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A Contraposição Teológica entre a Transubstanciação Católica e a Consubstanciação Protestante

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 13 de maio de 2018 | 16:05




Qual a diferença entre a doutrina Católica da Transubstanciação, e a protestante da Consubstanciação?


Por *Francisco José Barros Araújo


A solene afirmação de Cristo — “Isto é o meu corpo” (Mt 26,26) — pronunciada na véspera de sua Paixão, constitui um dos núcleos mais profundos e veneráveis da fé cristã. Desde os primórdios da Igreja, essas palavras foram acolhidas não como uma metáfora piedosa ou uma simples representação simbólica, mas como expressão eficaz do poder criador do Verbo encarnado, capaz de realizar aquilo que anuncia. A Igreja sempre compreendeu que, na Eucaristia, o Senhor não apenas é recordado, mas verdadeiramente se faz presente, oferecendo-se sacramentalmente como alimento de vida eterna. Ao longo da história, contudo, o entendimento dessa presença real foi objeto de controvérsias. Durante a Reforma Protestante, a interpretação das palavras da instituição eucarística tornou-se ponto de grave ruptura entre os próprios reformadores, como se evidenciou no Colóquio de Marburgo (1529), que selou o desacordo entre Lutero e Zuínglio. Desde então, o cristianismo ocidental permanece dividido quanto ao modo de compreender o mandato do memorial da Ceia do Senhor e, sobretudo, quanto à natureza da presença de Cristo nas espécies consagradas do pão e do vinho. A Igreja Católica Apostólica Romana, fiel à Sagrada Escritura, à Tradição apostólica e ao Magistério, professa a doutrina da transubstanciação, segundo a qual, pela ação do Espírito Santo e pela eficácia das palavras de Cristo pronunciadas pelo sacerdote validamente ordenado, a substância do pão e do vinho é totalmente convertida na substância do Corpo e do Sangue de Cristo, permanecendo apenas as espécies sensíveis. Não se trata de uma ocupação (antonomásia) simultânea ou de uma coexistência de substâncias, mas de uma verdadeira mudança ontológica, ainda que misteriosa, operada pelo poder divino. As formulações surgidas no contexto da Reforma, como a chamada consubstanciação, embora reconheçam uma certa presença real de Cristo, permanecem teologicamente incompletas, pois não afirmam a conversão substancial plena das espécies eucarísticas. Tal compreensão não faz justiça à radicalidade das palavras do Senhor nem à fé constante da Igreja primitiva, que sempre adorou a Eucaristia como o próprio Cristo presente no meio do seu povo. A questão da presença eucarística revela-se, assim, central para a fé cristã, pois a participação na Ceia do Senhor não é mero ato simbólico de recordação, mas verdadeira comunhão com Cristo vivo, que se doa à Igreja como sacrifício e alimento. Já nos primeiros séculos, os Padres da Igreja testemunham essa fé realista na Eucaristia, a qual, diante dos desafios teológicos ao longo da Idade Média, encontrou na formulação da transubstanciação não uma inovação arbitrária, mas uma expressão conceitual precisa destinada a salvaguardar o mistério crido desde sempre.




CONCEITOS BÁSICOS PARA ENTENDER A PRESENÇA DIVINA NA TRANSUBSTANCIAÇÃO:




a)-Transformação: Mudança de uma matéria em outra. Exemplo: Nas bodas de Caná onde a matéria da água se transformou em outra matéria: vinho.




b)-Conversão: Mudança de estado, porém, permanecendo as aparências (acidentes). Exemplo: Mudança da água do estado líquido para sólido e gasoso (a formula química continua a mesma); mudança de estados de vida: de desregrado para regrado; de ateu para crente, de viciado para sóbrio.



c)-Antonomásia: Mudança que se dar sob: ocupação, possessão.


Basicamente, no meio Cristão, quatro são as concepções acerca da "presença" divina na Ceia do Senhor  que são dominantes:


1)-Transubstanciação.

2)-Consubstanciação.

3)- Presença espiritual.

4)-Memorial.






1) A doutrina da transubstanciação na fé e na prática litúrgica da Igreja Católica


A doutrina da transubstanciação é professada e ensinada pela Igreja Católica Apostólica Romana como um dos pilares centrais de sua teologia sacramental e de sua prática litúrgica. Segundo essa fé, no sacrifício eucarístico celebrado na Santa Missa, o pão e o vinho, pela ação do Espírito Santo e pela eficácia das palavras da instituição pronunciadas por um sacerdote validamente ordenado, tornam-se verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. 


De acordo com a disciplina litúrgica da Igreja, a Comunhão pode ser distribuída aos fiéis apenas sob a espécie do pão consagrado; contudo, quando pastoralmente conveniente — sobretudo em celebrações menores —, pode ser oferecida sob as duas espécies, pão e vinho consagrados. A hóstia (ou espécie eucarística), tradicionalmente confeccionada de pão ázimo e de formato circular, simboliza a perfeição e a eternidade de Cristo, “o mesmo ontem, hoje e sempre”. Por sua própria instituição divina — realizada por Cristo na Última Ceia com os Doze Apóstolos (cf. Lc 22,14) — a Eucaristia só pode ser validamente consagrada por um sacerdote ordenado por um bispo que esteja inserido na sucessão apostólica. No momento da consagração, dentro da Oração Eucarística, ocorre uma mudança ontológica profunda: a substância do pão e do vinho é totalmente convertida na substância do Corpo e do Sangue de Cristo, permanecendo apenas os acidentes (forma, sabor, aparência). 


É essa conversão substancial que a Igreja denomina transubstanciação. Tal mudança não é perceptível aos sentidos, pois não afeta os acidentes, mas apenas a substância. Diferentemente do milagre das bodas de Caná, no qual os acidentes também foram transformados, na Eucaristia o mistério opera-se de modo invisível, como já acontecia na própria Ceia instituída por Cristo. Por isso, São Paulo adverte a comunidade de Corinto a discernir o Corpo do Senhor, distinguindo o pão consagrado do pão comum (cf. 1Cor 11,29). 


Assim, embora aos olhos permaneça a aparência de pão, em sua essência já não é pão, mas o próprio Cristo vivo e glorioso. Uma consequência direta da doutrina da transubstanciação é a compreensão correta do caráter sacrificial da Missa. A Igreja ensina que, em cada celebração eucarística, o único sacrifício de Cristo na Cruz não é repetido, mas tornado sacramentalmente presente e atual. Trata-se da mesma oferta redentora, realizada uma vez por todas no Calvário, que se torna presente no tempo e no espaço, em obediência ao mandato do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. 

Dessa forma, cumpre-se a profecia de Malaquias: “Do nascer ao pôr do sol, meu nome é grande entre as nações, e em todo lugar se oferece um sacrifício puro” (Ml 1,11). Essa compreensão explica por que a Igreja Católica reserva a celebração eucarística exclusivamente ao altar, lugar sagrado do sacrifício, e não a uma mesa comum. O altar não é um simples móvel litúrgico, mas o sinal visível do próprio Cristo, sacerdote e vítima, que se oferece ao Pai pela salvação do mundo. Os católicos creem firmemente que a participação na Eucaristia não é um gesto meramente simbólico ou devocional, mas uma comunhão real, concreta e transformadora com o próprio Cristo. Desde os primeiros séculos, somente os iniciados — batizados e devidamente catequizados — participam da Santa Comunhão, pois ela pressupõe a fé, a conversão e a plena inserção no Corpo de Cristo que é a Igreja (cf. Jo 6,48-58). 


Os frutos espirituais da Eucaristia acompanham e sustentam a caminhada do fiel, assim como o pão oferecido pelo anjo sustentou o profeta Elias em sua travessia pelo deserto (cf. 1Rs 19,4-10). À luz desse paralelismo bíblico, propomo-nos a refletir sobre a força da Eucaristia, partindo da experiência de Elias até o “hoje” da Igreja. O alimento que fortaleceu o profeta para sua missão é figura e prenúncio do verdadeiro Pão do Céu, recebido em cada celebração eucarística, que renova nossas forças e dá sentido à missão cristã no mundo.









2) Martinho Lutero e a sua doutrina da “consubstanciação”



Em contraste com a doutrina católica da transubstanciação, desenvolveu-se no contexto da Reforma Protestante uma compreensão alternativa da presença de Cristo na Ceia do Senhor, posteriormente denominada consubstanciação. 


Tal concepção está associada sobretudo a Martinho Lutero (1483–1546), que rejeitou a transubstanciação por considerá-la uma explicação filosófica desnecessária e, em sua avaliação, incompatível com a simplicidade do texto bíblico. 


Lutero recusou explicitamente a doutrina católica segundo a qual o sacrifício de Cristo, único e perfeito, é tornado sacramentalmente presente na Eucaristia. Apesar dessa rejeição, Lutero não admitia uma interpretação meramente simbólica das palavras da instituição. Para ele, a afirmação de Cristo — “Isto é o meu corpo” — deveria ser compreendida em sentido literal e real. 

Desse modo, embora o pão permanecesse pão e o vinho permanecesse vinho, Cristo estaria verdadeiramente presente na Ceia, de modo corporal, sendo seu Corpo recebido por todos os que participassem da mesa do Senhor. Segundo essa concepção, o Corpo de Cristo estaria “em, com e sob” os elementos, sem que ocorresse uma conversão substancial do pão e do vinho. 




É precisamente essa coexistência de duas substâncias — a do pão e do vinho juntamente com a do Corpo e do Sangue de Cristo — que levou os teólogos posteriores a designarem essa posição como consubstanciação, ainda que o próprio Lutero não utilizasse formalmente esse termo. 


Tal doutrina afirma uma presença real, mas sem admitir a mudança ontológica plena das espécies eucarísticas, como ensina a fé católica. A compreensão luterana da Ceia está intimamente vinculada à sua doutrina da ubiquidade do corpo de Cristo. Segundo Lutero, em virtude da união hipostática, a natureza humana de Cristo teria participado de certos atributos da natureza divina, entre eles a onipresença. Assim, o corpo glorificado do Senhor não estaria circunscrito a um único lugar — como à direita do Pai —, mas poderia estar simultaneamente presente em diversos locais, inclusive junto aos elementos da Ceia. 


Essa tese, no entanto, levanta sérias dificuldades cristológicas, pois parece confundir ou misturar os atributos das duas naturezas de Cristo, comprometendo a distinção clássica afirmada pela fé da Igreja desde os Concílios cristológicos da Antiguidade. 


Ao atribuir à natureza humana de Cristo uma propriedade estritamente divina, a ubiquidade corporal, a doutrina luterana afasta-se do equilíbrio da tradição patrística e conciliar. O principal opositor de Lutero nesse tema foi o reformador suíço Ulrico Zuínglio (1484–1531), que rejeitou tanto a transubstanciação quanto a consubstanciação. Para Zuínglio, a Ceia do Senhor possuía um caráter meramente simbólico e memorial, sendo os seus benefícios exclusivamente espirituais. Ele negava qualquer presença corporal de Cristo no pão e no vinho e recusava a doutrina da ubiquidade, sustentando que a encarnação não tornou o corpo humano de Cristo onipresente. 


Com base em uma leitura isolada de Jo 6,63 — texto que, no contexto, não se refere diretamente ao mistério eucarístico — Zuínglio afirmava que “a carne para nada aproveita”, insistindo que a fórmula “Isto é o meu corpo” deveria ser entendida como uma metáfora. Tal interpretação, contudo, ignora tanto o contexto mais amplo do discurso do Pão da Vida quanto o uso literal do verbo ser (est) nos textos originais, em contraste com o verbo significar (sēmaínein), que não aparece na narrativa da instituição. 


A doutrina da consubstanciação consolidou-se no interior do luteranismo. Ela foi afirmada na Confissão de Augsburgo (1530), redigida por Filipe Melanchthon, e reafirmada de modo mais explícito na Fórmula da Concórdia (1577), documento elaborado para encerrar controvérsias internas entre os próprios luteranos. Até hoje, as Igrejas luteranas professam, em seus credos, que a Ceia do Senhor é “o verdadeiro Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, dados aos cristãos para comer e beber sob o pão e o vinho”. 


Do ponto de vista católico, embora a consubstanciação represente um reconhecimento parcial da presença real de Cristo, ela permanece doutrinariamente insuficiente, pois não salvaguarda a conversão substancial das espécies nem a coerência da fé cristológica recebida da Tradição apostólica.




3) João Calvino e a doutrina eucarística da “presença espiritual” (virtualismo)



A concepção da Ceia do Senhor conhecida como presença espiritual foi sistematizada pelo reformador francês João Calvino (1509–1564). Diferentemente da doutrina católica da transubstanciação e da compreensão luterana da consubstanciação, Calvino rejeitou qualquer forma de presença corporal ou física de Cristo na Eucaristia. Para ele, a Ceia não é um rito no qual o Corpo e o Sangue do Senhor estejam presentes de maneira local ou substancial, mas um sacramento no qual Cristo se comunica espiritualmente aos fiéis por meio da ação do Espírito Santo. 


Segundo Calvino, embora os elementos permaneçam pão e vinho em todos os sentidos, a Ceia é mais do que um simples memorial simbólico. Nela, o Cristo ressuscitado se oferece verdadeiramente aos fiéis, de modo que aqueles que participam do pão e do cálice se alimentam espiritualmente de sua carne e de seu sangue. 


É nesse sentido que o reformador afirma que, ao receber o sinal visível do Corpo de Cristo, o fiel deve crer que recebe também o próprio Cristo, não corporalmente, mas em uma comunhão real e eficaz no plano espiritual. Na perspectiva calvinista, o sacrifício de Cristo não se torna presente na Eucaristia, nem sob forma sacramental nem como oferta litúrgica. Todavia, os frutos da morte redentora do Senhor — tais como a justificação, a santificação e a vida eterna — são reafirmados e aplicados aos que participam da Ceia com fé. Essa participação, porém, não é automática: apenas os crentes verdadeiros recebem tais benefícios. 


Aqueles que se aproximam indignamente da mesa, sem fé, não apenas deixam de receber os frutos espirituais do sacramento, mas incorrem em juízo, conforme a advertência paulina. Essa doutrina da presença espiritual está diretamente relacionada ao conceito calvinista de sacramento. 


Para Calvino, existem apenas dois sacramentos instituídos por Cristo: o Batismo e a Ceia do Senhor. Em ambos, os sinais visíveis representam Cristo e seus benefícios, mas não se reduzem a meras figuras. Há, segundo ele, uma relação espiritual entre o sinal e a realidade significada, pela qual os efeitos da graça são comunicados ao fiel por meio da atuação do Espírito Santo e da Palavra de Deus que instituiu os sacramentos. 


No que se refere especificamente à Eucaristia, Calvino insiste que o Corpo de Cristo permanece fisicamente no céu, à direita do Pai. Contudo, pelo poder do Espírito Santo, os fiéis são elevados espiritualmente até Cristo e, assim, participam verdadeiramente de sua carne e de seu sangue. 


O próprio Calvino expressa essa ideia ao afirmar: “Sustentamos que Cristo desce até nós, tanto pelo símbolo exterior quanto por seu Espírito, para que nossas almas sejam verdadeiramente vivificadas pela substância de sua carne e de seu sangue.” Uma vez que, segundo o reformador, essa comunicação ocorre por uma ação misteriosa (arcana virtus) do Espírito Santo, essa doutrina passou a ser designada como virtualismo, termo que ressalta a eficácia espiritual real do sacramento, ainda que sem presença corporal. A doutrina da presença espiritual foi oficialmente acolhida pela Confissão de Fé de Westminster (1646), um dos documentos mais importantes da tradição reformada, tornando-se um dos ensinamentos distintivos das Igrejas presbiterianas e de outras comunidades de matriz calvinista. 


Ao longo dos séculos, essa concepção exerceu ampla influência, não tanto por recorrer a interpretações gramaticais que reduzam a fórmula “Isto é o meu corpo” a uma metáfora, mas sobretudo por apoiar-se na leitura de textos como 1Coríntios 10,16: “O cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” É precisamente o sentido dessa comunhão que a doutrina da presença espiritual busca explicar e que continua a desafiar seus críticos. Do ponto de vista católico, contudo, ainda que o virtualismo reconheça uma comunhão real com Cristo, ele não alcança a densidade ontológica da fé eucarística transmitida pela Tradição apostólica, pois não afirma a presença substancial do Corpo e do Sangue do Senhor nem o caráter sacrificial da Eucaristia, elementos constitutivos do mistério conforme professado pela Igreja desde os primeiros séculos.


4)- A concepção "memorialista" da Ceia do Senhor (DEFENDIDA POR ZUÍNGLIO, PENTECOSTAIS, E POSTERIORMENTE, PELA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO)


A quarta concepção acerca da Ceia do Senhor é comumente designada como memorialismo. Segundo essa interpretação, a Ceia consiste essencialmente em uma ordenança instituída por Cristo com a finalidade de recordar, de modo simbólico e pedagógico, o sacrifício realizado no Calvário. Nessa perspectiva, a celebração não comporta qualquer forma de presença real de Cristo nos elementos, mas funciona como um ato de memória comunitária, no qual os fiéis reavivam sua fé por meio da recordação da obra redentora. Essa concepção é geralmente associada ao reformador suíço Ulrico Zuínglio (1484–1531), que rejeitou explicitamente tanto a doutrina católica da transubstanciação quanto a posição luterana da presença corporal “em, com e sob” os elementos. 


Para Zuínglio, comer a carne e beber o sangue de Cristo significava crer nele; assim, a afirmação “Isto é o meu corpo” deveria ser compreendida em sentido figurado, como linguagem metafórica destinada a representar uma realidade espiritual, e não como indicação de uma presença objetiva nas espécies do pão e do vinho. 





Cumpre, contudo, fazer uma distinção importante: não é historicamente correto atribuir a Zuínglio um memorialismo estritamente reducionista. Para ele, a Ceia não era apenas um exercício psicológico de lembrança, mas também um sinal público de pertença e compromisso. À semelhança do Batismo, a Ceia funcionava como um testemunho visível da fé do crente e de sua inserção na comunidade cristã, sendo ocasião de alegria, gratidão e reafirmação do vínculo com Cristo e com a Igreja. 


Nas tradições protestantes posteriores — sobretudo em muitos ramos do pentecostalismo e do neopentecostalismo — a concepção memorialista acabou sendo assumida de forma mais acentuada. 


Nesses contextos, a Ceia do Senhor é frequentemente entendida quase exclusivamente como um ato simbólico, desprovido de qualquer mediação sacramental objetiva, e sua eficácia espiritual está inteiramente condicionada à disposição subjetiva do participante. Os defensores dessa posição recorrem, em especial, às palavras de Cristo na instituição da Ceia: “Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24–25). Todavia, uma leitura atenta da Escritura e da tradição bíblica mostra que o conceito de memorial (anamnesis) no contexto bíblico não se limita a uma simples evocação mental do passado.


No horizonte veterotestamentário, o memorial é uma recordação eficaz, que torna presente diante de Deus um evento salvífico e insere novamente o povo nos seus frutos. Mesmo dentro do próprio protestantismo, alguns teólogos reconhecem que a Ceia, ainda que compreendida como memorial, está inserida em uma realidade espiritual mais profunda, capaz de produzir efeitos reais na vida dos fiéis. 


Assim, admite-se que a celebração ultrapassa a mera recordação intelectual, promovendo uma comunhão espiritual mais intensa com Cristo e com a comunidade dos crentes. 






Do ponto de vista da fé católica, contudo, o memorialismo permanece insuficiente, pois não corresponde à compreensão integral do mistério eucarístico transmitida pela Tradição apostólica. Ao reduzir a Ceia a um sinal essencialmente subjetivo, ele esvazia o caráter sacramental objetivo da Eucaristia, a presença real do Corpo e do Sangue de Cristo e a atualização sacramental do sacrifício da Cruz. 


Ainda que tal celebração possa provocar efeitos espirituais e morais nos participantes, ela carece da densidade ontológica própria do sacramento da Eucaristia, que a Igreja sempre reconheceu como o ápice da vida cristã.



O Mistério da "Transubstanciação" na Doutrina Católica







Doravante, propomo-nos a explicitar de modo claro, rigoroso e fiel à Tradição da Igreja o significado profundo do termo “transubstanciação”, conceito central da fé eucarística católica e expressão teológica do mistério realizado por Cristo na Santa Missa. Observamos que, tanto no ser humano quanto no mundo e no universo, tudo está submetido a processos de mudança. 






A filosofia clássica, especialmente a tradição aristotélico-tomista assumida pela teologia católica, distingue dois tipos fundamentais de mudança: a mudança acidental e a mudança substancial. 



1) Mudança acidental - Na mudança acidental, algo sofre alteração apenas em sua aparência, estado ou modo de ser, sem que sua essência mais profunda seja modificada. Trata-se de uma mudança que afeta os acidentes — isto é, as qualidades perceptíveis pelos sentidos — mas não a substância. Exemplos clássicos são as mudanças de cor, temperatura, forma externa ou estado físico, como a água que passa do estado sólido ao líquido ou gasoso, permanecendo, contudo, a mesma substância: H2O. 



2) Mudança substancial - Já a mudança substancial é radical e profunda: nela, uma realidade deixa de ser aquilo que era em sua essência para tornar-se outra. A substância é transformada. Um exemplo bíblico desse tipo de transformação é o milagre das bodas de Caná, no qual a substância da água foi convertida na substância do vinho. 




Essas distinções são essenciais para a correta compreensão da transubstanciação. Na Eucaristia não ocorre nem uma simples mudança simbólica nem uma transformação física perceptível aos sentidos. O que se dá é uma mudança substancial singular, única em seu gênero: a substância do pão e do vinho é totalmente convertida na substância do Corpo e do Sangue de Cristo, permanecendo inalterados os acidentes — isto é, a aparência, o sabor, o peso e as propriedades sensíveis. A Igreja denomina essa conversão de transubstanciação, precisamente porque se trata de uma passagem (trans) de uma substância para outra (substância), sem alteração dos acidentes. 


Como recorda o Magistério — de modo particular o Concílio de Trento e, mais recentemente, São Paulo VI —, essa presença real não se dá por uma justaposição ou coexistência de substâncias, mas por uma verdadeira conversão ontológica, operada pelo poder de Deus. Por isso, na Eucaristia, não se adora o pão ou o vinho, mas o próprio Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, presente com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade sob as espécies sacramentais. Essa fé está firmemente ancorada nas palavras do próprio Senhor: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). 




Convém esclarecer ainda o sentido autêntico do termo transubstanciação, evitando interpretações alheias à fé católica



A palavra não designa um processo físico, químico ou espiritualista, mas um mistério sacramental, no qual Deus age de modo soberano e gratuito. Trata-se de uma realidade que ultrapassa a capacidade da razão natural, ainda que não a contradiga, e que só pode ser acolhida plenamente na fé. 



A transubstanciação não é, portanto, uma “ciência” humana de transformação interior nem uma metáfora para processos psicológicos ou morais. Ela é, antes de tudo, um ato divino, pelo qual Cristo se entrega realmente à sua Igreja como alimento de salvação. Todavia, esse dom sacramental possui efeitos espirituais profundos: ao receber dignamente a Eucaristia, o fiel é progressivamente transformado, conformado a Cristo e fortalecido para viver segundo o Espírito. 



Assim, a Eucaristia é simultaneamente mistério de fé, presença real e fonte de transformação da vida cristã — não por uma mudança simbólica, mas porque aquele que comunga verdadeiramente entra em comunhão com o próprio Autor da graça. É nesse sentido que a Igreja proclama a Eucaristia como o “mistério da fé” e o “ápice e fonte de toda a vida cristã”.





Devemos cumprir com essas sábias palavras:





“Este ato misterioso do qual dou fé, simboliza a Transubstanciação”



Pois, naquele santo recinto — ainda que por breves instantes — realiza-se verdadeiramente o mistério mais elevado da fé cristã. Não se trata de um símbolo vazio, mas de uma ação divina eficaz, na qual Deus age soberanamente, ultrapassando toda capacidade humana de compreensão. A força que emana desse mistério é inteiramente divina e não confere ao homem qualquer poder de manipulação da realidade criada. Antes, revela-nos que o verdadeiro campo de transformação querido por Deus não é o mundo exterior, mas o interior do coração humano. 




A Eucaristia não nos torna senhores da matéria, mas discípulos chamados à conversão, à obediência e à santidade. De fato, a Palavra de Deus, quando acolhida com fé, possui a capacidade de tocar profundamente a pessoa, fortalecendo o ânimo, restaurando a esperança e orientando a vontade. Assim, aquele que vive em comunhão com Cristo torna-se, por sua vez, instrumento de edificação para os outros, irradiando paz, firmeza e caridade. 



Essa influência, porém, não se dá por domínio ou imposição, mas pelo testemunho de uma vida transformada pela graça. Entretanto, nenhuma mudança exterior é autêntica se não for precedida por uma verdadeira transformação interior. Não basta modificar comportamentos ou aparências, se o coração permanece frágil e desordenado. A conversão cristã exige, antes de tudo, a renovação dos estados interiores — anímicos e espirituais — para que, a partir deles, também as formas de agir sejam purificadas e fortalecidas. Somente quando a graça de Deus encontra um coração disposto é que se operam transformações profundas e duradouras. É essa obra silenciosa da graça, alimentada pela Eucaristia, que conforma o fiel a Cristo e faz de sua vida um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.





O MAGISTÉRIO DA IGREJA AFIRMA:







“Cristo Jesus, aquele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, aquele que está à direita de Deus e que intercede por nós” (Rm 8,34), está presente de múltiplas maneiras em sua Igreja: em sua Palavra, na oração de sua Igreja, “lá onde dois ou três estão reunidos em meu nome” (Mt 18,20), nos pobres, nos doentes, nos presos, em seus sacramentos, dos quais ele é o autor, no sacrifício da missa e na pessoa do ministro. Mas “sobretudo (está presente) sob as espécies eucarísticas”. - O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que da seja “como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos”. No santíssimo sacramento da Eucaristia estão “contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo...Esta presença chama-se 'real' não por exclusão, como se as outras não fossem 'reais', mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se toma presente completo, ocupando as espécies eucarísticas”.É pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo que este se torna presente em tal sacramento. Os Padres da Igreja afirmaram com firmeza a fé da Igreja na eficácia da Palavra de Cristo e da ação do Espírito Santo para operar esta conversão. Assim, São João Crisóstomo declara: “Não é o homem que faz com que as coisas oferecidas se tomem Corpo e Sangue de Cristo, mas o próprio Cristo, que foi crucificado por nós. O sacerdote, figura de Cristo, pronuncia essas palavras, mas sua eficácia e a graça são de Deus. Isto é o meu Corpo, diz ele. Estas palavras transformam as coisas oferecidas.”






Santo Ambrósio afirma acerca desta conversão:




“Estejamos bem persuadidos de que isto não é o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou, e que a força da bênção supera a da natureza, pois pela bênção a própria natureza mudada. Por acaso a palavra de Cristo, que conseguiu fazer do nada o que não existia, não poderia mudar as coisas existentes naquilo que ainda não eram? Pois não é menos dar às coisas a sua natureza primeira do que mudar a natureza delas.”





O Concílio de Trento resume a fé católica ao declarar:






“Por ter Cristo, nosso Redentor, dito que aquilo que oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente seu Corpo, sempre se teve na Igreja esta convicção, que O santo Concílio declara novamente: pela consagração do pão e do vinho opera-se a mudança de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo Nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue; esta mudança, a Igreja católica denominou-a com acerto e exatidão transubstanciação”. - A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura também enquanto subsistirem as espécies eucarísticas. Cristo está presente inteiro em cada uma das espécies e inteiro em cada uma das partes delas, de maneira que a fração do pão não divide o Cristo. (Catecismo da Igreja Católica § 1373-1377).




CONCLUSÃO



Diante de tudo o que foi exposto, torna-se claro que o milagre da transubstanciação se realiza unicamente pela eficácia da Palavra de Cristo e pela ação do Espírito Santo, pois “para Deus nada é impossível” (cf. Mt 19,26). Trata-se de um mistério que não depende da capacidade humana nem do mérito do ministro ordenado, mas da fidelidade de Deus à promessa de seu Filho. Na consagração eucarística, não é o sacerdote quem opera a mudança, mas o próprio Espírito Santo que, pelo poder divino, converte a substância do pão e do vinho no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo. 



É essencial compreender que esse milagre não é uma transformação física ou química, mas uma transubstanciação: a substância é totalmente convertida, enquanto os acidentes — aparência, sabor e propriedades sensíveis — permanecem inalterados. Essa distinção entre substância e acidentes é fundamental para a reta compreensão do sacramento da Eucaristia e permite reconhecer, pela fé, aquilo que os sentidos não podem perceber. 




Em sua pedagogia amorosa, Deus permitiu, ao longo da história, que esse mistério invisível se tornasse sensivelmente manifesto em alguns casos extraordinários, como nos milagres eucarísticos reconhecidos pela Igreja — entre eles, o de Lanciano —, não para substituir a fé, mas para confirmá-la diante da dureza do coração humano e da fragilidade da razão. É igualmente necessário distinguir as imagens simbólicas usadas por Cristo em diversos contextos — quando se apresenta como a “Videira” (cf. Jo 15,1), o “Caminho” (cf. Jo 14,6) ou a “Porta” (cf. Mt 7,13) — da solenidade com que se revela como o Pão da Vida. 





No discurso de Cafarnaum, Jesus não suaviza suas palavras nem as corrige diante da reação escandalizada dos ouvintes; ao contrário, aprofunda ainda mais o realismo de sua afirmação: 




“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54). Muitos se afastam, não por terem compreendido mal, mas por não aceitarem a verdade que lhes foi anunciada. Se Cristo tivesse falado apenas em sentido figurado, teria chamado de volta os que se retiraram para esclarecer o equívoco. No entanto, não o fez. Antes, volta-se para os Doze e os interpela diretamente: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6,67). A resposta de Pedro torna-se, então, a profissão de fé da Igreja de todos os tempos: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6,68). 



É nessa mesma fé apostólica que a Igreja persevera. Diante do altar, não apenas compreendemos, mas cremos. Não apenas recordamos, mas adoramos. Pois na Santíssima Eucaristia confessamos e celebramos aquilo que a Igreja proclama como o maior mistério da fé: Cristo verdadeiramente presente, que se entrega como alimento de salvação e permanece conosco até o fim dos tempos.




*Francisco José Barros Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17




BIBLIOGRAFIA:




-CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.


-BROUARD, Maurice. Enciclopédia da Eucaristia. São Paulo: Paulus, 2004.


-MACKENZIE, John L. Dicionário bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.



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CIDADÃO DO MUNDO, NORDESTINO COM ORGULHO, Brazil
Blog educativo e formativo inspirado em 1Pd 3,15, dedicado à defesa da fé e à evangelização. Nele somos apenas o jumentinho que leva Cristo e sua verdade aos povos, proclamando que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6) e que sua Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Nossa Missão: promover a educação integral da pessoa, unindo fé, razão e cultura; fortalecer famílias e comunidades por meio da formação espiritual e intelectual; proclamar a verdade revelada por Cristo e confiada à Igreja. Nossa Visão: ser um espaço de evangelização que ilumina também os campos social, político e econômico, mostrando que fé e razão caminham juntas, em defesa da verdade contra ideologias que afastam de Deus. Áreas de Estudo: Teologia: mãe de todas as ciências. Filosofia: base da razão e da reflexão. Política: análise crítica de governos e ideologias à luz da fé. Economia: princípios éticos e cristãos aplicados à vida financeira. Rejeitamos uma imagem distorcida e meramente sentimentalista de Deus, proclamando o verdadeiro Deus revelado em Jesus Cristo. Nosso lema é o do salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória” (Sl 115,1).

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"CONSAGRADOS A JESUS" PELAS MÃOS DE MARIA SANTÍSSIMA

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