-Em primeiro lugar, poderíamos devolver a provocação com a mesma lógica:
Não poderíamos dizer que o ateu que levanta esse argumento o faz justamente porque está inserido em um contexto pós-modernista, secularizado e relativista, típico de certas academias e centros culturais contemporâneos?
Se o local de nascimento invalida a fé religiosa, então também deveria invalidar o ceticismo. Se nascer em um país cristão explicaria o cristianismo, nascer em um ambiente secular explicaria o ateísmo. Logo, o argumento não prova que a religião é falsa — apenas que crenças, de qualquer tipo, podem sofrer influência do meio. E isso é algo óbvio, não uma refutação.
-Em segundo lugar, ainda que se conceda que pais, amigos, líderes espirituais ou a cultura tenham influenciado alguém ao cristianismo, o que exatamente isso demonstra acerca da veracidade — plena ou mesmo parcial — dessa religião? Absolutamente nada. A origem de uma crença não determina seu valor de verdade. Uma pessoa pode aprender matemática com um professor ruim e ainda assim a equação continuar correta; pode descobrir uma lei científica por acaso e ela continuar verdadeira. O fato de alguém ter chegado à fé por influência externa não invalida o conteúdo da fé. No máximo, descreve o caminho psicológico ou social percorrido até ela.
-Em terceiro lugar, alguns biólogos naturalistas argumentam que nossas crenças religiosas seriam fruto de complexas reações químicas e biológicas no cérebro, resultado de processos evolutivos. Ainda que, por hipótese, isso fosse integralmente demonstrado, tal afirmação continuaria descrevendo apenas o “como” das crenças, jamais o “se” do objeto crido. Explicar os mecanismos cerebrais envolvidos na experiência religiosa não diz nada, em si, sobre a existência ou inexistência de Deus. Do mesmo modo, mapear as sinapses de um cientista enquanto ele formula uma teoria não invalida a verdade da teoria formulada. Reduzir a crença ao seu suporte biológico é confundir o instrumento com o conteúdo, o meio com a realidade que se pretende conhecer.
-Em quarto lugar, se aceitarmos a premissa de que todo argumento pode ser descartado com base em sua origem sociológica ou psicológica, então o próprio argumento relativista se autodestrói. Afinal, ele também possui uma origem: nasceu em determinado tempo histórico, em ambientes intelectuais específicos, sob influências filosóficas identificáveis. Se a origem invalida a crença, então o relativismo, o ceticismo e o ateísmo também estariam invalidados. Trata-se, portanto, de um raciocínio auto-refutável, que implode sobre si mesmo ao ser aplicado de forma coerente.
-Em quinto lugar, a própria realidade concreta desmente a simplificação proposta. Há muçulmanos, judeus, hindus e budistas nascidos e criados no Brasil; há cristãos que surgem e perseveram em contextos islâmicos, hindus ou budistas; há cristãos em países oficialmente ateus, como China ou Coreia do Norte, muitas vezes sob perseguição severa. Da mesma forma, existem ateus que se posicionam contra o aborto por razões filosóficas ou científic0-demográgicas, e religiosos que, apesar de crerem em Deus, defendem pautas morais liberais, inclusive a favor do aborto. Esses exemplos mostram que as convicções humanas não são marionetes automáticas do meio cultural. Há reflexão, ruptura, conversão, dissidência e escolha pessoal.
Os dados empíricos, portanto, caminham no sentido oposto ao da chamada falácia genética: a cultura influencia, mas não determina de forma absoluta. Se determinasse, não haveria conversões religiosas, mudanças de cosmovisão nem dissidentes ideológicos — e para decepção dos defensores dessa tese falaciosa, a história humana é repleta deles. Esses cinco pontos já bastam para impedir que tal argumento avance incólume, revestido de uma falsa aura de irrefutabilidade.
Para encerrar a questão, vale ainda um exemplo clássico no campo filosófico. O relativismo não é falso porque os relativistas nasceram em determinado lugar ou época; ele é falso porque é logicamente inconsistente. Basta aplicar seu próprio princípio a si mesmo: se não existe verdade absoluta, por que deveríamos aceitar o relativismo como uma verdade universalmente válida? Se tudo é relativo, então o próprio relativismo também seria relativo — e não poderia se impor como regra geral. Assim, não é a origem sociológica que o derruba, mas sua incoerência interna.
E é justamente isso que a falácia genética tenta evitar: o debate sobre a verdade em si, desviando a discussão para a mera procedência das crenças. Contudo, a pergunta decisiva permanece intocada por ela — não “de onde veio a fé?”, mas “ela é autência e verdadeira?”. É nesse terreno, o da razão, da metafísica, da história e da experiência humana concreta, que a discussão real deve acontecer.
Coloquemos, então, a questão de outro modo, de forma ainda mais direta e filosófica: "pode ser verdade que não exista nenhuma verdade? "
A pergunta parece simples, mas carrega implicações profundas, porque atinge o próprio fundamento de qualquer discurso humano. Diante dela, só há duas respostas possíveis.
-A primeira seria dizer: “Sim, é verdade que não existe nenhuma verdade”. Contudo, quem afirma isso assume — ainda que talvez de modo inconsciente — que ao menos uma verdade existe, a saber, a própria afirmação que acabou de fazer. Ou seja, para negar todas as verdades, ele precisa salvar uma: a de que “não há verdade”. Mas, ao fazer isso, destrói a própria tese, porque já não está negando tudo, apenas quase tudo.
-A segunda resposta seria: “Não, não pode ser verdade que não exista a verdade”. Nesse caso, usa-se melhor a razão e chega-se a uma conclusão logicamente mais consistente. Afinal, se não pudéssemos confiar minimamente na verdade, nenhuma atividade humana seria possível. Não conseguiríamos erguer uma parede sequer de uma casa, quanto mais um edifício inteiro. A engenharia, a medicina, o direito, a ciência — tudo pressupõe que algo pode ser conhecido com verdade objetiva.
De modo que, por um caminho ou por outro, a conclusão é sempre a mesma: não pode existir um “relativismo absoluto”. A verdade está inevitavelmente presente no nosso pensamento e no nosso discurso. A consequência disso é que, por mais paradoxal que pareça, o relativismo só pode ser relativo, isto é, apenas parcial. Sempre será necessário admitir que alguma verdade existe e que algo pode ser conhecido.
Pode-se até aceitar um certo relativismo no campo das opiniões — entendidas como afirmações pouco fundamentadas, nas quais se reconhece a possibilidade de erro. Quando alguém opina, admite implicitamente que a posição contrária pode ser verdadeira. Mas nem tudo na comunicação humana é mera opinião. Há afirmações que pretendem descrever a realidade de modo objetivo.
Já na filosofia clássica, Aristóteles observava que a verdade é uma realidade primeira do pensamento humano. Por isso, quem nega a verdade, de algum modo a afirma. Negar que ela exista pressupõe saber o que ela é e considerar verdadeira a sua não existência — o que constitui uma contradição em termos. É uma negação que se autodestrói no próprio ato de ser formulada.
Alguém poderia tentar escapar assumindo a posição cética radical: não afirmar nem negar a verdade. Contudo, essa postura traz consequências igualmente problemáticas. Suspender todo juízo dissolve a linguagem, o conhecimento e o próprio diálogo racional.
Um ser que nada afirma e nada nega torna-se incapaz de discussão, de aprendizagem e de vida intelectual — reduzindo-se, metaforicamente, a uma existência vegetativa, como a de uma planta, com a qual não faz sentido argumentar.
Por isso, o relativismo só pode aplicar-se a algumas afirmações, nunca a todas. A verdade não pode ser excluída da vida nem da linguagem humana sem que todo o edifício do pensamento desmorone. Mesmo pensadores que criticaram duramente a verdade objetiva dependeram dela para formular suas críticas. Quando Friedrich Nietzsche afirmou que a verdade seria “um exército de metáforas”, uma “ilusão”, uma moeda sem valor, ele só pôde fazê-lo porque sabia perfeitamente o que é uma metáfora, o que é uma ilusão, o que é valor e o que é ausência de valor. Seu juízo crítico pressupunha critérios de verdade que ele próprio utilizava.
Negar uma verdade implica sempre aceitar outra que sirva de parâmetro para a negação. Assim, ao dizer “tudo é relativo”, a pessoa transforma essa frase em uma verdade absoluta.
Mas se é absoluta, nega o relativismo; se é relativa, então pode ser falsa — e o relativismo deixa de se sustentar. Eis o dilema lógico insolúvel do relativismo absoluto. Surge então uma pergunta inevitável: se a fé fosse baseada apenas na experiência pessoal subjetiva, sem qualquer apoio da razão, teria ela se expandido, estruturado civilizações e permanecido viva ao longo de milênios? A própria história sugere que não.
Basta percorrer o caminho histórico do encontro — por vezes tenso, por vezes fecundo — entre fé e razão
No episódio do Areópago de Atenas, narrado em Atos 17,18, vê-se o apóstolo Paulo dialogando com filósofos epicuristas e estóicos. Seu discurso não se limitou a citar Moisés e os profetas; ele recorreu também a categorias filosóficas conhecidas de seus ouvintes, a noções de lei natural e à voz da consciência moral presente em todo ser humano. Isso mostra que, desde o início, o cristianismo buscou inteligibilidade racional para comunicar sua mensagem.
Esse encontro, contudo, não foi simples nem imediato. Os primeiros cristãos olhavam com cautela certos elementos do mundo cultural pagão, como a gnose, que prometia um conhecimento esotérico reservado a poucos “iluminados”. A filosofia, enquanto escola de vida e busca de sabedoria prática, podia ser útil; mas também podia confundir-se com sistemas fechados incompatíveis com a fé. Por isso, a aproximação foi gradual e discernida.
Para as primeiras comunidades cristãs, a missão mais urgente era o anúncio de Cristo ressuscitado e o chamado à conversão pessoal, culminando no Batismo. Isso não significava desprezo pela razão, mas prioridade pastoral. A fé era anunciada antes de ser sistematizada filosoficamente. Ainda assim, havia consciência da necessidade de aprofundar racionalmente aquilo que se cria.
Daí ser injusta a acusação do filósofo pagão Celso, que chamava os cristãos de “iletrados e rudes”. O aparente desinteresse inicial pela filosofia explicava-se porque o Evangelho oferecia respostas existenciais que muitos sistemas filosóficos não haviam conseguido dar. Para inúmeros convertidos, a mensagem cristã não era anti-intelectual — era a solução que buscavam.
Um exemplo emblemático é Agostinho, um dos maiores pensadores da tradição ocidental. Antes de sua conversão, percorreu diversas escolas filosóficas, mas nenhuma saciou plenamente sua busca pela verdade. Quando encontrou a fé cristã, realizou a conversão radical que as filosofias anteriores não haviam conseguido produzir. Ainda assim, longe de abandonar a razão, passou a utilizá-la intensamente para aprofundar a compreensão da fé.
Com o passar dos séculos, especialmente a partir da Baixa Idade Média, a distinção legítima entre fé e razão começou, em certos ambientes, a transformar-se em separação. Alguns pensadores adotaram um racionalismo tão radical que pretenderam construir uma filosofia totalmente autônoma em relação à fé. Entre as consequências dessa ruptura esteve o crescimento de uma desconfiança generalizada contra a própria razão: surgiram posturas céticas e agnósticas, ora para “proteger” a fé do exame racional, ora para desacreditar qualquer fundamento racional da própria fé.
No entanto, a história do pensamento mostra que fé e razão, quando corretamente compreendidas, não são inimigas, mas dimensões complementares da busca humana pela verdade.
E essa busca — inevitável, inescapável — é justamente aquilo que desmente tanto o relativismo absoluto quanto a falácia que tenta reduzir toda crença à sua origem cultural. Afinal, o ser humano não apenas recebe ideias: ele as examina, questiona, abandona ou abraça conscientemente. E é nesse exercício — simultaneamente racional e existencial — que a questão da verdade continua a se impor, incontornável.
Postar um comentário
Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.