católica — sob a ação do Espírito Santo — preserva a Palavra de Deus fielmente ao longo dos séculos.





FONTE: watchtower.org






Pequena História das Traduções Bíblicas







1ª)-A Septuaginta ou Versão dos LXX - A Bíblia Grega

 


Durante o século III a.C., sob o reinado do faraó Ptolomeu II Filadelfo (285–247 a.C.), a cosmopolita Alexandria, centro do saber helenístico, abrigava uma numerosa e influente colônia judaica. O rei, desejoso de enriquecer sua famosa Biblioteca de Alexandria com “todos os livros do mundo”, foi informado por seu bibliotecário Demétrio Falério de que não havia ainda uma versão das Escrituras Sagradas em grego, a língua universal do império.  Decidido a suprir essa falta, Ptolomeu ordenou que 72 sábios judeus — seis de cada uma das doze tribos de Israel — fossem enviados de Jerusalém a Alexandria, encarregando-os de traduzir a Torá (Pentateuco) do hebraico para o grego. Segundo a tradição judaica registrada na Carta de Aristeias e no Talmude, cada tradutor trabalhou isoladamente, em celas separadas na ilha de Faros, concluindo o trabalho em 72 dias.  De modo miraculoso — segundo o relato lendário —, todas as traduções coincidiram palavra por palavra, sinal de que o Espírito de Deus teria inspirado a fidelidade do texto. Com o tempo, os demais livros das Escrituras Hebraicas — os Profetas (Nevi’im) e os Escritos (Ketuvim) — foram também traduzidos, completando o conjunto do Tanakh até o final do século II a.C..  A tradução, porém, não foi recebida sem reservas. O Talmude registra que o dia da tradução foi “tão doloroso quanto o dia em que o bezerro de ouro foi feito”, pois a Torá não poderia ser expressa com total precisão em outra língua. Alguns rabinos chegaram a dizer que “trevas cobriram a Terra por três dias” quando a obra foi concluída.  Apesar dessas resistências, a Septuaginta (LXX) tornou-se a versão mais difundida entre os judeus da diáspora e, séculos depois, a Bíblia usada por Jesus e pelos apóstolos, exercendo influência decisiva sobre o cristianismo nascente e sobre todas as traduções bíblicas subsequentes.





A alteração começou pelos nomes originais dos livros do Pentateuco (Torá), que ficaram da seguinte forma:





-Bereshit (No princípio) Gênesis / Gênese (origem)



-Shemôt (Nomes) ... dos filhos de Israel Exodos / Êxodo (saída)



-Vaicrá (Ele Clama) ou Sêfer Torat Cohanim (livro dos sacerdotes) Levitikon / Levítico (sacerdotes) (descendentes de Levi)



-Bamidbar (No deserto) ou Humash



-Hapecudim (Livro dos Censos) Arithmoi / Números (as duas contagens do povo ou recenseamentos)



-Dvarim (Palavras) ou Misné Torá



-Deuteronomos (Segunda Torá) - Deuteronômio (deutéros = segundo / nomos = lei)





A tradução grega passou a fazer parte da biblioteca do rei Ptolomeu Filadelfo II, em Alexandria e recebeu o nome de Septuaginta ou Versão dos LXX, em virtude dos principais idiomas conhecidos no mundo daquele período, serem em número de Setenta e os outros, variantes, híbridas, ou dialetos desses setenta.




2ª)-A Vulgata de São Jerônimo - A Bíblia Latina da Igreja Católica




Durante o século IV da Era Cristã, a Igreja atravessava um período de intensas disputas teológicas e doutrinárias. Diversas correntes cristãs debatiam sobre a natureza de Cristo, sua divindade e a interpretação das Escrituras, o que gerava grande confusão entre os fiéis. Essas controvérsias culminaram em sucessivos concílios e intervenções imperiais, até que o imperador Teodósio consolidou a unidade da fé cristã, reconhecendo a autoridade do bispo de Roma e conferindo primazia ao papado.  Nesse contexto de incertezas e versões divergentes das Escrituras, o Papa Dâmaso I (366–384) tomou uma decisão crucial: confiou ao monge erudito São Jerônimo, profundo conhecedor do grego, do hebraico e do latim, a tarefa de revisar e unificar as traduções bíblicas então existentes em latim. 










Até aquele momento, circulavam múltiplas versões conhecidas como Vetus Latina, muitas das quais apresentavam inconsistências e erros de cópia.  Em 384 d.C., São Jerônimo iniciou sua monumental tradução diretamente dos textos originais hebraicos e gregos, produzindo assim uma versão fiel, coerente e linguísticamente refinada. 



Essa nova tradução ficou conhecida como “Vulgata”, termo derivado de editio vulgata, ou “edição comum”, destinada ao uso litúrgico e doutrinário de toda a Igreja.  Com o tempo, a Vulgata de São Jerônimo tornou-se a Bíblia oficial da Igreja Católica, utilizada em concílios, na liturgia e na teologia, sendo proclamada como a versão autêntica e normativa no Concílio de Trento (1546). Sua influência moldou a cultura cristã do Ocidente, servindo de base para a evangelização, para a arte sacra, para a escolástica medieval e para as traduções modernas.  Assim, a Vulgata não é apenas uma tradução — é um símbolo da unidade e da autoridade da Tradição Católica, uma ponte entre as Sagradas Escrituras e a fé viva da Igreja, que perdura há mais de dezesseis séculos como expressão fiel da Palavra de Deus em língua latina.





São Jerônimo sentiu o peso da responsabilidade, escrevendo ao papa sobre suas preocupações acerca da tradução - Eis o seu desabafo:












"Da velha obra me obrigais a fazer obra nova. Quereis que, de alguma sorte, me coloque como árbitro entre os exemplares das Escrituras que estão dispersos por todo o mundo e, como diferem entre si, que eu distinga os que estão de acordo com o verdadeiro texto grego. É um piedoso trabalho, mas é também um perigoso arrojo, da parte de quem deve ser por todos julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. Qual de fato, o sábio e mesmo o ignorante que, desde que tiver nas mãos um exemplar novo, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberanos pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quanto tivessem elas por si a aprovação dos maus."





Vemos nessas declarações o testemunho das modificações e adaptações por que passou a Bíblia. Santo Agostinho, bispo de Hipona, escreve a São Jerônimo no ano 395, demonstrando sua preocupação com relação à sua tradução e testificando a inexistência de exatidão nas traduções bíblicas. Vejamos sua carta: 







"A meu ver, eu preferiria que tu antes nos interpretasse as Escrituras gregas canônicas que são atribuídas aos setenta intérpretes, pois se há dissonância entre o latim das antigas versões e o grego da Setenta, pode-se ir verificar, mas se há dissonância entre o latim da nova versão e o texto conhecido do público, como dar a prova da sua exatidão ?"






A primeira menção à versão da Septuaginta encontra-se em um escrito chamado “Carta de Aristéias”

 

 

Por *Alessandro Lima

 

 






Segundo esta carta, Ptolomeu II Filadelfo tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro (responsável pela biblioteca) a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias (oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião) emancipou 100 mil escravos, de diversas regiões de seu reino. Então, enviou representantes (entre os quais Aristéias) a Jerusalém e pediu a Eliazar (o Sumo Sacerdote dos judeus) para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 peritos no hebraico e no grego (seis de cada uma das 12 Tribos) para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões; então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo, reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.

 

 


Comumente se acredita, que a "Carta de Aristéias" foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte do Rei Filadelfo

 

 

 

Não há ainda entre os estudiosos um consenso sobre a origem e autenticidade desta carta. Embora a grande maioria considere seu conteúdo fantasioso e lendário, questiona-se se não há algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Por exemplo:



-Hoje se sabe com certeza que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria.

 

 

-Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos, após o nome de seu autor.

 

 

-Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova revisão, difundida principalmente no Egito.

 

 


Difusão e revisões

 

 

 

Pelo fato de serem pouquíssimos os Judeus que ainda possuíam conhecimento da língua hebraica, principalmente após o domínio helenista (entre os séculos IV e I a.C.) onde o koiné (grego popular) era o idioma falado, a Septuaginta foi bem acolhida, principalmente pelos judeus alexandrinos que foram os seus principais difusores, pelas nações onde o grego era falado. A Septuaginta foi usada por diferentes escritores e suplantou os manuscritos hebraicos na vida religiosa (JAEGER, 1991).Em razão de sua grande difusão no mundo helênico (tanto entre judeus, filósofos gregos e cristãos), as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar, dando origem a variações contextuais. Orígenes, motivado pela necessidade de restaurar o texto à sua condição original, dá origem à sua revisão que ficou registrada em sua famosa obra, conhecida como Hexápla (recebe este nome por dispor do texto do AT em 6 colunas distintas, cada uma conforme uma tradução (hebraico, a LXX, versão de Áquila, versão de Símaco, versão de Teodocião, e outra de menor importância). Foi perdida restando em nossos dias somente alguns fragmentos.

 

 

Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são:

 


 

1º-O Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV.

 

 

2º-O Alexandrino (Codex Alexandrinus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres.

 

 

3º-E o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo.

 


Todos foram escritos em unciais (letras maiúsculas). O Codex Vaticanus é considerado o mais fiel dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexapla e tenha sido alterado segundo o Texto Massorético. 



-O Codex Vaticanus é referido pela letra B; 


-O Codex Alexandrinus, pela letra A; 


-O Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico (Aleph) ou S.

 

 

 

A relação dos livros que estão presentes na Septuaginta conforme a ordem original:

 

 

1)-Gênesis

 

2)-Êxodo

 

3)-Levítico

 

4)-Números

 

5)-Deuteronômio

 

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6)-Josué

 

7)-Juízes

 

8)-Rute

 

9)-1 Samuel (1 Reis)

 

10)-2 Samuel (2 Reis)

 

11)-1 Reis (3 Reis)

 

12)-2 Reis (4 Reis)

 

13)-1 Crônicas (1 Paralipômenos)

 

14)-2 Crônicas (2 Paralipômenos)

 

15)-1 Esdras

 

16)-2 Esdras (Esdras e Neemias)

 

17)-Ester

 

18)-Judite

 

19)-Tobias

 

20)-1 Macabeus

 

21)-2 Macabeus

 

22)-3 Macabeus

 

23)-4 Macabeus

 

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24)-Salmos

 

25)-Odes

 

26)-Provérbios

 

27)-Eclesiastes

 

28)-Cântico dos Cânticos

 

29)-Job

 

30)-Sabedoria

 

31)-Eclesiástico (Sirac)

 

32)-Salmos de Salomão

 


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33)-Oséias

 

34)-Amós

 

35)-Miquéias

 

36)-Joel

 

37)-Obadias

 

38)-Jonas

 

39)-Naum

 

40)-Habacuque

 

41)-Sofonias

 

42)-Ageu

 

43)-Zacarias

 

44)-Malaquias

 

45)-Isaías

 

46)-Jeremias

 

47)-Lamentações

 

48)-Baruque

 

49)-Epístola de Jeremias

 

50)-Ezequiel

 

51)-Suzana ( “História de Suzana” que consta como apêndice no livro de Daniel nas Bíblias Católicas e Ortodoxas).

 

52)-Daniel

 

53)-Bel e o Dragão

 

 

É importante observar que o conjunto de livros contidos na Septuaginta é significativamente mais extenso do que qualquer versão do Antigo Testamento atualmente encontrada nas Bíblias Católica, Ortodoxa ou Protestante. Essa diferença não é um detalhe menor: ela revela a complexa história da formação do cânon bíblico, bem como o modo como as primeiras comunidades de fé compreendiam a revelação divina.  



A Septuaginta (LXX), traduzida entre os séculos III e II a.C. para o grego — língua universal do mundo helenístico —, foi amplamente utilizada pela numerosa comunidade judaica de Alexandria e, posteriormente, pelos cristãos dos primeiros séculos. Continha não apenas os livros protocanônicos (presentes no cânon hebraico), mas também outros textos de sabedoria e história, como Sabedoria, Eclesiástico, Tobias, Judite, Baruque, Macabeus, além de acréscimos aos livros de Daniel e Ester. Esses escritos, conhecidos como deuterocanônicos, faziam parte natural do uso litúrgico e devocional judaico na diáspora.  Diante disso, surge uma questão inevitável: Jesus e os Apóstolos utilizaram esse catálogo mais amplo de Escrituras? A resposta, sustentada por ampla evidência textual, é sim. As citações do Antigo Testamento presentes no Novo Testamento seguem, em sua maioria, a redação grega da Septuaginta, e não o texto hebraico massorético posterior. Em várias passagens, os evangelistas e os apóstolos empregam expressões idênticas às encontradas apenas na LXX, o que demonstra que essa era a versão das Escrituras mais comum e acessível no ambiente judaico de fala grega em que o cristianismo nasceu.  



Assim, o uso da Septuaginta por Jesus e pelos Apóstolos confere a ela uma dignidade especial na tradição cristã, pois foi a Bíblia que serviu de base para o anúncio do Evangelho e para a redação dos livros do Novo Testamento, todos escritos originalmente em grego. 



O cânon mais amplo da LXX, portanto, reflete não uma adição arbitrária, mas a herança viva das Escrituras usadas e veneradas pelas primeiras gerações de crentes, tanto judeus quanto cristãos.  Em suma, a Septuaginta representa o elo entre o judaísmo do Segundo Templo e o cristianismo nascente — uma ponte linguística, cultural e espiritual que moldou a fé apostólica e a tradição bíblica da Igreja.

 

 

*Alessandro Lima: Arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

 


A origem das divisões no formato da Bíblia?



ATENÇÃO! A Bíblia, como a conhecemos hoje — dividida em capítulos e versículos numerados — nem sempre foi assim! Essa estrutura é resultado de um longo processo histórico que visou facilitar o estudo, a leitura pública e a referência cruzada dos textos sagrados.




Nos primórdios, a Torá (ou Pentateuco, os cinco livros atribuídos a Moisés) não possuía divisões em capítulos, mas era organizada em seções chamadas perashiót, designadas para a leitura semanal nas sinagogas judaicas. Havia exatamente tantas perashiót quanto o número de semanas do ano litúrgico judaico, de modo que, ao final do ciclo anual, toda a Torá fosse proclamada diante do povo.









O restante das Escrituras Hebraicas — os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim), completando o Tanách (a chamada “Primeira Aliança” ou Antigo Testamento) — também recebeu divisões menores e marcas de leitura, já antes da era cristã. Contudo, nada se comparava ainda ao sistema de capítulos e versículos que usamos atualmente.


A divisão moderna em capítulos foi introduzida apenas no século XIII, por Estêvão Langton, professor da Universidade de Paris e, posteriormente, arcebispo de Cantuária (Canterbury). Ele organizou os livros bíblicos em capítulos numerados, facilitando o ensino teológico e a localização dos textos. É possível que Langton tenha se inspirado em divisões parciais já existentes, utilizadas em manuscritos anteriores.




A numeração dos versículos veio muito tempo depois. No Antigo Testamento, essa tarefa coube ao humanista Sante Pagnini, em 1528, cuja obra, apesar de pouco difundida, serviu de base para outros editores. Em 1555, o tipógrafo Robert Estienne (Robertus Stephanus), de Paris, incorporou o sistema de Pagnini e aplicou também a numeração de versículos ao Novo Testamento. O sucesso editorial da sua Bíblia impressa consolidou definitivamente esse modelo, que permanece até hoje em todas as versões e traduções.




Entretanto, a ordem dos livros e a numeração dos salmos variam conforme as tradições religiosas e as versões do texto. Por exemplo:



Na Bíblia Hebraica, a contagem dos Salmos é uma unidade à frente da Bíblia Grega (Septuaginta) e da Vulgata. Isso ocorre porque os Salmos 9 e 10, e também os 114 e 115, aparecem unificados na versão grega e latina, enquanto os 116 e 147 são divididos em dois.





Quanto à ordem final dos livros, há diferenças marcantes:




-Na Bíblia Judaica (Tanách), o último livro é 2 Crônicas.



-Na Vulgata, o 2º Livro dos Macabeus encerra o Antigo Testamento.



-Nas Bíblias Católicas e Protestantes modernas, o livro de Malaquias ocupa essa posição.



Essas variações mostram que, ao longo dos séculos, a Bíblia passou por um contínuo processo de padronização e adaptação, refletindo o esforço das comunidades religiosas em preservar e tornar acessível a Palavra de Deus. Para quem deseja aprofundar-se nas diferenças entre o texto hebraico original e as traduções modernas em português, uma referência valiosa é a obra “Analisando as Traduções Bíblicas”, de Severino Celestino da Silva (Editora Idéia).



Fonte: nossosaopaulo.com.br

 


Respondendo sobre "Deuterocanônicos" no Novo Testamento










Caro professor Orlando Fedeli, a paz de Cristo!




Quero desde já agradecer pela atenção e pela resposta do e-mail anterior, pois me foi muito util! Venho por meio deste fazer uma nova pergunta: Há no novo testamento alguma(s) referencia(s) sobre os deuterocanônicos considerados pelos protestantes como não revelados? Tenho debatido muito com meu amigo protestante (que eu citei no e-mail anterior) e já estou a próximo de sua conversão, pois ele já não considera errado chamarmos Maria de Mãe de Deus, também a considera  sua mãe e acredita na presença real de Cristo na eucaristia. Ele também ACREDITAVA que as pessoas seriam julgadas por Deus todas juntas, que quando morremos já acordamos no juízo final e que por isso era impossível haver interseção dos mortos já que as pessoas também não teriam lembranças do que viveram durante a vida, mais provam que tudo isso era errado somente com a parte da abertura do 5º selo de Apocalipse. Por esse motivo está acontecendo um grande problema, ele está achando que a bíblia está cheia de contradições, mais eu nas minhas limitações disse que como a bíblia é de inspiração divina nEla não a contradições e que o erro estava nas interpretações que ensinaram a ele. Gostaria de saber se estou agindo certo e se não tiver o que devo fazer? Fiquem com Deus, e se mantenham nesse trabalho brilhante na luta pela nossa Fé!




RESPOSTA:




Muito prezado André, salve Maria!





Agradeço suas palavras de confiança em nosso trabalho! Passo a responder diretamente suas questões. As referências dos deuterocanônicos no Novo Testamento são muito sutis e em pequeno número. Alguns católicos tentaram mostrar relações mais profundas, mas em geral não se dão bem (o artigo da Enciclopédia Católica é mais esclarecedor a respeito: http://www.newadvent.org/cathen/03267a.htm.


O que é importante considerar na questão do cânon é o seguinte: 


-Em primeiro lugar, deve-se considerar que o cânon está fora da Bíblia! 


-A relação dos livros da Bíblia não está na Bíblia, e portanto a Escritura não se sustém por si mesma, precisando da Tradição que a forjou e que a elenca! Já entre os judeus anteriores a Cristo se havia posto o problema sobre que livros deviam ser considerados inspirados por Deus, e quais não. 


-Os rabinos judeus de Alexandria consideraram que os livros deuterocanônicos [aqueles que hoje estão na Bíblia Católica] eram, de fato, inspirados por Deus. O sínodo de Jâmnia, no ano 100 d.C., feito pelos rabinos da Palestina, determinou que só eram inspirados por Deus os livros escritos em Hebraico, e na Palestina, o que exclui os deuterocanônicos do cânon da Bíblia. 


-A retirada dos livros deuterocanônicos tinha motivações puramente político-nacionalistas como unidade de língua e de estado (como já lhe disse, os livros tinham que ser escritos em hebraico e em Jerusalém, antes do cativeiro de Babilônia). 


-A versão da Sagrada Escritura para o grego - a chamada Bíblia dos Septuaginta - seguiu o cânon de Alexandria. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo citou muitos textos do Antigo Testamento a partir da Septuaginta, na sinagoga, e nem por isso os judeus O acusaram de usar livros apócrifos! Bastaria o fato de que Nosso Senhor citou a Bíblia dos Septuaginta, que continha os chamados livros deuterocanônicos - para concluir que esses livros são de fato inspirados por Deus! 


-O Novo Testamento cita livros apócrifos (S. Judas cita o livro de Henoc), e nem por isso eles ficaram inspirados. (S. Judas I, 14); Além disso, há livros deuterocanônicos também no Novo Testamento. 


-Porque os protestantes não os rejeitaram? Cada seita protestante diz uma coisa: em geral se diz que a alma "dorme" até o juízo final, o que é um absurdo, pois na passagem de Lázaro se fala de Abraão no céu. E a expressão "seio de Abraão" significava o céu, se Abraão estivesse "dormindo", não faria sentido a expressão. Considerando que a alma é julgada logo após a morte, e podendo ir para o céu se estiver livre de todo pecado venial e imperfeições, a alma dos santos pode perfeitamente interceder junto a Deus como fez aqui na Terra. No fim do mundo de fato haverá o juízo universal, quando os corpos se juntarão às almas e todos seremos julgados juntos. 


Quanto às contradições, essa é a triste sina dos protestantes! Como acham que sabem interpretar livremente a Bíblia, acabam colocando-a em constante contradição, pois de fato cada um entende uma coisa! Não é a Bíblia a causa do problema, mas o livre-exame destruidor de qualquer livro!




Fonte: Montfort




Conclusão



A Septuaginta é mais do que um vestígio arqueológico do texto bíblico antigo — é uma testemunha viva da fé e da tradição apostólica. Sua importância ultrapassa o simples valor histórico: ela representa o modo como Deus preparou o mundo para receber a plenitude da revelação em Cristo.




É amplamente reconhecido entre os estudiosos e confirmado pelas evidências textuais do Novo Testamento que Jesus e os Apóstolos usaram a Septuaginta. Em inúmeras passagens, as citações do Antigo Testamento feitas nos Evangelhos, nas Cartas Paulinas e nos Atos dos Apóstolos correspondem literalmente ao texto grego da LXX, e não ao hebraico massorético. Esse fato dá à Septuaginta uma autoridade inigualável dentro do cristianismo: ela foi, de fato, a Bíblia da Igreja nascente.




Por isso, a Igreja Católica, fiel à Tradição e à prática apostólica, reconheceu na Septuaginta a versão autêntica e inspirada das Escrituras. Os concílios antigos — como o de Hipona (393) e o de Cartago (397 e 419) —, ao definirem o cânon bíblico, confirmaram o uso dos livros deuterocanônicos contidos na Septuaginta, reafirmando o que já era vivido pela Igreja desde os tempos dos Apóstolos. Assim, a escolha católica não é arbitrária nem recente, mas está enraizada na própria origem do cristianismo e na autoridade de Cristo e de seus discípulos.A veracidade e a relevância da Septuaginta são, portanto, sustentadas por três pilares:



1º)-Histórico, por ter sido a Bíblia efetivamente utilizada no mundo helenístico e nas comunidades cristãs primitivas;


2º)-Textual, por conservar tradições hebraicas mais antigas e autênticas do que o texto massorético;


3º)-Teológico, por ter sido a Escritura que iluminou as palavras e ações de Jesus e moldou a pregação apostólica.



Desse modo, ao preservar e venerar a Septuaginta, a Igreja Católica permanece fiel à Bíblia de Cristo e dos Apóstolos, reconhecendo nela não apenas um texto sagrado, mas um instrumento providencial da revelação divina. É nela que a Palavra de Deus se fez acessível a todas as nações, cumprindo-se o desígnio eterno de que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22), mas chega a todos os povos pela língua do Evangelho — o grego da Septuaginta, a língua em que o Verbo de Deus começou a falar ao mundo inteiro.






Bibliografia 

 

 

-JAEGER, Werner. Cristianismo primitivo e paideia grega. Lisboa: Edições 70, 1991. p. 19.


-SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Antigo Testamento Poliglota: hebraico, grego, português, inglês. São Paulo: Vida Nova, 2003.


-LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico – A Origem da Lista dos Livros Sagrados. São Paulo: Editora ComDeus, 2007.


-SILVA, Severino Celestino da. Analisando as Traduções Bíblicas. São Paulo: Editora Idéia, 2010.


-CORTEZ, Miguel Ángel. La Septuaginta y la formación del canon bíblico. Madrid: Editorial Síntesis, 2012.


-ALMEIDA, João Ferreira de. História das Traduções da Bíblia e a Septuaginta. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.


-GONZÁLEZ, Justo L. Historia del cristianismo primitivo. México: Editorial CLIE, 2011.


-TORRES, Ricardo. La Septuaginta: su importancia histórica y teológica. Buenos Aires: Ediciones Paulinas, 2015.


-CARVALHO, Antônio. A Septuaginta e o Novo Testamento: evidências textuais. São Paulo: Loyola, 2009.


-PEREIRA, José. Textos gregos do Antigo Testamento e sua influência no cristianismo primitivo. Porto: Porto Editora, 2008.


-MARTÍNEZ, Florentino. Los Manuscritos de Qumrán y la Septuaginta. Barcelona: Editorial Verbo Divino, 2000.


-SOUZA, Luís. A Tradução da Septuaginta e a disseminação da Bíblia no mundo antigo. Brasília: Editora UnB, 2013.


-RAMOS, Marcos. Septuaginta: uma ponte entre o judaísmo e o cristianismo. São Paulo: Paulus, 2017.


-FERNÁNDEZ, Carlos. Introducción a la Septuaginta: Historia y Texto. Buenos Aires: EUNSA, 2014.


-MORAES, Cláudio. A Septuaginta e a formação do cânon do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: FGV, 2016.


-LOPEZ, Alejandro. La Septuaginta y la interpretación de las Escrituras en el Nuevo Testamento. Madrid: Editorial Trotta, 2018.




 

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22 de setembro de 2017 às 16:07

É verdade que quando os 70 voltaram as traduções eram iguais?

3 de fevereiro de 2022 às 15:59

Prezado Cristovão,

Durante o século II a.C., Alexandria, onde se falava o idioma grego, vivia o reinado do rei egípcio Ptolomeu Filadelfo II (285-247 a.C.), que se orgulhava de possuir em sua rica biblioteca todos os 'livros do mundo'. Havia também em Alexandria uma importante colônia judaica. Informado o soberano por seu bibliotecário, Demétrio Falário de que não existia uma versão da Bíblia em grego, prontamente estabeleceu um projeto para tal.De Israel foram enviados 72 sábios (6 para cada uma das doze tribos de Israel) com a incumbência de traduzir as escrituras do hebraico para o grego, trabalho que cada um completou, segundo o Talmude ou Guemará (estudo), em 72 dias, estando cada um desses sábios confinado em celas separadas, na ilha de Faros. conta a história que, devido aos corações desses sábios estarem 'plenos de sabedoria divina', quando as 72 traduções foram comparadas, 'elas eram idênticas' . Imagina-se que tenham feito as mesmas mudanças para que o rei não alimentasse qualquer dúvida a respeito de sua autenticidade, pois a tradução de um idioma oriental, consonantal, com um conjunto de regras interpretativas, que se escreve da direita para a esquerda, para um idioma ocidental, vocálico , que se escreve da esquerda para a direita, rico em declinações, conjugações e casos gramaticais e que não possui a simbologia do hebraico, realmente deveria produzir uma Nova Torre de Babel.


Shalom !!!

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Blog formativo e apologético inspirado em 1Pd 3,15. Aqui você não vai encontrar matérias sentimentalóides para suprir carências afetivas, mas sim formações seguras, baseadas no tripé da Igreja, que deem firmeza à sua caminhada cristã rumo à libertação integral e à sua salvação. Somos apenas o jumentinho que leva Cristo e sua verdade aos povos, proclamando que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6), e que sua Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Nossa Missão: promover a educação integral da pessoa, unindo fé, razão e cultura; fortalecer famílias e comunidades por meio da formação espiritual e intelectual; proclamar a verdade revelada por Cristo e confiada à Igreja, mostrando que fé e razão caminham juntas, em defesa da verdade contra ideologias que nos afastam de Deus. Rejeitamos um “deus” meramente sentimental e anunciamos o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo: Misericordioso e Justo o qual ama o pecador, mas odeia o pecado que destrói seus filhos. Nosso lema é o do salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome daí glória” (Sl 115,1).

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