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A importância da Bíblia na vida Cristã

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 15 de maio de 2018 | 19:07









Talvez nem fazemos ideia, mas a Bíblia é o livro mais vendido, distribuído e impresso em toda a História da humanidade. Só no século XX foram impressos mais de um bilhão e meio de exemplares, em mais de mil e seiscentos idiomas diferentes, tornando-se o maior “best-seller” de todos os tempos. Nunca a palavra de Deus foi tão meditada, lida e comentada como em nossos dias.




Mas qual é a origem da Bíblia? Para que serve? Como deve ser lida? Como rezar com a Bíblia? São perguntas que tentaremos responder, sem a pretensão de esgotar o assunto, mas com a esperança de leva-los a amá-la como fonte de vida plena e eterna.



QUAL É ORIGEM DA BÍBLIA?



Não caiu do céu, prontinha com capa, zíper, dividida em capítulos, versículos e já traduzida em nossa língua, ou seja, vários anos se passaram para que ela chegasse até este atual estado que a temos.Ela é a história de um povo com o seu Deus; não de qualquer povo, mas do povo de Deus, escolhido e consagrado por Ele, para ser exemplo para todos os povos. Ela nasceu no meio do povo hebreu, no tempo de Abraão, na terra de Canaã, que em seguida chamou-se terra de Israel e bem mais tarde Palestina.


A palavra Bíblia provém do grego biblos e significa livros, o que bem demonstra não ser a Bíblia um único livro. Assim, quando usamos hoje a palavra “Bíblia” nos referimos a um conjunto de livros. Nela estão agrupados 73 livros, é uma verdadeira mini-biblioteca que destaca o a aliança e plano de salvação de Deus para com a humanidade.E justamente por não ser um livro, mas um conjunto de livros, a bíblia levou bem mais de mil anos para ser escrita e tomar a forma de hoje, podemos identificar em sua gestação, que ela passou por 3 fases:



1)– Os acontecimentos: antes de se tornar um livro, a Bíblia foi uma realidade vivida e experimentada pelo homem. A essência da Sagrada Escritura não está nas palavras, ou especulações filosóficas de Deus, mas nos acontecimentos, na experiência, nos fatos concretos e acontecimentos salvíficos das intervenções divinas.



2)– Tradição Oral: logo depois dos Acontecimentos, entra em cena a Tradição Oral. Eles eram contados pelos pais e mães aos filhos, de geração em geração. Esse período durou cerca de 900 anos. Desta forma, o povo mantinha forte em sua lembrança as fortes experiências vividas com Deus. “Lembra-te dos dias antigos, considera os anos das gerações passadas. Interroga teu pai e ele te contará; teus anciãos e eles te dirão” (Deuteronômio 32, 7). “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Tessalonicensess 2, 15).


3)– Tradição Escrita: quando possível, devido às condições políticas, sociais e culturais da época, algumas pessoas começaram a colocar por escrito as ricas e vastas experiências do povo eleito de Deus, evitando a deturpação dos fatos. Graças a homens inspirados pelo Espírito de Santo, também chamados de hagiógrafos, a Bíblia começou a ser escrita.



Vemos, assim, que a Bíblia, ou melhor, os livros que a compõem foram escritos por homens, mas inspirados por Deus, de forma a prevenir erros. O homem foi o instrumento de Deus e foi movido e dirigido por Ele. No entanto, cabe aqui uma importante observação: o fato de Deus ter inspirado homens a escreverem os livros que compõem a bíblia, não significa que tenha anulado a inteligência e a liberdade deles, veja o que nos diz o Magistério da Igreja a respeito disso:


“Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens,dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles,escrevessem, como verdadeiros autores,tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse” (Dei Verbum Nº 11).







PARA QUE SERVE A BÍBLIA?



Todo homem busca a felicidade plena, firme e imperecível:

CIC 27: O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso:«A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador».

CIC 1718: As bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade. Este desejo é de origem divina; Deus pô-lo no coração do homem para o atrair a Si, o único que o pode satisfazer:Todos nós, sem dúvida, queremos viver felizes, e não há entre os homens quem não dê o seu assentimento a esta afirmação, mesmo antes de ela ser plenamente enunciada.Como é então, Senhor, que eu Te procuro? De facto, quando Te procuro, ó meu Deus, é a vida feliz que eu procuro. Faz com que Te procure, para que a minha alma viva! Porque tal como o meu corpo vive da minha alma, assim a minha alma vive de Ti.«Só Deus sacia».

Mas o que será ser feliz?

Ser feliz é possuir tudo o que se deseja, é infeliz, quem não possui. E pode ser feliz de modo absoluto alguém sujeito a receios? É claro que não. E pode estar sem receios aqueles que podem perder o que amam, o que possuem?Tudo o que possuímos está sujeito a mundanças, isto é, podem ser roubados ou deteriorados. Isto quer dizer que o homem que anseia por algum bem, não é feliz por não possuí-lo e se ainda sim o possui, não ficará feliz por anseiar perdê-lo.A verdadeira felicidade possui plenitude e segurança, satisfazendo o apetite humano. Nada do que é material satisfaz o homem. E qual é o bem pleno, eterno, imutável e absoluto? Este bem é Deus. Somente Deus é pleno, eterno, imultável e absoluto. Então quem possui a Deus é feliz.A posse de Deus traz a plenitude que é o anseio da alma humana.Em todos os tempos e em todas as nações da terra, existem sistemas religiosos, comprovando o desejo do homem pela posse de Deus.

Por sua natureza um inseto não pode desejar conhecer o universo, nem um peixe desejar beber toda a água do oceano. O homem finito, desejar o infinito é como um peixe desejar beber todo o oceano. Portanto, Deus criou o homem com o desejo de conhecê-lo. Criou o homem para um fim sobrenatural, única dimensão que sacia nossa sede de infinito.Mas, assim como existe o alimento para o corpo, também a alma possui o seu próprio alimento, que é o conhecimento. Por este motivo, é que Deus deu ao homem a inteligência que tem sede de conhecimento.Assim como o corpo pode receber alimentos bons e saudáveis ou ruins e prejudiciais à saúde, assim também a alma.

O bom alimento é o verdadeiro conhecimento, a verdade; o mau alimento é o erro, a mentira.O adversário oferece ao homem um falso conhecimento de Deus, sempre negando a onipotência, a onisciência e a onipresença do Criador.

A maioria as religiões possuem coisas construtivas e sementes da verdade, mas a Verdade é única, pois “várias verdades” até mesmo contraditórias não podem ser reflexo da Verdade única que é Deus. E esta Verdade se manifesta em sua criação, através da Ciência e da História, assim como São Paulo nos ensinou:

“Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis”(Rm 1,20).

 Mas onde está a verdade?

“Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim...” (João 14,5-6)


Também São Paulo nos dá uma pista:

 “A Igreja é a Coluna, e o Fundamento da Verdade” (1Tm 3,15).

Portanto a Verdade só poder ser encontrada em Cristo e na sua Igreja. E isto é muito propício, pois se Deus é o bem eterno que precisamos, e a Verdade é bom alimento para a alma, a Verdade tem que estar realmente nele na Igreja a qual Ele mesmo edificou (Mateus 16,18).Portanto, o bom conhecimento é o ensino da Igreja, a sua doutrina. Alguém poderia perguntar: “Em qual igreja podemos encontrar a verdade, já que vivemos e um mundo em que várias instituições religiosas se intitulam “Igrejas de Cristo”?


Nosso Senhor disse:

“Eu sou Deus e não mudo” (Mal 3,6). Nosso Senhor Jesus Cristo também afirmou: “Passarão os céus e a terra, mas minhas palavras não passarão.” (Lc 21,33).



Cristo fundou uma só Igreja, Uma, Santa, Católica e Apostólica.Colocou seu fundamento sobre Pedro (Mt 16,18), garantiu esta Igreja (Mt 16,19), e confiou a ela a sua Doutrina e prometeu a Sua assistência Divina (Mt 28,20).


Na Bíblia é o próprio Deus que se revela a nós através de sua Palavra. Por isso devemos “acolher a palavra de Deus, não como palavra humana, mas como mensagem de Deus, o que ela é em verdade” . Ela é “viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4, 12). Além disso “toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Timóteo 3, 16).


A bíblia serve para:


1)-Que as pessoas creiam em Jesus Cristo: João 20, 30 – 31

2)-Ajudar os cristãos a caminharem: Salmo 118(119); 105

3)-Para nossa instrução:1Coríntios 10, 11

4)-Para ajudar-nos a instruir, refutar, corrigir e educar na justiça:2Timóteo 3, 16


São Jerônimo (+ 420) dizia: “Desconhecer as Sagradas Escrituras é ignorar o próprio Jesus Cristo”. Santa Teresinha do Menino Jesus, falando do Evangelho, escreveu:

“Acima de tudo, o que me sustenta durante a oração é o evangelho. Nele encontro tudo o que necessita minha pobre alma. Nele continuamente descubro novas luzes e sentidos ocultos e misteriosos...” (Ms A 83v).


No entanto, não basta conhecer a Bíblia, é preciso coloca-la em prática de maneira fiel e criativa (Tiago 1, 22). A Bíblia precisa tornar-se fonte da nossa força, luz de nossa caminhada e objetivo de nosso trabalho.



QUAIS OS SENTIDOS INTERPRETATIVOS DA BÍBLIA?


§115 Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e analógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja.


§116 O sentido literal. É o sentido significado pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese que segue as regras da correta interpretação. "Omnes sensus fundantur super litteralem - Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) devem estar fundados no literal".


§117 O sentido espiritual. Graças à unidade do projeto de Deus, não somente o texto da Escritura, mas também as realidades e os acontecimentos de que ele fala, podem ser sinais.


O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos reconhecendo a significação deles em Cristo; assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo, e também do Batismo

O sentido moral. Os acontecimentos relatados na Escritura devem conduzir-nos a um justo agir. Eles foram escritos "para nossa instrução" (1Cor 10,11)

O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos em sua significação eterna, conduzindo-nos (em grego: "anagogé"; pronuncie "anagogué") à nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sinal da Jerusalém celeste.



§118 Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos:


“Littera gesta docei, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia.” (A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a moral, o que deves fazer; a anagogia, para onde deves caminhar).



§119 "É dever dos exegetas esforçar-se, dentro dessas diretrizes, por entender e expor com maior aprofundamento o sentido da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho como que preparatório, amadureça o julgamento da Igreja. Pois todas estas coisas que concernem à maneira de interpretar a Escritura estão sujeitas, em última instância, ao juízo da Igreja, que exerce o divino ministério e mandato do guardar e interpretar a Palavra de Deus"



“Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas.” (Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja católica" –Sto. Agostinho).


COMO A BÍBLIA DEVE SER LIDA?


A Bíblia é a Palavra Viva de Deus. Precisamos ter a consciência de que:

a)-“Toda Escritura é inspirada por Deus” (2Timoteo 3, 16).

b)-“Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal” (2Pedro 1, 20).

c)-Que “nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras” (2Pedro 3, 16b).


No Concílio Ecumênico Vaticano II lemos que:

“…para bem captar o sentido dos textos sagrados, deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levada em conta a Tradição viva da Igreja toda, e a analogia da fé” (Dei Verbum 12).


As escrituras prefiguram no A.T. e se cumpre o N.T:

1)-A messianidade de Jesus (sua salvação e seu reino).

2)-A revelação e o advento do Espírito Santo. (O mistério da Trindade).

3)-A maternidade e missão intercessora e corredentora de Maria.

4)-A Igreja.


Com isso vemos que não devemos ler a bíblia como se estivéssemos lendo um livro qualquer, mas sua leitura exige respeito, humildade e prudência.Por isso é muito importante buscarmos participar de Círculo bíblico, cursos de bíblia, etc, que facilmente podemos encontrar em nossas comunidades, paróquias e dioceses.


COMO REZAR COM A BÍBLIA? (LEITURA ORANTE)


A lectio divina é mais que uma simples leitura espiritual, ou oração com a Palavra de Deus, ela é itinerário espiritual no qual o fiel atento ao ensinamento procura aplicá-lo em sua vida por uma constante busca de conversão de seus costumes.Alguém perguntou a abba Antão: “que devo fazer para agradar a Deus?” Respondeu o ancião:


“Observa o que te ordeno: onde quer que vás, tem sempre a Deus diante dos olhos; o que quer que faças, tem o testemunho das Sagradas Escrituras, de qualquer lugar onde estiveres não te afastes facilmente”. Observa estas três coisas e serás salvo (Abba. 34. in: REGNAULT. 2000.42-43).




Contudo aqui surge outro problema: para se ter acesso às estas lições é necessário proceder-se uma leitura do texto, então como se deve entender leitura em toda a dimensão da lectio divina? Efetivamente a leitura é um instrumento, mas ela não se constitui a finalidade, ela é um primeiro passo que leva a atitude primordial uma meditatio, uma ruminatio, uma meditação e ruminação do texto sagrado, da lectio divina, da lição divina.


Nos primeiros séculos da fé cristã a visão de mundo se pautava, efetivamente, em uma compreensão de que Deus estava presente e permeava todos os espaços. Ele era um Deus conosco, próximo, existencial. Não havia a possibilidade de conhecê-lo, mas tinha-se a convicção de que Ele era o promotor de todos os eventos, Ele movia toda a criação, Dele descendiam todas as coisas.Sendo assim, a vida era um eterno celebrar a Deus e uma eterna criação, na qual Deus, a cada dia, refaz sua obra afim de que ela chegue à plenitude do ser. Por este motivo o homem procurava viver de forma tal que sua conduta agradava a Deus. Nos antigos fragmentos dos Padres do Deserto, que se chamam: apoftegmas, das perguntas que os discípulos faziam aos mestres a mais comum era: “O que devo fazer para agradar a Deus?”. A vida do cristão, nos primeiros séculos da era cristã, se resumia a isto buscar, com sua vida agradar a Deus.



No que a lectio contribuiria para tal?


A lectio é a lição doada por Deus para ser constantemente vivenciada, ruminada, transformada em vida. Por isso ela se constituía a prática primeira que proporcionava ao homem esta busca constante de conversão de vida, que paulatinamente vai proporcionando o resgate de sua semelhança com Deus. Contudo, esta forma de visão acabou sofrendo modificações essenciais ao longo dos séculos e aproximadamente no século XI e XII ganhou uma nova interpretação.


Aqui se deve ter em mente que as mudanças sociais,a saída do campo (feudo) para as cidades, a Igreja já estabelecida como instituição com poder espiritual e temporal (político),influenciaram muito na formação de uma nova visão de mundo. “Com a crescente prosperidade da Europa, o clero da Igreja encontrava mais tempo para investigar os interesses intelectuais.Sob essas novas circunstâncias, a Igreja começou a patrocinar uma tradição de erudição e educação de extraordinário fôlego, rigor e profundidade” (TARNAS. 2000. 197).


Percebe-se que o interesse desta época está no aprofundamento do conhecimento, a parte espiritual não é descartada de forma alguma, mas já não é a principal preocupação. As obras piedosas não estavam mais tão ligadas a uma vivencia profunda, mas a “assistência a alguns ofícios religiosos, a certas procissões, a prática de certas devoções”. Cabe aqui ressaltar que esta é a perspectiva predominante do que foi vivido pela Igreja, deve-se lembrar que em reação a esta circunstância ocorreram algumas reformas das ordens religiosas, e o nascimento de outras que buscavam viver de forma radical o Evangelho e a Regra. Cabe citar, a título de exemplo; a Ordem dos Cartuxos fundada em 1084; a Ordem Cisterciense, fundada em 1098; a Ordem dos Frades Menores, instituída por volta do ano de 1205; entre outras.


Nesta época, devido as grandes especulações intelectuais, a Sagrada Escritura era tomada, muitas vezes, como um livro de simples estudo, a revelação da lição aplicável à vida, já não era o centro. Ela era mais um livro do qual se retiravam questões para uma posterior discussão intelectualizada, do que um livro que trazia lições a serem meditadas, rezadas e vivenciadas. Nos mosteiros houve uma defesa contra tal prática, os monges buscaram demonstrar que a lectio era, e é, o centro da vida cristã. Em especial um abade cartuxo, Guigo II, em uma carta sobre a vida contemplativa, demonstra esta centralidade. Contudo cada vez mais a lectio divina ia perdendo campo, até que no século XVI ela cairá em desuso, e descamba para a necessidade de se especular sobre as coisas concretas e materiais da vida. É aqui que novas formas e métodos de mediação surgem todos procurando uma introspecção uma análise existencial pautada na psicologia, em métodos racionais, de descoberta de si, mas que não possuíam alguma relação com a Sagrada Escritura. Assim, no que diz respeito à lectio divina, pode-se afirmar, que foi esquecida por muitos anos na prática da Igreja. É certo que nos mosteiros ela continuava, mas isso era uma exceção.Somente no Concílio Vaticano II é que a Palavra de Deus volta do seu exílio, quando é retomada a proposta de uma “genuína doutrina sobre a Revelação divina e sua transmissão”.(DV 1).


Um subir da alma até Deus e um descer de Deus a te a alma. É nesse contexto que o escrito de Guigo deve ser inserido: os degraus das etapas da Lection, são meios de se chegar a Deus, mas não se constituem um caminho a ser seguido necessariamente e em ordem, não é método, mas direção espiritual, onde Deus e não o homem, é o artífice.Os quatro degraus, ou as quatro diretrizes são: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Cabe ressaltar que elas não se constituem diretrizes para um momento de oração, mas são etapas vivenciadas ao longo do crescimento espiritual da pessoa:



1)- A leitura e a meditação são as duas realidades primeiras para a lectio, pois é por meio da leitura, do contato com a Escritura, que uma pequena análise existencial começa a ser realizada, o impacto das Verdades divinas com a vida pessoal, gera um momento de questionamento, de perguntas que surgem sobre a vida.


2)- A partir disso pode ser que, dependendo da Vontade da pessoa, um momento de meditação, de ruminação, de perceber no que aquela Palavra nos incita a reconhecer e a mudar em nossas vidas. Essa realidade não é simplesmente teórica, mas leva e impulsiona a prática, uma meditação que permaneça em si mesma, em uma análise daquilo que Deus quer das pessoas, que não é aplicada à vida cotidiana, como busca de conversão, não se constitui enquanto tal. A meditação cristã sempre leva a uma mudança a uma ação, pois como diz São Paulo: “Cristo nos impulsiona” (2 Cor 5,14).


3)- Mas ainda não acaba toda a dimensão da lectio, o meu impulso de mudança, de busca de conversão não pode ser uma atitude meramente humana, o ser humano por si só não pode realizar isso, é necessário ter consciência da necessidade de Deus, como o salmista diz: “Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza (...), Senhor abri meus lábios, a fim de que minha boca anuncie vossos louvores” (Sl 50,12), pois se ele não criar, não renovar e não abrir; nada se pode fazer. Sendo essa a dimensão da oração, na qual vamos ao encontro de Deus e perto dele queremos estar.


4)- Nesta dimensão de vida: de um Deus, efetivamente, próximo, é que a contemplação é possível. Poder-se-ia perguntar: no que consiste a contemplação? A palavra vem do latim: contemplare, e significa estar sob o templo, sob a presença de Deus. É mais que um simples ver, é estar, permanecer com e em Deus. Sendo essa a beleza da lectio, ela é encarnada na vida, não é um momento, mas um contínuo ler, meditar, orar e contemplar.


Tudo o que foi visto, não é somente uma necessidade pessoal, mas comunitária da Igreja. Portanto, enquanto filhos de Deus e enquanto Igreja, precisamos de “um novo impulso de vida espiritual, [por meio da] (...) veneração da Palavra de Deus, que permanece para sempre”(DV 26).






O MÉTODO OFICIAL DA IGREJA DA LEITURA ORANTE DAS ESCRITURAS



Quatro passos simples para ler e meditar um texto bíblico atráves da Lectio Divina. Busque um lugar tranqüilo, onde você possa criar um ambiente calmo e recolhido, com silêncio ou música de fundo, como for melhor, assim feito siga:


1. Leitura: Nesse passo você deve ler, reler, confrontar passagens paralelas; interpretar símbolos, ver personagens; quem fala, como fala, a quem fala, quando fala, onde fala, como agem e reagem as personagens. Nesse passo você deve procurar perguntar e  responder: O que diz o texto? (Vale as notas introdutórias e as de rodapé das bíblias).


2. Meditação: Que valores profundos me evoca o texto? Que sinto ou experimento, como reajo ao ler este texto? Com que relaciono o texto? Existem duas fases, na meditação, a primeira de recolher, juntar, reservar sem preguiça; a segunda de ruminar, digerir tudo o que se recolhe; deixar que as palavras se liguem entre si; criar clima, atenção, aquecimento interior; preocupar-se para que nada te roube a Palavra.Discernir, confrontar e deixar que as palavras que recolheste, guardaste e observaste, se clarifiquem umas às outras. Feito isto, a Palavra faz o resto. Nesse passo você deve procurar perguntar e responder: Que me diz o Senhor neste texto?


3. Oração: Em silêncio, pela palavra, pelo canto, pelo gesto, que digo ao Senhor? Que palavras, canto, silêncio ou gesto me provoca a Palavra que acabei de ler e meditar? Para esse passo busco perguntar e responder: Que resposta dou ao meu Senhor que me fala neste texto?


4. Contemplação: Agora é o momento de observar os efeitos dessa palavra sobre você, sobre a sua vida. Responda aqui: Que sinto em mim? Que experiência me é dada viver agora?



CONCLUSÃO:


Você pode estar se perguntando: mas por onde devo começar a leitura? Que livro ler primeiro? Devo ler o Antigo ou o Novo Testamento? Bem, há muitos livros católicos com sugestões de leituras e estudos bíblicos ordenados e frutuosos,mas uma opção bem eficaz e tradicional é a Liturgia Diária, ela traz as leituras que em cada dia a Igreja medita na Liturgia Eucarística.Eis uma regra de ouro que aprendi: Ler a Bíblia todos os dias. “Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite” (Salmo 1, 2). Ler todos os dias sem exceção. Ler quando estiver com vontade, quando sentir falta, mas também principalmente, quando não estiver com vontade nenhuma. Assim como você alimenta o corpo todos os dias, deve também alimentar diariamente o seu espírito com a Palavra de Deus.Então, o que é que você está esperando? Inclua a leitura da Bíblia no seu dia-a-dia, reze com ela e descubra as maravilhas que Deus deseja lhe contar.



BIBLIOGRAFIA:



BÍBLIA DO PEREGRINO. Trad. Ivo Storniolo et al. São Paulo: Paulus, 2002.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes, 1993.

CHITTISTER, Joan. Sabedoria que brota do cotidiano: viver a regra de São Bento Hoje. Trad. I. F de A. Camargo. Juiz de Fora: Subiaco, 2004.

CLÉMENT, Olivier. Fontes: os místicos cristãos dos primeiros séculos, textos e comentários. Trad. Monjas beneditinas no Mosteiro de Nossa Senhora das Graças. Juiz de Fora: Mosteiro da Santa Cruz, 2003.

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA: DEI VERBUM. Disponível em: http://www.vatican.va. Acesso em: 12 jan. 2006.

FIORES, Stefano; GOFFI, Tullo. Dicionário de espiritualidade. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005.

LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. Trad: Maria Julia Goldwasser. São Paulo: Brasiliense, 1988.

REGNAULT, Lucien. À escuta dos pais do deserto hoje. Trad. Monjas beneditinas do Mosteiro de nossa senhora das graças. Juiz de Fora: Mosteiro da Santa Cruz. 2000.

TARNAS, Richard. Epopéia do pensamento ocidental: para compreender as idéias que moldaram nossa visão de mundo. Trad. Beatriz Sidou. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

VEILLEUX, Armand. Lectio Divina como escola de oração entre os Padres do Deserto. Rio Negro, [s.n.], 1995.



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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino) “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória...” (Salmo 115,1)

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