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Se a Igreja retirou do Calendário: Santa FILOMENA, São Jorge e OUTROS Santos – O que dizer dos milagres sob a intercessão destes?

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 28 de agosto de 2015 | 16:37




«Como se explica o recente 'caso de Santa Filomena'? Como pode a Igreja cancelar a festa da santa, quando se lhe atribuem tantos milagres e favores? E que dizer do tratamento dado a São Jorge?»



Analisaremos separadamente o que se deu com Santa Filomena e com São Jorge:



O famoso caso de Santa Filomena, apesar da surpresa que suscitou, é, em verdade, muito simples e compreensível. As notícias, porém, e reportagens da imprensa (muitas vezes, mal formuladas), os comentários do público, deram-lhe vulto indevido, chegando a envolver proposições de fé. É o que exige da nossa parte uma elucidação serena. Atendendo a esta necessidade, consideraremos primeiramente a origem da devoção a Santa Filomena; a seguir, focalizaremos os temas de fé que parecem prender-se à célebre «história».




Os inícios da devoção a Santa Filomena:



O histórico da devoção (geralmente ignorado) será suficiente para dissipar a maioria das dúvidas recém suscitadas pelo noticiário da imprensa.Até 1802 não se conhecia a famosa devoção a Santa Filomena na cristandade.




Aconteceu, porém, que aos 25 de maio de 1802 (época em que os arqueólogos começaram a estudar os cemitérios da antiguidade) descobriram nas catacumbas de Sta. Priscila em Roma, junto à via Salária, um túmulo recoberto por três fragmentos de lápide; sobre esses destroços lia-se uma inscrição em tinta vermelha assim concebida:


LUMENA - PAXTE - CUM FI


Tais letras estavam acompanhadas de desenhos simbólicos, como duas âncoras, uma palma, três setas, folhas de hera (ou, conforme alguns, um lírio). No interior do túmulo os exploradores encontraram ossos que eles julgaram ser os despojos de uma jovem donzela dos seus treze ou quinze anos de idade, a qual morrera com o crânio fraturado. Encontraram, outrossim, uma ampola que parecia conter sangue e que, em consequência, foi considerada sinal de que a donzela morrera como mártir da fé. A palma do epitáfio parecia corroborar a suposição do martírio, no caso; as setas que a acompanhavam, indicariam o instrumento da morte. Além do mais, a idade muito tenra atribuída à defunta fazia crer que fora virgem. Quanto ao nome da jovem sepultada, os descobridores não hesitaram em recompô-lo invertendo a ordem dos dizeres das placas de modo a ler:


PAX TECUM FILUMENA:«A paz esteja contigo, ó Filomena»



Filumena é particípio passado grego, que significa «amada, dileta» (alma?... Virgem?... Mártir?...). O vocábulo, porém, foi tomado como nome próprio da presumida virgem e mártir do sepulcro.Concluíram os arqueólogos que haviam descoberto as relíquias de uma grande santa da antiguidade, cuja existência fora ignorada até então. Esses despojos mortais foram então extraídos das catacumbas e levados para a Custódia central das Relíquias em Roma. Em breve, o cônego Francisco di Lúcia solicitou-as instantemente e obteve-as para a aldeia de Mugnano, no sul da Itália, para onde os despojos mortais foram transportados aos 10 de agosto de 1805. Já que todos julgavam tratar-se de uma verdadeira santa, os fiéis começaram a invocá-la.

Note-se bem que não era necessário nem processo de canonização nem pronunciamento explicito da autoridade suprema da Igreja no caso, pois os santos anteriores ao séc. X não eram objeto de processo jurídico de canonização, mas eram simplesmente aclamados pela voz do povo (cf. «P. R.» 13/1959, qu. 5). No caso de Sta. Filomena, portanto a devoção se baseava unicamente na suposta autenticidade da documentação e das interpretações que acabamos de mencionar.


Pouco depois da trasladação para Mugnano, uma religiosa napolitana, Irmã Maria Luísa de Jesus, julgou ter recebido uma série de revelações a respeito da vida e do martírio de Santa Filomena. Na base de tais revelações foi então redigida a biografia de Santa Filomena, Virgem e Mártir: narrava-se aí que fora filha de um rei da Grécia e padecera sob o Imperador Diocleciano (f305), que a queria violentar.


A devoção se foi consequentemente expandindo pela Itália e a França; a sua popularidade tomou incremento extraordinário em vista da cura aparentemente milagrosa da Venerável Pauline Marie Jaricot, fundadora da Obra da Propagação da Fé, a qual, já moribunda, teria recuperado a saúde por intercessão de Santa Filomena! Em Ars, o santo cura João Maria Vianney (1786-1859) nutria grande estima para com Santa Filomena, chamando-a «sua cara santinha», e atribuindo-lhe numerosos favores; Filomena tornou-se assim a «taumaturga do séc. XIX».


Tendo em vista os avultados benefícios, tanto espirituais como temporais, que comumente se derivavam da devoção a essa santa, a Sagrada Congregação dos Ritos, órgão oficial da Santa Sé que trata do culto divino, em 1837 autorizou a sua veneração pública, estabelecendo a respectiva festa anual no dia 11 de agosto; em 1855 a mesma S Congregação aprovou um formulário de Missa e um ofício para esse dia (note-se: o ofício era simplesmente do «Comum das Virgens Mártires»; tinha apenas uma leitura própria em Matinas, leitura, porém, que nada afirmava dos traços biográficos ou da cena de martírio de Filomena).

Nos últimos tempos, cerca de 300.000 devotos visitavam anualmente os despojos mortais de Sta. Filomena em Mugnano (Itália); elevado  número de igrejas (somente nos Estados Unidos, cem igrejas), associações e pessoas foram colocadas sob o seu patrocínio.Isso tudo, porém, não impediu que em tempos recentes os doutos, mesmo católicos, tenham começado a manifestar reservas frente ao culto de Sta. Filomena; os conhecimentos de história antiga, de arqueologia, tendo progredido, havendo-se esmerado também o senso de crítica e exatidão cientificas, os estudiosos perceberam a precariedade da documentação histórica sobre a qual se apoiava a devoção à santa.

Com efeito. Os arqueólogos averiguaram que as ditas «ampolas de sangue» das antigas sepulturas na verdade não contêm sangue, nem são indícios de despojos de algum mártir- Verificaram outrossim que os símbolos do epitáfio encontrado sobre os ossos de Filomena têm significado assaz genérico: a âncora lembra a cruz de Cristo e a esperança do cristão, a palma indica o galardão de que no céu goza todo discípulo fiel e as flechas e as folhas de hera servem apenas para separar as palavras entre si.


Quanto à reconstituição do nome «Filumena» e à atribuição do mesmo à defunta encontrada, observou-se que se baseavam em hipótese igualmente inconsistente. Sim; no séc. IV após a concessão de paz à Igreja (313), as catacumbas de Roma foram sendo rebuscadas por Sãos devotos, que desejavam extrair os corpos dos mártires e justos mais famosos da antiguidade; abriam, portanto, as sepulturas, removendo as lápides sepulcrais ou os epitáfios. Ora, quando sepultavam novos mortos nas catacumbas do séc. IV, os respectivos túmulos eram muitas vezes fechados com lápides dos antigos sepulcros; ao aproveitar, porém, essas lápides, os «fossores» ou coveiros faziam questão de misturá-las entre si, tomando fragmentos de mais de uma sepultura primitiva destituídos de nexo recíproco, justamente para evitar que se cresse que os ossos recém-sepultados em tal lugar pertenciam a tal ou tal defunto mais antigo.


Não estaria fora de propósito conjeturar que isto se tenha dado no caso de «Santa Filomena»; os três fragmentos que recobriam os ossos encontrados não proviriam de sepulturas mais antigas? Não teriam sido reunidos mais ou menos ao acaso? Suposto isto, a reconstituição do nome «Filumena» (a partir do LÚMEN A na primeira lápide e FI na terceira), careceria de fundamento; poder-se-ia mesmo perguntar se existiu uma santa mártir com o nome de «Filumena»; LUME- NA e FI poderiam entrar na composição de muitas palavras das quais as outras partes estariam perdidas.

Na base das considerações acima, já havia vários anos que no seio mesmo da Igreja se levantavam dúvidas a respeito da existência de Santa Filomena, quando nos últimos meses o Santo Padre João XXIII houve por bem mandar cancelar do calendário oficial da Igreja a festa dessa santa; para isso, S. Santidade baseava-se na falta de certeza concernente à historicidade mesma "de Sta. Filomena.Como se vê, essa atitude da Santa Sé não foi adequadamente compreendida por um dos jornais do Rio de Janeiro, que publicou a seguinte noticia:


«Não há mais Santa Filomena — acaba de decretar o Vaticano». A frase dá a entender que é o Vaticano quem faz e desfaz os santos, como se estes não passassem de produtos da imaginação ou do senso piedoso das autoridades eclesiásticas e dos devotos.

Aliás, a determinação da Santa Sé relativa a Santa Filomena faz parte de amplo projeto de remodelação da Liturgia sobre bases muito simples e claras, remodelação que naturalmente tende a remover da piedade cristã os motivos de devoção que careçam de seguro fundamento histórico.

Tomando a rigor a disposição da S. Congregação dos Ritos, verifica-se que não é proibida a devoção particular a Santa Filomena; apenas o culto litúrgico foi atingido pelo decreto. Se alguém, portanto julga que a precária documentação existente sobre Sta. Filomena merece crédito, pode dirigir-se a essa santa; era o que se fazia de boa fé no século passado. Em nossos dias, porém, é de desejar que nenhum cristão, por mais piedoso que seja. feche os olhos voluntàriamente às conclusões dos estudiosos, contentando-se com uma piedade de fantasia alheia à realidade dos fatos.

São estes os precedentes que elucidam o atual «caso de Santa Filomena», permitindo-nos verificar que muito acertada foi a determinação de Roma ao cancelar do seu calendário oficial a festa da santa: a piedade só pode lucrar ao se deixar guiar pelas luzes da verdade.



Contudo algumas questões de índole doutrinária são espontaneamente suscitadas pela explanação acima. Abordemo-las sucessivamente. A primeira dúvida suscitada talvez seja a que concerne:

1) a autoridade do magistério da Igreja. Muitos perguntam: como entender a aparente retratação de si mesma que a Igreja acaba de fazer?



A resposta não é difícil. Na verdade, a Igreja nunca se pronunciou por seu magistério solene e infalível em favor .da existência de Santa Filomena. Sua atitude foi, como dissemos, simplesmente a seguinte: em 1802 encontraram-se ossos que, com alguma verossimilhança foram atribuídos pelos arqueólogos a uma santa dita «Filomena», virgem e mártir do séc. IV; a verossimilhança da atribuição parecia suficiente e aceitável naquele início do século passado, época de exíguo senso crítico. Ora, visto que se apresentava Filomena como santa do século IV, as autoridades da Igreja não se viam, no caso, obrigadas a instaurar processo de canonização; a declaração de santidade (ou a canonização) de Filomena devia ser suposta; teria sido feita pela voz do povo cristão antigo, como era costume antes do século X (cf. «P. R.» 13/1959, qu. 5). Em consequência, os Romanos Pontífices, os bispos e o povo católico foram aceitando «Santa Filomena»; as graças atribuídas à sua intercessão só faziam corroborar a crença na santa. A colocação no calendário litúrgico aos 11 de agosto de modo nenhum implica em definição infalível; era apenas medida de disciplina,medida sujeita a reforma desde que tal disciplina se evidenciasse inoportuna; as autoridades da Igreja introduziram a festa de Filomena unicamente por causa da devoção do povo cristão, devoção contra a qual nada se podia objetar, pois nada tinha de absurdo ou supersticioso (a questão da autenticidade da documentação pressuposta nem sequer se punha no século passado).


Nos "tempos atuais, porém, os estudiosos tendo verificado a precariedade de tal documentação, a Sta. Igreja não hesita em afirmar a evidência dos fatos: não permite, continue a ser celebrada na sua Liturgia oficial uma festa tão insegura- mente assentada; quanto às manifestações de devoção pessoal a Santa Filomena, são toleradas,desde que os devotos julguem haver fundamento para crer na existência da santa. Tal atitude da Igreja está longe de ser uma «descanonização» ou «dessantificação», como se tem dito, pois nunca houve canonização oficial de Sta. Filomena; aconteceu mesmo mais de uma vez em épocas passadas que as autoridades eclesiásticas resolveram vedar o culto que o povo cristão começara a tributar a determinado santo. Cf. «P.R.» 13/1959, qu. 5.



2)- Outra das dificuldades doutrinárias suscitadas pelo «caso de Santa Filomena» seria: Como explicar os milagres atribuídos à santa, caso se admita que esta não tenha existido? Tanto faz invocar santos existentes como santos não existentes?



Primeiramente, no tocante aos milagres convém lembrar que a Igreja não se empenha por afirmar a sua realidade; o magistério eclesiástico é, em geral, lento e cauteloso quando se trata de admitir portentos. Dado, porém, que os fiéis (e em particular o Cura d'Ars) tenham realmente obtido graças extraordinárias mediante a devoção a Santa Filomena, será preciso recordar que não são propriamente os santos que fazem milagres e concedem graças, mas é o Senhor Deus quem distribui tais dons, e os distribui principalmente em vista da fé e da devoção dos que os pedem na terra; no caso, portanto, da devoção a Santa Filomena, se houve milagres, estes foram realizados diretamente por Deus em resposta às piedosas disposições dos devotos; dado que Sta. Filomena não tenha existido, ela não intercedia (nem intercede) por seus devotos (como realmente intercede no céu um santo existente), mas a figura da santa servia ao menos de estimulo à piedade dos orantes; assim é que mesmo uma presumida «Santa Filomena» podia concorrer para a obtenção de graças extraordinárias do Céu (vinha a ser o incentivo subjetivo do zelo e da devoção dos que oravam).



Disto não se segue, é claro, que tanto faz invocar santos existentes como invocar santos inexistentes. A piedade e os afetos da alma para que sejam dignos da natureza humana, devem ser iluminados pela verdade ou pela realidade das coisas. Caso, porém, alguém de boa fé se ache no erro, tomando como existente um santo que não existiu, o Senhor não deixa de atender à boa fé de quem O suplica; Ele em tais casos corresponde às preces, não por causa do santo inexistente, mas por causa das disposições sinceras de quem ora.


3) Não seria para recear que semelhantes golpes venham a ser futuramente Infligidos ao culto dos santos?



Em resposta, distinguiremos entre santos canonizados após processo formal (tais processos só começaram a ser feitos no séc. X) e santos proclamados apenas pela voz popular não contraditada pela autoridade suprema da Igreja. Ao passo que sobre a existência e a intercessão dos primeiros não resta dúvida, a respeito dos outros não é impossível que se descubram, no decorrer dos tempos, documentos que invalidem as respectivas crenças populares; a Igreja então terá que declarar a inconsistência da devoção a esses santos; no caso, portanto, dos justos sobre os quais a Igreja não se definiu por seu magistério supremo, a devoção fica dependendo da autenticidade dos documentos que se possam aduzir em favor de tais santos (a grande maioria está suficientemente comprovada).



Foi justamente por averiguar que careciam de verdadeiro fundamento histórico que a S. Congregação dos Ritos mandou ultimamente eliminar do calendário da S. Liturgia as festas de:


1)- São Leão II (3 de julho), pois se evidenciou que nos antigos códigos litúrgicos a cifra II não significava um santo posterior a. São Leão I, dito «Magno», Papa, mas designava o próprio São Leão I a ser celebrado pela segunda vez no ano (a primeira vez ocorria aos 11 de abril).


2)- Santo Anacleto (13 de julho); verificou-se que este nome não era senão uma variante do nome São Cleto, que já tem sua festa a 26 de abril (a preposição aná em grego significa «de novo»).


3)- São Vital (28 de abril); também está comprovado que o santo celebrado com este nome em abril não difere do seu homônimo festejado aos 4 de novembro.


4)- São João diante da Porta Latina (6 de maio); sob este titulo se comemorava um episódio cuja autenticidade foi reconhecida como assaz duvidosa: acreditava-se, com efeito, que o Apóstolo São João, diante da Porta Latina de Roma, fora atirado em um tanque de óleo a ferver, escapando, porém, incólume do perigo. Ora, já que a documentação referente a este particular é pouco fidedigna, a Santa Igreja (que nunca definira o episódio como sendo real) houve por bem não mais o celebrar em sua Liturgia;

5)- Trasladação da Casa de Loreto (10 de dezembro); também por se ter observado que carece de suficiente documentação histórica este episódio já não é objeto de -celebração no culto oficial (cf. «P.R.» 12/1958, qu. 9, onde se expõem as origens da narrativa se- segundo a qual teria sido transferida pelos anjos para Loreto, Itália, a casa na qual se deu a Anunciação do Arcanjo Gabriel a Maria).


Seja lícito repetir:


A Santa Igreja aceitou a celebração de tais festas porque, de um lado, nada tinham de incompatível com as verdades da fé e, de outro lado, pareciam suficientemente assentadas sobre fatos e documentos históricos de seus contextos. Note-se que, ao celebrar essas festas, os fiéis não praticavam coisa vã, porque, mesmo que não tivessem tido existência os santos ou os episódios cultuados, eles eram, no mínimo, motivos de afervoramento religioso, afervoramento ao qual Deus respondia liberalmente com suas graças.Tais festas mereciam a reverência (e esta apenas) que a respectiva documentação histórica lhes podia conciliar.Desde, porém, que se evidenciou a precariedade de tal documentação, a Igreja não hesitou em tomar atitude coerente, modificando o seu calendário litúrgico.


As modificações assinaladas, longe de deixar os fiéis perplexos e como que abalados na sua piedade, devem, antes, contribuir para lhes incutir uma fé mais pura e lúcida; elas mais uma vez lembram que se deve distinguir na Igreja entre o essencial e acidental. O símbolo de fé e a estrutura da Igreja são, sim, essenciais e intangíveis, porque se derivam do próprio Deus; quanto às manifestações da vida cristã,, elas podem variar; o critério para as aprovar ou desaprovar é um critério de bom senso ou de documentação cientifica, critério sujeito a mudanças no decorrer dos tempos; a Igreja aceita tais mudanças, já que não Lhe afetam a estrutura; Ela as deseja mesmo, quando são oportunas, a fim de ser sempre atual e presente à vida dos povos.

A confusão presente oriunda do cancelamento das referidas festas se deve a um pressuposto assaz comum:


Muitos dos nossos contemporâneos julgam que tudo que se faz na Igreja, é feito por ordem de Sua Santidade o Papa, envolvendo a sua autoridade suprema e infalível. Na realidade, tal nem sempre se dá. Muitas práticas não essenciais à vida cristã se desenvolvem, na Igreja, de baixo para cima (não de cima para baixo), isto é, originam-se por iniciativa do povo devoto não por decreto superior. As autoridades eclesiásticas deixam os fiéis agir enquanto não veem superstição em tal ou tal prática popular e enquanto não se percebe motivo que desaconselhe a continuação. Desde, porém, que tal motivo se imponha, a Santa Igreja intervém para vantagem do povo de Deus. Foi o que se deu nos casos que acabamos de percorrer.



E São Jorge ?


Quanto a São Jorge, a sua festa não foi eliminada do calendário oficial da Igreja, porque não há motivos para pôr em dúvida a sua existência. Contudo a celebração do santo foi destituída do seu relevo antigo, passando a constituir mera comemoração. O motivo disto é que, segundo os mais recentes estudos, já não se pode asseverar a historicidade de quanto se narrava a propósito de São Jorge; consciente disto, a Sta. Igreja julgou oportuno não chamar tanto a atenção dos fiéis para um santo cujos dados biográficos nos ficam quase totalmente encobertos.



A respeito de São Jorge, portanto, apenas se pode dizer com segurança que nasceu em Lida (Lydda) na Síria por volta de 270 e foi martirizado em Nicomédia no ano de 303. São considerados como incertos ou mesmo lendários os pormenores habitualmente narrados: Jorge, como soldado do Império Romano, teria participado de uma campanha na Pérsia, após a qual haveria residido em Beirute (Síria); nesta cidade, teria lutado contra um dragão; depois disto, dizem que Diocleciano o enviou em expedição à Grã-Bretanha; Jorge atravessou então o mar da Irlanda, hoje também dito «Canal de São Jorge», e desembarcou em Porta Sistuntiorum; daí dirigiu-se para Glastonbury em peregrinação ao túmulo de seu compatriota José de Arimatéia.




Canonização e infalibilidade



Os teólogos e canonistas, quase unanimemente, afirmam que o Sumo Pontífice goza de infalibilidade, quando define estar algum justo na glória celeste e, por conseguinte, merecer a veneração pública dos fiéis.A razão em que se apoiam, é a seguinte:



O Papa não pode induzir em erro a Igreja universal em matéria de fé e costumes (como definiu o Concilio do Vaticano, consoante a mais autêntica tradição cristã; cf. a questão 2 deste fascículo). Ora uma sentença de canonização toca a moral do povo cristão, pois propõe à veneração e à imitação dos fiéis uma pessoa que, não há dúvida, representa um ideal de doutrina e de vida bem caracterizado, e um modelo de virtudes a serem seguidos. Não se pode conceber, pois, que o Sumo Pontífice, em declarações feitas solenemente ao orbe católico, não indique as pessoas correspondentes a tal propósito, ou seja, autênticos santos (disto, porém, não se segue que todos os autênticos santos são também canonizados ou publicamente proclamados tais).


Note-se outrossim que os Pontífices mesmos, nas bulas de canonização, parecem professar a consciência da sua infalibilidade (o que por si não é argumento decisivo, mas, ao menos, confirmativo). Eis as expressões categóricas de que costumam usar:



«Intar sanctos et electos ab Ecclesia universali honorari praeci- pimus...

Apostolicae Sedis auctoritate catalogo sanctorum scribi manda- vimus...

Memoriam inter sanctos ab omnibus de cuetero fieri censemus, et anniversarium ipsius diem solemniter celebrari constituimus,... statuentes ab Ecclesia universali illius memoriam quolibet anno pia devotione recoli debere...»

Quem não queira reconhecer a sentença de canonização, incorre em falta grave, como dá a ver a seguinte fórmula :

«Si quis, quod non credimus, temerário ausu, contraire tenta- verit,... sciat se, auctoritate B. Petri, principis apostolorum, cuius vel immeriti vices agimus, anathematis vinculo innodatum».


Para se avaliar todo o alcance destas expressões, observem-se os termos intencionalmente mais brandos em que os Pontífices se costumam exprimir nas bulas de beatificação (declaração limitada a certas pessoas e regiões):

«Tenore praesentium indulgemus...; licentiam et íacultatem concedimus...».


As reservas são explicitamente formuladas nos dizeres:


«... donec aliud per Nos, vel per sedem apostolicam, fuerit solemniter ordinatum».

No caso, pois, de beatificação, o Santo Padre concede, não preceitua, e embora tenha boas razões para conceder, não julga impossível uma reforma de sentença.O fato de que os teólogos geralmente admitem a infalibilidade das sentenças de canonização torna gravemente temerária, escandalosa e próxima de heresia a posição de quem queira negar tal doutrina. Por conseguinte, também seria gravemente temerário duvidar de que tal ou tal santo canonizado esteja realmente na glória celeste. Não se poderia, porém, afirmar que a negação ou a dúvida em tais assuntos equivale à heresia: «Mesmo após o concilio do Vaticano, não há definição explícita da Igreja a tal respeito, de sorte que quem negasse não seria formalmente herege» (T. Ortolan, Ganonisa- tion dans l'Église Romaine, em «Dictionnaire de Théologie catholique» II 2. Paris 1939, 1624).


Para proferir uma sentença de canonização, o Sumo Pontífice, embora goze da assistência infalível do Espírito Santo, não é dispensado de recorrer a critérios sensíveis, capazes de gerar certeza no plano meramente humano (é o que se dá, aliás, no caso de qualquer definição dogmática pronunciada pelo S. Padre). Dois sinais raros e indispensáveis são exigidos para que um processo de canonização chegue a termo feliz :

a) Comprovada heroicidade das virtudes do justo durante a sua vida terrestre.


b) O testemunho de milagres após a morte.




Qualquer dúvida a respeito de um ou outro destes pré-requisitos retém ou anula toda a marcha do processo.

Quanto aos milagres em particular, a Igreja ainda hoje os reconhece como autênticos sinais de Deus, desde que se verifiquem em circunstâncias determinadas (cf. «P. R.» 6/1958 qu. 1). Para que o processo chegue à sentença de beatificação, requerem-se dois, três ou quatro milagres, conforme a qualificação das testemunhas que os referem (cf. cân. 2117); no caso dos mártires, a exigência de milagres pode ser mitigada ou até dispensada (cf. cân. 2116 § 2). Para a canonização, tornam-se indispensáveis dois ou três milagres (segundo circunstâncias variáveis) verificados após a beatificação (cf. cân. 2138). Assim quer a Sta. Igreja assegurar-se de que realmente Deus falou ao mundo pela conduta de vida de tal ou tal justo.

Parecem dispensáveis ulteriores comentários ao caso.

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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