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O “Livre Arbítrio Escravo” em Lutero e Erasmo de Roterdão

Written By Beraká - o blog da família on segunda-feira, 13 de setembro de 2021 | 14:43



 

Sobre o Servo Arbítrio, obra amplamente conhecida pelo seu título em latim De Servo Arbitrio, é uma obra de Martinho Lutero publicada em dezembro de 1525. O texto é uma resposta à obra De libero arbitrio diatribe sive collatio ("Sobre o Livro Arbítrio: Discursos ou Comparações"), de Erasmo de Roterdão, publicada em setembro de 1524 como o primeiro ataque público de Erasmo a Lutero. Em discussão estava a questão de:

 

 

“Se os seres humanos, depois da queda do homem, são livres para escolher entre o bem e o mal. O debate entre Lutero e Erasmo é um dos primeiros debates da Reforma Protestante sobre o assunto do livre arbítrio e da predestinação”.

 

 

 

O argumento de Erasmo de Roterdão

 

 


 

Apesar de suas reservas em relação à Igreja Católica, Erasmo acreditava que a igreja precisava de uma reforma interna e que Lutero havia ido longe demais. Ele afirmou que todos os seres humanos possuem o livre arbítrio e que a doutrina da predestinação não estava de acordo com os ensinamentos contidos na Bíblia. Erasmo criticou a crença de que a presciência dos eventos por Deus era a causa destes eventos e defendeu que as doutrinas do arrependimento, batismo e conversão dependem da existência do livre arbítrio.

 

 

Ele também defendeu que a graça simplesmente ajudava os seres humanos a chegarem ao conhecimento de Deus e os apoiava quando utilizavam seu livre arbítrio para escolher entre opções boas e más indicando quais levariam à salvação através da expiação de Jesus Cristo.

 

 

 

RESUMO BIOGRÁFICO DE ERASMO DE ROTERDÃO

 

 


 

Erasmo de Roterdão ou Roterdã (Roterdão, 28 de outubro de 1466 — Basileia, 12 de julho de 1536),nascido Gerrit Gerritszoon ou Herasmus Gerritszoon (em latim: Desiderius Erasmus Roterodamus), foi um teólogo e filósofo humanista neerlandês que viajou por toda a Europa, como Portugal, Inglaterra ,Itália, Espanha, Croácia, Bulgária, Dinamarca e outros. Erasmo cursou o seminário com os monges agostinianos e realizou os votos monásticos aos 25 anos, vivendo como tal, sendo um grande crítico da vida monástica e das características que julgava negativas na Igreja Católica. Frequentou o Collège Montaigu, em Paris, e continuou seus estudos na Universidade de Paris, então o principal centro da escolástica, apesar da influência crescente do Renascimento da cultura clássica, que chegava de Itália.

 

 

Erasmo optou por uma vida de académico independente, independente de país, independente de laços académicos, de lealdade religiosa e de tudo que pudesse interferir com a sua liberdade intelectual e a sua expressão literária.

 

 

 

Os principais centros da sua atividade foram: Paris, Lovaina, Inglaterra e Basileia

 

 

No entanto, nunca pertenceu firmemente a nenhum destes locais. O tempo passado na Inglaterra foi frutífero, tendo feito amizades para a vida toda com os líderes ingleses, mesmo nos dias tumultuosos do rei Henrique VIII: John Colet, Thomas More, John Fisher, Thomas Linacre e Willian Grocyn. Na Universidade de Cambridge foi o professor de Teologia de Lady Margaret e teve a opção de passar o resto de sua vida como professor de inglês. Esteve no Queens' College, em Cambridge, e é possível que tenha sido aluno.

 

 

Foram-lhe oferecidas várias posições de honra e proveito através do mundo académico, mas declinou-as todas, preferindo a incerteza, tendo no entanto receitas suficientes da sua atividade literária independente.

 

 

Entre 1506 e 1509 esteve em Itália. Passou ali uma parte do seu tempo na casa editorial de Aldus Manutius, em Veneza. De acordo com suas cartas , esteve associado com o filósofo natural veneziano, Giulio Camillo, mas, além deste, teve uma associação com académicos italianos menos ativos do que se esperava.A produtividade literária de Erasmo começou relativamente tarde na sua vida. Apenas quando dominou o latim é que começou a escrever sobre os grandes temas contemporâneos, nomeadamente sobre literatura e teologia.A sua revolta contra as formas de vida da igreja não resultou tanto de dúvidas quanto à verdade da doutrina tradicional, nem de alguma hostilidade para com a organização da Igreja. Sentiu antes a necessidade de aplicar os seus conhecimentos na purificação da doutrina e na liberalização das instituições do cristianismo. Como acadêmico, tentou libertar os métodos da Escolástica da rigidez e do formalismo das tradições medievais, mas não ficou satisfeito. Ele viu-se como o pregador da retidão.

 

 

A sua convicção em toda a vida foi que o que era necessário para regenerar a Europa era uma aprendizagem sã, aplicada liberalmente e sem receios pela administração de assuntos públicos da Igreja e do Estado.

 

 

Esta convicção confere unidade e consistência a uma vida que, de outra forma, pode parecer plena de contradições. Erasmo viu-se livre e distante de quaisquer obrigações comprometedoras; no entanto, Erasmo foi, num sentido singularmente verdadeiro, o centro do movimento literário do seu tempo.

 

 

Ele se correspondeu com mais de quinhentos homens da maior importância no mundo da política e do pensamento, e o seu conselho em vários assuntos era procurado avidamente, se bem que nem sempre seguido.

 

 

 

Quando da sua estadia em Paris, Erasmo iniciou a examinação sistemática dos manuscritos do Novo Testamento, por forma a preparar uma nova edição e uma tradução para Latim. Esta edição foi publicada por Froben de Basileia em 1516 e foi a base da maioria dos estudos científicos da Bíblia durante o período da Reforma.O movimento de Martinho Lutero começou no ano seguinte à publicação do Novo Testamento, e foi um teste ao carácter de Erasmo. A discussão entre a sociedade europeia e a Igreja Católica Romana tinha-se tornado tão aberta que poucos se podiam furtar a um pedido de uma opinião.

 



Erasmo, no auge da sua fama literária, foi inevitavelmente chamado a tomar partido por um dos lados, mas partidarismo era algo de estranho à sua natureza e hábitos!

 

 

("Que paz pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel?" - 2 Coríntios 6,15)



Em toda a sua crítica às tolices clericais e aos abusos, ele tinha sempre afirmado que não estava a atacar as instituições da Igreja em si e não era um inimigo do clero. O mundo inteiro tinha rido com as suas sátiras, mas poucos interferiram com as suas atividades. Ele acreditava que o seu trabalho até então o recomendava às melhores mentes e aos poderes dominantes no mundo religioso. Erasmo tinha uma simpatia pelos pontos principais da crítica luterana à Igreja. Tinha um grande respeito pessoal por Martinho Lutero e Lutero sempre falava de Erasmo com reverência pelo seu conhecimento. Lutero esperava obter a sua cooperação num trabalho que parecia o resultado natural do seu próprio. Na sua troca de correspondência inicial, Lutero expressou uma intensa admiração por tudo o que Erasmo tinha feito pela causa de um cristianismo saudável e razoável e encorajou-o a unir-se ao movimento.

 

 

Erasmo, porém criticou duramente a doutrina luterana que negava ao homem o livre arbítrio!

 

 

 

Erasmo declinou qualquer compromisso, argumentando que, ao  fazer estaria a colocar em risco a sua posição como líder de um movimento por uma sabedoria pura, o que ele via como o objetivo de sua vida. Apenas como um acadêmico independente poderia ele aspirar a influenciar a reforma da religião.

 

 




A obra de Lutero foi a de providenciar uma nova base doutrinal para as tentativas até então dispersas de iniciar uma reforma. Ao reavivar os princípios quase esquecidos da teologia de Agostinho, Lutero tinha fornecido o necessário impulso para o interesse pessoal na religião, o que é a essência da Reforma Protestante. Erasmo, no entanto, temia qualquer mudança na doutrina e acreditava que não havia espaço dentro das fórmulas existentes para o tipo de reforma que ele apreciava tanto.

 

 

 

Por duas vezes durante o debate, Erasmo entrou no campo da controvérsia doutrinal!

 

 

 

Uma área que era estranha à sua natureza e práticas prévias. Um dos tópicos com que lidou foi a liberdade da vontade, um ponto crucial. No seu "De libero arbitrio diatribe sive collatio" (1524), ele analisa com inteligência e bom humor os exageros Luteranos sobre as óbvias limitações da liberdade humana.

 

 

Erasmo apresenta ambos os lados da discussão de forma imparcial!

 

 

 

A sua posição foi de que o Homem estava como que obrigado (tendente) a pecar, mas que tinha o direito à misericórdia de Deus apenas se ele a procurasse pelos meios que lhe eram oferecidos pela própria Igreja. A "diatribe" não encorajava qualquer ação definida; este era o seu mérito aos olhos dos Erasmianos e o seu defeito aos olhos dos Luteranos.

 

 

 

Quando Erasmo hesitou em apoiá-lo, isto pareceu aos olhos de Lutero, um homem direto, um evitar de responsabilidade que era devido ou a cobardice ou a falta de visão. No entanto, o lado Católico Romano, que pretendia igualmente manter o apoio de um homem que se tinha declarado tantas vezes como leal aos princípios da Igreja, viu na relutância de Erasmo em tomar partido um sinal de suspeita da deslealdade perante o Catolicismo. A atitude de Erasmo para com a Reforma Protestante pode no entanto ser vista como consistente.

 

 

 

Os males que ele combateu foram os de forma ou foram males de um tipo curável apenas por uma longa e lenta regeneração na moral e vida espiritual na Europa. O programa da "Reforma de Erasmo" era de usar a aprendizagem para remover os piores excessos. No entanto, falhou em oferecer qualquer método tangível para aplicar os seus princípios ao sistema da Igreja existente.

 

 

Quando Erasmo foi acusado de ter "posto o ovo que Lutero chocou" ele admitiu parcialmente a verdade da acusação mas disse que tinha esperado uma outra espécie de pássaro completamente diferente.

 

 

 

À medida que a opinião pública começa a reagir às opiniões de Lutero, as desordens sociais que Erasmo temia começaram a aparecer. A Guerra dos Camponeses, os distúrbios do Anabaptistas na Alemanha e nos Países Baixos, iconoclastia e radicalismo por toda a parte, parecem confirmar as suas previsões mais obscuras.

 

 

 

Se este era o resultado da reforma, Erasmo preferia estar de fora!

 

 

 

No entanto, ele começava a ser acusado cada vez mais pela "tragédia". Na Suíça, ele estava ainda mais exposto pela sua associação com homens que eram suspeitos de doutrinas extremamente racionalistas. A questão-teste era a doutrina dos Sacramentos, e o cerne da questão a observância da Eucaristia.

 

 

 

Em parte para livrar-se de suspeitas, Erasmo publicou em 1530 uma nova edição do tratado ortodoxo de Algerus contra o herético Berengário de Tours no século XI. Ele acrescentou uma dedicatória, afirmando acreditar na realidade do corpo de Jesus Cristo após a consagração da Eucaristia, mas admitia que a forma em que este mistério deveria ser expressa fosse matéria de debate. Era-lhe aceitável que a Igreja pregasse a doutrina à maioria dos cristãos e a especulação ficasse mais segura nas mãos dos filósofos.

 

 

 

Aqui e acolá Erasmo aponta o princípio de que um homem pode ter duas opiniões sobre assuntos religiosos:

 

 

 

1)-Uma para si mesmo e seus amigos mais íntimos.

 

 

2)-E outra para o público.

 

 

 

Aqueles que se opunham aos Sacramentos, liderados por Oecolampadius de Basileia, estavam, como Erasmo diz, mencionando-o como alguém com ideias semelhantes. Ele nega isto, mas na sua negação traiu aquilo que em conversas particulares é tido como uma visão racional da doutrina da Eucaristia. Tal como no caso da vontade livre, não tinha aqui a aprovação da Igreja. A sua obra mais conhecida, Laus Stultitiae ("Elogio da Loucura"), escrita em 1509, foi dedicada ao seu amigo Sir Thomas More. Em 1536 ele escreveu "De puritate ecclesiae christianae", na qual ele tentou reconciliar os diferentes partidos.

 

 

 

Muito dos seus escritos apelam a uma grande audiência e lidam com assuntos do interesse humano geral; ele parece ter considerado estes como uma diversão, uma atividade de lazer.

 

 

Os seus escritos mais sérios começaram cedo com a "Enchiridion Militis Christiani" , o "Manual (ou adaga) do cavalheiro cristão" (1503)

 

 

 

Nesta breve obra, Erasmo esquematiza as perspectivas da vida cristã normal, uma tarefa que se lhe tornaria constante na sua vida. O principal mal dos seus dias, diz ele, é o formalismo, um respeito por tradições sem consideração pelo verdadeiro ensinamento de Cristo. O remédio é que cada homem se pergunte a cada ponto "Qual a coisa essencial?", fazendo-o sem receio. Formas podem esconder ou sufocar o espírito. Na sua examinação dos perigos do formalismo, Erasmo discute a vida monástica, a veneração dos santos, a guerra, o espírito de classe e as fraquezas da "sociedade", mas o "Enchiridion" é mais um sermão do que uma sátira.

 

 

 

O seu texto acompanhante, o "Institutio Principis Christiani" (Basileia, 1516), foi escrito como conselho ao jovem Rei Carlos de Espanha, mais tarde Carlos V, Sacro-Imperador Romano. Erasmo aplica os princípios gerais de honra e de sinceridade às especiais funções do Príncipe, quem ele apresenta como um servidor do povo.

 

 

Como resultado das suas atividades reformadoras, Erasmo viu-se em conflito com ambas as grandes posições.

 

 

 

Os seus últimos anos de vida foram ofuscados por controvérsias amargas com pessoas para quem ele seria normalmente simpático. Notavelmente entre estes encontrava-se Ulrich von Hutten, um génio brilhante mas errático, que se entregara à causa de Lutero e tinha declarado que Erasmo, se tivesse uma faísca que fosse de honestidade, faria o mesmo. Na sua resposta "Spongia adversus aspergines Hutteni" (1523), Erasmo demonstra o seu pleno domínio da semântica. Ele acusa Hutten de ter interpretado mal o seu discurso sobre a reforma e reitera a sua determinação em não tomar partido nunca.

 

 

 

Quando a cidade de Basileia se tornou oficialmente "reformada" em 1529, Erasmo deixou de residir ali, tendo-se mudado para a cidade imperial de "Friburgo em Brisgóvia".

 

 

 

Parece indicar que ele viu como mais fácil manter a sua neutralidade sob o domínio Católico Romano do que em condições protestantes.

 

 

 

A sua atividade literária permaneceu inabalada, maioritariamente na composição religiosa e didática. A obra mais importante deste último período é a "Ecclesiastes", ou "Pregador do Evangelho" (Basileia, 1535), na qual ele aponta a função de pregador como o serviço mais importante do padre cristão, uma ênfase protestante. O seu pequeno tratado de 1533, "Preparação para a Morte", no qual ele coloca ênfase na importância de uma boa vida como condição essencial para uma morte feliz, mostra outra tendência.

 

 

 

Erasmo retornou a Basileia, a sua casa mais feliz, em 1535, após ausência de seis anos. Lá, de novo entre o grupo de académicos protestantes que eram seus amigos de longa data, e sem ter qualquer contato que seja conhecido com a Igreja Católica Romana, Erasmo faleceu. Durante a sua vida, as autoridades da Igreja Católica nunca o tinham chamado a justificar as suas opiniões. Os ataques à sua pessoa não foram institucionais, e os seus protetores tinham sido figuras de alto escalão. Em 1535 o papa Paulo III intentou eleva-lo à condição de Cardeal, mas Erasmo alegou a sua avançada idade e estado de saúde para recusar.

 

 


 

Após a sua morte, como reação de precavida prudência da Igreja Católica Romana, os seus escritos viriam a ser colocados no Index dos livros proibidos. Erasmo faleceu em Basileia, na Suíça. Encontra-se sepultado na Catedral de Basileia.

 

 

Resposta de Lutero a Erasmo de Roterdão

 

 

 

A resposta de Lutero foi argumentar que o pecado deixa os seres humanos incapazes de atuar em prol de sua própria salvação e que eles são completamente incapazes de levar a si próprios até Deus. Por isto, não existe o livre arbítrio para a humanidade por que qualquer arbítrio que os seres humanos possam ter é completamente subjugado pela influência do pecado.

 

 

 

Central para esta análise, tanto no caso das doutrinas em discussão quanto dos argumentos específicos de Erasmo, é a crença de Lutero sobre o poder e a completa soberania de Deus.

 

 

 

Lutero conclui que:

 

 

Seres humanos não redimidos são dominados por obstáculos. Satã, como príncipe do mundo mortal, jamais abandona o que considera seu sem que seja subjugado por um poder maior, ou seja, por Deus. Quando Deus redime uma pessoa, ele a redime inteiramente, incluindo seu arbítrio, que então está livre para servir a Deus. Ninguém pode obter a salvação ou a redenção através de suas próprias escolhas — as pessoas não escolhem entre o bem e o mal pois são naturalmente dominadas pelo mal e a salvação é simplesmente o produto da mudança unilateral realizada por Deus no coração da pessoa levando-as a boas ações. Não fosse assim, argumenta Lutero, Deus não seria onipotente e onisciente e lhe faltaria a total soberania sobre a criação, o que ele considerava como um insulto à glória de Deus. Por este racionalismo de Erasmo de Roterdão, Lutero concluiu que Erasmo não era um verdadeiro cristão.

 

 

 

Tréplica de Erasmo

 

 

 

No início de 1526, Erasmo respondeu à obra de Lutero com a primeira parte de um livro em dois volumes intitulado "Hyperaspistes", uma obra longa e complexa que não atingiu o mesmo reconhecimento popular.

 

 

 

Visão posterior de Lutero sobre suas obras

 

 

 

Lutero se orgulhava tanto de "Sobre o Servo Arbítrio" que, numa carta a Wolfgang Capito escrita em 9 de julho de 1537, afirmou:

 

 

 

“Sobre [o plano] colecionar meus escritos em volumes, estou bem tranquilo e nem um pouco ansioso por que, atiçado por uma fome saturnina, eu talvez prefira vê-las todas devoradas (Lutero se compara ao deus Saturno, uma figura da mitologia grega que devorou todos os seus filhos). Pois eu não reconheço nenhuma delas como de fato um livro meu, com exceção talvez de "Sobre o Servo Arbitrio" e o Catecismo.

 



 

Salmo 51: "Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe"




A obra “Nascido Escravo” de Lutero é constituída de 4 capítulos divididas em argumentos, e são assim discriminados:

 

 

 

Esta obra é uma versão condensada do livro "A Escravidão da vontade", escrito por Martinho Lutero e publicado pela primeira vez em 1525. Erasmo de Roterdã, o mais influente humanista, escreveu um pequeno livro, em 1524, com o título De libero arbitrio Diatribe sive collatio.

 

 

É uma obra de Antropologia da perspectiva humanista carregada de premissas “sinergistas” (que se refere, pertence ou é próprio ao sinergismo, doutrina protestante que defende o livre-arbítrio como único caminho para a busca da salvação, da graça divina), da teologia Católica Romana, da qual Erasmo apesar das muitas críticas, nunca se separou.

 

 

 

A obra é escrita num estilo de “diatribe”!

 

 

 

 

Este é um recurso literário usado desde a antiga filosofia grega, se caracteriza por ser um discurso ou conversação filosófica, onde duas ou mais pessoas debatem por meio de perguntas e respostas, argumentos, discordâncias e análise de implicações as teses do locutor. A Diatribe ainda traz algumas comparações das opiniões de Pais da Igreja como Orígenes, Ambrósio e Jerônimo.

 

 

 

Neste livro o humanista holandês argumentou a favor de uma perspectiva sinergista ou, libertariana de livre-arbítrio.

 

 

 

Ele o define como sendo "a potência, através da qual o ser humano se pode inclinar ou afastar ao/do que leva à salvação eterna." Desta forma ele apresenta a sua principal discordância e afastamento de Lutero e demais reformadores. Portanto, a questão central gira em torno da existência ou não do livre-arbítrio, ou seja, poderia o ser humano voltar-se para Cristo de forma voluntária e, sem qualquer ajuda, ser salvo de seus pecados?

 

 


 

Martinho Lutero (1483-1546, monge agostiniano, pastor, teólogo, estudioso fluente em grego e hebraico, ele compreendia que quaisquer crenças e experiências precisavam ser testadas à luz das escrituras). Erasmo defendia a ideia do livre-arbítrio, ao passo de que Lutero refutava de forma vigorosa os argumentos lançados por ele.

 

 

 

Capítulo 1 – O que ensinam as Escrituras

 

 

 

“Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”.

 

 

 

Se todos os homens possuem “livre-arbítrio”, ao mesmo tempo em que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o “livre-arbítrio” os está conduzindo a uma única direção — da “impiedade e da iniquidade”. Portanto, em que o poder do “livre-arbítrio” os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o “livre-arbítrio”, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus.” [p.19].

 

 

 

 

Este capítulo contém 19 argumentos fundamentados nas Escrituras, que na visão de Lutero, podem ser utilizados para discussões sobre a questão do livre-arbítrio.

 

 

Vários pontos são abordados por Lutero como:

 

 

 

-A culpa universal da humanidade,

 

-A salvação ocorre pela graça de Cristo e exclusivamente mediante a fé,

 

-O homem é incapaz de crer no evangelho e por isso todos os seus esforços não podem salvá-lo,

 

-Dentre outros, mas tudo culminando na máxima de que o homem possui uma natureza carnal e que as melhores obras da carne são hostis a Deus, ou seja, sendo o livre-arbítrio uma obra carnal, não pode levar o homem a justificação perante Deus.

 

 

Capítulo 2 – O que Erasmo de Roterdão ensinava

 

 

 

“Para ser justo, terei de citar a sua própria definição de “livre arbítrio”. Você diz: “Compreendo o “livre-arbítrio” como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação”. Você pode realmente chamar isso de definição? Uma definição precisa ser clara, e cada aspecto dessa declaração precisa ser explicado para tornar-se claro. Além disso, você começa definindo uma coisa, mas termina definindo algo inteiramente diferente. Quero dizer que somente Deus tem a liberdade de vontade que você descreve e ainda supõe que pertence aos homens. Entretanto, o homem é como um escravo, cuja única liberdade consiste em obedecer a seu senhor. Os seres humanos só agem de acordo com as determinações de Deus. Será isso “liberdade de arbítrio” como você a descreve? [p.45] Lutero elabora 16 argumentos e parte para o embate contra seu oponente, expondo as ideias de Erasmo, mostrando as incoerências e contradições de suas conclusões, as falhas de sustentação e interpretação bíblica, bem como refutando cada uma delas com referências e comentários sobre a interpretação mais correta do texto sagrado.

 

 

 

 

Capítulo 3 – O que Lutero pensava sobre o ensino de Erasmo

 

 

 

“Você procura infundir medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que supostamente dão apoio à ideia do “livre-arbítrio”. Em seguida, procura fazer-nos parecer tolos ao sugerir que só dispomos de dois textos bíblicos para nos apoiarmos: Êxodo 9.12 e Malaquias l.2,3. Você não parece ter ficado, de modo algum, impressionado pelo manuseio desses textos por Paulo, em Romanos 9! Entretanto, tomarei esses dois textos para mostrar o fortíssimo apoio bíblico de que dispomos...” [p.69]

 

 

 

 

Lutero vê na concepção de Erasmo uma reversão ao ponto de vista de Pelágio, embora com menor sofisticação.

 

 

 

Ele condena o entendimento de Erasmo sobre as discussões filosóficas anteriores sobre essa questão. Ele, então, discute as três visões distintas de Erasmo do livre-arbítrio: "De uma visão sobre o 'livre-arbítrio' você desenvolve três!

 

 

-A primeira, aquela dos que negam que o homem pode desejar o bem sem a graça especial, não começa, não progride e não termina, etc. parece a você 'severa mas suficientemente provável'.

 

 

-A segunda, aquela dos que afirmam que o 'livre-arbítrio' não é útil para nada exceto o pecado, e que só a graça trabalha o bem em nós, etc, parece a você 'mais severa'.

 

 

-E a terceira, a visão daqueles que dizem que o 'livre-arbítrio' é um termo vazio e que Deus trabalha em nós tanto o bem quanto o mal, e que tudo o que acontece, acontece por mera necessidade, parece a você 'a mais severa'. É contra essas duas últimas que você declara estar escrevendo".

 

 

Capítulo 4 – Comentário de Lutero sobre o estudo de Erasmo acerca de textos que negam o Livre Arbítrio.

 

 

 

 

O reformador escreve 8 argumentos e realiza toda a sua defesa de forma ávida e vigorosa, muitas vezes sendo até áspero em suas palavras para com Erasmo, mas em sua conclusão ele expressa o seu verdadeiro anseio: "nesta controvérsia, não quero gerar mais calor do que luz". Ao final, critica ainda o posicionamento de Erasmo com relação aos textos bíblicos que negam a existência do livre-arbítrio. Lutero de forma contundente escreveu seu “Servum Arbitrum”: O arbítrio do homem não está livre, mas é um escravo do pecado. O livro tinha um tamanho quatro vezes maior que o livro de Erasmo. Isso quer dizer que Lutero deu uma resposta ampla ao seu colega monge Erasmo.

 

 

Lutero se importava com o livre arbítrio, porque ligada a isso está a honra de Deus. A questão do livre arbítrio tem tudo a ver com a com o arbítrio de Deus. A questão é: acontece o que Deus quer ou o que o homem quer? Se acontecer o que o homem quer, não acontecerá o que Deus quer. Então, o homem domina as coisas e Deus não é mais o Todo-poderoso. Deus depende do homem e a Sabedoria e Poder dEle não são mais decisivos. O que está em jogo é a honra e a majestade de Deus!

 

 

Através de uma leitura acurada podemos observar o seguinte:

 

 

 

a) O homem não pode nada por si mesmo. Em verdade, até para que o Evangelho faça efeito em sua vida e ele seja justificado, o homem depende do toque do Espírito Santo. Ninguém consegue voltar-se para Cristo e ter a consciência de seu pecado sem que isso lhe seja revelado através do Evangelho. A visão que a Boa Nova dá ao ser humano é muito mais abrangente e profunda – a qual não pode ser alcançada através da simples consciência humana. Isso ficou bem expressado quando Lutero diz que "as nossas fraquezas pertencem a nós mesmos e nossa capacidade nos é dada através da graça de Deus" [p.61]

 

 

 

b) O senso de dever não é evidência da capacidade de cumpri-lo, com isso o Lutero mantém sua posição de que a lei revela o pecado (sem lei não há pecado), mas o fato de o homem receber a lei não significa que ele tem a capacidade de cumpri-la. Desta maneira, a lei não nos foi dada como um manual que nos mostra como podemos fazer as coisas da maneira correta, mas sim para nos mostrar no que consiste o pecado e quais são as suas consequências;

 

 

 

c) Todos pecamos e merecemos a condenação, com base nas palavras de Paulo em Romanos "todos pecaram e destituídos estão da graça de Deus". Lutero trabalha muito a questão da "graça divina".

 

 

 

d) Deus é bom, justo e soberano. Ele não pode fazer o mal – isso seria negar a sua própria natureza.

 

 

 

No que diz respeito a vontade revelada e a vontade secreta de Deus [p.56-60], acredito que o esclarecimento de Lutero sobre este assunto são bastantes contundentes. Lutero diz que "de acordo com a sua vontade secreta planejou aqueles que receberiam sua misericórdia"[p.56]. Conforme Lutero não cabe a nós questionar a vontade secreta de Deus, pelo contrário, devemos adorá-lo reverentemente e nos interessar por aquilo que Ele nos tem revelado (economia da salvação).

 

 

Outro ponto diz respeito a uma linha de pensamento que é muito utilizada hoje nas igrejas é a de se "fazer algo bom somente para que você tenha mais uma esmeralda na sua coroa de glória". A linha de pensamento de Lutero, de que "um cristão não faz algo para obter vantagens, mas o faz porque é correto perante o Senhor" pode ser bem utilizada para corrigir este pensamento que hoje assola boa parte das igrejas.

 

Também deixamos de lado muitas vezes o princípio básico da graça divina constantemente presente em nossa vida:

 

 

Todos pecamos e merecemos a condenação! Isso é algo para ser relembrado a cada momento e foi bem expressado por Lutero: "se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo eu jamais poderia ter certeza do sucesso...por meio do livre-arbítrio, ninguém poderá ser salvo. Mas por meio da livre graça muitos serão salvos". [p.39]

 

 

Algumas passagens importantes do livro:

 

 

 

1) "Tudo o que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são hostis à Deus... isto está em harmonia com Romanos 1,17 que diz 'o justo viverá pela fé', e Romanos 14,23 que diz 'tudo o que não provém da fé é pecado'. Ou seja, aqueles que não têm fé não estão justificados; e aqueles que não estão justificados são pecadores, nos quais o suposto livre-arbítrio só pode produzir o mal. Portanto, para Lutero, o livre arbítrio nada é senão um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal liberdade, enfim não é liberdade alguma!" [p.32]. O interessante neste trecho da defesa, ou melhor ainda, do ataque, é como o monge agostiniano consegue fazer a ligação entre as coisas carnais (tudo que não provém do Espírito) e a submissão do livre-arbítrio ao pecado, a morte e a Satanás.

 

2) "[...] a vontade humana por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo" [p.38]. Esta colocação de Lutero está em consonância com Paulo, onde ele afirma que é o Espírito que faz isso.

 

3) "Você criou uma nova maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Você insiste que os textos que se manifestam claramente contrários à ideia do livre arbítrio devem ter alguma 'explicação' que traga à tona seu verdadeiro sentido." [p.69]. Existem muitos "profetas" atuais que deturpam o significado óbvio dos textos bíblicos e distribuem "profetadas" por onde passam. Sempre que algum trecho da Escritura contraria as suas ideias eles os ignoram ou tentam encontrar algum tipo de explicação absurda para encaixá-los em suas ideias hereges. Esta retórica de Lutero pode ser usada tanto contra como a favor dele, para combater muitas ideias teologicamente incorretas que foram inseridas no meio cristão.

 

 

 

4) "Algumas pessoas talvez queiram saber como Deus produz em nós maus efeitos, endurecendo-nos, entregando-os aos nossos desejos... Segundo Lutero, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos [...] O próprio Deus, entretanto, não pode fazer o mal." [p.73]. Porém, fica a dúvida de como "Deus endureceu o coração de Faraó" e continua endurecendo o coração de muitas pessoas em nossos dias, apesar de sabermos que, somente Deus de um mau aparente, pode tirar um bem permanente, como foi este no episódio de Faraó e José no Egito.

 

 

 

5) "...quando Deus salva aqueles que merecem condenação, ninguém reclama. Mas, quando Deus os condena, ouve-se um grande protesto. Nisso se manifesta a perversidade do coração humano. Quando os homens raciocinam desta maneira, eles deixam de louvar à Deus como Deus. Estão furtando de Deus o seu direito soberano." [p.84]. Acredito que a maioria dos cristãos não tentou aplicar esta lógica reversa de Lutero quando pensa sobre a salvação e a condenação eterna. Este é um assunto sobre o qual precisamos refletir mais – respeitar a soberania e a vontade de Deus não é somente uma questão de lei divina, mas também de consciência de que Ele tem o melhor para nós e para todos os seus eleitos, e podemos confirmar isto tanto com os olhos da razão como os da fé, conforme abaixo:

 

 





Isaías 26,10: “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete a iniquidade e não atenta para a majestade do Senhor”.

 

 

Na conclusão desta obra, Lutero abre o coração e com muita sinceridade, mostrando o fato de que em alguns momentos ele pareceu rude. Ele escreve:

 

 

“Nesta controvérsia, não quero gerar mais calor do que luz. Porém, se cheguei a argumentar demasiadamente forte, reconheço a minha falta; se é que houve falta. Mas, não! Tenho a certeza de que o meu testemunho é levado ao mundo em defesa da causa de Deus. Que Deus confirme este testemunho no Último Dia! Quem poderia sentir-se mais feliz do que eu — aprovado pelo testemunho de outros, de haver defendido a causa da verdade, sem preguiça, nem de modo enganoso, mas com vigor suficiente e de sobra! Se pareci por demais áspero contra você, Erasmo, peço-lhe que me perdoe. Não agi assim movido por má vontade, mas a minha única preocupação era que, devido à importância do seu nome, você estivesse danificando a causa de Cristo. E quem pode governar sempre a sua pena, especialmente na ocasião de demonstrar zelo? Você mesmo, frequentemente, lança dardos inflamados contra mim. Mas essas coisas não pesam realmente no debate, e nós, que participamos dele, devemos perdoarmo-nos mutuamente por causa dessas coisas; somos apenas homens, e nada existe em nós que não faça parte das características da humanidade. Que o Senhor, a quem pertence esta causa, abra os seus olhos e o ajude a glorificá-Lo. Amém.” [p.98]

 

 

No final do livro, temos um “Post Scriptum” que tem como tema: História posterior da controvérsia e sua importância atual:

 

 

 

 

“Que importância há para o leitor do século XXI a controvérsia por detrás do livro de Lutero, “A Escravidão da Vontade”? Durante a leitura desta versão sumariada e simplificada, é possível que você tenha ficado impressionado com as ideias de Lutero no debate. Porém, o que realmente deve nos interessar é se a posição por ele defendida é mesmo ensinada pelas Escrituras. Se o que ele escreveu é o ensino da Palavra de Deus, então precisamos dar-lhe atenção nestes nossos dias.” [p.99]

 

 

 

A nossa fé está baseada nas promessas de Deus. A nossa fé está firme no fato de que Deus pode fazer o que Ele mesmo prometeu. Mas se o homem pode resistir a vontade de Deus e fazer o que quer de acordo com seu livre arbítrio, a segurança da nossa fé diminui, ou até mesmo desaparece! A doutrina do livre arbítrio sem dúvidas, leva uma pessoa à insegurança a respeito da sua salvação; para aumentar a sua segurança, ele procura uma vida com mais santidade e boas obras, que servem como justificação e devem garantir a sua salvação:

 

 

Lucas 13, 24-25: “Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. Quando o dono da casa se tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta, ele vos responderá: Não sei donde sois...”

 

 

 

Filipenses 2,12-13: “...desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; sabendo que Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”.

 

 

 

 

O LIVRE ARBÍTRIO EM TOMÁS DE AQUINO

 

 


 

Nos voltemos agora para o tema da Vontade na Suma Teológica de São Tomás que é anterior a Erasmo e Lutero (escrita entre 1265 e 1274, período de maturidade de Tomás de Aquino).  A primeira coisa a notar sobre ela é que “em cada ser intelectual há vontade, assim como em cada intelecto” (Suma Teológica I.19.1). Sobre a doutrina aristotélica de causas finais, a inclinação ou tendência para um fim se aplica à forma de apetites sensoriais, na medida que animais podem ser movidos para aquilo que eles apreendem através dos sentidos (ST I.81.1). E isto pode tomar a forma daquilo que nós chamamos vontade no caso de seres com intelectos, à medida que eles podem ser movidos para aquilo que eles racionalmente apreendem. Isto é simplesmente o que vontade é segundo Aquino:

 

 

 

Um poder para atrair para (ou afastar de) aquilo que é apreendido pelo intelecto (Suma Contra Gentios IV.19). (Mais precisamente, é o poder de ser atraído para ou, afastado daquilo que é apreendido ser bom ou mau, respectivamente ). Segue-se automaticamente que aquilo que falta intelecto (como animais inferiores) não podem ter vontade, livre ou de qualquer tipo.

 

 


 


Agora a pergunta: Nossa vontade pode ser de fato livre?

 

 

 

Pois se Deus é o primeiro motor sustentando todo o movimento ou mudança que ocorre no mundo, isto teria que incluir o movimento ou mudança que resulta de nossos atos voluntários. Mas neste caso, como eles seriam atos livres? O próprio Aquino considera esta questão (Questões disputadas sobre o Mal 6; cf. Suma Teológica I.83.1).

 

 

Sua resposta é que apesar de Deus mover a vontade, “já que Ele move todo tipo de coisa de acordo com a natureza da coisa movida... Ele também move a vontade de acordo com sua condição, como indeterminadamente disposta a várias coisas, não de forma necessária” (Questões disputadas sobre o mal 6). Isto quer dizer que a natureza da vontade é estar aberta a várias possíveis fins intelectualmente apreendidos, enquanto que alguma coisa não livre, como um objeto físico ou processo impessoal, é naturalmente determinado para seus fins em uma forma não pensada, necessária.

 

 

 

Quando você escolhe tomar café ao invés de chá, você poderia fazer diferente, “enquanto que quando a cafeteira esquenta seu café, ela não poderia fazer diferente!”

 

 

 

Isto é assim porque sua vontade foi a causa de você tomar café, enquanto que algo fora da cafeteira – você ter programado algumas instruções nela na noite anterior, digamos, juntamente com a corrente elétrica fluindo para ela da tomada na parede, as leis da física, e assim continua – foi a causa de seu comportamento. Mas Deus causa os dois eventos de uma maneira consistente com tudo isto, enquanto que ao causar sua livre escolha ele causa algo que opera independentemente do que acontece no mundo à sua volta, enquanto que ao causar a cafeteira esquentar o café ele causa algo que opera somente em virtude do que está acontecendo no mundo em sua volta (a eletricidade, leis da física, etc.).

 

 

Desta forma “Deus causa cada coisa a agir de acordo com sua natureza”. Aquino resume sua posição como se segue:

 

 

 

Livre-arbítrio é a causa de seu próprio movimento, porque pelo seu livre-arbítrio o homem move a si mesmo para agir. Mas por necessidade não pertence à liberdade que o que é livre deveria ser a primeira causa de si mesmo, como também para uma coisa ser a causa de outra precisa ela ser a primeira causa. Deus, então, é a primeira causa, Quem move causas tanto naturais quanto voluntárias. E assim como por mover causas naturais Ele não evita que seus atos sejam naturais, por mover causas voluntárias ele não evita que suas ações sejam voluntárias: mas ao invés disto Ele é a própria causa disto neles; pois Ele opera em cada coisa de acordo com sua própria natureza. (Suma Teológica I.83.1)

 

 

 

Como esta passagem indica, para Aquino o que importa para a liberdade é se a causa do comportamento é algo externo no mundo natural (como é para os próprios objetos naturais) ou então a própria vontade de alguém.

 

 

Que Deus seja a causa última da vontade e da ordem causal natural não minha a liberdade; de fato, isto a faz possível no sentido que assim como nas causas naturais, se escolhas livres não fossem causadas por Deus, elas nem poderiam existir.

 

 

 

CONCLUSÃO:

 

 

 

Sobre estes temas da graça, livre arbítrio e da Santa Vontade de Deus, um dos episódios mais conhecidos é sobre o do primeiro processo de Santa Joana d’Arc. Considerada como profetisa do Novo Testamento, a santa gravou o nome de Jesus na bandeira com que conduzia as tropas ao combate. Dois séculos e meio depois, o Sagrado Coração viria pedir a Luis XIV, rei da França, mediante aparição à vidente Santa Margarida Maria Alacoque, que gravasse sua imagem nas bandeiras reais.  Aprisionada por ocasião de uma escaramuça, Santa Joana d’Arc foi julgada por um tribunal iníquo que a condenou a ser queimada como bruxa na cidade de Rouen, em 1431. Hoje, porém, a história da santa, canonizada em 1920, faz vibrar o mundo.  Muitos eclesiásticos e inúmeros de seus devotos estão certos de que sua missão não terminou. Pelo contrário, que a santa vai continuá-la em nossos dias, comandando do Céu a restauração da Igreja e da sociedade temporal. Ideia que explica a incrível retomada de interesse pela Donzela de Domrémy. Santa Joana d’Arca exemplarmente, se refere ao tema da graça com uma santa e notável resposta:

 


“Interrogada, ela se diz estar na graça de Deus, e responde: Se não estou, Deus me queira colocar, se estou, Deus me queira guardar nesta” (ibid, p. 62; cfr Catecismo da Igreja Catolica, 2005). 

 

 


 

A  nossa santa (que foi queimada viva em 30 de maio de 1431), vive a oração na forma de um diálogo contínuo com o Senhor, que ilumina o seu diálogo com os seus juízes, o que dá a ela paz e segurança. Ela pede com confiança: “Doce Jesus, em honra da vossa santa paixão, vos peço, se vós me amais, revela-me como devo responder a estes homens da Igreja. (ibidm p, 252).






Jesus foi contemplado por Joana como o “Rei do céu e da terra”. Assim, sobre o seu estandarte, Joana fez com que pintassem a imagem de Nosso Senhor que segura o mundo. (ibid, p. 172), este, ícone da sua missão politica. A libertação do seu povo é uma obra de justiça humana, que Joana cumpre na caridade, por amor a Jesus. 






A sua vida é um belo exemplo de santidade para os leigos comprometidos na vida política, sobretudo, nas situações mais difíceis.  






A fé é a luz que guia cada escolha, como testemunhará um século depois, um outro grande santo, o inglês Thomas More.

 







Em Jesus, Joana contempla também toda a realidade da Igreja, a Igreja triunfante do céu, como a Igreja militante, da terra.  Segundo as suas palavras é uma única coisa Jesus e a Igreja (ibid, p. 166). Esta afirmação citada no catecismo da Igreja Católica (n. 795), tem um caráter verdadeiramente heroico no contexto do processo de condenação diante aos seus juízes homens da Igreja, que a perseguiram e a condenaram. No amor de Jesus, Joana encontra força de amar a Igreja até o fim, também no momento da condenação, reconhecendo a necessidade da Igreja como o fez outro Santo muito perseguido pelas autoridades da Igreja, São Padre Pio de Pietrelcina. O mesmo ao responder a pergunta sobre o que mais o havia feito sofrer ao longo de sua vida,  respondeu: A igreja que tanto amo e a sirvo, mas complementou:

 

 

 

“Não é a igreja que precisa de mim, Sou eu que preciso da Igreja”

 

 


 

“Erasmo de Roterdão era filho de um padre. Ordenou-se sacerdote e só rezou Missa uma vez na vida. Apesar de negar publicamente, nos bastidores era muito anti clerical. Ele também, queria reformar a Igreja (realmente, Erasmo “pôs o ovo que Lutero chocou”). Apesar de tudo, foi contra a Reforma de Lutero por seus previsíveis erros e violência. Erasmo queria reformar destruindo a Igreja como Lutero, mas devagar, e construir outra completamente nova conforme sua imperfeita e limitada "ACHOLOGIA". Até no rosto Erasmo se parecia com Voltaire. E era tão venenoso quanto ele, é tanto que nunca foi elevado as honras dos altares como modelo a ser seguido, para termos cautela com sua ‘doutrina independente’ e meramente pessoal.  Podemos concluir que a sinceridade não é o critério da verdade, pois Erasmo era um homem sincero em suas convicções pessoais, as quais queria torna-las universais, porém, sinceramente equivocado".

 

 





Bibliografia:

 

 

 

-Lutero, Martinho (1957). Packer, J.I.; Johnston, O. R., eds. The Bondage of the Will: A New Translation of De Servo Arbitrio, Martin Luther's Reply to Erasmus of Rotterdam (em inglês). Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell Co.


-Rupp, E. Gordon; Marlow, A.N.; Watson, Philip S.; e Drewery, B., ed. (1969). Luther and Erasmus: Free Will and Salvation. Col: The Library of Christian Classics: Ichthus Edition (em inglês). Philadelphia: Westminster Press.


-Watson, Philip S.; Drewery, Benjamin, eds. (1972). Career of the Reformer III. Col: Luther's Works (em inglês). 33. Philadelphia: Fortress Press.


-Lutero, Martinho (março de 1823). Cole, Henry, ed. Bondage of the Will (em inglês). London.


-LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. São José dos Campos: Fiel, 2007. 101p.


-Erasmi Roterdami. Opus Epistolarum Des. Ed. H. M. Allen, (Oxford University Press, 1937)


-MEDEIROS, R. Livre-Arbítrio e presciência divina – a solução dos medievas. In: IV Encontro Internacional de estudos Medievais. (Org) Angêla Vaz Leão e Vanda Bittencourt. Belo Horizonte: PUC, 2003.

 

 

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