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Os Teólogos que influenciaram na produção Teológica do Concílio Vaticano II

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 18 de janeiro de 2020 | 13:10

(Peritos e Teólogos com o papa Paulo VI)



OS TEÓLOGOS QUE INFLUENCIARAM A PRODUÇÃO TEOLÓGICA DO CONCÍLIO VATICANO II  



por*Francisco José Barros de Araújo 





Temas hoje amplamente presentes na vida e na linguagem da Igreja — como os sinais dos tempos, a compreensão da Igreja como Povo de Deus, o sacerdócio comum dos fiéis, a valorização da teologia do laicato, o diálogo ecumênico e a afirmação da liberdade religiosa — não surgiram de modo espontâneo nem foram fruto apenas das sessões conciliares realizadas em Roma. Esses conceitos são resultado de décadas de reflexão teológica intensa, amadurecida muitas vezes fora dos ambientes oficiais, em universidades, mosteiros, centros bíblicos e movimentos pastorais espalhados pela Europa e pelo mundo. 


Antes mesmo da abertura do Concílio Vaticano II, um grupo significativo de teólogos já buscava responder aos desafios culturais, filosóficos e sociais do mundo moderno, procurando expressar a fé católica com fidelidade à Tradição e, ao mesmo tempo, com linguagem inteligível ao homem contemporâneo.  



É importante recordar, contudo, que essa dinâmica não foi uma novidade exclusiva do Vaticano II. Todos os concílios da história da Igreja, sem exceção, foram profundamente influenciados pelos teólogos e pelas correntes filosóficas e teológicas de seu próprio tempo. O Concílio de Niceia foi moldado pelas controvérsias cristológicas debatidas por pensadores como Atanásio de Alexandria; o Concílio de Trento nasceu das disputas teológicas da Reforma e da resposta intelectual católica articulada por grandes escolas teológicas; e o Concílio Vaticano I refletiu os debates filosóficos modernos sobre razão, fé e autoridade. 



Nenhum concílio surge no vazio: cada assembleia conciliar é o ponto culminante de processos intelectuais, espirituais e pastorais previamente amadurecidos na vida da Igreja.  Nesse sentido, o Concílio Vaticano II não foi uma exceção, mas a expressão mais intensa dessa realidade histórica. Convocado por Papa João XXIII em 1962, ele se destacou, sem sombra de dúvidas, como o concílio mais rico em participação, diversidade cultural e colaboração teológica de toda a história da Igreja. Bispos provenientes de todos os continentes, acompanhados por peritos (periti), observadores de outras confissões cristãs e especialistas leigos, participaram ativamente do discernimento e da elaboração dos textos conciliares, tornando-o um verdadeiro acontecimento eclesial universal.  




Os teólogos que prepararam e acompanharam o Concílio não improvisaram ideias novas, mas retomaram as fontes mais antigas da fé cristã — Escritura, Padres da Igreja e liturgia — propondo uma renovação que fosse simultaneamente fiel à Tradição e capaz de dialogar com o mundo contemporâneo. Muitos deles haviam experimentado períodos de suspeita, silêncio acadêmico ou incompreensão, mas perseveraram em suas pesquisas. 



Quando o Concílio começou, suas reflexões já ofereciam bases sólidas para uma profunda atualização pastoral e teológica da Igreja.  Assim, figuras como Yves Congar, Henri de Lubac, Karl Rahner, Joseph Ratzinger e Hans Urs von Balthasar contribuíram decisivamente para a elaboração de categorias teológicas que continuam estruturando a vida e a missão da Igreja no presente. Conhecer esses teólogos é compreender que o Vaticano II não foi um evento isolado ou uma ruptura histórica, mas continuidade, o fruto maduro de uma longa tradição conciliar na qual pensamento teológico, vida espiritual e discernimento pastoral caminham juntos para iluminar cada época da história cristã.




Vale a pena, por isso, recordar alguns, que porventura nos soam mais familiares:




-Karl Rahner, 


-Yves Congar, 


-Marie-Dominique Chenu, 


-Henri de Lubac, 


-Jean Daniélou, 


-Edward Schillebeeckx, 


-Joseph Ratzinger, 


-Hans Küng, 


-Johann Baptist Metz, 


-Bernard Häring, 


-Hans Urs von Balthasar, entre outros(as).



Naquele tempo, a teologia era ainda, e sobretudo, europeia! Centrava-se em três escolas importantes:






1)- A escola dominicana de Saulchoir (na altura, próxima de Évry e, desde 1971, em Paris).


2)- Os jesuítas de Fourvière.


3)- E a Escola Alemã (de Tubinga, Münster e Munique, entre outros centros de investigação).




Era a "nouvelle théologie", assim chamada depreciativamente no início, com vários dos seus autores a serem marginalizados (ou mesmo forçados ao exílio). 







Mais tarde, esses mesmos autores seriam reabilitados, ao ponto de se tornarem protagonistas, enquanto peritos e redatores, de vários dos documentos centrais e de algumas das teses mais importantes do Concílio. 



*Rosino Gibellini, autor de: A teologia do século XX (ed. Loyola, Brasil), recorda que, o pensamento conciliar deve muito a um artigo de Yves Congar (1904-1995), intitulado: "Uma conclusão teológica para a Investigação sobre as Razões Atuais da Incredulidade", publicado em 1935 na revista La Vie Intellectuelle. 



O artigo seguia-se a um inquérito da mesma revista, publicado durante os dois anos anteriores, sobre as razões da descrença na sociedade francesa naquele tempo. 



*No texto de Gibellini (acessível na internet, em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517231-o-papel-da-teologia-no-concilio-e-o-estatuto-os-teologos-e-teologas-hoje), o teólogo cita a ideia de fé desencarnada do dominicano de Saulchoir:A fé, por assim dizer, desencarnou-se, esvaziada do seu sangue humano. Para o teólogo (que mais tarde recusaria ser cardeal por ter que ser ordenado bispo, só aceitando o título no final da vida, quando João Paulo II o dispensou da ordenação episcopal), era necessária uma linguagem de encarnação da fé para superar o divórcio entre a Igreja e o mundo.



Trinta anos antes do Concílio, esta era uma ideia percursora do mesmo. Essa preocupação ficaria aliás plasmada em documentos como a Gaudium et Spes, a Constituição sobre a Igreja no mundo atual. Ao refletir sobre o ateísmo, por exemplo, a GS propõe que uma das formas de contrariar esse fenómeno é a vida íntegra da Igreja e dos seus membros.




Nas décadas anteriores ao Vaticano II, vários movimentos importantes, alguns deles vindos do século XIX, confluíram para um ambiente que tornou quase inevitável a convocação de um concílio que encetasse a reforma da Igreja. A catequese e a liturgia renovaram-se e ganharam novo impulso, tal como a missionariedade, vêm daí muitas das congregações missionárias, bem como a ideia da catequese alargada, primeiro às crianças e, depois, a todas as faixas etárias.



O movimento bíblico dinamiza-se, através da utilização das várias ciências, abrindo caminho ao acesso de todos ao texto original, ao contrário da proibição que subsistira durante séculos; a ação pastoral e social da Igreja alargava-se, através de movimentos como a Ação Católica e a criação de instituições de solidariedade. A arte sacra procurava novas linguagens na arquitetura, pintura ou artes decorativas, que nos levassem na contemplação do belo aquilo que era essencial.




Uma germinação longa!





O Concílio teve uma germinação longa, diz frei Bento Domingues (cuja colaboração para a pesquisa para este texto foi fundamental). Em entrevista ao "Mensageiro", o teólogo e frade dominicano recorda a ideia de Chenu:




"A teologia do Vaticano II preparou-se com um agiornamento solidificado". 







Não se trata, portanto — como pretendem alguns setores tradicionalistas — de uma Igreja que teria se rendido aos valores mundanos, mas de uma Igreja que, vivendo em um mundo plural, secularizado e culturalmente diverso, procura cumprir a mesma missão apostólica com inteligência pastoral e fidelidade missionária. A fé cristã não mudou; mudou o interlocutor histórico. 



Hoje, muitos já não reconhecem automaticamente a autoridade da Bíblia ou do Magistério, e por isso a evangelização exige novamente aquilo que a própria tradição católica sempre soube fazer: dialogar com a razão humana, com a cultura e com a experiência concreta das pessoas.



Nesse ponto, o ensinamento de Tomás de Aquino permanece surpreendentemente atual. Ele afirmava: 




“Com os gentios uso a razão; com os judeus, o Antigo Testamento; com os hereges, as Sagradas Escrituras.” Nessa síntese, Aquino apresenta uma verdadeira estratégia missionária: a verdade é uma só, mas o caminho pedagógico para apresentá-la varia conforme o interlocutor. 



Todos os seres humanos possuem a capacidade natural de pensar e dialogar racionalmente; por isso, em um mundo secularizado, muitas vezes é necessário apresentar a moral cristã por meio da filosofia, da ética natural e da reflexão racional. 



Já não basta dizer apenas (principalmente no ambiente acadêmico): “sou contra o aborto porque a Igreja é contra o aborto” - o homem e a mulher contemporânea precisa ser provocado(a) a pensar: 



-O aborto é realmente a única solução para uma gravidez inesperada ou a mais egoista? 


-Qual é o valor da vida humana? A vida humana embrionária tem menos direitos que a animal?


-A liberdade pode existir sem responsabilidade?



Curiosamente, essa pedagogia não começa em Aquino, mas no próprio Cristo. Jesus Cristo, quando dialogava com judeus, recorria constantemente ao Antigo Testamento, citando Moisés, os profetas e as grandes figuras da história de Israel. 



Jesus argumentava a partir daquilo que seus ouvintes reconheciam como autoridade: “Está escrito…”, “Ouvistes o que foi dito…”. Contudo, quando se encontrava com pessoas fora do horizonte religioso judaico — pagãos, estrangeiros, samaritanos ou multidões simples — utilizava outro método: comparações do cotidiano, parábolas agrícolas, imagens familiares, experiências humanas universais. Falava do semeador, do pai misericordioso, da moeda perdida, do pastor e das ovelhas. Não mudou a verdade anunciada; mudou a forma de comunicá-la.



A Igreja, ao promover o aggiornamento no Concílio Vaticano II, simplesmente seguiu o método do seu próprio Mestre. 



Aggiornamento não significa submissão servil ao espírito do mundo, nem diluição da verdade cristã para agradar às mentalidades passageiras, mas uma autêntica atualização missionária: tornar o Evangelho inteligível, acessível e anunciável ao homem de cada época, sem jamais alterar o seu conteúdo essencial. 



Trata-se de renovar a forma de comunicar, não de modificar a fé recebida dos Apóstolos. O próprio Concílio Vaticano II deixou isso explicitamente claro tanto no discurso de abertura de Papa João XXIII quanto nas palavras de encerramento de Papa Paulo VI: 




"A Igreja não pretendia criar uma nova doutrina, mas apresentar a mesma fé perene com linguagem renovada, capaz de dialogar com o mundo contemporâneo."



Portanto, se ao longo da história surgiram interpretações que tentaram transformar o aggiornamento em ruptura, isso não corresponde ao espírito nem à intenção do Concílio, que reafirmou a continuidade da Igreja consigo mesma — fiel à Tradição, consciente dos desafios modernos e comprometida com uma evangelização mais eficaz, sem renunciar à verdade do Evangelho.



Assim como Cristo falou de maneira diferente aos fariseus, aos pescadores, aos romanos e aos pecadores públicos, também a Igreja busca hoje linguagens capazes de alcançar crentes e não crentes.



Nesse processo, a teologia desempenhou papel essencial ao reler as novas dinâmicas do catolicismo não como concessão ao mundo, mas como consequência de uma renovada consciência missionária. Durante muito tempo, parte da reflexão teológica permaneceu presa à repetição de fórmulas neoescolásticas já incapazes de dialogar com a realidade cultural moderna. 



O dominicano Yves Congar chamou esse fenômeno de “teologia barroca”, marcada pelo excesso formal e pela pouca eficácia evangelizadora. Progressivamente, porém, pensadores como Henri de Lubac, Karl Rahner, Marie-Dominique Chenu e Joseph Ratzinger ajudaram a recuperar a vitalidade das fontes bíblicas e patrísticas, preparando o terreno para a renovação conciliar.



Assim, o Vaticano II não representa ruptura, mas continuidade viva com o método apostólico de Cristo: anunciar a mesma verdade eterna utilizando linguagens capazes de tocar cada geração. 



A Igreja não abandona a Tradição; ela a vive de forma atualizada. E, seguindo o exemplo do próprio Jesus Cristo, continua a falar ao coração humano com sabedoria, discernimento e caridade, para que a verdade seja não apenas proclamada, mas também compreendida e acolhida.





Algumas das obras significativas deste movimento foram:





1)- Verdadeira e falsa reforma na Igreja (1950) e Pontos chave para uma teologia do laicado (1953), ambas de Congar.



2)- "Meditações sobre a Igreja" (1953), de Henri de Lubac.



3)- "Ensaio sobre o mistério da história" (1953), de Daniélou.



4)- "Escritos sobre a Teologia" (1954), de Rahner.



5)- "Por Uma Teologia do Trabalho" (1955), de Chenu.



6)- "A Justificação" (1957), de Hans Küng, que abriu várias portas ao diálogo ecuménico.



7)- Também, as obras do jesuíta Teilhard de Chardin, que começaram a ser publicadas postumamente a partir de 1955, ainda envoltas na polémica que já se verificara durante a sua vida, contribuem, decisivamente, para a mudança de paradigma na relação da Igreja com o mundo.







Esse movimento, aliás, já havia sido antecipadamente enfrentado pela prudência milenar da própria Igreja, sendo claramente advertido pela encíclica Humani Generis, promulgada por Papa Pio XII. O documento tinha como finalidade explícita — como indica o próprio cabeçalho — tratar das opiniões falsas que ameaçavam a integridade da doutrina católica. 




Nele, o Papa reafirma que não existe oposição necessária entre fé e ciência, reconhecendo o legítimo progresso das ciências naturais e da investigação humana; contudo, adverte com firmeza contra o perigo daqueles que, fascinados por hipóteses ainda conjecturais das chamadas ciências positivas, acabavam subordinando a Revelação divina a teorias passageiras ou reinterpretando os dogmas segundo critérios puramente naturalistas. 





Assim, longe de rejeitar o desenvolvimento intelectual ou científico, a encíclica estabelece um princípio essencial: a verdadeira pesquisa jamais pode contradizer a verdade revelada por Deus, e toda renovação teológica autêntica deve permanecer enraizada na Tradição viva da Igreja, evitando que modas intelectuais momentâneas se transformem em critérios normativos da fé.




No seu parágrafo 30, diz o texto papal:





“Qualquer verdade, que a mente humana procurando com retidão, descobre, não pode estar em contradição com outra verdade já alcançada, pois Deus, verdade suprema, criou e rege a humana inteligência, de tal modo que não opõe cada dia novas verdades às já adquiridas. Por esse motivo o cristão, seja filósofo, seja teólogo, não abraça apressada e levianamente qualquer novidade que no decurso do tempo se proponha, mas deve sopesá-la com suma diligência e submetê-la a justo exame a fim de que não venha a perder a verdade já adquirida ou a corrompa, com grave perigo em detrimento da mesma fé.”





Sinais dos tempos, lugares teológicos!




Ao longo da história da Igreja, percebe-se uma constante: grandes renovações teológicas quase sempre nasceram em meio a tensões internas, resistências e até condenações iniciais. 




Muitos santos e doutores que hoje são referência segura da ortodoxia passaram, em seu tempo, por suspeitas e incompreensões. O caso mais emblemático continua sendo o de Tomás de Aquino, cuja utilização da filosofia de Aristóteles foi inicialmente combatida por bispos, mestres universitários e importantes autoridades eclesiásticas. 



Aquilo que parecia perigoso acabou tornando-se uma das maiores sínteses teológicas da história cristã, lembrando que o desenvolvimento da doutrina passa frequentemente pelo debate, pelo discernimento e pelo amadurecimento eclesial.



Esse mesmo dinamismo reapareceu no século XX, no período que antecedeu o Concílio Vaticano II. Diversos teólogos ligados à chamada nouvelle théologie haviam sido investigados, silenciados ou afastados do ensino acadêmico por suspeitas de tendências modernistas. Contudo, ao convocar o Concílio em 1959, Papa João XXIII tomou uma decisão histórica: chamou precisamente esses pensadores para integrar as comissões preparatórias e atuar como peritos (periti) da assembleia conciliar. 



Segundo o historiador da teologia Rosino Gibellini, o Concílio começou com cerca de 210 peritos e terminou registrando aproximadamente 480 especialistas envolvidos — um número sem precedentes na história conciliar, revelando a extraordinária riqueza intelectual e participativa do Vaticano II.










A essa contribuição deve-se acrescentar também a presença inédita de mulheres. Convocadas como auditoras por Papa Paulo VI, vinte e três mulheres participaram diretamente do processo conciliar, oferecendo intervenções, pareceres e colaborações que influenciaram diversos documentos finais. Sua atuação, hoje amplamente reconhecida, encontra-se detalhada na obra As 23 Mulheres do Concílio, publicada pelas Paulinas, demonstrando que o Vaticano II foi também um momento de ampliação real da escuta eclesial e da corresponsabilidade na reflexão teológica.




Entre os conceitos decisivos introduzidos pelos mentores da renovação teológica destaca-se a expressão “sinais dos tempos”, retirada do Evangelho e transformada em uma das chaves interpretativas do próprio Concílio. A história humana passou a ser considerada não apenas cenário da ação da Igreja, mas verdadeiro lugar teológico onde Deus continua a falar. 



Um dos grandes responsáveis por essa perspectiva foi o dominicano Marie-Dominique Chenu, cuja obra Le Saulchoir: uma escola de teologia (1937) chegou a ser incluída no Index dos livros proibidos. Sua proposta de retorno às fontes bíblicas e históricas, aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo, foi duramente criticada por setores mais defensivos da teologia, como o teólogo Pietro Parente, que nas páginas do jornal L’Osservatore Romano acusava essa nova teologia de inclinação ao semi-modernismo, ao relativismo e ao subjetivismo.



O paradoxo histórico é evidente: ideias inicialmente suspeitas tornaram-se posteriormente fundamentos do pensamento conciliar. Assim como ocorreu com Tomás de Aquino no século XIII, também no século XX teólogos antes marginalizados ajudaram a moldar o concílio mais participativo, internacional e teologicamente fecundo da história da Igreja. 




O Vaticano II confirmou, portanto, uma verdade recorrente na tradição católica: a Igreja permanece fiel quando sabe discernir, à luz do Espírito Santo, os sinais dos tempos e reconhecer que a reflexão teológica — mesmo quando provoca debate — pode tornar-se instrumento providencial para o aprofundamento da fé apostólica em cada nova época da história.



Teólogos que fomentaram a reforma litúrgica




por Jackson Erpen - Cidade do Vaticano




Um encontro realizado em 1909 em Malines, assinalou o início do movimento litúrgico no século XX, encontrando eco na Holanda, Bélgica, Itália e França. O movimento litúrgico foi particularmente ativo nos países de Língua alemã. No nosso espaço Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos falar no programa de hoje sobre “os teólogos que fomentaram a reforma litúrgica.” Damos continuidade neste espaço a memória histórica ao tema da reforma litúrgica que encontrou sua expressão máxima com a Constituição Sacrosanctum Concilum do Concílio Vaticano II.






(foto reprodução)





O objetivo desta reforma, era de que o texto e as cerimônias deveriam ser ordenadas de tal modo, que exprimissem mais claramente as coisas santas!

 




O que eles significam, e que o povo cristão pudesse compreendê-las facilmente, participando (não somente assistindo), à medida do possível,  plena e ativamente da celebração comunitária.O padre Gerson Schmidt, incardinado na arquidiocese de Porto Alegre, que tem nos acompanhado neste percurso dos documentos conciliares, nos fala sobre os teólogos que fomentaram a reforma litúrgica.





S.C. - Os sinais mais claros na reforma da liturgia:






A reforma litúrgica não se deu de um dia para outro, como se tivesse acontecido um Pentecostes tão somente no Concilio Vaticano II. Houve um tempo de longa preparação, motivados pelos movimentos de renovação litúrgica, pelos teólogos, liturgistas e também pelas reformas dos papas anteriores ao concilio: Pio X, Pio XI e Pio XII.



-Importante recordar o mérito do Papa Pio X, que na reforma da música sacra, no Motu Proprio tra le Sollectudini (1903) já defende o conceito de participação ativa dos fiéis. 



-Lembramos que Pio X também introduziu as reformas do Breviário, promoveu a comunhão cotidiana e também antecipou a Primeira Eucaristia para as crianças. Se hoje as crianças de 9 anos em diante fazem a Primeira Comunhão, se deve a esse Papa Pio X o mérito de antecipar a eucaristia, através dos decretos Sacra Tridentina Synodus(1905) e Quam Singulari(1910).





Já o Papa Pio XI, na constituição apostólica Divinus Cultus sanctitatem (1928), pediu com mais vigor a participação ativa dos fiéis nos mistérios cristãos.  Nesse constituição apostólica Divinus Cultus, diz assim no número IX:







“A fim de que os fiéis tomem parte mais ativa no culto divino, restitua-se para o povo o uso do canto gregoriano, no que ao povo tocar. É necessário, na verdade, que os fiéis, não como estranhos ou mudos espectadores, mas verdadeiramente compreendedores e compenetrados da beleza da Liturgia, assistam às sagradas funções de tal modo que alternem a sua voz - segundo as devidas normas e instruções, mesmo em procissões e outros momentos solenes -, com a voz do sacerdote e a do coro. Porque, se isto felizmente suceder, não haverá já mais que lamentar esse triste espetáculo em que o povo nada responde, ou apenas responde com um murmúrio fraco e confuso às orações mais comuns expressas na língua litúrgica e até em língua vulgar”.




Pio XI ainda falou assim nesse documento:

 




“As disposições de Pio X se logrou a restauração das mais diletas formas de arte e o consolador reflorescimento do espírito religioso, já que o povo cristão, compenetrado por um mais profundo sentimento litúrgico, começou a tomar parte mais ativa no rito eucarístico, na oração pública e na salmodia”. 



Aqui o Papa Pio XI já reconhece uma maior participação do povo cristão na liturgia: 



“ (o povo) começou a tomar parte mais ativa no rito eucarístico, na oração pública e na salmodia”.





O movimento Litúrgico, como toda a renovação na Igreja, tinha seus oponentes! Até hoje eles existem ! 




Magna Charta que dá força ao Movimento Litúrgico é a encíclica Mediator Dei, de Pio XII (1939-1958), que vai dar ao movimento litúrgico um caráter eclesial, a partir do magistério ordinário. O Sumo Pontífice institui, em 1948, 15 anos antes do Concilio, uma comissão para a Reforma Litúrgica. 





Pio XII, em 1947, quase 20 anos antes do Concílio Vaticano II, dizia assim na Encíclica Mediator Dei, que falava sobre a Liturgia, no número 46:







“Em verdade, não poucas são as causas pelas quais se explica e desenvolve o progresso da sagrada liturgia durante a longa e gloriosa história da Igreja. Assim, por exemplo, uma formação mais certa e ampla da doutrina católica sobre a encarnação do Verbo de Deus, sobre os sacramentos, sobre o sacrifício eucarístico, e sobre a virgem Maria Mãe de Deus, contribuiu para a adoção de novos ritos, por meio dos quais a luz, mais esplendidamente brilhante na declaração do magistério eclesiástico, veio a refletir melhor e mais claramente nas ações litúrgicas para unir-se com maior facilidade à mente e ao coração do povo cristão”.






Também nesse encíclica, Pio XII já falava, por três vezes, da participação consciente dos fiéis na liturgia. Recordemos o número 73 dessa Encíclica Mediator Dei:







“É necessário, pois, veneráveis irmãos, que todos os fiéis tenham por seu principal dever e suma dignidade participar do santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato íntimo com o sumo sacerdote, como diz o Apóstolo: "Tende em vós os mesmos sentimentos que Jesus Cristo experimentou", oferecendo com Ele e por Ele, santificando-se com Ele (Mediator Dei, 73).





ATENÇÃO! Pio XII aprovou os ritos em duas línguas, recuperou o sentido e importância da Vigília Pascal (1951), fez a Reforma da Semana Santa(1955), e autorizou na liturgia a recitação de perícopes na língua "vernácula", a língua mãe de cada país








Tiveram também influencia fundamental, como aqui já apontados noutras ocasiões, alguns encontros internacionais de liturgia:  O congresso de liturgia pastoral em Assis-Roma(1956) e a Semana Internacional de Estudos em Nimega (1956), onde houve expressiva participação de renomados bispos e cardeais.Esse caminho percorrido por Pio XII foi prosseguido pelo seu sucessor, Papa João XXIII (1958-1963) com a codificação das rubricas do Missal em 1960, a reforma de grande parte do Pontificale Romanum(1960) e a reforma do Ordo do sacramento batismal para os adultos, em 1962, já às portas do Concílio.Um ano antes de sua morte, João XXIII, em 1962, aprovou a nova edição do Missale Romanum. Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II com o objetivo de renovação da Igreja e de se reformular a forma de explicar a doutrina católica ao mundo moderno. Era aclamado mundialmente como o “Papa bom” por causa de sua simpatia, sua simplicidade e sua jovialidade.





A Constituição Sacrosantum Concilium, portanto, não caiu do céu, mas é fruto de todo um clamor que vinha dos novos tempos, da nova compreensão da liturgia, motivada pelos centros teológicos, que fomentaram os princípios contidos na SC.  Anselm Schott, por exemplo, tinha publicado em 1884 um missal popular, das formas de participação do povo, que teve grande difusão nos anos sucessivos.



Em 1909, em Malines, por ocasião do Katholikentag (palavra alemã, que se traduz por “dia do Católico”), o bispo Lambert Beauduin(+1960) defendeu o fortalecimento da liturgia celebrada com a participação do povo.  Esse encontro de Malines assinalou o início do movimento litúrgico no século XX, encontrando eco na Holanda, Bélgica, Itália e França.O movimento litúrgico foi particularmente ativo nos países de Língua alemã (Helmut Hoping, A Constituição Sacrosanctum Concilium. In: As constituições do Vaticano II, Ontem e hoje, org. Geraldo B. Hackmann e Miguel de Salis Amaral, Edições CNBB, 2015, p.104).





Os grandes teólogos desse movimento litúrgico foram: Odo Casel-OSB (+1948) e Romano Guardini (+1968)!



Guardini já havia escrito, durante a I Guerra Mundial (1914-1918) a sua obra magistral intitulada “O Espírito da Liturgia”, que terá uma influência enorme nessa reforma. Bento XVI foi aluno e admirador confesso de Romano Guardini!




(foto reprodução)





O destino realmente singular de Romano Guardini é o fato de ter sido uma espécie de 'mestre' para nada menos do que três papas. 



-Paulo VI promoveu pessoalmente as suas primeiras traduções a partir do pequeno livro La coscienza, que aconselhava aos seus estudantes da Federação das Universidades Católicas Italianas. 


-Bento XVI se percebe até mesmo como uma espécie de discípulo espiritual e intelectual do grande pensador. 


-Finalmente, o Papa Francisco passou alguns meses na Alemanha para ler e estudar Guardini.




O primeiro teólogo da liturgia que se ocupou da celebração enquanto tal foi Odo Casel (1948), pioneiro também por oferecer uma reflexão do culto cristão sobre bases direta e primariamente teológicas. Para ele:


 

“A celebração é uma epifania, uma manifestação do divino na ação ritual, o elemento principal do ato celebrativo é a presença-atualização da salvação na ação sagrada e ritual, na qual intervém a prece da Igreja. A ação sagrada é imitação simbólica do agir divino (mimésis), mas ao contrário do que ocorre na celebração das religiões naturalistas, apoia-se numa palavra pronunciada como anúncio da intervenção divina (Palavra de Deus, portanto, a celebração é memorial, mas a presença é Real) e na súplica que se seguiu como resposta à proclamação.” (J. L. Martin, No Espírito e na Verdade, I, p. 187).




(Frei Odo Casel-OSB)







Odo Casel preparou terreno para a Teologia do Mistério Pascal e Romano Guardini, entre os tesouros, a ideia fundamental da Igreja como Corpo Místico, ambos conceitos contemplados e valorizados nos documentos do Concílio Vaticano II.






A grande geração de teólogos do Vaticano II “não tem sucessores”, afirma José María Castillo!






A reabilitação plena do teólogo José María Castillo e de sua obra teológica, foi feita pelo Papa Francisco que declarou: “Leio com muito prazer seus livros, que fazem muito bem às pessoas”. Com esta frase, Francisco ‘abençoou’ o teólogo espanhol no Vaticano, onde há duas décadas cassaram sua ‘venia docendi’. Por outro lado, convida Religión Digital a “continuar apostando na renovação de uma Igreja em saída”. 




José María Castillo Sánchez ( Puebla de Don Fadrique , província de Granada , 16 de agosto de 1929) é um sacerdote católico espanhol da Sociedade de Jesus até 2007, escritor e teólogo com extensa produção. 






(José María Castillo e Papa Francisco)





Ele entrou no noviciado da Companhia de Jesus em 1946, aos dezessete anos, mas ficou doente e os médicos aconselharam sua partida.Em 1947, ele entrou no seminário de Guadix. Foi ordenado sacerdote em dezembro de 1954, pelo bispo de Guadix Rafael Álvarez Lara. Depois de servir como pastor em uma cidade em Granada, ele terminou sua graduação na Faculdade de Teologia de Granada (1955) e voltou à Companhia de Jesus (1956).Em 1962, alguns dias antes da abertura do Concílio Vaticano II , ele foi a Roma para fazer doutorado em Teologia , na Universidade Gregoriana , onde defendeu sua tese de doutorado sobre Afetividade nos Exercícios, de acordo com Francisco Suárez , em 1964. Lá, iniciou sua atividade de treinamento e ensino, primeiro em Córdoba com os estudantes jesuítas das ciências humanas e depois em Granada com os teólogos, como professor de teologia dogmática na Faculdade de Teologia, desde 1968. Ao mesmo tempo, começa a ampla produção teológica. Ele se caracterizou, além de muitas conferências, lotes de exercícios, reuniões e workshops com o clero secular , ao qual ele pertencia há anos.





TODO TEÓLOGO É FRUTO DE SEU TEMPO!




-A década de 1970 é marcada pela mudança na vida de Castillo, pelo Concílio Vaticano II , pelo general Pedro Arrupe (desde 1965), pelas mudanças sociopolíticas ocorridas na Espanha, pelo contato com as jovens gerações de jesuítas e uma atividade intensa como professor, e suas viagens à América Latina, que se tornarão constantes a partir de 1988. A teologia de Castillo será uma referência entre os anos 60 e 70.




-“Pela lei da vida, a grande geração de teólogos, que tornou possível a renovação teológica realizada pelo Concílio Vaticano II, está se extinguindo por completo. E nas décadas seguintes, infelizmente, não surgiu uma geração nova que tenha podido continuar o trabalho que os grandes teólogos do século XX iniciaram”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 15-05-2017. A tradução é de André Langer.




Eis o artigo:





Os estudos bíblicos, alguns trabalhos históricos e alguma coisa também no que se refere à espiritualidade, "são âmbitos do fazer teológico" que se mantiveram dignamente. Mas mesmo movimentos importantes, como ocorreu com a Teologia da Libertação, dão a impressão de que estão desmoronando. 





O que aconteceu na Igreja? O que está acontecendo conosco? A primeira coisa que deveríamos considerar é que é muito grave o que estamos vivendo nesta ordem de coisas. Os outros campos do saber não param de progredir: as ciências, os estudos históricos e sociais, as mais diversas tecnologias sobretudo, nos surpreendem a cada dia com novas descobertas. Ao passo que a teologia (falo especificamente da católica) segue firme, inacessível ao desânimo, interessando cada dia a menos pessoas, incapaz de dar resposta às perguntas que tantas pessoas se fazem e, sobretudo, empenhada em manter, como intocáveis, supostas “verdades” (não dogmáticas), que eu não sei como podem continuar a defender neste momento da história.





Dou alguns exemplos:




1)- Como podemos continuar a falar de Deus, com a segurança com que dizemos o que Ele pensa e o que Ele quer, sabendo que Deus é o Transcendente, que – portanto – não está ao nosso alcance?



2)- Como é possível falar de Deus sem saber exatamente o que dizemos?



3)- Como se pode garantir que “por um só homem o pecado entrou no mundo”?



4)- Vamos apresentar como verdades centrais da nossa fé o que na realidade são mitos (?) que têm mais de quatro mil anos?



5)- Com que argumentos podemos garantir que o pecado de Adão e a redenção desse pecado são verdades centrais da nossa fé?



6)- Como é possível defender que a morte de Cristo foi um “sacrifício ritual” que Deus necessitou para perdoar as nossas maldades e salvar-nos?



7)- Como se pode dizer às pessoas que o sofrimento, a miséria, a dor e a morte são “bênçãos” (?) que Deus nos manda?



8)- Por que continuamos a manter rituais litúrgicos que têm mais de 1.500 anos que ninguém hoje entende e nem sabe por que continuam a ser impostos às pessoas?



9)- Acreditamos realmente naquilo que nos dizem em alguns sermões sobre a morte, o purgatório e o inferno?




Enfim, a lista de perguntas estranhas, incríveis e contraditórias seria interminável. E, enquanto isso, as igrejas estão vazias ou com algumas pessoas idosas, que vão à missa por inércia ou por costume. Simultaneamente, os nossos bispos põem a boca no céu por assuntos relacionados ao sexo, ao passo que se calam (ou fazem afirmações tão genéricas que equivalem a silêncios cúmplices) diante da quantidade de abusos de menores cometidos por clérigos, abusos de poder cometidos por aqueles que administram esse poder para abusar de alguns, roubar a outros e humilhar os que estão ao seu alcance. 



Insisto em que, na minha modesta maneira de ver, o problema está na pobre, paupérrima, teologia que temos: Uma teologia que não leva a sério o mais importante da teologia cristã, que é a “encarnação” de Deus em Jesus Cristo. O apelo de Jesus a “segui-Lo”. A exemplaridade da vida e do projeto de vida de Jesus. 




E a grande pergunta que os crentes teriam que enfrentar: 



Como vamos apresentar o Evangelho de Jesus neste tempo e nesta sociedade em que vivemos? 



Termino insistindo em que o controle de Roma sobre a teologia foi muito forte, desde o final do Pontificado de Paulo VI até a renúncia do papado de Bento XVI. 




O resultado é muito nefasto: na Igreja, nos seminários e nos centros de estudos teológicos há medo, muito medo. E sabemos muito bem que o medo bloqueia o pensamento e paralisa a criatividade. 



A organização da Igreja, nestas questões, não pode continuar como esteve tantos anos. O Papa Francisco quer uma “Igreja em saída”, aberta, tolerante, criativa. Mas, vamos continuar com este projeto? Infelizmente, na Igreja há muitos homens, com bastões de comando, que não estão dispostos a largar o poder, assim como eles o exercem. Bom, se é assim, vamos em frente! Logo teremos liquidado o pouco que ainda resta (?).



UMA RESPOSTA TEOLÓGICA E RACIONAL ÀS CRÍTICAS DO TEÓLOGO PROGRESSISTA JOSÉ MARÍA CASTILLO




O artigo do teólogo progressista espanhol José María Castillo parte de um diagnóstico recorrente: a teologia católica estaria em crise porque permaneceria presa a verdades antigas incapazes de dialogar com o homem moderno. 



Contudo, essa análise nasce de um equívoco fundamental sobre o que é a teologia. A teologia não é uma ciência experimental sujeita às mudanças culturais, mas a inteligência da fé, isto é, a razão refletindo sobre uma Revelação recebida e não inventada pela Igreja. Permanecer fiel à tradição não é sinal de atraso intelectual, mas de identidade.



1. Como falar de Deus sendo Ele transcendente?




A tradição cristã jamais afirmou compreender Deus plenamente. Desde Tomás de Aquino, distingue-se claramente entre a essência divina, que permanece infinitamente superior à capacidade humana de compreensão, e a Revelação, pela qual o próprio Deus livremente decide tornar-Se conhecido. 


Não falamos de Deus por presunção intelectual ou ousadia humana, mas porque Deus tomou a iniciativa de falar ao homem na história da salvação. Negar a possibilidade de falar verdadeiramente sobre Deus sob o argumento de sua transcendência conduz inevitavelmente à negação da própria Revelação bíblica. 




O cristianismo não nasce da busca humana pelo divino, mas da autocomunicação de Deus ao homem.



Sem desmerecer o percurso acadêmico de José María Castillo, o questionamento apresentado incorre num equívoco metodológico elementar que já é esclarecido nos primeiros anos da formação teológica: 



A teologia não parte do mistério inacessível de Deus em si mesmo (Deus absconditus), mas da Economia da Salvação, isto é, daquilo que Deus quis revelar e realizar na história para a salvação da humanidade.



A teologia cristã não especula sobre o que permanece oculto em Deus; ela reflete racionalmente sobre o que Deus decidiu manifestar. Esse princípio já está claramente afirmado na própria Escritura: “As coisas ocultas pertencem ao Senhor, nosso Deus; mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29,29).



Portanto, a transcendência divina não impede o conhecimento de Deus; ao contrário, é precisamente porque Deus é transcendente que a Revelação se torna necessária — e possível. Falamos de Deus não porque O alcançamos, mas porque fomos alcançados por Ele.




2. Falamos de Deus sem saber o que dizemos?



A teologia utiliza a linguagem analógica. Nossas palavras não descrevem Deus de modo idêntico nem vazio, mas verdadeiro e proporcional. Quando afirmamos que Deus é bom, justo ou Pai, não fazemos poesia religiosa, mas afirmações racionais fundamentadas na Revelação. Sem essa possibilidade, toda religião seria irracional.




3. Pecado original: mito ou verdade central?



A Igreja nunca leu o Livro do Gênesis como tratado científico. O pecado original expressa uma verdade antropológica universal: o homem experimenta uma ruptura interior e uma inclinação ao mal presentes em toda a história humana. “Adão” possui dimensão histórica e simbólica ao mesmo tempo — representa a humanidade real diante de Deus. Sem o pecado original e suas consequências, a redenção em Cristo torna-se incompreensível.



4. A morte brutal de Cristo foi um sacrifício exigido por Deus?



A teologia católica jamais ensinou que Deus necessitasse de sangue para perdoar a humanidade, como se fosse uma divindade pagã que exigisse compensação violenta para apaziguar sua ira. Essa interpretação é uma caricatura moderna da doutrina cristã e não corresponde ao ensinamento clássico da Igreja.



Desde Anselmo de Cantuária, especialmente em Cur Deus Homo, até a síntese magistral de Tomás de Aquino, a tradição afirma algo muito diferente: a cruz não muda Deus; a cruz salva o homem. Deus não precisava ser reconciliado conosco — éramos nós que precisávamos ser reconciliados com Deus.



O pecado não é apenas uma falha moral isolada, mas uma ruptura real da ordem sobrenatural da comunhão entre criatura e Criador. A humanidade havia contraído uma dívida que ultrapassava suas próprias capacidades de reparação. Nenhum ato puramente humano poderia restaurar plenamente essa comunhão. Por isso, o próprio Deus assume a natureza humana em Cristo para oferecer, em nome da humanidade, uma obediência perfeita e um amor pleno ao Pai.





Cristo não é vítima passiva de um mecanismo religioso nem refém de um destino trágico. Ele mesmo declara: “Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente” (Jo 10,18). A morte de Jesus é, portanto, ato soberano de liberdade e amor, não imposição divina nem fatalidade histórica. Também é reducionista interpretar a cruz apenas como consequência política de um sistema opressor. Certamente houve causas históricas e políticas — autoridades religiosas, interesses sociais e o poder romano participaram da condenação —, mas a tradição teológica sempre distinguiu entre causas históricas imediatas e o sentido salvífico profundo do evento.



Segundo Tomás de Aquino, Deus pode servir-Se das causas secundárias da história humana para realizar seus desígnios salvíficos sem suprimir a liberdade dos agentes envolvidos. 




Assim, a injustiça humana torna-se ocasião para a manifestação da justiça misericordiosa de Deus. O sistema político que condenou Cristo foi causa histórica; o amor redentor foi a causa última. Na cruz ocorre algo absolutamente singular: Deus não exige sofrimento — Deus assume o sofrimento. Ele não permanece distante do drama humano, mas entra nele até o extremo. O sacrifício de Cristo não consiste na violência sofrida, mas na entrega amorosa realizada: obediência, caridade e doação total.



Por isso, a cruz não revela um Deus cruel, mas um Deus que ama até o fim. Não é um ritual sanguinário, mas o ápice da Encarnação: o Filho de Deus toma sobre si a condição humana ferida para restaurá-la desde dentro. A redenção não é um pagamento jurídico externo, mas a recriação da humanidade na obediência amorosa do novo Adão.



A cruz, portanto, não é escândalo irracional nem acidente político da história. Ela é o centro da fé cristã porque nela se manifesta a lógica paradoxal do Evangelho: Deus vence o pecado não pela força, mas pelo amor que se entrega.



5. Sofrimento, dor e morte são bênçãos?



O cristianismo não glorifica o sofrimento. Deus não deseja a dor humana. A fé cristã ensina algo mais profundo: Deus pode transformar o sofrimento em caminho de redenção quando unido a Cristo. Deus não elimina imediatamente o sofrimento humano; A Trindade entra nele para salvá-lo por dentro.




6. Por que manter rituais antigos?



A liturgia não existe para seguir modas culturais. Ela é memória viva da fé apostólica. Ritos antigos permanecem porque conectam a Igreja atual à Igreja dos Apóstolos e expressam realidades espirituais que ultrapassam épocas. Onde tudo é constantemente reinventado, nada permanece sagrado em seu sentido original e originante. A crise contemporânea não nasce do excesso de tradição, mas da perda do sentido do mistério.




7. Inferno, purgatório e vida eterna ainda são críveis?



Sim, porque essas realidades não nascem de imaginação religiosa, mas respondem às perguntas mais profundas e inevitáveis da existência humana: existe justiça definitiva? A liberdade humana possui consequências eternas? O bem e o mal terminam da mesma maneira?A fé cristã afirma que a história humana não caminha para o absurdo moral. Se não existe juízo final, então o sofrimento das vítimas permanece sem resposta e a injustiça teria a última palavra. A esperança cristã nasce exatamente da convicção de que Deus é simultaneamente amor infinito e justiça perfeita. Negar o juízo, o inferno ou a purificação final não torna o Evangelho mais misericordioso; apenas o esvazia de sentido salvífico. Uma misericórdia sem justiça deixa de ser misericórdia e transforma-se em indiferença moral.



Se Deus não existe, então — como intuía Fiódor Dostoiévski — tudo se tornaria permitido, pois nenhuma ação teria consequência última. Mas se Deus existe e se revelou em Cristo, então a liberdade humana é real e possui peso eterno. O amor não pode ser imposto, e a salvação não é automática.



A tradição cristã ensina algo fundamental: o céu é graça, o inferno é mérito. Ninguém pode conquistar o céu por direito próprio; ele é dom gratuito do amor divino. Já o inferno não é criação arbitrária de um Deus vingativo, mas a consequência última de uma liberdade que se fecha definitivamente ao amor.




O inferno, paradoxalmente, ainda manifesta o amor de Deus, porque Deus respeita radicalmente o livre-arbítrio humano. Deus não força ninguém a amá-Lo. Não existe castigo maior para quem rejeita o amor do que viver eternamente na presença daquele que se odeia. Assim, o inferno não é ausência absoluta de Deus — pois nada pode existir fora do ser sustentado por Ele —, mas a experiência da presença divina recusada, vivida não como alegria, mas como sofrimento por uma liberdade endurecida contra o próprio bem. Deus não condena arbitrariamente; Ele leva a sério a dignidade da liberdade humana. Quem escolhe definitivamente viver sem Deus recebe exatamente aquilo que escolheu: a separação d’Ele.



O purgatório, por sua vez, manifesta a profundidade da misericórdia divina. Não é punição cruel, mas purificação amorosa daqueles que morreram na amizade com Deus, mas ainda necessitam ser plenamente transformados para participar da comunhão perfeita.



A vida eterna garante que a justiça divina não nivela moralmente a história humana. Não seria racional nem justo imaginar que a mesma recompensa fosse dada indistintamente àqueles que viveram heroicamente o amor — como Madre Teresa de Calcutá — e àqueles que promoveram deliberadamente a destruição humana, como Adolf Hitler, caso permanecessem até o fim sem arrependimento e ainda orgulhosos de seus crimes contra inocentes. O juízo final não contradiz o amor divino; ele o confirma. Porque somente onde existe verdade, responsabilidade moral e justiça pode existir esperança autêntica.


Assim, inferno, purgatório e vida eterna não são resquícios de mentalidade antiga, mas afirmações profundamente racionais e espiritualmente necessárias: a liberdade humana é real, o amor não é imposto, o mal não triunfará e aquilo que é vivido em Deus não será perdido para sempre.


8.A verdadeira causa da crise seria a fidelidade a sã doutrina ou seu abandono?



Atribuir o esvaziamento das igrejas à fidelidade doutrinal ignora a realidade histórica recente. Comunidades que abandonaram identidade, dogma e transcendência não se tornaram mais atraentes — tornaram-se irrelevantes. O homem moderno não abandona a Igreja porque ela crê demais, mas porque muitas vezes deixou de anunciar com clareza aquilo em que crê.



9. Sobre o chamado “controle de Roma”



A crítica ao chamado “controle de Roma” geralmente parte de um pressuposto equivocado: o de que a unidade doutrinal seria uma forma de censura intelectual. Na realidade, ocorre exatamente o contrário. A unidade da fé não limita o pensamento; ela torna possível a comunhão eclesial e preserva a identidade do cristianismo ao longo da história.

A Igreja Católica não é uma federação de opiniões teológicas independentes, mas uma comunidade fundada sobre a fé apostólica transmitida desde os Apóstolos. O papel do Magistério não é sufocar a reflexão teológica, mas garantir que essa reflexão permaneça em continuidade com a Revelação recebida, evitando que o cristianismo seja reduzido a interpretações pessoais ou projetos ideológicos passageiros.

Desde Paulo VI até Bento XVI, o cuidado com a teologia buscou proteger a fé diante do risco do relativismo teológico — isto é, a transformação da fé em construção subjetiva moldada por tendências culturais, políticas ou acadêmicas. Sem uma referência comum, a teologia deixa de ser católica e torna-se mera opinião individual, sistema filosófico ou militância ideológica. E aqui reside um ponto lógico frequentemente ignorado: 


Se até filosofias e ideologias humanas precisam ser preservadas em sua formulação original para não perderem sua identidade — marxismo, liberalismo, existencialismo ou qualquer escola filosófica —, com muito mais razão a Revelação divina deve ser guardada em sua economia salvífica autêntica e original.Nenhum filósofo e seus discípulos aceitariam que sua obra original fosse continuamente redefinida até tornar-se irreconhecível. Por que, então, exigir que o cristianismo abandone sua própria fonte constitutiva? Se uma filosofia deformada deixa de ser aquela filosofia, uma fé alterada deixa de ser aquela fé.


O cristianismo não é ideologia nem sistema filosófico nascido da especulação humana; é Revelação, iniciativa livre de Deus que entra na história e se manifesta plenamente em Jesus Cristo. A Igreja não é proprietária dessa Revelação, mas sua guardiã. Ela não tem autoridade para reinventá-la, apenas para transmiti-la fielmente.



Por isso, a autoridade doutrinal não existe para dominar consciências, mas para servir à verdade revelada. A verdadeira liberdade teológica não consiste em mudar o conteúdo da fé, mas em aprofundá-lo continuamente sem romper com sua origem apostólica. 


Onde cada teólogo redefine o cristianismo segundo sua própria visão, deixa de existir Igreja; restam apenas múltiplos cristianismos concorrentes, sem unidade nem continuidade histórica. Roma, portanto, não representa controle político, mas princípio visível de unidade e fidelidade. Não é obstáculo à teologia, mas garantia de que a teologia permaneça aquilo que sempre foi: reflexão racional sobre a Revelação de Deus — e não substituição dela.



10. A verdadeira “Igreja em saída”



O apelo missionário de Papa Francisco não significa abandonar doutrina, nunca o papa propôs em seus escritos ou falas, mudanças nos 7 sacramentos ou tradição apostólica, mas levá-los ao mundo com misericórdia e clareza. A Igreja não evangeliza adaptando o Evangelho ao espírito do tempo; evangeliza convertendo o espírito do tempo ao Evangelho de Jesus.



11.Resposta à provocação final sobre a destruição da igreja



O artigo termina com uma ironia pessimista: se tudo continuar assim, “logo teremos liquidado o pouco que ainda resta”. 


Porém, a própria história do cristianismo desmente essa conclusão. Impérios desapareceram, ideologias surgiram e ruíram, sistemas filosóficos foram superados, perseguições tentaram destruir a fé — e, ainda assim, a Igreja permanece.

A razão é simples: a Igreja não é sustentada pela criatividade dos teólogos nem pela aprovação cultural das épocas. Ela subsiste por promessa divina. A esperança cristã não repousa em estratégias humanas, mas na palavra de Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18).

Portanto, o futuro da Igreja não depende de abandonar aquilo que recebeu, mas de permanecer fiel Àquele que a fundou. O cristianismo não sobrevive apesar da tradição, mas precisamente por causa dela. Porque a Igreja não é obra de uma geração, nem de correntes teológicas passageiras: ela é obra de Cristo — e aquilo que Cristo sustenta nenhuma crise histórica pode liquidar.




Considerações sobre as críticas ao Concílio Vaticano II




Comment by Veritatis Splendor




“Põe tu confiança no Senhor, e segue os seus caminhos. Ele te exaltará e possuirás a terra; a queda dos ímpios verás com alegria” (Sl 36,34).




1. Introdução



Vivemos um tempo em que graças a Deus, os inimigos internos da Igreja estão levando golpes muito duros. Duros pela força da verdade com que a Mãe Igreja vem ensinando seus filhos todos, principalmente aqueles que a acusam de conivência com o erro e os que sedentos de novidades ignoram sua irrefutável, eterna, santa e perene doutrina. A Motivação deste trabalho é expor algumas considerações nossas sobre tudo isto que recentemente vem acontecendo acerca do Concílio Ecumênico do Vaticano II.




2. Questionar é diferente de acusar pejorativamente!




-Alguns dos nossos caríssimos leitores têm nos questionado acerca de nossa defesa do Vaticano II. Alegam que nós estamos defendendo uma aceitação burra do Concílio. Ora, isso não é verdade. Ao demonstrar que através de um Concílio Ecumênico a Igreja exerce de forma solene seu poder sobre toda a Igreja, estamos mostrando que as críticas ao Concílio devem se dar nos justos limites da razão e do bom senso.





-Por exemplo: “uma mãe que sempre criou e educou seus filhos com todo amor em meio a tantas diversidades, sempre mostrando que é digna de confiança. Certo dia, um de seus filhos acha estranha a forma como esta mãe se expressa ao falar sobre um determinado assunto, ou ainda como se comporta frente a uma situação nova. O que deve fazer este filho? Deve exigir esclarecimentos, confiando em todo testemunho que sua mãe lhe deu ou deve acusá-la de ter perdido a vergonha na cara? O que deveria esperar esta mãe? E se ainda esta mãe demorasse a esclarecer seu filho?"





Esta situação hipotética nos traz lições preciosas! 




Seja numa relação entre pais e filhos, marido e mulher, onde o testemunho do tempo construiu toda uma estrutura de confiança, amor e idoneidade, quebrar esta relação, por conta da desconfiança e da intriga seria como abrir mão de um tesouro precioso. Se tratando da Igreja, instituição divina, fundada por Cristo, assistida por Deus Uno e Trino, a coisa é ainda mais grave.





Se há algo que não compreendemos, ou que achamos inadequado, devemos pedir orientação e esclarecimento aos nossos pastores e em último caso exigir explicações da Santa Sé. Isso é bem diverso que acusar a Igreja de ter promulgado o erro pelo seu Magistério, é bem diferente de dizer que a Igreja oferece uma Missa herética (qual a heresia explícita em qual ponto de algum documento conciliar ou pós conciliar?). 



Movimentando-se de uma coisa para a outra, deixamos de questionar e passamos a acusar, postura que é muito grave. O Católico pode e deve exigir esclarecimento sobre a Fé e a Doutrina, direito adquirido pela Tradição e promulgado no CDC (cân 212), porém sem ferir a unidade, autoridade e a idoneidade da Santa Igreja.





A IGREJA É INFALÍVEL EM "MATÉRIA DE FÉ E MORAL" EM SEU MAGISTÉRIO SOLENE!




Tradicionalistas e grupos chamados rad trad costumam afirmar: “temos o dever de apontar os erros e denunciar quem erra”. Em parte, essa afirmação contém um princípio verdadeiro, pois a correção fraterna e o zelo pela verdade sempre fizeram parte da vida cristã. Contudo, é necessário estabelecer uma distinção fundamental para não cair em um erro ainda maior: a Igreja, enquanto fundada por Cristo, não pode errar naquilo que diz respeito à fé e à salvação. A própria Escritura afirma que a Igreja é “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15). 



Portanto, não cabe ao fiel colocar-se como juiz da Igreja, como se ela pudesse desviar-se da verdade revelada ou conduzir os fiéis ao erro doutrinal universal. Quando surgem dificuldades de compreensão, tensões pastorais ou formulações que exigem maior aprofundamento, o caminho católico nunca foi o da acusação contra a Igreja, mas o pedido humilde de maiores e melhores esclarecimentos, dentro da comunhão e da obediência eclesial.











Aqui entra uma distinção teológica indispensável: infalibilidade não significa impecabilidade. A Igreja é infalível quando ensina solenemente matérias de fé e moral — isto é, não pode ensinar erro como verdade salvadora — porque Cristo prometeu permanecer com ela até o fim dos tempos e enviou o Espírito Santo para guiá-la “à verdade plena” (Jo 16,13). Porém, isso não significa que seus membros, inclusive ministros ordenados, sejam impecáveis ou incapazes de falhas pessoais, decisões prudenciais discutíveis ou limitações humanas. 




Santos, papas, bispos e fiéis continuam sendo pecadores necessitados de conversão. Confundir infalibilidade com impecância gera duas distorções opostas: de um lado, o triunfalismo ingênuo; de outro, o espírito de suspeita permanente que transforma a crítica em desconfiança sistemática da própria Igreja.





A verdadeira atitude católica sempre foi outra: amar a Igreja mesmo quando não compreendemos tudo, confiar na assistência do Espírito Santo sem negar a realidade humana de seus membros e buscar esclarecimento sem romper a comunhão. 



A história mostra que grandes debates teológicos foram resolvidos dentro da Igreja, nunca contra ela. Questionar para compreender é legítimo; acusar a Igreja de erro doutrinal é negar sua própria identidade. O fiel católico não é chamado a ser fiscal da Igreja, mas filho dela — consciente de que Cristo não abandona sua Esposa e que, apesar das fraquezas humanas, ela permanece, ontem, hoje e sempre, o instrumento seguro de nossa salvação.










3. A Contradição dos tradicionalistas:





Todo aquele que assume uma postura radicalmente anti-Concílio Vaticano II acaba, cedo ou tarde, entrando numa contradição teológica grave, cujas consequências podem levá-lo inevitavelmente a posições incompatíveis com a fé católica. A razão é simples: a Igreja professa como dogma que é Santa, una, católica e apostólica. Essa santidade não significa que todos os seus membros sejam moralmente perfeitos, mas que a Igreja, enquanto Corpo de Cristo e instrumento de salvação, é assistida pelo Espírito Santo e não pode conduzir os fiéis ao erro em matéria de fé e moral. Pecadores são os seus filhos; santa é a Igreja fundada por Cristo.



Ora, se a Igreja é santa e não pode ensinar o erro como norma universal para os fiéis, surge uma pergunta inevitável: como afirmar, como fazem alguns setores tradicionalistas, que o Vaticano II ensinou erros doutrinais, promoveu desvios ou corrompeu a fé católica? 




Para escapar dessa dificuldade, costuma-se argumentar que o Concílio não definiu novos dogmas e, portanto, seus ensinamentos poderiam conter erros. Contudo, esse raciocínio cria um problema ainda maior. Mesmo quando não define dogmas solenemente, um concílio ecumênico aprovado pelo Papa pertence ao Magistério autêntico da Igreja. 




Se a Igreja tivesse oficialmente promulgado erros doutrinais em documentos conciliares destinados a toda a Igreja, então teria falhado precisamente na sua missão de guardar e transmitir fielmente o depósito da fé.



E aqui aparece a contradição inevitável: se a Igreja ensinou erro, então ela teria traído sua própria natureza e deixado de ser “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15). Em outras palavras, para sustentar que o Vaticano II errou doutrinariamente, seria necessário admitir que a Igreja universal pode enganar os fiéis em matéria de fé — posição que destrói o próprio fundamento da eclesiologia católica. A consequência lógica dessa tese não é o tradicionalismo, mas a negação prática da assistência do Espírito Santo à Igreja.



Alguns tentam resolver o dilema separando artificialmente uma suposta “Igreja verdadeira” de uma “Igreja conciliar”, como se houvesse duas Igrejas paralelas: uma fiel e outra desviada. 




Porém, tal posição aproxima-se perigosamente de erros históricos já condenados, pois rompe a continuidade visível da Igreja ao longo do tempo e coloca o julgamento final da ortodoxia não no Magistério, mas na interpretação privada de grupos ou indivíduos. 








Nesse ponto, o fiel deixa de confiar na Igreja para confiar apenas em sua própria leitura da Tradição — exatamente o princípio que o catolicismo sempre rejeitou.



A posição autenticamente católica é mais coerente e mais fiel à história: reconhecer que o Concílio Vaticano II não foi ruptura nem traição, mas um concílio legítimo da Igreja, cuja interpretação exige continuidade com toda a Tradição anterior. 



Pode-se discutir aplicações pastorais, pedir esclarecimentos teológicos ou aprofundar interpretações — algo que sempre ocorreu após todos os concílios —, mas não é possível afirmar que a Igreja universal tenha ensinado erro sem, ao mesmo tempo, negar sua própria identidade.





Assim, o verdadeiro dilema não está no Vaticano II, mas na postura anti-conciliar: ou se crê que Cristo permanece fiel à sua Igreja e a conduz na verdade ao longo da história, ou se admite implicitamente que Ele permitiu que sua própria Igreja enganasse o mundo inteiro. E, diante dessa alternativa, a fé católica sempre escolheu confiar na promessa de Cristo: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).




Os ensinamentos de um Concílio "são ensinamentos CONTINUOS da Igreja!"





Os ensinamentos de um Concílio Ecumênico não pertencem a opiniões pessoais de um Papa, nem a iniciativas isoladas de alguns bispos. Um Concílio é a própria Igreja ensinando. Quando os bispos do mundo inteiro, em comunhão com o Sucessor de Pedro, exercem juntos o Magistério, aquilo que é promulgado deixa de ser pensamento individual e torna-se ensinamento eclesial autêntico. 



Por isso, os documentos do Concílio Vaticano II não podem ser reduzidos a preferências teológicas passageiras ou a uma agenda de época: tratam-se de atos oficiais do Magistério da Igreja universal. Se alguém afirma que o Concílio ensinou erros doutrinários, precisa enfrentar uma consequência lógica inevitável. Após o Vaticano II, a própria Igreja confirmou, desenvolveu e aplicou seus ensinamentos em múltiplos níveis: promulgou novos documentos magisteriais, reformulou sua ação pastoral, aprofundou sua doutrina social e, décadas depois, publicou o Catecismo da Igreja Católica, cuja estrutura teológica e eclesiológica está profundamente em continuidade com o Concílio. Além disso, sucessivos pontificados — de Papa Paulo VI a Papa João Paulo II, Papa Bento XVI e Papa Francisco — reafirmaram constantemente a validade e a autoridade do Vaticano II como parte integrante da Tradição viva da Igreja.





Assim, surge uma contradição evidente: se o Concílio tivesse realmente promulgado erros, então a Igreja inteira — durante décadas — teria não apenas errado uma vez, mas persistido, confirmado e difundido esse erro em seu ensino oficial universal. Isso implicaria admitir que a Igreja infalível falhou precisamente em sua missão essencial de guardar e transmitir a fé, algo incompatível com a promessa de Cristo e com a própria eclesiologia católica.




O ponto central, portanto, é simples: rejeitar um Concílio Ecumênico não significa discordar de um Papa ou de um grupo de bispos, mas colocar em dúvida a própria capacidade da Igreja de ensinar com autoridade. 




A fé católica sempre sustentou o contrário: a Igreja pode atravessar crises históricas, enfrentar pecados de seus membros e viver períodos de tensão pastoral, mas não pode conduzir o povo de Deus ao erro em matéria de fé e salvação. 


Por isso, os ensinamentos conciliares não são uma opção ideológica entre outras; são expressão do Magistério da Igreja que continua, sob a ação do Espírito Santo, a iluminar cada nova época da história cristã.






Como explicam os tradicionalistas: UMA Igreja Santa Ser pecadoRA?






-Aqui aparece uma dificuldade teológica séria que muitos setores tradicionalistas acabam enfrentando sem perceber: ao acusar a Igreja de ter traído a fé, abandonado a Tradição ou ensinado erros após o Concílio Vaticano II, acabam atribuindo à própria Igreja aquilo que a fé católica jamais permitiu afirmar — que a Igreja, enquanto Igreja, poderia tornar-se infiel à missão recebida de Cristo. 



-O resultado é uma contradição semelhante àquela em que caíram diversos movimentos protestantes desde o século XVI: a ideia de que, em algum momento da história, a Igreja teria se corrompido e deixado de guardar fielmente o Evangelho.




Não é coincidência que, hoje, tanto certos grupos tradicionalistas quanto setores protestantes utilizem acusações muito semelhantes contra a Igreja: falam em traição, infidelidade, abandono da Palavra de Deus ou ruptura com a verdadeira fé. Contudo, ao fazer isso, adotam implicitamente um princípio estranho ao catolicismo — o de que a Igreja visível pode falhar universalmente em sua missão doutrinal. 



Se isso fosse possível, então desapareceria a garantia dada por Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja (Mt 16,18).



-Outra contradição frequente consiste em rejeitar o Vaticano II sob o argumento de que ele não definiu novos dogmas solenes. Entretanto, os mesmos críticos frequentemente tratam opiniões de teólogos isolados, interpretações jornalísticas, análises de comentaristas ou narrativas midiáticas, e até cartas encíclicas de papas, como se fossem ensinamentos dogmáticos da Igreja. Ou seja, recusam o Magistério autêntico por não ser “dogmático”, mas absolutizam comentários externos como se possuíssem autoridade doutrinal. Essa inversão revela um problema metodológico profundo: substitui-se o julgamento do Magistério pela interpretação privada — exatamente o princípio que a tradição católica sempre rejeitou.



É necessário recordar também a natureza dos documentos magisteriais. Uma Constituição Apostólica, por exemplo, não é um simples texto pastoral ou opinião teológica. Trata-se de um ato solene do Magistério Pontifício, promulgado pessoalmente pelo Papa, com força normativa para toda a Igreja. Seu conteúdo possui valor jurídico e doutrinal elevado, expressando o ensinamento oficial da Igreja sobre determinado tema. Documentos desse nível não pertencem ao campo da especulação acadêmica, mas ao exercício concreto da autoridade apostólica confiada ao Sucessor de Pedro.



Portanto, o dilema permanece: ou se reconhece que a Igreja é santa — ainda que composta por pecadores — e assistida pelo Espírito Santo em seu ensino, ou se sustenta que ela pode enganar os fiéis por décadas, hipótese incompatível com a fé católica. 



A Igreja pode ter membros pecadores; não pode tornar-se pecadora enquanto Igreja. Confundir a fraqueza humana dos seus filhos com corrupção doutrinal da Esposa de Cristo conduz inevitavelmente a uma eclesiologia fraturada, na qual cada grupo passa a julgar a Igreja segundo seus próprios critérios, deixando de reconhecer nela a autoridade viva instituída pelo próprio Cristo.




Dependendo do conteúdo específico, as Constituições Apostólicas podem ser “subdivididas” em dois tipos:






1)- Constituição Dogmática, quando contêm matéria de fé em que todo católico deve crer.



2)- Constituição Pastoral, quando contêm diretrizes da Igreja sobre a sua ação prática junto aos fiéis.




ATENÇÃO!!! Nada impede, porém, que um documento pontifício seja classificado apenas genericamente como “Constituição Apostólica”, sem a especificação “dogmática” ou “pastoral”. Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), foram promulgadas quatro Constituições Apostólicas de relevância histórica. Todos nós, católicos, deveríamos conhecê-las e lê-las na íntegra, para aprender mais sobre a nossa Igreja e sobre a nossa fé, particularmente consideradas na perspectiva da nossa época.





VAMOS A VERDADE DOS FATOS: VEJAMOS AGORA AS DUAS CONSTITUIÇÕES “DOGMÁTICAS” DO CONCÍLIO VATICANO II:





(foto reprodução)




1)- DEI VERBUM (A Palavra de Deus)




-Tipo: Constituição Dogmática.

-Tema: a relação entre as Sagradas Escrituras e a Tradição.

-Promulgação: Papa Paulo VI, 18 de Novembro de 1965.






2)- LUMEN GENTIUM (A Luz dos Povos)




-Tipo: constituição dogmática.


-Tema: a natureza e a constituição da Igreja como instituição e como Corpo Místico de Cristo.


-Promulgação: Papa Paulo VI, 21 de novembro de 1964.




Interessante que os tradicionalistas julgam o Concílio Vaticano II por sua história, mas não utilizam o mesmo critério para dos Concílios anteriores, pois nem tudo que foi promulgado nos concílios anteriores tiveram caráter dogmático. Realmente no mundo do erro, a coerência não é uma virtude muito apreciada.





O IBP (Instituto Bom Pastor): A tábua de salvação dos tradicionalistas?












O IBP (Instituto Bom Pastor) “é uma sociedade de vida apostólica de direito pontifício instituída conforme as normas do direito canônico (can, 732); seus membros querem exercer seu sacerdócio dentro da tradição doutrinal e litúrgica da Santa Igreja Católica Romana”. É formado por padres dissidentes da FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X).Os tradicionalistas dizem que a Igreja na ereção do IBP acolheu padres que não aceitam a Missa Nova e nem o Vaticano II. Ensinam que se Roma acolheu em plena comunhão padres lefebvristas, logo não é errado ao católico recusar a Missa Nova nem o Concílio. Este tipo de abordagem fica ainda mais convincente pelo fato de membros do IBP possuírem laços de amizade com líderes ou adeptos tradicionalistas. Um amigo muito querido chegou a indicar-me a leitura das declarações do Superior do IBP, Pe. Philipe Laguérie, onde este reconheceria haver erros no Vaticano II (2) e a falta de legitimidade (não confundir com legalidade) da Missa Nova (3).Com toda certeza, diante de todo este cenário é muito tentador aderir à cartilha anti-Vaticano II. Ainda mais quando se trabalha muito bem com a psicologia das pessoas, com palavras amáveis, gestos de carinho, demonstração de piedade, enfim um verdadeiro espetáculo de sedução que pretende levar as pessoas a enxergarem somente aquilo que o "guru tradicionalista" deseja.






Trarei informações que julgo serem de grande relevância, para que as “viseiras-de-burro” possam cair permitindo um maior raio de visão - O acolhimento do IBP junto à Santa Sé:





Há uma diferença sutil, porém significativa entre tolerância e aceitação. Um erro pode ser tolerado quando o bem a ser conquistado é maior do que se poderia conseguir atacando-o. Claro que este bem desejado inclui o próprio extermínio do erro. Não significa que esta aceitação temporária, esta tolerância seja um reconhecimento do erro (cisma) como se fosse algo correto.Por exemplo: num relacionamento verdadeiramente ecumênico (não relativista) com um protestante, isto é, visando a sua conversão à Verdade confiada por Cristo à Sua Igreja, posso até tolerar o erro da Sola Scriptura (não combatê-lo num primeiro momento), visando mostrar ao protestante somente pela Escritura incompleta que ele tem, o Esplendor da Verdade, que conseqüentemente o levará a abandonar a Sola Scriptura. A Igreja ao acolher os padres que abandonaram a FSSPX e que constituem o IBP age da mesma forma. A Igreja cede para conquistar, recua para avançar, se cala para ser ouvida! São sutilezas da diplomacia romana.




PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR:





1)- Se com a acolhida dos ex-membros da FSSPX, a Igreja está reconhecendo os supostos erros do Vaticano II, e dando apoio a quem nega o Concílio, o que justifica o fato desta porta não ter sido mais alargada e acolhido toda a FSSPX?




2)- O que justifica o fato do Papa Bento XVI dizer através do seu Motu Proprio que libera a Missa de S. Pio V, mas que a questão sobre D. Lefebvre ainda não está resolvida?




3)- Por que no mesmo Motu Proprio, o Papa Bento XVI reconhece a ortodoxia da Missa Nova?




4)- Por que a Congregação da Doutrina da Fé ratificou e defendeu o subsistit in do Vaticano II?





Há informações muito importantes que devem ser consideradas e aprofundadas aqui:





Os estatutos do IBP são experimentais. Ora, se o quadro é como os tradicionalistas o pintam, por que acolher lefebvristas com estatutos temporários ou experimentais? Não seria mais adequado acolhê-los com estatutos não-experimentais?A experiência do IBP na Igreja é uma experiência de amor, de reconciliação. Não de licenciar o ataques ao Concílio! 





Já que nossos desafetos gostam tanto do que veiculam as agências de notícias, proponho a leitura das linhas abaixo:

 



“O Arcebispo de Bordeaux e Presidente da Conferência Episcopal de França, Cardeal Jean-Pierre Ricard explicou que o Santo Padre tomou a decisão de erigir este novo Instituto. Deste modo, continua-se dá a vontade de propor uma experiência de reconciliação e de comunhão que terá que afirmar e aprofundar-se com os fatos. Os estatutos do Instituto do Bom Pastor foram aprovados com caráter experimental...” (fonte: ACI) - Como era de se esperar, a Santa Sé acolheu os padres do IBP num gesto de esperança de uma futura total reconciliação. A Igreja concedeu-lhes todas as condições para que eles possam convencer-se de que o Vaticano II não é um mal em si, mas que o mal está na sua leitura liberalista.






O IBP está licenciado a rejeitar o Vaticano II?





Em 11 de setembro de 2006, a ACI veiculou o acolhimento dos padres do IBP junto à Roma, informando o mundo católico sobre a ereção do mesmo. Esta notícia foi comentada no sítio do Prof. Felipe Aquino. Tal comentário rendeu-lhe duros ataques do Prof. Orlando Fedeli (como era de praxe), que o acusou de ter falseado a verdade. Na polêmica foi envolvido o Pe. Rafael Navas Ortis, Superior do IBP na América Latina (4).Um estudo bem consistente de toda aquela polêmica é digno de um livro. Com efeito, há informações ali que os leitores menos atentos deixam passar com facilidade. Por isso, nos satisfaremos em dizer que:“O Prof. Felipe Aquino não se enganou de todo, e que todo aquele circo no qual o Pe. Navas acabou envolvido, seja porque não leu o que escreveu o Prof. Felipe Aquino, ou porque não entendeu a missão do próprio instituto do qual faz parte, foi muito bem arquitetado para ser utilizado como suposta prova contra o Vaticano II.”






Em 5 de outubro de 2006 (isto é, poucos dias após a controvérsia acima referida), o Cardeal Jean-Pierre Ricard, que é o supervisor do IBP junto à Santa Sé através da Comissão Ecclesia Dei, declarou que:







Os padres do IBP devem aceitar o atual magistério do Papa e dos Bispos, acrescentou ainda que eles devem deixar clara sua posição de conformidade com o magistério atual que se expressou no Concílio do Vaticano II, bem como os documentos promulgados por ele. Insiste o Cardeal que, a oferta de amor estendida aos padres do IBP, não deve reabrir questões sobre o caminho tomado pela Igreja durante os últimos 40 anos...”(5) - Um mês depois desta entrevista (aproximadamente em 06 de Novembro de 2006), Pe. Philipe Laguérie é chamado à Roma para dar explicações sobre suas declarações dinamitosas sobre o Concílio do Vaticano II. Fato este que chegou a ser ridicularizado pela FSSPX (6).






Ora, será mesmo que o IBP tem licença para atirar pedras no Vaticano II?






No ano de 2007, na oportunidade da visita do Santo Padre ao Brasil, um Bispo amigo nosso e de grande importância entre os fiéis tradicionalistas, recebeu a informação do Card. Castrillon Hoyos (presidente da Comissão Ecclesia Dei, e que assinou os estatutos do IBP), de que IBP não está autorizado a rejeitar o Vaticano II, confirmando o que havia dito Card. Ricard, supervisor do IBP.





Claro que há uma diferença entre não poder rejeitar o Concílio e ser obrigado a aceitá-lo!






Ora, não se pode esperar de um luterano recém convertido ao Catolicismo que o mesmo use imediatamente incenso ou que tenha em casa uma imagem de Nossa Senhora. Aplicando isso aos padres do IBP, não se pode esperar que estes homens que outrora estavam na FSSPX, de uma hora para a outra, como num passe de mágica, admitam tudo o que a Igreja ensinou e fez depois do Vaticano II. É compreensível que os padres do IBP, tenham muitas reservas quanto ao Concílio. Porém, é significativo que eles não tenham permissão para serem franco-atiradores do Concílio, cospindo no prato que comem da Santa Mãe Igreja. E é aí que está o detalhe, é aí que está a sutileza de toda questão.Lembremos que a Igreja com a ereção do IBP abriu um caminho de reconciliação aos dissidentes da FSSPX, cujos frutos ainda se esperam, conforme atestamos nas palavras do Card. Ricard:“Se dá a vontade de propor uma experiência de reconciliação e de comunhão que terá que afirmar e aprofundar-se com os fatos. Completa o purpurado que: somente o futuro mostrará se esta experiência foi uma iniciativa promissora ou uma falsa esperança...”(5).





A oferta de amor da Igreja ao IBP já começou a dar frutos!





Já é possível notar uma mudança de postura no próprio IBP. Pe. Laguérie já reconhece o poder do Papa de reformar a Liturgia (3), levando-o a aceitar a legalidade da Missa Nova. Esta tese é fortemente contestada pela FSSPX (7), o que rendeu críticas desta aos ex-correligionários. Pe. Tenoüarn, membro do IBP e secretário do Pe. Laguérie, já admite não só a legalidade da Missa Nova, mas também sua legitimidade. É o que podemos constatar em sua declaração em Valerus Actuelles (França) em 1 de dezembro de 2006:“Apenas do ponto de vista destas diferenças de tom, que não é necessário fazer grande exagero, mas que existem, e a nossa conversa mostra isso, creio que se faz necessário aceitar a diferença de ritos, e também que se possa preferir de forma fundamentada e profunda, não apenas subjetiva ou estética, o rito tradicional. Depois de dizê-lo, bem entendido, se em nome dessa preferência se anatemizam todos os demais, e se declara que o rito novo não é legítimo, não estaremos fazendo nada pela Igreja...” - Claro que esta mudança de postura é enxergada por alguns  tradicionalista como traição à causa tradicionalista. O que é melhor trair falsos mestres, ou trair a Deus?






Os verdadeiros tradicionalistas estão em Roma!





Desde o término do Concílio quando D. Lefebvre começou a liderar a frente anti-Vaticano II, muitos de seus adeptos acabaram por reconhecer os próprios erros. Dois belíssimos exemplos e bem conhecidos são os padres da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (FSSP) e os padres da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (Padres de Campos-RJ). Eles assim como o IBP retornaram à Igreja cheios de reservas ao Vaticano II.




Os passos que o IBP está dando, eles já deram no passado. E o Esplendor da Verdade acabou os convencendo de que os erros não estão no Vaticano II.





(DOM RIFAN, RIBETON, e FELLAY)






Como é belíssimo ver, Pe. Vicent Ribeton, um ex-lefebvrista declarar:






Não creio que celebrar a missa segundo o novo ordo, evidentemente com a observância das rubricas, possa, em si, constituir uma desordem moral objetiva. Dizer o contrário equivaleria a afirmar que a Igreja teria promulgado um rito intrinsecamente mau, o que parece impossível de sustentar sem cair no sedevacantismo. Não estou convencido de que o novo rito exprima muito adequadamente cada uma das realidades que se atualizam no altar, mas isso não significa, por essa razão, que seja heterodoxa. De fato, as condições de validade e de ortodoxia de um rito constituem um mínimo, e a Igreja sempre assumiu ritos de maior ou menor riqueza, até mesmo, perdoem-me a expressão, de certa pobreza...”(8)






Conclusão:



O grande pensador católico Leonel Franca (9) ensinava que “os dois maiores obstáculos à Verdade são o orgulho e a vaidade”. Trata-se de uma observação profundamente espiritual e também teológica. 




A história da salvação mostra que não foi a ignorância que levou à queda, mas o fechamento do coração diante da verdade. Segundo a tradição cristã, até mesmo Satanás — criado como anjo de luz — deixou-se seduzir pela própria grandeza, convencendo outros a segui-lo em sua ilusão. 



Se o orgulho e a autossuficiência foram capazes de obscurecer inteligências angélicas, quanto mais podem confundir a frágil inteligência humana quando esta passa a confiar mais em si mesma do que na ação do Espírito Santo que guia a Igreja.










De modo análogo, também hoje vemos pessoas dotadas de grande capacidade intelectual e sincero amor pela tradição cristã acabarem seduzidas por interpretações pessoais da história da Igreja. 




Convencidos de sua própria leitura, acabam levando outros a acreditar que determinados gestos da Santa Sé — como o acolhimento ou a regularização canônica de comunidades tradicionais, entre elas o Instituto do Bom Pastor — significariam uma rejeição implícita do Concílio Vaticano II ou uma aprovação de ataques ao Concílio. Nada poderia estar mais distante da realidade. 



A Igreja não acolhe grupos para negar sua própria história, mas para integrá-los plenamente na comunhão eclesial, ajudando-os a viver a tradição em unidade com o Magistério vivo.











Basta observar os fatos objetivos: o Catecismo da Igreja Católica foi elaborado explicitamente à luz do Vaticano II; o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica resume essa mesma doutrina; a Doutrina Social da Igreja contemporânea está profundamente marcada pelas constituições e decretos conciliares; e os últimos pontificados ensinaram continuamente em continuidade com o Concílio. 




Papa João Paulo II, Papa Bento XVI e Papa Francisco citaram e aplicaram seus documentos como parte integrante da Tradição viva da Igreja. O próprio motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, jamais representou rejeição do Concílio, mas buscou justamente a reconciliação eclesial dentro da hermenêutica da continuidade.



Não por acaso, diversos ex-membros ligados ao movimento lefebvrista reconheceram posteriormente a legitimidade do Vaticano II e passaram a defendê-lo abertamente, mostrando que o verdadeiro caminho tradicional não é o da ruptura, mas o da comunhão. Este é um recado válido tanto para setores progressistas quanto para setores tradicionalistas: o erro nasce sempre quando se absolutiza uma parte da realidade e se perde a visão da totalidade da fé católica.






(recado para progressistas e tradicionalistas)







O Vaticano II não é um parêntese na história da Igreja, nem um acidente teológico. Ele faz parte da Tradição viva, orgânica e contínua que vem dos Apóstolos até hoje. Tradição não significa imobilidade; significa fidelidade viva. Como recordava Joseph Ratzinger, a verdadeira interpretação do Concílio é a hermenêutica da continuidade, jamais a da ruptura — seja ela progressista ou tradicionalista.



Rezemos, portanto, para que muitos católicos despertem das seduções do sedevacantismo, das leituras conspiratórias e de um tradicionalismo mutilado, rígido e desconfiado da própria Igreja. Fora do Magistério vivo — assistido pelo Espírito Santo e sustentado pela promessa de Cristo em Mateus 28,20 — não existe outro caminho seguro para a verdade católica. Desde São Pedro até o Papa atual, a Igreja permanece a mesma, peregrina na história, mas fiel em sua missão de ensinar, santificar e conduzir as almas à salvação.




Rezemos também para que o Instituto do Bom Pastor e outros grupos que viveram tensões com Roma possam contribuir positivamente para uma leitura justa, fiel e plenamente católica do Concílio Vaticano II, reconhecendo cada vez mais sua ortodoxia e riqueza espiritual. 




A única atitude verdadeiramente católica é desejar comunhão, reconciliação e unidade. Por isso, só podemos oferecer a todos esses irmãos nossas orações, apoio fraterno e sincero desejo de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo os conduzam sempre mais profundamente à plena comunhão da Igreja, onde a Verdade não divide, mas salva e une.






Notas:






(1) IBP. Instituto Bom Pastor Website: O que é o Instituto Bom Pastor? Disponível em http://www.ibp-la.org/ibp/?ss=que_es&l=pt. Último acesso em 05/08/2007.

(2) LAGUÉRIE, Pe. Philipe. Instituto Bom Pastor Website: Pôr “em surdina” os assuntos que irritam? Disponível em   http://www.ibp-la.org/articulos/?ss=blog_ibp&a=surdina&l=pt. Último acesso em 05/08/2007.

(3) LAGUÉRIE, Pe. Philipe. Instituto Bom Pastor Website: Direito ou Ilegalidade? Disponível em http://www.ibp-la.org/articulos/?ss=blog_ibp&a=surdina&l=pt. Último acesso em 05/08/2007.

(4)Disponível em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=carta_felipe_aquino&lang=bra. Último acesso em 09/08/2007.

(5)publicada em http://www.cwnews.com/news/viewstory.cfm?recnum=46909.

(6)Disponível em http://www.fsspx-brasil.com.br/page%2007-c-IBP_no_confessionario_do_Cal_Ricard.htm. Último acesso em 09/08/2007.

(7)Disponível em http://www.fsspx-brasil.com.br/page%2005-6d-delirio-doutrinal-ibp.htm. Último acesso em 05/08/2007.

(8) RIBETON, Vicent. Declaração no Forum Catholiqué, em 13 de Novembro de 2006.

(9) Foi o primeiro reitor da PUC-RJ. Viveu na primeira metade do século XX. Ficou conhecido por sua sabedoria e santidade. Suas obras mais famosas são: A Psicologia da Fé e O Problema de Deus, ambas editadas pela Puc-Rio/Loyola.




*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 - Perfil curricular no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.





BIBLIOGRAFIA 



-BENTO XVI. Discurso à Cúria Romana sobre a hermenêutica da reforma. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.

-BENTO XVI. O espírito da liturgia. São Paulo: Loyola, 2011.

-CONCÍLIO VATICANO II. Constituições, decretos e declarações. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

-CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Dominus Iesus: sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2000.

-FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

-JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 1993.

-JOÃO PAULO II. Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão. São Paulo: Paulinas, 1998.

-JOÃO PAULO II. Novo millennio ineunte. São Paulo: Paulinas, 2001.

-PAULO VI. Ecclesiam Suam: Carta Encíclica sobre a Igreja e o diálogo. São Paulo: Paulinas, 1964.

-RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.

-CONGAR, Yves. Verdadeira e falsa reforma na Igreja. São Paulo: Loyola, 2007.

-DE LUBAC, Henri. Meditação sobre a Igreja. São Paulo: Loyola, 1997.

-RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulus, 1989.

-CHENU, Marie-Dominique. Uma escola de teologia: Le Saulchoir. São Paulo: Paulinas, 2012.

-FRANCA, Leonel. A crise do mundo moderno. Rio de Janeiro: Agir, 1955.



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