Esta é uma das objeções mais frequentes levantadas contra a intercessão dos santos. Muitos argumentam: "Se somente Deus é onisciente, como os santos podem ouvir as orações de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo?" A pergunta parece lógica, mas parte de um equívoco: pressupõe que os santos escutam as orações por um poder próprio, como se possuíssem atributos divinos. A Igreja jamais ensinou isso.
Se você deseja uma resposta estritamente bíblico-teológica, será necessário recorrer conjuntamente à Sagrada Escritura, à Tradição Apostólica e ao Magistério da Igreja, pois é dessa tríplice fonte que a fé cristã extrai sua compreensão sobre a Comunhão dos Santos e a vida eterna. Trata-se, portanto, de uma explicação mais ampla e profunda, que exige compreender a Revelação em sua totalidade.Entretanto, se lhe satisfaz uma explicação meramente racional e científica, podemos recorrer a uma interessante analogia oferecida pela própria ciência moderna. A Teoria da Relatividade, desenvolvida por Albert Einstein, pode nos ajudar a compreender, de maneira resumida, que nossa experiência do tempo e do espaço não é absoluta.
Essa teoria trata justamente da relação entre tempo, espaço e velocidade, demonstrando que essas grandezas dependem do referencial do observador. Evidentemente, ela não pretende explicar a realidade sobrenatural nem provar um dogma de fé, mas mostra que nossa percepção da realidade é muito mais limitada do que imaginamos.
Essa analogia é útil porque nos recorda que a eternidade transcende completamente as categorias físicas conhecidas por nós. No Céu, as variáveis de tempo e espaço, tal como as experimentamos nesta vida, deixam de ser determinantes. Pode-se fazer apenas uma ressalva em relação ao purgatório. Alguns teólogos admitem que ali exista uma forma de duração distinta do tempo material, semelhante ao que a filosofia escolástica chamou de aevum (aeviternidade), um modo de existência próprio das criaturas espirituais.
Todavia, isso permanece uma hipótese teológica. O dogma católico jamais definiu como se desenvolve essa realidade. A Igreja apenas ensina que o purgatório existe e que para lá vão as almas que já morreram na graça de Deus e têm sua salvação garantida, mas que ainda necessitam de purificação não da culpa dos pecados — já perdoada —, mas das penas temporais decorrentes deles, antes de entrarem plenamente na visão beatífica.
Embora essa analogia científica seja interessante, ela serve apenas como auxílio à razão. A verdadeira explicação continua sendo teológica, pois se fundamenta na participação das criaturas na própria vida de Deus.
Na visão cristã, os bem-aventurados já não vivem submetidos às limitações próprias da existência terrena. Para aqueles que contemplam Deus face a face, as barreiras do tempo e do espaço deixam de existir da forma como as conhecemos. Evidentemente, isso não significa que os santos se tornem oniscientes ou onipresentes. Tais atributos pertencem exclusivamente a Deus. Todavia, significa que eles participam da vida divina de um modo infinitamente mais pleno do que nós, que ainda peregrinamos neste mundo.
É exatamente isso que ensina São Pedro:
"Por elas nos foram concedidas as preciosas e grandíssimas promessas, para que por meio delas vos torneis participantes da natureza divina, escapando da corrupção que há no mundo por causa da concupiscência." (2 Pedro 1,4)
Essa participação na natureza divina não transforma o homem em Deus por essência, mas o faz participar, pela graça, da própria vida de Deus.
Enquanto vivemos neste mundo, essa participação já é real, embora ainda imperfeita. Os santos glorificados, porém, a possuem em sua plenitude, contemplando Deus na chamada visão beatífica.Aliás, mesmo durante a vida terrena, Deus já concedeu a alguns de seus servos extraordinárias participações em seus dons, como o dom de ciência, o discernimento dos corações, profecias, visões, revelações, bilocação e outros carismas sobrenaturais. Se Deus realiza tais prodígios por meio de homens ainda sujeitos às limitações desta vida, quanto mais poderá comunicar seus desígnios àqueles que já vivem plenamente unidos a Cristo na glória.
Por isso, quando afirmamos que os santos escutam nossas orações, não estamos dizendo que possuam um conhecimento infinito ou um poder independente. Eles ouvem porque Deus quer, Deus permite e Deus lhes comunica aquilo que deseja comunicar.
Deus, evidentemente, basta a Si mesmo e não necessita de criatura alguma para realizar sua obra. No entanto, em sua infinita bondade, quis associar suas criaturas ao plano da salvação. Assim como escolheu profetas, apóstolos, anjos e ministros humanos para cooperarem em sua ação no mundo, também quis que os membros glorificados do Corpo de Cristo participassem de sua solicitude para com a Igreja peregrina.
O próprio Senhor prometeu essa participação na sua obra quando afirmou:
"Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque eu vou para o Pai." (João 14,12)
É importante deixar claro que somente Deus é onisciente. Os santos não conhecem todas as coisas nem escutam tudo o que é dito ou pensado pelos homens. Eles conhecem apenas aquilo que Deus lhes revela segundo sua Providência. Assim, quando um fiel invoca um santo, é Deus quem torna conhecida essa súplica àquele membro glorificado da Igreja, para que interceda diante do trono divino.
Essa compreensão já era ensinada por Santo Agostinho:
"Convenhamos que os mortos ignoram o que acontece na terra, pelo menos no momento em que ocorrem. Certamente, não ficam sabendo de tudo, mas apenas daquilo que lhes é permitido conhecer e que lhes convém conhecer."
E acrescenta:
"As almas dos mortos também podem conhecer alguns acontecimentos da terra por revelação do Espírito Santo... não todas as coisas, mas apenas aquelas que a Providência Divina julgou conveniente revelar." (O cuidado devido aos mortos)
Esse privilégio, aliás, não é exclusivo dos santos que já estão no Céu. A própria Escritura mostra que Deus, ainda nesta vida, concede a alguns servos conhecimento sobrenatural de acontecimentos distantes.
-São Paulo, por exemplo, recebeu em visão o apelo de um macedônio que lhe suplicava: "Passa à Macedônia e ajuda-nos" (Atos 16,9).
-Pedro conheceu a mentira de Ananias e Safira (Atos 5,1-11); Eliseu soube, à distância, o que havia ocorrido com Geazi (2Rs 5,26);
-e diversos profetas receberam revelações de fatos presentes e futuros.
Se Deus pode comunicar esse conhecimento extraordinário aos homens que ainda vivem na condição terrestre, não há qualquer dificuldade racional ou teológica em admitir que possa fazê-lo, de modo muito mais excelente, àqueles que já participam plenamente da glória de Cristo.
São Tomás de Aquino estabeleceu que há três categorias de medida da duração das substâncias materiais ou espirituais: o tempo, o evo e a eternidade.
O evo é a natureza imutável e a medida de duração das substâncias espirituais, dos anjos, dos demónios, na teologia cristã medieval. Alguns defenderam que há múltiplos evos mas São Tomás entendeu que só há um. A luta de São Miguel Arcanjo empunhando uma espada de fogo contra Satanás não se desenrolou no tempo mas no evo (não foi uma batalha de demonstração de força e habilidades físicas e materiais, pois são seres espirituias, mas a nível intelectual, ou seja, de verdades). Este último é a substância imutável dos anjos e dos astros e, nessa medida, não comporta antes e depois - a natureza de um anjo não muda nunca, é intransmutável - mas na medida em que essa substância é dotada de mobilidade ou de livre-arbítrio e pode desaparecer por vontade de Deus, o Eternamente Presente, ao evo são aplicáveis o antes e o depois - o anjo pode mudar de lugar, escolher a sua trincheira de combate, a pessoa humana a quem dar proteção.
São Tomás escreveu:
-"O evo diferencia-se do tempo e da eternidade como um intermédio entre ambos. Há alguns que estabelecem a diferença dizendo: a eternidade não tem princípio nem fim; o evo tem princípio, mas, não fim; o tempo tem princípio e fim. Mas trata-se de uma diferença acidental como ficou dito" (artigo 4).
-"Portanto, se o próprio evo não está submetido à novidade e à antiguidade, a razão deparar-se-á com o fato de ser intransmutável; por isso na sua medida não haverá antes nem depois."
-"Por conseguinte, há que dizer: como se quer que a eternidade é a medida do ser permanente, quanto mais algo se afasta do ser permanente, tanto mais se afasta da eternidade. Há certas coisas que se afastam tanto da permanência do ser, que o seu ser está submetido à mudança, ou é a própria mudança. Por isso são medidos com o tempo. Isto é próprio de todo o movimento e também, é próprio de todos os seres corruptíveis".
-"Por outro lado, há seres que se afastam muito menos da permanência no ser, porque o seu ser não está submetido à mudança nem é a própria mudança...Isto é o próprio dos corpos celestes cujo ser substancial é intransmutável.Algo parecido se passa com os anjos que têm ser instransmutável submetido à mutabilidade da escolha, algo próprio da sua natureza. Por isso, podem mudar a respeito da sua escolha, pensamento, afeto e lugar. E podem ser medidos pelo evo, que é o intermédio entre a eternidade e o tempo".
-"O evo é totalidade simultânea, sem embargo, não é eternidade, porque está submetido ao antes e ao depois".
(Santo Tomas de Aquino, Suma de Teologia, I, Parte I, Cuestion 10, Sobre la eternidade de Díos, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2006, pp 157-158; o destaque é posto por nós ).
Segundo Einstein, ao se atingir a velocidade da luz:
-O tempo passa mais lentamente, como se estivesse em câmera lenta.
-O espaço e o tempo deixam de ser absolutos e passam a ser relativos, ou seja, o tempo medido entre o mesmo evento por observadores em movimento relativo é diferente. O espaço medido por observadores em estados diferentes (repouso e movimento) é diferente. A Teoria da Relatividade Especial de Einstein afirma que a velocidade da luz no vácuo é a mesma em todas as direções e em todos os referenciais inerciais, e é independente do movimento da fonte.
Bom, por essa breve explicação da ciência, já se ver que é possivel sim, aos santos, que já estão na eternidade, onde tudo é instantãneo, sem tempo e nem espaço, ouvir e atender sim as súplicas de quem está no tempo! Queremos muitas vezes comparar a eternidade com as categorias e medidas do tempo, o que não é possível! No céu os Santos sabem, através da comunhão com Deus, de nossa miserável condição e necessidades aqui na terra. A sua felicidade no céu consiste em compreender e amar a Deus. Eles participam PLENAMENTE da comunhão e do interesse de Deus por nós.Deus não é indiferente ao que está acontecendo aos seus filhos da terra por Ele criados. Os Santos, que tanto se assemelham a Deus no seu amoroso interesse por nós, também acompanham as nossas lutas aqui na terra e no tempo que se chama hoje.
Podemos invocar os santos, e eles podem ouvir as nossas preces! Como?
É claro que os Santos não são oniscientes e nem onipresentes, mas no Céu todos os seus desejos razoáveis são satisfeitos pelo poder de Deus.
É
razoável que eles desejem conhecer os justos pedidos a eles dirigidos. Então,
Deus habilita-os a conhecer as nossas preces.
A perfeita comunhão com Deus permite aos Santos conhecerem nossos pedidos e interceder por nós. Eles não estão dormindo,pois uma alma espiritual na eternidade, não dorme, ou seja, não tem necessidade de descanso, como nós que estamos no tempo temos!
Desde o Antigo Testamento, Deus revela um aspecto admirável de sua pedagogia: embora seja absolutamente soberano, onipotente e não necessite de criatura alguma, Ele livremente escolhe homens e mulheres fiéis para serem colaboradores de seus desígnios. Deus poderia realizar tudo sozinho, mas, por amor, quis associar suas criaturas à obra da salvação.
Por isso, as Escrituras mostram Deus procurando pessoas em quem pudesse confiar grandes responsabilidades. Em Ezequiel, o Senhor lamenta:
"Procurei entre eles um homem que levantasse um muro e se colocasse na brecha diante de mim em favor desta terra, para que eu não a destruísse; mas não encontrei nenhum." (Ez 22,30)
Da mesma forma, em Isaías, Deus pergunta:
"Quem enviarei? Quem irá por nós?" (Is 6,8)
E o profeta responde prontamente:
"Eis-me aqui. Envia-me!"
Essas passagens não significam que Deus dependesse de alguém por incapacidade própria, mas revelam sua vontade de contar com a livre cooperação daqueles que lhe são fiéis. Deus procura corações dóceis, obedientes e plenamente entregues à sua vontade, para confiar-lhes missões, responsabilidades e graças extraordinárias.
É nesse contexto que devemos compreender também a missão dos santos glorificados. Eles são aqueles que, durante a vida, corresponderam de modo heroico à graça divina e permaneceram fiéis até o fim. Agora, unidos perfeitamente a Cristo pela visão beatífica, tornaram-se instrumentos ainda mais aptos para cooperar com a vontade de Deus.
Quanto maior a união de uma criatura com Deus, maior também é sua participação nos bens divinos. Não porque adquira atributos próprios da divindade, mas porque Deus, em sua generosidade, comunica-lhe aquilo que julga conveniente para a edificação de sua Igreja. É precisamente isso que ensina São Pedro ao afirmar que fomos chamados a ser "participantes da natureza divina" (2Pd 1,4).
Assim, os santos não conhecem as súplicas dos fiéis por possuírem onisciência, mas porque Deus lhes confia esse conhecimento. Não intercedem porque tenham poder independente, mas porque Deus lhes concede participar de sua obra misericordiosa. Não distribuem graças por autoridade própria, mas apresentam nossas orações Àquele de quem procede toda graça e todo dom perfeito (cf. Tg 1,17).
Essa lógica percorre toda a história da salvação:
-Deus confiou a José a administração do Egito;
-confiou a Moisés a libertação de Israel;
-confiou a Elias a defesa da verdadeira fé;
-confiou aos profetas a transmissão de sua Palavra;
-confiou aos Apóstolos o anúncio do Evangelho;
-confiou a Pedro as chaves do Reino (Mt 16,19);
-confiou aos anjos a missão de proteger e servir os homens (Hb 1,14).
Se Deus confiou tão grandes tesouros a homens ainda sujeitos às fraquezas desta vida, quanto mais confiará àqueles que já foram plenamente purificados e vivem para sempre em sua presença.
Os santos, portanto, são os amigos fiéis de Deus (cf. Jo 15,15), os administradores aprovados de seus mistérios (cf. 1Cor 4,1-2), aqueles em quem o Senhor encontrou fidelidade. Por isso, continua a confiar-lhes preciosos tesouros espirituais: conhecer as súplicas dos que os invocam, interceder pelos irmãos ainda peregrinos e cooperar, sempre em total dependência de Cristo, na dispensação das graças que Deus deseja derramar sobre sua Igreja.
Dessa forma, quanto mais Deus exalta os seus santos, mais manifesta sua própria glória, pois tudo neles procede da graça e tudo converge para Cristo, "autor e consumador da nossa fé" (Hb 12,2).
A Carta aos Hebreus ensina: “Está determinado que cada um morra
uma só vez, e imediatamente vem o juízo (de Deus)” (Hb 9,27). Ora, é óbvio que
logo após a morte a alma não será julgada por Deus estando dormindo! Isso é
demonstrado também, nas passagens de Lázaro em Lucas 16, 19-31, bem como, Jesus
descendo a Mansão dos mortos e pregando aos espiritos dos falecidos
contemporâneos de Noé conforme lemos em 1 Pedro 3,19-21, portanto, essas almas
espirituias não poderiam estar tirando uma soneca.
O tempo e a distância não são empecilhos para que os Santos ouçam nossas preces e nos socorram com sua intercessão; estas realidades que tratamos são coisas do espírito. Na vida eterna não existe mais a limitação do tempo e do espaço que nos impedem, como por exemplo, já aqui na terra tivemos santos como pe Pio, que gozava do dom da "bilocação", ou seja, podia estar em dois lugares ao mesmo tempo, imagine-se na eternidade, quando essa capacidade é exponencialmente multiplicada. Portanto, agraciados por Deus e em comunhão com Ele, por mais secretas que sejam, eles conhecem as nossas preces. Querem ajudar-nos, por mais desesperada que seja a nossa necessidade, e eles podem ajudar-nos, intercedendo junto a Jesus. Este é talvez o fato mais importante de todos. Eles são amigos de Deus, muito chegados a Ele pela sua santidade, que os fez “participantes da sua natureza divina”, como diz S. Pedro (confr.2 Pedro 1,3-4). Eles têm grande influência junto ao “Pai das luzes, de quem vem todo dom maravilhoso e perfeito” (Tg 1, 17).
Que fique claro, o Santo apenas intercede diante do Deus Uno e Trino, mas é Deus quem
faz o milagre!
Podemos e precisamos conhecer as vidas dos Santos e precisamos invocá-los em nossas necessidades continuamente. Devemos fazer todo esforço para nos lembrar deles. As imagens e os quadros são grandes auxílios para isto; nos inspiram seus exemplos e nos convidam à oração. Dias especiais de honra tributada aos Santos particulares renovam o nosso interesse por suas vidas exemplares, onde somos ordenados a imita-los (confr. 1 Coríntios 11,1).Novenas, demonstrações públicas especiais, Procissões, a coroação da imagem da Santíssima Mãe de Deus no último de Maio, as peregrinações aos santuários, a dedicação de igrejas a um santo particular – todos estes são apenas alguns dos meios honestos, humanos, de nos ajudar a recordar e imitar os Santos no seu seguimento radical a Cristo na pobreza, castidade e obediência.
Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, insistia sobre a necessidade de nos “recomendarmos” continuamente aos Santos. Santa Teresa de Ávila, também doutora da Igreja, tinha devoção especial a São José e a Santo Agostinho.
Nome do "santo no Batismo"
No Batismo, a cada criança católica deve ser dado o nome de um
Santo! É bom que um novo cristão tome o nome de um dos heróis da fé cristã no
seguimento a Jesus!
Além disto, o nome dá honra ao Santo, tal como um homem na terra é honrado por ter um filho com o seu nome. E, do mesmo modo que um homem acompanha com interesse e afeição a carreira do seu homônimo, assim também o Santo no céu se interessa por aqueles que trazem os seus nomes na terra e os ajuda.
Antigamente, na ocasião em que era recebido o Sacramento da Confirmação (a Crisma), os católicos às vezes juntavam ao seu nome, o de outro santo, agora escolhido pelo catecúmeno. A Confirmação introduz um homem numa nova fase da sua vida, a de “soldado de Cristo”. É apropriado ter outro santo a velar por ele na sua nova condição!
Não
somente os indivíduos têm Patronos, mas também os grupos!
A piedade cristã tem sugerido que certas profissões sejam colocadas sob a proteção de Santos que tiveram similar estado na vida.
-Os médicos são abençoados tendo como seu padroeiro S. Lucas, “o médico caríssimo” (Col 4, 14) e companheiro de São Paulo.
-Santo André é o Padroeiro dos pescadores, como é apropriado;
-S. José, dos carpinteiros e trabalhadores de modo geral;
-S. Marcos, dos escrivões públicos (ele era como que secretário de
S. Pedro), e assim por diante.
Outros
padroeiros foram sugeridos, numa época de fé:
-S. Cristóvão tornou-se padroeiro dos motoristas.
-Santo Estêvão, que foi o primeiro cristão a morrer pela sua fé – foi apedrejado até morrer – tornou-se o santo padroeiro dos pedreiros.
-S. Dimas, o bom ladrão, tornou-se o
padroeiro dos condenados à morte.
Nenhuma
condição de vida deixa de ter o seu padroeiro:
-Os agricultores têm Santo Isidoro;
-Os vinhateiros, S. Vicente Mártir;
-Os sapateiros, S. Crispim.
-Há um padroeiro dos comediantes, S. Vito.
Veja como a Igreja dá importância à proteção dos Santos!
-Conta-se a história de S. Brás, a quem,
enquanto aguardava o martírio na prisão, trouxeram uma criança em perigo de
sufocação por causa de uma espinha de
peixe que lhe atravessara na garganta. Pela oração do Santo, a aflição
dissipou-se. Em igrejas católicas, a 3 de fevereiro de cada ano é dada uma
bênção especial aos fiéis, rogando a S. Brás protegê-los contra as doenças da
garganta.
-Santo Antônio de Pádua é invocado quando se
precisa de assistência para achar alguma coisa perdida. Isto aparentemente se
origina de uma história de que um noviço, no mosteiro dele, uma vez fugiu
levando consigo um livro valioso. Pela oração de Santo Antônio, o rapaz foi
colhido por uma violenta tempestade. Assustado, resolveu não somente devolver o
livro, mas emendar sua vida.
Unido aos Santos os verdadeiros amigos de Deus!
Não se deve imaginar que seja uma
superstição infantil que sugere tais devoções. A oração pode ajudar-nos mesmo
nos negócios diários mais comuns. Certamente é mais apropriado rezar a algum
Santo que tenha ligação, embora remota, com a nossa necessidade, do que rezar
sozinho, sem o auxílio da intercessão dele.
Em épocas recentes, a Igreja Católica declarou oficialmente certos
santos patronos universais de obras particulares.
S. José, o pai adotivo de Cristo, é o Patrono da Igreja Católica inteira. Isto foi declarado pelo Papa Pio IX em 1870. Santa Teresa de Ávila diz que São José nos socorre em todas as necessidades, seja qual for. Se na terra São José foi o protetor do próprio Menino-Deus, deve ser agora o Patrono (protetor, defensor, guarda) do seu Corpo Místico, a Igreja. É eloquente o testemunho de Santa Teresa devotíssima de São José. No “Livro da Vida”, sua autobiografia, ela escreveu:
“Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e muito me encomendei a ele. Claramente vi que dessa necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. Coisa admirável são os grandes favores que Deus me tem feito por intermédio desse bem-aventurado santo, e os perigos de que me tem livrado, tanto do corpo como da alma. A outros santos parece o Senhor ter dado graça para socorrer numa determinada necessidade.Ao glorioso São José tenho experiência de que socorre em todas. O Senhor quer dar a entender com isso como lhe foi submisso na terra, onde São José, como pai adotivo, o podia mandar, assim no céu atende a todos os seus pedidos. Por experiência, o mesmo viram outras pessoas a quem eu aconselhava encomendar-se a ele. A todos quisera persuadir que fossem devotos desse glorioso santo, pela experiência que tenho de quantos bens alcança de Deus…De alguns anos para cá, no dia de sua festa, sempre lhe peço algum favor especial. Nunca deixei de ser atendida”.
Por fim, os santos no Céu e os anjos podem
ouvir nossas súplicas porque Deus permite e o quer!
Deus basta a Si mesmo, e não precisa
de criatura alguma para nada, pois somente Ele é onipotente, oniciente e onipresente, mas, ELE QUER E SE PERMITE PRECISAR!
Assim, é bastante razoável que os membros do Corpo de Cristo participem de Seus divinos dons, especialmente aqueles membros que alcançaram elevado grau de santidade, e por isso estão mais perfeitamente unidos a Deus. Jesus mesmo garantiu isso:
-João 14,12: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também, as obras que Eu faço, e fará ainda maiores do que estas.”
-Apocalipse 3,21-22: “Aos que conseguirem a vitória Eu darei o direito de se sentarem ao lado do meu trono, assim como Eu consegui a vitória e agora estou sentado ao lado do trono do meu Pai”.
-Apocalipse 2,26: "E ao que vencer e guardar até ao fim
as minhas obras, Eu lhe darei poder sobre as nações, e com vara de ferro as
regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai,
dar-lhe-ei a estrela da manhã. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às
igrejas".
Só Deus é onisciente. Portanto, os santos
falecidos e os anjos não possuem o conhecimento pleno sobre todas as coisas do
Universo, nem ouvem tudo o que as pessoas pensam ou falam. Mas, conforme a
vontade e os planos de Deus, aos santos e anjos é dada a permissão de ouvir o
clamor dos fiéis que invocam seus nomes, seja este clamor elevado com a voz ou
com o simples pensamento.
“Convenhamos que os mortos ignoram o que acontece na terra, pelo menos no momento em que ocorrem. Certamente, não ficam sabendo de tudo, mas apenas aquilo que lhe for autorizado saber e que têm necessidade de saber. As almas dos mortos também, podem conhecer alguns acontecimentos aqui da terra por revelação do Espírito Santo, acontecimentos estes cujo conhecimento seja realmente necessário. E isto não se restringe somente a fatos passados ou presentes, mas também, futuros. É assim que os homens – não todos, mas apenas os profetas – conheceram durante sua vida mortal, não todas as coisas, mas apenas aquelas que a Providência Divina julgava bom lhes revelar.” (Santo Agostinho, “O cuidado devido aos mortos”).
Esse dom, é bom lembrar, não é exclusivo dos anjos e santos
falecidos:
Até mesmo na terra alguns cristãos tiveram o dom da visão dado por Deus, o dom de ver a necessidade de outras pessoas, mesmo pessoas desconhecidas e que estavam em lugares muito distantes. Por exemplo: a visão que Paulo teve do macedônio pedindo ajuda, suplicando o anúncio do Evangelho em sua terra (Atos 16). Viver a devoção aos santos e anjos de forma verdadeiramente católica, sem superstições perniciosas, é importantíssimo em nossa caminhada de santidade. É a vivência do grande mistério da comunhão dos fiéis com Deus e uns com os outros! Por meio dessa intercessão fraterna, todos os membros do Corpo de Cristo participam da mediação do único mediador, Jesus Cristo.
Fonte: Cleofas
Conclusão
Em resumo, a objeção de que os santos não poderiam ouvir nossas orações por não serem oniscientes parte de uma falsa premissa. A Igreja Católica jamais ensinou que os santos possuem atributos exclusivos de Deus.
A onisciência, a onipotência e a onipresença pertencem unicamente à Santíssima Trindade. O que a Igreja ensina é algo muito diferente: os santos conhecem aquilo que Deus, em sua infinita sabedoria, deseja lhes revelar, porque participam, pela graça, da vida divina em um grau de perfeição incomparavelmente superior ao nosso.
A Sagrada Escritura mostra que, já nesta vida, Deus comunicou a homens limitados conhecimentos que ultrapassavam suas capacidades naturais, concedendo-lhes profecias, revelações, discernimento dos corações, visões e outros carismas extraordinários.
Se Deus realizou isso com seus servos ainda peregrinos neste mundo, não há qualquer dificuldade lógica, filosófica ou teológica em admitir que faça muito mais pelos membros glorificados do Corpo de Cristo, que já contemplam sua face na visão beatífica.
A própria ciência moderna, ao relativizar nossa compreensão de tempo e espaço, ajuda-nos apenas a perceber que não devemos aprisionar a realidade eterna às limitações da experiência humana. Contudo, a resposta definitiva não vem da física, mas da Revelação. É a participação na natureza divina (2Pd 1,4), a comunhão dos santos, a visão beatífica e a vontade soberana de Deus que explicam por que os bem-aventurados podem interceder por nós.
Os santos não são "deuses menores", nem concorrentes de Cristo, nem mediadores independentes. Toda a sua capacidade de conhecer, amar e interceder procede unicamente de Deus e permanece totalmente subordinada a Ele.
Assim como a lua não possui luz própria, mas reflete a luz do sol, também os santos nada possuem por si mesmos: tudo o que são e tudo o que fazem é reflexo da glória e da graça do único Deus.
Por isso, recorrer à intercessão dos santos não diminui a mediação única de Cristo (1Tm 2,5); ao contrário, manifesta sua eficácia. É precisamente porque Cristo venceu a morte e uniu definitivamente os membros de seu Corpo Místico que aqueles que já estão na glória continuam vivos n'Ele (Lc 20,38), amando seus irmãos que ainda peregrinam neste mundo e apresentando diante do trono de Deus as orações dos fiéis (Ap 5,8; 8,3-4).
Negar essa possibilidade seria reduzir a ação de Deus às categorias da lógica humana e esquecer que "para Deus nada é impossível" (Lc 1,37).
Se o Senhor quis associar seus filhos à obra da redenção ainda nesta vida, muito mais razoável é crer que continue a fazê-lo quando eles já alcançaram a perfeição da caridade no Céu. Assim, a intercessão dos santos não é uma limitação do poder de Deus, mas uma manifestação da riqueza de sua graça, que faz de seus filhos verdadeiros cooperadores de seu amor, para que, em tudo, Cristo seja glorificado como Cabeça da Igreja, ontem, hoje e por toda a eternidade.
Quanto maior a união de uma criatura com Deus, maior também é sua participação nos bens divinos. Não porque adquira atributos próprios da divindade, mas porque Deus, em sua infinita generosidade, comunica-lhe aquilo que julga conveniente para a edificação de sua Igreja. É precisamente isso que ensina São Pedro ao afirmar que fomos chamados a ser "participantes da natureza divina" (2Pd 1,4).
Essa participação não se limita à santificação da alma, mas alcança também a participação na própria realeza, autoridade e glória de Cristo. O livro do Apocalipse apresenta essa realidade de maneira admirável. Aos que perseverarem na fé até o fim, Jesus promete:
"Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono." (Apocalipse 3,21)
Em outra passagem, o Senhor declara:
"Ao vencedor, àquele que guardar até o fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações. Ele as governará com cetro de ferro e as despedaçará como vasos de barro, assim como eu também recebi autoridade de meu Pai. E lhe darei a estrela da manhã." (Apocalipse 2,26-28)
Essas promessas são extraordinárias. Cristo não apenas reina sozinho, mas quer associar os seus vencedores ao seu Reino. Eles não recebem um reino independente, nem um poder autônomo, mas participam da própria autoridade régia de Cristo, assim como participam de sua vitória, de sua herança e de sua glória. Tudo o que possuem é recebido d'Ele e exercido em perfeita submissão à sua vontade.
O próprio Jesus havia revelado essa verdade em sua oração sacerdotal ao Pai:
"Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, assim como nós somos um." (João 17,22)
Observe a profundidade dessa afirmação: Cristo não promete apenas a vida eterna, mas comunica aos seus discípulos a mesma glória que recebeu do Pai, evidentemente não a glória da natureza divina — que é incomunicável às criaturas —, mas a participação, pela graça, na sua vida, na sua santidade, no seu amor, na sua realeza e na sua comunhão eterna com o Pai.
Assim, quando afirmamos que os santos conhecem nossas súplicas ou intercedem por nós, não estamos atribuindo a eles poderes divinos independentes. Estamos apenas reconhecendo que Deus é tão generoso com aqueles que lhe foram fiéis que os faz participar de seus próprios dons.
Se Cristo lhes concede sentar-se com Ele em seu trono, compartilhar sua glória, participar de sua autoridade e reinar com Ele, por que seria difícil admitir que também lhes conceda conhecer, conforme sua vontade, as orações daqueles que recorrem à sua intercessão?
Negar essa possibilidade seria minimizar justamente aquilo que a Escritura mais enfatiza: a abundância da graça de Deus e a extraordinária dignidade à qual são elevados os membros glorificados do Corpo de Cristo.
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