(foto reprodução)
A eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio ao sólio de Pedro, em março de 2013, não foi apenas um acontecimento histórico pelo fato de se tratar do primeiro papa latino-americano. Ela representou, antes de tudo, a emergência explícita de uma experiência eclesial, pastoral e teológica gestada fora do eixo europeu tradicional, profundamente marcada pela realidade do Cone Sul, pela espiritualidade inaciana e por uma leitura encarnada da fé cristã no seio do povo simples.
Para compreender o pontificado de Francisco, suas opções pastorais, seu estilo de governo e até mesmo as resistências que suscita, é indispensável voltar às suas raízes intelectuais e espirituais — e, nesse caminho, a figura do padre Juan Carlos Scannone se impõe como referência incontornável. Jesuíta, filósofo e teólogo de projeção internacional, discípulo direto de Karl Rahner e protagonista do debate teológico pós-conciliar na América Latina, Scannone é amplamente reconhecido como o maior teólogo argentino vivo.
Professor em universidades latino-americanas e europeias, ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidad del Salvador, em Buenos Aires, ele não foi apenas um observador externo da formação de Bergoglio: foi seu professor, seu confrade e um dos principais interlocutores intelectuais do futuro papa. Sua reflexão ajuda a lançar luz sobre aquilo que muitos analistas europeus e norte-americanos tiveram dificuldade de compreender: a coerência interna entre a opção preferencial pelos pobres, a valorização da piedade popular, o apreço pela cultura do povo e a firme rejeição de ideologias de matriz marxista.
As entrevistas e testemunhos aqui reunidos — publicados em revistas e jornais como Il Regno, Corriere della Sera, MissiOnline e outros — formam um verdadeiro mosaico interpretativo do pontificado de Francisco a partir de suas raízes argentinas. Nelas, Scannone não apenas defende a integridade moral e pastoral de Bergoglio em episódios controversos da ditadura militar, mas também explicita o núcleo teológico da chamada Teologia do Povo, corrente tipicamente argentina da Teologia da Libertação, frequentemente mal compreendida ou caricaturada.
Mais do que um conjunto de opiniões, esses textos revelam uma chave hermenêutica essencial: Francisco não pode ser entendido adequadamente se for lido com categorias importadas do embate ideológico europeu. Seu magistério nasce de uma Igreja que aprendeu a evangelizar a partir da cultura, da religiosidade popular, da mística simples dos pobres e do discernimento espiritual. É nesse horizonte que se situam sua insistência em uma “Igreja em saída”, sua crítica à absolutização do mercado, sua linguagem pastoral direta e sua profunda vida de oração.
1)-O que o senhor pensa da ascensão do
cardeal Bergoglio ao sólio de Pedro?
O fato de ele
ser o primeiro papa "das Américas", particularmente da América
Latina, tem um grande valor simbólico, assim como a escolha do nome Francisco. Jorge Mario é uma pessoa
simples, preocupada com os pobres, com a renovação evangélica da Igreja e com
um apostolado "na cidade", realizado também pelas ruas, e não só nos
templos, como foi o de São Francisco de Assis. Jorge Mario tem três grandes qualidades:
1ª)-ele é um
homem de espiritualidade e, quando era meu provincial, eu tinha a impressão de
que ele governava com base no discernimento espiritual, ao menos com relação a
mim.
2ª)-é austero,
tanto que em Buenos Aires ele se deslocava de metrô ou com os micro-ônibus e
muitas vezes visitava as villas miserias, defendendo os padres que trabalhavam
lá.
3ª)- é determinado,
e por isso implementará as mudanças necessárias na Igreja, mas sem rupturas.
2)-O que o senhor pensa sobre a ação dele
no caso do sequestro, durante a ditadura, do Pe. Orlando Yorio e do Pe. Ferencs
Jalics?
O Pe. Jalics
desmentiu qualquer ligação entre o Pe. Bergoglio e a prisão deles. Eu já sabia
disso, porque eu era muito amigo do Pe. Yorio, com o qual às vezes eu colaborava
no plano teológico, e como o Pe. Bergoglio vivia na mesma casa que eu, quando
os fizeram desaparecer, ele me contava tudo o que ele fazia, assim como ao
bispo vigário da região, Dom Mario Serra, para saber onde eles estavam e obter
a sua libertação. Os militares negavam que os haviam preso, mas vazou a notícia
de que eles haviam sido detidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), e
quando eles se deram conta de que eram inocentes, eles os detiveram por vários
meses, a meu ver porque não sabiam o que fazer. No fim, deixaram-nos
adormecidos (provavelmente drogados) em um campo. Depois, com a ajuda do
provincial, o Pe. Yorio e o Pe. Jalics se refugiaram no exterior para evitar um
novo desaparecimento.
3)-O que Francisco irá fazer?
Eu espero que
ele impulsione a nova evangelização a partir da opção preferencial pelos
pobres, segundo a índole de cada cultura. Por isso, ele vai olhar muito para a
África e vai estimular o apostolado com relação aos mais miseráveis, nas
grandes periferias urbanas e no "quarto mundo". Ele também irá promover
o ecumenismo e colóquios em nível mundial com as outras religiões do mundo, em
particular com o judaísmo e o islamismo, com base no que ele já fez na
Argentina, onde há um diálogo a três entre essas religiões e o cristianismo.
Além disso, imagino que ele tentará difundir o seu estilo de vida austero a
toda a Igreja, que, assim, se adaptaria melhor à cultura contemporânea. Por
fim, ele levará muito em conta o fato de que é bispo de Roma, certamente sem
ignorar a Igreja universal, mas valorizando a colegialidade e o povo dos fiéis
como um todo.
4)-Que consequências terá a sua eleição
para a América Latina?
Francisco
conhece bem a Igreja do continente. Ele foi relator na V Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007,
coordenando também a comissão encarregada de redigir o documento conclusivo, e por isso vai tentar
encorajar a "conversão pastoral" da qual esse texto fala,
principalmente colocando a Igreja latino-americana "em estado de missão"
nas grandes cidades. Provavelmente, ele irá promover o diálogo com os
sindicatos e as organizações populares para favorecer uma maior justiça social,
além da busca de acordos sobre políticas públicas para o bem comum. Ele vai
valorizar, por fim, a piedade e a espiritualidade populares, especialmente a
devoção mariana típica da América Latina.
5)-Como o Papa Bergoglio irá olhar para
a teologia latino-americana?
Jorge Mario
está convencido da importância espiritual e pastoral de uma boa teologia à
altura da cultura contemporânea e de cada cultura particular. Eu acredito que
ele vai apoiar a opção preferencial pelos pobres como lugar hermenêutico para a
reflexão teológica e pastoral latino-americana. Na Argentina, ele defendeu aquela que eu chamo
de "linha argentina da teologia da libertação", denominada por alguns
como "teologia do povo", e eu presumo que ele vai continuar a
promovê-la, sem ignorar outras orientações teológicas.
6)-Quais são as características dessa
"teologia do povo"?
Assim como a
teologia da libertação, ela utilizar o método "ver-julgar-agir", liga
práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências
sociais e humanas. Mas privilegia uma análise histórico-cultural em
comparação com a sócio-estrutural de tipo marxista. É uma reflexão que surgiu
no período pós-conciliar imediato, a partir de uma fonte dupla: o n. 53 da
Gaudium et Spes, em que se fala da "cultura" como modo de vida de
cada povo, lido na convicção de que a primeira evangelização havia contribuído
muito para forjar a cultura argentina que se manifestava especialmente no
catolicismo popular; as teorias da sociedade nascidas na Universidade de Buenos
Aires nos anos 1960 e fundamentadas sobre as categorias de "povo" e
de "antipovo", que reconheciam a injustiça, mas enfatizando a unidade
do povo em vez do conflito, como teria ocorrido se se usasse o conceito de
"classe". Por isso, essa
corrente sublinha a importância da cultura, da religiosidade e da mística
popular, afirmando ao mesmo tempo que os seus intérpretes mais autênticos e
fiéis são os pobres, com a sua espiritualidade tradicional e a sua
sensibilidade pela justiça. Essa reflexão alimenta a pastoral dos bairros
populares e das villas miserias.
7)- Qual é a situação da Igreja na
Argentina hoje?
Nos últimos 15
anos, o episcopado manteve um diálogo crítico com o Executivo, embora uma
minoria dos bispos tenha uma orientação mais conservadora. No plano social,
todos reconhecem que a Igreja está muito à frente, tanto na assistência através
da Cáritas, quanto na promoção humana, e às vezes ela se confronta com o
governo, porque a situação dos pobres melhorou graças às ajudas estatais, mas
faltam investimentos produtivos que criem postos de trabalho dignos.Nos temas
morais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu acredito
que devam ser defendidas a lei natural e os direitos dos nascituros, mas
dialogando mais com a sociedade civil...
“Quando Jorge Mario era meu aluno no seminário'' - O teólogo Scannone fala sobre o Papa Francisco:
(foto reprodução)
(A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto)
Enquanto conta
sobre o pontífice, ele explica como o "Papa Francisco" já começou a
reformar as coisas: "Graças aos muitos gestos simbólicos, a Igreja está se
abrindo mais ao ser humano de hoje, sobretudo aos mais pobres e excluídos,
saindo para as periferias". Mas se lhe perguntamos sobre o passado, é
natural para ele usar o nome de batismo, "quando Jorge Mario era meu
estudantes em Buenos Aires...". - O padre Juan
Carlos Scannone, 81 anos, não é apenas o velho professor de grego e de
literatura daquele menino que, depois do diploma, entrou no seminário de Villa
Devoto, começando o seu noviciado na Companhia de Jesus. Menino sólido, dentre
outras coisas: "Foi então que ele adoeceu gravemente de pneumonia e teve
que ser operado em um pulmão. Eu lembro que ele suportou sua doença com muita
força e integridade".Diretor do
Instituto de Investigação Filosófica da Faculdade de Teologia e Filosofia de
San Miguel, não muito longe da capital argentina. O padre Scannone é principalmente o maior teólogo
argentino, aluno de Karl Rahner – outro jesuíta, um dos gigantes do pensamento
do século XX – e, diz-se, ponto de referência teológico do próprio papa. Além disso, eles têm uma referência comum: "Eu acredito que não é possível entender Francisco sem
compreender a espiritualidade inaciana! Dentre muitas outras características,
pode-se notar o seu apreço pelo discernimento espiritual de Santo Inácio",
ressalta. O "discernimento" é
aquela capacidade de crivo interior para "sair do mal e buscar o bem"
e, portanto, escolher livremente, que está no centro dos Exercícios Espirituais
do fundador dos jesuítas e que Bergoglio, explica o padre Scannone, exerce
"não somente na vida das pessoas, mas também na pastoral da Igreja". E depois há
uma corrente de pensamento tipicamente argentina, a chamada "teologia do
povo". É preciso partir daí para entender o pontífice que quer "uma
Igreja pobre e para os pobres" e denuncia a mentalidade para a qual
"é uma tragédia se os bancos caem, mas se as famílias não têm nada para
comer, então não se faz nada".
-Mas, o que é a "teologia do
povo" e o quanto ela tem a ver com a teologia da libertação?
"Muitos
consideram a teologia argentina do povo como uma corrente da teologia da
libertação com características próprias, assim como faz o próprio Gustavo
Gutiérrez", explica o padre Scannone, citando o fundador da teologia da
libertação. "Eu mesmo já defendi em um artigo escrito em 1982 e retomado
por Dom Quarracino".O padre
Scannone lembra que, em 1984, o antecessor de Bergoglio em Buenos Aires "explicou por que a
Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé falava no plural de 'teologias'
da libertação: ele não criticava todas, criticava aquelas que usavam a análise
marxista da sociedade e da história".A "teologia do povo"
argentina, em suma, "não usa a análise social marxista, mas sim uma
análise histórico-cultural, sem ignorar a sócio-estrutural".Também por
isso "outros a distinguem da teologia da libertação", em vez de
considerá-la, como o padre Scannone, uma corrente "com suas
características próprias".Em todo o
caso, "todas as correntes assumem a opção preferencial pelos pobres das
conferências do episcopado latino-americano de Medellín e de Puebla", a mesma opção "reiterada por Bento XVI
no discurso inaugural de Aparecida e pela própria conferência". Eis o
ponto: "Coerente com essa opção é a crítica à especulação financeira e à
absolutização neoliberal do mercado, como já disse João Paulo II na Centesimus
Annus". A teologia do povo, em
particular, "enfatiza o tema da evangelização das culturas, da
inculturação do Evangelho e da piedade e espiritualidade populares,
considerando que, na América Latina, esta – quando autêntica – é a encarnação
da fé 'na' e 'nas' culturas latino-americanas e, portanto, tem um potencial
evangelizador.Nada de ideologias ou sugestões marxistas, em suma, mas sim
atenção e respeito às diversas culturas, ao povo e à sua fé: a "conversão
pastoral" de uma Igreja que sai pelas ruas, rumo às
"periferias". O padre
Scannone também lembra como o cardeal Bergoglio "surpreendeu pela sua
simplicidade: ele sabe dirigir o carro, mas, como arcebispo, renunciou ao
motorista, viajava nos transportes públicos, de trem e de metrô...".No L'Osservatore
Romano, ele havia contado que "também sabe cozinhar muito bem. Um dos seus
pratos preferidos era o porco recheado. Ele o preparava aqui em San
Miguel". Um "homem da orquestra", como se diz na Argentina,
capaz de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo."Uma vez,
eu vi que ele estava escrevendo um artigo na máquina de escrever, depois foi
lavar a roupa, depois recebeu uma pessoa para um aconselhamento espiritual. Um
trabalho espiritual, um mecânico e um manual ao mesmo tempo e no mesmo nível de
qualidade".
-Mas, padre,
qual é a característica mais importante de Francisco como pessoa?
"É
difícil dizer uma em particular, mas eu gostaria de indicar uma que marcou um
bispo amigo nosso. Ele me disse: é um homem que reza! Ele falava da sua grande
profundidade espiritual".
A Teologia do povo - Entrevista com Juan
Carlos Scannone
A teologia da
libertação na Argentina assume a forma peculiar de "Teología del
pueblo". Com uma ênfase particular na inculturação e na religiosidade
popular.Filósofo e
teólogo próximo do ramo argentino da teologia da libertação, a chamada Teología
del Pueblo, o padre Juan Carlos Scannone, jesuíta, é um personagem de destaque no
panorama intelectual católico do Cone Sul. Discípulo de Karl Rahner, ele
participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar da
América Latina. Professor universitário, é autor de inúmeros livros e artigos
relevantes. Encontramo-lo no Colégio Máximo de San Miguel, onde vive, nos
arredores de Buenos Aires.
1)-O
que significa fazer teologia no e a partir do Cone Sul?
O aspecto
fundamental é a inculturação. Como mensagem de salvação para todos, a teologia
tem um significado universal. Mas, como reflexão sobre uma fé que se incultura,
a teologia também deve se inculturar. Ora, o Cone Sul faz parte do mundo
ocidental, mas apresenta uma miscigenação cultural com diversas variantes. Isso
requer uma perspectiva teológica específica.
2)- Na
Argentina, essa perspectiva específica é a Teología del Pueblo.
Para
compreendê-la, é preciso partir do aparecimento da Teologia da Libertação, em
torno da Conferência do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968. Essa
teologia, que é uma das grandes contribuições da América Latina para a cultura
universal, assume a forma específica, na Argentina, da "Teologia do
Povo". Trata-se de uma perspectiva própria, original, como reconhece o
próprio Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação.
3)- Em
que ela difere desta última?
A diferença é que aqui
nunca foram utilizadas nem a metodologia marxista de análise da realidade, nem
categorias tomadas do marxismo, talvez por influência do peronismo.
4)- No
âmbito especificamente teológico, o que caracteriza essa perspectiva?
Uma
revalorização da cultura e da religiosidade popular, tanto argentina quanto
latino-americana. Daí o nome de Teologia do Povo (embora quem a chamou assim
pela primeira vez foi um teólogo uruguaio que a criticava, Juan Luis Segundo).
Fala-se do povo como sujeito histórico-cultural, e da religiosidade popular
como uma forma inculturada de fé cristã católica no povo argentino e
latino-americano. É uma linha que privilegia mais a análise histórico-cultural
do que a sócio-estrutural.
5)- Quem
deu corpo a essa teologia?
O grande
teólogo é Lucio Gera, um imigrante italiano que chegou à Argentina quando
criança. Gera era líder da Comissão Episcopal de Pastoral (Coepal), constituída
pelos bispos argentinos no rescaldo do Concílio Vaticano II. A Teologia do Povo
ganha forma nesse âmbito. Além de Gera, na Comissão estavam: Justino O'Farrell,
Gerardo Farrel, Rafael Tello, Alberto Sily, Fernando Boasso, Dom Enrique
Angelelli, Dom Manuel Marengo e outros. Juntos elaboraram o famoso
"Documento de San Miguel", em 1969, um dos textos mais significativos
e influentes da história da Igreja argentina, em que se fala, dentre outras
coisas, da pastoral popular pensada não só para o povo, mas a partir do povo. A ideia de fundo é que
o povo latino-americano já foi evangelizado e, portanto, apresenta muitos
elementos que não são apenas "sementes", mas "frutos" do
Verbo.
6)-O
que Roma pensava a respeito?
Roma criticou
as várias formas de teologia da libertação que se referiam ao marxismo. A
corrente argentina, que não apresentava sinais disso, era vista de forma
positiva.
7)-E
o que pensava a ditadura de Videla (1976-1983)?
Os militares,
ao contrário, eram pouco sutis. Para eles, "libertação" e "opção
pelos pobres" significavam automaticamente marxismo. Não distinguiam entre
as diversas correntes. Eu mesmo, que nunca tive nada a ver com o marxismo, era
considerado como tal. Até o futuro cardeal Pironio, do qual hoje está em
andamento a causa de beatificação, era visto como marxista pela inteligência
militar. Era pura ignorância.
8)- Quais
foram os frutos da Teologia do Povo?
Um dos
principais frutos foi a valorização da religiosidade popular, que deixou uma
grande marca em toda a Igreja argentina. Eu penso na pastoral dos santuários! Para a festa de San Cayetano, padroeiro do pão e do trabalho, há pessoas que
ficam na fila por até 15 dias para entrar primeiro no santuário. Mas eu também
penso nas peregrinações juvenis a pé a Luján, idealizadas por Rafael Tello
durante o regime militar, que mobilizam ainda hoje centenas de milhares de pessoas
a cada ano. Essas manifestações religiosas sempre existiram. Mas o mais
interessante dessa teologia é o fato de tê-la reconhecido como autêntica fé
popular. Tanto que, ultimamente, como evidenciado pelo documento de Aparecida,
fala-se oficialmente de espiritualidade e de mística populares. O próprio Bento
XVI disse em Aparecida que a piedade popular é um dos grandes tesouros da
América Latina! O tema ainda é muito atual.
9)- A
ideia começou na Argentina?
No Concílio,
não se falava a respeito. O primeiro que falou sobre isso em nível universal
foi Paulo VI. Mas é muito provável, quase certo, que a revalorização começou na
Argentina com o grupo da Coepal. Depois, vários bispos latino-americanos
apresentaram essas ideias no Sínodo de 1974 sobre a evangelização. Daí,
provavelmente através de Pironio, argentino amigo dos membros da Coepal, elas
passaram para a exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, e,
depois, para a Conferência do Episcopado Latino-Americano de Puebla, que é a
aplicação da Evangelii nuntiandi na América Latina, onde Lucio Gera figura
entre os redatores do documento sobre a evangelização da cultura. É uma viagem
de ida e volta entre a América Latina e Roma.
10)-
Em Medellín já não se falava de religiosidade popular?
Falava-se a
respeito como de uma religião natural, unicamente como "semente do
Verbo". Enquanto,
para a Teologia do Povo argentina, trata-se de um autêntico catolicismo
popular, "fruto" do Verbo. Como "sementes" são entendidas
só as religiões aborígines ou afro-americanas.
A teologia da libertação do Papa Francisco!
Às vésperas da viagem ao Brasil, a leitura do teólogo argentino Juan Carlos Scannone ajuda a entender as palavras de Bergoglio sobre o "povo dos fiéis".A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada no sítio MissiOnline, 17-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
1)- A poucos dias da visita do Papa
Francisco ao Brasil, a pergunta é obrigatória: como já foi dito por muitos: o
retorno de Bergoglio como pontífice à América Latina realmente o verá como
protagonista da reconciliação entre Roma e a Teologia da Libertação ?
Uma
"reaproximação" entre o papa e os teólogos latino-americanos foi
desejado por Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito no Brasil, um
dos rostos mais conhecidos do movimento. Casaldáliga
pediu que Adolfo Pérez Esquivel fosse o portador desse pedido junto ao papa,
durante um encontro privado que o Prêmio Nobel da Paz argentino tinha obtido. Na mesma
ocasião foi entregue a Francisco uma cópia do "Pacto das Catacumbas",
um acordo firmado por 40 bispos presentes no Concílio Vaticano II, no dia 16
novembro de 1965. O signatários – que incluíam os representantes mais
conhecidos da ala "progressista" (dentre outros, os bispos: Hélder
Câmara, Leonidas Proaño e Luigi Bettazzi) – se comprometiam nesse texto a levar
uma vida austera, sem propriedades nem contas bancárias, sem títulos, nem bens
materiais. Percorrendo a
lista dos signatários, o papa comentou: "Nossa, veja quem está
aqui!" - Pérez Esquivel disse: "Francisco se interessou, disse que
iria ver. Nós nos comprometemos a fazer um trabalho para reunir esses
pensadores, como Leonardo Boff, que contribuíram tanto com a Igreja".
2)-Até aqui a reconstrução do site
Vatican Insider. Neste ponto, a pergunta soa assim: "haverá, no Brasil, a
palavra do Papa Francisco sobre a Teologia da Libertação?" E, em caso
afirmativo, em que direção?
Para responder
a essa questão nada fácil, e para nos orientarmos sobre esse espinhoso assunto,
é preciso voltar novamente às fontes. E a fonte se chama padre Juan Carlos
Scannone. Não é um rosto conhecido fora do estreito círculo dos iniciados.
Porém, esse professor jesuíta – filósofo e teólogo, 81 anos bem vividos – é o
inspirador da "pastoral" do então cardeal Bergoglio e a sua principal
referência teológica.Uma
confirmação disso é um livreto recém-lançado pela editora Marsilio, intitulado
Ero Bergoglio, sono Francesco [Era Bergoglio, sou Francisco].Nessa
"primeira reportagem sobre o papa do fim do mundo" (como diz o
subtítulo), o autor – o jovem jornalista Cristian Martini Grimaldi – reuniu uma
série de textos escritos da Argentina pelo L'Osservatore Romano. Um dos
capítulos mais interessantes é o dedicado justamente a Scannone, intitulado "O
meu aluno Bergoglio".Nele,
Scannone, diretor do Instituto de Pesquisa Filosófica da Faculdade de Filosofia
e Teologia de San Miguel (a mesma da qual o futuro papa foi reitor, no período
1980-1986), a propósito da Teologia da Libertação e da posição do papa a respeito,
oferece uma reflexão articulada, da qual relatamos as principais passagens. É
preciso dizer que muitas das afirmações de Scannone ecoam as feitas em uma
entrevista concedida pelo jesuíta a Alessandro Armato para a revista Mondo e
Missione (novembro de 2011)."Quando o então
secretário do Celam, depois cardeal Quarracino, apresentou a primeira das
instruções sobre a Teologia da Libertação (Libertatis Nuntius, 1984), ele
explicou por que fala de teologias da libertação, no plural, e fez alusão a
quatro correntes", afirma Scannone. "Uma delas é a teologia argentina
do povo, elaborada pela Coepal (Comissão Episcopal), liderada pelo teólogo
Lucio Gera. Tanto os adversários quanto os detratores da Teologia da Libertação
a consideram como uma corrente dela, embora outros, ao contrário, a
diferenciam".Ele continua:
"Ela [a teologia argentina do povo] se caracteriza por indicar o povo –
entendido como uma nação unida por uma cultura, uma história e um projeto
compartilhado comum (com pobres e ricos) – como sujeito da libertação da injustiça e da opressão.
Portanto, não faz alusão à classe social na luta de classes! São as pessoas
pobres e excluídas na América Latina as que melhor conservam a cultura comum
(...). Grande importância é dada à evangelização dos povos e das culturas, e são
consideradas a piedade popular e a espiritualidade latino-americana como
produto da inculturação do Evangelho nas nossas culturas".Lendo esses
esclarecimentos de Scannone, entende-se como neles podem "estar
juntos" alguns elementos da biografia do Papa Francisco que os estreitos
esquematismos eclesiais italianos não contemplam como compatíveis. Refiro-me à
decisiva opção pelos pobres ("Eu sonho com uma Igreja pobre e para os
pobres"), atitude considerada "de esquerda" e, por outro lado, a
grande simpatia pela piedade popular, marcadamente a devoção mariana fortíssima
nesse papa (neste caso, rotulado como "de direita").
Uma coisa é certa: a Teologia da
Libertação em molho argentino, foge do marxismo! Scannone deixa claro:
"A teologia argentina do povo privilegia a análise
histórico-cultural ao interpretar a situação histórica à luz da fé, em vez da
análise sócio-estrutural, embora esta última não seja descartada, mas sem usar
o método marxista".
O professor jesuíta prossegue:
"Na corrente argentina da Teologia da
Libertação, unem-se intimamente a opção preferencial pelos pobres (Conferência
de Puebla) e a evangelização da cultura, da qual também fazem parte as
estruturas sociais(todas), e um dos frutos na América Latina é o catolicismo
popular".
Bergoglio – conclui Scannone – não é um
teólogo, mas sim um pastor!
“Eu acho que o seu
ministério não pode ser plenamente compreendido sem primeiro entender esse
contexto teológico argentino, porque daí vem a opção pelos pobres e pelos
marginalizados, a apreciação da piedade popular e pastoral, o seu uso repetido
da categoria de 'povo dos fiéis', em sintonia com o 'povo de Deus' da Lumen
Gentium, mas interpretado através dos olhos latino-americanos e
argentinos".Se for assim,
não devemos excluir que, realmente, embora com todas as nuances do caso, se
chegue a uma superação do "conflito" em curso entre teólogos da
libertação e Roma. Não faltam sinais de um degelo.Recentemente,
o protagonista foi um personagem de primeiro plano como o arcebispo Gerhard
Ludwig Müller, atual prefeito do dicastério vaticano – a Congregação para a
Doutrina da Fé – que, nos anos 1980, interveio com nada menos do que duas
instruções para assinalar os desvios pastorais e doutrinais que incumbiam sobre
os caminhos tomados pelas teologias latino-americanas:"O movimento
eclesial e teológico da América Latina, conhecido como 'Teologia da
Libertação', que depois do Vaticano II encontrou um eco mundial, deve ser ser
contado, a meu ver, entre as correntes mais significativas da teologia católica
do século XX".
Escreve Müller em um livro de próxima
publicação:
Uma coletânea
de artigos escritos a quatro mãos [com Gustavo Gutiérrez], já impresso na
Alemanha em 2004, que será lançado na Itália com o título "Dalla parte dei
poveri. Teologia della liberazione, teologia della Chiesa" (Do lado dos pobres.
Teologia da Libertação, teologia da Igreja] (coeditado pelas Edizioni
Messaggero Padova e Emi).
Conclusão
O conjunto de entrevistas, depoimentos e análises do padre Juan Carlos Scannone permite afirmar, com razoável segurança, que o pontificado do Papa Francisco não é um improviso nem uma ruptura arbitrária, mas o amadurecimento de um longo caminho eclesial vivido na América Latina e, de modo muito particular, na Argentina. A chamada Teologia do Povo emerge, assim, não como uma ideologia travestida de teologia, mas como uma leitura profundamente católica da fé encarnada na história, na cultura e na espiritualidade de um povo concreto.
Ao contrário das formas da Teologia da Libertação que recorreram explicitamente a categorias marxistas de análise social, a corrente argentina privilegiou uma abordagem histórico-cultural, reconhecendo o povo como sujeito coletivo da história, portador de uma cultura, de uma memória e de uma fé transmitida de geração em geração. Nessa perspectiva, os pobres não são idealizados como categoria política, mas reconhecidos como guardiões privilegiados da religiosidade popular, da mística e da sensibilidade cristã diante da injustiça. Trata-se de uma opção preferencial pelos pobres que nasce da fé e retorna à fé, não de um projeto revolucionário.
Essa matriz teológica ajuda a compreender por que Francisco consegue, ao mesmo tempo, defender com firmeza a dignidade dos pobres e marginalizados e manter uma profunda devoção mariana; por que denuncia a idolatria do dinheiro sem aderir a projetos ideológicos; e por que insiste em uma Igreja simples, austera e missionária, sem romper com a tradição nem com a doutrina da Igreja.
Sua linguagem pastoral, muitas vezes incompreendida ou reduzida a slogans, brota dessa visão de Igreja como “povo de Deus em caminho”, expressão central da Lumen Gentium, relida à luz da experiência latino-americana. Os testemunhos pessoais de Scannone revelam ainda um traço decisivo da personalidade de Bergoglio: sua vida de oração e seu exercício constante do discernimento espiritual inaciano. Antes de ser um reformador estrutural, Francisco é um homem que reza; antes de propor mudanças, ele escuta, discerne e procura ler os sinais dos tempos à luz do Espírito.
Essa dimensão espiritual é frequentemente ignorada por análises apressadas, mas constitui o verdadeiro eixo de seu ministério. Por fim, o que se delineia a partir dessas reflexões é a possibilidade real de superação do antigo conflito entre Roma e as diversas teologias latino-americanas. O reconhecimento, inclusive por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, da legitimidade e da relevância histórica da Teologia da Libertação — purificada de seus desvios ideológicos — aponta para um tempo de maior maturidade e comunhão. Francisco, nesse sentido, não apaga as tensões do passado, mas as integra em uma síntese mais ampla, fiel ao Evangelho e atenta aos clamores do mundo contemporâneo. Compreender o Papa Francisco à luz da Teologia do Povo não é apenas um exercício acadêmico: é uma condição necessária para ler corretamente seu pontificado. Fora desse contexto, corre-se o risco de reduzi-lo a caricaturas — ora como um revolucionário político, ora como um conservador disfarçado. Dentro dele, porém, emerge com clareza a figura de um pastor profundamente católico, enraizado na tradição e decidido a conduzir a Igreja, com discernimento e misericórdia, rumo às periferias existenciais do nosso tempo.
BIBLIOGRAFIA:
-SACANNONE, Juan Carlos. "A teologia do povo: Raízes teológicas do Papa Francisco".
-http://www.ihu.unisinos.br/noticias/522077-a-teologia-da-libertacao-de-francisco.
-CAVACA, O. - "Uma eclesiologia chamada Francisco: estudo da eclesiologia do papa Francisco a partir da Evangelii Gaudium" - Revista de Cultura Teológica.
-Pe. Reuberson Ferreira – “A Teologia do povo e o Papa Francisco: uma aproximação”.
-LUCIANI, R. – “La Opción Teológico-Pastoral del Papa Francisco” - Perspectiva Teológica.
-FRANCISCO – “Evangelii Gaudium sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual". São Paulo: Paulus/Loyola. 2013.
-Bênção apostólica urbi et orbi, 13 de março de 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/march/documents/papa-francesco_20130313_benedizione-urbi-et-orbi.html#:~:text=Rezemos%20sempre%20uns%20pelos%20outros,evangeliza%C3%A7%C3%A3o%20desta%20cidade%20t%C3%A3o%20bela!
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