por*Francisco José Barros de Araújo
Uma das objeções mais frequentes apresentadas por alguns grupos protestantes contra a doutrina católica da vida eterna imediata após a morte baseia-se nas palavras de Jesus em João 3,13:
"Ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu: o Filho do Homem."
Segundo essa interpretação, Jesus estaria afirmando que ninguém havia entrado no Céu antes d'Ele e, por consequência, todos os justos falecidos permaneceriam inconscientes, "dormindo" até o Juízo Final. A partir dessa leitura, procuram negar não apenas a existência do Céu para os santos antes da ressurreição final, mas também a comunhão dos santos, a intercessão dos que já partiram e até mesmo a consciência da alma após a morte.
Entretanto, surge a inevitável pergunta: será que foi isso mesmo que Cristo quis ensinar?
Se essa interpretação estivesse correta, como explicar que a própria Sagrada Escritura afirme que:
-Enoque foi levado por Deus (Gn 5,24),
-Elias foi arrebatado num carro de fogo (2Rs 2,11)
Haveria contradição entre o Antigo e o Novo Testamento? Evidentemente que não! A Palavra de Deus jamais se contradiz. Quem se contradiz são as interpretações particulares que, desconsiderando o contexto, a linguagem bíblica e a Tradição Apostólica, acabam atribuindo às Escrituras um sentido que elas nunca pretenderam ensinar.Por isso, o próprio Espírito Santo nos adverte:
"Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação." (2Pd 1,20)
A Bíblia não foi escrita para ser interpretada isoladamente segundo opiniões pessoais, mas dentro da fé da Igreja fundada por Cristo, assistida pelo Espírito Santo e depositária da Sagrada Escritura, da Sagrada Tradição e do Magistério.É exatamente esse princípio que seguiremos neste estudo. Em vez de retirar um versículo do seu contexto para transformá-lo em pretexto — prática infelizmente bastante comum em muitos debates religiosos — analisaremos cuidadosamente o contexto imediato das palavras de Jesus, confrontando-as com toda a Revelação divina. Observe o texto completo:
"Em verdade, em verdade te digo: nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis o nosso testemunho. Se vos falei das coisas da terra e não credes, como crereis se vos falar das coisas do Céu? Ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem." (Jo 3,11-13)
Perceba que o tema principal da conversa entre Jesus e Nicodemos não é o destino das almas após a morte, mas a autoridade única de Cristo para revelar os mistérios celestes. O Senhor está contrapondo Seu conhecimento divino ao conhecimento limitado dos homens. Somente quem veio do Pai pode revelar plenamente as realidades eternas.
A própria sequência do texto deixa isso evidente. Jesus não está discutindo quem já havia sido levado por Deus ou quem alcançaria a glória celeste, mas quem possui autoridade própria para falar das coisas do Céu porque delas tem conhecimento direto. Em outras palavras, somente o Filho eterno conhece perfeitamente o Pai, porque procede d'Ele desde toda a eternidade.
Essa interpretação é confirmada por diversas passagens do Antigo Testamento, como Deuteronômio 30,12, Provérbios 30,4 e Baruc 3,29, textos aos quais Jesus claramente faz alusão. Todos eles apresentam a mesma ideia: ninguém, por iniciativa própria, penetrou os mistérios de Deus para depois retornar e revelá-los aos homens. Somente Cristo realizou essa missão.
Portanto, João 3,13 não ensina que Enoque, Elias ou qualquer outro justo jamais tenha sido elevado por Deus. Muito menos ensina a doutrina do chamado "sono da alma". O versículo afirma algo infinitamente mais profundo: somente Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, veio do Céu, conhece plenamente o Pai e possui autoridade absoluta para revelar aos homens os mistérios da salvação.
Nos tópicos seguintes veremos, à luz da Sagrada Escritura, da Tradição da Igreja e do ensinamento constante do Magistério, como compreender corretamente essa passagem e por que ela está em perfeita harmonia com todos os demais textos bíblicos que falam da condição dos justos antes e depois da Ressurreição de Cristo.
O espírito de Estevão foi
para onde?
Se a doutrina do chamado "sono da alma" fosse verdadeira, uma pergunta inevitavelmente precisaria ser respondida: para onde foi o espírito de Santo Estêvão no momento de sua morte?O livro dos Atos dos Apóstolos descreve seus últimos instantes com extraordinária riqueza de detalhes:
"Cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus... E, enquanto era apedrejado, orava:Senhor Jesus, recebe o meu espírito." (At 7,55-59)
Se a alma permanecesse inconsciente até a ressurreição final, por que Estêvão entregaria seu espírito diretamente a Cristo? Por que não diria simplesmente: "Senhor, guarda-me até o último dia"? A oração do primeiro mártir da Igreja revela exatamente o contrário: ele esperava entrar imediatamente na presença do Senhor. O mesmo ensinamento encontramos nas palavras de São Paulo:
"Estamos cheios de confiança e preferimos deixar a habitação deste corpo para ir morar junto do Senhor. Por isso nos esforçamos por agradar-lhe, quer permaneçamos neste corpo, quer o deixemos." (2Cor 5,8-9)
Observe atentamente: São Paulo não diz que, ao deixar o corpo, permaneceremos inconscientes aguardando séculos até o Juízo Final. Ele afirma que partir deste corpo é passar a habitar junto do Senhor. Além disso, o Apóstolo declara que procura agradar a Deus "quer vivendo neste corpo, quer deixando-o". Ora, como alguém poderia agradar a Deus permanecendo completamente inconsciente? A expressão só faz sentido se a alma continuar viva, consciente e em comunhão com Cristo.Alguns objetam que essas passagens apenas demonstrariam que existe vida após a morte, mas não provariam a intercessão dos santos. Entretanto, a própria Escritura responde também a essa objeção.Os santos que morreram fiéis ao Senhor aparecem conscientes, glorificados e plenamente participantes da vida celeste. Na Transfiguração, Moisés e Elias conversam com Jesus sobre Sua futura Paixão (Lc 9,28-31). No Apocalipse, as almas dos mártires clamam diante de Deus pedindo justiça (Ap 6,9-10). Em nenhum momento são apresentadas como adormecidas ou privadas de consciência.Se interpretarmos literalmente algumas expressões bíblicas sobre os mortos "dormirem", como fazem certos grupos ao citar 1Coríntios 15 ou 1Tessalonicenses 4, criaremos uma contradição com inúmeras outras passagens que descrevem claramente a atividade consciente das almas após a morte.Basta recordar alguns exemplos:
-O rico e Lázaro dialogam conscientemente após a morte (Lc 16,19-31);
-São Pedro anuncia sua morte próxima e demonstra plena consciência da continuidade de sua missão (2Pd 1,13-15);
-São Paulo manifesta o desejo de "partir para estar com Cristo", o que considera infinitamente melhor (Fl 1,23);
-Moisés e Elias aparecem vivos e conscientes conversando com Jesus na Transfiguração (Mt 17,1-8; Lc 9,28-31).
São Paulo escreve ainda:
"Para confirmar os vossos corações... por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos." (1Ts 3,13)
Surge então uma pergunta inevitável:
Como Cristo poderá voltar "com todos os seus santos" se eles nunca estiveram com Ele? É possível alguém voltar de um lugar para onde jamais foi?
Outro argumento decisivo encontra-se na Transfiguração. Moisés havia morrido havia muitos séculos (Dt 34,5-6), mas aparece glorioso conversando com Cristo sobre os acontecimentos futuros de Jerusalém (Lc 9,30-31). Se Moisés estivesse inconsciente, como poderia dialogar? Como saberia que Jesus ainda caminhava rumo à Cruz? Como reconheceria o Messias e falaria precisamente sobre Seu "êxodo", isto é, Sua Paixão, Morte e Ressurreição? A cena demonstra que os justos vivem na presença de Deus e conservam plena consciência.
O Apocalipse reforça ainda mais essa verdade:
"Quando o Cordeiro abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da Palavra de Deus... Eles clamavam em alta voz: 'Até quando, Senhor santo e verdadeiro, tardarás em fazer justiça e vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?'" (Ap 6,9-10)
Essas almas não apenas existem: elas pensam, recordam sua vida terrena, sabem que o julgamento definitivo ainda não aconteceu, dirigem súplicas a Deus e aguardam o cumprimento de Sua justiça.
Diante dessa passagem, algumas perguntas permanecem sem resposta para a teoria do "sono da alma":
-Como poderiam saber que a história da humanidade ainda não havia chegado ao fim?
-Como saberiam que Deus ainda não havia executado Seu juízo sobre os perseguidores?
-Como poderiam dirigir uma súplica consciente ao Senhor se estivessem totalmente adormecidos?
-Como poderiam clamar "em alta voz" estando privados de toda consciência?
A resposta é evidente. A linguagem da Sagrada Escritura confirma aquilo que a Igreja sempre ensinou: a morte não destrói a alma nem a reduz a um estado de inconsciência. Os justos vivem diante de Deus, contemplam Sua glória, rezam, louvam, intercedem e aguardam, conscientes e felizes, a ressurreição gloriosa de seus corpos no último dia.
De fato, para compreender corretamente a doutrina católica sobre os santos e sua intercessão, é necessário distinguir claramente a situação dos justos antes e depois da Redenção realizada por Cristo.
No Antigo Testamento, a Revelação sobre a vida eterna ainda era progressiva. Os justos que morriam não entravam imediatamente na visão beatífica de Deus, pois o Céu ainda não havia sido aberto pela Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Eles aguardavam, no chamado Xeol ou Seio de Abraão, a consumação da obra redentora do Messias prometido.
Por isso, diversos textos veterotestamentários descrevem os mortos como privados da participação plena na liturgia celeste. O salmista afirma:
"Os mortos não louvam o Senhor." (Sl 115,17)
E o profeta Isaías declara:
"A morada dos mortos não vos louva, nem a morte vos celebra." (Is 38,18-19)
Essas passagens não ensinam que a alma deixava de existir ou permanecia aniquilada. Apenas exprimem a realidade anterior à Redenção: os justos ainda não contemplavam Deus face a face nem participavam plenamente da glória celeste.Entretanto, tudo isso mudou radicalmente com a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Depois de entregar sua vida na cruz, Jesus desceu à mansão dos mortos para anunciar sua vitória aos justos que ali aguardavam a promessa da salvação:
"Cristo morreu uma vez pelos pecados... Foi então pregar aos espíritos que estavam na prisão." (1Pd 3,18-20)
E São Pedro acrescenta:
"Foi por isso que o Evangelho foi anunciado também aos mortos." (1Pd 4,6)
São Paulo descreve esse acontecimento de maneira magnífica:
"Quando subiu ao alto, levou consigo os cativos... Ora, que quer dizer 'subiu', senão que antes havia descido às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o que subiu acima de todos os céus." (Ef 4,7-10)
A partir desse momento, o Céu foi definitivamente aberto aos justos. Cristo venceu a morte, rompeu as portas do inferno dos justos e conduziu para a glória aqueles que haviam vivido na amizade de Deus desde os tempos antigos.Por isso, a condição dos santos do Antigo Testamento não pode ser confundida com a daqueles que morrem em Cristo depois da sua Ressurreição. A economia da salvação mudou porque a obra redentora foi plenamente consumada.
Entre esses justos, a própria Escritura apresenta casos extraordinários, como o de Moisés. Embora tenha morrido (Dt 34,5-6), seu corpo tornou-se objeto de uma disputa entre o Arcanjo Miguel e Satanás (Jd 1,9), e posteriormente ele aparece glorificado ao lado de Elias conversando com Jesus na Transfiguração (Mt 17,1-5; Lc 9,28-31), testemunhando a vitória antecipada da graça de Deus.
O livro do Apocalipse mostra ainda mais claramente essa nova realidade da Igreja celeste:
"Veio outro anjo e colocou-se junto ao altar com um turíbulo de ouro. Foram-lhe dados muitos perfumes para oferecê-los, com as orações de todos os santos, sobre o altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo subiu diante de Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos." (Ap 8,1-4)
Observe que os santos aparecem participando da liturgia celeste. Suas orações são apresentadas diante do trono de Deus. Longe de estarem inconscientes, participam ativamente da comunhão da Igreja gloriosa. É justamente sobre essa realidade bíblica que se fundamenta a doutrina católica da intercessão dos santos. Quando a Igreja canoniza uma pessoa, ela não cria um santo, nem lhe concede poderes extraordinários, nem o transforma em um "novo mediador" da salvação. A canonização apenas reconhece oficialmente aquilo que Deus já realizou: que aquele fiel viveu heroicamente as virtudes cristãs, morreu em amizade com Deus e agora participa da glória celeste.
Os milagres examinados durante o processo de canonização não são atribuídos ao poder próprio do santo, mas ao poder de Deus, que quis confirmar diante da Igreja a santidade daquele seu servo ou serva.
A canonização, portanto, é um reconhecimento da obra da graça divina e uma confirmação de que aquele cristão pode ser legitimamente venerado como exemplo de vida e invocado como intercessor.A própria Escritura mostra que Deus glorifica aqueles que permanecem fiéis até o fim:
"Ao vencedor, que guardar até o fim as minhas obras, darei autoridade... assim como eu a recebi de meu Pai." (Ap 2,26-28)
Ao mesmo tempo, é importante recordar que a palavra "santo" possui dois sentidos na Bíblia.Em sentido amplo, todos os cristãos são chamados à santidade, pois pertencem ao povo santo de Deus:
"Sede santos, porque eu sou santo." (Lv 19,2; cf. Lv 20,7; 1Pd 1,16)
Em sentido estrito, porém, a Igreja utiliza o termo para designar aqueles que já chegaram à glória do Céu e cuja santidade foi oficialmente reconhecida para edificação de todo o povo de Deus.Nada disso diminui, obscurece ou substitui a mediação única de Jesus Cristo.A Igreja jamais ensinou que Maria, os santos ou qualquer outra criatura salvam alguém. Somente Jesus Cristo é o Redentor da humanidade, o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5).Como ensina o Catecismo da Igreja Católica:
"Nenhum homem, ainda que o mais santo, podia tomar sobre si os pecados de todos os homens e oferecer-se em sacrifício por todos." (CIC, n. 616)
Portanto, os santos não ocupam o lugar de Cristo nem acrescentam algo ao seu sacrifício redentor. Eles apenas participam da única mediação de Cristo, assim como acontece quando um cristão pede a outro: "Reze por mim."
Se aceitamos com naturalidade a oração de irmãos que ainda peregrinam nesta terra, com muito mais razão podemos pedir a intercessão daqueles que já contemplam Deus face a face, vivem perfeitamente unidos a Cristo e permanecem membros da mesma Igreja, agora glorificada no Céu.
A veneração dos santos, portanto, não desvia nossa fé de Jesus; ao contrário, conduz-nos a Ele, pois toda a santidade da Igreja tem uma única origem, um único fundamento e um único fim: Nosso Senhor Jesus Cristo, o único Salvador do mundo.
A respeito do "arrebatamento de Enoque em corpo e alma"
Entre os personagens mais enigmáticos de toda a Sagrada Escritura está, sem dúvida, Enoque (ou Henoc). Sua vida é narrada brevemente no livro do Gênesis, mas a profundidade de seu testemunho fez com que seu nome permanecesse vivo tanto na tradição judaica quanto na tradição cristã. A Bíblia apresenta Enoque como um homem de santidade extraordinária. Diferentemente da fórmula repetida para os demais patriarcas — "viveu... e morreu" —, quando chega à sua história, o texto utiliza uma expressão singular:
"Henoc andou com Deus; depois desapareceu, porque Deus o arrebatou." (Gn 5,24)
Séculos depois, o autor da Carta aos Hebreus confirma esse acontecimento extraordinário:
"Pela fé, Enoque foi trasladado para não experimentar a morte; e não foi encontrado, porque Deus o havia trasladado. Antes de ser trasladado, recebeu o testemunho de que tinha agradado a Deus." (Hb 11,5)
Portanto, a própria Escritura afirma que Enoque foi retirado desta vida por uma intervenção direta de Deus, constituindo um dos acontecimentos mais extraordinários narrados no Antigo Testamento.
Embora hoje Elias seja geralmente mais conhecido entre os cristãos quando se fala em arrebatamento, no ambiente judaico antigo Enoque ocupava um lugar de enorme destaque. Sua figura inspirou diversas obras da literatura judaica, especialmente os chamados Livros de Enoque, escritos apócrifos que, embora não façam parte do cânon bíblico, testemunham a grande veneração que o povo de Israel tinha por esse patriarca. Inclusive, a Epístola de São Judas faz referência a uma profecia atribuída a Enoque:
"Profetizou também a respeito deles Enoque, o sétimo depois de Adão..." (Jd 14-15)
Isso não significa que o livro apócrifo seja inspirado, mas demonstra que a tradição sobre Enoque era amplamente conhecida entre os judeus do tempo dos Apóstolos.O próprio Antigo Testamento continua exaltando sua santidade. O livro do Eclesiástico afirma:
"Henoc agradou ao Senhor e foi arrebatado, tornando-se exemplo de conversão para todas as gerações." (Eclo 44,16)
Mais adiante declara:
"Ninguém foi criado sobre a terra igual a Henoc, porque ele foi arrebatado da terra." (Eclo 49,14)
Esses elogios revelam que Enoque era considerado um modelo de fidelidade, amizade com Deus e perseverança na justiça.Entretanto, surge uma questão importante.Quando a Bíblia afirma que Deus "arrebatou" Enoque, estaria dizendo que ele entrou definitivamente na visão beatífica, contemplando a glória do Pai antes da Redenção de Cristo? Ou apenas que foi retirado milagrosamente da convivência dos homens e preservado por Deus segundo um desígnio especial?Essa pergunta torna-se ainda mais relevante quando recordamos as palavras de Jesus:"Ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu: o Filho do Homem." (Jo 3,13).À primeira vista, alguns imaginam existir uma contradição entre o relato de Gênesis e a afirmação de Cristo. Contudo, não existe qualquer contradição.
A Igreja sempre compreendeu que o "arrebatamento" de Enoque constitui um privilégio extraordinário concedido por Deus, mas isso não significa necessariamente que ele já desfrutasse da visão beatífica antes da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
Com efeito, a Sagrada Escritura utiliza diferentes sentidos para a palavra "céu". Em muitos textos ela designa simplesmente o firmamento; em outros, o espaço onde habitam os anjos; e, em seu sentido mais elevado, refere-se à morada definitiva de Deus, o chamado "Céu dos céus" (cf. 1Rs 8,27), aberto plenamente aos homens somente após a vitória de Cristo sobre a morte.
Assim, o arrebatamento de Enoque não diminui a singularidade da missão de Jesus. Somente Cristo desceu do Pai, conhece perfeitamente os mistérios divinos e, por sua própria autoridade, abriu definitivamente as portas do Céu aos homens. Enoque foi levado por Deus; Cristo, porém, subiu por seu próprio poder, venceu a morte, entrou gloriosamente na presença do Pai e conduziu consigo toda a humanidade redimida.
Portanto, o caso de Enoque não contradiz João 3,13. Ao contrário, manifesta que Deus pode conceder privilégios extraordinários aos seus servos sem que isso retire de Cristo sua prerrogativa única de ser o Revelador do Pai, o único Mediador da Nova Aliança e aquele que abriu definitivamente aos justos o acesso à glória eterna.
Sobre a disputa com o corpo de Moisés após sua morte, entre o diabo e são miguel
Entre os episódios mais misteriosos das Sagradas Escrituras encontra-se a breve referência feita pela Carta de São Judas à disputa entre o diabo e o Arcanjo São Miguel pelo corpo de Moisés:
"Contudo, o arcanjo Miguel, quando discutia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele uma sentença de maldição; apenas disse: 'O Senhor te repreenda!'" (Jd 9)
À primeira vista, esse versículo causa estranheza, pois o Antigo Testamento não relata explicitamente esse episódio. Para compreendê-lo, é preciso considerar tanto o contexto bíblico quanto a tradição judaica conhecida pelos primeiros cristãos.

A morte de Moisés
Moisés morreu pouco antes de o povo de Israel entrar na Terra Prometida. Deus permitiu que ele contemplasse Canaã do alto do Monte Nebo, na atual Jordânia, mas não lhe concedeu atravessar o rio Jordão.Essa proibição foi consequência de sua falta nas águas de Meriba, quando não santificou plenamente o nome de Deus diante do povo:
"Porque fostes infiéis para comigo... junto às águas de Meriba-Cades... verás a terra diante de ti, mas não entrarás nela." (Dt 32,51-52)
O relato de sua morte encontra-se em Deuteronômio:
"Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor... E o Senhor o sepultou no vale, na terra de Moab... e ninguém conhece, até hoje, o lugar de sua sepultura. Moisés tinha cento e vinte anos quando morreu; sua vista não havia enfraquecido, nem seu vigor diminuído." (Dt 34,5-7)
Um detalhe chama imediatamente a atenção: diferentemente de todos os grandes personagens bíblicos, ninguém jamais soube onde Moisés foi sepultado. O próprio Deus encarregou-se de sua sepultura, preservando-a do conhecimento humano.Essa informação não parece ser um simples detalhe histórico. Muitos estudiosos entendem que Deus quis impedir que o túmulo de Moisés se transformasse em objeto de culto ou idolatria por parte dos israelitas, frequentemente inclinados à infidelidade religiosa durante sua peregrinação pelo deserto.
A origem da referência feita por São Judas
Quando São Judas menciona a disputa entre Miguel e Satanás pelo corpo de Moisés, ele não está narrando um fato encontrado no texto do Antigo Testamento, mas fazendo referência a uma tradição judaica bastante conhecida entre seus leitores.Essa tradição era atribuída a uma obra hoje chamada Testamento (ou Assunção) de Moisés, um escrito apócrifo composto provavelmente entre o século I a.C. e o século I d.C. É importante recordar que apócrifo não significa necessariamente falso em todos os seus detalhes, mas simplesmente um livro que não foi reconhecido pela Igreja como inspirado pelo Espírito Santo. Por isso, os católicos não utilizam esses escritos como fundamento da fé. Entretanto, isso não impede que um autor inspirado mencione algum episódio tradicional conhecido de sua época, exatamente como São Paulo cita poetas gregos (At 17,28; Tt 1,12) sem transformar toda a literatura grega em Escritura Sagrada. Da mesma forma, São Judas utiliza essa tradição apenas como exemplo para ilustrar sua exortação contra os falsos mestres.
Qual é a lição principal de Judas?
O objetivo da Carta de Judas não é explicar o destino do corpo de Moisés, mas ensinar uma profunda lição de humildade e respeito diante das realidades espirituais. Enquanto os falsos doutores insultavam irresponsavelmente as autoridades e até mesmo as realidades celestes, São Miguel, embora superior aos demônios em santidade e poder por missão divina, não recorre à arrogância nem à injúria.Em vez disso, limita-se a dizer: "O Senhor te repreenda!" (Jd 9)
A vitória sobre Satanás pertence a Deus. Miguel age como fiel servidor do Senhor, reconhecendo que toda autoridade procede do próprio Deus.Por isso, a passagem não deve ser usada para alimentar curiosidades sobre batalhas angelicais, mas para ensinar humildade, reverência e confiança na justiça divina.
O que podemos concluir sobre o corpo de Moisés?
A Bíblia não explica expressamente por que Satanás disputava o corpo de Moisés nem descreve o desfecho dessa disputa.Alguns Padres da Igreja e diversos comentaristas cristãos levantaram hipóteses, sem jamais apresentá-las como doutrina de fé. Uns sugerem que Satanás pretendia expor o corpo para induzir Israel à idolatria; outros entendem que reivindicava algum direito em razão do pecado cometido por Moisés em Meriba; há ainda quem veja no episódio um sinal do destino glorioso reservado ao grande legislador de Israel.Embora nenhuma dessas interpretações possa ser afirmada com certeza, existe um dado bíblico extremamente significativo.
Séculos após sua morte, Moisés aparece vivo, glorificado e consciente ao lado do profeta Elias, conversando com Jesus no Monte da Transfiguração (Mt 17,1-5; Mc 9,2-8; Lc 9,28-31). Ali ele fala com Cristo sobre o "êxodo" que se realizaria em Jerusalém, isto é, sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Esse fato demonstra que Moisés não permaneceu em estado de inconsciência após sua morte. Ao contrário, participa conscientemente dos desígnios de Deus e da manifestação da glória de Cristo.
Assim, ainda que a disputa mencionada por São Judas permaneça envolta em certo mistério, ela confirma uma importante verdade bíblica: Deus continuou exercendo especial providência sobre Moisés mesmo após sua morte, preparando-o para participar da história da salvação de maneira singular.
Mais importante do que conhecer todos os detalhes desse episódio é compreender sua mensagem central: Deus é o Senhor da vida e da morte; Satanás não possui autoridade sobre aqueles que pertencem ao Senhor; e a humildade obediente de São Miguel permanece um modelo para todos os cristãos na luta contra o mal.
Quanto ao arrebatamento de Elias
Depois de Enoque, o personagem bíblico mais conhecido por ter sido arrebatado por Deus é, sem dúvida, o profeta Elias. Sua partida desta vida constitui um dos acontecimentos mais extraordinários do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, uma importante chave para compreendermos corretamente o ensinamento de Jesus em João 3,13. O Segundo Livro dos Reis relata que chegou o momento em que Deus decidiu retirar Elias deste mundo de maneira absolutamente singular:
"Quando o Senhor estava para elevar Elias ao céu num redemoinho..." (2Rs 2,1)
Pouco depois, o texto descreve o acontecimento:
"Enquanto caminhavam e conversavam, eis que apareceu um carro de fogo com cavalos de fogo, que os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho." (2Rs 2,11)
Trata-se de um privilégio extraordinário concedido por Deus ao grande profeta que enfrentou os falsos deuses de Israel, combateu a idolatria promovida por Acab e Jezabel e permaneceu fiel à Aliança mesmo nos momentos de maior perseguição.
Contudo, é importante observar que o texto sagrado afirma que foi Deus quem tomou Elias. Em nenhum momento a Escritura diz que Elias subiu por seu próprio poder ou que abriu para si mesmo as portas da glória celeste. A iniciativa pertence inteiramente ao Senhor.Essa distinção é fundamental para compreendermos por que o arrebatamento de Elias não contradiz as palavras de Jesus:"Ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu: o Filho do Homem." (Jo 3,13). Cristo não está negando que Deus pudesse conceder privilégios extraordinários a alguns de seus servos. O que Ele afirma é que somente o Filho eterno veio do Pai, conhece perfeitamente os mistérios divinos e possui autoridade própria para subir ao Céu e revelar aos homens as realidades celestes.Enquanto Elias foi levado por Deus, Cristo subiu por sua própria autoridade divina, após vencer o pecado e a morte pela sua Paixão, Morte e Ressurreição. Essa diferença é essencial.
Outra confirmação da singular missão de Elias encontra-se no episódio da Transfiguração de Nosso Senhor
Os três Evangelhos Sinóticos narram que, diante de Pedro, Tiago e João, apareceram Moisés e Elias conversando com Jesus (Mt 17,1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36).São Lucas acrescenta um detalhe precioso:
"E eis que dois homens conversavam com Ele: eram Moisés e Elias, que apareceram revestidos de glória e falavam da sua partida, que se consumaria em Jerusalém." (Lc 9,30-31)
Observe alguns aspectos importantes dessa passagem
-Primeiramente, Moisés e Elias aparecem vivos, conscientes e glorificados. Eles reconhecem Jesus, dialogam com Ele e conhecem antecipadamente o mistério de sua Paixão redentora. Isso demonstra claramente que não se encontravam em estado de inconsciência ou de "sono da alma".
-Em segundo lugar, sua manifestação ocorre exclusivamente por iniciativa de Deus. Não foi resultado de evocação dos mortos, necromancia ou qualquer prática proibida pelas Escrituras (Dt 18,10-12). Foi o próprio Deus quem permitiu essa manifestação extraordinária para fortalecer os Apóstolos e revelar que Jesus é o cumprimento da Lei e dos Profetas.
Por isso, a Transfiguração não oferece qualquer apoio às teorias espíritas sobre reencarnação ou comunicação mediúnica. Moisés e Elias não reencarnaram. Tampouco foram "evocados" por homens. Eles apenas apareceram por determinação divina, dentro de um acontecimento sobrenatural único, destinado a manifestar a glória de Cristo antes de sua Paixão.
A presença dos dois personagens possui ainda profundo significado simbólico.Moisés representa a Lei, enquanto Elias representa os Profetas. Ambos prestam testemunho de que toda a Antiga Aliança encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo.
Ao final da visão, permanecia somente Jesus (Mt 17,8), indicando que a Lei e os Profetas conduzem necessariamente ao Messias, em quem todas as promessas de Deus alcançam sua realização definitiva. Por fim, o arrebatamento de Elias constitui mais uma prova de que Deus pode agir de maneira extraordinária com seus servos sem diminuir a singularidade da missão de Cristo. Elias foi elevado por um privilégio concedido pelo Senhor; Jesus, porém, subiu gloriosamente ao Pai por seu próprio poder divino, inaugurando definitivamente o acesso dos homens ao Céu.
Assim, tanto o arrebatamento de Elias quanto sua presença na Transfiguração confirmam uma verdade central da fé cristã:
Os justos continuam vivos diante de Deus, participam de seus desígnios salvíficos e testemunham que toda a história da salvação converge para uma única pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo.
A Assunção de Maria Santíssima em corpo e alma aos Céus
Fundamentação bíblica e teológica
Ao longo deste estudo vimos que Deus, em sua soberania, concedeu privilégios extraordinários a alguns de seus servos, como Enoque, Moisés e Elias. Nenhum deles subiu ao Céu por força própria; todos foram elevados ou glorificados por iniciativa exclusiva de Deus. Essa verdade prepara o caminho para compreendermos um dos mais belos privilégios concedidos pelo Senhor àquela que foi escolhida para ser a Mãe do Verbo Encarnado: a Assunção de Maria Santíssima em corpo e alma aos Céus.
É importante esclarecer, desde o início, que a Assunção de Maria não significa que ela seja igual a Cristo nem que tenha subido ao Céu por seu próprio poder. A Igreja faz uma distinção muito clara entre a Ascensão de Cristo e a Assunção de Maria.

Cristo ascendeu ao Céu por sua própria autoridade divina, porque é Deus verdadeiro e Senhor da vida e da morte (At 1,9-11). Maria, ao contrário, foi assunta, isto é, elevada por Deus em virtude dos méritos de seu Filho. Toda a sua glória deriva da obra redentora de Cristo. Essa distinção é essencial para evitar qualquer confusão doutrinária.
Há fundamento bíblico para a Assunção?
Embora a Bíblia não descreva explicitamente o momento da Assunção de Maria, também não narra a morte de muitos personagens importantes nem pretende registrar todos os acontecimentos da história da salvação (Jo 20,30; 21,25). A Revelação divina é transmitida tanto pela Sagrada Escritura quanto pela Sagrada Tradição (2Ts 2,15). Entretanto, diversos textos bíblicos iluminam essa verdade. Jesus declarou:
"Em verdade vos digo: alguns dos que aqui estão não provarão a morte antes de verem o Filho do Homem vindo no seu Reino." (Mt 16,28)
O Salmo 45 (44 na numeração grega), tradicionalmente interpretado pela Igreja em sentido messiânico e mariano, proclama:
"À vossa direita está a rainha ornada de ouro de Ofir." (Sl 45,10)
Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja identificaram essa Rainha com Maria, a Mãe do Rei Messiânico, sentada à direita do Filho na glória celeste.O livro do Apocalipse oferece outro texto profundamente significativo:
"Apareceu no Céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça." (Ap 12,1)
Mais adiante lemos:
"Foram dadas à mulher as duas asas da grande águia para que voasse ao deserto..." (Ap 12,14)
Embora essa mulher simbolize também Israel e a Igreja, a interpretação católica sempre reconheceu nela igualmente uma referência pessoal à Virgem Maria, pois é ela quem dá à luz "o Filho varão que há de reger todas as nações" (Ap 12,5), clara referência a Jesus Cristo. O detalhe importante é que João contempla essa Mulher no Céu, revestida de glória e coroada. Uma dedução coerente com toda a Revelação.
Existe ainda uma reflexão teológica bastante simples
Se Deus concedeu privilégios extraordinários a homens santos como Enoque, Elias e Moisés, quanto mais não faria com aquela que foi escolhida para ser a Mãe do Salvador?
A Escritura afirma que Enoque "agradou a Deus" (Hb 11,5), Elias foi arrebatado (2Rs 2,11) e Moisés aparece glorificado na Transfiguração (Mt 17,1-5).
Ora, Maria não apenas agradou a Deus.
O anjo Gabriel lhe dirige uma saudação única em toda a Bíblia:
"Ave, cheia de graça; o Senhor está contigo." (Lc 1,28)
E acrescenta:
"Encontraste graça diante de Deus." (Lc 1,30)
Nenhuma outra criatura recebeu semelhante saudação.Se Deus realizou prodígios em favor de seus servos, seria estranho pensar que deixaria sofrer a corrupção do túmulo justamente aquela cujo ventre deu carne ao Filho eterno, a Arca da Nova Aliança, preservada do pecado original por singular privilégio divino.A Assunção aparece, portanto, como consequência harmoniosa da missão única confiada à Mãe do Redentor.
A Tradição da Igreja
Muito antes de sua definição dogmática, a fé na Assunção já fazia parte da tradição cristã.
Desde os séculos IV e V encontramos celebrações litúrgicas dedicadas à Dormição ou Assunção da Virgem Maria, tanto no Oriente quanto no Ocidente.
As Igrejas Ortodoxas conservam até hoje a celebração da Dormição da Theotokos, enfatizando que Maria adormeceu no Senhor antes de ser glorificada.
A Igreja Católica não definiu dogmaticamente se Maria morreu ou não. O Papa Pio XII, ao proclamar o dogma em 1950, utilizou deliberadamente uma fórmula prudente:
"...terminado o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celeste."
Assim, permanece legítimo entre os teólogos sustentar tanto que Maria passou pela morte quanto que foi preservada dela. O dogma limita-se a afirmar sua glorificação corporal.
Os escritos apócrifos
Diversos escritos apócrifos antigos narram a Dormição e a Assunção de Maria.Entre eles destacam-se:
-A Dormição da Santa Mãe de Deus, atribuído tradicionalmente a São João Evangelista (século VI);
-A Morte da Virgem Maria, atribuído a José de Arimateia.
Como todos os apócrifos, esses escritos não possuem autoridade inspirada e não fundamentam a fé da Igreja.Entretanto, possuem valor histórico por testemunharem que já existia, desde os primeiros séculos, uma tradição amplamente difundida segundo a qual Maria foi glorificada por Deus ao término de sua vida terrestre. A Igreja não baseia o dogma nesses relatos, mas na Sagrada Tradição apostólica, iluminada pela Escritura e confirmada pelo Magistério.
E João 3,13? Permanece, contudo, a pergunta levantada ao longo deste estudo:
Se Maria foi elevada ao Céu, como conciliar isso com as palavras de Jesus: "Ninguém subiu ao Céu senão aquele que desceu do Céu" (Jo 3,13)? A resposta é a mesma apresentada anteriormente para Enoque, Elias e Moisés.
Jesus não está ensinando que Deus jamais poderia levar alguém para sua presença.Ele afirma que somente Ele possui origem celestial, conhece plenamente os mistérios divinos e pode revelá-los aos homens porque procede eternamente do Pai.
Cristo não apenas foi ao Céu.Ele desceu do Céu, assumiu nossa natureza humana, venceu o pecado e a morte e subiu novamente por seu próprio poder, abrindo definitivamente as portas da vida eterna. Maria, ao contrário, foi conduzida à glória exclusivamente pela graça de Deus e pelos méritos da Redenção de seu Filho. Existe, portanto, uma diferença infinita entre a Ascensão de Cristo e a Assunção de Maria.
Cristo sobe como Senhor.
Maria é elevada como serva.
Cristo abre o Céu.
Maria entra no Céu porque Cristo o abriu.

O dogma da Assunção
Em 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, definiu solenemente:
"Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celeste."
A Igreja não afirma quando ocorreu esse acontecimento, nem descreve como aconteceu. Afirma apenas aquilo que Deus revelou progressivamente à sua Igreja: que Maria já participa plenamente da glória da Ressurreição de Cristo.Ela é, assim, sinal daquilo que toda a Igreja espera alcançar no fim dos tempos.Sua Assunção não diminui a glória de Cristo; ao contrário, manifesta a eficácia perfeita da Redenção. Aquela que foi a primeira discípula, a primeira redimida pelos méritos de Cristo e a Mãe do Salvador tornou-se também a primeira entre os membros da Igreja a participar integralmente, em corpo e alma, da vitória definitiva de seu Filho sobre o pecado, a morte e a corrupção do sepulcro.
Conclusão
Depois de percorrermos atentamente os principais textos bíblicos sobre Enoque, Moisés, Elias, Maria Santíssima e, sobretudo, a declaração de Jesus em João 3,13, podemos chegar a uma conclusão segura: não existe qualquer contradição entre essas passagens. Ao contrário, todas elas se harmonizam quando interpretadas à luz da totalidade da Revelação.
O erro de muitos intérpretes consiste em atribuir às palavras de Cristo um sentido que elas não possuem. Quando Jesus afirma: "Ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem" (Jo 3,13), Ele não está ensinando que Deus jamais pudesse elevar algum justo à sua presença, nem que Enoque, Elias, Moisés ou, mais tarde, Maria, não tenham recebido privilégios extraordinários. O contexto da conversa com Nicodemos mostra claramente que Cristo está falando de Sua autoridade única para revelar os mistérios divinos. Somente Ele desceu do Pai, conhece perfeitamente o Pai e pode revelar plenamente aos homens o plano eterno da salvação.
Existe uma diferença fundamental entre ser levado por Deus e subir por direito próprio. Enoque foi trasladado; Elias foi arrebatado; Moisés foi glorificado por singular providência divina; Maria foi assunta em corpo e alma à glória celeste. Todos esses privilégios foram concedidos por pura graça. Nenhum deles abriu para si mesmo as portas do Céu, nem participou, por natureza, da vida íntima da Santíssima Trindade. Apenas Cristo possui essa prerrogativa, porque Ele é o Filho Unigênito do Pai, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Ao longo deste estudo também vimos que a obra redentora de Cristo transformou profundamente a condição dos justos. Antes da Paixão e da Ressurreição, as portas do Céu permaneciam fechadas em razão do pecado original. Os justos aguardavam, no Xeol ou Seio de Abraão, o cumprimento da promessa da Redenção. Foi Cristo quem, descendo à mansão dos mortos, anunciou sua vitória, libertou os justos e abriu definitivamente o acesso à visão beatífica, conforme ensinam as Escrituras (1Pd 3,18-20; Ef 4,7-10) e o Catecismo da Igreja Católica.
Essa realidade explica por que o Antigo Testamento apresenta uma compreensão ainda incompleta da vida após a morte, enquanto o Novo Testamento revela claramente as almas dos justos vivendo conscientes diante de Deus. Estêvão entrega seu espírito diretamente a Cristo (At 7,55-59); São Paulo deseja partir para estar com o Senhor (Fl 1,23); Moisés e Elias aparecem glorificados na Transfiguração (Lc 9,30-31); os mártires do Apocalipse clamam diante do trono divino pedindo justiça (Ap 6,9-10); e as orações dos santos sobem como incenso diante de Deus (Ap 8,1-4). Nenhuma dessas passagens é compatível com a teoria do chamado "sono da alma".
Do mesmo modo, fica evidente que a veneração dos santos e o pedido de sua intercessão não diminuem em absolutamente nada a mediação única de Jesus Cristo. A Igreja jamais ensinou que Maria ou qualquer santo possuam poder próprio para salvar alguém. Somente Cristo é o Redentor da humanidade e o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5). Os santos apenas participam da única mediação de Cristo, do mesmo modo que nós participamos quando rezamos uns pelos outros enquanto peregrinamos nesta terra. Se é legítimo pedir a oração de um irmão vivo, com maior razão podemos pedir a intercessão daqueles que já contemplam Deus face a face.
Também vimos que a Assunção de Maria não constitui uma exceção arbitrária, mas o coroamento lógico de sua missão singular na história da salvação. Aquela que foi preservada do pecado original por antecipação dos méritos de Cristo, que concebeu o Filho de Deus em seu ventre virginal e permaneceu fiel até o pé da Cruz participa, por privilégio especial, da Ressurreição gloriosa de seu Filho. Sua Assunção não obscurece a glória de Cristo; pelo contrário, manifesta a eficácia perfeita de sua Redenção.
Outro ensinamento importante deste estudo é que nem todas as questões receberam uma definição dogmática da Igreja. Sobre o local para onde Elias foi levado antes da Ascensão de Cristo, sobre o modo como ocorreu o arrebatamento de Enoque ou sobre alguns detalhes relativos ao corpo de Moisés, existem diferentes opiniões entre os Padres da Igreja e os grandes exegetas católicos. A própria Igreja permite essa diversidade de interpretações, desde que sejam preservadas as verdades fundamentais da fé. Isso demonstra a prudência do Magistério, que não transforma em dogma aquilo que Deus não quis revelar explicitamente.
Por outro lado, existem verdades que pertencem ao depósito da fé e, por isso, não podem ser relativizadas. Entre elas estão a Ressurreição de Cristo, a abertura definitiva do Céu aos justos, a existência consciente da alma após a morte, a comunhão dos santos e a esperança da ressurreição final dos corpos. Essas verdades atravessam toda a Escritura e encontram sua interpretação autêntica na Tradição viva da Igreja.
Em última análise, todas essas reflexões conduzem a uma conclusão muito maior do que a simples resolução de uma dificuldade exegética. Elas nos levam a contemplar a grandeza da obra de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi Ele quem venceu o pecado. Foi Ele quem derrotou a morte. Foi Ele quem abriu as portas do Céu que estavam fechadas desde a queda de Adão. Foi Ele quem transformou a morte, para aqueles que lhe pertencem, em passagem para a vida eterna. E será Ele quem, no último dia, ressuscitará nossos corpos para participarmos plenamente da glória preparada "desde a fundação do mundo" (Mt 25,34).
Por isso, nossa esperança não está em Enoque, nem em Elias, nem em Moisés, nem mesmo em Maria Santíssima. Todos eles apontam para Cristo e existem por causa d'Ele. Como ensina São Paulo: "Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória pelos séculos. Amém!" (Rm 11,36).
Que este estudo nos ajude não apenas a responder objeções ou esclarecer passagens difíceis da Bíblia, mas sobretudo a fortalecer nossa fé em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, a amar mais profundamente a sua Igreja e a viver com os olhos voltados para a pátria celeste, onde esperamos um dia nos reunir, pela graça de Deus, com todos os santos para cantar eternamente os louvores do Cordeiro que foi morto e vive para sempre!
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em
Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo
Nº 003/17
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Moisés não ressuscitou não,Jesus foi a pronúncias dos que dormem,Satanás queria o corpo de Moisés para criar idolatria no meio hebreu
Prezado Glayson,
As escrituras afirmam claramente que Moisés morreu e foi verdadeiramente enterrado
Deu 34:5-6: Assim Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moabe, conforme o dito do Senhor, que o sepultou no vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém soube até hoje o lugar da sua sepultura.
As Escrituras falam de que houve uma batalha pelo corpo ou cadáver de Moisés:
(Judas 1:9) – Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo (cadáver) de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.
Moisés desce do Reino de Deus, ao lado de Elias (que havia sido levado vivo aos Céus) para conversar com Jesus:
Marcos 9,2-7: “E seis dias depois Jesus tomou consigo a Pedro, a Tiago, e a João, e os levou sós, em particular, a um alto monte; e transfigurou-se diante deles; E as suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas como a neve, tais como nenhum lavadeiro sobre a terra os poderia branquear. E apareceu-lhes Elias, com Moisés, e falavam com Jesus. E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Mestre, é bom que estejamos aqui; e façamos três cabanas, uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias. Pois não sabia o que dizia, porque estavam assombrados. E desceu uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu filho amado; a ele ouvi.”
As escrituras detalha até o assunto que os três conversaram:
Lucas 9,30-32: E eis que estavam falando com ele dois homens, que eram Moisés e Elias, os quais apareceram com glória, e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém.
Juntando as Evidências:
1)- Elias pôde descer do Céu para conversar com Jesus porque ele havia sido levado vivo aos Céus. (II Reis 2,11-12).
Moisés foi ressuscitado dos mortos, após Miguel ter disputado seu corpo com Satanás, senão nunca teria aparecido para conversar com Jesus. O cristianismo pressupõe vida após a ressurreição. Sem passar pela ressurreição simplesmente não há vida, eis oq eu afirma o próprio Cristo em Mateus 22,32-33:
“Com relação à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele não é Deus de mortos, mas sim, dos que vivem! “
Shalom !!!
A paz do senhor,quero só falar aqui um pouco sobre esse texto Enoque e Elías foram arrebatados e dá a entender que Moisés foi ressuscitado mas sobre Maria a bíblia não diz nada quando a bíblia diz que alguns não passarão pela morte até que o senhor venha em glória está falando de João,porque esteve com Jesus ao escrever o apocalipse,mas depois ele morreu.
MARIA FOI ARREBATADA CONFORME REVELA O APOCALIPSE DE JOÃO EVANGELISTA! Afinal, onde exatamente está escrito na bíblia que Maria Morreu? Simplesmente não encontramos em lugar algum, e sabe por que ? - Apoc. 12 diz que Maria FOI ARREBATADA por um tempo e a metade de um tempo após gerar um filho homem (Varão) que regerá toda a terra, e seu Reino não terá fim: “E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias...”(Apoc 12,6).
-Quem é a mulher que GEROU este homem ?
-E quem é este homem GERADO por esta mulher?
-Já sabemos que atribuir e ou, comparar a mulher com a igreja é ilógico e incoerente, pois conforme as escrituras, NÃO FOI A IGREJA QUE GEROU JESUS CRISTO, mas o contrário, foi Jesus que gerou a igreja sobre Pedro (conforme Mateus 16,18).
Zé Qualquer - O caçador de heresias protestantes
Prezado irmão Adalto, a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!
Agradeço seu comentário, pois ele permite aprofundarmos um tema importante da fé cristã.
Em primeiro lugar, concordo com você que a Sagrada Escritura não descreve explicitamente o momento da Assunção de Maria, assim como também não descreve o destino final de muitos outros personagens bíblicos. No entanto, a fé cristã não se fundamenta somente naquilo que está narrado de forma explícita na Bíblia. O próprio Novo Testamento ensina que devemos conservar tanto as tradições escritas quanto as transmitidas oralmente pelos Apóstolos (cf. 2Ts 2,15), e São João afirma que Jesus realizou muitas outras coisas que não foram registradas nos Evangelhos (Jo 20,30; 21,25).
Quanto a Enoque e Elias, a Bíblia realmente afirma que foram arrebatados por Deus (Gn 5,24; 2Rs 2,11). Sobre Moisés, não diz expressamente que tenha sido ressuscitado naquele momento, mas apresenta dois fatos muito significativos: a misteriosa disputa entre São Miguel e Satanás por seu corpo (Jd 9) e, séculos depois, sua aparição gloriosa ao lado de Elias conversando com Jesus na Transfiguração (Mt 17,1-5; Lc 9,28-31). Esses textos mostram que Deus reservou a Moisés um tratamento absolutamente singular.
Quanto à Assunção de Maria, a Igreja Católica não a deduziu apenas por analogia com Enoque ou Elias. O fundamento principal é a íntima união de Maria com a obra redentora de Cristo, testemunhada pela Escritura e transmitida pela Tradição Apostólica. Aquela que foi preservada do pecado original por graça de Cristo, que concebeu o Filho de Deus em seu ventre e permaneceu fiel até a Cruz, participa de modo único da vitória de seu Filho sobre a morte. Por isso, a Igreja definiu esse ensinamento como dogma em 1950, não como uma "novidade", mas como a confirmação de uma fé vivida desde os primeiros séculos.
Sobre Mateus 16,28, existem realmente diversas interpretações entre os estudiosos. Muitos Padres da Igreja entendem que Jesus se refere à Transfiguração, ocorrida poucos dias depois; outros a relacionam à Ressurreição, ao Pentecostes ou até à destruição de Jerusalém no ano 70. Há também quem veja em João um cumprimento particular dessa promessa, por causa das palavras de Jesus em João 21,22. Portanto, não existe consenso absoluto de que Mateus 16,28 fale exclusivamente do apóstolo João.
Por fim, gostaria de fazer uma observação fraterna. Muitas vezes se diz aos católicos: "Maria não está na Bíblia". Porém, o mesmo critério, levado às últimas consequências, também impediria afirmar várias doutrinas aceitas por muitos protestantes, pois elas também não aparecem de forma explícita em um único versículo. A questão nunca foi apenas perguntar: "Onde está escrito?", mas também: "Como a Igreja fundada por Cristo sempre compreendeu essa verdade?"
Creio que esse seja o ponto central. Para nós, católicos, a autoridade não pertence à interpretação particular de cada cristão, mas à Igreja à qual Cristo prometeu a assistência permanente do Espírito Santo (Mt 16,18-19; Jo 16,13). Por isso, buscamos interpretar cada passagem da Escritura em harmonia com toda a Revelação, evitando colocar um texto contra outro.
Que o mesmo Espírito Santo nos conduza sempre à verdade plena, no amor a Cristo e no respeito mútuo entre todos os que professam o seu santo nome.
Everaldo - Apostolado Berakash
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