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A Teologia do "POVO" do Papa Francisco - Entrevista com Juan Carlos Scannone o Teólogo Jesuita do Papa Francisco

Written By Beraká - o blog da família on quarta-feira, 11 de setembro de 2013 | 09:22


O padre Juan Carlos Scannone, jesuíta de 81 anos, ex-professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidad del Salvador, em Buenos Aires, é o maior teólogo argentino vivo.

(A reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Il Regno, de maio de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto):

Eis a entrevista:

1)-O que o senhor pensa da ascensão do cardeal Bergoglio ao sólio de Pedro?

O fato de ele ser o primeiro papa "das Américas", particularmente da América Latina, tem um grande valor simbólico, assim como a escolha do nome Francisco. Jorge Mario é uma pessoa simples, preocupada com os pobres, com a renovação evangélica da Igreja e com um apostolado "na cidade", realizado também pelas ruas, e não só nos templos, como foi o de São Francisco de Assis.


Jorge Mario tem três grandes qualidades:

1ª)-ele é um homem de espiritualidade e, quando era meu provincial, eu tinha a impressão de que ele governava com base no discernimento espiritual, ao menos com relação a mim;

2ª)-é austero, tanto que em Buenos Aires ele se deslocava de metrô ou com os micro-ônibus e muitas vezes visitava as villas miserias, defendendo os padres que trabalhavam lá;

3ª)- é determinado, e por isso implementará as mudanças necessárias na Igreja, mas sem rupturas.

2)-O que o senhor pensa sobre a ação dele no caso do sequestro, durante a ditadura, do Pe. Orlando Yorio e do Pe. Ferencs Jalics?

O Pe. Jalics desmentiu qualquer ligação entre o Pe. Bergoglio e a prisão deles. Eu já sabia disso, porque eu era muito amigo do Pe. Yorio, com o qual às vezes eu colaborava no plano teológico, e como o Pe. Bergoglio vivia na mesma casa que eu, quando os fizeram desaparecer, ele me contava tudo o que ele fazia, assim como ao bispo vigário da região, Dom Mario Serra, para saber onde eles estavam e obter a sua libertação. Os militares negavam que os haviam preso, mas vazou a notícia de que eles haviam sido detidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), e quando eles se deram conta de que eram inocentes, eles os detiveram por vários meses, a meu ver porque não sabiam o que fazer. No fim, deixaram-nos adormecidos (provavelmente drogados) em um campo. Depois, com a ajuda do provincial, o Pe. Yorio e o Pe. Jalics se refugiaram no exterior para evitar um novo desaparecimento.

3)-O que Francisco irá fazer?

Eu espero que ele impulsione a nova evangelização a partir da opção preferencial pelos pobres, segundo a índole de cada cultura. Por isso, ele vai olhar muito para a África e vai estimular o apostolado com relação aos mais miseráveis, nas grandes periferias urbanas e no "quarto mundo". Ele também irá promover o ecumenismo e colóquios em nível mundial com as outras religiões do mundo, em particular com o judaísmo e o islamismo, com base no que ele já fez na Argentina, onde há um diálogo a três entre essas religiões e o cristianismo. Além disso, imagino que ele tentará difundir o seu estilo de vida austero a toda a Igreja, que, assim, se adaptaria melhor à cultura contemporânea. Por fim, ele levará muito em conta o fato de que é bispo de Roma, certamente sem ignorar a Igreja universal, mas valorizando a colegialidade e o povo dos fiéis como um todo.

4)-Que consequências terá a sua eleição para a América Latina?

Francisco conhece bem a Igreja do continente. Ele foi relator na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007, coordenando também a comissão encarregada de redigir o documento conclusivo, e por isso vai tentar encorajar a "conversão pastoral" da qual esse texto fala, principalmente colocando a Igreja latino-americana "em estado de missão" nas grandes cidades. Provavelmente, ele irá promover o diálogo com os sindicatos e as organizações populares para favorecer uma maior justiça social, além da busca de acordos sobre políticas públicas para o bem comum. Ele vai valorizar, por fim, a piedade e a espiritualidade populares, especialmente a devoção mariana típica da América Latina.

5)-Como o Papa Bergoglio irá olhar para a teologia latino-americana?

Jorge Mario está convencido da importância espiritual e pastoral de uma boa teologia à altura da cultura contemporânea e de cada cultura particular. Eu acredito que ele vai apoiar a opção preferencial pelos pobres como lugar hermenêutico para a reflexão teológica e pastoral latino-americana. Na Argentina, ele defendeu aquela que eu chamo de "linha argentina da teologia da libertação", denominada por alguns como "teologia do povo", e eu presumo que ele vai continuar a promovê-la, sem ignorar outras orientações teológicas.

6)-Quais são as características dessa "teologia do povo"?

Assim como a teologia da libertação, ela utilizar o método "ver-julgar-agir", liga práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências sociais e humanas. Mas privilegia uma análise histórico-cultural em comparação com a sócio-estrutural de tipo marxista. É uma reflexão que surgiu no período pós-conciliar imediato, a partir de uma fonte dupla: o n. 53 da Gaudium et Spes, em que se fala da "cultura" como modo de vida de cada povo, lido na convicção de que a primeira evangelização havia contribuído muito para forjar a cultura argentina que se manifestava especialmente no catolicismo popular; as teorias da sociedade nascidas na Universidade de Buenos Aires nos anos 1960 e fundamentadas sobre as categorias de "povo" e de "antipovo", que reconheciam a injustiça, mas enfatizando a unidade do povo em vez do conflito, como teria ocorrido se se usasse o conceito de "classe".

Por isso, essa corrente sublinha a importância da cultura, da religiosidade e da mística popular, afirmando ao mesmo tempo que os seus intérpretes mais autênticos e fiéis são os pobres, com a sua espiritualidade tradicional e a sua sensibilidade pela justiça. Essa reflexão alimenta a pastoral dos bairros populares e das villas miserias.

7)- Qual é a situação da Igreja na Argentina hoje?

Nos últimos 15 anos, o episcopado manteve um diálogo crítico com o Executivo, embora uma minoria dos bispos tenha uma orientação mais conservadora. No plano social, todos reconhecem que a Igreja está muito à frente, tanto na assistência através da Cáritas, quanto na promoção humana, e às vezes ela se confronta com o governo, porque a situação dos pobres melhorou graças às ajudas estatais, mas faltam investimentos produtivos que criem postos de trabalho dignos.

Nos temas morais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu acredito que devam ser defendidas a lei natural e os direitos dos nascituros, mas dialogando mais com a sociedade civil...


“Quando Jorge Mario era meu aluno no seminário'': O teólogo Scannone fala sobre o Papa Francisco:

Enquanto conta sobre o pontífice, ele explica como o "Papa Francisco" já começou a reformar as coisas: "Graças aos muitos gestos simbólicos, a Igreja está se abrindo mais ao ser humano de hoje, sobretudo aos mais pobres e excluídos, saindo para as periferias". Mas se lhe perguntamos sobre o passado, é natural para ele usar o nome de batismo, "quando Jorge Mario era meu estudantes em Buenos Aires...".

(A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto)

O padre Juan Carlos Scannone, 81 anos, não é apenas o velho professor de grego e de literatura daquele menino que, depois do diploma, entrou no seminário de Villa Devoto, começando o seu noviciado na Companhia de Jesus. Menino sólido, dentre outras coisas: "Foi então que ele adoeceu gravemente de pneumonia e teve que ser operado em um pulmão. Eu lembro que ele suportou sua doença com muita força e integridade".

Diretor do Instituto de Investigação Filosófica da Faculdade de Teologia e Filosofia de San Miguel, não muito longe da capital argentina.

O padre Scannone é principalmente o maior teólogo argentino, aluno de Karl Rahner – outro jesuíta, um dos gigantes do pensamento do século XX – e, diz-se, ponto de referência teológico do próprio papa.

Além disso, eles têm uma referência comum:

"Eu acredito que não é possível entender Francisco sem compreender a espiritualidade inaciana. Dentre muitas outras características, pode-se notar o seu apreço pelo discernimento espiritual de Santo Inácio", ressalta. O "discernimento" é aquela capacidade de crivo interior para "sair do mal e buscar o bem" e, portanto, escolher livremente, que está no centro dos Exercícios Espirituais do fundador dos jesuítas e que Bergoglio, explica o padre Scannone, exerce "não somente na vida das pessoas, mas também na pastoral da Igreja".


E depois há uma corrente de pensamento tipicamente argentina, a chamada "teologia do povo". É preciso partir daí para entender o pontífice que quer "uma Igreja pobre e para os pobres" e denuncia a mentalidade para a qual "é uma tragédia se os bancos caem, mas se as famílias não têm nada para comer, então não se faz nada".

Mas o que é a "teologia do povo" e o quanto ela tem a ver com a teologia da libertação?

"Muitos consideram a teologia argentina do povo como uma corrente da teologia da libertação com características próprias, assim como faz o próprio Gustavo Gutiérrez", explica o padre Scannone, citando o fundador da teologia da libertação. "Eu mesmo já defendi em um artigo escrito em 1982 e retomado por Dom Quarracino".

O padre Scannone lembra que, em 1984, o antecessor de Bergoglio em Buenos Aires "explicou por que a Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé falava no plural de 'teologias' da libertação: ele não criticava todas, criticava aquelas que usavam a análise marxista da sociedade e da história".

A "teologia do povo" argentina, em suma, "não usa a análise social marxista, mas sim uma análise histórico-cultural, sem ignorar a sócio-estrutural".

Também por isso "outros a distinguem da teologia da libertação", em vez de considerá-la, como o padre Scannone, uma corrente "com suas características próprias".

Em todo o caso, "todas as correntes assumem a opção preferencial pelos pobres das conferências do episcopado latino-americano de Medellín e de Puebla",  a mesma opção "reiterada por Bento XVI no discurso inaugural de Aparecida e pela própria conferência". Eis o ponto: "Coerente com essa opção é a crítica à especulação financeira e à absolutização neoliberal do mercado, como já disse João Paulo II na Centesimus Annus".


A teologia do povo, em particular, "enfatiza o tema da evangelização das culturas, da inculturação do Evangelho e da piedade e espiritualidade populares, considerando que, na América Latina, esta – quando autêntica – é a encarnação da fé 'na' e 'nas' culturas latino-americanas e, portanto, tem um potencial evangelizador.Nada de ideologias ou sugestões marxistas, em suma, mas sim atenção e respeito às diversas culturas, ao povo e à sua fé: a "conversão pastoral" de uma Igreja que sai pelas ruas, rumo às "periferias".

O padre Scannone também lembra como o cardeal Bergoglio "surpreendeu pela sua simplicidade: ele sabe dirigir o carro, mas, como arcebispo, renunciou ao motorista, viajava nos transportes públicos, de trem e de metrô...".


No L'Osservatore Romano, ele havia contado que "também sabe cozinhar muito bem. Um dos seus pratos preferidos era o porco recheado. Ele o preparava aqui em San Miguel". Um "homem da orquestra", como se diz na Argentina, capaz de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

"Uma vez, eu vi que ele estava escrevendo um artigo na máquina de escrever, depois foi lavar a roupa, depois recebeu uma pessoa para um aconselhamento espiritual. Um trabalho espiritual, um mecânico e um manual ao mesmo tempo e no mesmo nível de qualidade".

Mas, padre, qual é a característica mais importante de Francisco como pessoa? "É difícil dizer uma em particular, mas eu gostaria de indicar uma que marcou um bispo amigo nosso. Ele me disse: é um homem que reza. Ele falava da sua grande profundidade espiritual".

A Teologia do povo. Entrevista com Juan Carlos Scannone

A teologia da libertação na Argentina assume a forma peculiar de "Teología del pueblo". Com uma ênfase particular na inculturação e na religiosidade popular.

(A reportagem é de Alessandro Armato, publicada no sítio MissiOnline, 01-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto)


Filósofo e teólogo próximo do ramo argentino da teologia da libertação, a chamada Teología del Pueblo, o padre Juan Carlos Scannone, jesuíta, é um personagem de destaque no panorama intelectual católico do Cone Sul. Discípulo de Karl Rahner, ele participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar da América Latina. Professor universitário, é autor de inúmeros livros e artigos relevantes. Encontramo-lo no Colégio Máximo de San Miguel, onde vive, nos arredores de Buenos Aires.

1)-O que significa fazer teologia no e a partir do Cone Sul?
O aspecto fundamental é a inculturação. Como mensagem de salvação para todos, a teologia tem um significado universal. Mas, como reflexão sobre uma fé que se incultura, a teologia também deve se inculturar. Ora, o Cone Sul faz parte do mundo ocidental, mas apresenta uma miscigenação cultural com diversas variantes. Isso requer uma perspectiva teológica específica.

2)- Na Argentina, essa perspectiva específica é a Teología del Pueblo.

Para compreendê-la, é preciso partir do aparecimento da Teologia da Libertação, em torno da Conferência do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968. Essa teologia, que é uma das grandes contribuições da América Latina para a cultura universal, assume a forma específica, na Argentina, da "Teologia do Povo". Trata-se de uma perspectiva própria, original, como reconhece o próprio Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação.

3)- Em que ela difere desta última?

A diferença é que aqui nunca foram utilizadas nem a metodologia marxista de análise da realidade, nem categorias tomadas do marxismo, talvez por influência do peronismo.

4)- No âmbito especificamente teológico, o que caracteriza essa perspectiva?

Uma revalorização da cultura e da religiosidade popular, tanto argentina quanto latino-americana. Daí o nome de Teologia do Povo (embora quem a chamou assim pela primeira vez foi um teólogo uruguaio que a criticava, Juan Luis Segundo). Fala-se do povo como sujeito histórico-cultural, e da religiosidade popular como uma forma inculturada de fé cristã católica no povo argentino e latino-americano. É uma linha que privilegia mais a análise histórico-cultural do que a sócio-estrutural.

5)- Quem deu corpo a essa teologia?

O grande teólogo é Lucio Gera, um imigrante italiano que chegou à Argentina quando criança. Gera era líder da Comissão Episcopal de Pastoral (Coepal), constituída pelos bispos argentinos no rescaldo do Concílio Vaticano II. A Teologia do Povo ganha forma nesse âmbito. Além de Gera, na Comissão estavam Justino O'Farrell, Gerardo Farrel, Rafael Tello, Alberto Sily, Fernando Boasso, Dom Enrique Angelelli, Dom Manuel Marengo e outros. Juntos elaboraram o famoso "Documento de San Miguel", em 1969, um dos textos mais significativos e influentes da história da Igreja argentina, em que se fala, dentre outras coisas, da pastoral popular pensada não só para o povo, mas a partir do povo. A ideia de fundo é que o povo latino-americano já foi evangelizado e, portanto, apresenta muitos elementos que não são apenas "sementes", mas "frutos" do Verbo.

6)-O que Roma pensava a respeito?

Roma criticou as várias formas de teologia da libertação que se referiam ao marxismo. A corrente argentina, que não apresentava sinais disso, era vista de forma positiva.

7)-E o que pensava a ditadura de Videla (1976-1983)?

Os militares, ao contrário, eram pouco sutis. Para eles, "libertação" e "opção pelos pobres" significavam automaticamente marxismo. Não distinguiam entre as diversas correntes. Eu mesmo, que nunca tive nada a ver com o marxismo, era considerado como tal. Até o futuro cardeal Pironio, do qual hoje está em andamento a causa de beatificação, era visto como marxista pela inteligência militar. Era pura ignorância.

8)- Quais foram os frutos da Teologia do Povo?

Um dos principais frutos foi a valorização da religiosidade popular, que deixou uma grande marca em toda a Igreja argentina. Eu penso na pastoral dos santuários. Para a festa de San Cayetano, padroeiro do pão e do trabalho, há pessoas que ficam na fila por até 15 dias para entrar primeiro no santuário. Mas eu também penso nas peregrinações juvenis a pé a Luján, idealizadas por Rafael Tello durante o regime militar, que mobilizam ainda hoje centenas de milhares de pessoas a cada ano. Essas manifestações religiosas sempre existiram. Mas o mais interessante dessa teologia é o fato de tê-la reconhecido como autêntica fé popular. Tanto que, ultimamente, como evidenciado pelo documento de Aparecida, fala-se oficialmente de espiritualidade e de mística populares. O próprio Bento XVI disse em Aparecida que a piedade popular é um dos grandes tesouros da América Latina. O tema ainda é muito atual.

9)- A ideia começou na Argentina?

No Concílio, não se falava a respeito. O primeiro que falou sobre isso em nível universal foi Paulo VI. Mas é muito provável, quase certo, que a revalorização começou na Argentina com o grupo da Coepal. Depois, vários bispos latino-americanos apresentaram essas ideias no Sínodo de 1974 sobre a evangelização. Daí, provavelmente através de Pironio, argentino amigo dos membros da Coepal, elas passaram para a exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, e, depois, para a Conferência do Episcopado Latino-Americano de Puebla, que é a aplicação da Evangelii nuntiandi na América Latina, onde Lucio Gera figura entre os redatores do documento sobre a evangelização da cultura. É uma viagem de ida e volta entre a América Latina e Roma.

10)- Em Medellín já não se falava de religiosidade popular?

Falava-se a respeito como de uma religião natural, unicamente como "semente do Verbo". Enquanto, para a Teologia do Povo argentina, trata-se de um autêntico catolicismo popular, "fruto" do Verbo. Como "sementes" são entendidas só as religiões aborígines ou afro-americanas.

A teologia da libertação de Francisco:

Às vésperas da viagem ao Brasil, a leitura do teólogo argentino Juan Carlos Scannone ajuda a entender as palavras de Bergoglio sobre o "povo dos fiéis".A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada no sítio MissiOnline, 17-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

1)- A poucos dias da visita do Papa Francisco ao Brasil, a pergunta é obrigatória: como já foi dito por muitos, o retorno de Bergoglio como pontífice à América Latina realmente o verá como protagonista da reconciliação entre Roma e a Teologia da Libertação ?


Uma "reaproximação" entre o papa e os teólogos latino-americanos foi desejado recentemente por Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito no Brasil, um dos rostos mais conhecidos do movimento. Algumas semanas atrás, Casaldáliga pediu que Adolfo Pérez Esquivel fosse o portador desse pedido junto ao papa, durante um encontro privado que o Prêmio Nobel da Paz argentino tinha obtido.

Na mesma ocasião foi entregue a Francisco uma cópia do "Pacto das Catacumbas", um acordo firmado por 40 bispos presentes no Concílio Vaticano II, no dia 16 novembro de 1965. O signatários – que incluíam os representantes mais conhecidos da ala "progressista" (dentre outros, os bispos Hélder Câmara, Leonidas Proaño e Luigi Bettazzi) – se comprometiam nesse texto a levar uma vida austera, sem propriedades nem contas bancárias, sem títulos nem bens materiais.
Percorrendo a lista dos signatários, o papa comentou: "Nossa, veja quem está aqui!". Pérez Esquivel disse: "Francisco se interessou, disse que iria ver. Nós nos comprometemos a fazer um trabalho para reunir esses pensadores, como Leonardo Boff, que contribuíram tanto com a Igreja".

2)-Até aqui a reconstrução do site Vatican Insider. Neste ponto, a pergunta soa assim: haverá, no Brasil, a palavra do Papa Francisco sobre a Teologia da Libertação? E, em caso afirmativo, em que direção?

Para responder a essa questão nada fácil e para nos orientarmos sobre esse espinhoso assunto, é preciso voltar novamente às fontes. E a fonte se chama padre Juan Carlos Scannone. Não é um rosto conhecido fora do estreito círculo dos iniciados. Porém, esse professor jesuíta – filósofo e teólogo, 81 anos bem vividos – é o inspirador da "pastoral" do então cardeal Bergoglio e a sua principal referência teológica.
Uma confirmação disso é um livreto recém-lançado pela editora Marsilio, intitulado Ero Bergoglio, sono Francesco [Era Bergoglio, sou Francisco].

Nessa "primeira reportagem sobre o papa do fim do mundo" (como diz o subtítulo), o autor – o jovem jornalista Cristian Martini Grimaldi – reuniu uma série de textos escritos da Argentina pelo L'Osservatore Romano. Um dos capítulos mais interessantes é o dedicado justamente a Scannone, intitulado "O meu aluno Bergoglio".

Nele, Scannone, diretor do Instituto de Pesquisa Filosófica da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel (a mesma da qual o futuro papa foi reitor, no período 1980-1986), a propósito da Teologia da Libertação e da posição do papa a respeito, oferece uma reflexão articulada, da qual relatamos as principais passagens. É preciso dizer que muitas das afirmações de Scannone ecoam as feitas em uma entrevista concedida pelo jesuíta a Alessandro Armato para a revista Mondo e Missione (novembro de 2011).


"Quando o então secretário do Celam, depois cardeal Quarracino, apresentou a primeira das instruções sobre a Teologia da Libertação (Libertatis Nuntius, 1984), ele explicou por que fala de teologias da libertação, no plural, e fez alusão a quatro correntes", afirma Scannone. "Uma delas é a teologia argentina do povo, elaborada pela Coepal (Comissão Episcopal), liderada pelo teólogo Lucio Gera. Tanto os adversários quanto os detratores da Teologia da Libertação a consideram como uma corrente dela, embora outros, ao contrário, a diferenciam".


Ele continua: "Ela [a teologia argentina do povo] se caracteriza por indicar o povo – entendido como uma nação unida por uma cultura, uma história e um projeto compartilhado comum – como sujeito da libertação da injustiça e da opressão. Portanto, não faz alusão à classe social na luta de classes. São as pessoas pobres e excluídas na América Latina as que melhor conservam a cultura comum (...). Grande importância é dada à evangelização dos povos e das culturas, e são consideradas a piedade popular e a espiritualidade latino-americana como produto da inculturação do Evangelho nas nossas culturas".


Lendo esses esclarecimentos de Scannone, entende-se como neles podem "estar juntos" alguns elementos da biografia do Papa Francisco que os estreitos esquematismos eclesiais italianos não contemplam como compatíveis. Refiro-me à decisiva opção pelos pobres ("Eu sonho com uma Igreja pobre e para os pobres"), atitude considerada "de esquerda" e, por outro lado, a grande simpatia pela piedade popular, marcadamente a devoção mariana fortíssima nesse papa (neste caso, rotulado como "de direita").


Uma coisa é certa: a Teologia da Libertação em molho argentino foge do marxismo. Scannone é claro:

"A teologia argentina do povo privilegia a análise histórico-cultural ao interpretar a situação histórica à luz da fé, em vez da análise sócio-estrutural, embora esta última não seja descartada, mas sem usar o método marxista".


O professor jesuíta prossegue:

 "Na corrente argentina da Teologia da Libertação, unem-se intimamente a opção preferencial pelos pobres (Conferência de Puebla) e a evangelização da cultura, da qual também fazem parte as estruturas sociais, e um dos frutos na América Latina é o catolicismo popular".

Bergoglio – conclui Scannone – não é um teólogo, mas sim um pastor:

“Eu acho que o seu ministério não pode ser plenamente compreendido sem primeiro entender esse contexto teológico argentino, porque daí vem a opção pelos pobres e pelos marginalizados, a apreciação da piedade popular e pastoral, o seu uso repetido da categoria de 'povo dos fiéis', em sintonia com o 'povo de Deus' da Lumen Gentium, mas interpretado através dos olhos latino-americanos e argentinos".


Se for assim, não devemos excluir que, realmente, embora com todas as nuances do caso, se chegue a uma superação do "conflito" em curso entre teólogos da libertação e Roma. Não faltam sinais de um degelo.

Recentemente, o protagonista foi um personagem de primeiro plano como o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, atual prefeito do dicastério vaticano – a Congregação para a Doutrina da Fé – que, nos anos 1980, interveio com nada menos do que duas instruções para assinalar os desvios pastorais e doutrinais que incumbiam sobre os caminhos tomados pelas teologias latino-americanas:

"O movimento eclesial e teológico da América Latina, conhecido como 'Teologia da Libertação', que depois do Vaticano II encontrou um eco mundial, deve ser ser contado, a meu ver, entre as correntes mais significativas da teologia católica do século XX".

Escreve Müller em um livro de próxima publicação:

Uma coletânea de artigos escritos a quatro mãos [com Gustavo Gutiérrez], já impresso na Alemanha em 2004, que será lançado na Itália com o título Dalla parte dei poveri. Teologia della liberazione, teologia della Chiesa (Do lado dos pobres. Teologia da Libertação, teologia da Igreja] (coeditado pelas Edizioni Messaggero Padova e Emi).

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/522077-a-teologia-da-libertacao-de-francisco

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