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Vida,obra, e pensamentos de Dom Helder Câmara: o profeta da "não violência ativa!"

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 19 de março de 2011 | 19:40






Vida,obra, e pensamentos de Dom Helder Câmara: o profeta da "não violência ativa!"


Falar da vida, obra e pensamento de Dom Helder Câmara é adentrar um dos capítulos mais intensos, fecundos e também controversos da história recente da Igreja no Brasil e na América Latina. Reconhecido mundialmente como o “profeta da não-violência ativa”, Dom Helder tornou-se símbolo de uma espiritualidade profundamente encarnada na realidade social, marcada pela defesa intransigente dos pobres, pela denúncia das injustiças estruturais e pelo apelo constante à paz como caminho evangélico de transformação do mundo. 



Sua voz ultrapassou fronteiras nacionais, ecoando em organismos internacionais, universidades e espaços eclesiais, sempre associada à promoção da dignidade humana e à busca de uma sociedade mais justa e fraterna.  Contudo, sua trajetória está longe de ser linear ou isenta de tensões. Ao contrário, é marcada por fortes controvérsias que atravessam tanto o campo político quanto o eclesial. Para alguns, foi um pastor profético, sinal luminoso do Evangelho vivido nas periferias existenciais; para outros, sua linguagem, suas alianças circunstanciais e certas aproximações conceituais com leituras sociopolíticas de seu tempo suscitaram reservas, críticas e desconfianças. 



É justamente nessa zona de tensão que sua figura se torna historicamente relevante: Dom Helder não pode ser compreendido fora do turbilhão ideológico do século XX, período atravessado por guerras, ditaduras militares, desigualdades gritantes e pelo surgimento de movimentos revolucionários que também impactaram a reflexão pastoral latino-americana.  Homem profundamente fruto de seu tempo, bebeu das angústias e esperanças que marcaram sua geração. Sua consciência pastoral foi sendo moldada pelo contato direto com a miséria urbana, pelas contradições do desenvolvimento econômico excludente e pela urgência de respostas concretas da Igreja diante do sofrimento humano. 



Nesse contexto, sua proposta de “não-violência ativa” não significava passividade ou neutralidade, mas um método evangélico de enfrentamento das injustiças sem recorrer às armas — uma resistência espiritual, moral e social inspirada na força transformadora do amor cristão.  É aqui que emerge a aparente paradoxalidade de sua figura: um profeta que, sem praticar violência física e condenando toda forma de violência ativa, foi considerado por muitos “violento” na contundência de suas palavras, na radicalidade de suas denúncias e na intensidade de sua opção preferencial pelos pobres. Sua “violência” não era das mãos, mas do coração inflamado pelo Evangelho; não das armas, mas da consciência profética que não se cala diante do pecado estrutural. 



Tal leitura remete à palavra de Cristo: “o Reino dos Céus é tomado por violência, e são os violentos que o conquistam” (cf. Mateus 11,12) — não como apologia da agressão, mas como expressão da coragem espiritual, da firmeza interior e da disposição de romper com tudo aquilo que se opõe ao desígnio de Deus.  









Assim, compreender Dom Helder Câmara exige mais que elogios entusiastas ou críticas apressadas. Requer situá-lo na confluência entre mística e ação, contemplação e profecia, Igreja e mundo. 




Sua vida revela a tensão permanente entre fidelidade ao Evangelho e os desafios históricos concretos de sua época. Pastor, pensador, articulador e profeta, ele encarnou — com luzes e sombras próprias de toda grande biografia — o drama de anunciar a paz em tempos de violência, de proclamar a justiça em meio à opressão e de sustentar a esperança quando muitos já haviam sucumbido ao desânimo. 



É nesse horizonte, entre santidade, profecia e controvérsia, que sua figura continua a provocar reflexão, admiração e debate até os dias atuais.



ALGUMAS FRASES QUE REVELAM A ALMA E ESPIRITUALIDADE DE DOM HELDER



1)-As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros, leva-as no coração. 



2)-Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para permanecer sempre o mesmo. 



3)-Um dos meus anseios de chegar ao infinito é a esperança de que, ao menos lá, as paralelas se encontrem. 



4)-Esperança é crer na aventura do amor, acreditar  nos homens, pular no escuro, confiando em Deus.




5)-O segredo de ser jovem mesmo quando os anos passam, deixando marcas no corpo, é ter uma causa a que dedicar a vida.




6)- "Condeno toda e qualquer violência ativa , pois o Cristão a exemplo de Cristo, não mata, mas dar a vida".




7)- A opção preferencial da Igreja pelo pobre não deve ser exclusiva ao pobre, nem excluindo os ricos do reino de Deus, pois tem rico que é tão pobre, que a única coisa que tem é dinheiro...




8)-Os homens gastam-se tanto em palavras que não conseguem entender o silêncio de Deus.




9)-Que importa que ao chegar eu nem pareça pássaro. Que importa que ao chegar eu venha me arrebentando, caindo aos pedaços, sem aprumo e sem beleza. Fundamental é cumprir a missão! E cumpri-Ia até o fim!





10)-Não há penitência melhor do que aquela que Deus coloca em nosso caminho todos os dias. 




11)- A vida é um dom de Deus e feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver. 





12)-Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista. Pobre não precisa só de caridade, mas também de Justiça.




13)-Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade.




14)-Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio... 




15)-Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo... 




16)-O amor é o perfume das almas! 





17)-Só as grandes humilhações nos levam ao recesso último de nós mesmos, lá onde as fontes interiores nos banham de luz, de alegria e de paz.




18)- Pessoas Cana-de-açúcar, são aquelas que mesmo, sendo torturadas, esmagadas e espremidas pelas circunstâncias da vida, só sabem dar o melhor de si: Doçura...
 
 
 
 








19) -  " Não podemos ser bons, pois bom só Deus, mas podemos ser justos e agir com justiça..."




20)- Devemos tomar cuidado com uma eclesiologia vinda de baixo, baseada tão somente no Senso Comum dos fieis, pois devemos lembrar que a multidão dos fieis que seguiam Cristo e o aclamaram: "Hozana ao filho de Davi!" - pouco tempo depois, esta mesma multidão, estava a pedir: "Crucifica-o!"





BIOGRAFIA DE DOM HELDER CÂMARA:











Dom Hélder Pessoa Câmara OFS (Fortaleza, 7 de fevereiro de 1909 — Recife, 27 de agosto de 1999) foi um bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz, entretanto, foi acusado por seus opositores de ser conivente com o marxismo. Décimo-primeiro filho de João Eduardo Torres Câmara Filho jornalista, crítico teatral e funcionário de uma firma comercial e da professora primária Adelaide Pessoa Câmara, desde cedo manifestou sua vocação para o sacerdócio.





Formação e Presbiterado














Ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza em 1923, o Seminário da Prainha, então sob direção dos padres lazaristas. Nesta instituição cursou o ginásio e concluiu os estudos de filosofia e teologia. Foi ordenado padre no dia 15 de agosto de 1931, em Fortaleza, aos 22 anos de idade, com autorização especial da Santa Sé, por não possuir a idade mínima exigida.No mesmo ano, fundou a Legião Cearense do Trabalho e em 1933, a Sindicalização Operária Feminina Católica, que congregava as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. Atuou na área da educação, participando de políticas governamentais do estado do Ceará na área da educação pública. Foi nomeado diretor do Departamento de Educação do Ceará. Para aprofundar seus estudos nesta área, foi transferido em 1936 para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da república. Aí dedicou-se a atividades apostólicas. Foi Diretor Técnico do Ensino da Religião.Neste período, sente-se atraído pela Ação Integralista Brasileira, que propunha o resgate dos valores de "Deus, Pátria e Família". Entretanto, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário ao perceber as implicações ideológicas desta opção. No Rio de Janeiro, teve como diretor espiritual o Pe. Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do Brasil - a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No período pós-guerra, fundou a Comissão Católica Nacional de Imigração, para apoio à imigração de refugiados.






Episcopado














Foi ordenado bispo, aos 43 anos de idade, no dia 20 de abril de1952, pelas mãos de dom Jaime de Barros Câmara, dom Rosalvo Costa Rego, dom Jorge Marcos de Oliveira.Foi um grande promotor do colegiado dos bispos e da renovação da Igreja Católica, fortalecendo a dimensão do compromisso social. Em 1950, D. Hélder entrou em contato com o Monsenhor Giovanni Batista Montini, então subsecretário de estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI, que o apoiou e conseguiu a aprovação, em 1952, para a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com sede no palácio arquiepiscopal do Rio de Janeiro. Nesta instituição, exerceu a função de secretário geral até 1964. O mesmo monsenhor Montini apoiou a criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), fundada em 1955, com sede em Bogotá. A fundação ocorreu na Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada no Rio de Janeiro, tendo D. Hélder como articulador. Ele viria a participar das conferências gerais do CELAM como delegado do episcopado brasileiro, até 1992: além da conferência do Rio de Janeiro, esteve presente na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Medellín, 1968), na Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Puebla, 1979) e na Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Santo Domingo, 1992). Sua capacidade de articulação torna realidade o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de cardeais e bispos do mundo inteiro.Em 1956, fundou a Cruzada São Sebastião, com a finalidade de dar moradia decente aos favelados.Desta primeira iniciativa, outros conjuntos habitacionais surgiram.Em 1959, fundou o Banco da Providência, cuja atuação se desenvolve no atendimento a pessoas que vivem em condições miseráveis.Teve participação ativa no Concílio Ecumênico Vaticano II: foi eleito padre conciliar nas quatro sessões do concílio. Foi um dos propositores e signatários do "Pacto das Catacumbas", um documento assinado por cerca de 40 padres conciliares no dia 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio Vaticano II, depois de celebrarem juntos a Eucaristia. Este pacto teve forte influência na Teologia da LibertaçãoDiante da conturbada situação sociopolítica nacional, a divergência de posições com Cardeal Dom Jaime Câmara torna difícil sua permanência no Rio de Janeiro.







Arcebispo de Olinda e Recife





No dia 12 de março de 1964 foi designado para ser arcebispo de Olinda e Recife, Pernambuco, múnus que exerceu até 2 de abril de 1985. Instituiu um governo colegiado nesta diocese, organizada em setores pastorais. Criou o Movimento Encontro de Irmãos, o Banco da Providência e a Comissão de Justiça e Paz daquela diocese. Forteleceu as comunidades eclesiais de base. Estabeleceu uma clara resistência ao regime militar. Tornou-se líder contra o autoritarismo e pelos direitos humanos. Não hesitou em utilizar todos os meios de comunicação para denunciar a injustiça. Pregava no Brasil e no exterior uma fé cristã comprometida com os anseios dos empobrecidos.


















Foi perseguido pelos militares por sua atuação social e política, sendo acusado de Comunista. Foi chamado de "Arcebispo Vermelho". Foi-lhe negado o acesso aos meios de comunicação social após a decretação do AI-5, sendo proibido inclusive qualquer referência a ele. Desconhecido da opinião pública nacional, fez frequentes viagens ao exterior, onde divulgou amplamente suas ideias e denúncias de violações de direitos humanos no Brasil.





Foi adepto e promotor do "movimento de não-violência ativa!"



"Dom Helder Câmara, profeta, peregrino da justiça e da paz" - Esse é o título do livro do nosso amigo, Padre Edvaldo Araújo, resultado da tese de doutorado, lançado pela Saraiva Megastore de Campinas. O livro tem como objetivo resgatar a memória sobre Dom Helder, percorrendo sua vida, suas obras, seus pensamentos, seus ideais e suas lutas. Dom Helder Câmara é considerado um dos grandes protagonistas da Igreja católica no século XX, e como poucos marcou o cenário brasileiro e mundial. Seu protagonismo foi construído por meio da luta pela justiça social e pala paz, inspirada nos princípios do cristianismo. Por meio da não violência ativa mostrou a necessidade de promover revoluções com propostas concretas para transformar as estruturas e possibilitar uma vida humana e mais digna para todos, construindo uma nova sociedade, mais justa e fraterna. Dom Helder, lutando pela justiça e pela paz, destacou-se na defesa dos direitos humanos, sendo considerado o “apóstolo da não violência” e “advogado do terceiro mundo”. Para Edvaldo Araújo, autor do livro e professor da PUC-Campinas, nas faculdades de filosofia e de Teologia, escrever sobre dom Helder Câmara significa,  recordar um dos grandes personagens da história da humanidade, que lutaram através da não-violência ativa (ou como Helder definia: violência dos pacíficos) por um mundo mais humano e justo. Segundo ele, é recordar de que somos capazes de sonhar por um mundo melhor. Por fim ficamos com este pensamento de Dom Helder: “Só homens que realizam em si a unidade interior, só homens de visão planetária e de coração universal serão instrumentos válidos para o milagre de ser violentos como os Profetas, verdadeiros como o Cristo, revolucionários como o Evangelho, sem ferir o amor”.









Em 1984, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia. Em 15 de julho de 1985, passou o comando da Arquidiocese a Dom José Cardoso Sobrinho. Continuou a viver em Recife, nos fundos da Igreja das Fronteiras, onde vivia desde 1968. Morreu aos 90 anos em Recife no dia 27 de Agosto de 1999.Em fevereiro de 2008 foi encaminhado à Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano, o pedido de beatificação de D. Hélder pela Comissão Nacional de Presbíteros (CNP), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O Regional Nordeste 2 da CNBB, a arquidiocese de Olinda e Recife, o Instituto Dom Hélder Câmara (IDHeC) e a Universidade Católica de Pernambuco estão promovendo a comemoração do centenário de Dom Hélder, que foi celebrado em 7 de fevereiro de 2009. O objetivo é manter viva a sua memória e a sua luta pela solidariedade e justiça social.







Títulos





1)-Seu primeiro título veio em 1969, de doutor honoris causa pela Universidade de Saint Louis, Estados Unidos. Este mesmo título foi-lhe conferido por diversas universidades brasileiras e estrangeiras: Bélgica, Suíça, Alemanha, Países Baixos, Itália, Canadá e Estados Unidos, alcançando um total de 32 títulos.



2)-Foi intitulado Cidadão Honorário de 28 cidades brasileiras e da cidade de São Nicolau na Suíça e Rocamadour, na França.



3)-Recebeu o Prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega e diversos outros prêmios internacionais.



4)Foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Em 1970, o então presidente da República Emílio Garrastazu Médici, instruiu pessoalmente o embaixador brasileiro na Noruega para tentar impedir que este prêmio lhe fosse concedido.



5)-Foi escolhido o brasileiro do século na categoria religião pela revista IstoÉ.







Obras de sua autoria:






1)-"Indagações sobre uma vida melhor" (Ed. Civilização Brasileira)


2)-"Um Olhar sobre a Cidade". 2a edição. São Paulo: Editora Paulus, 1997. ISBN 853490541X.


3)-"Revolução Dentro da Paz", Editora Sabiá, Rio de Janeiro, 1968. Traduzido para o alemão, holandês, inglês, francês e italiano.


4)-"Terzo Mondo Defraudado", Editora Missionária Italiana, Milão, 1968.


5)-"Spirale de Violence", Ediciones Desclée de Brower, Paris, 1978. Traduzido para o português, espanhol, sueco, alemão, norueguês, holandês, chinês, italiano e inglês.


6)-"Pour Arriver à Temps" (Para chegar na hora certa), Ediciones Desclée de Brower, Paris, 1970. Traduzido para o espanhol, alemão, italiano, holandês, sueco, inglês e grego.


7)-"Le Désert est Fertile" (O deserto é fértil), Ed. Desclée de Brower, Paris, 1971. Traduzido para o português (1975), espanhol, italiano, holandês, inglês e coreano.


8)-"Pier Pour les Riches"(Cais para os ricos), Ed. Pendo-Verlag, Zurique, 1972.


9)-"Les Conversiones D'um Éveque"(As conversões de um bispo), Ed. Seuil, Paris, 1977. Também em italiano, alemão e inglês.


10)-"Mil Razões para Viver", Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1979. Traduzido para o francês e o alemão.


11)-"Renouveau dans l'Esprit et Service l'Homme"(Renovação no Espírito e Serviço ao Homem), Ed. Lumem Vitae, Bruxelas, 1979. Traduzido para o italiano, português e inglês.


12)-"Nossa Senhora no Meu Caminho" - Meditações do Padre José, Edições Paulinas, São Paulo, 1981.






Fonte: Wikpedia








 


Embora D. helder respeitasse os que optavam pela violência ativa (de defesa, e libertação de tiranias), ele considerava que havia equívocos em tal posição: 


 

“Quem passa para a radicalização e a violência, se vai, em parte, porque se convenceu de que a violência dos pacíficos é utopia, canção para ninar e não canção válida para homens conscientes, decididos, e livres. Mas, o que parece realismo da parte deles, está longe de ser realismo autêntico...”

 

 


Na mesma ocasião, ano de 1970,em que fez tal afirmativa, D. Helder "elencou alguns equívocos" dos quais destacamos dois:

 

 

 

1. Não Considerar decisivo e incontestável o exemplo de Cuba (que usou da revolução violenta), pois "o povo cubano, se melhorou suas condições internas, apenas mudou de órbita (trocou seis por meia dúzia), pois não realizou sua independência política, nem completou a econômica."

 

 

 

 

2. Reconheceu que na América Latina, não ter sido possível guerrilha rural, com efetiva participação dos oprimidos, pois estes se acham em situação tão sub-humana que, não tendo razões para viver, não as encontrarão para morrer.

 

 


 

 

A seu ver, a luta pacífica contra a violência, requer a conversão de cada um - Onde buscar a fonte para tal conversão? 

 


 

“Os objetivos, na violência dos pacíficos, devem ser claros e corajosos! Os métodos, na violência dos pacíficos, devem ser capazes de promover mudanças de estruturas. Mas, de nada valerão objetivos e métodos, se não forem alimentados por uma mística profunda...” 

 

 

 

Não desconhecemos qual a mística que nutria D. Helder Camara. Porém, se paira alguma sombra de dúvida, vamos, mais uma vez, ouvi-lo. Ele fala, agora, para nós, como o fez em Paris, aos 25 de abril de 1968: 

 

 

 

 

“Respeito aqueles que, em consciência, se sentiram obrigados a optar pela violência ativa, mas não a violência fácil dos guerrilheiros de salão, mas daqueles que provaram sinceridade pelo sacrifício da vida. Parece-me que as memórias de Camilo Torres e de Che Guevara merecem tanto respeito quanto a do Pastor Martin Luther King;Acuso os verdadeiros fautores da violência: todos os que, de direita ou de esquerda, ferem a justiça e impedem a paz! Minha vocação pessoal é a de peregrino da paz, seguindo o exemplo de Paulo VI: pessoalmente, prefiro mil vezes ser morto a matar...” 

 

 

 

Esta posição pessoal se baseia no Evangelho. Toda uma vida de esforço para compreender e viver o Evangelho me leva à convicção profunda de que se o Evangelho pode e deve ser chamado revolucionário, é  no sentido de que ele exige uma conversão de cada um de nós. Não temos o direito de fechar-nos no egoísmo, devemos abrir-nos ao amor de Deus e ao amor dos homens. Mas, basta pensar nas Bem-aventuranças, quintessência da Mensagem Evangélica, para descobrir que a escolha, para os cristãos, parece clara:

 

 

 

“nós, cristãos, estamos do lado da não-violência, que, de nenhum modo, é escolha de fraqueza e passividade. Não-violência é crer mais na força da verdade, da justiça e do amor, do que na força da mentira, da injustiça, e do ódio...”

 

 

 

Quando fez referências ao Pastor Martin Luther King, D. Helder não se baseou apenas no fato de ele ter sido assassinado, mas a toda uma trajetória de militante de uma causa social: a dos negros dos Estados Unidos, a partir da qual sofreu prisões e recebeu o Nobel da Paz. Quando em Roma, para participar da última Sessão do Concílio Ecumênico do Vaticano II, em suas cartas-circulares, Dom Helder fez várias referências à não-violência ativa e aos seus princípios, princípios que ele percebia encarnados na Operação Esperança, então desencadeada na Arquidiocese de Olinda e Recife:

 

 

 

“No século da bomba atômica, os subdesenvolvidos e oprimidos nos lembram a existência da ação não-violenta ou resistência espiritual, arma ao alcance dos mais pobres. Para afastar dela qualquer sentido negativo e passivo, Gandhi a chama de Satyagraha, força da verdade, força do Espírito.Os indianos com Gandhi e Vinoba, os Negros dos Estados Unidos em sua luta contra a segregação a ilustram magistralmente. O Exército dos Pobres torna-se uma força. A atribuição do Prêmio Nobel da Paz a Luthuli (pequeno chefe Zulu) e, depois, ao Pastor King, salienta a importância crescente de uma nova força para a construção de uma paz dinâmica...” 

 

 

 

 

O entusiasmo pela vida e atuação do Pastor M. L. King é evidenciado em inúmeras cartas-circulares de D. Helder. Em várias ocasiões houve tentativas, lamentavelmente sem êxito, de encontro entre os dois. Testemunha dessa busca é uma carta enviada pelo Dom Helder, que citamos na íntegra: “Meu caro Irmão, Pastor Martinho Lutero King - Quando da minha última viagem aos Estados Unidos, estava com uma audiência marcada com você para segunda-feira, quando, no domingo anterior, você foi preso, em Alabama. Permita-me aproveitar a visita que lhe faz a Drª. Hildegarde Goss-Mayr, para transmitir-lhe um apelo que me parece de importância capital para a paz do Mundo. Acompanhamos suas lutas. Lemos “Strength to Love” (FORÇA PARA AMAR) e “Why we can’t wait” (POR QUE NÃO SE PODE ESPERAR?). Você nos enche de alegria. A integração racial nos fala como um problema humano, diante do qual ninguém pode permanecer indiferente e estranho. Mas, continuando a ser o Campeão da revolução não-violenta contra a segregação, é preciso, dada a sua fama (cuja importância, para um pastor como você, se mede pelos resultados que puder trazer em favor dos homens), que você se transforme em Campeão do Desenvolvimento.Nós amamos a paz. Mas não haverá paz sem justiça. E não haverá justiça sem que se chegue à revisão da política internacional do comércio e do desenvolvimento. 

 

 

 

Tudo o mais – ajudas, talvez, generosas; tentativas de identificar “desenvolvimento” com “controle de natalidade” – não nos leva ao âmago do problema. Seus compatriotas se batem contra o comunismo, porque ele esmaga a pessoa humana e os direitos do homem...

 

 

 


 

 

Dom Helder Câmara: "vencer ou convencer?



É mais difícil, mas é mais humano e mais belo do que vencer, é convencer! Vencer está ao alcance dos animais, convencer, não! O cupim, por exemplo, consegue vencer a viga poderosa que sustenta o telhado. Parece-me incrível como um bichinho tão pequeno consegue devorar por dentro madeiras tão grossas. Numa briga de galos, apreciadíssima nas periferias de nossas cidades, o vitorioso deixa o colega e irmão galo vencido de crista rasgada, o pescoço ensanguentado, não raro estrebuchando pelo chão da rinha, e morrendo, pois foi vencido. O gato vence rato. As piranhas sangram e matam animais até de grande porte, como o boi, e são ainda capazes de liquidar tranquilamente uma desavisada criatura humana.Claro que homem e a mulher também sabem e conseguem vencer. Vence-se em partidas de xadrez, no jogo damas. Vence-se o outro em um jogo de futebol, uma luta esportiva, podendo até mata-lo e esfola-lo. Quando se diz que uma nação perdeu a guerra e outra venceu, isto quer dizer, nas entrelinhas, que a nação vencedora tinha razão e venceu porque teve a ajuda de Deus para vencer? De maneira nenhuma! E hoje, não raro, é possível vencer uma guerra, e arrasados podem sair não só quem foi vencido, mas o próprio vencedor da guerra. Se os Pais em casa, sem ouvir possíveis e justas razões dos filhos, cortam sem mais  qualquer discussão, e resolvem e decidem sem oportuno diálogo, por vezes esmagando a garotada, parecem vencedores? o certo, porém, é que venceram, mas nem sempre convenceram. Em uma discussão, quando há quem tenha um vozeirão mais forte, talvez maior poder dialético, não raro amigos que aplaudem, pode até haver vencedores, sem que os vencidos saiam convencidos.Tenhamos portanto, como desafio permanente convencer, e não apenas vencer! É evidente que em lugar de convencer, eu possa ser convencido. E não me parece vergonha nenhuma mudar de ideia, de posição, de ponto de vista, de conduta, se me convencerem de que eu estou enganado, e que havia caminho melhor seguir.(Já fiz isto várias vezes em minha vida passando até pelo integralismo).E feliz é aquele que é capaz de mudar para permanecer sempre o mesmo, ou seja fiel a seus princípios.Para vencer numa discussão, vale o grito, vale a ameaça, a mentira, a calúnia, vale até o suborno. Porém, para convencer, o ideal é que não se trate de sofismas. O ideal é que nem o oponente, nem ninguém queira me convencer, me enganando, me enrolando subjugando a nossa inteligência. Para convencer, o ideal é que a pessoa esteja ela própria esteja convencida, tenha calma, saiba apresentar os argumentos, saiba ouvir, reconhecendo toda a parte de razão que haja no adversário. Lembram-se de terem vencido alguém? E lembram-se quando o convenceram? Diz o ditado de que toda vez que vencemos alguém ganhamos um inimigo, mas quando convencemos ganhamos um amigo. Quem convence não deve cantar vitória. No rigor do termo, quem vence é a Verdade, é a Justiça. Quando muito, eu devo me alegrar por ter ajudado meu irmão a ver mais claro, a ver o que eu estava vendo e ele não.Um singelo conselho para quem por ventura entre num embate: experimente a alegria de trocar sempre mais o Vencer pelo Convencer. O importante é que Você e eu estejamos, sempre mais, a serviço da Verdade, da Justiça e do Amor. Vamos, Você e eu, aceitar sermos convencidos. E quando alguém nos convencer, fiquemos humildes, não apenas por fora, na aparência. A humildade que só existe por fora é farisaica e triste. Quando, por minha vez, me couber o "convencer", é bom que eu tenha humildade por fora e por dentro. E que eu me alegre por ter servido e ter sido convencido pela Verdade, que é o mesmo que servir e ser convencido pelo próprio Deus...”





CONCLUSÃO:

 


 

À luz do que foi exposto ao longo desta reflexão — sua vida, obra, pensamento e as inevitáveis controvérsias que cercam sua memória —, a figura de Dom Helder Câmara permanece como um sinal provocador dentro da Igreja e da sociedade. 




Provocador porque não permite neutralidade: sua memória interpela, questiona, inquieta consciências e exige posicionamento diante do drama humano. Se, por um lado, foi alvo de críticas e leituras divergentes, por outro, é inegável que sua proposta de não-violência ativa deixou uma marca profunda na espiritualidade pastoral latino-americana.  Mesmo vozes teológicas que seguem linhas distintas reconhecem esse traço central. O monge beneditino Marcelo Barros — de quem muitos, legitimamente, podem discordar em diversos aspectos — ao refletir sobre a herança espiritual de Dom Helder, o define precisamente como o profeta da não-violência, "aquele que prefere violentar a si mesmo antes que ao próximo". 



Ao comentar o Sermão da Montanha, ele recorda que Jesus radicaliza o mandamento do amor, alargando seus horizontes para além das fronteiras culturais, religiosas e políticas.  Nessa leitura, o amor evangélico deixa de ser mero sentimento privado e passa a constituir força estruturante da vida social. 



Amar não apenas o amigo, mas também o inimigo — ainda que de modo distinto — torna-se caminho de reconstrução da sociedade. Trata-se de um amor que denuncia o mal, que impede a injustiça, que combate estruturas opressoras sem reproduzir a lógica da violência. Assim, amar o inimigo não significa conivência, mas firmeza ética; não é omissão, mas resistência não violenta. O amor, nesse horizonte, assume densidade histórica: transforma relações, inspira políticas, ilumina a vida pública.  Esse testemunho foi visível no ministério de Dom Helder. Sua luta pelos direitos humanos brotava da convicção de que a lei pode proibir matar, discriminar ou explorar, mas jamais pode obrigar alguém a amar. O amor cristão não é imposição jurídica, mas vocação espiritual; não nasce da coerção, mas da conversão do coração. 



Por isso, sua ação pastoral sempre buscou formar consciências, despertar responsabilidades e suscitar compromisso evangélico com os mais pobres.  Não por acaso, nos muros do Recife lia-se: “Dom Helder, o Dom do Amor”. Tal expressão, longe de romantizar sua figura, sintetiza a radicalidade de sua proposta. O amor, para ele, não era sentimentalismo, mas força profética capaz de tocar as estruturas do ser e da sociedade. Amor entendido como misericórdia ativa, solidariedade concreta e compromisso histórico — perspectiva que encontra eco, décadas depois, nas insistentes exortações sociais do magistério contemporâneo.  



Retomando o fio condutor desta reflexão, compreende-se melhor o paradoxo inicial: o profeta da não-violência que foi, ao mesmo tempo, “violento” no ardor do coração. Violento na coragem de denunciar injustiças, na ousadia de dar voz aos silenciados, na firmeza de sustentar a esperança em contextos de opressão. Trata-se da violência evangélica evocada por Cristo (cf. Mt 11,12): não destrutiva, mas transformadora; não armada, mas espiritual.  



Assim, sua herança permanece aberta. Entre admirações e críticas, Dom Helder continua a desafiar a Igreja e o mundo a crer que a não-violência é possível, que o amor é politicamente relevante e que a justiça do Reino começa no coração, mas não termina nele. Sua memória recorda que a verdadeira profecia não nasce do ódio que divide, mas do amor que, mesmo ferido, insiste em reconciliar e reconstruir a história.



Fonte: “Um olhar sobre a Cidade” – Dom Helder Câmara – Editora Civilização Brasileira – 2ª edição - Ano 1977



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Anônimo
27 de agosto de 2024 às 21:49

Escrever sobre dom Helder Câmara significa, recordar um dos grandes personagens da história da humanidade, que lutaram através da não-violência ativa (ou como Helder definia: violência dos pacíficos) por um mundo mais humano e justo. Segundo ele, é recordar de que somos capazes de sonhar por um mundo melhor. Por fim ficamos com este pensamento de Dom Helder: “Só homens que realizam em si a unidade interior, só homens de visão planetária e de coração universal serão instrumentos válidos para o milagre de ser violentos como os Profetas, verdadeiros como o Cristo, revolucionários como o Evangelho, sem ferir o amor."

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CIDADÃO DO MUNDO, NORDESTINO COM ORGULHO, Brazil
Blog formativo e apologético inspirado em 1Pd 3,15. Aqui você não vai encontrar matérias sentimentalóides para suprir carências afetivas, mas sim formações seguras, baseadas no tripé da Igreja, que deem firmeza à sua caminhada cristã rumo à libertação integral e à sua salvação. Somos apenas o jumentinho que leva Cristo e sua verdade aos povos, proclamando que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6), e que sua Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Nossa Missão: promover a educação integral da pessoa, unindo fé, razão e cultura; fortalecer famílias e comunidades por meio da formação espiritual e intelectual; proclamar a verdade revelada por Cristo e confiada à Igreja, mostrando que fé e razão caminham juntas, em defesa da verdade contra ideologias que nos afastam de Deus. Rejeitamos um “deus” meramente sentimental e anunciamos o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo: Misericordioso e Justo o qual ama o pecador, mas odeia o pecado que destrói seus filhos. Nosso lema é o do salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome daí glória” (Sl 115,1).

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