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O VATICANO II FOI UM CONCÍLIO "MERAMENTE PASTORAL"?

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 7 de novembro de 2010 | 11:03

 

 

Por Patrick Madrid e Pete Vere

Fonte: http://spirit-of-trent.blogspot.com/

Tradução: Maite Tosta

Publicado em 10/09/2009


 Por Patrick Madrid e Pete Vere.
Madrid é um renomado apologeta católico, e Vere é um canonista e ex-adepto da FSSPX.

Os defensores do tradicionalismo radical freqüentemente se refugiam na afirmação de que o Vaticano II foi um Concílio “meramente pastoral”, e, portanto, não poderia ser reconhecido como um concílio infalível. “O Concílio Vaticano II, como mero concílio pastoral” – dizem – “não rompeu com a Tradição? Além do mais, que sentença afirmativa o Vaticano II promulgou?” Essas são boas perguntas que merecem boas respostas. A natureza pastoral do Concílio Vaticano II é fonte de muita controvérsia entre muitos tradicionalistas. Na verdade, muitos católicos tradicionais que se reconciliam com a Igreja continuam duelando com esse questionamento mesmo depois de muito tempo após seu retorno à Igreja.

Felizmente, o Pe. Gerald de Servigny responde muitas dessas questões em seu livro “La Theologie de L'Euchariste dans le Concile Vatican II” (A Teologia da Eucaristia no Concílio Vaticano II), que está sendo traduzido por um dos autores para a língua inglesa. Pe. Servigny é um teólogo que traz tanto uma abordagem pastoral e uma reflexão teológica para a questão, e este capítulo não poderia ter sido escrito sem a sua ajuda. Somos gratos, tanto a ele quanto a seu editor, Pierre Teque Editeur, por nos permitir traduzir seu livro e citá-lo livremente neste capítulo (1).

Muitos tradicionalistas argumentam que o Concílio Vaticano II foi o primeiro e único concílio geral da Igreja a ser apresentado como concílio “pastoral”. Entretanto, o termo “pastoral” pode ser compreendido (e incompreendido) de diferentes formas. Quando aplicado ao Concílio Vaticano II, como aponta o Pe. Servigny, o termo “pastoral” deve ser entendido no contexto do que o Papa João XXIII pretendia quando convocou o Concílio. Este é um princípio bastante comum quando se trata de interpretação das ciências sagradas. Na verdade, é possível traçar um paralelo entre a abordagem do Pe. Servigny e o Cânon 17 do Código de Direito Canônico de 1983 (ou, já que o Código de Direito Canônico de 1983 não estava ainda em vigor quando o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, o Cânon 18 do Código de Direito Canônico de 1917).

Pe. Servigny cita o seguinte parágrafo do discurso II do Papa João XXIII de abertura do Concílio Vaticano II: “é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do « depositum fidei », isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral.”(2)

Esse é um bom resumo de como o Papa João XXIII entendia o termo “pastoral” quando convocou o Concílio Vaticano II. “Pastoral” não quer dizer que o Concílio Vaticano II focalizou somente na disciplina pastoral da Igreja – aquelas normas e práticas sujeitas a mudanças com o tempo. Nem quer dizer que o Concílio Vaticano II ignorou o ensinamento da Igreja, uma vez que seus pronunciamentos tinham que estar baseados em algum ensinamento católico prévio para que pudesse ter status de um concílio geral da Igreja. Ao contrário, “pastoral”, neste contexto, significa tomar o magistério existente, perene da Igreja – aquelas matérias de fé e moral extraídas da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição – e colocando-as em prática de uma forma que desafie a sociedade hodierna e sua cultura em termos que possam ser compreendidos.


“Embora sejamos tentados a contrapor a natureza pastoral do Concílio Vaticano II com a natureza dogmática dos concílios ecumênicos anteriores”, alerta o Pe. Servigny, “pastoral e dogmático não são mutuamente excludentes. Um ensinamento pastoral é um ensinamento teológico, embora não esteja enunciado de forma puramente intelectual e reservada a teólogos. Melhor dizendo, é um ensinamento transmitido ao mundo cotidiano com a finalidade de alimentar espiritualmente os Cristãos e iluminá-los sobre o mistério de Deus. É este ensinamento que orienta os fiéis, dizendo-nos em que crer e o que devemos fazer para crescer em nosso relacionamento com Nosso Senhor Jesus Cristo.”



Em outras palavras, “pastoral” determina o status de uma doutrina em relação ao católico médio, dos bancos de Igreja. Não estudamos Deus em Seu benefício, mas em nosso. Estudamos o mistério de Deus para melhor entendê-Lo, para melhor amá-Lo e para viver Sua verdade mais plenamente. Por exemplo, teologia doutrinária nos ensina sobre o grande mistério da redenção de Cristo, enquanto a teologia pastoral nos ensina em colocar tal mistério em prática freqüentando o sacramento da confissão. A teologia doutrinária nos ensina sobre o mistério da transubstanciação durante o santo Sacrifício da Missa, enquanto a teologia pastoral nos ensina quando podemos e quando não podemos participar desse mistério.

Assim que o leitor compreende essa orientação pastoral do Concílio Vaticano II, Pe. Servigny apresenta a citação seguinte do Cardeal Yves Congar, O.P. – um dos muitos peritos em teologia convidados a participar do Concílio. “O que João XXIII denominou “pastoral” era doutrina, escreve o Cardeal Congar, “mas com expressão histórica, no tempo do mundo atual... é doutrinária, mas doutrina pastoral, ou seja, doutrina que pede para ser aplicada historicamente”.(3) O que Congar quer dizer é que, como Concílio pastoral, o Vaticano II buscou aplicar o magistério da Igreja no contexto da história contemporânea – tornar a doutrina da Igreja relevante para o mundo de hoje. Na encarnação, Cristo não tomou meramente nossa carne humana, ele também tomou sobre si nossos costumes, moral, cultura, e, no que se relaciona com a criação, tempo e espaço. Logo, a doutrina se aplica aqui e agora, por toda a expansão geográfica, numa era de tecnologia moderna e comunicação universal.  A doutrina não é algo simplesmente restrito à população hebréia reunida nas redondezas de Jerusalém durante a era do Rei Herodes e Pôncio Pilatos.

O Pe. Servigny escreve:

Para Congar e para outros, doutrina pastoral é uma doutrina encarnada, não muito diferente de Nosso Senhor que se encarnou no ventre da Virgem Maria. Seu vocabulário também possui a habilidade de se renovar. Enquanto o ensinamento essencial da igreja não pode mudar de acordo com a época ou a cultura, a Igreja pode tornar este ensinamento mais acessível para os fiéis de acordo com o espaço e tempo, à medida que descobre melhores maneiras de expressar as verdades essenciais de nossa fé.

Portanto, não devemos confundir ensinamento pastoral com negligenciável, secundário, insignificante, nem devemos entendê-lo como inferior ao magisterial ou puramente doutrinário. Contudo, é assim que certos movimentos opositores têm compreendido errôneamente o Concílio, sempre com a intenção de combatê-lo. Para resumir brevemente seus argumentos, eles se opõem ao caráter pastoral do Concílio Vaticano porque sustentam que, sendo um concílio pastoral, o Vaticano II só assumiu um conteúdo disciplinar. Seguindo essa premissa falha, eles concluem que o Concílio Vaticano II obviamente não tem nada a ver com o ensinamento magisterial da Igreja.

Pe. Servigny então nos aponta para as visões seguintes, redigidas pelo Papa Paulo VI em uma carta resposta à crítica de certos textos conciliares tecida pelo Arcebispo Lefebvre: “Não se pode invocar a distinção entre dogmático e pastoral com a finalidade de aceitar alguns textos do Concílio e refutar outros”, explica o Santo Padre. “Certamente, tudo o que foi dito no Concílio não demanda um assentimento da mesma natureza; somente o que é afirmado como objeto de fé ou verdade ligada à fé, por atos definitivos, requer um assentimento de fé. Mas o resto é também uma parte do solene magistério da Igreja o qual todos os fiéis devem receber com confiança e aplicar com sinceridade.” (4)
 
Logo, mesmo o ensinamento mais puramente pastoral do Concílio Vaticano II pertence ao magistério da Igreja. Afinal, as três funções da Igreja são ensinar, governar e santificar. Enquanto cada uma dessas funções é única – como o Pai, o Filho e o Espírito Santo existem como pessoas únicas na Santíssima Trindade – elas são, contudo, inter-relacionadas. De forma similar, o ensinamento puramente doutrinário da Igreja é relacionado com como esse ensinamento é implementado. Em outras palavras, a função de governo da Igreja nunca está totalmente separada da função de ensino, e, portanto, os pronunciamentos do Concílio Vaticano II são ao mesmo tempo doutrinais e pastorais.
 
Pe. Servigny fala das implicações disso:

O Sumo Pontífice e os bispos, reunidos em um concílio, e subseqüentemente o Espírito Santo assiste o colégio de bispos, como sucessores dos Santos Apóstolos, em propor doutrina para a Igreja universal. Notável e interessante é a fórmula empregada pelo Santo Padre e os bispos ao assinar e promulgar o texto, a saber: “em virtude do Poder Apostólico a nós confiado por Cristo, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo os aprovamos, decretamos e estatuímos...”
 
Enquanto o peso de cada texto em particular produzido no Concílio Vaticano II possa variar, os documentos devem ser, contudo, recebidos e entendidos como ensinamento cogente (autoritativo) da Igreja. Os textos pastorais do Concílio Vaticano II carregam consigo o peso do colegiado de bispos ensinando em comunhão com o Pontífice Romano. Como se lê na Pastor Aeternus, a constituição dogmática do Primeiro Concílio Vaticano, sobre a Igreja,

 (...)que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecumênicos e nos sagrados cânones(...)devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo,(...)
 
Em resumo, a Tradição Católica sustenta que devemos nos submeter ao Pontífice Romano em questões de disciplina e governo, o que engloba a aplicação pastoral da doutrina, e não meramente nas questões de fé e mora. Como católicos, não podemos ser como Martinho Lutero, que, na Dieta de Worms, alegadamente afirmou “Eu não aceito a autoridade dos papas e concílios porque eles se contradizem mutuamente”.

A essa altura, é especialmente útil olhar para a tentativa de aplicação da doutrina do Concílio Vaticano II na prática pastoral. “Da primeiras linhas da Lumen Gentium, a Consituição Dogmática do Vaticano II sobre a Igreja”, escreve o Pe. Servigny, “o Concílio se posiciona em continuidade com os concílios ecumênicos anteriores. Sobre isso o claro testemunho no parágrafo de abertura da Lumen Gentium: “E, retomando o ensino dos concílios anteriores, propõe-se explicar com maior rigor aos fiéis e a toda a gente, a natureza e a missão universal da Igreja”.

Essa afirmação pode parecer incrível para alguns de seus companheiros tradicionalistas, mas o Pe. Servigny a fundamenta com fatos. Em termos de quantidade, o Concílio Vaticano II abundantemente cita seus imediatos predecessores – o Concílio de Trento e o Concílio Vaticano I. Realmente, cada um destes concílios é substancialmente citado vinte vezes no Concílio Vaticano II (5). “A primeira referência ao Concílio de Trento aparece no quinquagésimo quinto parágrafo da Sacrossanctum Concilium (A Constituição do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia),” nos ensina o Pe. Servigny, “em relação à comunhão nas duas espécies: ‘Os princípios dogmáticos que foram estabelecidos pelo Concílio de Trento permanecem intactos...’”. Essa é uma referência muito importante a um concílio anterior, uma vez que determina uma área concreta na qual o Concílio Vaticano II deve ser interpretado à luz do Concílio de Trento. Em resumo, os princípios doutrinários subjacentes ao foco pastoral do Concílio Vaticano II são aqueles do Concílio de Trento.

 (1) Fr. Gerald Beauchamp de Servigny, "Was Vatican II Merely a Pastoral Council?," traduzido por Pete Vere, Envoy Magazine, Vol. 7, No. 3, pp. 24-29.

(2) John XXIII, 11 October 1962, traduzido por Pete Vere.
http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council_po.html

(3) Yves Congar, Entretiens d'automne, Cerf, Paris, 1987, p. 13.

(4) Paulo VI, Carta ao Arcebispo Lefebvre, Nov. 10, 1976.

(5) Congar, Entretiens d'automne, op cit. p. 10.




Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor

FONTE:http://www.veritatis.com.br/article/5954

A HERMENÊUTICA E O CONCÍLIO

Por Pedro Ravazzano

Publicado em 04/06/2008

O Concílio Vaticano II é alvo de severas críticas, se por um lado é interpretado por uns como o desligamento da Igreja com seu passado, outros grupos se dedicam a afirmar que ele traiu a Esposa de Cristo, lançando ao vento sua Tradição e heranças deixadas por Nosso Senhor. Algumas dessas opiniões estão corretas? Não.
A interpretação que cria uma dicotomia entre o mundo pré e pós-conciliar é chamada pelo Santo Padre Bento XVI de “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”. Essa mentalidade, propositalmente, defende que o Vaticano II criou uma nova compreensão de Igreja, lançando as bases de uma fundação moderna da fé. Ao mesmo tempo, essa ótica deturpada forneceu o sustentáculo para que católicos ressentidos afirmassem que o Concílio realmente traiu a Tradição. Desde já concluímos que existe uma íntima relação entre os modernistas, adeptos da hermenêutica relativista, e os falsos tradicionalistas. Os primeiros criam o cenário que os segundos utilizam para afirmar que o Vaticano II rompeu com o passado da Esposa de Cristo.
No início do séc. XX, a Igreja se deparou com uma explosão teológica, ao mesmo tempo em que bons homens, pautados na Tradição e na Sagrada Escritura, desenvolviam e aprofundavam o conhecimento teológico, bíblico e histórico, grupos inteiros de religiosos e leigos engajados arquitetavam nas Universidades um pensamento herético, de grande extensão, que rebaixava a instituição divina da Igreja, transformando-a num organismo propenso às mudanças do mundo. O modernismo, condenado por São Pio X como “síntese de todas as heresias”, abriu as portas para que padres, bispos, freis, monges, contrariassem a doutrina e o Magistério da Igreja, reflexo da sua origem na filosofia moderna, que colocava em xeque a possibilidade da percepção da Verdade, enaltecendo as idéias, o pensamento do homem.
Em meio ao surgimento do modernismo, o mundo contemporâneo era surpreendido com o fortalecimento de pensamentos venenosos, como o laicismo, ateísmo, relativismo moral, dialética marxista, enrijecimento do liberalismo materialista. Sabiamente, a Igreja, zelando pela salvação das almas, ensinou, através da condenação do erro, o caminho ortodoxo que os fiéis deveriam seguir.
O Concílio Vaticano II foi pautado na vontade de modificar o método até então utilizado. Claro que isso não poderia ser interpretado como uma aversão às condenações passadas. Afinal, a Igreja, enquanto Esposa de Cristo, tem o múnus de guiar, e pensar na possibilidade de que os ensinamentos provenientes dela são propensos ao erro e modificações, é crer que a sua infalibilidade, a regência pelo Espírito Santo, e a presença na terra do Vigário de Cristo, não existem. Quando o Santo Padre condena o marxismo, por exemplo, tem na base de suas afirmações o conteúdo apostólico, patrístico, a Sagrada Escritura, a herança de Nosso Senhor, portanto, há em sua sustentação todo um aparato originado do depósito da fé. O Concílio se distinguiu pelo fato de não anatemizar, preferiu ensinar dizendo o que é correto, e não recondenando o erro, método completamente sadio e ortodoxo.
As grandes confusões originadas da interpretação do Concílio se devem ao fato que muitos religiosos, já infectados pelo gérmen do modernismo, aproveitaram essa ótica do Vaticano II para impor no pós-concílio suas visões heréticas. Claro que qualquer católico, sensato e sincero, nunca enxergaria no Concílio uma ruptura com a Tradição, levaria em questão todo o legado da Igreja. Ademais, o cenário formado não foi positivo, muitos Bispos, Padres, passaram a levantar a bandeira do relativismo religioso, do marxismo, ecumenismo irenista, e muitos outros erros e heterodoxias já condenadas pelo Magistério. Quando confrontados com os ensinamentos da Esposa de Cristo, se defendiam dizendo que estavam “na esteira do Concílio”. Ora, tamanha profanação só seria cabida para aqueles que interpretavam o Vaticano II como uma refundação, como se tudo aquilo que veio antes de 1965 não tivesse mais valor. É necessário frisar que em nenhum momento os documentos conciliares defenderam os erros condenados, apenas optaram por não trazer à tona anátemas, mas sim o diálogo com o mundo, mostrando as coisas boas presentes na sociedade, mas tendo a consciência clara a respeito das sombras estabelecidas entre os homens. E como parte da Igreja Católica, como vigésimo primeiro Concílio, não poderia renegar nada do que já havia sido ensinado, muito menos rechaçar a Tradição. Concluímos, então, que aqueles que se pautavam no Vaticano II para ratificar suas heresias, erravam absurdamente, pois enxergavam no Concílio a origem de uma nova Igreja, repudiando seu passado, e de forma ignorante compreendiam as não-condenações nos textos conciliares como a liberação do erro outrora anatemizado.
Em 1968 explode a revolução estudantil em Paris. Foi o pontapé para a ascensão do marxismo cultural na sociedade ocidental, estando intimamente ligada ao movimento hippie, que clamava por uma “nova” moral e ética, repudiando a origem cristã dos valores comuns, chamados por eles de “valores burgueses”. Ademais, defendiam o “amor-livre” e o pacifismo doentio. Ambos os acontecimentos tem ligação estreita com a Escola de Frankfurt, em especial com Marcuse, que taxava o fundamento cristão da sociedade de instrumento de repressão, e via no princípio do prazer um meio de libertação. As sábias palavras do Vigário de Cristo, Bento XVI, aos Sacerdotes das dioceses de Teviso e Belluno-Feltre, nos Alpes, descrevem com perfeição esse crítico cenário: "E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas; a de 1968, o início – ou a explosão ousaria, dizer – da grande crise cultural do Ocidente (...) Mas tendo terminado essa geração viram-se também todas as falências, as lacunas dessa reconstrução, a grade miséria do mundo, e começou assim – explodiu – a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente. Não criamos, em dois mil anos de cristianismo, o mundo melhor. Devemos recomeçar do zero, de modo absolutamente novo; o marxismo parece a receita cientifica para criar finalmente um mundo novo, E neste (...) grave confronto entre a nova e sadia modernidade querida pelo Concílio e a crise da modernidade, tudo se torna difícil, como depois do primeiro Concílio de Nicéia. Uma parte tinha a opinião de que essa revolução identificava a nova revolução marxista com a vontade do Concílio; dizia: esse é o Concílio. No papel os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está esse espírito. Essa é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. E por outro lado, naturalmente, a reação; destruir assim a Igreja; A reação, digamos, absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio, e a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio (...) Portanto, durante os grandes ruídos do progressismo errado, do anti-Concílio cresceu muito silenciosamente, com tantos sofrimentos e também com tantas perdas na construção de uma nova época cultural, o caminho da Igreja.”
Os Padres conciliares realmente não sabiam dos acontecimentos vindouros, portanto não podem carregar o fardo da crise da sociedade ocidental. Ademais, juntando o que foi exposto sobre a interpretação obtusa do Vaticano II, a errada visão a respeito de seu método, somado com a ascensão de pensamentos e ideais completamente invertidos entre os homens, resultou na criação do cenário perfeito para a difusão do erro e perdição. No pós-concílio se implantou então a dúvida, muitos religiosos sustentados na hermenêutica da ruptura enxergavam no Vaticano II a ascensão de uma fé moderna, e no seu método a borracha que apagou todas as condenações de outrora, cenário este que alimentado pela crise social, realmente levou a crer que tamanhas conclusões heterodoxas se sustentavam na vontade da Igreja.
A revolução cultural gerou o alvorecer de um Novo Mundo, e essa mentalidade convertida na fé originou o ideal de refundação da Igreja, pautada no relativismo e na adaptação às novidades da humanidade. Os religiosos heréticos aproveitaram a confusão pós-conciliar para ratificar suas heterodoxias, difundindo a hermenêutica da ruptura, bradando que os erros do passado foram revogados pelo Vaticano II e, que a Igreja, estava se curvando ao mundo. Se São Basílio fosse um Padre do Concílio, sem dúvida renovaria suas impressões passadas, que relatou a respeito de Nicéia; : "O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja falsificando, por excesso ou por defeito, a reta doutrina da fé..." (De Spiritu Sancto, XXX, 77; PG 32, 213 A; Sch 17 bis, pág. 524)
Esse cenário propiciou que Bispos e Padres abrissem as cancelas do erro e, em seus países de origem, desvirtuassem não só o Vaticano II, com a má interpretação do seu método, mas como a deformação de toda a Tradição da Igreja, atestando o alto grau de descomprometimento com as bases da fé católica. Nesse meio, os fiéis viraram alvos fáceis de hierarcas heterodoxos e, desse modo, se disseminou não só o enfraquecimento da piedade e da vivência religiosa, mas juntamente o relativismo religioso. A transformação foi violenta, e esse espírito de metamorfose talvez tenha sido mais agressivo do que a própria mentalidade prostituída dos hereges. Os leigos, as senhoras beatas, as crianças em formação, os lares católicos, os homens e mulheres sem grandes conhecimentos, mas cheios da pura fé, viram tudo aquilo que sustentava o dia-a-dia da religião desabar. As devoções e novenas diminuindo, a oração coletiva do rosário se extinguindo, a mística da liturgia sendo trocada por um mero banquete, o Padre, figura fraterna, amiga e próxima das famílias, embebido em piedade, ortodoxia e fé, transformado em psicólogo, sociólogo, jurista, e mais distante do seu papel nas comunidades. Foram essas transformações, mais do que os planos diabólico-maquiavélicos dos heterodoxos, que instituiu entre os homens o ideal de uma Igreja “nova” e “moderna”.
O Santo Padre Bento XVI no seu discurso à Cúria Romana na apresentação dos votos de Natal do ano 2005, ainda lembra que essa interpretação da descontinuidade “não raro (...) pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna.”, afirmação de quem tem uma sensível percepção a respeito dos acontecimentos pós-conciliares. A hermenêutica da ruptura realmente goza de grande espaço nos meios de comunicação, é a forma que encontraram para atacar a Igreja, endossando e difundindo um plano destrutivo e herético. Não obstante, a mídia rapidamente se contaminou, no mínimo se deixou levar, pelas mudanças da sociedade ocidental, aderindo à revolução cultural, transformando-se num verdadeiro meio de difusão de idéias e “novos” valores. Ademais, a eficiência, rapidez, dos jornais, rádios e televisões, antecipou e levou ao grande público informações a respeito do Concílio antes mesmo que a Igreja e o Papa dessem o parecer do Magistério. Hoje, a abertura que a mídia fornece aos religiosos “tendenciosos”, e a forma desleixada e desrespeitosa com que tratam nomes de grande piedade e ortodoxia, apenas confirmam quão frutífera e necessária, do ponto de vista do erro, é essa interpretação conciliar obtusa, que gera no seio da sociedade uma mentalidade libertária, “moderna” e sem “grilhões” a fé e normas.
O diálogo a respeito do Vaticano II muitas vezes toma uma feição dicotômica, de um lado os modernistas, que analisam sem respaldo na Tradição, o Concílio, e enxergam nos seus textos o rompimento da Igreja com o seu passado, por outro lado os “tradicionalistas”, que pautados justamente nessa visão progressista, afirmam que o Vaticano II traiu a Esposa de Cristo, e rompeu com a Tradição. Realmente, se o Concílio tivesse defendido todas as heresias e esquizofrenias que os modernistas encontram na interpretação dos textos e documentos, hermenêutica essa quase autista por sinal, os “rad-trads” teriam razão de existir, daí a necessidade de que haja progressismo para haver tradicionalismo. A real compreensão do Vaticano II se encontra no entendimento de seu momento histórico, assim como o método e linguagem por ele utilizado, sem contar é claro a sustentação à luz da Tradição e Sagrada Escritura, que por sua vez são enlaçados pelo Magistério na regência do Pontífice Romano. No caso dos modernistas, além de caírem na interpretação pessoal, guiada pelas vontades e intentos próprios, heréticos para ser mais claro, o que já gera erros e absurdos nunca dantes vistos na análise do Concílio, o distanciamento do pastoreio do Papa cria diversas outras anomalias, como o surgimento de pensamentos eclesiológicos de caráter radicalmente cismático, e heterodoxias pautadas no mais genuíno relativismo. O tradicionalismo por sua vez, tem um comportamento mais presunçoso, diferente do progressismo, que é rebelde. Os rad-trads já erguem a bandeira de que todas as afirmações feitas pelos modernistas são verdadeiras e genuínas, que realmente o Concílio traiu a Igreja e jogou ao vento a sua herança apostólica, e de maneira desrespeitosa e pouco caridosa, crêem que as atitudes dos Papas em defesa do Vaticano II são inúteis. Os tradicionalistas acreditam que estão ao lado da Igreja quando se opõem ao Sumo Pontífice, caindo, dessa forma, no mesmo erro dos progressistas. Tanto os primeiros quanto os segundos criam uma visão particular do Concílio, e ambos rejeitam os ensinamentos papais. 
Interpretar, viver e conhecer o verdadeiro Vaticano II é interpretar, viver e conhecer a Igreja e seus fundamentos. Desvencilhar o Concílio da Tradição, da Sagrada Escritura, dos vintes anteriores Concílios, é querer arrancar a Igreja da sua pedra de sustentação. Como o maior ódio não consegue balançar a Esposa de Cristo, regida pelo Espírito Santo e construída na base da promessa de Nosso Senhor ao Príncipe dos Apóstolos, é uma questão de tempo para que o Papa, agraciado com a luz de Deus, consiga limar a heresia do seio do clero e do laicato, e converta os heterodoxos a mais pura fé católica. O Sucessor de São Pedro disse que “Quem aceita o Vaticano II, como ele claramente se expressou e se entendeu a si mesmo, ao mesmo tempo aceita a inteira tradição da Igreja Católica, particularmente, os dois concílios anteriores.” E é embebido nesse pastoreio e confiança no Angélico Pastor que os católicos devem se sustentar, e nas palavras do Santo Padre; “assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás dos textos, mas são precisamente os grandes textos relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades."

AFINAL, BENTO XVI É FAVORÁVEL OU CONTRÁRIO AO CONCÍLIO VATICANO II?

Por Marcos Monteiro Grillo

Publicado em 19/05/2008

“Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de actuação do Concílio Vaticano II, no seguimento dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja.”



A pergunta que dá título ao presente artigo, embora seja em si mesma absurda (pois é absurdo que um Papa seja contra um Concílio da Igreja!), faz-se necessária por causa daqueles que insistem em afirmar que o Concílio Vaticano II foi um “mal” que se abateu sobre a Igreja de Cristo, e por isso deve ser não só rechaçado, mas também “anulado”.

Bento XVI tem sido celebrado por muitos dos que rejeitam o Vaticano II como o Papa que irá “restaurar” a Igreja dos “estragos” causados pelo Concílio (e não apenas por interpretações errôneas dos seus documentos), o que é não só curioso, mas também patético, uma vez que Bento XVI, em total coerência com o teólogo Joseph Ratzinger (leia mais), tem dado fartas e cabais demonstrações da sua aprovação ao Vaticano II e do seu compromisso com esse Concílio.

Ninguém pode negar que o catolicismo passa por um momento difícil, podemos dizer por uma crise, ou ainda por uma provação. Redução no número de fiéis (pelo menos em algumas regiões do mundo, como América Latina e Europa), excessos e desvios litúrgicos, desrespeito à moral católica por parte dos próprios fiéis, avanço do subjetivismo e de uma espiritualidade excessivamente emotiva e até piegas, recrudescimento da teologia da libertação aliada ao progressismo e ao relativismo teológico, esses são alguns dos sinais da provação por que passa a Igreja. Não obstante, tal provação não pode, de forma alguma, ser atribuída ao Concílio Vaticano II em si, mas sim às interpretações equivocadas que dele foram e têm sido feitas. Nesse sentido, os católicos que realmente queiram ser fiéis à Igreja, ao Magistério e ao Papa e que estejam dispostos a trabalhar em prol do Corpo de Cristo devem compreender, de uma vez por todas, que a nossa luta não pode ser contra o Concílio Vaticano II, e sim contra as interpretações erradas que dele foram, têm sido e venham a ser feitas. Para isso é fundamental conhecermos os documentos do Concílio (e não apenas comentários críticos deles), mas principalmente colocarmo-nos em sintonia, ou melhor, em obediência aos Papas responsáveis pelo Concílio (João XXIII e Paulo VI) e por sua implementação (João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI) e ao Magistério ordinário da Igreja. Só assim estaremos realmente prestando um serviço à Igreja. Do contrário, ou seja, quem quer que insista na rejeição ao Vaticano II e prefira seguir interpretações pessoais do Concílio estará prestando um desserviço à Igreja de Cristo, por mais sincero e bem-intencionado que seja. Pois essa obstinação em rechaçar o Vaticano II tem um efeito deletério não só entre os que são católicos, mas também entre os que não são, na medida em que alimenta a desconfiança no Magistério e a descrença na infalível assistência do Espírito Santo à Igreja. Pois o que pensar da inerrância da Igreja se o Magistério “errou” por ocasião do Vaticano II e se os Papas eleitos após o Concílio têm “insistido” nesse “erro” (na medida em que têm apoiado incondicionalmente o Vaticano II)?

Nossa oração é no sentido de que o Espírito Santo atue profundamente nos corações e nas mentes daqueles que têm se colocado contra o Concílio Vaticano II (e que têm feito isso freqüentemente com mais ardor do que têm lutado contra os verdadeiros inimigos da fé, como o secularismo, o relativismo, o marxismo etc.). Que essas pessoas enfim percebam o mal que têm causado às almas (ainda que com as melhores intenções), semeando a discórdia, a desobediência, a insubordinação, a desconfiança, o subjetivismo, o personalismo e outros malefícios. Que sejamos todos fiéis e obedientes ao Magistério e ao Papa (e não ao que nos parece ser o correto). E que Deus nos livre de ser “neoprotestantes” dentro da Igreja!

Leiamos, agora, um pouco do que o Papa Bento XVI tem dito a respeito do Concílio Vaticano II. E sigamos-lhe o exemplo!

Obs.1: os trechos abaixo foram transcritos apenas de documentos publicados no site do Vaticano em português, o que significa que em vários outros documentos ainda não traduzidos para o português pode haver mais declarações do Papa favoráveis ao Vaticano II.

Obs.2: as simples referências ao Vaticano II, nos discursos, homilias e mensagens do Papa Bento XVI, são inúmeras, por isso preferimos transcrever apenas aquelas em que o Papa manifesta expressamente o seu apoio e/ou o seu compromisso com relação ao referido Concílio.

Obs.3: em nossa pesquisa, não encontramos nenhuma referência crítica, no sentido de desaprovação, de Bento XVI em relação ao Vaticano II, muito menos qualquer indício de que o Papa possa vir a “anular” o Concílio. Se tais referências ou indícios existem, pedimos aos leitores que no-los enviem.

Obs.4: colocamos em negrito os trechos que nos parecem merecer atenção especial.


“Tenho às minha frente, em particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem. Uma Igreja que, segundo o seu ensinamento e exemplo, olha com serenidade para o passado e não tem medo do futuro. Com o Grande Jubileu foi introduzida no novo milénio levando nas mãos o Evangelho, aplicado ao mundo actual através da autorizada repetida leitura do Concílio Vaticano II. Justamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como "bússula" com a qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milénio (cf, Carta apost. Novo millennio ineunte, 57-58). Também no seu Testamento espiritual ele anotava: "Estou convencido que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu" (17.III.2000).

Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de actuação do Concílio Vaticano II, no seguimento dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja. Celebrar-se-á precisamente este ano o 40º aniversário da conclusão da Assembleia conciliar (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam actualidade; ao contrário, os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da actual sociedade globalizada.” (Primeira mensagem de Sua Santidade Bento XVI no final da Concelebração Eucarística com os Cardeais Eleitores na Capela Sistina, Quarta-feira, 20 de Abril de 2005)

“Agora o meu pensamento volta ao dia 8 de Dezembro de 1965, quando o servo de Deus Paulo VI concluiu solenemente o Concílio Ecuménico Vaticano II, o maior evento eclesial do século XX, iniciado três anos antes pelo beato João XXIII. Entre a alegria de numerosos fiéis na Praça de São Pedro, Paulo VI confiou a concretização dos documentos conciliares à Virgem Maria, invocando-a com o delicado título de Mãe da Igreja. Ao presidir esta manhã a uma solene Celebração eucarística na Basílica Vaticana, eu quis dar graças a Deus pelo dom do Concílio Vaticano II. Quis também louvar Maria Santíssima por ter acompanhado estes quarenta anos de vida eclesial ricos de tantos acontecimentos. De modo especial, Maria vigiou com solicitude materna sobre o pontificado dos meus venerados Predecessores, cada um deles, com grande sabedoria pastoral, guiou a barca de Pedro na rota da verdadeira renovação conciliar, trabalhando incessantemente para a fiel interpretação e concretização do Concílio Vaticano II. (Angelus, 8 de Dezembro de 2005 Solenidade da Imaculada Conceição)

“Queridos irmãos e irmãs, ao convidar-vos a retomar a leitura destes documentos, exorto-vos a rezar juntamente comigo à Virgem Maria, para que ajude todos os crentes em Cristo a manter sempre vivo o espírito do Concílio Vaticano II, a fim de contribuir para instaurar no mundo aquela fraternidade universal que responde à vontade de Deus sobre o homem, criado à imagem de Deus.” (Angelus, Domingo, 30 de Outubro de 2005)

“Queridos Irmãos Bispos italianos, durante os trabalhos da vossa Assembleia recordareis de modo especial o quadragésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II. Uno-me de todo o coração a vós nesta comemoração, na expectativa da celebração, a que eu mesmo presidirei no próximo dia 8 de Dezembro, do dom extraordinário que a Igreja e a humanidade receberam através do Concílio.” (Mensagem do Papa Bento XVI aos Bispos italianos reunidos em Assis para a 55ª Assembléia Geral)

Quarenta anos depois do Concílio podemos realçar que o positivo é muito maior e mais vivo do que não podia parecer na agitação por volta do ano de 1968. Hoje vemos que a boa semente, mesmo desenvolvendo-se lentamente, cresce todavia, e cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio.” (Discurso do Papa Bento XVI aos Cardeais, Arcebispos e Prelados da Cúria Romana na apresentação dos votos de Natal, Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005)

“Eis então onde se situa a missão de uma revista de cultura como a Civiltà Cattolica: participar no debate cultural contemporâneo, quer para propor, de maneira séria e ao mesmo tempo divulgadora, as verdades da fé cristã de modo claro e ao mesmo tempo fiel ao Magistério da Igreja, quer para defender sem espírito polémico a verdade, por vezes deformada com acusações sem fundamento à comunidade eclesial. Gostaria de indicar o Concílio Vaticano II como farol no caminho que a Civiltà Cattolica está chamada a percorrer. As riquezas doutrinais e pastorais que ele contém e, sobretudo, a inspiração de fundo ainda não foram assimiladas plenamente pela comunidade cristã, mesmo se transcorreram 40 anos depois da sua conclusão.” (Discurso do Papa Bento WVI aos escritores e colaboradores da revista "Civiltà Cattolica" Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006)

“A comunhão eclesial, que se funda na própria pessoa de Jesus Cristo, exige também a fidelidade à doutrina da Igreja, sobretudo mediante uma justa interpretação do Concílio Vaticano II, isto é, como já tive a ocasião de dizer, "numa hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade do único sujeito Igreja, que o Senhor nos doou" (Discurso à Cúria romana, 22 de Dezembro de 2005). Com efeito, se lermos e recebermos o Concílio desta forma, "ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação, sempre necessária, da Igreja" (ibid.)” (Discurso do Papa Bento XVI  ao primeiro grupo de Bispos do Canadá-Quebeque por ocasião da visita "Ad Limina Apostolorum", Quinta-feira, 11 de Maio de 2006)

“João Paulo II, filósofo e teólogo, grande pastor da Igreja, deixou uma riqueza de escritos e de gestos que expressam o seu desejo de difundir o Evangelho de Cristo no mundo, usando os métodos indicados pelo Concílio Vaticano II e de traçar as linhas de desenvolvimento da vida da Igreja no novo milénio. Estes dons preciosos não podem ser esquecidos. Hoje confio a vós, queridos membros e amigos da Fundação João Paulo II, a tarefa de aprofundar e manifestar às futuras gerações a riqueza da sua mensagem.” (Discurso do Papa Bento XVI aos membros da Fundação João Paulo II, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006)

“O Concílio [Vaticano II] realmente alcança o nosso povo. Não aqueles fragmentos do publicismo, que transmitiram uma imagem errada do Concílio. Mas a verdadeira realidade espiritual do Concílio. E deste modo devemos sempre e de novo, com o Concílio e no espírito do Concílio, interiorizando a sua visão, aprender a Palavra de Deus. Fazendo isto, podemos também comunicar com o nosso povo e assim realmente realizar um trabalho pastoral e espiritual.” (Encontro de Bento XVI com os párocos e o clero da Diocese de Roma no início da Quaresma, Sala das Bênçãos, Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007)

“Também eu vivi os tempos do Concílio, estando na Basílica de São Pedro com grande entusiasmo e vendo como se abrem novas portas e parecia realmente o novo Pentecostes, onde a Igreja podia de novo convencer a humanidade, depois do afastamento do mundo da Igreja nos séculos XIX e XX, parecia que se voltavam a encontrar Igreja e mundo e que voltassem a nascer um mundo cristão e uma Igreja do mundo e verdadeiramente aberta ao mundo. Esperámos tanto, mas as coisas na realidade revelaram-se mais difíceis. Contudo permanece a grande herança do Concílio, que abriu um novo caminho, é sempre uma magna charta do caminho da Igreja, muito essencial e fundamental. Mas por que aconteceu assim? Primeiro gostaria de começar talvez com uma observação histórica. Os tempos de um pós-Concílio são quase sempre muito difíceis. Depois do grande Concílio de Niceia que é realmente o fundamento da nossa fé, de facto nós confessamos a fé formulada em Niceia não surgiu uma situação de reconciliação e de unidade como tinha esperado Constantino, promotor desse grande Concílio, mas uma situação realmente caótica de litígios de todos contra todos. São Basílio no seu livro sobre o Espírito Santo compara a situação da Igreja depois do Concílio de Niceia com uma batalha naval de noite, onde ninguém pode conhecer o outro, mas todos estão contra todos. Era realmente uma situação de caos total: São Basílio descreve assim com tons fortes o drama do pós-Concílio, do pós-Niceia. Cinquenta anos mais tarde, para o I Concílio de Constantinopla, o imperador convida São Gregório Nazianzeno a participar no Concílio e São Gregório Nazianzeno responde: Não, não venho, porque eu conheço estas coisas, sei que de todos os Concílios nascem apenas confusão e batalha, portanto não venho. E não foi. Portanto, não é agora, em retrospectiva, uma surpresa tão grande como era no primeiro momento para todos nós digerir o Concílio, esta grande mensagem. Inseri-lo na vida da Igreja, recebê-lo, de modo que se torne vida da Igreja, assimilá-lo nas diversas realidades da Igreja, é um sofrimento, e só no sofrimento se realiza também o crescimento. Crescer é sempre também sofrer, porque é sair de um estado e passar para outro. E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas. No pós-Concílio, a suspensão de 1968, o início ou a explosão ousaria dizer da grande crise cultural do Ocidente. Tinha terminado a geração do pós-guerra, uma geração que depois de todas as destruições e vendo o horror da guerra, do combater-se e verificando o drama destas grandes ideologias tinham realmente levado as pessoas à voragem da guerra, tinham redescoberto as raízes cristãs da Europa e começado a reconstruir a Europa com estas grandes inspirações. Mas tendo terminado esta geração viram-se também todas as falências, as lacunas desta reconstrução, a grande miséria do mundo e começa assim, explode, a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente. Diz: não criámos, em dois mil anos de cristianismo, o mundo melhor. Devemos recomeçar de zero de modo absolutamente novo; o marxismo parece a receita científica para criar finalmente um mundo novo. E neste digamos grave, grande confronto entre a nova, sadia modernidade querida pelo Concílio e a crise da modernidade, tudo se torna difícil como depois do primeiro Concílio de Niceia. Uma parte tinha a opinião de que esta revolução identificava esta nova revolução cultural marxista com a vontade do Concílio; dizia: este é o Concílio. No papel os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está este espírito, esta é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. E por outro lado, naturalmente, a reacção: destruir assim a Igreja. A reacção digamos absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio e digamos a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio. E como diz um provérbio "Se uma árvore cai faz um grande ruído, se cresce uma selva nada se ouve porque se desenvolve um processo sem barulho" e portanto durante estes grandes ruídos do progressismo errado, do anti-Concílio cresce muito silenciosamente, com tantos sofrimentos e também com tantas perdas na construção de uma nova época cultural, o caminho da Igreja. E depois a segunda suspensão em 1989. A queda dos regimes comunistas, mas a resposta não foi o regresso à fé, como se podia talvez esperar, não foi a redescoberta de que a Igreja com o Concílio autêntico tinha dado a resposta. Ao contrário, a resposta foi o cepticismo total, a chamada pós-modernidade. Nada é verdadeiro, cada um deve ver como viver, afirma-se um materialismo, um cepticismo pseudo-racionalista cego que termina na droga, termina em todos estes problemas que conhecemos e de novo fecha os caminhos à fé, porque é tão simples, tão evidente. Não, não há nada de verdadeiro. A verdade é intolerante, não podemos ir por este caminho. Eis: nestes contextos de duas rupturas culturais, a primeira, a revolução cultural de 1968, a segunda, a queda, poderíamos dizer, no niilismo depois de 1989, a Igreja com humildade, entre as paixões do mundo e a glória do Senhor, empreende o seu caminho. Neste caminho devemos crescer com paciência e agora devemos aprender de modo novo o que significa renunciar ao triunfalismo. O Concílio tinha dito que renunciar ao triunfalismo e tinha pensado no barroco, em todas estas grandes culturas da Igreja. Foi dito: comecemos de maneira moderna, nova. Mas tinha crescido outro triunfalismo, o de pensar: agora nós fazemos as coisas, nós encontramos o caminho e encontramos nele o mundo novo. Mas a humildade da Cruz, do Crucifixo exclui precisamente também este triunfalismo, devemos renunciar ao triunfalismo segundo o qual agora nasce realmente a grande Igreja do futuro. A Igreja de Cristo é sempre humilde e precisamente assim é grande e jubilosa. Parece-me muito importante o facto de agora podermos ver com olhos abertos o que também cresceu de positivo no pós-Concílio: na renovação da liturgia, nos Sínodos, Sínodos romanos, Sínodos universais, Sínodos diocesanos, nas estruturas paroquiais, na colaboração, na nova responsabilidade dos leigos, na grande co-responsabilidade intercultural e inter-continental, numa nova experiência da catolicidade da Igreja, da unanimidade que cresce em humildade e contudo é a verdadeira esperança do mundo. E assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás de textos, mas são precisamente os grandes textos conciliares relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades religiosas. Fui ao Brasil sabendo como se expandem as seitas e como a Igreja parece um pouco esclerotizada; mas quando cheguei vi que quase todos os dias no Brasil nasce uma nova comunidade religiosa, nasce um novo movimento, não crescem só seitas. Cresce a Igreja com novas realidades cheias de vitalidade, não a ponto de encher as estatísticas esta é uma esperança falsa, a estatística não é a nossa divindade mas crescem nos ânimos e geram a alegria da fé, geram a presença do Evangelho, geram assim também verdadeiro desenvolvimento do mundo e da sociedade. Portanto parece-me que devemos combinar a grande humildade do Crucificado, de uma Igreja que é sempre humilde e sempre contrastada pelas grandes potências económicas, militares, etc., mas devemos aprender juntos com esta humildade também o verdadeiro triunfalismo da catolicidade que cresce em todos os séculos. Cresce também hoje a presença do Crucificado ressuscitado, que tem e conserva as suas feridas; é ferido, mas precisamente assim renova o mundo, dá o seu sopro que renova também a Igreja apesar de toda a nossa pobreza. E diria, neste conjunto de humildade da Cruz e de alegria do Senhor ressuscitado, que no Concílio nos deu uma grande indicação de caminho, podemos ir em frente jubilosamente e cheios de esperança.” (Encontro do Papa Bento XVI com o clero das Dioceses de Belluno-Feltre e Treviso, Igreja Santa Justina Mártir Auronzo di Cadore, 24 de Julho de 2007)

“Em particular a Congregação para a Doutrina da Fé publicou no ano passado dois Documentos importantes, que ofereceram alguns esclarecimentos doutrinais sobre aspectos fundamentais da doutrina sobre a Igreja e sobre a Evangelização. São esclarecimentos necessários para o desenvolvimento correcto do diálogo ecuménico e do diálogo com as religiões e culturas do mundo. O primeiro Documento tem o título "Respostas a questões relativas a alguns aspectos sobre a doutrina da Igreja" e repropõe também nas formulações e na linguagem os ensinamentos do Concílio Vaticano II, em plena continuidade com a doutrina da Tradição católica. (Discurso do Papa Bento XVI à Congregação para a Doutrina da Fé reunida em Sessão Plenária, Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008)

“Estou convicto, colocando-me no seguimento dos ensinamentos do Concílio Vaticano II e dos meus venerados Predecessores João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, que a humanidade contemporânea tem necessidade desta mensagem essencial, encarnada em Jesus Cristo: Deus é amor.” (Visita Pastoral do Santo Padre a Vigevano e Pavia - Homilia do Papa Bento XVI na celebração das vésperas na Basílica de «San Pietro in Ciel D'Oro» de Pavia, Domingo, 22 de Abril de 2007)


 


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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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