Batismo: Fé, ou eleição gratuita e imerecida da Graça?
por*Francisco José Barros de Araújo
O Batismo constitui o fundamento de toda a vida cristã, a porta de entrada na economia sacramental e o primeiro dom da graça redentora aplicado pessoalmente à alma. Por ele, segundo a fé constante da Igreja, somos libertos do pecado original, regenerados no Espírito Santo e incorporados a Cristo como membros vivos do seu Corpo Místico.
Não se trata apenas de um sinal externo de pertença religiosa, mas de uma transformação ontológica real: o homem é configurado a Cristo, recebe a vida divina e passa da ordem da natureza para a ordem da graça. À luz dessa profundidade, compreende-se que a Igreja, desde os tempos apostólicos, nunca concebeu o Batismo como privilégio reservado apenas à maturidade racional. Ao contrário, sempre reconheceu que, se a salvação é dom gratuito de Deus, não deve ser retardada àqueles que dela mais necessitam — inclusive as crianças (conforme Romanos 3,23-24), também marcadas pelo pecado original e chamadas à filiação divina.
A Sagrada Escritura testemunha essa consciência eclesial nascente ao relatar os chamados “batismos domésticos”, nos quais casas inteiras eram introduzidas na fé: a família de Lídia, o carcereiro de Filipos, a casa de Estéfanas. Tal prática revela que o Batismo era compreendido em chave comunitária, pactual e familiar, não meramente individualista.
A reflexão teológica posterior, desenvolvida por Padres e Doutores da Igreja como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, aprofundou essa compreensão ao articular a relação entre graça preveniente, fé e eleição divina. Nessa perspectiva, o Batismo de adultos manifesta a resposta consciente ao chamado de Deus, enquanto o Batismo infantil resplandece como sinal privilegiado da primazia absoluta da graça.
Assim, longe de ser questão meramente disciplinar, a administração do Batismo a adultos e crianças toca o próprio coração da soteriologia cristã: a salvação como dom gratuito, oferecido por iniciativa divina e acolhido na fé da Igreja.
1. Fundamento bíblico do Batismo familiar
Diversas passagens do Novo Testamento revelam que o Batismo era conferido no âmbito doméstico:
-A família de Lídia (At 16,15)
-O carcereiro de Filipos “com todos os seus” (At 16,33)
-A casa de Estéfanas (1Cor 1,16)
-A promessa de Pedro: “para vós e para vossos filhos” (At 2,38-39)
Esses textos mostram que o ingresso na vida cristã se dava em chave comunitária e familiar. A lógica bíblica da “casa” (oikos) naturalmente incluía crianças, revelando que a graça não era postergada até a idade da razão.
2. Batismo de adultos: fé explícita e eleição
No Batismo de adultos, a fé professada é condição imediata para o sacramento. Contudo, mesmo aqui permanece a primazia da graça:
“Ninguém vem a mim se o Pai não o atrair.”
A fé pessoal é resposta a uma eleição prévia. Como ensina Santo Agostinho, ninguém crê sem antes ser movido pela graça preveniente. O Batismo do adulto manifesta, portanto, a cooperação entre liberdade humana e iniciativa divina.
3. Batismo infantil: sinal máximo da eleição gratuita
Se no adulto a eleição está implícita, na criança ela aparece de modo ainda mais claro:
-A criança não possui méritos próprios.
-Não formula um ato racional de fé.
-É apresentada pela fé da Igreja e dos pais.
Isso evidencia que a salvação é dom puro. Como disse Cristo:
“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15,16).
A Crisma confirmará posteriormente essa graça, quando a fé recebida será pessoalmente assumida.
4. Testemunho da Tradição patrística
Os Padres da Igreja confirmam a antiguidade do Batismo infantil:
-Santo Irineu de Lião fala da regeneração de crianças.
-Orígenes afirma que a Igreja recebeu dos Apóstolos essa prática.
-São Cipriano de Cartago defende batizar sem demora.
-São João Crisóstomo ensina que a graça não deve ser negada aos pequenos.
-São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno recomendam o Batismo desde cedo.
A unanimidade moral dos primeiros séculos demonstra continuidade apostólica.
5. Desenvolvimento teológico medieval
Na escolástica, a doutrina foi sistematizada:
-São Tomás de Aquino ensina que "a fé da Igreja supre a da criança".
– O sacramento age ex opere operato, isto é, pela eficácia da graça de Cristo que nele opera, e não em razão da maturidade psicológica ou da compreensão subjetiva de quem o recebe. Por exemplo: não é a minha fé pessoal que faz com que, pelas mãos de um sacerdote legitimamente ordenado, se realize a transubstanciação eucarística; ela se dá objetivamente pela ação de Cristo na Igreja, creia eu ou não. Do mesmo modo sucede com o sacramento do Batismo: sua eficácia procede da graça divina que atua no rito, e não do grau de consciência ou adesão intelectual do batizando. Quer eu creia ou não na eficácia da graça sacramental do Batismo, de modo indelével é apagada a mancha do pecado original e se realiza a filiação divina, pela qual nos tornamos verdadeiramente filhos e filhas de Deus, incorporados a Cristo e à sua Igreja.
6. Consenso na Reforma Protestante original
Mesmo os primeiros reformadores mantiveram o Batismo infantil:
-Martinho Lutero defendia que negar o Batismo às crianças era negar-lhes a graça.
-João Calvino via nele sinal da Aliança, paralelo à circuncisão.
Assim, a rejeição do Batismo infantil surge apenas em grupos posteriores, fora do consenso histórico original da cristandade.
7. Dimensão eclesial e sacramental
A teologia contemporânea reforça essa visão:
-Karl Rahner destaca o caráter de inserção no mistério da graça.
-Joseph Ratzinger vê o Batismo como novo nascimento ontológico.
-Yves Congar sublinha a dimensão comunitária.
-Henri de Lubac relaciona o sacramento ao Corpo Místico.
Conclusão
À medida que se aprofunda a teologia do Batismo, torna-se evidente que sua administração a adultos e crianças não representa práticas concorrentes, mas dimensões complementares do mesmo mistério salvífico. No adulto, o sacramento evidencia a adesão pessoal da fé, fruto da graça que atrai e ilumina a liberdade humana.
Na criança, manifesta de forma ainda mais límpida que a salvação não nasce do esforço, da consciência ou do mérito, mas da eleição amorosa de Deus que precede toda resposta. Essa verdade percorre ininterruptamente a história da Igreja. Dos testemunhos patrísticos à síntese escolástica, do magistério conciliar à teologia contemporânea, permanece firme a convicção de que negar o Batismo às crianças significaria obscurecer a gratuidade da redenção e restringir indevidamente o alcance da graça.
Não por acaso, mesmo no contexto da Reforma, figuras como Martinho Lutero e João Calvino conservaram essa prática, reconhecendo seu sólido enraizamento bíblico e tradicional.
O Batismo infantil proclama, portanto, uma verdade central do Evangelho: Deus ama primeiro, chama primeiro e salva primeiro. A criança batizada torna-se sinal vivo de que a vida cristã começa não na decisão humana, mas no dom divino que antecede toda consciência. Por isso, a Igreja permanece fiel ao mandato do Senhor — “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais” — compreendendo que abrir-lhes desde o início as fontes da graça é permitir que cresçam já inseridas na vida trinitária, destinadas à plenitude da fé que um dia professarão pessoalmente.
Em última análise, batizar crianças não é antecipar indevidamente a fé, mas garantir que a fé possa florescer já enraizada na graça. É reconhecer que a filiação divina não é prêmio dos que compreendem, mas herança oferecida gratuitamente aos que são chamados — desde o início da vida — a participar do mistério eterno de Deus.
Amado(a) irmão(ã) em Jesus Cristo, antes de mais nada, não se sinta ofendido(a)!
Nosso objetivo aqui não é atacar pessoas, mas esclarecer enganos e inverdades que, infelizmente, ainda circulam no meio protestante — muitas vezes repetidos sem estudo ou verificação. Somos constantemente caluniados em cultos, acusados de “adorar imagens”, “inventar doutrinas” e “seguir tradições humanas”, quando, na verdade, tudo o que ensinamos tem base bíblica, histórica e teológica sólida.
Agora, convenhamos: querer que nós, católicos, adaptemos nossa fé bimilenar às novas doutrinas de alguns grupos recentes é o mesmo que querer atender às reinvindicações mais absurdas de certos movimentos ideológicos — como aquele grupo que, depois de conquistar o direito à união civil, agora quer abolir o Dia dos Pais e das Mães porque o simples fato de existir essas datas “os incomoda”. Ora, a verdade não muda porque alguém se sente desconfortável com ela! A fé católica não é uma loja de conveniência espiritual onde cada um escolhe o que quer crer conforme o humor do dia. A Igreja Católica não precisa se reinventar para agradar sensibilidades modernas ou modismos teológicos — afinal, não fomos nós que nos separamos dela; foram os outros que decidiram criar suas próprias versões da verdade. A autêntica doutrina cristã não é resultado de votação nem de “releitura cultural”, mas é revelação divina transmitida fielmente desde os apóstolos. Nosso compromisso é com a verdade que liberta, não com a opinião que agrada.
Por isso, convidamos você a conhecer a Igreja Católica por dentro, e não pelas caricaturas que pintam dela. Leia, estude, investigue as fontes originais, veja o que os Padres da Igreja realmente ensinaram. Só assim você perceberá que nossa luta não é contra pessoas, mas contra os erros que deturpam a fé e confundem as almas. Como ensinava Santo Cipriano de Cartago: “Estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja Católica.” (Epist. 55, n.1, Hartel, 614).
E como sabiamente
observou Dom Fulton J. Sheen: “Há
realmente poucas pessoas que odeiem a Igreja Católica, mas há milhões que
odeiam o que erroneamente pensam ser a Igreja Católica.”
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
Bibliografia
-AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2019.
-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005.
-BASÍLIO MAGNO, São. Tratados sobre o Espírito Santo. São Paulo: Paulus, 1998.
-CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
-CIPRIANO DE CARTAGO, São. Cartas. São Paulo: Paulus, 2000.
-CONGAR, Yves. A Igreja: de Santo Agostinho aos nossos dias. São Paulo: Herder, 1995.
-CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre o Evangelho de Mateus. São Paulo: Paulus, 2004.
-DE LUBAC, Henri. Catolicismo: aspectos sociais do dogma. São Paulo: É Realizações, 2014.
-GREGÓRIO NAZIANZENO, São. Discursos Teológicos. São Paulo: Paulus, 2001.
-IRINEU DE LIÃO, Santo. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 1995.
-LUTERO, Martinho. Catecismo Maior. Porto Alegre: Concórdia, 2000.
-ORÍGENES. Homilias sobre o Levítico. São Paulo: Paulus, 2006.
-RAHNER, Karl. Sacramentos da Igreja. São Paulo: Paulus, 1997.
-RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2015.
-Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
🙌
Ajude a levar a Mensagem Cristã a mais pessoas! Compartilha e siga-nos em
nossas Redes Sociais abaixo:
👉 Clique
aqui para seguir o Blog Berakash e
receber atualizações
👉 Clique aqui e siga nosso canal no YouTube
👉 Siga o canal "Evangelho Cotidiano" no WhatsApp:


Postar um comentário
Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.