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Senhoras e Senhores apresento-lhes a TEOLOGIA DE JOELHOS de um verdadeiro Católico: Gilbert Keith Chesterton

Written By Beraká - o blog da família on segunda-feira, 8 de junho de 2015 | 22:45






Um “Pai da Igreja, forçado pela necessidade dos tempos e do mistério a pregar num estilo burlesco às multidões dos céticos e dos gaudérios”, um novo “Abram de Domenico Cavalca, que enfiou um capuz sobre a armadura e ataviou-se com belas vestes, para entrar no local de perdição a fim de converter a sobrinha”, um “bispo vestido palhaço“ (E. Cecchi), um “gênio colossal”, o “Chesterbelloc” (G.B.Shaw), “tão alegre que se poderia quase ficar tentando a acreditar que ele de fato encontrou Deus” (F. Kafka), “um presente oferecido à comunidade católica (e a toda humanidade) diretamente por Deus” (Cardeal G. Biffi), “um dos melhores que existem” (E. Hemingway), “talvez nenhum autor me tenha proporcionado tantas horas felizes como Chesterton” (J. L. Borges), “Crianchesterton”  (PE. J.O’Connor), “Defensor fidei” (papa Pio XI).




Partindo das mil maneiras utilizadas para definir esse homem, logo perceberemos que estamos diante de um gênio, um homem excepcional sob todos os pontos de vista. “ Gilbert Keith Chesterton foi excepcional de verdade. Em sua Autobiography [Autobiografia] ele afirma, mostrando toda sua personalidade amável e polêmica, humorística e cheia de alegria:



“Curvando-me com certa credulidade, como costumo fazer, ante a mera autoridade e a tradição de meus antepassados, fruindo superticiosamente uma história que, quando aconteceu, não me foi possível controlar como experiência pessoal, tenho a mais convicta opinião de ter nascido no dia 29 de maio de 1874, em Campden Hill, Kensington, e de ter sido batizado, segundo as fórmulas da Igreja Anglicana, na igrejinha de São Jorge, situada na frente da torre da caixa d’água que domina aquela paisagem elevada.”



Mas de onde provêm essa personalidade tão vivaz e essa alegria profunda e contagiante que deixaram nos leitores marca tão forte?


A pergunta se faz óbvia diante de homens de tal quilate. Tudo leva a pensar que se trata de um presente, como diz o cardeal Biffi, um presente inesperado. É como uma semente caída numa terra que não esperava outra coisa. Uma feliz intuição de liberdade da razão e otimismo em relação à vida; germina num contexto familiar afetuoso e receptivo ao bom, cresce primeiro nas margens e depois no lugar onde tudo isso se sente em casa, a Igreja. Assim nasce um autêntico gênio do pensamento e da vida, Chesterton.



Nasce numa família não comum:


O pai Edward trabalha no setor imobiliário, sócio com seu irmão Sidney de uma agência que existe até hoje; sereno e despreocupado, transmite aos filhos o amor pela arte e literatura, o gosto pelo fantástico e uma desenfreada paixão por brinquedos, em primeiro lugar pelo teatro de marionetes. “Inglês no grau máximo”, uma espécie de Sr. Pickwick, dirá Gilbert; liberal e unitarista, mais propenso às discussões que ao fervor religioso.A mãe é Marie Louise Grosjean, cujo pai era suíço (pregador leigo calvinista) e a mãe escocesa. A avó escocesa é que vai abrir para Gilbert as portas do “ensolarado país das fábulas”, para o ele tecerá pela primeira vez em The Defendant [O réu] e ao qual atribuirá um fundamental valor moral e teórico em Ortodoxia. Terá a seu lado outro irmão, Cecil, ele também jornalista, nas batalhas jornalísticas e culturais.



Sua infância é serena, cheia de brinquedos e de afeto; não brilha de modo especial nos estudos e no fim da escola superior precisa acertar as contas especial nos estudos e no fim da escola superior precisa acertar as contas com a solidão e a depressão: desorientado diante da vida e do futuro, tenta a universidade sem obter nenhum êxito, em seguida uma escola de arte (será também bom pintor e desenhista); perde o contato com seus caros amigos do Junior Debating Club, todos na universidade, e fecha o jornal que juntos haviam fundado, The Debater; pratica o espiritismo, do que se arrependerá amargamente.



Essa é uma confusão desgastante para um homem fundamentalmente bom e inocente como ele é e será a vida inteira. Mas no fim sai de modo milagroso (essa é a expressão mais adequada) desse túnel aparentemente sem saída (no qual acalentou, como ele mesmo admite, até a idéia mais insana), graças à leitura do livro bíblico de Jó. A esse respeito contará depois numa carta a um amigo algo bastante estranho, uma experiência mística:


“Tenho certeza de que cada coisa é o que é porque assim deve ser. Agora a visão está se desvanecendo na vida do dia a dia e me sinto feliz por isso. É embaraçoso falar com Deus cara a cara, como se fala com um amigo.”



A partir de então, a partir da inesperada granítica certeza (ou melhor, confirmação depois da prova) da intrínseca positividade da existência, enveredada por uma vida totalmente nova, sentindo um desejo incontrolável de dizer ao mundo que a vida é bela, que estamos aqui e poderíamos não estar e que se pode preservar o dom inestimável da inocência sem renunciar a nada da vida. São os motivos que fundamentam o pensamento de Chesterton, e deles nascerá toda sua vasta reflexão.


Isso é o que alegrará todos os anos de sua vida, literalmente dedicados à máxima difusão da feliz descoberta, sem poupar energias. São intuições naturais, que percorrem sem trégua sua obra inteira, como um rio subterrâneo que aparece     e desaparece, mas que sabemos estar sempre por trás de cada linha, cada palavra.



Descobre seu talento de escritor e começa a colaborar com muitos jornais; consegue em pouco tempo um sucesso imprevisto. Cresce cada vez mais o número de pessoas que se perguntam quem será esse “GKC” que assina aqueles artigos tão originais, bem escritos, cheios de inelutáveis paradoxos e bom-senso. Os primeiros artigos resultam no volume The Defendant [O réu] de 1901 (uma defesa do indefensável, desde as pastorinhas de porcelana aos thrillers de dez tostões...), e depois de alguns textos poéticos ele assina em 1904 seu primeiro romance, The Napoleon of Notting Hill [Napoleão de Notting Hill], narrativa surreal onde encontramos o seu amor pelas pequenas pátrias que o caracterizará por toda a vida, a coragem de lutar pela própria casa e o próprio altar, princípio de toda ousadia, e os ecos da guerra anglo-bôer.


Paradoxalmente Chesterton ganha notoriedade opondo-se ao imperialismo britânico, considerado pelos ingleses mais do que uma fé religiosa, e colocando-se na defesa dos camponeses bôeres num país em que isso é comparável a uma blasfêmia e alegremente provocando, junto com Hillare Belloc, seu amigo de toda a vida, até mais do que algum materialíssimo safanão por essa causa.



Desse ponto em diante temos um homem novo que delineará uma imagem absolutamente inédita do escritor, brilhante e apaixonado amante da verdade e do bom humor, jamais separados.

Não deixa de ser verdade o que dele disse Emilio Cecchi:


É um bispo vestido de palhaço, alguém obrigado a pintar o nariz de verde a fim de atrair nosso olhar para a verdade. Ele se faz paladino da vida normal, da família, da ordem contra o caos, do senso comum. Mostra ao mundo com o entusiasmo de um apóstolo e a alegria de uma criança que há mais aventura na vida “normal” do que em qualquer romance de aventura, mesmo numa família onde nenhuma “aventura” acontece.



O padre Ian Boyd, presidente do Chesterton Institute for Faith and Culture, sublinha que “a exuberância e o modo divertido que caracterizavam o jovem Chesterton foram elementos decisivos na criação de sua imagem pública. Ele chegava a ser citado por quem nunca havia lido nenhuma de suas obras. As suas frases tornaram-se rapidamente proverbiais.” Sua fama de arguto debatedor rapidamente se faz enorme. Ele é “a delícia dos cartunistas” (Ian Boyd) por seu perfil inconfundível (ele, que na adolescência era um sujeito alto e enxuto, com o passar dos anos torna-se um gigante com mais de um metro e noventa de altura pesando cento e trinta quilos (ou mais), que alimenta histórias e lendas de todos os tipos (uma delas é a seguinte: Chesterton se levantava no ônibus e de repente havia espaço para que três mulheres se sentassem...).



Mais uma vez é o padre Boyd quem nos diz que Chesterton “via a literatura como uma profecia; ele se tornara o depositário das e dos idéias de seus leitores. Expressava por eles o espírito de uma das épocas mais exuberantes desde o período isabelino. Personificava a energia e o otimismo edwardianos e o espírito que mais tarde foi definido em sua biografia de São Tomás de Aquino como ‘aquele que se alimentava de fatos universais e também de um forte apego à vida”’.



Em 1905, escreve Heretics [Heréticos], o ensaio que mostra, na crítica das idéias e das figuras em voga em seu tempo, seu distanciamento pessoal em ralação ao “pensamento” segundo o qual “a verdade cósmica tem um peso tão insignificante que nada do que alguém diga pode ter importância alguma”. E mais adiante: “Em volta de qualquer inocente mesa de chá, todos os dias acontece de ouvir-se alguém sentenciar”: ‘A vida não vale  a pena’. E ninguém acha que essa consideração difere desta outra: ‘Hoje o tempo está bom’; ninguém pensa que isso exerça algum efeito nos homens e no mundo”.


Toda a sua vida será uma alegre luta contra esse mal de viver; dirá de fato em outra passagem: “Desentocar e combater o mal é o princípio de todas as alegrias.” Só assim é possível compreender Chesterton e seus vibrantes personagens.



Escreve num ritmo torrencial artigos sobre qualquer assunto que julgue dever discutir (Alberto Castelli dirá que sua vida foi uma única interminável discussão), praticamente sobre tudo, aonde quer que o empurre seu ela vital milagrosamente reconquistado. Trava batalhas em qualquer campo, como, por exemplo, na polêmica antieugênica. Sua produção jornalística é imensa, um “desperdiço de arte e de ideias” que “causa uma sensação quase angustiante” (Emilio Cecchi). Sua assinatura aparece, entre outros, em periódicos como “Daily News”, “The Speaker” e “The Ilustrade London News”. Também publica sólidos ensaios sobre literatura enfocando R. L. Stevenson, Browning, Tennyson, Blake e outros autores, e mais adiante lança The Victorian Age in Literature (A época vitoriana na literatura), obra que muitos consideram de grande valor.



Em 1908 Chesterton atinge um momento de extraodinária clareza acerca do objetivo de sua vida e obra, e dá à luz duas de suas obras-primas, nas quais talvez seja mais vibrante e eficaz toda a lucidez recebida como dom inesperado: The Man Who Thursday (O homem que era Quinta-Feira) e Ortodoxia, reelaboração literária e teórica das passagens fundamentais de sua experiência humana até aquele ponto: o renascer a partir do absurdo e a redescoberta da fé cristã mediante a experiência da razão aberta à realidade. Essas obras foram com razão como “autobiográficas” (Ian Boyd).




A Primeira é uma espécie de romance policial metafísico – dizem empregando uma expressão feliz – com o significativo subtítulo de Um pesadelo. Obra visionária, entre o místico e o grotesco, altamente poética e simbólica, ela faz um relato muito autobiográfico da descoberta da beleza e bondade da vida que é um mistério, e da possibilidade real da felicidade para o ser humano. É um livro repleto de referências ao Livro de Jó, ao qual Chesterton deve sua salvação. Gabriel Syme, o protagonista, é no fundo Gilbert, o homem com olhar de poeta, que descobre o ponto de fuga, presente em toas as coisas, que conduz ao Mistério, à origem de tudo. O monsenhor Ronald Knox, amigo de Chesterton e, como ele, brilhante autor de romances policiais e convertido ao catolicismo, afirma:


Trata-se de um livro extraodinário: é como se o editor lhe houvesse pedido para escrever um romance do gênero O peregrino empregando o estilo de As aventuras do Sr. Pickwick”. É a história do homem, de cada um de nós, que depois de mil confusões de forte sabor policial (porque no fundo numa vida normal há muito mais aventura do que em qualquer romance de detetive...) descobre o segredo da vida.

Ortodoxia relata a tentativa do autor no sentido de encontrar respostas para o mistério da vida e sua descoberta de que tudo o que ele procurava está no Credo dos Apóstolos; é a intuição da razão que caminha assombrada e feliz rumo à fé, ocasionada pelo desafio de G. S. Street, que depois de ler sua obra Heretics  (Hereges) fizera o seguinte comentário: “Com a minha filosofia [...] começarei a preocupar-me depois que o Sr. Chesterton tiver apresentado a dele.”


Chesterton, com uma comparação fulminante e engraçada – a história de um homem que deixa a Inglaterra em seu barquinho e aporta diante do pavilhão no litoral de Brigthon convencido de ter descoberto uma nova terra selvagem -, narra sua tentativa de inventar uma nova religião (é ele, portanto, o iatista... fantasioso, que vamos encontrar em outros textos) e a descoberta de que ela já foi “inventada”, é o cristianismo. Mais uma vez afirma o padre Ian Boyd:
          


Chesterton acreditava que no fundo de todas as realidades mais profanas cada um fosse capaz de encontrar a Deus. Poucas vezes ele escreveu sobre temas religiosos, mas nas ruas urbanas, ele conseguiu descobrir o mistério religioso presente no fundo de todas as coisas.Chesterton chega assim à conclusão de que o cristianismo é para o ser humano “a maior fonte de sanidade mental”. Ortodoxia contém páginas inteiras de autêntica e agudíssima compreensão da vida, pela qual devemos ser eternamente gratos.



Dessa sua consciência nasce um fantástico romance, breve e muito intenso. Manalive (O homem vivo), publicado em 1911. Narra a história de Inocêncio Smith (nome e sobrenome nada casuais, personificação da inocência e da normalidade), que empreende uma viagem pelo mundo e também é iatista, e depois é acusado (pelo míope de alguns inquilinos da mesquinha Casa Beacon) de homicídio, furto, abandono da família, sua única e amada frente, que ele havia perdido na paralisia da rotina quotidiana. Um homem, diz Chesterton, que não aceitava estar morto enquanto ainda estava vivo. Em outras palavras, ele mesmo.


Essa, como praticamente todas as suas obras narrativas, apresenta aspectos nitidamente autobiográficos, embora dispersos no suerral. Sua intenção é falar da própria vida que é a vida de qualquer homem, e do mistério que nela existe, para não morrer.



Mas O homem vivo está em cada um de nós (um verdadeiro e adequado motivo poético para Chesterton) e precisa de ajuda; precisamos de alguém que nos empuree no Mistério e para o Mistério, e que do serviço quotidiano prestado ao Mistério tenha feito sua vida: padre Brown, sacerdote católico romano (como dizem os ingleses), detetive primeiro da alma e depois das coisas matérias. O primeiro de uma longa e feliz série de contos que têm como protagonista o semi-invisível padrezinho inglês foi lançado em 1911, e se inspira numa das pessoas mais importantes na vida de Gilbert e de sua mulher Frances Blogg, o padre Jonh O’Connor, sacerdote irlandês que se estabeleceu na Inglaterra, homem de extraordinária Inteligência e argúcia, bem descrito num capítulo memorável da Autobiography [Autobiografia], a primeira característica do padre Brown é o fato de ele ter não ter características, e sua importância consiste em não parecer importante, tudo contrastando com sua atenção e inteligência, graças a sua experiência de padre e confessor, na mente de quem cometeu o delito, compartilhando com ele tudo exceto o ato de delito final, como explica o próprio Chesterton em O segredo do padre Brown.

Em 1914 Chesterton foi acometido por uma grave enfermidade que quase lhe custou a vida, deixando aturdida aquela Inglaterra que, embora por ele muitas vezes criticada, correspondia sinceramente a seu amor. Nesse mesmo ano sai um romance profético e visionário, The Flying Inn (A pousada voadora); é a história de uma Inglaterra em que se instala um governo filoislâmico com o objetivo de eliminar no país todos os bares e casas onde se vendem bebidas alcoólicas, mas que encontra Patrick Dalroy o herói que – tendo atrás de si um barrilote de rum, uma peça de queijo e o distintivo do pub “O velho marinheiro” – conduz a rebelião contra a insensatez e desumanidade desse tipo de governo. É um hino ao bom humor cristão e contra os sincretismos impossíveis.



Em 1922 ele opta pelo catolicismo. Não faltou nisso a colaboração de amigos como o padre O’Connor, o padre Vicent McNabb (vibrante domenico irlandês defensor, como ele, do distributismo) e Hilaire Belloc. È o ancouradouro definitivo, nada fácil nem mesmo depois de toda um existência devotada a demonstrar ao mundo a sensatez da vida cristã. Naquele abençoado dia, em sua casa em Beaconsfield, Gilbert declara:



“Os sábios têm mapas que desenham ao mundo universos densos como árvores, agitam a razão com mil peneiras que retêm a areia e deixam passar o ouro; para mim tudo isso ale menos que o pó porque meu nome é Lázaro e estou vivo”. A conversação origina também maior reflexão, e um Chesterton parcialmente diverso do brilhante jornalista em voga nos anos anteriores; isso lhe custará a perda de muitas amizades em sua prórpia casa (no fundo a desconfiança em relação ao Roman Catholic não morre facilmente nem nos dias de hoje).

No ano subseqüente à conversão Chesterton publica a biografia de São Francisco de Assis, talvez o santo por quem mais se apaixonará por seu poder de profecia e menestrel, de amante e forte contestador de seu tempo.Em 1925 sai O homem eterno. Começa com o recorrente motivo da viagem e é uma excursão histórica do homem sobre esta terra, com a qual o nosso Autor prova que o cristianismo é o fator supremo de civilização em todas as épocas. Do mesmo modo que se fala do cristianismo como fonte de sanidade mental para o homem, nessa obra se fala do cristianismo como fator de civilização para o mundo.


Se Ortodoxia é uma resposta ao desafio de Street, O homem eterno é a resposta a The Outline of History, de H. G. Wells, e seu “darwinismo histórico”.



A partir de agora Chesterton viaja muito, especialmente pelo Canadá e Estados Unidos, aquele país criticado por ele mas que lhe reserva acolhidas triunfais, em sua turnês que se tornarão proverbiais. Visita a Palestina, a França, várias vezes a Itália, que muito amava da mesma forma que amava os países católicos como a Irlanda e a Polônia (são “esses onde ainda se canta, se dança e se vestem roupas vistosas e onde a arte vive ao ar livre”, afirmava Chesterton), que também visita.

Em 1933 publica a biografia de santo Tomás de Aquino, definido por Etienne Gilson como a mais bela obra sobre o “Boi mudo”. “Ao lê-la não se pode pensar em outra hipótese que não seja a do gênio...” Colabora também em transmissões radiofônicas na BBC, conseguindo imensa popularidade.



Mas quem define Chesterton?


Chesterton ama a gente comum porque Deus “criou muita gente assim”, sua querida mulher, a tradição por ser “a democracia dos mortos”, a cerveja e os bares “onde tinha seu trono” e “extravasava humorismo (R. Church)”; nele a liberdade e dogma são sinônimos; ele ri feito criança e é sábio como um velho de muitos séculos. Ama os bebês e a inocência (isso mesmo, a inocência!) que transforma na quintessência do homem verdadeiro e sobretudo vivo; participa das festas geralmente  entediado e mata o atirando cenouras no ar para depois apanhá-las com a boca fazendo rir as crianças presentes; ele é alguém que sai de casa para se casar, mas não deixa de passar pela padaria, freqüentada na infância com sua mãe, para beber um copo deleite, como também não deixa de levar consigo uma pistola, porque o casamento, senhores, é uma grande aventura e então é bom que se vá ao encontro dele devidamente armado...



Uns afirmam que ele é conservador, outros que é progressista: lamento dizer isso, mas rotulá-lo assim significa ter lido pouco ou apenas trechos de sua obra. Chesterton só descobriu a vida, seu segredo a ser defendido com o sacrifício e até com o próprio sangue, a ser difundido discursando sobre os telhados e chegando para isso até aloucura, a ser sempre defendido na vida sempre tendo em vista sua Fonte, o próprio Deus, cuja casa é a Igreja católica. Talvez ele não seja muito politicamente correto, tanto ontem como hoje. Mas está errado?





Chesterton foi um grande homem, também, porque sabia rir-se de tudo e de todos, a começar de si mesmo: num desenho intitulado “Como eu sou”, vemo-lo muito gordo (como de fato era), desajeitado, cabelos desgrenhados; num outro, “Como eu gostaria de ser”, encontramo-lo de perfil, barba desenhada, porte nobre. Saber rir-se de si mesmo, afinal, é uma das marcas da verdadeira humildade.


Defendia o matrimônio e a família, o homem comum, o bom senso, a beleza e a Igreja. Desconfiava da concentração de poder e da abundância material. Era otimista, mas não tolo. Tinha uma visão alegre da existência e gostava da polêmica e dos paradoxos.


Sobre esse último ponto, aliás, vale ressaltar que Chesterton recorria constantemente aos paradoxos não como um garoto em busca de auto-afirmação, mas com a intenção consciente de apresentar a realidade tal como ela é. De acordo com Gustavo Corção, “Chesterton não procurou nos seus tão admirados paradoxos fazer acrobacias verbais, e muito menos procurou jogos para agradar os jovens e os imaturos. Pascal, com seu timbre de abismos, não é mais trágico nem mais sério do que Gilbert Keith Chesterton”.


Na obra Heretics (1905), atacou com fino humor e lógica impecável o subjetivismo ético de George Moore, o socialismo desumanizador de Bernard Shaw, o imperialismo de Rudyard Kipling, o historicismo naturalista de Herbert George Wells, o esteticismo aético de Oscar Wilde. Chesterton explicava ali por que não era ele próprio um seguidor das filosofias da moda: não as seguia porque as compreendia, via a desordem sobre a qual estavam fundadas. O escritor inglês, afinal, sempre soube enxergar as contradições de seus contemporâneos; foram eles, com suas inúmeras contradições, e não os cristãos, que o empurraram para a fé cristã.



Ortodoxia (1908), uma de suas obras-primas, pode ser vista como um resumo da filosofia de Chesterton. O resumo daquilo em que acreditava e que um dia percebeu, não sem espanto, coincidir com o credo cristão. O livro foi escrito como resposta a um crítico de Heretics, que cobrava de Chesterton a exposição de sua própria visão de mundo. Dizia o crítico que atacar e destruir todo o mundo era fácil; difícil mesmo era construir uma visão sólida e coerente da realidade. Então Chesterton, “sempre disposto a escrever um livro à menor provocação”, escreveu Ortodoxia, em que tentava demonstrar, entre outras coisas, que:

1) o racionalismo levado às últimas conseqüências conduz ao suicídio do pensamento;

2) a tradição tem um caráter democrático (dar o direito de voto aos nossos antepassados);

3) a teoria da felicidade condicional, ou “ética do país das fadas”, é a mais sadia: tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa que é negada.

4) a doutrina cristã traz um acerto paradoxal (o ponto de equilíbrio entre virtudes contrárias).

Sobre o segundo ponto, o caráter democrático da tradição, isto é, a transmissão da cultura, do legado grego, romano e judaico e do legado da Europa nos últimos dois mil anos, vale dizer que, num mundo de devastação cultural como o atual, essa herança espiritual corre grande perigo. Tratava-se, para Chesterton, de uma tradição sagrada, que salvaguarda as verdades eternas, que falam com autoridade para cada nova geração.


A mais alta função da arte, portanto, é expressar os fatores comuns mais elevados da vida humana e não os seus denominadores comuns inferiores – os amores da vida e não suas luxúrias. É nesse sentido que devemos entender a literatura de Chesterton.



Ao contrário da austeridade que a princípio o título pode sugerir, Ortodoxia significa nada mais, nada menos que “a opinião certa”. Quer dizer que há uma opinião certa e outra errada sobre o que somos nós e o mundo onde vivemos, e que a diferença entre as duas importa fundamentalmente no modo como vivemos. Embora não seja uma autobiografia, é uma obra bastante autobiográfica. (Embora Chesterton não fosse católico quando a escreveu, Ortodoxia é provavelmente um dos melhores livros católicos escritos no século XX).


A filosofia de Chesterton ali exposta lhe dava liberdade para aceitar ou rejeitar os milagres com base nas evidências. Já o filósofo determinista estava obrigado, por princípio, a rejeitar todos os milagres sem sequer examiná-los. Logo, Chesterton, o ortodoxo, era mais livre que o filósofo determinista, escravo de seus postulados e preconceitos.



Naturalmente, com a fama literária, chegaram convites para conferências nos mais distantes pontos da Inglaterra e a aquisição de novos e importantes amigos: Joseph Conrad, Henry James, Baden Powell, Winston Churchill e Thomas Hardy, para citar apenas alguns.



Suas inquietações espirituais se canalizaram em certo momento para o espiritismo. Nessa mesma época conheceu Frances Blogg, sua futura esposa. Ele, idealista e distraído; ela, prática e de fortes convicções religiosas, anglicana praticante. Enquanto Frances era ordenada, metódica, comedida e pontual, o marido era o típico gênio distraído, pródigo, desleixado com a aparência pessoal e sem ter idéia do tempo. Shaw o definiu como um “querubim gigantesco”: um menino disfarçado de adulto, com sua cara gorda e redonda e sua expressão infantil. Duas anedotas ilustram bem esse aspecto da personalidade de Chesterton: Um dia sua esposa recebeu um telefonema do marido, que se encontrava numa estação de trem: "Estou em Harborough Market. Onde deveria estar agora?" Noutra ocasião, distraído como sempre, Chesterton pediu um café à senhorita que trabalhava no guichê de... uma estação ferroviária.


Embora apreciasse muito a companhia de crianças, Chesterton não teve filhos porque sua esposa não os pôde ter, mas em compensação teve uma excelente secretária, a Sra. Dorothy Collins, que foi como uma filha adotiva para o casal. Por fim, ela acabou se tornando administradora do legado literário do patrão, levando adiante a publicação de suas obras após a morte.



Apesar da distração, a capacidade do “apóstolo do senso comum” para o trabalho era impressionante:


Chesterton escreveu uma centena de livros, contribuições para outros duzentos, centenas de poemas (entre os quais um épico), cinco peças de teatro, cinco romances e uns duzentos contos, incluindo a popular série de contos policiais do Padre Brown, que foi inclusive adaptada para televisão. Escreveu mais de 4000 artigos, entre os quais trinta anos de colunas semanais para o Illustrated London News e treze anos de colunas semanais para o Daily News, além dos textos diversos que redigiu para o seu próprio jornal, G.K.’s Weekly.



Foi esse alegre homenzarrão inglês quem escreveu um romance intitulado O Napoleão de Nothing Hill (1904), que inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independência da Irlanda, e também um artigo no Illustrated London News que inspiraria Mohandas Gandhi a liderar o movimento que pôs fim ao domínio colonial inglês na Índia. É O Napoleão de Notting Hill, aliás, considerada por muitos como a melhor novela escrita por qualquer um dos grandes escritores de ficção ingleses.



Em 1911 começou a sua aproximação mais séria ao catolicismo:


Foi nesse período que o escritor inglês conheceu o Padre John O'Connor, que lhe inspirou a criação de um dos personagens mais conhecidos da literatura policial inglesa: o Padre Brown. O clérigo “baixinho, de rosto afável e expressão de duende”, como o definiu seu criador, dá conta de resolver todos os casos, não apoiado na lógica mais rigorosa e no método científico, mas partindo simplesmente da sua experiência, do senso-comum, do conhecimento da natureza humana. O padre detetive assim se expressa numa de suas histórias: “O criminalista olha para o criminoso como um ser estranho e abjeto; eu o vejo como a mim mesmo, capaz de cometer qualquer barbaridade: daí que me pergunto como faria o que ele fez.”. As histórias do Pe. Brown, embora muito divertidas, não são apenas entretenimento, porque a habilidade do detetive para solucionar crimes está baseada no seu conhecimento profundo da natureza humana, adquirido no dia-a-dia do confessionário.



Do contato com o Pe. O'Connor nasceu o desejo de Chesterton de se fazer católico, ele era então anglicano. Nesse processo foi fundamental também a ajuda de seus amigos Maurice Baring e o Pe. Ronald Knox. Numa carta ao amigo Belloc, Chesterton mais tarde assim se expressava:


“A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido”.


Seu processo de conversão, no entanto, foi lento:



O homem que tanto podia debater seriamente com pensadores do porte de um Bertrand Russell quanto se divertir com crianças numa festinha de aniversário, entrou na Igreja Católica em 1922.


Sua conversão foi então um dos mais comentados eventos religiosos na Europa desde a conversão do cardeal John Henry Newman, ocorrida 75 anos antes. Mais tarde, também sua esposa Frances se converteria ao catolicismo.



Na sua Autobiografia (1936), afirmava que:


“a teologia católica é “a única não só que pensou, mas que pensou sobre tudo.Que quase todas as demais teologias ou filosofias contêm alguma verdade, não o nego; ao contrário, é isso o que afirmo, e é disso que me queixo. Sei que todos os demais sistemas ou seitas se contentam com seguir uma verdade, teológica ou teosófica, ética ou metafísica; e, quanto mais reclamam-se universais, mais isso significa que colhem algo e o aplicam a tudo”.Só a teologia católica era, e é, universal.”



Quando lhe perguntaram por que afinal se converteu ao catolicismo, Chesterton respondeu: “Porque eu queria me livrar dos meus pecados.” E arrematou: “A Igreja Católica é a única que realmente apaga os pecados.” Ecoando a história de Santo Tomás e a velhinha, Chesterton confessava na Autobiografia que o catecismo lhe ensinou tudo o que a ciência, a filosofia pagã e o mundo não sabem. Ensinou-lhe o óbvio: que o orgulho e o desespero são pecados e que o único remédio para eles é estar no mundo com humildade. Só a aceitação de grandes mistérios, concluía Chesterton, depois de estudar inúmeras filosofias e aderir a diversos “ismos”, é capaz de manter a lucidez do espírito humano; sua negação conduz invariavelmente à loucura: “Aceitar todas as coisas é um exercício, mas compreender todas as coisas é um frenesi.” E mais adiante, comparando o lunático com o poeta (que sería uma pessoa sã), escreveu: “O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo onde se possa distender. Pretende ele, simplesmente, enfiar a cabeça nos céus, ao passo que o lógico se esforça por enfiar os céus na cabeça. E é a cabeça que estala.”



Uma das vantagens da conversão é sabermos a quem devemos agradecer a alegria de existir; é, melhor dizendo, termos a quem agradecer. “O teste de toda felicidade é a gratidão; e eu me sentia grato, embora mal pudesse saber a quem”. Eis a maneira de Chesterton expressar sua realização: afinal, o bem é realmente bem, o belo é realmente belo, o verdadeiro é realmente verdadeiro. Estava em casa, por fim.



Toda a obra de Chesterton é como que um hino à alegria. É alegre e arriscado viver. A existência do livre-arbítrio, contrariando o determinismo, torna a vida perigosa e excitante: a partir daí todas as nossas escolhas são infinitamente sérias e potencialmente perigosas.



Depois de Heretics e Ortodoxia, outra obra-prima foi escrita no fim de sua vida: a biografia Santo Tomás de Aquino (1933), cujo valor foi atestado por Étienne Gilson, famoso filósofo tomista, que a considerou “o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás.”


Mais afastado da imprensa, o “querubim gigantesco” dedicou os anos de 1923 e 1924 para redigir, com a tranqüilidade que lhe convinha, aquela que seria considerada por muitos a sua melhor obra:


O Homem Eterno (1925), em que expunha a sua filosofia da História, tendo como eixo o mistério de Deus encarnado. Esse livro foi crucial para a conversão de Lewis, que acabou por se tornar também um dos apologistas cristãos mais importantes do século passado.



Em suma: em todas as suas obras é patente o entusiasmo do escritor pela realidade, pelo que é. Chesterton era o grande inimigo do racionalismo idealista e cético. É notável em seus escritos a atitude profundamente humilde do espectador que se maravilha diante do quadro à sua frente: a realidade da Criação.


Os escritos do criador do Pe. Brown foram saudados por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy Leigh Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, Wystan Hugh Auden, Anthony Burgess, Ernst Friedrich Schumacher, Orson Welles e até Neil Gaiman. Para não falarmos no nosso grande Gustavo Corção. Segundo Thomas Stearns Eliot, Chesterton “merece o direito perpétuo à nossa lealdade”.


A respeito da missão de Chesterton, o Padre Leonardo Castellani ressalta que ela consiste em “rir, fantasiar, disputar, atirar-se no pasto e andar de pernas para o ar, cantar as verdades mais gordas à tesa Inglaterra, denegrir copiosamente os políticos, banqueiros, cientistas e literatos, escarnecer os inimigos e crer na Igreja Católica Romana; mas a graça está em que isto último é o que dá poder ao primeiro”.



Já em A abolição do homem, Clive Staples Lewis assinala:


“Até agora, os planos educativos conseguiram pouco do que pretendiam e, de fato, quando os relemos – vendo como Platão faria de cada criança ‘um bastardo criado em uma repartição pública’, e como Elyot desejava que a criança não visse homem nenhum até os sete anos e, completada essa idade, não visse nenhuma mulher, e como Locke queria os meninos de sapatos esfarrapados e sem aptidão para a poesia –, podemos agradecer a benéfica teimosia das verdadeiras mães, das verdadeiras amas e (sobretudo) das verdadeiras crianças por preservar a sanidade que a raça humana ainda possui.” Os grifos são nossos.



Sem hesitar incluímos o “querubim gigantesco” entre as “verdadeiras crianças”, aproveitando para lhe agradecer a benéfica lucidez que pode preservar a sanidade da raça humana – ou, ao menos, de alguns representantes da raça. Chesterton nos ensina, como ensinou a vários grandes homens, e também a muitos pequenos cristãos, anônimos, a ver o cristianismo com novas lentes.


Assim como os antigos monges costumavam recomendar a leitura dos Salmos para curar a tristeza ou a acídia, também não podemos deixar de recomendar, contra uma visão cinzenta e sem graça do cristianismo, a leitura desse grande médico de almas que foi Gilbert Keith Chesterton.


Morre aos 62 anos em Beaconsfield (Buckinghamshire) no dia 14 de junho de 1936, onde está seputado até hoje, no pequeno cemitério católico junto à igreja paroquial de Santa Terezinha do Menino Jesus (uma santa quase menina, veja só...), junto com a mulher Frances e a quase filha e secretaria Dorothy Collins. Chesterton guardou a fé até o último instante, recebendo a extrema-unção de seu amado Padre O’Connor.O Papa Pio XI, em telegrama ao povo da Inglaterra, escreveu: “Santo Padre profundamente consternado morte de Gilbert Keith Chesterton, devoto filho da Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica”.




RESUMO DO LIVRO “ORTODOXIA” de Chesterton:

Esta obra OBRA PRIMA de Chesterton, escrita quando ele ainda nem havia se tornado Cristão e que contribui para a conversão de um outro grande Cristão: C.S. Lewis. Chesterton foi quem melhor soube procurar e entender o senso comum, a sabedoria das coisas ordinárias sobre as extraordinárias. Para ele, tudo começava com a constatação da existência do mundo. Não só sua existência, mas sua beleza. 


O grande mal da filosofia moderna, que muito se aproximou das religiões orientais, foi recusar aceitar o princípio da existência do mundo. Para ele, só era possível filosofar a partir do universo, só se entenderia as partes vendo o todo. De tanto procurar este senso comum, acabou encontrando como Santo Agostinho o que rejeitara na juventude: o Cristianismo.




A tradição ocidental, que começou a ser perdida pelo humanismo, centrava-se na gratidão e homenagem ao mundo. Quando começou a colocar em questionamento a existência deste mundo, a filosofia perdeu sua sanidade. O amor à sabedoria implica em retomar a sanidade tradicional do ocidente. O mundo não está errado como sustentam muitos, é o homem que está errado ao percebê-lo. Perdemos a capacidade de ver o mundo como ele realmente é porque ganhamos uma lassidão de apreciação. O homem deixou de prestar homenagens ao mundo e refugiou-se em si mesmo.


Chesterton na sua Ortodoxia partiu de duas convicções:


1)- o mundo é real e nosso primeiro mestre
2)- o pecado é real e nosso primeiro tentador


Quando nascemos, temos este maravilhamento pelo mundo. Com o tempo vamos perdendo-o. Buscamos verdades que já tínhamos na infância. As verdades não são feitos novos mas realizações recuperadas, pois nascem da infância.Os movimentos idealistas modernos se aproximaram dos orientalismos e questionam os fundamentos que nunca deveriam ser questionados. Questionam o mundo.Chesterton foi um retórico porque colocou a verdade na melhor luz possível.A aspiração retórica de Chesterton era dirigir-se ao mais comum dos homens versando sobre os mais grandiosos temas.”Paine faz um apanhado do que estava acontecendo no mundo na virada do século XIX para XX: 



1)- Freud: O estudo do inconsciente;
2)- Husserl : A consciência pura, existência;
3)- Plank e Einstein: A energia em quantum;
4)- Lenin: O sistema partidário.




Chesterton percebeu que o enfoque passou a ser nos detalhes, o universal foi colocado de lado e houve uma progressiva exclusão do ponto de vista comum. É o espetáculo do pequeno, a apoteose do insignificante. Para ele, tornou-se necessário re-descobrir a totalidade da vida. O camponês é importante por viver uma vida completa, o homem das cidades não sabe o porque das coisas e torna-se presa fácil para déspotas e demagogos, pois o senso comum se perdeu.


Se Chesterton será declarado Santo? ou não, não sei, mas sei que ele deve estar dando gargalhadas ao saber disto lá no céu, mas somente a Igreja pode dizê-lo,porém esta sua máxima está sempre atual:


“O Santo é um medicamento, porque ele é um antídoto. Certamente é por isso que o santo é muitas vezes um mártir, ele é confundido com um veneno, porque ele é um antídoto. Ele geralmente será procurado para restaurar a sanidade do mundo, exagerando o que o mundo ignora, que nem sempre é o mesmo elemento em todas as idades. No entanto, cada geração procura o seu santo por instinto, e ele não é o que as pessoas querem, mas sim o que o povo precisa”.[...] Por isso, é o paradoxo da história, que cada geração é convertida pelo santo que contradiz mais(CHESTERTON, G.K. Santo Tomás de Aquino: biografia. Tradução de Carlos Ancêde Nougué. São Paulo: Ltr, 2003. p. 30-31.)



Chesterton é importante porque não somos mais capazes de ler Platão, Aristóteles e Aquino. Perdemos a visão do mundo em seu sentido universal, fomos enterrados sobre camadas de insignificância. Sua obra é na verdade uma preparação para a verdadeira filosofia, uma antítese à filosofia moderna que recusou-se a começar pelos pontos de partidas evidentes, como a existência deste mundo e de um criador, esta sua obra recupera-nos isto.



Trecho do livro Ortodoxia de G.K. Chesterton:



(PREFÁCIO DO AUTOR)



ESTE LIVRO FOI ESCRITO para ser lido como complemento a Heretics [Hereges] e mostrar o lado positivo além do negativo. Muitos críticos se queixaram daquele livro dizendo que ele simplesmente criticava as filosofias correntes sem oferecer nenhuma filosofia alternativa. Este livro é uma tentativa de responder a esse desafio. Ele é inevitavelmente afirmativo e, por isso mesmo, inevitavelmente autobiográfico. O autor foi levado a recuar e enfrentar mais ou menos a mesma dificuldade que afligiu Newman ao escrever a sua Apologia; foi forçado a ser egoísta só para ser sincero. Embora todos os outros aspectos possam diferir, o motivo nos dois casos é o mesmo. O autor tem o propósito de tentar explicar não se a fé cristã pode ser abraçada, mas como ele pessoalmente passou a abraçá-la.


Este livro, portanto, está organizado com base no princípio positivo de um enigma e sua solução. Trata primeiro de todas as solitárias e sinceras especulações pessoais do autor e depois do dramático estilo em que elas são de súbito respondidas a contento pela teologia cristã. O autor vê isso como algo que leva a um credo convincente. Mas se não chegar a tanto, trata-se no mínimo de uma repetida e surpreendente coincidência.






GlLBERT K. CHESTERTON




I.INTRODUÇÃO EM DEFESA DE TUDO O MAIS


A ÚNICA DESCULPA POSSÍVEL para este livro é que se trata de uma resposta a um desafio. Mesmo um mau disparo tem sua dignidade quando se aceita um duelo. Quando há algum tempo publiquei uma série de artigos escritos às pressas, porém honestos, sob o título de "Heretics", vários críticos cuja inteligência tem meu sincero respeito (menção especial pode ser feita ao sr. G. S. Street) disseram que não viam problema algum no fato de eu dizer a todos que afirmassem a sua teoria cósmica, mas que eu cuidadosamente me havia furtado a sustentar os meus preceitos com exemplos. "Começarei a preocupar-me com a minha filosofia", disse o sr. Street, "depois que o sr. Chesterton tiver apresentado a dele."


Talvez tenha sido uma sugestão incauta, dirigida como foi a alguém sempre mais que disposto a escrever um livro diante da mais ligeira provocação. Mas, no fim das contas, embora o sr. Street tenha inspirado e criado este livro, ele não precisa lê-lo. Se de fato o ler, descobrirá que em suas páginas eu tentei, de forma vaga e pessoal, num conjunto de quadros mentais mais do que numa série de deduções, expor a filosofia em que passei a acreditar. Não a chamarei de minha filosofia, uma vez que não a criei. Deus e a humanidade a criaram; e ela me criou.



Muitas vezes alimentei a fantasia de escrever um romance sobre um navegador inglês que cometeu um pequeno erro ao calcular sua rota e descobriu a Inglaterra, tendo a impressão de estar numa nova ilha dos Mares do Sul. Sempre me vejo, porém, com ocupações ou preguiça demais para escrever essa bela obra, portanto é melhor que eu o ofereça com o objetivo de apresentar uma ilustração filosófica. Provavelmente a impressão geral será a de que o homem que desembarcou (armado até os dentes e falando por sinais) para fincar a bandeira britânica naquele templo bárbaro que no fim das contas era o Pavilhão de Brighton, sentiuse um perfeito idiota.


Não estou aqui preocupado em negar que ele parecia idiota. Mas se você imagina que ele se sentiu idiota, ou que em todo o caso a sensação de tolice era sua emoção única ou dominante, então você não estudou com a delicadeza exigida a rica natureza romântica do herói dessa história. Seu erro foi de fato um erro altamente invejável; e ele sabia disso, se é que era o homem que eu imaginei. O que poderia ser mais prazeroso do que provar em poucos minutos todos os fascinantes terrores de ir para o exterior combinados com toda a confortável segurança de voltar novamente para casa? O que poderia haver de melhor do que ter toda a emoção de descobrir a África do Sul sem a repugnante necessidade de lá desembarcar? O que poderia ser mais maravilhoso do que preparar-se para descobrir a Nova Gales do Sul e depois perceber, com uma efusão de lágrimas, que era apenas a velha Gales do Sul?


Esse pelo menos me parece ser o principal problema dos filósofos e, de certo modo, é o principal problema deste livro. Como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa? Como pode esta estranha cidade cósmica, com seus cidadãos de muitas pernas, com suas monstruosas e antigas lâmpadas, como pode este mundo provocar em nós ao mesmo tempo o fascínio de uma cidade estranha e o conforto e a honra de ser a nossa cidade?



Mostrar que uma crença ou uma filosofia é verdadeira de todos os pontos de vista seria uma tarefa demasiado grande mesmo para um livro muito maior do que este. É necessário seguir uma linha de raciocínio, e esta é a linha que me proponho seguir aqui: quero apresentar a minha crença como uma resposta específica a essa dupla necessidade espiritual, a necessidade da mistura do conhecido com o desconhecido que a cristandade corretamente chamou de romance. Pois até mesmo a palavra "romance" tem em si o mistério e o antigo significado de Roma.


Quem quer que se disponha a discutir o que quer que seja deveria sempre começar dizendo o que não está em discussão. Além de declarar o que se quer provar é preciso declarar o que não se quer provar. O que eu não me proponho provar, o que proponho que se tome como terreno comum entre mim e o leitor médio, é essa atração de uma vida ativa e imaginativa, pitoresca e cheia de curiosidade poética, uma vida como a que em todo o caso o homem ocidental sempre parece ter desejado. Se um homem diz que a extinção é melhor do que a existência, ou que uma vida insossa é melhor que a variedade e a aventura, então esse homem não é uma das pessoas comuns com quem estou falando. Se alguém prefere o nada. nada lhe posso dar. Mas quase todas as pessoas que conheço nesta sociedade ocidental no seio da qual vivo concordam com a proposição geral de que precisamos dessa vida de romance prático: a combinação de alguma coisa que é estranha com alguma coisa que é segura. Precisamos ver o mundo de tal modo que nele se combine uma idéia de deslumbramento com uma idéia de acolhimento. Precisamos nos sentir felizes nessa terra deslumbrante sem nunca nos sentir meramente confortáveis. É ESSA realização do meu credo que vou principalmente perseguir nestas páginas.


Mas tenho uma razão peculiar para aludir ao navegador que descobriu a Inglaterra. Aquele navegador sou eu. Eu descobri a Inglaterra. Não consigo imaginar como este livro pode conseguir não ser egoísta: e. para dizer a verdade, não consigo absolutamente imaginar como ele pode conseguir não ser chato. A chatice, todavia, me livra da acusação que mais lamento: a acusação de ser superficial. Mera sofisticação superficial é o que desprezo acima de tudo, e talvez seja um fato salutar que é disso que geralmente sou acusado.


Não conheço nada tão desprezível como o mero paradoxo: uma defesa meramente engenhosa do indefensável. Se fosse verdade, como se afirmou, que o sr. Bernard Shaw vivia de paradoxos, então ele deveria ser um mero milionário; pois um homem de sua atividade mental poderia inventar um sofisma a cada seis minutos. E tão fácil como mentir, pois é mentir. A verdade é, naturalmente, que o sr. Shaw enfrenta o cruel estorvo de não conseguir dizer uma mentira se não pensar que é uma verdade. Percebo que estou sob a mesma intolerável escravidão. Nunca em minha vida eu disse coisa alguma simplesmente por pensar que era engraçada; embora, naturalmente, eu tenha alimentado a vanglória humana e possa ter considerado algo engraçado por tê-lo dito. Uma coisa é descrever uma entrevista com uma górgona ou um grifo, uma criatura que não existe; outra coisa é descobrir que o rinoceronte existe e depois sentir prazer pelo fato de que ele parece um animal que não existe.



A gente procura a verdade, mas pode acontecer que a gente procure instintivamente as verdades mais extraordinárias. E apresento este livro com os mais sinceros senti mentos a todos os bons sujeitos que odeiam o que escrevo e o consideram (com muita justiça, segundo tudo o que eu sei) como um exemplo de uma cena burlesca inferior ou uma brincadeira cansativa.



Pois se este livro é uma brincadeira, ele é uma brincadeira contra mim mesmo. Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes. Se nas páginas que seguem há um elemento de farsa, a farsa é às minhas custas; pois este livro explica como eu fantasiei que era o primeiro a pôr os pés em Brighton e depois descobri que era o último. Ele relata as minhas obtusas aventuras em busca do óbvio. Ninguém pode considerar o meu caso mais ridículo do que eu mesmo o considero; nenhum leitor pode aqui acusar-me de tentar fazê-lo de bobo: o bobo desta história sou eu, e nenhum rebelde pode roubar-me o trono. Confesso francamente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.


Talvez alguém se divirta com o relato deste feliz fiasco. Talvez um amigo ou inimigo se divirta ao ler como eu gradativamente aprendi, da verdade de alguma lenda perdida ou da falsidade de alguma filosofia dominante, verdades que eu poderia ter aprendido do meu catecismo — se o tivesse estudado. Pode haver ou não algum entretenimento na leitura de como finalmente descobri num clube anarquista ou templo babilônico o que poderia ter descoberto na paróquia mais próxima. Se alguém se diverte aprendendo como as flores do campo ou as palavras escritas num ônibus, os acidentes de políticos ou os sofrimentos da juventude se juntaram numa certa ordem para produzir um certo convencimento de ortodoxia cristã, essa pessoa pode muito bem ler este livro. Mas há em tudo uma sensata divisão de trabalho. Eu escrevi o livro, e nada neste mundo me induziria a lê-lo.


Acrescento uma nota meramente pedante que aparece, como  uma nota naturalmente deveria aparecer, no início do livro. Estes ensaios pretendem apenas discutir o fato real de que a teologia cristã central (suficientemente resumida no Credo dos Apóstolos) é a melhor raiz de energia e ética sólida. Eles não pretendem discutir a questão muito fascinante, mas totalmente outra, de qual é o atual cetro de autoridade para a proclamação desse credo. Quando a palavra "ortodoxia" é usada aqui, ela significa o Credo dos Apóstolos, como era entendido por todos os que se chamavam cristãos até pouco tempo atrás e a conduta histórica daqueles que adotavam esse credo.



Fui forçado pelo mero espaço a restringir-me ao que recebi desse credo; não toco a questão muito discutida entre os cristãos modernos de onde nós mesmos o recebemos. Este não é um tratado eclesiástico, mas uma espécie de autobiografia desconjuntada. Mas, se alguém quiser minhas opiniões sobre a verdadeira natureza da autoridade, o sr. G. S. Street só precisa me lançar outro desafio, e eu vou escrever outro livro.


Retirado do Livro Ortodoxia de Gilbert Keith Chesterton, 2008, editora Mundo Cristão.



*Marco Sermarini - Presidente da Sociedade Chestertoniana da Itália
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