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O tempo e a Eternidade em Santo Tomás de Aquino

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 11 de março de 2014 | 22:53


A definição mais perfeita de eternidade é dada por um pensador cristão do fim do Império Romano que morreu condenado por Nero,Boécio que  morreu na prisão e escreveu A Consolação da Filosofia. E no capítulo 5 ele define a eternidade como:

 “a posse total, simultânea e completa da vida interminável”

Vejam que beleza de definição. Dá um nó na cabeça à primeira vista, mas veja:

“a posse total, simultânea e completa da vida interminável”.

Tentemos entender porque essa é a definição clássica de eternidade admitida pela maioria dos pensadores e aprofundada enormemente por São Tomás de Aquino na Suma Teológica.

Como nós podemos entender a eternidade se a eternidade não nos é dada imediatamente?

A eternidade não é uma evidência para nós. Nós nunca vimos nada que é eterno diante dos nossos olhos. Nada!


Então como nós podemos conhecer a eternidade? Conhecendo o tempo!

Assim como para conhecer um elemento químico simples, temos de partir do composto, decompondo. Nós só podemos conhecer os elementos químicos simples a partir da decomposição de elementos compostos, assim também só conhecemos a eternidade a partir da decomposição do tempo. Então antes de entender e de falar o que é a eternidade, entendamos o que é o tempo. 


Muito bem, o que é o tempo?

A definição clássica, e aceita por São Tomás e por mim obviamente, é a dada por Aristóteles:

“O tempo é o número (ou numeração, ou contagem) do movimento segundo um antes e um depois”.

Isto é um tempo! Agora entendamos  o que é movimento para Santo Tomás e para Aristóteles:

“Movimento não só aquele chamado local, mas é também o movimento da geração da corrupção, de envelhecimento, das mudanças. O cabelo que fica branco é um movimento.Toda e qualquer mudança corpórea, toda e qualquer mudança mental, é sempre um movimento é um motu, é uma mudança.”

Movimento (local) e mudança têm o sentido idêntico em Aristóteles e São Tomás.

O tempo é a medida das coisas que mudam ou se movimentam. É um número. Segundo que o antes e o depois é simples. Eu vou correr daqui até ali (e morrer por conta da idade, não?); eu tenho um antes, o iniciar da corrida, e um depois. O número que indica esse movimento entre o antes e o depois é o tempo.


O tempo na verdade é uma contagem, uma cronometragem. E a medida das coisas que se movimentam ou mudam é exatamente o tempo, segundo um antes e um depois. Ora, isso não nasce nessa discussão, mas anteriormente.  Deus não se movimenta.

Dizia Aristóteles que Deus é o “primeiro motor imóvel”, que move as coisas sem se mover assim como o amado move o amante sem se mover, ou poderíamos comparar analogamente assim como uma beleza de um Ícone, que não se move, e nos move a ele que permanece imóvel.


Deus, chamado o primeiro motor imóvel por Aristóteles, o que quer dizer que Ele é propriamente imóvel em todos os sentidos, não só no sentido de movimento local, mas no sentido de não sofrer qualquer alteração. Deus não se altera, por isso é que até os seus decretos são bonitos.

Em Deus não há passado, presente, nem futuro, portanto não há movimento, não há tempo. Em Deus não há mudança. Ele é imutável, seus decretos são imutáveis e por isso, diz São Tomás, que Ele não poderia fazer o passado já não ser, ou não poderia mudar a essência dos entes, exatamente porque suas decisões são instantâneas e imutáveis. É único, pronto e acabado. Deus é a própria imutabilidade, é a própria permanência do ser.


Se o tempo é um número segundo o antes e o depois, e esse antes e depois não tem relação só com esse movimento local, mas com as mudanças substanciais: geração, opção, envelhecimento, sabedoria, tudo muda. As nossas opiniões mudam. Hoje eu acho isso, amanhã eu acho aquilo, tudo está em movimento. Ora, em Deus não há isso, tudo nele é simultâneo, então o tempo não pode ser a medida de Deus, e portanto não pode o tempo ser uma numeração de algo que na verdade não tem duração. 


Logo, a eternidade é a medida de Deus, assim como o tempo é a medida dos entes criados por Ele. Esse é o primeiro passo, definir o que é a eternidade. Entendido o que é a eternidade podemos responder, Deus é eterno? Devo dizer duplamente, primeiro não só Ele é eterno, mas ele é a eternidade. Essa também é uma discussão sobre os atributos de Deus. Como Deus é. Deus é o único ente que é o próprio ser.


Nós temos ser, nós temos existência, e podemos perdê-la, e a perdemos. As coisas aparecem na existência e um dia deixam de ser, não é isso? Mas temos o ser, porque se eu não tivesse o ser eu não existiria. Deus não tem o ser, Deus é o ser. Nós temos uma essência. Eu sou homem, isso aqui tem a essência de uma garrafa, toda e qualquer árvore tem a essência de árvore, todo e qualquer cachorro, tem a essência cão, a essência canina; ora, Deus não tem uma essência,

Deus é a sua essência, e sua essência é ser, é existir (Javé, ou seja, Aquele que É).


Desde a mais tenra infância até a velhice nós vamos crescendo intelectualmente. Isso é universal, isso faz parte da vida de cada homem. Ora, vamos crescendo segundo um passado, um presente e um futuro, não? Ou seja, segundo um antes e um depois. Mesmo essa realidade que é mais espiritual depende de um antes e um depois e pode ser enumerada ou cronometrada segundo o tempo. Isso é a realidade não só de cada homem, de cada animal, mas de cada ente concreto corpóreo ou de qualquer ente espiritual. mesmo com os anjos.

Deus é essa coisa simultânea, imutável e permanente no ser em todos os sentidos. Não só não tem corrupção; aliás nem há corpo, não tem matéria, não tem corrupção, não tem movimento e não tem mudança de pensamento. 


Veja como é difícil para nós imaginar aquilo que Aristóteles chamava pensamento de pensamento, imaginar um pensamento de pensamento que não muda. É instantâneo, é tudo simultâneo. Tudo! Cada coisa que Deus pensa, faz, cria é simultâneo. ( O desejo de Deus já é).

O conhecimento de Deus não é evidente, obviamente; ele depende de provas, ele depende de raciocínio. É diferente de quando você vê um triângulo, e é inegável que o triângulo tenha três lados. Alguém vai negar que um triângulo não tem três lados? Ele tem que estar fora do seu juízo para negar que o triângulo é composto de três lados.

Ora, Deus não é evidente. Dizia São Tomás, “fosse Deus evidente, não haveria Deus”. Claro!


Portanto o nosso conhecimento de Deus é pelos efeitos. Nós, olhando para a natureza, analogamente pensamos como é possível que algo que não raciocine — uma árvore não raciocina, os astros não raciocinam , como é possível que algo não tenha inteligência, obedeça a uma ordem perfeita?


Como é possível que animais procriem para manter sua espécie? E dizia o velho Platão lá na Grécia:

“A procriação da espécie é uma imitação da eternidade de Deus”.

Os animais certamente não fizeram uma assembléia e disseram: “- Vamos agora nos perpetuarmos para imitar a Deus em sua eternidade”. E, no entanto, eles se perpetuam. Coisas inconscientes. Tem que haver uma inteligência coordenadora disso tudo.  Ora, o tempo é a medida segundo o antes e o depois; o nada não tem antes nem depois; o nada, nada é.

Estamos diante de um tremendo mistério


Constatável pela razão, mas explicável só parcialmente pelo nosso próprio intelecto. Assim como o nosso conhecimento de Deus é pelos efeitos, vendo a natureza pensamos: é impossível que haja uma natureza tão ordenada, tão regular como a valsa dos astros no céu, com a ordenação, com a ordem, com que giram em torno de si mesmos. Com essa ordem é impossível que um dia as pedrinhas implícitas na ínfima partícula de energia do Big Bang tenham feito uma assembléia permanente e dissessem: agora vamos pôr ordem no céu e agora deixemos de pôr, e acabemos com essa porcaria de Universo. É impossível! Há que haver, é preciso ter uma inteligência superior. Ora, isso é conhecer a Deus pelos efeitos, não pela causa.


Quando vemos alguém assassinar a outro nós sabemos que esse outro morreu porque vimos a causa, não é isso? Nosso conhecimento desse assassinato se deve e esse conhecimento da causa. Nós vimos a causa daquele assassinato. Ora, nós não vemos Deus em causa, mas vemos os efeitos. No caso do assassinato, a gente conhece as causas a priori. É o chamado conhecimento a priori, da causa para o efeito.

Quando nós conhecemos a Deus pelos seus efeitos é o chamado conhecimento a posteriori, pelos efeitos para a causa e esse conhecimento não pode ser senão analógico.
Deus é a mesma eternidade e que a eternidade é a medida de Deus, ao passo que o tempo é a medida de todas as coisas criadas por Ele. Mas digo eu, criou Ele desde toda a eternidade, e acabei de usar um verbo no passado: “criou”. Eu estou usando uma referência temporal, marcadores temporais do passado. Não é isso?

Deus fará o juízo final, mas como fará se Ele não tem presente, passado, futuro e Ele é simultâneo?


Veja é isso que se chama conhecimento analógico. Mesmo sabendo dessa realidade exatamente porque nós somos seres imersos no tempo, é que não nos podemos nos referir a Deus, que é a própria eternidade, se não com pensamentos limitados do próprio tempo. Só conhecemos a Deus analogicamente. Claro, os mistérios de Deus, o mistério da Santíssima Trindade, são razões analógicas de fé.Não estou tratando dos mistérios da fé. Estou falando do que é conhecimento de Deus pela nossa própria razão. Independentemente, ou quase, da revelação cristã. 

Ora, e a distância entre o homem e Deus? O que preencheria esses graus?


São exatamente os anjos. Enquanto nós homens somos os entes fronteiriços entre o espiritual e o corpóreo, nós estamos na fronteira do visível e do invisível, somos corpo e alma, é preciso ocupar esse espaço que há entre nós e Deus, que é espírito puro, perfeitamente puro, sem potência passiva nenhuma e que é a própria eternidade. Isso é preenchido pelas chamadas substâncias separadas que chamamos anjos.

Na gradação da criação temos do mais ínfimo grão de areia até o homem num gradação equilibrada, sutil, de degrau a degrau, depois temos também nas ordens e hierarquias angélicas, que vai do anjo da guarda aos arcanjos, e daí a Deus.


Temos assim uma ordenação do mais próximo do não-ser que é o grão de areia, até o mais próximo do ser perfeito, que é o arcanjo. Tudo isso se vê num belo capítulo segundo São Tomas. Que é chamado entre outras coisas de Doutor Angélico. Exatamente porque tratou [detidamente] dos anjos. Os anjos embora tenham sido criados um dia segundo o próprio Gênesis, tudo foi criado em um dia, eles do pondo de vista do ser também não têm mudança, eles não se corrompem.

Os anjos não têm a sucessão temporal segundo o que conhecemos como antes de depois. Não se corrompem, são incorruptíveis. Mas eles têm algo que, sim, implica em um antes e um depois: é o pensamento. Eles podem mudar de idéia, daí o drama angélico do início dos tempos com a divisão entre demônios em anjos. Eles podem mudar de idéia, eles podem errar, e isso implica um antes e um depois, isso implica mudança.


Ora, então podemos definir os anjos como aqueles seres, aqueles entes que segundo o seu ser substancial não são segundo um antes e um depois, mas cujo pensamento se pode aplicar às categorias segundo um antes e um depois. Eles não estão imersos no tempo, mas ao seu pensamento se aplica a medida segundo o antes e o depois, já que podem mudar.


Só Deus é imutável no mais íntimo do seu pensamento, se é que eu posso dizer o mais íntimo, porque afinal Deus só tem um pensamento. Deus é o Seu próprio pensamento. E enquanto Deus tem por medida a eternidade, ou seja, a posse total, simultânea e completa da vida interminável, têm os anjos por medida a eviternidade, ou seja, aquilo que por certo ângulo se assemelha a Deus, e a certo ângulo se assemelha ao que está imerso no tempo. Assim é a eviternidade ou evo; é exatamente a medida intermediária entre a eternidade e o tempo.


Só se aplica aos anjos o antes, a medida, o número, segundo o antes e o depois quanto à sua forma de pensar. Quanto à mutabilidade que é própria do seu modo de pensar. Poderíamos nos estender aqui por muito tempo para ver a diferença entre Deus e os anjos; é obvio, até porque os anjos foram criados por Deus mesmo, mas isso basta por hora. 

Ainda há que concluir o seguinte, e isso se diz a católicos:


Todos temos que a bem-aventurança — aqui saímos da filosofia e entramos na teologia — é aquela diferença entre fé e saber, fé e razão.

Entramos agora na fé. Sabemos que o prêmio da bem-aventurança na chamada vida eterna, é a contemplação da essência de Deus em diversos graus. Desde o mais ínfimo pecador que foi salvo na última hora até o maior dos santos, até Nossa Senhora e os anjos.


Os anjos também depois do episódio em que se separaram anjos e demônios, os que não viraram demônios foram contemplados com a luz beatífica. Esses anjos que já estão sob a luz da glória e os santos que já estão no céu sob a luz da glória, já não têm mutabilidade, nem sequer de pensamento. Eles já não mudam de opinião. Porque contemplando aquilo que é a mesma verdade, já não pode alterar.


Quando estivermos, queria Ele que estejamos, diante d’Ele, olhando para a Sua mesma essência, já não podemos pecar, já não podemos mudar, já não erramos, já nada, porque o conhecimento da essência de Deus é como um imã de que não podemos fugir. Então aos que tiverem sob a luz da glória, sejam anjos ou homens, a imitação da eternidade da sua divindade será infinitamente maior. Mas esse é o que se chama um dom gratuito de Deus. 

São Tomás tem cindo vias para provar a existência de Deus


A terceira delas que para mim é a mais convincente de todas e é exatamente essa que diz o seguinte:


“Tudo quanto vemos um dia deixará de ser, e não é verdade? Esse copo um dia não deixará de ser? Nós não deixaremos de ser? A árvore não deixará de ser? A minhoca, pobrezinha, morrerá? O cachorro do meu amigo não morrerá? Tudo deixará de ser. Tudo quanto vemos deixará de ser um dia. Agora, diz São Tomás, se tudo quanto um dia deixará de ser é porque um dia não foi. Você não pode ser eterno para trás e deixar de ser para o futuro. Ora, tudo quanto vai deixar de ser um dia é porque um dia não foi. Se tudo quanto existe um dia não foi, é porque um dia nada existiu.

O nada absoluto é impossível porque do nada, nada pode surgir.


É preciso que haja um ente que sempre tenha sido e que, portanto, tenha tirado o restante do nada; essa é a explicação, certo?! Imagine:

Essa é a origem da idéia de criação de Deus:


Faça um esforço abstrativo, o nada se criando a si mesmo. É preciso um agente, um motor, algo que crie do nada. O nada não pode fazer-se em algo, é preciso que algo faça do nada outra coisa.




Sócrates depois veio com a primeira prova mais sólida da existência de Deus, dizia Sócrates:


“Nós vemos que os órgãos do homem contribuem para sua sobrevivência, vemos que o sol serve para fazer nascer as plantas, que as plantas servem para alimentar o homem, que os órgãos do homem se alimentam da planta para fazê-lo pesar. Tudo se destina a um fim, não é isso?”.


O Sol tem certo vínculo com relação a planta, fazendo-as crescer; a planta tem o fim de alimentar ohomem, e a chuva igualmente; os órgãos alimentam o homem para que ele possa pensar. Ora, quem criou isso tudo? Só pode ter sido uma inteligência.

Eu me lembro que já li há alguns anos um livro fabuloso. O sujeito dizia que para ele as moléculas pensam e têm vontade. Isso é fantástico. Então as moléculas reúnem-se em assembléia permanente e decidem: “Agora eu vou criar o Fulano”, e depois decidem: “Agora vamos matar esse sujeito que adora o dog alemão.” Não é possível!


Veja a que ponto de racionalismo chegamos. Você para justificar que não há um Deus que dê ordem e finalidade as coisas inventa que as moléculas, os átomos, e as células pensam e têm vontade própria, isso é fantástico.


Algum cientista alguma vez em um laboratório conversou com uma molécula? Trocou um papinho com ela? Ou seja, beiramos a irracionalidade, a absurdidade mais absoluta com isso. Para você escapar a essas absurdidades, isso é de bom senso. Não precisa ter lido a Bíblia, ser cristão, não precisa nada. É de bom senso. 


E quantos pagãos chegaram a esse bom senso?



É preciso de uma inteligência ordenadora. Um intelecto divino. Sócrates disse o que eu acabei de dizer; Platão o chamava-o Demiurgo; Aristóteles o chama o primeiro motor imóvel; Cícero, dizem, morreu clamando “causa das causas, tenha misericórdia de mim”. Veio Cristo e todo o pensamento cristão e nada disso se interrompeu até que entramos num período meio [obscuro] até se achar que as células substituem a inteligência divina. Que a inteligência celular substitui a inteligência divina.  Se tudo pressupõe um antes é porque há algo que pôs tudo isso do nada na existência. Porque do nada, nada se faz por si mesmo.

Esse é um dos assuntos mais delicados:

Nós não podemos remontar ao infinito uma série de causas existenciais. Nós podemos teoricamente supor uma sucessão ininterrupta para trás de ovo e galinha? Poderíamos; o problema é quem pôs o ovo e a galinha no mundo. Você pensar que sempre houve ovo e galinha sem que ninguém tenha posto no mundo é incorrer em absurdo. É supor que o ovo se fez a si mesmo, é cair no mesmo problema, contamos de novo: primeiro é o ovo ou a galinha? E isso não tem mais fim... A única solução para saber quem veio primeiro o ovo ou a galinha, é saber que alguém pôs o ovo e a galinha na existência tirando-os do nada.

Não podemos remontar o infinito da série de causas, é preciso haver uma causa primeira absolutamente imóvel, absolutamente imóvel no sentido de imutável, no sentido de não-corruptível, no sentido de não-mensurável segundo um antes e um depois. Mas. Sim. segundo a medida da eternidade, sem o que não se explica a própria eternidade.


Ora, todos havemos de convir que de tudo quanto conhecemos, inclusive nós mesmos, é relativo. Não é relativo? Nós somos absolutos? Nós somos donos da nossa existência? Nós nos damos o ser? Nós podemos impedir a nossa morte? E podemos ir nesse raciocínio em que tudo quanto é relativo pressupõe o absoluto e tudo quanto se move pressupõe o imóvel, e tudo o que não se corrompe pressupõe um incorruptível, e tudo quanto tem ordem pressupõem um ordenador.

Tudo quanto tem fim, pressupõe uma causa final e Deus é a causa final absoluta de tudo, como eu disse de manhã. Claro, isso é uma explicação sucinta. Só esse tema nós podemos ficar discutindo, podemos ficar uma no rebatendo na mesma tecla, apresentando as provas pelos mais diversos ângulos, apresentando as cinco vias de São Tomás, por exemplo, que são belíssimas. E naturalmente nesse pequeno tempo estou dando por pressuposto diversos conceitos com os quais alguns de vocês não têm intimidade. Mas não importa, é assim mesmo. A história pessoal do saber, o crescimento, o progresso intelectual pressupõe que o primeiro contato com a verdade seja traumático, seja difícil, seja árduo. Você vai aprendendo aos poucos. A verdade é uma selva e você vai aos poucos abrindo clareiras nela.

Lembrem-se  o intelecto humano é progressivo.

Ele é passível de progresso, tanto em termos individuais como em termos coletivos. A história da humanidade é passível de progresso individual. E exatamente o que estamos ordenados ao infinito é que somo potencialmente infinitos na própria inteligência. Claro, só Deus é infinito em ato, de fato. Um ferreiro pode trabalhar com um número potencialmente infinito de ferramentas. Você pode imaginar um número infinito de ferramentas à disposição de um ferreiro.


Ele, no entanto, vai realmente trabalhar com esse número infinito de ferramentas? Impossível. Ele é só potencialmente infinito. A mesma coisa é o nosso intelecto: é potencialmente infinito, embora nunca vá ser infinito mesmo. Repetindo o argumento anterior, para que ele seja potencialmente infinito é preciso que tenha algo que seja infinito.  




Sobre o Tempo e a eternidade do mundo — Uma questão enfrentada por Tomás de Aquino


Recebo de uma jovem universitária, estudante de Física, a seguinte questão:

“Não entendo como pode ser lógico pensar em um universo que sempre existiu. Disseram-me que S. Tomás falava que não era algo completamente ilógico pensar nisso. De fato S. Tomás disse isso? Alguns ateus afirmam que o nada é algo abstrato, que nunca existiu. Então, não fogem da lógica pensarem em universo eterno?”.



Estas perguntas são profundas e tocam um ponto teológico delicado e de difícil resolução. Tentaremos responder por partes:

PREÂMBULOS DO PROBLEMA

Antes de tudo, é preciso entender duas coisas: o que é a eternidade e o que é o tempo. Somente então se poderá responder se o mundo (tido aqui como o conjunto do universo criado) é ou não eterno.

O tempo, já dizia Aristóteles, é a medida do movimento segundo um antes e um depois, o que implica dizer duas coisas, como corolário:

a) Todo e qualquer tempo tem princípio, meio e fim;

b) Só pode haver tempo onde há movimento. Mas isto com uma ressalva importantíssima: o filósofo grego – cuja definição de tempo acatamos – não se referia ao movimento local, apenas, mas ao movimento em toda a sua abrangência metafísica.


São seis os tipos de movimento divididos em quatro categorias:


1º. Com relação à substância, geração e corrupção.

2º. Com relação qualidade, alteração;

3º. Com relação à quantidade, aumento e diminuição; e

4º. Com relação ao lugar, translação.


Pois bem. Em todos estes casos se dá o trânsito da potência ao ato, ou, em palavras simples, de uma possibilidade e/ou tendência real a uma atualidade. Por exemplo: a madeira, quando pega fogo, transitou da potência para assumir a forma do fogo ao ato de assumi-la efetivamente – e tal movimento pressupôs um tempo para suceder.

A propósito, o tempo é justamente isto:

Sucessão cronométrica, medida das coisas que mudam ou se movimentam segundo um antes e um depois. Destaco isto porque há outros tipos de sucessão (ou de ação) que não implicam imersão na ordem temporal, como a sucessão evométrica, a que se dá no evo (o intermediário entre o tempo e a eternidade), e o agora permanente (nunc stans) no qual se dá o agir divino[1]. Mas este é assunto impossível de aprofundar nesta breve resposta.

Fiquemos apenas com as características destes três tipos mencionados de duração:

1)- Na sucessão cronométrica, o móvel altera a sua disposição entitativa substancial e/ou acidental ao longo do movimento, como no caso da madeira que corrompeu a sua forma específica para assumir a do fogo; no do homem cujos órgãos envelhecem até que adoeça e morra; ou ainda no de um homem que corre e, durante o percurso, flecte e tensiona alguns músculos. Nos dois primeiros exemplos, a mudança foi substancial; no terceiro, acidental. Em ocasiões tais, há duração sucessiva, multiforme e finita nas ordens substancial e acidental – e, por conseguinte, cronológica. É o tempo.


2)- Na sucessão evométrica, o móvel não altera a sua disposição entitativa substancial, embora transite acidentalmente da potência ao ato, como no caso do anjo, que, ao entender algo na ordem natural[2], apenas atualiza um conhecimento virtual que já possuía, graças às formas inteligíveis infundidas em sua inteligência por Deus. Em resumo, o antes e o depois do conhecimento natural do anjo não mudam nenhuma de suas disposições entitativas no tocante à substância, que é imaterial. Mas mudam-nas quanto aos acidentes. Aqui, portanto, a duração do movimento é simultânea, uniforme e finita na ordem substancial, porém multiforme e sucessiva na ordem acidental (conhecimento, operações, amor angélico, ódio diabólico). É o evo, ou eviternidade.

3)- No agora permanente da ação criadora de Deus não há alteração de nenhuma ordem, sendo aqui a duração simultânea, uniforme e infinita em sentido absoluto. Em suma, nem o tempo nem o evo podem ser a medida do Ser divino, pois o que é ato puro não pode ser medido pelo que tem mescla de potência. E aqui se dá propriamente a eternidade, a imutabilidade absoluta quanto ao ser – dado que a ação criadora de Deus acontece sem qualquer movimento na perspectiva metafísica.


Da eternidade, a propósito, dizia Boécio:


Que é a posse total, simultânea e perfeita da vida interminável. Perguntando-se se esta famosa definição é correta (Suma Teológica, I, q. 10, art. 1), Santo Tomás ensina que se chega ao conceito de eternidade a partir do de tempo, ou seja: chega-se às essências simples a partir das compostas, dado não termos a intuição direta dos inteligíveis – chamada por alguns zubirianos, equivocadamente, de “cognição instantânea”.


Observa o Aquinate não ser possível distinguir um antes e um depois em algo que seja absolutamente imóvel quanto ao ser, razão pela qual define a eternidade como a uniformidade do [Ser] que em sentido absoluto está isento de movimento[3].

A partir destas premissas, o conceito de eternidade se forja em dois vetores:

1)- primeiro, pelo fato de o eterno caracterizar-se por ser interminável, quer dizer, não ter princípio nem fim;

2)- segundo, porque na eternidade assim entendida não pode existir sucessão, sendo ela tota simul existens.

“Estabelecidos estes princípios, vale dizer que o tempo, o evo e a eternidade são três tipos de duração no ser.”



E são essencialmente distintos porque referidos às realidades para as quais servem como medida de duração, numa escala em que o mais abarca o menos: Deus, substâncias separadas da matéria e entes compostos de matéria e forma. Neste contexto, o agora (nunc) do tempo está incluído no agora do evo e no da eternidade; o agora do evo se inclui no de eternidade; e o agora eterno é a medida de todas as durações, porque é o horizonte possibilitante delas, a permanência absoluta e infinita no ser – sem a qual sequer poderia haver durações relativas e finitas. Noutras palavras, não haveria tempo nem evo se não houvesse algo propriamente (simpliciter) eterno, ou seja, Deus.


Outro aspecto necessário a destacar para responder devidamente à indagação da jovem estudante de Física é o seguinte: a eternidade, em sentido absoluto, é uma propriedade exclusiva do Próprio Ser Subsistente, que é Deus. Todas as demais eternidades serão formalmente uma participação na eternidade divina — caso das almas e dos anjos. A premissa que serve de base para esta conclusão é a seguinte: como a eternidade está inextricavelmente unida à imobilidade metafísica, sendo Deus o único Ente absolutamente imóvel, ato puro sem mescla de potência passiva alguma, só a Ele caberá ser propriamente eterno. Daí Santo Tomás dizer o seguinte: na medida em que os entes recebem de Deus algum grau de imutabilidade (por exemplo: a forma das substâncias separadas da matéria) se diz que participam de Sua eternidade[4] (quod aliqua ab ipso immutabilitatem percipiunt, secundo hoc aliqua eius aeternitatem participant).

Mais um ponto a destacar - A diferença entre o tempo e a eternidade:

1º)- A ordem temporal é a medida do movimento que abarca as substâncias compostas de matéria e forma e seus respectivos acidentes;

2º)- A eternidade é a medida da absoluta permanência do ser (mensura esse permanentis).


Assim, o fato de o tempo ter princípio meio e fim e de a eternidade não ter princípio nem fim será considerado por Santo Tomás como diferença acidental, porque, ainda na hipótese de que o tempo não tivesse tido princípio nem pudesse ter fim, como postulavam os filósofos medievais para quem que o movimento dos céus seria sempiterno, ainda restaria a diferença de que a eternidade é tota simul existens, o que não convém ao tempo, devido ao fato de este ser a mensura das coisas que mudam e se movimentam segundo um antes e um depois.


Pois bem, explicados em linhas generalíssimas o tempo, o evo e a eternidade, voltemos ã pergunta: não seria absurdo conceber racionalmente a eternidade do mundo?

O QUE SANTO TOMÁS ENTENDE POR “ETERNIDADE DO MUNDO”, E COMO SOLUCIONA A QUESTÃO?


O problema abordado — e resolvido brilhantemente — pelo Aquinate no opúsculo De Aeternitate Mundi contra Murmurantes, estando entre os murmurantes ninguém menos que São Boaventura e agostinianos que, no século XIII, viam um risco na assimilação de Aristóteles pelo Cristianismo, era o seguinte:

Partindo da premissa de que a criação é algo que a razão natural pode demonstrar apodicticamente com razões mais do que suficientes, a pergunta feita por Santo Tomás será a seguinte:

“O mundo, ou seja, o incomensurável conjunto de todos os entes naturais que perfazem o universo, foi criado desde a eternidade ou no tempo? Pode a razão humana resolver filosoficamente este problema?”



Ora, vimos acima que, propriamente eterno, só Deus, sendo as demais coisas eternas partícipes da eternidade divina — sem a qual nada seriam; daí alguns tomistas afirmarem que:

“Deus não é apenas eterno, mas é a ratio æternitatis, ou seja, a razão de ser da eternidade.”


Assim, na hipótese de que o mundo tenha sido criado desde a eternidade, e não no tempo, restará concluir que ele é eterno por participação. Neste contexto, é importante ressalvar que em nenhum momento considerou o Aquinate a possibilidade de o mundo ser eterno simpliciter, pois “se se entendesse que, à margem de Deus, o mundo pudesse ter existido desde sempre como sendo algo eterno independentemente d’Ele, isto seria um erro abominável”[5], e nem que fosse possível um infinito material, intrinsecamente absurdo, dado que o infinito não pode ser uma magnitude.

Reiteremos, portanto, o ponto crucial do problema de responder — filosófica e teologicamente — à afirmação de Aristóteles de que o mundo é eterno: ele foi criado no tempo ou desde a eternidade?


Nas palavras do Santo no referido opúsculo, utrum possibile sit aliquid fieri quod semper fuerit, ou seja: seria possível conceber um ente criado que tenha existido desde sempre? Isto deixa de lado qualquer dúvida de que se tratasse de mundo eterno em sentido absoluto; não, não era este o caso, mas sim o de saber se existem criaturas ab aeterno.

A conclusão do Aquinate no De Aeternitate e noutros pontos de sua obra é de que:

“A razão não pode concluir com segurança nem que o mundo foi criado no tempo, nem que foi criado desde a eternidade. Afirma ele que sabemos, como fiéis católicos, ter sido o mundo criado no tempo graças ao dado revelado na Sagrada Escritura, mas este artigo de fé não pode ser demonstrado filosoficamente — como pode sê-lo, por exemplo, o de que Deus é criador e mantenedor das coisas no ser.”


Vale muito a pena ler este opúsculo, que encontramos na internet em tradução do medievalista Jose Ignacio Saranyana.

Nele, as várias respostas às objeções levam o gênio medieval a concluir que não repugna à razão pensar que o mundo tenha sido feito desde a eternidade, nem que tenha sido criado no tempo.


Para entender tudo isso, evidentemente, é preciso ir um além da concepção localista e materialista que algumas correntes predominantes da física, desde os primórdios do século XX, foram criando de tempo e de movimento.

Em suma, é preciso ir além da física, ou seja: partir dos princípios universalíssimos da metafísica, que servem de base para todas as ciências.

____________________________

1-Citado, entre outros lugares, em Suma Teológica, I, q. 10, art. 2, ad. 2.

2- Digo conhecimento natural porque é possível ao anjo receber um conteúdo inteligível absolutamente sobrenatural, por iluminação divina, por exemplo.

3- “In apprehensione uniformitatis eius quod est omnino extra motum, consistit ratio aeternitatis”. Cfme. Suma Teológica, I, q. 10, art. 1, resp.

4- “(...) quod aliqua ab ipso immutabilitatem percipiunt, secundo hoc aliqua eius aeternitatem participant”. Suma Teológica, I, q. 10, art. 3, resp.

5- De Aeternitate Mundi, nº 1.



Da Eternidade de Deus



Nesta questão discutem-se seis artigos:

1. O que é a eternidade;
2. Se Deus é eterno;
3. Se ser eterno é próprio de Deus;
4. Se a eternidade difere do tempo;
5. Se a eternidade difere do evo e do tempo;
6. Se há só um evo, como há só um tempo e uma só eternidade.


ART. I –– SE É BOA A SEGUINTE DEFINIÇÃO DA ETERNIDADE:

“A POSSE TOTAL, SIMULTÂNEA E PERFEITA DE UMA VIDA  INTERMINÁVEL”


(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 1; De Causis, lect. II).


O primeiro discute-se as objeções assim:

“Parece que não é boa a definição de eternidade, que dá Boécio: a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável” [1].
1.Pois, "interminável" é um conceito negativo. Ora, a negação é própria à noção de deficiência, que não convém à eternidade. Logo, na definição desta não deve entrar a palavra interminável.
2. Demais:A eternidade implica uma espécie de duração. Ora, esta é própria, mais do ser, que da vida. Logo, a palavra vida não se devia incluir na noção de eternidade, mas, antes a de ser.
3. Demais:Chama-se totalidade o que tem partes. Ora, isto não pode convir à eternidade, que é simples. Logo, é mal aplicada na definição a palavra total.
4. Demais:Nem vários dias, nem vários tempos podem existir simultaneamente. Ora, na eternidade distinguem-se muitos dias e tempos, pois diz a Escritura (Mq 5, 2): Cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade; e (Rm 16, 25): segundo a revelação do mistério encoberto desde tempos eternos. Logo, a eternidade não é total e simultânea.
5. Demais:“Todo” é idêntico a “perfeito”. Ora, se já se incluiu na definição a palavra total, é inútil acrescentar perfeita.
6. Demais:A posse não é própria da duração. Ora, a eternidade é uma duração. Logo, não é posse.

SOLUÇÃO:

Assim como devemos partir do simples para chegar ao conhecimento do composto, assim devemos partir do tempo para chegar ao conhecimento da eternidade. Ora, o tempo não é senão o número das partes do movimento, por anterioridade e posteridade. Pois, como em qualquer movimento, a uma parte sucede outra, pela enumeração das diversas partes, anteriores e posteriores, apreendemos o tempo, que não é senão o número do que é anterior e posterior, no movimento. Mas, onde não há movimento, mas, sempre o mesmo modo de existir, não se pode descobrir anterioridade e posteridade. Por onde, assim como a essência do tempo consiste na enumeração do que é anterior e posterior no movimento, assim, a da eternidade, consiste na apreensão da uniformidade do que está absolutamente fora do movimento. –– Demais. Consideram-se medidas pelo tempo as coisas que nele têm princípio e fim, como diz Aristóteles [2]; e isto, porque tudo o que é movido inclui um princípio e um fim. Logo, o que é absolutamente imutável, não tendo sucessão, também não pode ter princípio nem fim. –– Assim, pois, por duas características se conhece a eternidade: o que nela está é interminável, isto é, não tem princípio nem fim, duas noções que implica o termo, e em segundo lugar, justamente por não ter sucessão, a eternidade existe total e simultaneamente.


DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO:( 1.Pois, "interminável" é um conceito negativo. Ora, a negação é própria à noção de deficiência, que não convém à eternidade. Logo, na definição desta não deve entrar a palavra interminável):


Costuma-se definir o que é simples, por negação; assim, ponto é o que não tem parte; mas isto não quer dizer, que a negação seja a essência de tais seres, senão que o nosso intelecto, apreendendo primeiro o composto, só pode chegar ao conhecimento do simples, removendo a composição.


RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO (2. Demais - A eternidade implica uma espécie de duração. Ora, esta é própria, mais do ser, que da vida. Logo, a palavra vida não se devia incluir na noção de eternidade, mas, antes a de ser):

O que é verdadeiramente eterno não só é ser, como também vivente; e a vida se estende, de certo modo, até à operação, mas não ao ser. Ora, a extensão da duração parece que deve ser considerada relativamente à operação, antes que relativamente ao ser; e, por isso, o tempo é o número do movimento.


RESPOSTA À TERCEIRA  OBJEÇÃO (3. Demais - Chama-se totalidade o que tem partes. Ora, isto não pode convir à eternidade, que é simples. Logo, é mal aplicada na definição a palavra total):

Diz a definição, que a eternidade é total, não por ter partes, mas, porque nada lhe falta.


RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO (4. Demais:Nem vários dias, nem vários tempos podem existir simultaneamente. Ora, na eternidade distinguem-se muitos dias e tempos, pois diz a Escritura (Mq 5, 2): Cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade; e (Rm 16, 25): segundo a revelação do mistério encoberto desde tempos eternos. Logo, a eternidade não é total e simultânea):

Assim como a Deus, embora incorpóreo, a Escritura aplica, metaforicamente, nomes de coisas corpóreas, assim também à eternidade, que existe total e simultaneamente, aplica a denominação própria do que é sucessivo no tempo.

RESPOSTA À QUINTA OBJEÇÃO (5. Demais:“Todo” é idêntico a “perfeito”. Ora, se já se incluiu na definição a palavra total, é inútil acrescentar perfeita):

O tempo pode ser considerado, em si mesmo, como sucessivo, ou em um dos seus momentos, que é imperfeito. Ora, a definição diz –– total e simultaneamente –– para excluir o tempo; e, perfeita, para excluir o momento temporal.

RESPOSTA À SEXTA OBJEÇÃO (6. Demais:A posse não é própria da duração. Ora, a eternidade é uma duração. Logo, não é posse):

O que é possuído o é firme e tranqüilamente; e, por isso, para designar a imutabilidade e a indeficiência da eternidade a definição empregou a palavra posse.


ART. II - SE DEUS É ETERNO

(I Sent., dist. XIX, q. 2, art. 1; I Cont. Gent., cap. XV; De Pot., q. 3, a. 17, ad 23; Compend Theol., cap. V, VIII).

O segundo discute-se assim: Parece que Deus não é eterno.

1. Pois, nada do que lhe é feito lhe pode ser atribuído. Ora, a eternidade é feita, conforme a expressão de Boécio: O momento que passa constitui o tempo; o que permanece, a eternidade [3]; e Agostinho : Deus é o autor da eternidade. Logo, Deus não é eterno [4].

2. Demais. – O anterior e o posterior à eternidade por ela não se mede. Ora, Deus é anterior, como diz o livro De Causis; e posterior, conforme a Escritura (Ex 15, 18): O Senhor reinará eternamente e além da eternidade. Logo, ser eterno não é próprio de Deus.

3. Demais. –A eternidade é uma espécie de medida. Ora, a Deus não convém ser medido. Logo, nem ser eterno.

4. Demais. –A eternidade não tem presente, pretérito, nem futuro, porque existe total e simultaneamente, como se disse (a. 1). Ora, a Escritura aplica a Deus palavras que exprimem os tempos presente, pretérito e futuro. Logo, Deus não é eterno.

Mas, em contrário, diz Atanásio: Eterno Padre, Eterno Filho, Eterno Espírito Santo. [5]

SOLUÇÃO:

A noção da eternidade resulta da imutabilidade, como a de tempo resulta do movimento, conforme do sobredito resulta (a. 1). Ora, sendo Deus o ser imutável por excelência, convém-lhe, excelentemente, a eternidade. Nem só é eterno, mas é a sua eternidade, ao passo que nenhuma coisa é a própria duração, porque não é o próprio ser. Deus, porém, sendo o seu ser uniformemente e a sua própria essência, há de, necessariamente, ser a sua eternidade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO:( 1. Pois, nada do que lhe é feito lhe pode ser atribuído. Ora, a eternidade é feita, conforme a expressão de Boécio: O momento que passa constitui o tempo; o que permanece, a eternidade [3]; e Agostinho : Deus é o autor da eternidade. Logo, Deus não é eterno [4] ):

Pela nossa apreensão é que se diz que o momento permanente constitui a eternidade. Pois, assim, como a nossa apreensão do tempo tem a sua causa no apreendermos o fluxo mesmo do momento, assim procede em nós a apreensão da eternidade, de apreendermos o momento permanente. E a expressão de Agostinho –– Deus é o autor da eternidade –– entende-se da eternidade participada. Pois, Deus comunica a sua eternidade a certos seres, do mesmo modo por que comunica a sua imutabilidade.


RESPOSTA À SEGUNDA  OBJEÇÃO(2. Demais. – O anterior e o posterior à eternidade por ela não se mede. Ora, Deus é anterior, como diz o livro De Causis; e posterior, conforme a Escritura (Ex 15, 18): O Senhor reinará eternamente e além da eternidade. Logo, ser eterno não é próprio de Deus):


E daqui se deduz clara a resposta à segunda objeção -  Pois, diz-se que Deus é anterior à eternidade, enquanto participado pelas substâncias materiais; e, por isso, o mesmo livro diz, que a inteligência se alça ao nível da eternidade. E na expressão do Êxodo: o Senhor reinará eternamente e além da eternidade –– eternamente é empregado no sentido de século, como se lê em outra versão. Assim, pois, diz-se que reinará além da eternidade, porque dura mais que qualquer século, i. é, além de qualquer duração dada; pois, século não é mais que o período de um ser, como diz Aristóteles [6]. Ou ainda, diz-se que reina além da eternidade, porque, se alguma coisa existisse sempre, como o movimento do céu, segundo certos filósofos, ainda Deus reinaria mais, porque o seu reino existe total e simultaneamente.


RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO (3. Demais. – A eternidade é uma espécie de medida. Ora, a Deus não convém ser medido. Logo, nem ser eterno):

A eternidade não é outra coisa senão Deus. Por onde, diz-se que Deus é eterno, não porque seja, de certo modo, medido; pois, a noção de medida emprega-se aí só para auxiliar nossa apreensão.


RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO (4. Demais. –A eternidade não tem presente, pretérito, nem futuro, porque existe total e simultaneamente, como se disse (a. 1). Ora, a Escritura aplica a Deus palavras que exprimem os tempos presente, pretérito e futuro. Logo, Deus não é eterno):

As palavras que designam os diversos tempos atribuem-se a Deus, porque a sua eternidade os inclui a todos; não, porém, que ele encerre qualquer variação, que se desenvolva no presente, no
pretérito e no futuro.

ART. III - SE SER ETERNO É PRÓPRIO SÓ DE DEUS ?

(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; IV, dist. XLIX, q. 1, a. 2, qa 3; Quodl., X, q. 2; De Div. Nom., cap.X, lect. III; De Causis, lect. II).

O terceiro discute-se assim: Parece que ser eterno não é próprio de Deus.


1. – Pois, diz a Escritura (Dn 12, 3): E os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça, esses luzirão como as estrelas por todas as eternidades. Ora, não haveria várias eternidades se só Deus fosse eterno. Logo, nem só ele o é.

2. Demais. – Diz ainda a Escritura (Mt 25, 41): Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. Logo, nem só Deus é eterno.

3. Demais. –– Todo necessário é eterno. Ora, há muitas coisas necessárias, como p. ex., todas as proposições demonstrativas. Logo, nem só Deus é eterno.

Mas, em contrário, diz Jerônimo a Dámaso: Só Deus não tem princípio [7]. Ora, tudo o que tem princípio não é eterno. Logo, só Deus é eterno.


SOLUÇÃO:

A eternidade, verdadeira e propriamente, só a Deus convém; pois resulta da imutabilidade, como já vimos (a. 1), e só Deus é absolutamente imutável, segundo estabelecemos (q. 9 a. 2). E, na medida em que os seres dele recebem a imutabilidade, nessa mesma lhe participam da eternidade. Ora, há certos seres que recebem de Deus a imutabilidade, de modo tal que nunca mais deixam de existir; e, neste sentido, a Escritura (Ecl 1, 4) diz que a terra permanece sempre firme. Há outros seres que, na Escritura, também se denominam eternos, por durarem diuturnamente, embora sejam corruptíveis; assim os montes chamam-se eternos (Sl 45, 5) e fala-se dos frutos eternos (Dt 33, 15). Mas, há ainda outros seres, que mais amplamente participam da eternidade, por terem o ser incorruptível ou mesmo, além disso, imutável a operação, como os anjos e os bem-aventurados, que gozam do Verbo; pois, quanto à visão do Verbo, não são mutáveis as cogitações dos santos, conforme diz Agostinho8. Por isso se diz que os que vêem a Deus possuem a vida eterna, segundo a Escritura (Jo 17, 3): A vida eterna porém consiste em que eles te conheçam por um só verdadeiro Deus, etc.


DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO (1. – Pois, diz a Escritura (Dn 12, 3): E os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça, esses luzirão como as estrelas por todas as eternidades. Ora, não haveria várias eternidades se só Deus fosse eterno. Logo, nem só ele o é):

Consideram-se muitas as eternidades, por serem muitos os que dela participam, contemplando a Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA  OBJEÇÃO (2. Demais. – Diz ainda a Escritura (Mt 25, 41): Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. Logo, nem só Deus é eterno):


O fogo do inferno chama-se eterno, só por ser interminável. Há, porém, mudança nas penas dos condenados, como se vê na Escritura (Jó 24, 19): Ele passa das águas da neve para um excessivo calor. Por onde, no inferno não há verdadeira eternidade, mas antes, tempo, conforme a mesma Escritura (Sl 80, 16): E durará o tempo deles por todos os séculos.


RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO(3. Demais. –Todo necessário é eterno. Ora, há muitas coisas necessárias, como p. ex., todas as proposições demonstrativas. Logo, nem só Deus é eterno):


Necessário significa um certo modo de ser da verdade, pois esta, segundo o Filósofo [9], está no intelecto. O verdadeiro e o necessário são, assim, eternos por existirem num intelecto eterno, que é só o divino. Donde não se segue, que alguma coisa, fora de Deus, seja eterna (Grifos meus- Ex.: O nada, a escuridão e o frio).


ART. IV. - SE A ETERNIDADE DIFERE DO TEMPO ?

(Infra, a. 5; I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; dist. XIX, q. 2, a. 1; De Pot., q. 3, a. 14, ad 10, 18; De Div. Nom., cap. X, lect. III)

O quarto discute-se assim: “Parece que a eternidade não difere do tempo.”


1. – Pois, é impossível existirem duas medidas simultâneas de duração, se uma for parte da outra; assim, não podem existir simultaneamente dois dias ou duas horas, ao passo que a hora e o dia são simultâneos porque aquela faz parte deste. Ora, a eternidade e o tempo existem simultaneamente e ambos implicam uma certa medida da duração. Logo, a eternidade, não sendo parte do tempo, porque o excede e o inclui, resulta que este é parte daquela e dela não difere.
2. Demais - Segundo o Filósofo [10], o momento temporal permanece idêntico a si mesmo na totalidade do tempo. Ora, isto mesmo é o que constitui a essência da eternidade, a saber, permanecer indivisivelmente idêntica a si mesma em todo decurso do tempo. Logo, a eternidade é um momento temporal. Ora, este não difere essencialmente do tempo. Logo, deste não difere substancialmente a eternidade.
3. Demais - Assim como a medida do primeiro movimento é a medida de todos os outros, segundo Aristóteles [11], assim também a medida do primeiro ente há-de ser a de todos os demais. Ora, a eternidade mede o ser primeiro, que é o divino. Logo, mede todos os demais seres. E como o ser das coisas corruptíveis é medido pelo tempo, este ou é a eternidade ou parte dela. Mas, em contrário, a eternidade existe toda simultaneamente. Ora, no tempo há anterioridade e posterioridade. Logo, não se identificam.

SOLUÇÃO:

É claro que o tempo não se identifica com a eternidade. A razão da diversidade deles, porém, alguns a descobriram em a eternidade não ter princípio nem fim e o tempo tê-los. Mas, esta diferença é acidental e não essencial, porque, dado que o tempo sempre existiu e sempre existirá, permanece ainda, admitindo-se a opinião dos que consideram sempiterno o movimento do céu, uma diferença entre a eternidade e o tempo, como diz Boécio [12]. Essa consiste em ser a eternidade a medida do permanente e o tempo, a do movimento; pois, a primeira existe toda simultaneamente e o tempo, não. Se, porém, considerarmos a diferença referida, relativamente ao medido, e não às medidas, então a doutrina em questão tem certo fundamento. Pois, só é medido pelo tempo o que tem princípio e fim temporais, como diz Aristóteles [13]. Por onde, se o movimento do céu durasse sempre, o tempo não o mediria na totalidade da sua duração, porque o infinito não é mensurável; medir- lhe-ia, porém, os círculos, que têm princípio e fim temporais. Podemos ainda descobrir outro fundamento na opinião que discutimos, relativamente às medidas mesmas, se considerarmos o fim e o princípio, potencialmente. Pois, mesmo dado que o tempo dure sempre, ainda assim seria possível descobrir nele princípio e fim, considerando-lhe as partes, no sentido em que falamos do princípio e do fim do dia ou do ano. Ora, isto não pode convir à eternidade, embora tais diferenças resultem da diferença primária e essencial, a saber, que a eternidade existe toda simultaneamente, e o tempo, não.


DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO (1. – Pois, é impossível existirem duas medidas simultâneas de duração, se uma for parte da outra; assim, não podem existir simultaneamente dois dias ou duas horas, ao passo que a hora e o dia são simultâneos porque aquela faz parte deste. Ora, a eternidade e o tempo existem simultaneamente e ambos implicam uma certa medida da duração. Logo, a eternidade, não sendo parte do tempo, porque o excede e o inclui, resulta que este é parte daquela e dela não difere):

A objeção procederia se o tempo e a eternidade fossem medidas do mesmo gênero; o que, evidentemente é falso, dadas as naturezas daquele e desta.


RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO(2. Demais - Segundo o Filósofo [10], o momento temporal permanece idêntico a si mesmo na totalidade do tempo. Ora, isto mesmo é o que constitui a essência da eternidade, a saber, permanecer indivisivelmente idêntica a si mesma em todo decurso do tempo. Logo, a eternidade é um momento temporal. Ora, este não difere essencialmente do tempo. Logo, deste não difere substancialmente a eternidade):


O momento temporal constitui um mesmo sujeito, em todo o decurso do tempo, mas não na concepção racional. Pois, assim como o tempo corresponde ao movimento, assim o momento temporal, ao móvel. Ora, este é um mesmo sujeito em todo decurso do tempo, mas muda na concepção racional, segundo está aqui ou acolá. E essa alternação constitui o movimento, do mesmo modo que o fluxo do momento, enquanto alternado racionalmente, constitui o tempo. A eternidade, ao contrário, permanece a mesma quanto ao sujeito e quanto à nossa concepção. Logo, não se identifica com o momento temporal.

RESPOSTA À TERCEIRA  OBJEÇÃO (3. Demais - Assim como a medida do primeiro movimento é a medida de todos os outros, segundo Aristóteles [11], assim também a medida do primeiro ente há-de ser a de todos os demais. Ora, a eternidade mede o ser primeiro, que é o divino. Logo, mede todos os demais seres. E como o ser das coisas corruptíveis é medido pelo tempo, este ou é a eternidade ou parte dela. Mas, em contrário, a eternidade existe toda simultaneamente. Ora, no tempo há anterioridade e posterioridade. Logo, não se identificam):


Assim como a eternidade é a medida do ser em si mesmo, assim o tempo é a medida própria do movimento. Por onde, na medida em que um ser se afasta da existência permanente e sujeita-se à mudança, nessa mesma se afasta da eternidade e se sujeita ao tempo. Logo, o ser das coisas corruptíveis, sendo mutável, não é medido pela eternidade, mas, pelo tempo. Pois, este mede não só o que atualmente muda, mas também o que é suscetível de mudança e, portanto, mede, não só o movimento, mas também o repouso, próprio ao ser ao qual o movimento é natural embora não seja atualmente movido.

ART. V –– SE O EVO DIFERE DO TEMPO

(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; dist. XIX, q. 2, a. 1; II, dist. 2, q. 1, a 1; De Pot., q. 3, a. 14, ad 18; Quodl., X, q. 2).

O quinto discute-se assim: Parece que o EVO não difere do tempo.

1.Pois, diz Agostinho, que Deus move as criaturas espirituais no tempo [14]. Ora, entende-se por evo a medida das substâncias espirituais. Logo, o tempo não difere do evo.

2. Demais - É da essência do tempo ter anterioridade e posterioridade, ao passo que a eternidade, por essência, existe toda simultaneamente, como já dissemos (a. 1). Ora, o evo não é a eternidade, pois diz a Escritura (Ecle 1, 1), que a sabedoria eterna é anterior ao evo. Logo, este não existe todo simultaneamente mas tem anterioridade e, portanto, é tempo.
3. Demais - Se no evo não há anterioridade e posterioridade, segue-se que nos seres eviternos não há diferença entre ser, ter sido, ou haver de ser. Ora, como é impossível tais seres não tenham existido, segue-se que é impossível não hajam de ser, o que é falso, porque Deus pode reduzi-los a nada.
4. Demais - A duração dos seres eviternos sendo infinita, na sua continuidade, se o evo existe total e simultaneamente, segue-se que há seres criados atualmente infinitos, o que é impossível. Logo, o evo não difere do tempo.

Mas, em contrário, diz Boécio: Tu que fazes sair o tempo, do evo [15].


SOLUÇÃO:

O evo difere do tempo e da eternidade, sendo o termo médio entre ambos. Esta diferença, porém, uns a descobrem em que a eternidade não tem princípio nem fim; o evo tem princípio, mas não tem fim; e o tempo tem princípio e fim. Mas esta diferença é acidental, como já dissemos, pois mesmo que os seres eviternos tivessem existido sempre e sempre houvessem de existir; e mesmo que viessem a deixar de existir um dia, o que Deus poderia fazer, mesmo assim, o evo se distinguiria da eternidade e do tempo.

Outros, porém, descobrem a diferença em que a eternidade não tem antes nem depois; o tempo tem antes e depois, implicando inovação e antiguidade; e o evo tem antes e depois, mas, sem renovação e antiguidade.Mas, esta opinião implica contradição, que manifestamente ressalta, se a renovação e a antiguidade se referirem à medida mesma. Pois, não podendo ser simultâneos o anterior e o posterior da duração, se o evo tem antes e depois, é necessário que, desaparecendo uma parte anterior, sobrevenha, como renovamento, a que lhe sucede; e, desde logo, haveria no evo renovação, como no tempo. Se, porém, se referirem às coisas medidas, também daí resultam inconvenientes. Pois, as coisas temporais envelhecem no tempo, porque têm o ser transmutável; e é dessa transmutabilidade que resultam o antes e o depois do tempo, como se vê em Aristóteles [16]. Se, portanto, o sujeito de eviternidade não envelhece nem se renova temporalmente, é porque tem o ser intransmutável. Logo, a sua medida não tem antes nem depois.

Devemos, portanto, admitir que, sendo a eternidade a medida do ser permanente, na medida em que uma criatura se afasta da permanência do ser, nessa mesma se afasta da eternidade. Ora, certas se afastam de modo tal, que o ser delas está sujeito à transmutação ou nesta consiste. Outras, porém, afastam-se menos, porque o ser delas nem consiste na transmutação, nem está sujeito a esta; contudo tem a transmutação adjunta, atual ou potencialmente. E isto bem se vê nos corpos celestes cujo ser substancial é intransmutável mas tem adjunto o movimento local. O mesmo se dá com os anjos, que têm o ser intransmutável, mas variável quanto à eleição, na medida em que isso lhes pertence à natureza; e variável, ainda, pelos pensamentos, pelos afetos, e a seu modo, localmente. Por isso medem-se pelo evo, meio termo entre a eternidade e o tempo. Ora, o ser que se mede pela eternidade, nem é mutável, nem admite nenhuma espécie de mudança; assim pois, no tempo, há antes e depois; no evo, não há, mas pode vir conjuntamente com eles; a eternidade não os tem, nem com eles é compatível.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO(1.Pois, diz Agostinho, que Deus move as criaturas espirituais no tempo [14]. Ora, entende-se por evo a medida das substâncias espirituais. Logo, o tempo não difere do evo):

As criaturas espirituais, quanto aos afetos e pensamentos, em que há sucessão, medem-se pelo tempo; e, por isso, diz Agostinho [17], que ser movido no tempo é ser movido quanto aos afetos. Quanto ao ser natural, porém, elas são medidas pelo evo. E, por fim, quanto à visão da glória, participam da eternidade.


RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO (2. Demais - É da essência do tempo ter anterioridade e posterioridade, ao passo que a eternidade, por essência, existe toda simultaneamente, como já dissemos (a. 1). Ora, o evo não é a eternidade, pois diz a Escritura (Ecle 1, 1), que a sabedoria eterna é anterior ao evo. Logo, este não existe todo simultaneamente mas tem anterioridade e, portanto, é tempo):

O evo existe todo e simultaneamente; não é porém a eternidade, porque em si comporta antes e depois.


RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO (3. Demais - Se no evo não há anterioridade e posterioridade, segue-se que nos seres eviternos não há diferença entre ser, ter sido, ou haver de ser. Ora, como é impossível tais seres não tenham existido, segue-se que é impossível não hajam de ser, o que é falso, porque Deus pode reduzi-los a nada):


No ser do anjo em si mesmo considerado, não há diferença do pretérito e futuro, senão só por mutações adjuntas. Mas, quando dizemos que o anjo é, foi ou há-de ser, isso implica diferença na acepção do nosso intelecto, que compreende o ser angélico por comparação com as diversas partes do tempo. E quando o nosso intelecto diz, que o anjo é ou foi, supõe algo de incompatível com a suposição contrária, mesmo para o poder divino; e quando diz que será, não faz ainda tal suposição. Ora, o ser e o não-ser do anjo, dependendo do poder divino, Deus pode, absolutamente falando, fazer com que o ser dele não venha a existir; não pode, porém, fazer que não exista, existindo; ou que não seja, depois que foi.


RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO (4. Demais - A duração dos seres eviternos sendo infinita, na sua continuidade, se o evo existe total e simultaneamente, segue-se que há seres criados atualmente infinitos, o que é impossível. Logo, o evo não difere do tempo):

A duração do evo é infinita, porque não tem limites no tempo. Por onde, não é inconveniente existir uma criatura infinita, por não ser limitada por nenhuma outra.


ART. VI – SE HÁ SÓ UM EVO


(II Sent., dist. II, q. 1, a. 2; Quodl., V, q. 4; Opusc. XXXVI, De Instant., cap. III).

O sexto discute-se assim: Parece que não há um só evo.

1.Pois, diz o livro apócrifo de Esdras (III, IV, 40): a majestade e o poder dos evos está em ti, Senhor.

2. Demais - Gêneros diversos têm medidas diversas. Ora, certos seres eviternos –– os corpos celestes –– pertencem ao gênero das coisas corpóreas; outros, porém –– os anjos –– são substâncias espirituais. Logo, não há um só evo.

3. Demais - Designando o evo a duração, os seres que têm o mesmo evo têm a mesma duração. Ora, nem todos os seres eviternos têm a mesma duração, porque uns começam a existir depois de outros, bem o demonstram as almas humanas. Logo, não há um só evo.

4. Demais - Seres que não dependem uns dos outros não têm a mesma medida de duração; por isso é que todas as coisas temporais são medidas pelo mesmo tempo, porque a causa de todos os movimentos é, de certo modo, o primeiro movimento, medido pelo primeiro tempo. Ora, os seres eviternos não dependem uns dos outros. Logo, não há um só evo.


Mas, em contrário - O evo é mais simples que o tempo e mais se aproxima da eternidade. Ora, o tempo é um só. Logo, com maior razão, o evo.


SOLUÇÃO:

Sobre este assunto houve duas opiniões. Uns dizem que o evo é um só e outros, que muitos. Para sabermos qual delas é a mais verdadeira, devemos considerar a causa da unidade do tempo, pois pelo conhecimento do corporal, chegamos ao do espiritual.

Assim, uns dizem que há um só tempo para todos os seres corpóreos, porque só há um número para todas as coisas numeradas; pois, o tempo é número, segundo o Filósofo [18]. Mas, isto não basta, porque o tempo não é um número separado da coisa numerada, mas, nesta existente; do contrário, não seria contínuo, pois a continuidade de dez braças de pano, por exemplo, não está em um número, mas no pano numerado. Ora, o número existente nos numerados não é o mesmo para todos, mas cada um tem o seu.


Por isso, outros querem ver a causa da unidade do tempo na unidade da eternidade, princípio de toda duração. De modo que todas as durações se reduzem a uma, se lhes considerarmos o princípio; são muitas, pelo contrário, se considerarmos a diversidade dos seres que recebem a duração do influxo do primeiro princípio. Outros, por fim, descobrem a causa da unidade do tempo na matéria prima, sujeito primeiro do movimento, cuja medida é o tempo. Ora, nenhuma destas duas opiniões pode ser considerada suficiente, porque seres que se unificam em virtude de um princípio, ou pelo sujeito, sobretudo remoto, não têm unidade, pura e simplesmente, mas sobre certo ponto de vista.

Por onde, a verdadeira razão da unidade do tempo é a unidade do primeiro movimento, pelo qual, sendo simplicíssimo, todos os demais são medidos, como diz Aristóteles [19]. Assim, pois, o tempo está para esse movimento, não só como a medida, para o medido, mas também como o acidente, para o sujeito e, portanto, dele recebe a unidade; ao passo que está para os outros movimentos somente como medida, para o que é medido; e nem se multiplica com a multidão deles, porque uma medida distinta pode medir muitas coisas.

Isto posto, devemos saber que houve dupla opinião a respeito das substâncias espirituais. Assim, uns diziam que todas ou, pelo menos, muitas, no sentir de outros, procederam de Deus em uma quase igualdade, como ensina Orígenes [20]. Outros, porém, diziam que todas as substâncias procederam de Deus num certo grau e numa certa ordem; este foi o sentir de Dionísio [21] que diz haver, entre as substâncias espirituais e ainda, numa mesma ordem de anjos, primeiras, médias e últimas. Ora, pela primeira opinião, é necessário admitirem-se vários evos correlativos aos vários seres eviternos primeiros e iguais. Pela segunda, é necessário admitir-se um só evo, porque, medindo-se cada ser pelo que é mais simples no seu gênero, como diz Aristóteles [22], o ser de todas as criaturas coeternas há-de forçosamente ser medido pelo que o é primariamente, tanto mais simples quanto mais elevado for. Ora, sendo esta opinião mais verdadeira, como a seguir se demonstrará, concedemos, no caso presente, que há um só evo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO (1.Pois, diz o livro apócrifo de Esdras (III, IV, 40): a majestade e o poder dos evos está em ti, Senhor):

Evo é às vezes tomado por século, período de duração de um ser; e, então consideram-se os evos muitos, como os séculos.


RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO (2. Demais - Gêneros diversos têm medidas diversas. Ora, certos seres eviternos –– os corpos celestes –– pertencem ao gênero das coisas corpóreas; outros, porém –– os anjos –– são substâncias espirituais. Logo, não há um só evo):

Embora os corpos celestes e os espirituais difiram pelo gênero da natureza, têm, contudo, de comum, o serem intransmutáveis, e, por isso, medem-se pelo evo.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO(3. Demais - Designando o evo a duração, os seres que têm o mesmo evo têm a mesma duração. Ora, nem todos os seres eviternos têm a mesma duração, porque uns começam a existir depois de outros, bem o demonstram as almas humanas. Logo, não há um só evo):


Embora os seres temporais não comecem todos simultaneamente, contudo, todos estão no mesmo tempo, por causa do movimento primeiro medido pelo tempo. E, assim, todos os seres eviternos têm um mesmo evo, em virtude do primeiro dentre eles, embora nem todos comecem simultaneamente.


RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO (4. Demais - Seres que não dependem uns dos outros não têm a mesma medida de duração; por isso é que todas as coisas temporais são medidas pelo mesmo tempo, porque a causa de todos os movimentos é, de certo modo, o primeiro movimento, medido pelo primeiro tempo. Ora, os seres eviternos não dependem uns dos outros. Logo, não há um só evo):


Para que várias coisas tenham a mesma medida, não é necessário que esta seja a causa de todas aquelas, mas, que seja mais simples que elas.


NOTAS:


1 V De consol., pros. VI.
2 IV Physic., lect. XX.
3 de Trin., cap. IV.
4 lib. LXXXIII Quaestionum, q. XXIII.
5 In symb.
6 In lib. I De caelo (lect. XXI)
7 In. Ep. XV
8 XV De Trinitate, c. XVI.
9 VI Metaphys., lect. IV.
10 IV Phys., lect. XVIII.
11 IV Phys., lect. XXIII.
12 De consolat., lib. V, prosa VI.
13 IV Phys., lect. XX.
14 VIII Super Gen. ad litt., cap. XX.
15 lib. III De consol., metro IX.
16 IV Phys., lect. XIX.
17 VIII Super Gen. ad litt., cap. XX.
18 lib. IV Physic., lect. XVII.
19 X Metaphys., lect. II.
20 lib. I Periarchon, cap. VIII.
21 Cael. hier., c. X.
22 X Met., lect. II. 


A morte de acordo com Tomás de Aquino

No estudo intitulado “Tomás de Aquino e o nosso tempo: o problema do fim do homem”, o filósofo Henrique C. de Lima Vaz adverte que a interpretação de uma experiência que encontrou a sua expressão teórica em textos do passado, pressupõe a possibilidade de referir essa mesma experiência – e também a sua expressão – ao presente, no ato da leitura.

No caso de Tomás de Aquino, além dos problemas de hermenêutica suscitados pela tentativa de interpretação de escritos compostos em época tão distante da nossa, uma atitude de prudência é aconselhável, se nos aproximamos do Doutor Angélico com o propósito de vislumbrar a harmoniosa justaposição dos elementos de seu vasto sistema, no qual cada parte se ordena e é proporcionada a um fim específico, e cada um desses fins, por sua vez, conduz a outros, no horizonte metafísico que tem Deus como princípio e fim último de todos os entes.

Assim, como metodologia convém seguir o conselho do próprio Tomás, que, no pequeno texto intitulado “O modo de estudar” (De modo studendi), recomenda:


“os estudiosos não devem pronunciar-se de forma apressada acerca do que pesquisam”.


Feita esta advertência preliminar, registre-se que o presente estudo sobre a morte em Tomás de Aquino buscará orientar-se por duas linhas mestras:

1ª)- Uma dessas linhas parte do movimento que o teólogo dominicano D. M. Chenu apontou no plano da Suma Teológica: a Prima Pars trata da criação das coisas por Deus;


2ª)- a Secunda Pars refere-se ao retorno de tudo ao seu princípio criador e ordenador, ou seja, o próprio Deus; e a Tertia Pars estuda as condições cristãs para esse retorno, no caso particular do homem. O exemplarismo divino e o retorno da imagem (homem) ao seu modelo (Deus) constituem o eixo dos escritos morais de Santo Tomás, e veremos como a morte do homem, para o Aquinate, se insere no contexto moral — que se efetiva a partir dos atos livres do ser humano.


Por esta razão, é conveniente destacar que, segundo Tomás de Aquino, o ato propriamente humano orienta-se pela vontade, a qual é movida pela razão.


Sendo assim, como é natural no homem agir com algum grau de conhecimento do fim em vista do qual age, de qualquer um dos seus atos só poderá dizer-se “bom” ou “mau” quando for voluntário, pois uma ação involuntária – não movida pelo apetite racional (expressão com que o Doutor Angélico designa a vontade) – não pode ser considerada boa ou má sob o aspecto moral.

Aqui nos deparamos com o cerne desta primeira linha mestra: a morte humana como conseqüência do mal moral, que a tradição judaico-cristã convencionou chamar de “pecado original”, um ato de livre escolha para cuja execução houve o concurso da razão e da vontade.

Para Santo Tomás, a vida eterna não é outra coisa senão a própria bem-aventurança à qual o homem foi destinado por Deus.


Contudo, para alcançá-la, se requer dele a retidão da vontade, que tem a sua consecução na liberdade e, por isso, o Aquinate afirma que é essencial para qualquer pena (e a morte, para ele, é uma pena, decorrente do pecado original) ser contrária à vontade e, por conseqüência, à liberdade, que é o seu sucedâneo.


No chamado “estado de inocência original” ao homem foram concedidos os dons preternaturais que o auxiliavam a evitar os erros e efetivar, a partir do exercício da liberdade, o seu destino à beatitude eterna, escolhendo os verdadeiros bens (e dentre estes, a vida, fonte de todos os demais).


Pressuposta esta paradisíaca realidade, perdida com a queda de Adão e Eva, Santo Tomás passa a distinguir — com relação ao mal do ponto de vista ontológico — entre o mal que consiste na privação de uma forma (ato primeiro, que é o simples ato de ser de cada ente) e o mal que consiste na orientação de uma ação (ato segundo, atinente às intenções).


A morte corresponde à primeira dessas distinções, referente à privação da forma, pois é a privação, no corpo humano, da sua forma substancial: a alma (anima). É o chamado “mal de pena”.

À segunda distinção corresponde o chamado “mal de culpa”, que é uma desorientação da vontade:


Ou seja, quando esta escolhe pseudos bens, ou bens contingentes, que obstam a consecução da felicidade perene, embora, sejam portadores de algum quantum de bem e de prazer, pois todos os entes, pelo simples ato de ser (actus essendi), são portadores de algum bem e, por isso, são apetecíveis, já que o mal não tem essência, pois é a privação de bem nos entes— e, por esta razão o mal, em si mesmo, não pode mover o apetite racional da vontade, pois os homens agem sempre buscando algum bem (real ou aparente) em suas ações.


Neste horizonte metafísico, cumpre enfatizar que só o que é pode ser apetecível pela criatura racional que age em vista de um fim que, necessariamente, tenha razão de bem.



Na perspectiva da procedência de tudo a partir de Deus, mencionada acima, dimensionam-se a vida e a morte do homem:


Em termos concretos, o homem vive a partir de sua alma, que é princípio do movimento e primeiro ato natural de um corpo organizado, a qual procede de Deus, que a cria no momento do nascimento e não antes, pois, convém-lhe estar unida ao corpo.

Assim, vivendo a partir de uma alma incorruptível unida a um corpo corruptível, o homem morre, de acordo com Santo Tomás, por ter sido incapaz de manter a justiça original do estado de inocência em que foi criado – no qual operavam, sob o controle da razão, todas as faculdades da alma sem desordem alguma.


Nesse estado, a ordenação da faculdade intelectiva da alma ao bem supremo, que é Deus, era perfeita. A desordem na vontade e o ofuscamento da razão começam com o pecado original.


Nesta perspectiva, a morte do homem é considerada antinatural:


O filósofo salienta isso frisando que a alma racional, de acordo com a sua incorruptibilidade, está adaptada ao seu fim específico, que é a bem-aventurança perpétua.


Na economia da salvação das almas e de sua recondução a Deus, insere-se a Encarnação do Verbo, pois é na pessoa do Cristo (que, por união hipostática, reúne em si as naturezas humana e divina, deificando a carne pela união com o Verbo) que ao homem é dada a oportunidade de recuperar a possibilidade de unir-se ao Criador.


A segunda linha orientadora deste escrito se configura no plano ontológico( Do ser):


Uma das dificuldades de abordar o tema da morte em filosofia e, mesmo em teologia, é que se trata do único evento na vida humana não suscetível de se transformar em experiência. Como frisa Aristóteles, muitas recordações de uma mesma coisa chegam a constituir uma experiência.Mas como seria possível recordar de algo irrepetível, justamente o episódio singular que põe fim à existência?


Henrique de Lima Vaz salienta que duas coisas concorrem para qualquer tipo de conhecimento e, particularmente, o filosófico:

1)- a anámnesis (recordação)

2)-a nóesis (pensamento).


Por isso, a morte pode tão-somente ser pensada, testemunhada, observada, etc., mas nunca será um experimento, passível de posterior verificação, e isto faz dela, necessariamente, um mistério para qualquer campo de conhecimento.


Na melhor das hipóteses, o homem está condenado a ter um simulacro de experiência da morte, a partir da que sobrevém aos seus semelhantes. Como frisa José Ignácio Murillo, a resposta ao enigma da morte acaba por se dar, geralmente, no âmbito da religião.

Mas isto não implica dizer que a filosofia não possa dizer nada a respeito do fato inquestionável da finitude da vida. E o Aquinate o faz:



Para Santo Tomás, a morte pode ser natural com respeito ao corpo, mas não o é com respeito à alma. Na tentativa de dimensionar o problema da morte humana como sendo a do corpo, em Tomás de Aquino, lembremos o seguinte:


“Ontologicamente, o mal físico que decorre da corrupção do corpo e faz o homem sofrer e, cujo grau máximo, é a morte, com a conseqüente destruição do corpo, não é a negação de um bem possível, mas a privação de um bem natural, isto é, de uma perfeição devida à natureza de determinado ser” - como escreve Leonel Franca.


Por esta mesma razão, não é um mal físico para uma pedra não ter pernas, pois naturalmente não as têm. Nela, não ter pernas é negação; mas no homem, não tê-las é privação de um bem específico, integrante de sua natureza.


“ A morte não entrou no mundo pela corruptibilidade intrínseca (e filosoficamente inquestionável) da matéria, mas por uma iniciativa infeliz do espírito, o qual perdeu o dom de preservar a matéria da corrupção.

Com relação à incorruptibilidade da alma racional, Santo Tomás demonstra-a de várias maneiras:


1ª)- Como a partir da premissa de que nenhuma coisa se corrompe naquilo em que se aperfeiçoa, porque as mudanças para a perfeição e para a corrupção são contrárias, e a alma humana se aperfeiçoa pela ciência e pela virtude, às quais tende por natureza; pela ciência, tanto mais a alma se aperfeiçoa quanto mais considera as coisas imateriais; e pela virtude, a perfeição consiste em não seguir as paixões corpóreas, mas em refreá-las.Neste horizonte, ele considera o perfectivo próprio do homem, segundo a alma, como algo incorruptível, pois a operação própria do homem é o conhecimento intelectivo, segundo o qual ele se diferencia dos animais irracionais.


“Ora, o conhecimento intelectivo tem por objeto os universais e os incorruptíveis como tais. Como as perfeições de um ser são proporcionadas aos sujeitos perfectíveis, também a alma será incorruptível”.



2ª)- O filósofo medieval argumenta contra os que dizem que a alma separada do corpo não efetiva nenhuma operação, dizendo que:


“há operações da alma humana, como a intelecção e a volição, que independem daquela situação.”


Para Santo Tomás, o intelecto apreende a coisa abstraindo da matéria, que é princípio da individuação, o que não acontece com os sentidos, pois estes se referem às coisas particulares, e o intelecto chega aos universais pela abstração da matéria individual, pois, enquanto o intelecto elabora o conceito universal de “homem” e de “cadeira”, os sentidos captam apenas este homem e esta cadeira.



3ª)- Da total imaterialidade destas duas operações da alma – a intelecção e a volição –, o Aquinate conduz-nos às substâncias separadas da matéria, como a alma dos homens e os anjos. A respeito destas últimas, conclui que, se há algo imperfeito em algum gênero, por prioridade de natureza haverá, antes dele, algo perfeito, pois o mais perfeito tem prioridade sobre o menos perfeito. No caso dos anjos ou substâncias separadas, a operação máxima – que é a intelecção – não proviria dos sentidos materiais, pois os anjos não estão, substancialmente, unidos a nenhum corpo.



3ª)- Um conjunto de artigos da Suma contra os Gentios conduz à demonstração da incorruptibilidade das substâncias intelectuais, a partir de várias premissas, assim como do fato de serem tais substâncias subsistentes. Assim, por exemplo, como o sensível é objeto próprio dos sentidos, o inteligível é objeto do intelecto. Assinala Tomás de Aquino, neste contexto, que os sentidos podem corromper-se pela excelência do seu objeto, como acontece com o olho humano, ao contemplar um objeto excessivamente luminoso. Entretanto, o intelecto jamais se corrompe pela excelência do objeto inteligível, mas, ao contrário, aperfeiçoa-se, sendo o inteligível a própria perfeição do intelecto.



Todavia, como a substância intelectual, no caso do homem, está unida ao corpo, alguns filósofos anteriores ao Aquinate pensaram que todas as operações da alma humana fossem comuns às operações do corpo, ou ainda que a união corpo/alma não era substancial, mas acidental — como Platão nos induz a concluir, com a famosa proposição de que:


“A alma se encontra no corpo como o piloto em seu navio e, por isso, a alma apenas se serve do corpo — como faz o piloto com o navio, no sentido de que este o conduza ao seu fim.”



4ª)- Tem-se aqui um esboço sumário da doutrina tomista sobre a morte humana50, a qual se respalda na perspectiva teológica — a da morte como decorrência do pecado original — e se consuma na análise da estrutura ontológica da alma racional, em duas (dentre as várias) obras em que Santo Tomás aborda o tema, com diferentes demonstrações acerca da impossibilidade de sua extinção, pelo fato de ser intrinsecamente incorruptível e subsistente.



Com relação ao destino da alma, após a morte:


O tratado escatológico desenvolvido no início da escolástica mostraPedro Lombardo († 1160) conferindo o definitivo direito de cidadania em seu sistema doutrinal teológico. Apesar de que, neste início da Escolástica o interesse maior era pelos temas da ‘criação e redenção’, fazendo com que o debate sobre as coisas últimas nos seja apresentado apenas por certo número de frases isoladas. Os primeiros passos nesse rumo, da definição de um tratado sobre a escatologia, são dados por Honório de Autun († 1152), Robertus Pullus († 1147/50) e Hugo de São Vítor († 1141). Em sua obra principal, De sacramentis christianae fidei, Hugo de São Vítor tentou, desenvolver a idéia de um grandioso Reino de Deus, superior a todos os regimes deste mundo.  


Com o passar do tempo, os estudos avançam e começam surgir inúmeras sentenças relativas aos éschata, sendo, uma das mais determinantes, a sentença de Simão de Tournai (†1201), o primeiro a questionar sobre os argumentos apresentados pró ou contra a concepção da unidade do homem, tendo, como ponto comum a imortalidade da alma, por ser dado revelado, quanto a considerar-se a ressurreição como um acontecimento de ordem natural. Excetuando Pedro de Cápua(†1242), todos os outros teólogos, dessa época, afirmam o caráter miraculoso da ressurreição, e o dado principal é a referência cristológica, à luz da qual se observa a ressurreição. Também, aqui, nos defrontamos com a causa da fé e da recompensa.  


O problema é expressamente levantado e solucionado na Summa anônima “Breves Dies hominis” (1195-1210):


“A ressurreição de Cristo, embora não seja causa efficiens de nossa ressurreição, se insere na relação cristológica, pois a ressurreição de Cristo é o pressuposto absolutamente indispensável, a condição de possibilidade, a causa sine qua non de nossa ressurreição”.


Se os homens não ressuscitassem, a paixão de Cristo seria inútil. Idéia também, a que coordena entre si sacramentos e escatologia. Já, Guido de Orchelles († 1225/33) aborda os temas escatológicos num apêndice à sua doutrina sacramental. E, na Summa Aurea deGuilherme de Auxerre († 1231), intitula seu tratado sobre os Novíssimos De sacramentorum effectu, sive de resurrectione. Aqui o pensamento vale-se, imediatamente, à coordenação entre ressurreição e eucaristia, já formulada em Santo Irineu († 202).  


Infere-se claramente aqui a veritas humanae naturae, que se define a partir do corpo ressuscitado. Segue-se daí uma recíproca relação entre antropologia e escatologia, apresentada por Pedro de Cápua († 1214). A gênese histórica de tal questão apresenta problemas e dificuldades que remontam à própria patrística. A afirmação “os mortos ressuscitam” é sempre recebida com reservas profundas.


O que sustentava a zombaria e provocava a rejeição era sobretudo a convicção de uma identidade e integridade do ressuscitado ou do corpo da ressurreição. E, Pedro de Cápua ilustra a “veritas humanae naturae” empregando o conceito de “integritas” ou “puritas” do homem. Claro que esse postulado da integridade da natureza humana é formulado em referência ao estado da transfiguração do homem e, assim, motivado em chave antropológica e se amplia até apreender aquilo que essencialmente pertence à real corporeidade e vida plena do homem.  


Na Alta Escolástica, São Tomás de Aquino († 1274) diz, que:

“a ressurreição exige a integridade do homem”.


E quais seriam os elementos essenciais que garantam a realidade da alma e a vida do homem. Santo Tomásrecorre ao princípio aristotélico da “anima forma corporis”: A alma se exprime na matéria, tanto na condição gloriosa como na da peregrinação. A integridade da natureza humana é exigida pela mesma justiça enquanto o homem inteiro em todos os seus membros deve ser premiado ou castigado, prêmio e castigo que ele mereceu também com o concurso do corpo. Os corpos deverão ser perfeitos também porque a divina Sabedoria há de se manifestar na ordem da matéria, para que através da perfeição do corpo transpareça a beleza e para que o louvor a Deus se traduza também na esfera material, no ser e agir do corpo.  


Para Tomás de Aquino é inconcebível perfeição que não signifique também realização definitiva do próprio corpo. O motivo, em última análise, que está por trás, a estas reflexões sobre a perfeição do homem transfigurado, é de natureza claramente teológica, e se fundamenta naquele Deus que leva a plena realização a obra de suas mãos. A motivação escriturísticas poderia achar-se em Dt 32,4: “Ele é o rochedo, perfeita é a sua obra, justos, todos os seus caminhos; é Deus de lealdade, não de iniqüidade, ele é justo, ele é reto”.  



Então, para uma melhor compreensão, podemos dizer que a temática (da escatologia) no primeiro período da Escolástica, assinala dois tipos de solução.


1)- Numa primeira tendência, representada por Hugo de São Vítor († 1141), Roberto Pullus († 1147/50), Roberto de Melun († 1167), Pedro Lombardo († 1160) e Pedro de Poitiers († 1215), compreendem a ressurreição como “revivificação do corpo”. A ênfase aqui posta no corpo humano, pode assumir, a idéia de uma ressurreição compreendida também em sua dimensão física e corporal. Roberto de Melun, insiste notavelmente, na transfiguração do corpo e apresenta o motivo do sentido, pois está, ligado à ressurreição de Cristo. Quando se acentua a função do corpo, torna-se também mais agudo o problema de suasubstância, identidade e integridade.


1)- Um segundo grupo de pensadores, ainda deste primeiro período da escolástica: Simão de Tournai († 1201), Radulfus Ardens († 1200), Alano de Lille († 1204), Pedro de Cápua († 1214), Estevão Langton (†1228), Guido de Orchelles († 1225/33) e Guilherme de Auxerre († 1231), entendem por ressurreição a reconstituição do homem. A morte é interpretada como dilaceração da unidade que existe entre corpo e alma, e, por conseguinte coincidindo com o fim do homem. Ressurreição significa reunião do corpo com a alma, e reconstituição do homem.  Como observamos em Alano de Lille, o homem não ressuscitaria, caso o corpo e a alma não ressurgissem: “A ressurreição é a reunificação do corpo com a alma, os quais foram separados com a morte”. Gilberto de La Porré, ou Poitiers (†1154), diz que com a ressurreição, esse homem que a morte destruíra começa agora a existir de modo totalmente novo e é capaz, com sua natureza íntegra, de contemplar a Deus. Deste modo, entendemos, que a doutrina de uma morte que fosse capaz de destruir o homem inteiro não acha acolhida nos primeiros escolásticos. Estes afirmam, em harmonia, a idéia de que a alma espiritual continua sobrevivendo após a morte do homem; a seus olhos a imortalidade da alma é uma verdade inalienável, que faz parte do próprio patrimônio da Revelação.  



Já na Alta Escolástica, Tomás de Aquino († 1274), diz que a alma se une, na ressurreição, com qualquer matéria, que obviamente se apresenta apenas no estado de matéria segunda, mas que na ressurreição da nova forma é matéria prima e pode ser transmudada em matéria segunda que agora se estrutura diferentemente da anterior. Temos assim de novo o mesmo corpo e o mesmo homem.


Na morte o substrato material do homem se transfere para uma matéria segunda, que apresenta formações diversas das antecedentes. Para a alma, todavia, ele é, porém sempre forma prima. O que a matéria prima nos mostra é apenas pura potentia, sem qualquer ulterior determinação.  


Os pensadores medievais em geral concordam em afirmar um crescimento na bem-aventurança, motivada pela participação do corpo no estado glorioso; mas divergem as opiniões assim que se aborda o problema do como se deve interpretar essa intensificação. Podemos sem dúvida pensar que essa idéia do aumento intensivo da felicidade eterna, mediante a união da alma com o corpo, se integre no grupo das opiniões sustentadas pela escola franciscana. Em linha geral a Alta Escolástica admite um aumento tanto extensivo como intensivo da beatitude por causa da ressurreição.


Bento XII († 1342) na Bula Benedictus Deus, de 1336, afirma claramente uma intensificação substancial do estado de glória e de pena, no último dia.  


Seguindo a tradição do Início da Escolástica, os mestres da Alta Escolástica colocam o tratado sobre a escatologia no final de seu sistema. Concretamente, isto significa que a escatologia se une à doutrina dos sacramentos.Pedro de Poitiers num contexto histórico-salvífico e cristológico, entendia os sacramentos como a via que conduz os membros até onde a Cabeça já se encontra. Nos sacramentos via ele também o início da atividade que o Ressuscitado exerce em relação a nós todos.


Guilherme de Auxerre, qualifica a ressurreição como “effectus sacramentorum”. Tomás de Aquino, vê nos sacramentos os “signa prognostica praenuntiativa futurae gloriae”. E, descrevendo a eficácia da unção dos enfermos, exprime-se Alberto Magno († 1280) deste modo: “Através da Unção, somos conformados ao Ressuscitado”.  



João Capréolo († 1444) nos ilustra as conseqüências a que leva essa perspectiva:

“O efeito principal a que tende o sacramento da ‘Unção’ não é revigorar o homem em face dos assaltos da última hora e nem tampouco reduzir a culpa ou a pena pelos pecados veniais cometidos, mas sim prepará-lo para a glória do corpo e da alma. E isto mediante a eliminação dos resíduos do pecado, que impedem a aceitação da glória e a destinação da alma e do corpo a ela”.  


A mesma naturalidade com que a “teologia dos sacramentos” utiliza elementos escatológicos, reaparece igualmente na “teologia da Graça”. Quando se olha para a Graça, pensa-se na Glória. Boaventura († 1274) resume essa dimensão escatológica da Graça nas palavras “Gratia est similitudo gloriae”. Também das referências à consumação definitiva, podemos concluir o papel de primeira importância que o éschaton desempenha na teologia fundamental.


Aqui não se vê a Deus somente como causa eficiente e exemplar de toda a criação, mas também como o fim para o qual vai tendendo. Interessante, a este propósito, a transposição que achamos no Compendium theologiae, de Tomás, onde se insere a escatologia na doutrina da criação.  


De importância fundamental é a ligação que se estabelece entre escatologia e cristologia:


A escatologia acaba absorvida pela cristologia, a tal ponto que muitas vezes não se consegue compreender, do modo como é formulado um tema, se o objeto se refere a um problema cristológico ou escatológico. A ressurreição do Senhor se torna assim o ápice da cristologia e ponto de partida da escatologia.  


Sobre o CORPO E A ALMA ESPIRITUAL,Tomás aborda a questão em diferentes escritos - Suma contra os Gentios, Capítulo LXXIX:

“Corrompido o corpo, a alma não se corrompe:”

1. Depreende-se claramente do acima exposto que se pode demonstrar que a alma humana não se corrompe, após a corrupção do corpo. Com efeito, foi acima demonstrado (c. LV) que toda substância intelectual é incorruptível. Ora, foi também demonstrado que a alma humana é uma certa substância intelectual (c. LVIss). Logo, necessariamente a alma humana é incorruptível.51


2. Além disso, nenhuma coisa corrompe-se naquilo que constitui a sua perfeição, porque as mudanças para a perfeição e para a corrupção são contrárias. Ora, a perfeição da alma humana consiste em certa abstração do corpo. Com efeito, aperfeiçoa-se a alma humana pela ciência e pela virtude, pois, pela ciência, tanto mais é aperfeiçoada quanto mais considera as coisas imateriais, e a perfeição da virtude consiste em o homem não seguir as paixões corpóreas, mas em refreá-las e temperá-las pela razão. Logo, a corrupção da alma não consistirá em ela separar-se do corpo.


3. Porém, se se afirmar que a perfeição da alma consiste em sua separação do corpo segundo a operação, e a corrupção na separação segundo o ser, não se objeta corretamente. Com efeito, a operação da coisa demonstra a sua substância e o seu ser, porque toda coisa opera enquanto ser e a operação própria da coisa segue-lhe a natureza. Por isso, não é possível ser aperfeiçoada a operação de uma coisa se não é segundo a perfeição de sua substância. Ora, se a alma aperfeiçoa-se na sua operação por deixar o corpo, a sua substância incorpórea não ficará menos perfeita no ser por ter deixado o corpo.

4. Além disso, o perfectivo próprio do homem segundo a alma é algo incorruptível, pois a operação própria do homem, enquanto homem, é o conhecimento intelectivo, segundo o qual ele se diferencia dos animais, das plantas e dos corpos inertes. Ora, o conhecimento intelectivo tem por objeto os universais e os incorruptíveis como tais. Como as perfeições de um ser são proporcionadas aos sujeitos perfectíveis, também a alma humana é incorruptível



Tem-se aqui um esboço sumário da doutrina tomista sobre a morte humana (Com respeito à morte dos animais irracionais, o ponto de vista de Santo Tomás é totalmente diverso, pois a alma deles, para o Angélico, não sendo capaz de efetivar nenhuma operação sem a intermediação de algum órgão corporal, é necessariamente, mortal, e se extingue juntamente com o próprio corpo);que parte de uma perspectiva teológica — a da morte como decorrência do pecado original — e se consuma na análise da estrutura ontológica da alma racional, em duas (dentre várias) obras em que Santo Tomás aborda o tema, com diferentes demonstrações acerca da impossibilidade de sua extinção, pelo fato de ser ela intrinsecamente incorruptível e subsistente.


Em resumo, fomos criados para ser eternos, ou seja, para participar da eternidade de Deus, e perdemos tal prerrogativa pelo pecado. Por outro lado,mesmo com o advento do pecado, a nossa alma, por ser ontologicamente incorruptível, não pode morrer, não pode ser alijada do ser, a menos que Deus de potentia absoluta a aniquile. A questão é saber se o seu destino final será de beatitude ou de sofrimento eternos.


Creio na Ressurreição da Carne


Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia:

“Sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpório. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persuadidos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai.”(Santo Inácio de Antioquia – Carta aos Esmirna, III, 1-3 – Padres apostólicos – Paulus –)


Vemos pelos Evangelhos que Cristo ressuscitou à muitas pessoas, mas Sua Ressurreição difere das outras, segundo São Tomás de Aquino, porque Cristo por ser Deus e Homem, ressuscitou pelo Seu próprio poder. Sua divindade em nenhum momento se separou nem de Sua alma, nem de Seu corpo. Cristo ressuscitou para uma vida gloriosa e incorruptível e foi em virtude de Sua Ressurreição que todos ressuscitaram: "Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram... assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida" (1Cor 15,20-22).(Exposição sobre o Credo – São Tomás de Aquino - )


Sua ressurreição é para nós motivo de júblilo, de esperança e estímulo para vivermos na santidade, esperando o dia de estarmos com Ele, também vivos na glória. ”Não tardes na conversão para o Senhor, e não a delongues dia por dia ”(Ecle 5,8).

 “ Cremos n’Aquele que dos mortos ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação”(Rom 4, 24-25). “Porque a morte veio por um homem, por um homem também virá a ressurreição dos mortos “(1 Cor 15,21).

Nele, os cristãos "experimentaram... as forças do mundo que há de vir" (Hb 6,5) e suas vidas são atraídas por Cristo ao seio da vida divina "a fim de que não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por eles" (2Cor 5,15)



A união entre Cristo e os cristãos, como membros de um mesmo corpo, onde Cristo é cabeça, constituem um único organismo. Por isso quando se afirma a Ressurreição de Jesus, é necessário afirmar a ressurreição dos justos, daqueles que morreram na graça de Deus. Jesus por ser o novo Adão mereceu a ressurreição de todos.”


A Ressurreição de Cristo produziu a ressurreição dos nossos corpos, quer porque foi a causa eficiente deste misterio, quer porque todos devemos ressuscitar, a exemplo do Senhor. Deus se valeu da humanidade de Seu Filho como de instrumento eficiente. Por conseguinte, a Sua Ressurreição foi um instrumento para conseguir a nossa”.(Catecismo Romano, I,6,13).


A ressurreição passou, então, a ser o centro da nova fé e tornou-se o arremate de todo edifício doutrinal da Igreja Santa e Católica e mais tarde São Paulo vem afirmar: "Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a nossa fé”. (I Cor 15,14)

Para entendermos como se dá a ressurreição de nossa carne após a morte, no dia final, temos que compreender como Deus, nosso Pai, nos constituiu, e o fez de uma forma maravilhosa, já que somos obra de Suas mãos santíssimas e feitos à Sua imagem e semelhança.


O homem é uma ponte entre o mundo do espírito e o da matéria, formado de corpo e alma:


A alma do homem é espírito, de natureza similar ao anjo; o seu corpo é matéria, similar em natureza aos animais. Porém, o homem não é nem anjo nem animal. É um ser à parte por direito próprio, um ser com um pé no tempo e outro na eternidade. Os filósofos definem o homem como "animal racional", o que indica que sua alma é espiritual; e animal, o seu corpo físico.

O corpo e a alma não se unem de modo circunstancial. Foram feitos um para o outro, fundem-se, compenetram-se tão intimamente que, ao menos nesta vida, uma parte não pode existir sem a outra.


A maravilha de nosso corpo mostra o poder e sabedoria de Deus. Mas ele é nada comparado com a magnitude da alma que é como dizemos, um espírito: é um ser inteligente e consciente, invisível e imaterial, não se divide, pois é uma substancia simples, portanto é imortal.

Quando nosso corpo estiver tão prostrado pela doença ou pelas lesões que não possa continuar a sua função, há a separação da alma e do corpo, o corpo cai na corrupção e a alma o abandonará – é a morte.


Mas a alma espiritual não morre, pois não pode ser destruída ou danificada. Ela depois do julgamento particular a que passará todo homem após sua morte, recebe o prêmio – por ter buscado a graça e uma vida santa de boas obras – ou a condenação – por não ter aceitado a Cristo e Sua morte, rejeitando até o fim sem arrependimento algum, a graça que Deus com tanta liberalidade dispôs para que esta vivesse eternamente em Sua presença.

A Igreja se preocupou em nomear o 11 artigo do Credo como:” Creio na Ressurreição da Carne”, para rebater a heresia de Himeneu e Fileto:

“O qual afirmavam eles que, quando a Escritura falando da ressurreição, não era para entender a ressurreicão corporal, mas da espiritual que faz ressurgir, da morte do pecado, para a vida da graça e inocência. O artigo do Credo portanto, exclui este erro e confirma a realidade da ressurreição corporal (Catecismo Romano 11 artigo – II – c – pag. 179)


O Apóstolo Paulo nos diz que o "corpo semeado na corrupção, há de ressurgir incorruptível", (Icor 15,42).


Os escritores eclesiásticos afirmam a reesurreição do corpo para se unir à alma, pois seria contrário à natureza, que as almas ficassem eternamente separadas, já que sendo imortais pendem naturalmente a se conservarem unidas ao corpo.

São João Crisóstomo, em sua homilia ao povo de Antioquia, nos diz que:

“a justiça divina também é um fator importante para se entender este assunto."Deus, justo juiz, estabeleceu penas para os maus e prêmios para os justos. Tendo o corpo servido ao homem como instrumento de prevaricação ou de santidade, devem participar dos premios ou dos castigos das almas, na proporção dos crimes ou das virtudes, que houverem praticado. "(Io Chrysost Hom. 13 )


Quem irá ressucitar?


Nos diz São Paulo que “assim como todos morreram em Adão, todos serão vivificados em Cristo”( I Cor 15,22). Todos, bons e maus hão de ressurgir dos mortos, mas nem todos terão a mesma sorte, “os que praticaram o bem, ressurgirão para a vida, os que praticaram o mal, ressurgirão para a condenação”(Jo 5,29).

Os que morreram em Cristo, nos diz São Paulo," ressuscitarão primeiro, e os que ficam serão arrebatados, por sobre as nuvens, para ir de encontro a Cristo nos ares”(I Tes 4,16).

Santo Ambrósio nos diz:



“Nesse arrebatamento sobrevirá a morte. À semelhança de um sono, a alma se desprenderá para voltar ao corpo no mesmo instante. Ao serem arrebatadas morrerão. Chegando, porém, diante do Senhor, novamente receberão sua almas, em virtude da própria presença do Senhor, porquanto não pode haver mortos na companhia do Senhor”( Aug. de Civ. Deis XX 20)


Os corpos dos ressuscitados terão propriedades, à semelhança do corpo glorioso ressuscitado de Cristo:


Portanto ser-lhe-á restituído tudo o que pertença a integridade da natureza, os dons, as excelências do homem como tal.Santo Agostinho descreve-nos essa transformação de uma maneira interessante:


"Nos corpos, diz ele, não restará então nenhuma deformidade. Era alguém muito nutrido e cheio de corpo, não retomará o mesmo volume. O que excede as proporções, é considerado supérfluo. Ao contrário, tudo o que velhice ou doença destruírem no corpo, será refeito pela divina virtude de Cristo. Tal acontece, por exemplo, com quem for de excessiva magreza, porque Cristo não Se limita a ressuscitar o corpo, mas repõe ao mesmo tempo o que [nele] definhou com as privações desta vida". ( Aug de civ. Deis XXII 19 ss)

Tudo em nós será restaurado à semelhança de Cristo, já que a ressurreição faz parte das grandes obras de Deus, em pé de igualdade com a própria Criação . Deus fez tudo perfeito no começo e tudo será perfeito no final.


Santo Agostinho afirma que:

“não só aos mártires acontecerá estas maravilhas, mas a todos. Os mutilados, os degolados, todos terào restituídos seus corpos, mas terão as marcas tal qual ficou em Cristo a marca dos pregos."

São Tomás na Exposição ao Credo diz que:


“Porque os corpos serão incorruptíveis e imortais, não terão necessidade de alimento, nem usarão do sexo. Lê-se: na ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres terão maridos,mas serão como Anjos de Deus no Céu (Mt 22,30).”


Quanto à idade aparente (acidental),dos corpos ressurretos, diz São Tomás de Aquino que todos ressurgirão na idade perfeita: aos trinta e dois anos:


A razão disto é que, os que ainda não atingiram esta idade, não chegaram à idade perfeita, e, os velhos, já a ultrapassaram. Eis porque aos jovens e às crianças será acrescido o que falta, e, aos velhos, restituído. Lê-se: "Até que cheguemos todos ... ao homem perfeito, na medida da plenitude da idade de Cristo" (Ef 4,13).


Quanto aos maus, este também recuperarão seus membros, ainda que lhes caiba a culpa da amputação. Só que quanto maior for a restituição, maior serão os tormentos, pois ela não lhe acarreta felicidade, mas dores sem fim.


Todos, bons ou maus, serão imortais após a ressurreição, pois por Cristo, pela Sua Cruz a morte foi vencida, foi o ultimo inimigo a bater.


Mas os corpos dos justos terão como que adornos lhes conferindo uma nobreza a que nunca sonharam neste mundo:


impassibilidade, sutileza (ou penetrabilidade), agilidade e claridade. Pois bem, os corpos dos justos serão transformados e glorificados segundo o modelo do Corpo de Cristo, o que nos faz exultar e querer a todo custo a vida diante de Deus.

Entre os dons dos corpos ressuscitados dos santos , segundo São Tomás e o catecismo Romano, estão:


1)- Impassibilidade: Dom especial cuja virtude é impedir que os corpos sintam qualquer dor, sofrimento ou incômodo. “Semeia-se o corpo na corrupção, diz oApóstolo, e ressurgirá na incorruptibilidade” (I Cor. XV, 42). A impassibilidade não é comum aos condenados, cujos corpos podem, apesar de imperecíveis, podem padecer de todas as formas de sofrimento, pois optaram livremente neste estado imperfeito.

2)-Claridade: Dom especial pelo qual os corpos dos Santos refulgirão como o sol. Esta claridade é um certo resplendor comunicado ao corpo pela suma bem-aventurança. Diz Nosso Senhor: “Os justos resplandecerão como o sol, no Reino de seu Pai” (Mat. XIII, 43). Esse é o dom que às vezes o Apóstolo chama de “glória”.Mas não devemos crer que todos sejam dotados da mesma claridade, como o serão da mesma incorruptibilidade. O fulgor do corpo ressuscitado será proporcional à santidade da alma. Diz São Paulo: “Uma é a claridade do sol, outra a das estrelas. Com efeito, uma estrela difere da outra em claridade. Assim acontecerá na ressurreição dos mortos” (I Cor XV, 41-42). Esta claridade é um certo resplendor comunicado ao corpo pela suma bem aventurança da alma. Vem a ser a participação da felicidade, de que goza a própria alma, pois nela recai uma parcela da felicidade divina


3)- Sutileza: O corpo ficará inteiramente sujeito ao império da alma, prestando-lhe serviço, e executando suas ordens com prontidão. “Semeia-se um corpo animal, ressuscitará um corpo espiritual” (I Cor. XV, 44). É bem notar que a sutilidade, de modo nenhum, implica que o corpo ressuscitado deixe de ser matéria para se converter em espírito; é matéria autêntica, contudo matéria mais intensamente penetrada pelo espírito; o que quer dizer: enriquecida de qualidades mais nobres dos que as que possui atualmente. A expressão paulina “corpo espiritual” não significa senão corpo de matéria em que o Espírito Santo expande plenamente a vida e glória de Deus. Explica Santo Agostinho:

“Assim como o espírito, servindo à carne, é, com razão, dito carnal, assim a carne, servindo ao espírito, é adequadamente chamada espiritual, não porque se torne espírito, como julgam a alguns baseados em I Cor. XV...; mas porque se sujeitará ao espírito numa suma e admirável prontidão para obedecer... removido todo sentimento de dor, toda corruptibilidade e lentidão. Não somente o corpo não será tal como é agora no melhor estado de saúde, mas nem mesmo tal como foi nos primeiros homens antes do pecado.” (De civ. Dei 13, 20).


4)- Agilidade: Devido ao dom da sutileza, poderão se mover para onde a alma queira. No Cristo ressuscitado tem-se claro exemplar de tal prerrogativa: com admirável facilidade o Senhor se transpunha de uma região a outra da Palestina.

Em conclusão:

Verifica-se que os quatro dotes distintivos dos corpos gloriosos derivam da perfeita harmonia que reinará entre carne e espírito no estado de consumação. A alma do justo, tendo entrado definitivamente no seu lugar de criatura sujeita ao Criador, aderindo a Deus com toda inteligência e afeto, será grandemente dignificada: adquirirá sobre os seres inferiores, a começar pelo próprio corpo, o domínio que em vão ela procuraria obter rompendo os seus vínculos de sujeição ao Senhor; doutra parte, por esse domínio que sobre o corpo exercerá a alma, o próprio corpo está nobilitado.

O primeiro homem, cobiçando dignidade e poder independentimente de Deus, perdeu todos os dotes, preternaturais e sobrenaturais, de que gozava no Paraíso;(Telepatia,bilocação,não sujeitar-se a gravidade,etc...) ora, eis que na restauração de todas as coisas Deus Se dignará não propriamente restituir os dons perdidos, mas ultrapassá-los, concedendo à criatura humana prerrogativas muito superiores às do primeiro Paraíso.

Ao contrário, os corpos daqueles que tiverem recusado a restauração trazida por Cristo, isto é, os corpos dos réprobos, que sofrerão as penas eternas, os seus corpos segundo São Tomás, possuirão quatro qualidades más:

1)- Serão obscuros, conforme se lê: Os seus rostos serão como fisionomias inflamadas (Is 13,8) serão como imagens hediondas do mais deplorável estado de alma.

2)- Serão passíveis, mas jamais corrompidos, pois arderão para sempre como que num fogo e nunca serão consumidos: "Os vermes nunca morrerão nos seus corpos, e o fogo neles nunca se extinguirá" (Is 66,24).Crassos, resistentes aos impulsos da alma.

3)- Serão pesados, porque as almas estarão como que acorrentadas:" Para prender os seus reis com grilhões" (SI 149,8).

4)- Finalmente, os corpos e as almas serão, de certo modo, carnais:" Os animais apodrecerão nos seus excrementos" (Jl 1,17).Sào passíveis de dor.

Em uma palavra, serão expressão fiel da horrenda situação produzida na alma pelo ódio a Deus e as conseqüências lógicas e naturais de seu afastamento:

“Virá o dia da retribuição, quando os corpos ressurgirão e o homem inteiro receberá o que merecer... Assim como muito difere a alegria dos que sonham da alegria dos que estão acordados, assim grande diferença haverá entre a felicidade dos mortos e a dos ressuscitados; não porque as almas dos defuntos sejam induzidas em ilusões como as que dormem, mas porque uma coisa é o repouso das almas separadas dos corpos, outra coisa é a glória e a felicidade das almas unidas aos corpos celestes" (Santo Agostinho, Serm. 280, 5).


Podemos depois de todo o exposto, dar graças a Deus que não nos deixou na ignorância, já que Ele não esconde Seus mistérios aos pequenos. Pois quantos neste mundo tem perdido a vida pelo desconhecimento de tão grandes bens?




ADENDO DE “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” SOBRE A CONDENAÇÃO FEITA PELA CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ À ESCATOLOGIA DE  RENOLD BLANK:


Em síntese: O autor trata da morte, do purgatório, da ressurreição dos corpos e do juízo final propondo suas próprias idéias que ele procura fundamentar na Escritura e na Tradição.


Não leva na devida conta o Magistério da Igreja. Apresenta assim uma obra imaginosa e “simpática” porque dissipa o que possa impressionar negativamente um leitor não iniciado em Teologia.



Renold Blank é autor bem conhecido no Brasil por seus escritos referentes a escatologia. Um dos mais expressivos do seu pensamento é intitulado “Escatologia da Pessoa” ([1]), adotado como manual de estudantes em certos institutos. O livro destoa de quanto a Igreja ensina sobre tais assuntos e merece sérias restrições, que passamos a propor.


O tema central do livro é a morte; a esta se associam, na mente de Blank, lições antropológicas, o conceito de purgatório, os de juízo final, da ressurreição corporal, do inferno e do céu. Tudo isto teria lugar na hora da morte do indivíduo.


1. O conteúdo do livro - Um tema básico para R. Blank é a antropologia:


“O autor julga que corpo e alma não se separam nem são distintos entre si”.


A clássica concepção segundo a qual corpo e alma são duas substâncias incompletas que se unem para realizar um todo substancial é tida como dualista, oriunda das escolas filosóficas gregas pré-cristãs; a matéria seria má e o espírito, por si mesmo, bom.

“Para a Bíblia, o homem é uma unidade que não pode ser dividida em dois princípios, chamados corpo e alma. Conseqüentemente também não é possível que, na morte, uma alma se separe do corpo” (p. 81).

Em conseqüência, quando uma pessoa morre, morre tudo o que ela é, não resta em vida a alma espiritual, que, na clássica teoria, é imortal.E, para que não haja hiato entre a morte e a ressurreição, esta ocorre logo depois da morte, efetuando uma personalidade idêntica à falecida, mas com forma corpórea invisível aos nossos olhos.


Para Renold Blank Já que, ao falecer, o indivíduo entra logo na eternidade, ele presencia imediatamente o juízo final sem ter que esperar, pois não há futuro na eternidade.


Para Renold Blank na hora da morte, Deus dá ocasião a cada um de afirmar sua fé e entregar-se ao Senhor; caso o indivíduo aceite essa dádiva de Deus, ele faz aí seu purgatório, repudiando tudo o que ele reconhece ter sido menos correto em sua vida terrestre; assim chega a pessoa ao seu estado definitivo, configurando-se plenamente ao projeto de Deus; em virtude dessa “metamorfose” a pessoa ganha o céu; caso não aceite a oferta da graça divina, será o inferno. R. Blank dá a entender que a misericórdia de Deus superará as resistências do homem, fazendo que ele aceite a graça da conversão, sem o que lhe tocará o inferno ou a eterna separação de Deus.


Eis em poucas palavras o pensamento de R. Blank no livro citado - Reflitamos a propósito, analisando atentamente:


Corpo e alma

Temos abordado este assunto repetidamente em PR. Façamo-lo brevemente a seguir:


A distinção entre corpo e alma é clássica no pensamento cristão. Já os judeus distinguiam dois elementos componentes do homem: o corpo ou eventualmente o cadáver, que era sepultado no túmulo dos pais, e um núcleo da personalidade que sobrevivia adormecido na região subterrânea dita kai scheol. Sob o influxo da filosofia grega, essa dualidade passou a ser dita “corpo e alma” (soma e psyché); ambos são criaturas boas de Deus que as fez complementares entre si. É necessário distinguir bem.



a)- Dualismo: dois princípios antagônicos entre si – o que não é bíblico.


b)- Monismo: um só princípio, como admitem Blank e sua escola.


Entre os dois extremos há a dualidade, que admite dois princípios distintos entre si e separáveis, como corpo e alma, feitos não como antagônicos, mas como complementares.

O fato de que a filosofia grega já no século V a.C. falava de corpo e alma, não quer dizer que esta teoria seja pagã ou falsa. Ela foi incorporada ao pensamento cristão desde cedo e recebeu de S. Tomás de Aquino a sua formulação própria derivada da teoria do hilemorfismo:

“Se não há alma espiritual no homem distinta do corpo, o ser humano é um bloco material que poderia ser assemelhado a um macaco aperfeiçoado”.



Tempo e eternidade


A alma humana que deixa o corpo quando este não lhe oferece mais as condições de exercer suas funções vitais, não entra na eternidade:


Esta não tem entrada; é a posse simultânea de todo o ser vivente; só Deus é eterno e vive a eternidade, porque Ele não teve começo nem terá fim; a alma humana tem começo, mas não terá fim; ela é, portanto, imortal e vive o chamado “evo”. Este é o “tempo psicológico”, no qual há uma sucessão de atos da inteligência e da vontade.


Aliás, às pp. 246s do seu livro, R. Blank parece cair em contradição consigo mesmo, professando a teoria clássica dual. Com efeito, à p. 246 refere-se aos que morrem em pecado grave sem arrependimento e diz:

“É com estas imagens que se pode tentar descrever a situação de morte sem ressurreição em Deus”.

À p. 247 do livro de Renold Blank lê-se:


“Todo ser humano pode vivenciar tal situação na morte, pois como ser espiritual, o âmago da pessoa não pode morrer. Sem a ajuda de Deus, porém, esse ser interior também não pode sair de sua situação estática de morte, onde nada mais poderá ser mudado”.


Estes dizeres afirmam que no homem existe um ser espiritual que não morre nem ressuscita gloriosamente, mas continua a viver afastado de Deus. A incoerência de Blank nesta passagem bem manifesta quanto distante da realidade é o monismo “corpo-alma” professado pelo autor.

Juízo final

Se após a morte já não existe a categoria “termo” e na eternidade não há futuro, compreende-se que, para Blank, o ser humano falecido e ressuscitado já contempla, logo depois de morrer, o juízo final da história.


Esta afirmação é totalmente inconsistente, pois quem morre em 2008, por exemplo, como poderá contemplar irmãos que ainda não nasceram em 2010 ? e, por conseguinte, não têm um teor de vida a apresentar ao Juiz universal ?... Este postulado errôneo é conseqüência da não distinção entre evo e eternidade. Não cabe dentro de um raciocínio sereno e objetivo.


Purgatório


Segundo Blank, se alguém não consegue no decorrer desta vida realizar plenamente o projeto que Deus lhe traçou desde toda a eternidade, na hora da morte Deus lhe dá a graça para atingir a plena realização de sua existência.Diz Blank:


“Na morte Deus oferece à pessoa humana aquilo que lhe falta. Deus quer acrescentar a graça àquilo que lhe falta; está disposto a oferecer ao homem de graça, também na morte tudo aquilo que este lhe ficou devendo…(???)... Fica dentro da liberdade humana aceitar ou não esta proposta” (p. 202s).


Tal graça é dada a todos - justos e pecadores - podendo ser a graça da conversão do pecado grave para o estado de filho de Deus. Para todos, é um processo doloroso, pois significa a destruição definitiva do homem velho, com seu egoísmo, sua vaidade, seu orgulho… Esta purificação nada tem que ver com uma câmara de tortura cósmica, onde os pecadores são purificados pelo fogo ou por outros meios.“A última conversão na morte é um ato doloroso, de maior ou menor intensidade. Na linguagem tradicional, ela foi denominada o Purgatório” (p. 208s)...Quem aceita tal graça na hora da morte vai para o céu, quem não a aceita, vai para o inferno.


Estas idéias podem ser muito belas, mas não correspondem à doutrina oficial da Igreja, que pode ser assim resumida:

1)- Todo pecado, mesmo depois de perdoado pelo sacramento da Penitência, deixa no indivíduo as suas raízes, a tal ponto que, mesmo muito arrependido, o pecador pode voltar (e muitas vezes volta) a cometer os mesmos pecados.


2)- Ora, somos chamados a ver Deus face-a-face - o que implica total pureza de alma, pois perante Deus não pode subsistir a mínima sombra de pecado. Por conseguinte, o pecador, mesmo já absolvido, terá que eliminar as raízes do pecado que lhe restam, ou nesta vida (mediante a ascese) ou na vida póstuma (no Purgatório) sem fogo nem diabinhos, mas numa atitude profunda de repúdio a qualquer traço de pecado; esta purificação é póstuma; durará mais ou menos do evo, de acordo com o maior ou menor arraigamento do pecado.


3)- A conversão do pecador pode ocorrer imediatamente antes da morte, mas não após a morte.Blank não se refere às impurezas que impedem de ver Deus face-a-face; encara o purgatório de modo diferente da visão clássica, preocupado que está com a afirmação de que há salvação para os mais endurecidos pecadores, que na hora da morte recebem a graça de um novo “purgatório” relâmpago por Blank concebido.


Juízo de Deus


Ao falar de Deus como Juiz, R. Blank imagina-o sempre misericordioso e pronto para perdoar. Na verdade, muitos textos bíblicos abonam esta concepção (ver SI 51; 103; Os 11…), mas não se podem esquecer outras passagens bíblicas em que o Senhor exerce a justiça (cf. entre outros segmentos os capítulos de Jr 1 -17, em que o Senhor prediz a vinda dos babilônios a Judá para punir o povo idólatra).

Com outras palavras diz Blank:

“Na morte, o homem se encontra com Deus… Jesus, porém, é aquele que sempre interveio em nome de todos os que fracassaram, Aquele que veio para salvar, e não para condenar, Aquele que exige de seus discípulos que eles perdoem sempre” (p. 179). Mais, diz o autor: “O grito pela justiça é motivado pela atitude farisaica… É muito interessante constatar que o grito pela justiça divina se ouve sempre na boca dos piedosos, nunca dos pecadores. São sempre os bons cristãos, os que freqüentam as missas dominicais, os fiéis aos mandamentos e as leis que exigem justiça” (p. 186).

É o fato de Deus ser Amor-Justiça que dissipa a idéia de Deus ser “Papai Bonachão”, o Deus socorrista, o Deus que abona a permissividade dos costumes, pois este mesmo Deus em Cristo disse a Santanás: “Afasta-te!!! E não converte-te,e ainda mais: Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade, e ide para o fogo eterno...”


Inferno


Eis como Blank conceitua o inferno:“Situação impossível e contraditória em sua essência. Uma morte viva consciente, sem a mínima possibilidade de poder providenciar uma saída pelos próprios recursos, entorpecido e fixado em si mesmo.São imagens paradoxais que contêm exatamente os elementos daquilo que as transcrições tradicionais chamam de “inferno” (p. 246).



Renold Blank pergunta se existe realmente alguém em estado de pecado endurecido que se condene a ficar longe de Deus?


Enfatiza o amor de Deus, que não deveria suportar o sofrimento de uma criatura sua por tempos sem fim. Pergunta também se a justiça de Deus não é diferente daquela dos homens (haja visto a parábola de Mt 20, 1-16, que na verdade não quer insinuar diferente conceito de justiça).

Em suma, o autor diz tudo o que pode para insinuar que os pecadores mais empedernidos podem chegar a salvação na hora da morte, contrariando o que a palavra de Deus, magistério e a Tradição afirma:

Ora,para o inferno só vai quem livremente por suas ações e opções fez por onde merecê-lo.A minha vida de Cristão não gira em torno do medo do inferno, mas em servir a Deus que tanto nos tem agraciado sem merecimento algum de nossa parte.


Se o inferno não existe, seria justo pecadores arrependidos e sem arrependimento  estarem juntos e receberem a mesma recompensa?


Na Divina comédia de Dante na entrada da Porta do Inferno está a frase:

“ Deixa aqui fora toda tua esperança...”


Dirá, porém, o incrédulo: “Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?”E como, responderemos: como se atreve o pecador, por orgulho em manter-se num prazer egoísta e momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita?


Ora a resposta é simples:


1)- É eterna, porque a relação TEMPO E ESPAÇO já não existe na ETERNIDADE, pois entramos em estado eterno de decisão que tomamos no TEMPO DA GRAÇA E PACIÊNCIA DE DEUS de amizade ou inimizade com Deus.



2)-E porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação e arrependimento por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos,porque não se arrepende, e só pode haver perdão e reconciliação onde há arrependimento e desejo de reconciliação de ambas as partes, pois existe o desejo de perdoar e reconciliar-se da parte de Deus, porém, não há da parte dos réprobos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno no pecado, e sem arrependimento eterno, também eterna deve ser a conseqüência de sua livre opção (Sl 48, 8-9).



3)- “Ali a culpa  disse o Belluacense, poderá ser castigada, mas jamais expiada” (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, “ali o pecador é incapaz de arrependimento”.E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada eternamente no ódio irreconciliável contra Deus, é aquilo que Cristo chamou de Pecado imperdoável contra o Espírito Santo.Imperdoável porque não existe arrependimento.



4)- Disse o Papa Inocêncio III: “Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles(Na evolidade) a perseverança no ódio”. São Jerônimo afirma que “nos réprobos, o desejo de pecar é insaciável” (Pr 27, 20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15, 18).”



5)- Ora a própria justiça divina permite este livre arbítrio: Pois existiria castigo pior a um réprobo que passar a eternidade na presença de um ser que ele odeia infinitamente e irrevogavelmente ?




Céu


Céu é plenitude da vida, reencontro com os parentes e amigos falecidos, marcado pela união íntima com Deus. Blank é sóbrio e correto ao falar do céu. Apenas se lhe pode observar que seria mais adequado falar da visão de Deus face-a-face como primeira fonte de bem-aventurança e, só depois, mencionar o reencontro com familiares e amigos.O livro termina recomendando a responsabilidade de cada indivíduo frente ao curso da história universal. É preciso “que o amor seja posto em prática em vez de ideologia de ameaça” (p. 318).


Conclusão

O livro de R. Blank é todo inspirado pelo desejo de dissipar o medo que freqüentemente as pessoas têm da morte e do além.

A intenção é muito boa, mas para atingir tal efeito, não é necessário construir uma nova escatologia imaginosa e infundada na Escritura e na Tradição (por mais que Blank queira assim fundamentá-la).



Os fundamentos errôneos de Blank são:

1) a não distinção entre corpo e alma, separáveis entre si .

2) a não aceitação de um meio-termo entre tempo e eternidade chamado “evo”.


Ora a razão filosófica exige estas distinções e não somente ela, mas  a fé as propõe. Com efeito, a fé as professa conforme Carta da Congregação para a Doutrina da Fé publicada e comentada em PR 238/ 1979, pp. 399ss e PR 239/1979, pp. 456ss.


Concluímos dizendo em forma de oração:


Bendito seja Jesus, nosso Senhor, que nos mereceu o céu e que nos chama à vida juntamente com Ele. É preciso tirar bons frutos deste conhecimento, rejeitando a todo instante o pecado que nos alicia, mata e nos afasta de Deus, buscando solidamente o bem, na esperança de uma futura ressurreição.



“Se enxerguei além dos outros, não foi por mim mesmo, mas porque estava no ombro de gigantes...”
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