“De Jesus e de sua Igreja não quero apenas isto ou aquilo, eu quero tudo”, dizia Santa Teresinha do Menino Jesus, exprimindo um dos aspectos mais profundos da espiritualidade católica: a abertura total ao dom de Deus e à riqueza da vida da Igreja.
A pequena carmelita de Lisieux, embora tenha vivido enclausurada em um mosteiro, tornou-se padroeira das missões sem jamais ter saído de sua cela. Seu coração ardia pelo mundo inteiro e desejava que Cristo fosse amado e conhecido por todos os povos. Admirava os grandes santos e heróis da fé, mas reconhecia sua própria pequenez; dessa consciência nasceu a chamada “pequena via”, um caminho de santidade feito de amor, confiança e fidelidade nas pequenas coisas, mostrando que a verdadeira grandeza espiritual não consiste em feitos extraordinários, mas na entrega total a Deus nas circunstâncias ordinárias da vida.
Essa visão da plenitude da vida cristã encontra eco em muitas reflexões espirituais ao longo da tradição católica. Entre elas está a bela meditação conhecida como “Coruja ou Rouxinol?”, atribuída a Pierre de Craon, um aristocrata francês do final da Idade Média (c. 1345–1409).
*Pierre de Craon foi uma figura histórica singular: pertencente à nobreza, teve uma vida marcada por conflitos políticos, temperamento impetuoso e episódios turbulentos. Contudo, após uma profunda conversão e penitência, dedicou-se a obras de misericórdia e a iniciativas religiosas, deixando também reflexões espirituais e simbólicas que circularam na tradição cristã. Em uma de suas meditações mais conhecidas, ele utiliza duas figuras simbólicas — a coruja e o rouxinol — para ilustrar uma verdade profunda sobre o modo de pensar cristão. A coruja, que vê no escuro, representa a luz da razão, da filosofia e da sabedoria intelectual que penetra os mistérios e esclarece as questões obscuras. O rouxinol, por sua vez, simboliza a beleza, a poesia e a harmonia sensível que encantam o coração humano.
À primeira vista, poderíamos ser tentados a escolher entre um e outro: entre o rigor da verdade e o encanto da beleza, entre a doutrina e a experiência, entre a teoria e a vida. No entanto, a sabedoria cristã não nos convida a escolher apenas um lado, mas a reconhecer a complementaridade entre ambos.
Essa perspectiva está em profunda sintonia com a visão da Igreja expressa também por Santa Teresa de Ávila, que comparava a Igreja a um grande jardim no qual florescem diferentes carismas, espiritualidades e vocações. É natural que cada pessoa se sinta mais atraída por certas flores, por determinadas expressões da fé ou tradições espirituais; porém, não devemos desprezar as demais flores que compõem esse mesmo jardim. Todas nascem da mesma terra fecunda da graça, são regadas pelo mesmo Espírito Santo e pertencem ao mesmo Corpo de Cristo.
Por isso, amar a Igreja significa amar sua plenitude: sua doutrina e sua vida, sua tradição e sua renovação, sua contemplação e sua missão. Como católicos, somos chamados a evitar tanto o tradicionalismo rígido que reduz a riqueza da tradição a um fragmento da história, quanto o progressismo que dissolve a fé em meras categorias humanas.
A verdadeira sabedoria católica encontra-se na harmonia viva da fé transmitida pelos séculos. Assim, inspirados pelo exemplo de Santa Teresinha e pela simbologia proposta por Pierre de Craon, podemos compreender melhor o espírito autêntico da fé católica: diante de Cristo e de sua Igreja, não escolhemos apenas isto ou aquilo. Escolhemos tudo aquilo que Deus, em sua sabedoria e beleza, quis conceder à sua Igreja.
Coruja ou Rouxinol?
por *Pierre de Craon
Se
fosse para escolher, à primeira vista, sem hesitar, todos escolheriam o
rouxinol, porque ele é a beleza, a graça, o sol, a vida. A coruja é feia. Ela é
a noite, é a morte. Ela é o ódio a luz, ela representa o mal. Quem poderia,
nesse sentido, preferir a coruja? Contudo, há também um
significado legítimo e bom na coruja. Ela vê no escuro, por isso, sempre
simbolizou a filosofia, que permite ver nas questões obscuras. Onde o homem
comum nada percebe, o filósofo vê e compreende. A coruja representa assim
o saber filosófico, a teoria pura, a ciência abstrata e, nesse sentido, é
símbolo de um bem. O rouxinol é a poesia. Até
em seu nome parece haver um trinado sonoro. Ele é um raio de sol
cantando. A coruja é a luz intelectual. Não há escuridão para seus
olhos argutos.
Entre a coruja e o rouxinol, qual escolher?
"A
sabedoria é desejável e a beleza é amável!
A
filosofia ilumina, a poesia encanta!
Preferir o
saber, excluindo a beleza?
Escravizar-se
da beleza e repelir a sabedoria?..."
Isso ou
aquilo? Entre a coruja e o rouxinol, qual escolher?
Santa Teresinha dizia: "Eu escolho tudo". Assim também nós! Nós escolhemos a coruja e o rouxinol.
Queremos a sabedoria e a beleza, a ciência e a poesia, a luz e a música (toda sabedoria, diversidade e beleza dos carismas e vocações no seio da igreja). Porque sabedoria e beleza são inseparáveis.
Escolhemos tudo porque sabemos que a sabedoria é formosa e que toda beleza possui o brilho da verdade! Coruja e rouxinol se completam e se complementam! Uma das características do pensamento moderno é opor dialeticamente doutrina e realidade, teoria e prática.
Nas escolas freqüentemente essa oposição atinge o desvario! Uns só
valorizam a experiência. Outros se perdem em elucubrações cerebrinas. A
maioria dos alunos vai engrossar as turbas dos pragmáticos adoradores do
concreto e tendem ao materialismo.
O modo de pensar católico é exatamente oposto!
A doutrina da Igreja, que ensina que tudo o que Deus fez é bom e harmonioso, afirma que nunca se deve separar o teórico do prático, nem o abstrato do real. O pensamento católico se opõe, quer ao abstracionismo brumoso, quer ao ateísmo e materialismo práticos. Jamais ele separa um princípio do exemplo concreto.
Doutrina e vida nos são apresentadas pela Igreja unidas e
harmónicas. Todo princípio é vivido. Toda doutrina é exemplificada. É esse
concreto no teórico, é essa filosofia do que há de mais prático, é essa
harmonia entre doutrina e vida que fazem, do ponto de vista natural, o
encanto da civilização cristã!
"Como
é fria e estéril a coruja sem o rouxinol.
Como é
vazio e superficial o rouxinol sem a coruja!
De que vale
a teoria sem a realidade?
De que
vale a poesia sem a verdade?..."
O ideal é unir os dois, pois o real é a luz intelectual na música da matéria. O real é a harmonia entre o teórico e o prático, a doutrina e a vida, o abstrato e o concreto, a coruja e o rouxinol.
Sendo o homem composto de
elementos diferentes mas harmônicos, agrada-lhe o que lhe é semelhante. Amamos
contemplar a concórdia de elementos aparentemente opostos. Nem
o puramente abstrato, nem o puramente experimental satisfazem plenamente o
homem.
São Tomás de Aquino explica que:
“Dado o
homem ser corpo e alma unidos substancialmente, a razão não encontra nas
criações poéticas toda a verdade de que necessita, pois a luz da verdade, na
poesia, é por demais difusa. Por sua vez, as coisas de
Deus superam nossa capacidade de intelecção. Sua luz, para nós, é
ofuscante demais. Por isto, a razão humana só encontra uma
luz que lhe é proporcionada quando contempla as verdades mais sublimes sob o
véu das figuras sensíveis...” (Suma Teológica I-II, 101, 2).
Assim também,
sendo Nossa Senhora a medianeira entre Deus e os homens. Ela é o vitral esplendoroso que nos torna
possível ver a luz de Deus em todas as suas cores, brilhos e virtudes! Passando por Ela, ao encarnar-se nela o
Verbo de Deus, a Verdade Divina, tornou-se acessível à nossa visão!
*Pierre de Craon (c. 1345 - c. 1409), conhecido como "le Grand", foi um "aristocrata medieval francês", notório por seu temperamento explosivo
Foi preso no Louvre, mas logo foi libertado após intervenções da rainha da Inglaterra e da duquesa de Borgonha.
Craon fez penitência por seus crimes. Num movimento sem precedentes, foi feito confessor de alguns monges que haviam sido condenados por enfeitiçar o rei.
Ergueu uma
cruz carregando seu brasão na forca de Paris, na qual os criminosos podiam confessar
antes de sua execução. Também
doou dinheiro aos franciscanos conventuais, dedicando-os a atos de
misericórdia.
«Vossa sou, para
Vós nasci»
(Santa Teresa de Ávila: 1515-1582 - Carmelita descalça, Doutora da Igreja)
O poema “Vossa sou, para Vós nasci”, de Teresa de Ávila, expressa de forma admirável um dos núcleos mais profundos da espiritualidade cristã: a entrega total da criatura ao Criador.
Não se trata de uma resignação passiva ou fatalista diante da vida, mas de uma atitude ativa de amor e confiança absoluta na vontade de Deus. A santa parte de uma verdade fundamental da fé: pertencemos inteiramente a Deus — porque Ele nos criou, nos redimiu e nos sustenta a cada instante.
Esse princípio encontra sólido fundamento também no pensamento de Tomás de Aquino, que explica na Suma Teológica que Deus está presente em todas as coisas não apenas como causa inicial da criação, mas como aquele que continuamente conserva o ser de tudo o que existe. Em outras palavras, nada poderia continuar existindo sequer por um instante se Deus não o sustentasse em seu ser.
São Tomás afirma explicitamente que Deus está presente em todas as criaturas “por essência, presença e potência” (per essentiam, praesentiam et potentiam).
Isso significa que Deus está presente por essência, porque Ele é a causa do ser de todas as coisas; por presença, porque tudo está aberto ao seu conhecimento; e por potência, porque tudo está submetido ao seu poder criador e conservador. Essa doutrina aparece especialmente na Suma Teológica, I, q.8, a.1-4, onde o Aquinate explica a razão da onipresença divina. Deus não ocupa um lugar como os corpos, mas está presente em tudo aquilo que existe enquanto causa que sustenta o próprio ato de ser das criaturas.
Por isso, mesmo nas realidades mais dramáticas da existência — inclusive no inferno — permanece a presença de Deus enquanto causa do ser.
São Tomás afirma que até mesmo os condenados subsistem porque Deus continua a sustentá-los na existência; se Ele retirasse seu poder conservador, deixariam simplesmente de existir. Contudo, essa presença divina não é a presença de comunhão e graça que caracteriza o céu, mas apenas a presença enquanto causa e juiz. Assim, enquanto os bem-aventurados participam da vida divina na visão beatífica, os condenados experimentam a ausência dessa comunhão de amor, embora continuem existindo pelo poder criador de Deus (cf. Suma Teológica, I, q.8; Suplemento, q.97).
Essa reflexão tomista ajuda a compreender mais profundamente a espiritualidade de abandono presente nos santos.
Quando Santa Teresa de Ávila afirma: “Vossa sou, para Vós nasci, que quereis fazer de mim?”, ela reconhece exatamente essa verdade metafísica e espiritual: nossa existência inteira depende de Deus. Não pertencemos a nós mesmos, mas Àquele que nos criou, nos redimiu e nos sustenta continuamente no ser. Por isso, confiar na vontade divina não é abdicar da liberdade, mas reconhecer a realidade mais profunda do nosso ser.
Assim, a entrega dos santos não nasce de um fatalismo resignado, mas de uma compreensão amorosa da providência divina. Se Deus é a fonte do nosso ser e o sustentáculo de toda a realidade, então sua vontade não pode ser senão o caminho mais seguro para o verdadeiro bem da criatura. A confiança na vontade de Deus torna-se, portanto, a forma mais alta de liberdade e de amor, porque é a livre adesão da criatura à sabedoria daquele que a conhece e a sustenta desde toda a eternidade.
Por isso, a repetição da pergunta “Que quereis fazer de mim?” não é um lamento, mas uma oração de disponibilidade radical. A alma que ama verdadeiramente reconhece que sua existência encontra sentido apenas quando colocada nas mãos de Deus.
Essa entrega torna-se ainda mais profunda quando a santa enumera as situações extremas da vida humana: “Dai-me a morte, dai-me a vida, a saúde ou a doença, honra ou desonra, guerra ou paz”. Aqui aparece a essência da confiança teologal.
O verdadeiro amor a Deus não depende das circunstâncias favoráveis nem se limita aos momentos de consolo espiritual. Amar a Deus significa confiar que sua vontade é sempre boa, mesmo quando ultrapassa a compreensão humana. Nesse sentido, a espiritualidade de Teresa de Ávila ecoa toda a tradição mística da Igreja, segundo a qual a maior liberdade da alma consiste em abandonar-se inteiramente à providência divina.
Na tradição espiritual cristã encontramos também expressões ainda mais radicais desse amor absoluto a Deus. A mística italiana Catarina de Gênova, por exemplo, afirmava que a alma verdadeiramente unida a Deus aceita tudo o que Ele permite, porque reconhece que sua vontade é sempre justa e boa.
Em alguns comentários espirituais sobre seus escritos aparece a formulação paradoxal de que, se Deus quisesse colocá-la até mesmo no inferno, ela não deixaria de amá-Lo. Evidentemente, essa linguagem não deve ser entendida literalmente, como se alguém pudesse desejar ou aceitar a condenação eterna — algo incompatível com a fé cristã —, mas como uma hipérbole mística que expressa o amor puro e desinteressado: amar a Deus não apenas pelos dons recebidos ou pela esperança do céu, mas porque Ele é o Bem supremo.
Essa mesma lógica aparece na espiritualidade de Francisco de Sales, que ensinava que o verdadeiro amor a Deus não deve ser apenas utilitário, como se buscássemos o Senhor apenas pelas recompensas que Ele promete.
O amor perfeito ama a Deus por Ele mesmo, reconhecendo sua bondade infinita. Por isso, quanto mais a alma cresce no amor divino, mais se torna livre de interesses próprios e mais aprende a desejar apenas aquilo que Deus quer.
Essa atitude também encontra grande ressonância na espiritualidade de Thérèse de Lisieux, que ensinou a chamada “pequena via”: o caminho da confiança e do abandono total nas mãos de Deus. Para ela, a santidade consiste em confiar plenamente no amor divino, acolhendo tudo como ocasião de amar mais. Assim, tanto Teresa de Ávila quanto Teresinha mostram que a verdadeira liberdade espiritual não consiste em controlar o próprio destino, mas em permitir que Deus conduza a vida segundo sua sabedoria.
Dessa forma, o poema de Teresa de Ávila revela uma verdade central da vida espiritual: a paz mais profunda nasce quando o homem deixa de colocar sua própria vontade no centro e aprende a dizer “sim” a Deus em todas as circunstâncias. Esse “sim” não é derrota, mas vitória; não é perda, mas plenitude.
Porque quando a vontade humana se une à vontade divina, a alma encontra finalmente aquilo para o qual foi criada: viver totalmente para Deus. Amar a vontade de Deus, mesmo quando ela passa pela cruz, é descobrir que sua providência conduz sempre ao verdadeiro bem — muitas vezes de modo misterioso, mas sempre fiel e salvador. Segue o poema de Santa Teresa d'Avila:
«Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que te importa?
Tu, segue-Me.»
Vossa sou, para
Vós nasci,
Que quereis fazer
de mim?
Soberana
Majestade,
Eterna Sabedoria,
Bondade tão boa
para a minha alma,
Vós, Deus,
Alteza, Ser Único, Bondade,
Olhai para a
minha baixeza,
Para mim que hoje
Vos canto o meu amor.
Que quereis fazer
de mim?
Vossa sou, pois
me criastes,
Vossa, pois me
resgatastes,
Vossa, pois me
suportais,
Vossa, pois me
chamastes,
Vossa, pois me
esperais,
Vossa pois não
estou perdida,
Que quereis fazer
de mim?
Que quereis
então, Senhor tão bom,
Que faça tão vil
servidor?
Que missão destes
a este escravo pecador?
Eis-me aqui, meu
doce amor,
Meu doce amor,
eis-me aqui.
Que quereis fazer
de mim?
Eis o meu
coração,
Que coloco em
vossas mãos,
Com o meu corpo, minha vida, minha alma,
Minhas entranhas e todo o meu amor.
Doce Esposo, meu
Redentor,
Para ser vossa me
ofereci,
Que quereis fazer
de mim?
Dai-me a morte,
dai-me a vida,
A saúde ou a
doença!
Dai-me honra ou
desonra!
A guerra, ou a
maior paz!
A fraqueza ou a
paz plena!
A tudo isso, digo
sim!
Que quereis fazer
de mim?
Vossa sou, para
Vós nasci,
Que quereis fazer
de mim?...
Conclusão
“Com efeito, depois de tanto tempo, já devíeis ser mestres; contudo, ainda precisais que alguém vos ensine os primeiros rudimentos das palavras de Deus. Tornastes-vos tais que precisais de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. O alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pelo hábito, têm as faculdades exercitadas para discernir o bem e o mal.” (Hb 5,12-14)
Portanto, a espiritualidade autenticamente católica e madura, nos ensina que a plenitude da fé não se encontra em escolhas parciais ou em extremos ideológicos, mas na integração harmoniosa de todos os elementos que Deus colocou em nossas vidas.
Santa Teresinha nos lembra que a santidade se manifesta na entrega total, mesmo nas menores ações do dia a dia, enquanto Pierre de Craon evidencia a necessidade de equilibrar sabedoria e beleza, razão e experiência, teoria e prática. A Igreja, como jardim florido, nos convida a perceber a unidade subjacente na diversidade: cada carisma, cada vocação, cada expressão da fé é parte de um mesmo corpo, nutrido pela graça, pelo batismo e pelo Espírito Santo. Seguindo o exemplo dos santos e a doutrina da Igreja, aprendemos que não devemos rejeitar nenhuma dimensão da vida cristã.
Assim como o rouxinol e a coruja se complementam, o cristão é chamado a unir o teórico e o prático, a contemplação e a ação, a sabedoria e a beleza. Viver essa harmonia é experimentar a verdadeira civilização cristã: um modo de pensar e agir que enriquece a alma, ilumina o intelecto e faz transbordar o coração. Portanto, diante de Cristo e de sua Igreja, podemos afirmar com alegria: não queremos apenas isto ou aquilo, mas tudo o que Deus, em sua infinita bondade, colocou à disposição de Sua Igreja.
A autêntica espiritualidade cristã nos ensina que a plenitude da fé não se encontra em escolhas parciais nem em extremos ideológicos, mas na integração harmoniosa de todos os elementos que Deus colocou em nossa vida. Os santos recordam continuamente que o verdadeiro caminho espiritual consiste em unir doutrina e vida, contemplação e ação, sabedoria e beleza. A Igreja, como um grande jardim espiritual, abriga uma riqueza de carismas, vocações e expressões de fé que, longe de se oporem, se completam na unidade do mesmo Espírito. Nesse horizonte, o abandono confiante à vontade de Deus — tão bem expresso por Teresa de Ávila e vivido de forma admirável por Thérèse de Lisieux — não significa passividade, mas a mais alta forma de amor e liberdade.
A alma que aprende a dizer “sim” a Deus em todas as circunstâncias descobre que a verdadeira paz nasce da confiança na providência divina. Essa confiança, porém, não deve jamais degenerar em presunção ou negligência espiritual.
A tradição teológica da Igreja recorda uma verdade importante: o inferno é mérito, enquanto o céu é graça. O homem pode, por seus pecados e por sua recusa livre de Deus, tornar-se merecedor da condenação; mas ninguém pode merecer o céu por suas próprias forças. A vida eterna é sempre dom gratuito da misericórdia divina, fruto da redenção realizada por Cristo e da graça que Ele derrama sobre os que o acolhem. Como ensina Tomás de Aquino, toda participação na vida divina supera infinitamente as capacidades naturais da criatura e só pode ser recebida como graça.
Por isso, longe de abusar da misericórdia divina, o cristão deve viver na vigilância e na gratidão. Saber que Deus é misericordioso não é licença para o pecado, mas motivo para uma conversão mais sincera e um amor mais fiel.
Quem compreende verdadeiramente a grandeza da graça divina não busca os caminhos que conduzem à perdição, mas procura, com humildade e perseverança, cooperar com a graça recebida. Assim, diante de Cristo e de sua Igreja, aprendemos a repetir com os santos: queremos tudo aquilo que Deus quis dar à sua Igreja — toda a verdade, toda a beleza, toda a sabedoria e toda a graça.
E conscientes de que o céu é dom gratuito e o inferno fruto da recusa humana, vivamos com responsabilidade e esperança, acolhendo a misericórdia de Deus e respondendo a ela com uma vida que busque sempre o bem, a verdade e a santidade.
Bibliografia
-CRON, Pierre de. Coruja ou Rouxinol? França, c. 1345–1409.
-TERESA DE ÁVILA, Santa. O Livro da Vida. São Paulo: Paulus, 2014.
-TERESINHA DO MENINO JESUS; DA SAGRADA FACE, Santa. História de uma Alma: manuscritos autobiográficos, cartas e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002.
-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Frei José de Santa Rita. São Paulo: Loyola, 2000. v. 1. (Especialmente: Parte I, q. 8, a. 1–4 – sobre a onipresença de Deus).
-CATARINA DE SENA, Santa. O Diálogo da Divina Providência. São Paulo: Paulus, 2008.
-CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
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Encantada! Não sabia disso e nunca tinha pensado dessa forma! Uma revelação pra mim
Carminha - SC
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