A Escolástica ou Escolasticismo (do latim scholasticus, derivado do grego scholastikós, que significa "aquele que pertence à escola" ou "instruído") foi o principal método intelectual que dominou o ensino nas universidades europeias entre aproximadamente os séculos XI e XV. Mais do que uma simples corrente filosófica ou teológica, a Escolástica foi sobretudo um método rigoroso de investigação intelectual, caracterizado pelo uso da razão, da lógica e da argumentação sistemática para aprofundar e esclarecer as verdades da fé cristã.
Seu surgimento está ligado às escolas monásticas e catedrais da Idade Média, onde se buscava não apenas transmitir o conhecimento, mas também formar uma visão de mundo coerente na qual fé e razão não fossem vistas como opostas, mas como complementares.
Nesse sentido, a Escolástica representou uma das maiores tentativas da história do pensamento humano de mostrar que a verdade revelada por Deus não contradiz a verdade alcançada pela razão, pois ambas têm a mesma origem divina. O método escolástico caracterizava-se pelo uso da dialética, ou seja, pela análise de argumentos contrários, pela formulação de objeções e pela construção de respostas racionais bem fundamentadas.
Esse método pode ser claramente observado na grande obra de São Tomás de Aquino, a Summa Theologica, considerada o maior exemplo do pensamento escolástico, onde cada questão é analisada por meio de objeções, respostas e sínteses finais.
A Escolástica também se desenvolveu dentro do sistema educacional medieval baseado nas sete artes liberais, divididas entre o Trivium (gramática, retórica e dialética) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), que formavam a base intelectual necessária para os estudos superiores em filosofia e teologia. No fundo, o grande problema que atravessa todo o pensamento escolástico pode ser resumido em uma pergunta fundamental: Como harmonizar a fé cristã com a razão humana? Essa questão foi respondida de diferentes maneiras por grandes pensadores cristãos.
Santo Agostinho, por exemplo, enfatizou a primazia da fé, entendendo que a razão humana, ferida pelo pecado, precisava da luz da fé para alcançar a verdade.
Já São Tomás de Aquino, influenciado pela filosofia de Aristóteles, destacou que a razão possui certa autonomia e pode alcançar verdades naturais, embora as verdades sobrenaturais dependam da Revelação.
Assim, a Escolástica não foi apenas um período histórico, mas um verdadeiro modelo de pensamento, marcado pelo rigor intelectual, pela busca da verdade objetiva e pela convicção de que a razão humana, quando bem utilizada, pode servir como instrumento para melhor compreender a fé.
I - O pensamento
escolástico:
A escolástica surgiu
da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja,
considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a
Cristandade.
Por assim dizer,
responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé. Essa linha de pensamento vai do começo do século IX até ao
fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média. Esse pensamento cristão deve o seu nome às artes ensinadas na alta cultura
pelos académicos (escolásticos) nas escolas medievais.
Essas artes podiam ser
divididas em:
1)- Trivium (gramática,
retórica e dialética).
2)- Quadrivium
(aritmética, geometria, astronomia e música).
A escolástica resulta essencialmente do aprofundar da filosofia!
A filosofia, que até então
possuía traços marcadamente clássicos e helenísticos, sofreu influências da
cultura judaica e da cristã a partir do século V, quando pensadores cristãos
perceberam a necessidade de aprofundar uma fé que estava amadurecendo, em uma
tentativa de harmonizá-la com as exigências do pensamento filosófico.
Alguns temas que
antes não faziam parte do universo do pensamento grego, tais como Providência, Revelação Divina e Criação a partir do nada, passaram a fazer parte de
temáticas filosóficas. A escolástica possui uma
constante de natureza neoplatônica, que conciliava elementos da filosofia de
Platão com valores de ordem espiritual, reinterpretadas pelo Ocidente cristão.
E mesmo quando Tomás de Aquino introduz elementos da filosofia de Aristóteles
no pensamento escolástico, essa constante neoplatônica ainda é presente.
Basicamente,
a questão-chave que vai atravessar todo o pensamento escolástico é a harmonização
de duas esferas: a fé e a razão!
- O pensamento de
Agostinho, mais conservador, defende uma subordinação maior da razão em relação
à fé, por crer que esta venha restaurar a condição decaída da razão humana.
- Enquanto que a linha de
Tomás de Aquino defende uma certa autonomia da razão na obtenção de respostas,
por força da inovação do aristotelismo, apesar de em nenhum momento negar tal
subordinação da razão à fé.
- Para a escolástica,
algumas fontes eram fundamentais no aprofundamento de sua reflexão, por exemplo
os filósofos antigos, a Bíblia e os Padres da Igreja, autores dos primeiros
séculos cristãos que tinham sobre si a autoridade de fé e de santidade.
II -
Principais representantes do pensamento escolástico?
Os
maiores representantes do pensamento escolástico são os dois pensadores já citados
acima, que estão separados pelo tempo e pelo espaço:
1)-Agostinho
de Hipona, nascido no norte da África no fim do século IV.
2)- Tomás de Aquino,
nascido na Itália do século XIII.
Embora seja arriscado
dizer que sejam as únicas referências relevantes do período medieval, ambos
conseguiram sintetizar questões discutidas através de todo o período. Agostinho enquanto mestre de
opinião relevante e autoridade moral, defendia a busca de explicações racionais
que justificassem a fé, e Tomás de Aquino pelo uso de caminhos mais eficazes na
obtenção de respostas até então, consideradas em aberto.
Outros nomes da "Escolástica
Clássica" são:
1)-Anselmo de Cantuária
2)-Alberto Magno.
3)-Robert Grosseteste
4)-Roger Bacon
5)-Boaventura de Bagnoreggio
6)-Pedro Abelardo
7)-Bernardo de Claraval
8)-João Escoto Erígena (Irlanda, 810 — Paris, 877)
9)-John Duns Scot (Berwickshire, 1266 - Colônia, 8 de novembro de 1308)
10)-Jean
Buridan
11)-Nicole Oresme.
A neoescolástica é a
revitalização e o desenvolvimento da filosofia escolástica da Idade Média que
ocorreram a partir da segunda metade do século XIX. Não é só a ressurreição de uma
filosofia há muito tempo extinta, mas sim uma regeneração da "philosophia
perennis ou metafísica", que surgiu na Grécia Antiga e que nunca deixou de
existir. Às vezes, tem sido
chamada de "o tomismo neoescolástico", em parte porque foi Tomás de
Aquino que deu forma final à escolástica no século XIII, em parte por causa da
ideia de que só o tomismo poderia infundir vitalidade na escolástica do século
XX.
Na primeira metade do século XX, importantes "escolas neotomistas" foram criadas, entre as quais estão as de:
1)- Leuven (Bélgica)
2)- Laval (Canadá)
3)- Washington
(EUA).
Também é comum usar o termo "neoescolástica" para qualificar a escola do século XVI,
em Salamanca (Francisco de Vitória, Domingo de Soto, Luis de Molina, Francisco
Suárez, etc.), uma corrente de
pensamento de grande influência na história da teologia, filosofia, direito e
economia e crucial para a compreensão da cultura espanhola posterior.
ATENÇÃO!
É necessário distinguir os sentidos das Correntes do termo "neo-escolasticismo":
A tentativa de
reviver a tradição da escolástica medieval e seus conceitos fundamentais e, por
outro lado, uma escola de pensamento ligada à Igreja Católica que se propunha a
realização de uma nova síntese de fé cristã e de racionalidade moderna. A esse
respeito, o Papa Leão XIII, em sua encíclica Aeterni Patris (1879), afirmou que
a doutrina tomista, desenvolvida por Tomás de Aquino, deve ser a base de toda a
filosofia que é considerada cristã.
Com ela, o Papa deu o
apoio incondicional da Igreja Católica para o tomismo, promovendo o
aparecimento de neoescolástica. Essa encíclica foi parte do movimento realizado
pelo Vaticano que abordou os problemas de seu tempo em muitas áreas.
Foi colocada, então, a
necessidade de construir uma nova filosofia cristã, pretendendo-se retornar à
velha filosofia escolástica. Assim, a neoescolástica tentou resgatar o valor da
objetividade contra o relativismo, destacando o valor do realismo contra o
idealismo e promover o valor do personalismo.
1)-A Corrente Tradicional:
Os representantes desse movimento não pretenderam enriquecer a doutrina tomista, mas mostrar aquilo
que é eternamente durável em metafísica. Assim, adotaram uma atitude defensiva e desafiante contra os
"erros" da modernidade, contra a qual o tomismo ergueu um infalível
bastião.
A maioria das obras desse fluxo são
escritas em latim, como é o caso de:
1- Tommaso Maria
Zigliara (1833-1893), autor italiano de Summa philosophica, em 3 volumes. O
Papa Leão XIII nomeou-o cardeal e presidente da Academy of St. Thomas.
2- Albert Farges,
autor de Estudos filosóficos, em 9 volumes e um curso de filosofia, adotado
como livro-texto para muitos seminários.
3- Reginald
Garrigou-Lagrange (1877-1964), autor de Uma síntese tomista e Deus.
4- O cardeal Louis
Billot, cujo retorno ao St. Thomas manifestou a sua independência em face de
Francisco Suárez (que tem grande influência sobre a neoescolástica alemã).
2)-A Corrente Progressista:
Essa corrente não se
contenta em restaurar as antigas doutrinas tomistas, mas tenta incorporar todo
o lado bom do pensamento moderno. Visa a enriquecer o
tomismo, mostrando-se severa contra os "erros" do pensamento moderno.
A figura central dessa corrente é o cardeal Désiré Félicien-François-Joseph
Mercier. Muitas escolas afirmam pertencer a essa tendência progressiva.
A escola histórica do tomismo foi aplicada ao estudo da filosofia
medieval e contribuiu para redescobri-la usando os métodos de crítica moderna:
1- Na Bélgica:
Maurice De Wulf.
2- Na Alemanha:
Martin Grabmann.
3- Na França: Pierre
Mandonnet, fundador da Bibliothèque thomiste, Étienne Gilson e Marie-Dominique
Chenu.
4- Em Espanha: Miguel
Asin Palacios, autor de Estudos comparativos de espiritualidades cristãs e
muçulmanas.
Escolas e autores da Escolástica
Progressista:
A escola tem como
objetivo enriquecer e renovar o tomismo progressiva. O pensamento escolástico
se expandiu em todas as áreas, da política à metafísica, da epistemologia à
moral. O principal representante
francês dessa tendência, assim como Antonin Sertillanges, é Jacques Maritain!
-Também, se destaca o
cardeal Joseph Désiré-Félicien-François Mercier, fundador do Instituto Superior
de Filosofia da Universidade Católica de Leuven, onde ensinou Joseph Maréchal.
-Finalmente, a
neoescolástica italiana da Escola de Milão, fundada por Agostino Gemelli,
fundador da Revue de filosofia escolástica.
-Enfrentaram o
positivismo científico e o idealismo hegeliano de Benedetto Croce e Giovanni
Gentile.
-Atualmente, o trabalho dessa escola é centrado em torno das ligações
entre tomismo e as tendências atuais, como a fenomenologia, particularmente a
obra de Emmanuel Falque.
A escola crítica
tende a enfatizar os pontos fracos do tomismo e considera algumas das 24 teses
como meramente prováveis. Por exemplo, Peter
Descoqs criticou o hilemorfismo e discutiu a distinção entre essência e
existência.
Elementos tradicionais da neoescolástica:
-A neoescolástica procura restaurar as doutrinas orgânicas
fundamentais consagradas na escolástica do século XIII.
-Ela argumenta que a filosofia não varia de acordo com cada fase da
história e que, se os grandes pensadores medievais (Tomás de Aquino, Boaventura
e John Duns Scotus Fidanza) conseguiram construir um sistema filosófico sólido
sobre as informações fornecidas pelos gregos, especialmente Aristóteles,
deve ser possível elevar o espírito da verdade que contém a especulação da
Idade Média.
1)- Émile Boutroux
pensou que o sistema aristotélico poderia servir como uma compensação ao
kantismo.
2)- Paulsen e Rudolf
Christoph Friedrich declararam a neoescolástica como o rival do kantismo e
afirmaram o conflito entre eles como o "choque de dois mundos".
3)- Adolf von
Harnack, Seeberg e outros, argumentaram contra subestimar o valor da doutrina
escolástica.
4)- No final do
século XIX, a neoescolástica ganhou terreno entre os católicos contra outros
pontos de vista, como o tradicionalismo, o ontologismo, o dualismo de Anton
Günther e o pensamento cartesiano. Foi aprovada em quatro congressos católicos:
Paris (1891), Bruxelas (1895), Freiburg (1897) e Munique (1900).
-Steven P. Marone, "Medieval philosophy in
context" in A. S. McGrade, ed., The Cambridge Companion to Medieval
Philosophy (Cambridge: Cambridge University Press, 2003); Jean Leclerq, The
Love of Learning and the Desire for God (New York: Fordham University Press,
1970) esp. 89; 238ff.
-SPINELLI, Miguel.
Herança Grega dos Filósofos Medievais São Paulo: Hucitec, 2013.
-Escolástica e Idade
Média. UOL, página acessada em 30 de abril de 2013.
-Síntese da
escolástica. Consciência.org, página acessada em 30 de abril de 2013.
-Filosofia medieval.
Sua Pesquisa, página acessada em 30 de abril de 2013.
Fonte: Wikipedia
Conclusão
Tanto a Escolástica medieval quanto a Neoescolástica moderna representam momentos fundamentais do esforço intelectual da Igreja Católica para preservar a verdade filosófica e teológica diante dos desafios de cada época histórica.
A Escolástica, no período medieval, teve como missão principal
organizar racionalmente o saber cristão, construindo um sistema filosófico
sólido capaz de explicar a realidade, Deus, o homem e a moral de forma
coerente.
Seu grande mérito foi demonstrar que a fé não é irracional, mas profundamente razoável, e que a razão humana encontra sua plenitude quando orientada pela verdade divina.
Entretanto, a partir do final da Idade Média, especialmente entre
os séculos XIV e XVI, começou uma crise do pensamento escolástico. Essa crise
não ocorreu necessariamente porque o sistema escolástico tivesse sido refutado,
mas em grande parte porque foi progressivamente abandonado em favor de novas
correntes filosóficas que colocavam o sujeito humano no centro do conhecimento,
como o nominalismo, o racionalismo e posteriormente o empirismo.
O surgimento do pensamento moderno, com autores como Descartes, Kant e outros, contribuiu para uma ruptura com a metafísica clássica, substituindo a busca do ser pela análise da consciência e do conhecimento subjetivo.
Com isso, a filosofia deixou de perguntar primeiramente "o
que é a realidade?" para perguntar "como o homem conhece?",
iniciando assim uma mudança radical de perspectiva.
Esse "abandono da metafísica realista escolástica" contribuiu para o
surgimento de várias crises intelectuais modernas, entre elas:
-o relativismo filosófico
-o subjetivismo moral
-o materialismo
-o cientificismo
-a negação das verdades objetivas
Nesse contexto, a Neoescolástica surgiu no século XIX como uma
tentativa de restaurar os fundamentos seguros do pensamento clássico cristão.
Inspirada especialmente pela encíclica Aeterni Patris do Papa Leão XIII, essa
renovação procurou reafirmar a importância do realismo filosófico, da
metafísica e da confiança na capacidade da razão humana de conhecer a verdade
objetiva.
Enquanto a Escolástica procurava responder aos desafios intelectuais do mundo medieval, a Neoescolástica procurou responder à desordem intelectual do mundo moderno, tentando restaurar o equilíbrio perdido entre fé e razão. Podemos dizer que:
-A Escolástica construiu o grande sistema intelectual cristão
-Seu abandono contribuiu para a crise filosófica moderna
-A Neoescolástica procurou restaurar esses fundamentos
Outra diferença importante é que a Escolástica nasceu em um
contexto de unidade cultural cristã, enquanto a Neoescolástica surgiu em um
contexto de fragmentação intelectual e secularização crescente.
Por isso, a Neoescolástica teve muitas vezes um caráter de reconstrução intelectual, procurando mostrar que os princípios da filosofia perene permanecem válidos independentemente das modas intelectuais.
No fundo, ambas partem da mesma convicção fundamental:A verdade é
objetiva, a razão humana é capaz de conhecê-la e a fé não destrói a razão, mas
a aperfeiçoa.
O abandono progressivo do método escolástico também trouxe consequências dentro da própria teologia, onde em muitos ambientes a precisão conceitual foi substituída por abordagens mais subjetivas ou pastorais, gerando por vezes confusões doutrinárias. Por isso muitos autores defendem que a perda do rigor escolástico contribuiu para crises teológicas contemporâneas.
Por essa razão, o retorno aos princípios da Escolástica não
significa voltar ao passado de forma arqueológica, mas recuperar um método
seguro de pensar, baseado em:
-amor à verdade
-rigor lógico
-realismo filosófico
-clareza conceitual
-harmonia entre fé e razão
Em um mundo marcado pelo relativismo e pela crise da verdade, o método escolástico continua sendo um exemplo de disciplina intelectual e busca honesta da realidade.
A Neoescolástica demonstra
precisamente isso: que essa tradição não morreu, mas continua sendo um
instrumento necessário para restaurar a clareza filosófica e teológica.
Assim, mais do que um sistema medieval, a Escolástica e a Neoescolástica representam uma tradição permanente do pensamento cristão, cuja missão continua atual: defender a inteligibilidade da realidade, a objetividade da verdade e a coerência entre fé e razão.
Podemos concluir que a crise do mundo moderno não nasceu do
excesso de Escolástica, mas precisamente de seu abandono.
E por isso muitos pensadores afirmam que uma verdadeira renovação intelectual e moral da civilização cristã passa necessariamente por uma redescoberta dos "princípios perenes da filosofia escolástica".
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