por*Francisco
José Barros de Araújo
Você sabe realmente diferenciar o sagrado, o profano e o mundano? Ou será que, para você, tudo aquilo que não é sagrado automaticamente se torna mundano?
Na realidade, a vida não se divide de forma tão simples entre o sagrado e o mundano. Existe também o profano, uma categoria muitas vezes esquecida, mas essencial para compreender corretamente essas distinções.
O sagrado é tudo aquilo que está diretamente relacionado a Deus ou que foi separado para o seu serviço, tornando-se digno de respeito, veneração e, no caso de Deus, adoração. São considerados sagrados não apenas a própria divindade, mas também as pessoas, os lugares e os objetos ligados ao culto divino, como os anjos, os santos, sacerdotes, pastores e todos aqueles consagrados ao serviço de Deus e do seu povo.
Também entram nessa categoria os elementos litúrgicos, como o pão e o vinho oferecidos nos ritos cristãos, objetos como o altar, o cálice, as vestes sagradas e as Escrituras, além de lugares destinados ao culto, como igrejas, templos e cidades consideradas santas, como Jerusalém, Meca e Medina. Em diversas religiões também são considerados sagrados certos elementos da natureza, como árvores, rios, montanhas, o sol, a lua, o fogo, a água e até alguns animais.
O sagrado normalmente está ligado à ideia de santidade, não necessariamente no sentido de perfeição moral, mas no sentido original da palavra: aquilo que foi separado ou reservado para Deus. Ou seja, algo se torna sagrado porque pertence de modo especial ao serviço do divino. Um exemplo claro disso é o povo de Israel no Antigo Testamento, considerado um povo sagrado não por ser perfeito, mas por ter sido escolhido por Deus mediante a aliança com Abraão. Conforme a Torá relata, essa eleição significava pertencer a Deus de modo particular, o que exigia fidelidade e adoração ao Deus único, e não uma perfeição absoluta.
Mas se o sagrado é aquilo que foi separado para Deus, então surge uma pergunta importante: onde entram todas as outras realidades da vida cotidiana? É exatamente aqui que precisamos entender corretamente o que são o profano e o mundano?
O PROFANO que não é sagrado, mas também, não é mundano
1. O que é o profano?
A palavra profano muitas vezes é mal compreendida, principalmente porque no uso popular ela acabou sendo associada a algo pecaminoso, imoral ou contrário a Deus. Porém, o seu verdadeiro significado é muito mais simples e neutro. A palavra vem do latim profanus, formada por pro (fora) e fanum (templo ou lugar sagrado). Portanto, profano significa literalmente aquilo que está fora do templo, ou seja, aquilo que não pertence diretamente ao culto religioso ou não foi consagrado a Deus.
Nesse sentido, o profano não é sinônimo de pecado. A maior parte da vida humana acontece no âmbito do profano: o trabalho, os estudos, a política, a cultura, o comércio, o lazer e a vida familiar. Tudo isso pertence à esfera profana simplesmente porque não faz parte diretamente do culto. No entanto, isso não significa algo negativo, pois essas realidades podem e devem ser santificadas pela forma como são vividas. Um cristão é chamado justamente a transformar o mundo profano com o testemunho de sua fé.
-A partir dessa compreensão, também fica mais fácil entender o que significa a profanação. A profanação acontece quando algo que era sagrado perde essa condição ou é tratado de forma incompatível com sua dignidade religiosa. Isso pode acontecer de forma criminosa, como nas profanações clandestinas, quando há arrombamentos de igrejas, roubos de objetos litúrgicos, destruição de imagens ou outros atos de vandalismo contra locais e coisas consagradas. Nesses casos existe uma violação real do sagrado, muitas vezes acompanhada de desprezo religioso ou interesse material.
-Por outro lado, existe também a chamada profanação no sentido canônico e jurídico, que não envolve desrespeito, mas uma decisão legítima da própria Igreja. Isso acontece quando um templo deixa de ser utilizado para o culto, geralmente por falta de fiéis, mudanças populacionais ou impossibilidade de manutenção. Nesses casos, a autoridade eclesiástica pode retirar oficialmente o caráter sagrado do edifício (*ritual de dessacralização), permitindo que ele tenha um uso profano, desde que não seja indigno. Assim, um antigo templo pode se tornar residência, restaurante, centro cultural, museu ou até repartição pública, sem que isso constitua um pecado, pois antes houve a devida dessacralização autorizada pela Igreja.
*A Igreja possui um procedimento oficial previsto no Direito Canônico para esses casos e não se trata simplesmente de abandonar uma igreja, mas de um ato jurídico chamado redução ao uso profano não indigno (relegatio ad usum profanum non sordidum). O próprio Código de Direito Canônico (CDC), no cânon 1222 §2, estabelece que quando uma igreja não pode mais ser utilizada para o culto divino e não há possibilidade de restaurá-la ou mantê-la, o bispo diocesano pode destiná-la a um uso profano que não seja indigno, desde que ouça o conselho presbiteral e que o bem espiritual dos fiéis seja preservado. Isso mostra que não se trata de uma decisão arbitrária, mas de um processo responsável que leva em conta a realidade pastoral e o respeito ao que antes foi sagrado. Antes que essa mudança aconteça, são tomadas algumas medidas importantes: o Santíssimo Sacramento é retirado do sacrário e transferido para outra igreja, as relíquias são recolhidas, os objetos litúrgicos são destinados a outros templos e o altar, que foi consagrado, normalmente deixa de ser utilizado para o culto, podendo até ser removido conforme as normas litúrgicas. Em alguns lugares também é celebrada uma última missa ou um ato de despedida, não como uma obrigação universal prevista em forma ritual fixa, mas como um gesto pastoral para marcar o encerramento da função sagrada daquele espaço. É importante entender que, do ponto de vista da Igreja, não existe uma “dessacralização mágica”, mas um ato jurídico e espiritual que reconhece que aquele lugar não será mais destinado ao culto. A partir desse momento ele já não é considerado um templo, podendo ter um uso comum, desde que não seja ofensivo à fé ou à moral cristã. Por isso o CDC fala explicitamente em uso profano não indigno, ou seja, usos compatíveis com a dignidade do que aquele lugar já foi. Assim, pode se tornar um museu, biblioteca, residência ou centro cultural, mas nunca um espaço destinado a atividades moralmente contrárias à fé. Essa distinção também ajuda a entender a diferença entre uma profanação criminosa e uma mudança legítima de destinação. Quando há invasão, vandalismo ou roubo, ocorre uma verdadeira profanação no sentido moral. Já quando esse processo acontece com autorização do bispo conforme o cânon 1222 do Código de Direito Canônico, não há sacrilégio nem desrespeito, mas apenas o reconhecimento de que aquele espaço, por necessidade pastoral, deixou de ser um lugar de culto e passou legitimamente à condição de uso profano.
Mais grave que a profanação é o sacrilégio, que não deve ser confundido simplesmente com o que é profano. O sacrilégio é uma ofensa direta e consciente contra o que é sagrado. Trata-se de um pecado que consiste em tratar indignamente pessoas, lugares ou objetos consagrados a Deus. O exemplo mais grave na fé católica é a profanação da Eucaristia, mas também entram nessa categoria o uso indigno dos sacramentos, a destruição deliberada de objetos sagrados ou atos feitos com intenção explícita de desprezar a fé.
Por isso, é importante entender bem essas distinções: o profano não é o oposto do sagrado no sentido moral, mas apenas aquilo que não foi consagrado; a profanação pode ser tanto um crime quanto um ato jurídico legítimo dependendo da situação; e o sacrilégio é uma ofensa moral grave contra o sagrado. Quando essas diferenças não são compreendidas, muitos acabam chamando de profano aquilo que apenas faz parte da vida comum, enquanto outros deixam de reconhecer a gravidade de verdadeiras ofensas ao sagrado.
Compreender essas distinções ajuda também a amadurecer a fé, pois permite entender que o cristão não vive fugindo do mundo profano, mas vivendo nele como fermento, sabendo distinguir o que deve ser consagrado, o que pertence à vida comum e aquilo que jamais deve ser tratado sem reverência: o que foi dedicado a Deus.
(foto reprodução)
Nesse sentido, o profano não é algo mau em si mesmo. Trata-se simplesmente da esfera normal da vida humana: o trabalho, o estudo, o lazer, a política, a cultura, a ciência, o comércio, a convivência social e todas as demais atividades honestas que fazem parte da existência humana. Tudo isso é profano não porque seja pecaminoso, mas porque não é diretamente parte do culto religioso.
Assim como uma igreja é um espaço sagrado, uma escola ou uma prefeitura são espaços profanos, mas isso não significa que sejam lugares ruins, apenas que pertencem à ordem da vida civil e não à ordem litúrgica.
O cristianismo nunca ensinou que o mundo material ou a vida cotidiana sejam maus em si mesmos. Pelo contrário, a própria Bíblia afirma que Deus viu tudo o que criou e considerou bom. O próprio Jesus viveu trinta anos em uma vida comum, trabalhando, convivendo em sociedade e participando da vida do seu povo. Ele também participou de festas, como nas Bodas de Caná, mostrando que a vida social não é pecaminosa em si mesma. O problema nunca está nas realidades profanas, mas no uso moral que o ser humano faz delas.
O erro de algumas visões religiosas mais rigoristas foi criar uma falsa divisão onde tudo seria apenas sagrado ou mundano, esquecendo que existe essa terceira realidade: o profano, que é simplesmente neutro do ponto de vista religioso. Nem tudo precisa ser sagrado para ser bom, e nem tudo que não é religioso é automaticamente pecado. O cristão não é chamado a fugir da vida comum, mas a viver essa vida com retidão moral, transformando até as realidades profanas em ocasião de crescimento humano e espiritual.
Também é importante entender que algo profano só se torna negativo quando passa a promover o pecado ou afastar a pessoa de Deus. Por exemplo, a música, a arte e as festas podem ser simplesmente profanas quando são apenas expressões culturais humanas, mas podem se tornar mundanas quando passam a promover a degradação moral, a vulgaridade ou a perda da dignidade humana. O mesmo vale para qualquer realidade da vida: não é o fato de ser profana que a torna errada, mas sim quando ela passa a ser usada de forma desordenada.
Por isso, a maturidade cristã consiste em saber fazer essa distinção com equilíbrio. O cristão é chamado a venerar o que é sagrado, a viver corretamente o que é profano e a renunciar ao que é mundano no sentido do pecado. Dessa forma, ele não cai nem no erro de banalizar o sagrado, nem no erro de demonizar a vida comum. A verdadeira sabedoria espiritual está em entender que Deus não nos chama a fugir da realidade humana, mas a viver nela de forma ordenada, santa e consciente, lembrando sempre que até mesmo a vida mais comum pode ser vivida para a glória de Deus quando orientada pela verdade e pela caridade.
Quando falamos de profano, estamos nos referindo à vida cotidiana:
-trabalho-estudo-amizade fraternas, namoro-comércio-lazer saudável-convivência social-atividades culturais
Nada disso é pecado, por não ter caráter sagrado. São apenas realidades humanas normais.
2. O mundo não é mau em si mesmo
Algumas correntes religiosas desenvolveram uma visão negativa do mundo, mas o cristianismo autêntico não ensina isso. O próprio Cristo ensinou:
"Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai do coração." (cf. Mateus 15)
Ou seja:O mundo criado por Deus é bom!
-A criação é boa-A matéria não é má
O problema não está nas coisas! O problema está no mau uso que o homem faz delas!
Deus criou tudo bom. O ser humano é quem pode:
-corromper-destruir-matar por inveja-agir por vingança-xplorar pessoas-deturpar a criação
O mal nasce do coração humano desordenado, não da criação em si.
3. A confusão dualista de alguns cristãos: tudo ou é sagrado ou é mundano!?
Alguns grupos sectários e fanáticos, influenciados pelo puritanismo acabaram criando uma falsa divisão:Ou algo é sagrado ou é mundano.Mas isso é um erro, porque existe uma terceira categoria: o profano, que é simplesmente o neutro moralmente.
A distinção correta é:
SAGRADO - Aquilo consagrado diretamente a Deus:
-Igrejas-Altares-Objetos litúrgicos-Bíblia-Sacramentos-Vida religiosa com seus ritos
PROFANO - Aquilo que pertence à vida comum, e que eu preciso usar como cidadão:
-Escolas-Prefeituras-Praças-Ruas-Hospitais-Universidades-Comércio-Casas
Nada disso é pecado! Apenas não pertence ao âmbito religioso, mas civil e comum a todos, independente da religião a qual professam.
(foto reprodução)
MUNDANO (no sentido negativo cristão).Aquilo que promove o pecado ou a degradação moral:
-Prostíbulos-Casas de exploração sexual e pornografia-Locais de tráfico de drogas-Ambientes de corrupção moral-Festas de cunho explicito e degradantes
Essas realidades devem ser evitadas não por serem profanas, mas por serem moralmente desordenadas.
4. O cristão não deve fugir do profano, mas do mundano. O cristão não é chamado a fugir da vida normal.Caso contrário:
-não poderia trabalhar-não poderia estudar-não poderia sair de casa-não poderia viver em sociedade
-A rua não é sagrada, mas também não é pecado. É apenas profana, ou seja, parte da vida comum.
-O cristão não foge do mundo. O cristão foge do pecado.
5. A mesma lógica vale para a arte - Também podemos aplicar essa distinção às expressões artísticas.
Arte sacra - É aquela feita diretamente para o culto:
-Ícones-Música litúrgica-Canto gregoriano e Religioso-Arquitetura religiosa-Pintura religiosa
Aqui Deus é o centro!
Arte profana - É a arte que trata da vida humana sem referência religiosa direta:
-Literatura-Música clássica-Teatro-Pintura secular-Cinema-Dança
Aqui o foco é o ser humano e sua experiência.Isso não é pecado. É apenas cultura humana.
Arte mundana - É aquela que promove:
-imoralidade-vulgaridade-degradação sexual-violência gratuita-desvalorização da dignidade humana
O problema não é ser profana. O problema é ser moralmente degradante.
6. A questão da música
-Nem toda música religiosa é sacra.
-Nem toda música não religiosa é pecado.
Existe uma diferença:
Música sacra - Feita para a liturgia:
-Canto gregoriano-Música litúrgica tradicional-Hinos de adoração-Música profana
Música cultural ou artística:
-Música clássica-Instrumental-Canções culturais-Música popular saudável
Música mundana - Aquela que:
-vulgariza o sexo-degrada a mulher ou o homem-incentiva vícios-banaliza a dignidade humana
O critério cristão não é o estilo musical (rock, forro, etc). É o conteúdo moral.
7. A evolução histórica dos instrumentos
Muitos instrumentos hoje aceitos já foram rejeitados:
-Piano (associado a bares no século XX)-Violão (associado à boemia)-Guitarra (associada à cultura juvenil)-Bateria (associada ao rock)
O problema nunca foi o instrumento. Era o ambiente cultural associado a ele.Hoje muitos são usados inclusive em contextos religiosos.
8. Festas também podem ser classificadas
Festas sagradas
-Natal-Páscoa-Pentecostes-Festas bíblicas-Celebrações religiosas-Festas profanas
Eventos sociais normais:
-Formaturas-Casamentos-Festas cívicas-Datas nacionais-Festas familiares=Eventos culturais
Nada disso é pecado!
Festas mundanas - Aquelas marcadas por:
-imoralidade-orgias-promiscuidade visual e auditiva-degradação humana
O problema não é a festa. É o conteúdo moral dela.
9. O exemplo de Cristo: Jesus não viveu isolado da sociedade.Ele:
-participou de festas judaicas-conviveu com pessoas-foi convidado para jantares-esteve em celebrações: banquetes e casamentos
Foi inclusive numa festa — as Bodas de Caná — que realizou seu primeiro milagre, transformando água em vinho.Isso mostra algo importante:O problema não está na festa.Está no excesso.
10. O verdadeiro problema: o excesso
O cristianismo nunca ensinou que beber seja pecado.O pecado é:
-embriaguez-perda da razão-escândalos-irresponsabilidade (beber e dirigir)
A própria Escritura condena a embriaguez, não o uso moderado.O critério é sempre:equilíbrio, razão e responsabilidade.Uma taça de vinho: pode ser lícita. Já a embriaguez é pecado.Beber e dirigir:é irresponsabilidade moral grave.
O cristão maduro entende três coisas:
-Nem tudo precisa ser sagrado.-Nem tudo profano é pecado.-Nem tudo permitido é conveniente.
A sabedoria cristã está em saber distinguir:
-respeitar o sagrado-viver bem o profano-rejeitar o mundano
Porque quem não faz essa distinção cai em dois erros:
-Ou banaliza o sagrado.
-Ou demoniza a vida normal.
O verdadeiro cristão não foge da vida.Ele santifica a vida comum, vivendo com equilíbrio, consciência e fidelidade a Deus.
11. O que é o mundano e por que o cristão deve renunciar?
Uma das melhores definições do que o cristão deve evitar está na famosa frase de São Paulo:
"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido, mas não me deixarei dominar por coisa alguma." (1 Coríntios 6,12)
Essa frase é extremamente profunda porque mostra que a vida cristã não é guiada apenas pelo que é permitido ou proibido, mas pelo que edifica espiritualmente.
O que São Paulo está ensinando é que existem coisas que:
-podem não ser pecado em si-podem ser moralmente neutras-podem ser socialmente aceitas
Mas mesmo assim podem não ajudar na santidade.É aqui que entra o conceito do mundano no sentido espiritual.O mundano, no sentido cristão, não é simplesmente aquilo que pertence ao mundo material, mas aquilo que afasta o coração de Deus ou que fortalece inclinações desordenadas.São João também explica isso claramente:
"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo." (1 João 2,15)
Aqui "mundo" não significa a criação de Deus, mas a mentalidade contrária a Deus:
-orgulho-vaidade-sensualismo-egoísmo-materialismo-relativismo moral
Portanto, o que torna algo mundano não é sua aparência externa, mas seu efeito espiritual.
Algo pode ser mundano quando:
1 – Nos afasta de Deus. Quando algo ocupa o lugar de Deus no coração:
-vício em prazer-obsessão por dinheiro-busca exagerada por fama-necessidade de aprovação social
2 – Nos leva ao pecado ou facilita a queda. Mesmo que não seja pecado diretamente, pode enfraquecer a vigilância moral:
-ambientes moralmente perigosos-conteúdos que estimulam impureza-amizades que incentivam o erro
3 – Nos domina interiormente. São Paulo dá um critério claro:
"Não me deixarei dominar por coisa alguma."
Algo se torna mundano quando vira dependência:
-vícios-compulsões-dependência emocional-escravidão aos prazeres
São Paulo nos oferece um princípio muito profundo para entender quando algo deixa de ser apenas profano (neutro) e passa a se tornar mundano no sentido espiritual.
Em Romanos 14,23 ele afirma que "tudo o que não procede da fé é pecado", ou seja, tudo aquilo que fazemos sem convicção reta de consciência ou que nos afasta da liberdade interior diante de Deus pode se tornar espiritualmente prejudicial. Isso se conecta diretamente com outro ensinamento dele: "Tudo me é permitido, mas não me deixarei dominar por coisa alguma" (1Cor 6,12). Aqui está o verdadeiro critério cristão: o problema não está apenas no que fazemos, mas no que começa a nos dominar.
Algo pode ser inicialmente apenas uma realidade profana e lícita, mas começa a se tornar mundano quando deixa de ser algo que usamos com liberdade e passa a ser algo que nos usa, que nos prende e que condiciona nossas escolhas.
Isso acontece quando surgem os vícios, as compulsões, as dependências emocionais desordenadas e a escravidão aos prazeres. Nesse momento, a pessoa deixa de agir por liberdade e passa a agir por necessidade interior, tornando-se, muitas vezes sem perceber, escrava daquilo que antes parecia apenas um hábito inocente.
A mentalidade mundana começa exatamente quando o coração humano troca a liberdade dos filhos de Deus pela dependência das coisas passageiras. Pode ser o prazer, pode ser a aprovação das pessoas, pode ser o entretenimento, pode ser até algo moralmente neutro que, quando perde a medida, passa a ocupar o lugar que deveria pertencer somente a Deus.
É por isso que o critério cristão não é apenas perguntar se algo é pecado em si, mas perguntar se aquilo está fortalecendo a liberdade interior ou se está criando uma nova forma de escravidão.
O cristão é chamado a viver no mundo, mas não a viver como escravo dele. A verdadeira liberdade cristã não consiste em fazer tudo o que se quer, mas em não ser dominado por nada que diminua a dignidade da alma.
Quando algo tira a paz interior, enfraquece a vontade, cria dependência ou dificulta a vida espiritual, mesmo que não seja pecado grave em si, já pode estar entrando na lógica do mundanismo, porque começa a ocupar um espaço desordenado no coração.
Por isso, a maturidade espiritual consiste em preservar essa liberdade interior. O verdadeiro discípulo de Cristo não é aquele que apenas evita o que é claramente pecado, mas aquele que também sabe renunciar ao que começa a prender o coração.
Porque a santidade não começa apenas quando evitamos o mal evidente, mas também quando temos a coragem de nos desapegar daquilo que, pouco a pouco, poderia nos afastar de Deus.
O cristão é chamado a essa liberdade interior, onde pode usar as coisas deste mundo sem se tornar dependente delas, lembrando sempre que somente Deus deve ter domínio absoluto sobre o coração humano.
4 – Escandaliza ou destrói a dignidade humana - Mesmo coisas permitidas podem não ser convenientes:
-atitudes que dão mau exemplo-comportamentos que banalizam valores-práticas que relativizam o pecado
O critério cristão não é: "Posso fazer?" Mas sim: "Isso me aproxima de Deus?"
O verdadeiro critério cristão: O cristão não pergunta apenas: É pecado? Ele pergunta:
-Edifica minha alma?-Me aproxima de Deus?-Fortalece minha virtude?-Dá bom ou mal testemunho?
Se a resposta for não, mesmo sendo permitido, pode não ser conveniente.
A regra prática de São Paulo - Podemos resumir assim:
-Sagrado → deve ser venerado-Profano → pode ser vivido com equilíbrio-Mundano → deve ser discernido e muitas vezes renunciado
-A maturidade cristã está justamente nisso: Não viver no mínimo moral ("não é pecado"), mas no máximo espiritual ("isso me faz crescer?").
-Porque o objetivo do cristão não é apenas evitar o inferno, mas buscar a santidade de vida coerente com a minha fé e convicções!
-E a santidade começa quando deixamos de perguntar: "Isso é proibido?"E passamos a perguntar: "Isso me ajuda a ser santo?"
Papa Francisco: “O mundano aflige o coração do crente”
O
Papa Francisco na celebração matinal da eucaristia na capela da Casa de Santa
Marta, no Vaticano, em sua homilia convidou os crentes a olharem para o seu
coração e a nele verem “paixões e barulhos mundanos” que afligem o coração
humano.
Tomando as leituras que a liturgia do dia propõe á reflexão dos fiéis
para o dia de hoje o Papa lembrou que São Paulo lança um convite a “não acolher
em vão a graça de Deus” que se manifesta, afirma o Apóstolo, “agora”.
Para
Francisco tal pensamento significa que “em cada tempo o Senhor nos dá a graça”,
o “dom que é gratuito”. Deste modo o cristão “deve estar consciente e estar
preparado para acolher aquele dom, com o coração livre do barulho mundano” que
se constitui como “o barulho do diabo”, afirmou.
O Santo Padre exortou os fiéis
a acolherem o Dom de Deus alertando para a necessidade de não se constituírem
como “motivo de escândalo a ninguém”:
-“É
o escândalo do cristão que se diz cristão, que vai à igreja, vai à missa aos
domingos, mas vive não como cristão, mas como mundano ou pagão. E quando uma
pessoa é assim, provoca escândalo. Quantas vezes ouvimos nos nossos bairros,
nas lojas: ‘Olha aquele ou aquela, todos os domingos na missa e depois faz
isso, isto e isto …’. E as pessoas escandalizam-se. Isto é o que Paulo diz:
-‘Não acolher em vão...’E como devemos acolher? Antes de tudo, é o ‘momento
favorável, diz. Nós devemos estar atentos para entender o tempo de Deus, quando
Deus passa por nosso coração”.
Para
o Papa apenas poderemos estar atentos a esta realidade se nos colocarmos na
condição de quem “defende o coração” procurando distanciar-se de “todo barulho
que não vem do Senhor, afastando as coisas que nos tiram a paz”.
Para o Papa
“um coração livre de paixões” é um coração que se afasta do ““olho por olho” e
inverte a perspectiva para o “oferecer ao outro lado da face” e caminhar dois quilômetros com quem o obriga a caminhar um:“Ser livre de paixões e ter um coração humilde, um coração manso. O
coração é protegido pela humildade, pela mansidão, nunca pelas lutas e guerras.
Não! Este é um barulho: barulho mundano, barulho pagão ou barulho do diabo.
O
coração em paz! ‘Evitamos dar qualquer motivo de escândalo para que o nosso
ministério não seja criticado’, disse Paulo, mas pelo contrário, falemos do
ministério e do testemunho cristão para que não seja criticado.
Apenas com pureza,
sabedoria, magnanimidade, benevolência e espírito de santidade é possível
acolher a gratuidade de Deus e manter o coração longe das tribulações”,
concluiu.
A IMPORTÂNCIA DE RESPEITAR O SAGRADO!
Sagrado não é
apenas aquilo que existe dentro da religião que pertencemos, pois o que é
sagrado para a minha religião, pode não ser para outra. Mas quando há respeito
mútuo, aprendemos a conviver com harmonia e consideração. Pomos fim às guerras
religiosas e as perseguições e valorizamos o que talvez há de melhor na
religião do outro.
Ter uma ideia negativa do profano achando que o mundo e as realidades
profanas são sinais de pecado e de impureza é desconsiderar que tudo o que
existe foi criado por Deus, um ser superior e transcendente que nos permitiu
tudo isso que temos ao nosso redor, para a nossa sobrevivência, relações
sociais de cordialidade, e para o nosso bem comum.
Não podemos
negar a nossa condição mundana, bem como a nossa transcendência, e isso só será
possível não se negarmos o profano, e tornando sagrado (a serviço de Deus e de
sua glória) a realidade que vivemos, através de atitudes transformadoras que
traga o bem estar e a qualidade de vida para todas as pessoas do nosso
mundo.
Quando respeitamos o sagrado do outro, temos o direito a exigir
respeito ao que é sagrado para mim.Como Cristãos,
somos chamados a ser: “Sal
da terra, luz no mundo e fermento na massa” , e não nos isolar do
mundo, pois é neste mundo que somos chamados a dar nosso testemunho!
CONCLUSÃO
Diante disso, podemos concluir que nem tudo na vida se divide simplesmente entre sagrado e mundano, como se tudo aquilo que não estivesse diretamente ligado ao culto religioso fosse automaticamente algo ruim ou contrário a Deus. Existe também o profano, que no seu sentido original não significa algo pecaminoso ou impuro, mas simplesmente aquilo que não foi consagrado diretamente ao culto divino. Ou seja, é a realidade comum da vida: o trabalho, o lazer, a cultura, a convivência social e todas as atividades honestas que fazem parte da existência humana.
O erro de muitas pessoas é pensar que somente o que está dentro da igreja ou ligado diretamente à religião pode agradar a Deus, enquanto o restante da vida seria algo sem valor espiritual.
A visão cristã, porém, sempre ensinou o contrário: toda a vida pode ser ordenada a Deus quando vivida com reta intenção, moralidade e espírito de gratidão. Assim, o mundo não é mau em si mesmo, pois foi criado por Deus, mas pode se tornar mundano no sentido negativo quando é vivido como se Deus não existisse, quando o homem coloca o prazer, o poder ou o dinheiro acima da verdade, da moral e da salvação. Portanto, o cristão maduro é aquele que aprende a distinguir essas realidades: respeita o que é sagrado, usa corretamente o que é profano e rejeita o que é mundano no sentido do pecado e da desordem moral.
Nem tudo precisa ser transformado em devoção externa, mas tudo pode ser vivido com espírito cristão. É assim que se evita tanto o erro do secularismo, que despreza o sagrado, quanto o erro do falso rigorismo, que demoniza a vida comum como se apenas o religioso tivesse valor.
No final das contas, a verdadeira sabedoria cristã não está em fugir do mundo, mas em santificar a própria vida dentro da realidade em que Deus nos colocou, lembrando sempre que fomos consagrados primeiramente no Batismo. É a partir dessa consagração fundamental que aprendemos a dar a cada coisa o seu devido lugar: a Deus a adoração, ao sagrado o respeito, ao profano o uso equilibrado e ao pecado a nossa firme rejeição. Porque quem não sabe distinguir essas realidades facilmente cai em dois extremos perigosos: ou banaliza o sagrado, tratando-o como algo comum, ou transforma o que é apenas humano em algo supostamente religioso, perdendo o verdadeiro sentido da fé.
A maturidade espiritual consiste exatamente nisso: ter clareza, equilíbrio e fidelidade à verdade, para que nossa fé não seja apenas aparência, mas uma vida realmente ordenada a Deus.
“Pregando a Verdade e confirmando os irmãos na verdadeira fé, com a
graça de Deus construo Catedrais nas almas para que nelas possam habitar o
Espírito Santo de Deus” (Pierry de Craon).
Você sabe realmente diferenciar o sagrado, o profano e o mundano? Ou será que, para você, tudo aquilo que não é sagrado automaticamente se torna mundano?
Na realidade, a vida não se divide de forma tão simples entre o sagrado e o mundano. Existe também o profano, uma categoria muitas vezes esquecida, mas essencial para compreender corretamente essas distinções.
O sagrado é tudo aquilo que está diretamente relacionado a Deus ou que foi separado para o seu serviço, tornando-se digno de respeito, veneração e, no caso de Deus, adoração. São considerados sagrados não apenas a própria divindade, mas também as pessoas, os lugares e os objetos ligados ao culto divino, como os anjos, os santos, sacerdotes, pastores e todos aqueles consagrados ao serviço de Deus e do seu povo.
Também entram nessa categoria os elementos litúrgicos, como o pão e o vinho oferecidos nos ritos cristãos, objetos como o altar, o cálice, as vestes sagradas e as Escrituras, além de lugares destinados ao culto, como igrejas, templos e cidades consideradas santas, como Jerusalém, Meca e Medina. Em diversas religiões também são considerados sagrados certos elementos da natureza, como árvores, rios, montanhas, o sol, a lua, o fogo, a água e até alguns animais.
O sagrado normalmente está ligado à ideia de santidade, não necessariamente no sentido de perfeição moral, mas no sentido original da palavra: aquilo que foi separado ou reservado para Deus. Ou seja, algo se torna sagrado porque pertence de modo especial ao serviço do divino. Um exemplo claro disso é o povo de Israel no Antigo Testamento, considerado um povo sagrado não por ser perfeito, mas por ter sido escolhido por Deus mediante a aliança com Abraão. Conforme a Torá relata, essa eleição significava pertencer a Deus de modo particular, o que exigia fidelidade e adoração ao Deus único, e não uma perfeição absoluta.
Mas se o sagrado é aquilo que foi separado para Deus, então surge uma pergunta importante: onde entram todas as outras realidades da vida cotidiana? É exatamente aqui que precisamos entender corretamente o que são o profano e o mundano?
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
Bibliografia
-AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2017.(Clássico da espiritualidade cristã que mostra como a vida humana encontra sentido quando ordenada a Deus, distinguindo o amor a Deus do apego desordenado ao mundo.)
-AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001. (Obra fundamental da teologia católica que explica a santidade, os sacramentos e a relação entre o mundo natural e a graça divina.)
-RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Loyola, 2013. (Explica o verdadeiro sentido do sagrado na liturgia cristã e como o culto divino une o céu e a terra.)
-GUARDINI, Romano. O Espírito da Liturgia. Campinas: Cultor de Livros, 2018.(Reflexão sobre o sentido espiritual da liturgia e sua importância para formar uma visão correta do sagrado.)
-ELIade, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2018.(Estudo clássico sobre como as religiões distinguem o sagrado da vida comum e como o homem religioso interpreta o mundo.)
-LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2017.(Apresenta a visão cristã sobre moralidade, mundo secular e vida espiritual de forma acessível.)
-JOÃO PAULO II. Teologia do Corpo. São Paulo: Canção Nova, 2015.(Explica como a realidade humana, inclusive o corpo e a vida cotidiana, pode ser santificada.)
-KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2016.(Obra espiritual que ensina o desapego do mundanismo e o caminho da santidade interior.)
-SALES, São Francisco de. Filoteia – Introdução à vida devota. São Paulo: Ecclesiae, 2019. (Ensina como viver a santidade no meio da vida comum, mostrando que nem tudo que é profano é pecado.)
-HAHN, Scott. O Banquete do Cordeiro. São Paulo: Loyola, 2012.(Explica a Missa como realidade sagrada e sua ligação com a liturgia celestial.)
-SHEEN, Fulton. A Vida de Cristo. São Paulo: Quadrante, 2018.(Apresenta Cristo como centro da história e modelo de vida verdadeiramente santa.)
-LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de. Preparação para a Morte. Aparecida: Santuário, 2014.(Reflexão espiritual sobre a importância de viver orientado para Deus e não para o espírito mundano.)
-TERESA DE ÁVILA, Santa. O Castelo Interior. São Paulo: Paulus, 2014.(Explica o caminho da santidade como um processo interior de união com Deus.)
-INÁCIO DE LOYOLA, Santo. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2000.(Método espiritual para ordenar a vida humana a Deus e vencer os apegos mundanos.)
-CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.(Documento oficial que define o que é sagrado, os sacramentos e a moral cristã.)
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