por*Francisco José Barros de Araújo
O Papa Bento XVI ofereceu a chave interpretativa essencial ao afirmar que o Vaticano II deve ser lido segundo a "hermenêutica da continuidade", isto é, dentro da mesma Tradição viva da Igreja.
O Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos mais importantes da história recente da Igreja Católica, convocado por João XXIII com a intenção de promover uma renovação pastoral e concluído sob o pontificado de Paulo VI. Seu objetivo nunca foi alterar a doutrina católica, mas torná-la mais inteligível ao homem contemporâneo, mantendo plena continuidade com a Tradição apostólica.
Contudo, como ocorreu com praticamente todos os Concílios da história da Igreja, o Vaticano II também se tornou objeto de debates, questionamentos e diferentes interpretações. Isso não constitui uma novidade histórica, mas faz parte do próprio dinamismo da vida eclesial. A história eclesiástica mostra que praticamente todos os grandes documentos da Igreja enfrentaram dificuldades interpretativas em algum momento.
Isso ocorre por uma razão muito simples: a linguagem humana é sempre limitada, condicionada pelo tempo, pela cultura e pelas circunstâncias históricas em que os textos são escritos. Nenhum documento eclesial, por mais preciso que seja, consegue escapar completamente dessa limitação natural da linguagem.
Nesse sentido, a existência de possíveis ambiguidades não significa necessariamente erro doutrinal, mas muitas vezes apenas a necessidade de desenvolvimento posterior da interpretação, algo que sempre aconteceu na história da teologia.Esse princípio vale inclusive para a própria Sagrada Escritura. Diversas passagens bíblicas exigiram séculos de reflexão teológica para sua correta compreensão. Um exemplo clássico é a afirmação de Cristo no Evangelho de Evangelho de João:
"O Pai é maior do que eu" (Jo 14,28)
Essa passagem foi usada por hereges arianos para negar a divindade de Cristo. No entanto, a Igreja, especialmente no Concílio de Niceia, esclareceu sua correta interpretação: Cristo é igual ao Pai em natureza divina, mas na Encarnação assume condição humana, na qual se coloca em atitude de obediência ao Pai.Outro exemplo são as aparentes tensões entre fé e obras nas cartas de São Paulo e São Tiago, que durante séculos exigiram aprofundamento teológico para evitar interpretações erradas.
Esses exemplos mostram uma verdade fundamental:
-Ambiguidades aparentes sempre existiram nos textos religiosos e sempre existirão, porque a linguagem humana nunca consegue esgotar-se explicando "completamente a amplitude" dos mistérios humanos e divinos
O ponto central, portanto, não é a existência de dificuldades interpretativas, "mas quem possui a autoridade legítima para resolvê-las"?
E aqui está um princípio essencial da eclesiologia católica:
A interpretação autêntica não pertence a indivíduos isolados, nem a grupos particulares, nem mesmo a clérigos agindo por conta própria, mas ao Magistério da Igreja, a quem Cristo confiou a guarda e interpretação do depósito da fé.
Como afirma a constituição Dei Verbum, a interpretação autêntica da Palavra de Deus foi confiada exclusivamente ao Magistério vivo da Igreja.Isso significa que nem teólogos individualmente, nem movimentos, nem grupos tradicionalistas ou progressistas possuem autoridade para declarar um Concílio inválido ou contraditório. Essa autoridade pertence somente à própria Igreja docente.Foi exatamente nesse contexto que Bento XVI apresentou o princípio da hermenêutica da continuidade, mostrando que eventuais dificuldades devem ser resolvidas dentro da Tradição viva e não através da rejeição.
AS 4 CONSTITUIÇÕES CONCILIARES
I - Sacrosanctum Concilium (1963)
-Tema: Liturgia
Pontos principais:
-Participação ativa dos fiéis
-Comentário: Não significa protagonismo humano, mas participação espiritual consciente no mistério celebrado.
2)-Uso do vernáculo
-Comentário: Permitido como auxílio pastoral, mas o latim nunca foi abolido pelo texto conciliar.
3)-Centralidade da Eucaristia
-Comentário: Reafirma a "Missa como sacrifício", não apenas como assembleia.
3)-Reforma litúrgica gradual
-Comentário: O documento pede prudência, algo nem sempre respeitado nas reformas posteriores (a regra básica é: leia o que está em negrito e faça o que está em vermelho).
II - Lumen Gentium (1964)
-Tema: Natureza da Igreja
Pontos principais:
1)-Igreja como povo de Deus
-Comentário: Não substitui a estrutura hierárquica, mas a complementa.
2)-Vocação universal à santidade
-Comentário: Grande contribuição pastoral ao lembrar que santidade não é só para religiosos.
3)-Colegialidade episcopal
-Comentário: Deve ser entendida sempre em união com o primado do Papa.
4)-Primado de Pedro
-Comentário: O documento "reafirma claramente" a autoridade papal.
III - Dei Verbum (1965)
-Tema: Revelação divina
Pontos principais:
1)-Unidade entre Escritura e Tradição
-Comentário: Corrige a ideia protestante de Bíblia isolada da Tradição.
2)-Magistério como intérprete
-Comentário: Reafirma autoridade doutrinal da Igreja.
3)-Inspiração bíblica
-Comentário: Confirma a verdade das Escrituras naquilo que Deus quis revelar para nossa salvação.
4)-Importância da Bíblia
Comentário: Incentiva leitura bíblica fiel à interpretação católica.
IV - Gaudium et Spes (1965)
Tema: A Igreja no mundo moderno
Pontos principais:
1)-Dignidade da pessoa humana
-Comentário: Base da doutrina social moderna da Igreja.
2)-Problemas sociais
-Comentário: Mostra preocupação pastoral com a realidade concreta.
3)-iálogo com a modernidade (atitude de escuta)
-Comentário: Diálogo não significa aceitação acrítica.
4)-Família
-Comentário: Reafirma o matrimônio como fundamento social.
OS 9 DECRETOS
V - Ad Gentes (Missões)
-Comentário: Reafirma que a evangelização continua sendo a missão principal da Igreja.
VI - Presbyterorum Ordinis (Sacerdotes)
-Comentário: Recorda a identidade sacramental do sacerdote, não apenas sua função social.
VI - Optatam Totius (Formação sacerdotal)
-Comentário: Destaca a necessidade de formação espiritual sólida além da intelectual.
VII - Apostolicam Actuositatem (Leigos)
-Comentário: Valoriza a missão dos leigos "sem clericalizá-los".
VIII - Perfectae Caritatis (Vida religiosa)
-Comentário: Renovação sem abandono do carisma original das ordens.
IX - Christus Dominus (Bispos)
-Comentário: Reforça responsabilidade pastoral dos bispos em suas dioceses.
X- Unitatis Redintegratio (Ecumenismo)
-Comentário: Promove unidade dos cristãos sem relativizar a verdade católica, refutando o Falso Irenismo.
XI - Orientalium Ecclesiarum
-Comentário: Valoriza tradições orientais como riqueza da Igreja universal.
XII - Inter Mirifica (Comunicação)
-Comentário: Documento profético sobre influência da mídia.
AS 3 DECLARAÇÕES
XIII - Dignitatis Humanae (Liberdade religiosa)
-Comentário: Afirma "liberdade civil" sem afirmar igualdade doutrinal entre religiões.
-Tema debatido: Como harmonizar com ensinamentos anteriores.
-Chave interpretativa: Direito civil não significa relativismo teológico.
XIV - Nostra Aetate (Religiões não cristãs)
-Comentário: Busca diálogo sem sincretismo religioso.
-Ponto central: Reconhecer elementos de verdade não significa igualdade religiosa.
XV - Gravissimum Educationis (Educação)
-Comentário: Defende direito da família à educação moral dos filhos.
-Ponto importante: Educação é missão da Igreja e da familia, não só do Estado.
CONSTITUIÇÕES CONCILIARES: CRÍTICAS E RESPOSTAS DA IGREJA
I -Sacrosanctum Concilium
Pontos principais das críticas:
1)-Participação ativa dos fieis (antes: assistiam) como ativismo litúrgico.
2)-Uso do vernáculo
3)-Reforma litúrgica
II -Lumen Gentium
-Igreja como povo de Deus
-Colegialidade
-Escritura e Tradição
III - Gaudium et Spes
-Diálogo com o mundo
DECRETOS conciliares COM CRÍTICAS
IV - Unitatis Redintegratio
V - Apostolicam Actuositatem
DECLARAÇÕES DO VATICANO II MAIS DEBATIDAS
VI - Dignitatis Humanae
Talvez o documento mais criticado!
A crítica central feita pela FSSPX é que Dignitatis Humanae pareceria contradizer ensinamentos anteriores do Magistério, especialmente os dos papas Pio IX e Leão XIII sobre a relação entre Igreja e Estado e sobre a liberdade religiosa. Os críticos apontam especialmente documentos como:
-Quanta Cura (Pio IX – 1864)
-Syllabus Errorum (Pio IX – 1864)
-Immortale Dei (Leão XIII – 1885)
-Libertas (Leão XIII – 1888)
Segundo a interpretação da FSSPX, esses documentos ensinariam que:
-O Estado ideal deveria reconhecer oficialmente a religião católica.
-O erro religioso não possui direitos.
-O indiferentismo religioso deve ser rejeitado.
-A liberdade religiosa, entendida como direito moral ao erro, seria falsa.
Já Dignitatis Humanae afirma que: "A pessoa humana tem direito à liberdade religiosa."
Isso levou a FSSPX a afirmar que existiria uma contradição entre o ensinamento tradicional e o Concílio.
O ponto específico da discordância
A divergência não está tanto na doutrina sobre a verdade religiosa, mas na forma como se entende o conceito de direito à liberdade religiosa.
A FSSPX entende que o documento poderia ser interpretado como afirmando que todas as religiões teriam um direito positivo igual perante Deus, o que seria incompatível com o ensinamento tradicional de que apenas a verdade tem direitos em sentido moral. Além disso, também existe a crítica de que o Concílio teria abandonado a doutrina do Estado confessional católico como ideal.
A resposta oficial da Igreja
A resposta do Magistério posterior, especialmente desenvolvida por Bento XVI e João Paulo II, baseia-se numa distinção fundamental que resolve a aparente tensão:
Direito moral à verdade ≠ direito civil à imunidade de coerção
Ou seja, a Igreja continua ensinando que:
-Só a verdade tem direito moral pleno.
-A Igreja Católica é a única Igreja fundada por Cristo.
-O erro não possui direitos enquanto erro.
Mas o Concílio aborda uma questão diferente:
O direito civil da pessoa humana de não ser coagida pelo Estado em matéria religiosa.
-Ou seja, Dignitatis Humanae JAMAIS AFIRMOU que todas as religiões são igualmente verdadeiras.
-Mas afirma que: "ninguém deve ser forçado a agir contra sua consciência em matéria religiosa".
O desenvolvimento doutrinal segundo Bento XVI
A explicação mais aceita hoje dentro da teologia católica é que se trata de um desenvolvimento doutrinal, não uma contradição. O próprio Bento XVI explicou que houve um aprofundamento na compreensão da relação entre verdade e liberdade, especialmente à luz das experiências históricas do século XX, como os regimes totalitários. A Igreja passou a enfatizar mais claramente que:
-A adesão à verdade deve ser livre.
-A fé não pode ser imposta pela força.
-O ato de fé exige liberdade.
Isso já estava implicitamente presente na tradição, mas foi explicitado de forma mais clara no Vaticano II.
A posição teológica mais comum e aceita entre teólogos católicos hoje, é que:
-Os ensinamentos do século XIX tratavam da ordem moral ideal.
-O Vaticano II tratou da "ordem jurídica moderna" em sociedades pluralistas, e já não mais com a predominância Cristã como fora no passado.
Ou seja: O ensinamento não mudou em sua substância, mas houve um desenvolvimento na aplicação prudencial conforme as circunstâncias históricas.
Um ponto importante frequentemente esquecido
-O próprio texto de Dignitatis Humanae afirma explicitamente: "Esta doutrina não prejudica a doutrina católica tradicional sobre o dever moral dos homens e das sociedades para com a verdadeira religião."
-Ou seja: O próprio documento afirma continuidade do ensino tradicional de sempre.
Pode-se resumir a discussão assim:
-Crítica FSSPX: Existe contradição doutrinal.
-Resposta oficial da Igreja: Existe "desenvolvimento doutrinal legítimo".
-Chave hermenêutica proposta por Bento XVI: "Reforma na continuidade"
Observação teológica importante: Mesmo teólogos plenamente fiéis ao Magistério reconhecem que Dignitatis Humanae é um dos textos que exige maior precisão interpretativa justamente por tratar de temas que envolvem:
-filosofia política
-direito natural
-teologia moral
-história das relações Igreja-Estado
Isso mostra que a existência de debates teológicos sérios não é algo anormal na história da Igreja, mas parte de seu processo normal de aprofundamento.
Ou seja: O Concílio fala da "imunidade de coerção civil", não da verdade religiosa.
VII - Nostra Aetate
Crítica: Risco de sincretismo religioso
Resposta: Reconhecer "elementos de verdade" não significa igualdade de religiões.
Principais supostas "ambiguidades" apontadas pelos críticos na Nostra Aetate
1)-Liberdade religiosa
2)- Ecumenismo
3)-Liturgia
4)-Igreja e mundo
RESPOSTA OFICIAL MAIS IMPORTANTE DO MAGISTÉRIO PÓS CONCILIAR
O discurso chave foi o de Bento XVI em 2005 sobre a Hermenêutica da reforma na continuidade, ele distingue:
Esse discurso é considerado a resposta mais contundente e cabal às críticas sobre rupturas no Vaticano II
POSIÇÃO ATUAL DA IGREJA SOBRE OS CRÍTICOS
-A Igreja reconhece: Algumas críticas surgiram por abusos reais.
-Mas rejeita veementemenete e irrevogavelmente, a Conclusão de que o Concílio seja inválido. O diálogo com a FSSPX continua até hoje buscando reconciliação.
Talvez uma das maiores provas da natureza divina da Igreja seja exatamente sua capacidade de atravessar crises internas sem perder sua identidade. O Vaticano II, como outros Concílios da história, também passou por períodos de recepção difícil.
-O Concílio de Niceia também foi contestado.
-O Concílio de Trento também foi combatido.
Isso faz parte da história da Igreja. O problema nunca foi a existência de debates. O problema sempre foi quando o debate se torna ruptura.
A resposta da Igreja sempre foi a mesma ao longo dos séculos:
-Reforma sim! Ruptura não!
O Vaticano II deve ser entendido dentro dessa lógica histórica da Igreja que cresce como organismo vivo. A posição equilibrada exige reconhecer três fatos:
-O maior risco talvez não esteja nas críticas, mas nas polarizações. Quando o Concílio vira bandeira ideológica ele deixa de ser evento eclesial. A verdadeira leitura católica exige três virtudes: prudência, fé, e obediência dialogada, não cega.
-O futuro da interpretação do Vaticano II provavelmente será decidido não pelos mais barulhentos, mas pelos mais fiéis.Porque no fim da história da Igreja, quem realmente interpreta os Concílios não são os polemistas.São os santos!
E o verdadeiro critério sempre será:
Se uma interpretação produz isso, provavelmente está correta.Se produz divisão, provavelmente precisa ser revista. O Vaticano II não pertence nem aos progressistas nem aos tradicionalistas.Ele pertence à Igreja. E a Igreja pertence a Cristo!
Conclusão
Talvez uma das maiores provas da natureza divina da Igreja seja sua capacidade histórica de atravessar crises interpretativas sem perder sua identidade essencial. O Vaticano II não é o primeiro Concílio a gerar debates e certamente não será o último.
-O Concílio de Niceia enfrentou resistências, antes, durante e depois.
-O Concílio de Trento também enfrentou críticas, antes, durante e depois.
-O Concílio Vaticano I também foi alvo de controvérsias, antes, durante e depois.
Isso não enfraquece a Igreja. Pelo contrário, mostra sua vitalidade histórica.As dificuldades interpretativas fazem parte da história da recepção de qualquer Concílio. O verdadeiro problema nunca foi a existência de ambiguidades aparentes, mas a pretensão de resolvê-las fora da autoridade legítima da Igreja.É necessário reconhecer com serenidade:
-Ambiguidades textuais existem.
-Sempre existiram.
-Sempre existirão, pois a linguagem humana é limitada e condicionada ao tempo.
Não porque a Igreja erre, mas porque a linguagem humana é limitada diante das realidades sobrenaturais que tenta expressar.Nem mesmo a Bíblia escapa disso, e isso nunca significou falha da Revelação, mas necessidade de interpretação autêntica.
O verdadeiro ponto central nunca foi a existência de dificuldades interpretativas, mas a pergunta essencial:
"Quem tem autoridade para interpretar?" A resposta católica sempre foi clara:
-Não é o fiel individual.
-Não é o teólogo isolado.
-Não é um grupo.
-Não é uma fraternidade.
-Não é um movimento.
É exclusivamente a Igreja!
-2 Pedro 1, 20-21: "Sabendo primeiramente isto: Que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo."
-1 Timóteo 3, 15: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade."
-A Igreja como Magistério vivo.
-A Igreja como sucessora dos Apóstolos.
-A Igreja como guardiã da Revelação.
Quando indivíduos ou grupos assumem para si essa autoridade, mesmo com boas intenções, acabam inevitavelmente caindo no mesmo princípio do livre exame que a própria Igreja sempre rejeitou desde a crise protestante.
O princípio católico sempre foi diferente:
-A Revelação não é propriedade privada.
-Ela é patrimônio da Igreja.
O Vaticano II, portanto, deve ser compreendido dentro desse horizonte eclesial. Eventuais dificuldades não são resolvidas por rejeição, mas por aprofundamento. Não por ruptura, mas por maturação doutrinal. Não por polarização, mas por comunhão.
A hermenêutica da continuidade proposta por Bento XVI talvez seja hoje o caminho mais seguro exatamente porque evita dois erros comuns:
-O erro progressista de achar que tudo mudou
-E o erro tradicionalista de achar que tudo foi destruído.
A Igreja não vive de rupturas. Ela vive de continuidade viva.
No fundo, talvez o maior risco para a correta interpretação do Vaticano II não sejam as ambiguidades textuais, mas as atitudes espirituais erradas diante delas: a soberba intelectual, o espírito de facção e a tentação de julgar a Igreja a partir de critérios pessoais.
A história mostra que os momentos de maior confusão na Igreja nunca foram resolvidos apenas por debates, mas por fidelidade, humildade e santidade.
Porque no fim, quem verdadeiramente interpreta a Igreja não são os mais barulhentos:
-São os mais fiéis. Não são os mais radicais.
-São os mais obedientes. Não são os que mais criticam.
-São os que mais amam a Igreja bimilenar de Nicéia até o Vaticano II e documentos oficiais posteriores.
O Vaticano II não será corretamente compreendido apenas por análises acadêmicas, mas por uma redescoberta do verdadeiro espírito católico: amor à Tradição, fidelidade ao Magistério e unidade com o sucessor de Pedro.Porque no final, o critério definitivo nunca será ideológico! Será eclesial.
E a pergunta mais importante talvez não seja: Existem ambiguidades?
Sim! Existem e sempre existirão!
Estamos dispostos a interpretá-las como filhos da Igreja ou como juízes da Igreja?
Porque quem ama verdadeiramente a Igreja não procura motivos para romper.Procura caminhos para compreender!
E talvez essa seja a verdadeira hermenêutica da continuidade:
Não apenas um método teológico, mas uma atitude espiritual. Uma atitude de quem entende que a Igreja não é um objeto de análise externa, mas nossa própria Mãe na fé. E Mãe não se julga! Mãe se ama, se defende e se compreende.
Sobre a necessidade de "honestidade intelectual" no debate sobre o Vaticano II
Um aspecto que também merece ser mencionado com franqueza é a impressão, cada vez mais evidente, de que muitos dos críticos mais duros do Concílio Vaticano II não leram os documentos conciliares em sua íntegra, mas apenas repetem críticas de terceiros, muitas vezes baseadas em interpretações parciais ou até mesmo em acusações que não se encontram objetivamente nos textos oficiais.
Não é raro encontrar afirmações categóricas dizendo que o Concílio teria negado dogmas, protestantizado a Igreja ou relativizado a verdade. Contudo, quando se pede a citação precisa do documento conciliar onde tais afirmações estariam, frequentemente se percebe que tais acusações se baseiam mais em comentários, opiniões ou leituras ideológicas do que no texto real dos documentos.
Isso revela um problema sério dentro do debate: a substituição da leitura direta das fontes por narrativas prontas. Muitos acabam formando sua opinião não pelo estudo dos textos conciliares, mas por vídeos, recortes, frases isoladas ou interpretações já filtradas por uma determinada posição teológica.
Ora, qualquer crítica séria — especialmente em matéria tão grave quanto um Concílio Ecumênico — exige no mínimo três atitudes intelectuais básicas:
-Ler os documentos integralmente sem preconceitos, mas na busca da verdade.
-Compreender o contexto histórico e teológico
-Conhecer a interpretação oficial posterior do Magistério
Sem isso, o risco é cair em acusações levianas que não correspondem à realidade textual.
A tradição intelectual católica sempre valorizou profundamente a razão iluminada pela fé. Grandes doutores da Igreja como Santo Tomás de Aquino sempre insistiram que a busca da verdade exige honestidade intelectual, rigor e humildade. Criticar sem conhecer profundamente o objeto da crítica nunca foi considerado um método sério dentro da tradição teológica católica.
Nesse sentido, talvez o que falte em muitos debates atuais não seja apenas conhecimento teológico, mas uma virtude mais básica: honestidade consigo mesmo.
-Honestidade para reconhecer quando não se estudou suficientemente um tema.
-Honestidade para admitir quando se está apenas repetindo argumentos de terceiros.
-Honestidade para voltar às fontes antes de formar um julgamento definitivo.
Porque no fundo, a defesa da Tradição nunca pode ser feita à custa da verdade, pois a própria Tradição católica é inseparável da verdade. Defender a Igreja exige também defender a verdade dos fatos.
Talvez muitos críticos prestariam um serviço muito maior à Igreja se, antes de condenar o Concílio, assumissem o compromisso intelectual de lê-lo integralmente, com espírito de fé e com a mesma seriedade com que os grandes teólogos sempre estudaram os grandes acontecimentos da história da Igreja.
-O verdadeiro amor à Tradição não teme a leitura dos documentos.
-O verdadeiro amor à Igreja não teme o aprofundamento.
-O verdadeiro amor à verdade não teme a investigação honesta.
E talvez seja justamente isso que o momento atual mais precise: menos repetições automáticas de acusações e mais estudo sério; menos polêmica e mais profundidade; menos espírito de facção e mais espírito verdadeiramente católico.
Porque a verdade nunca teme ser estudada. E a Igreja também não, pois é sua guardiã!
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17
BIBLIOGRAFIA COMENTADA
-RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola.(Obra fundamental sobre fé e razão e fundamentos da teologia moderna)
-RATZINGER, Joseph. Teologia da Liturgia. São Paulo: Ecclesiae. (Explica a verdadeira reforma litúrgica)
-RATZINGER, Joseph. O Sal da Terra. São Paulo: Imago. (Entrevista sobre crise pós-conciliar)
-RATZINGER, Joseph. Relatório da Fé. São Paulo: Principium. (Análise da crise teológica após o Concílio)
-DE MATTEI, Roberto. O Concílio Vaticano II: uma história nunca escrita. Campinas: Ecclesiae. (Visão histórica crítica do evento conciliar)
-GHERARDINI, Brunero. Vaticano II: um debate a ser aberto. (Discussão teológica sobre ambiguidades)
-DULLES, Avery. Modelos de Igreja. São Paulo: Paulinas. (Explica eclesiologia moderna)
-CONGAR, Yves. Verdadeira e falsa reforma na Igreja. (Teologia da reforma autêntica)
-DANIÉLOU, Jean. Igreja dos primeiros séculos. (Contexto patrístico importante)
-LUBAC, Henri de. Meditação sobre a Igreja. (Eclesiologia profunda)
-GUARDINI, Romano. O Espírito da Liturgia. (Base da renovação litúrgica)
-BALTHASAR, Hans Urs von. Teologia da História. (Visão teológica do desenvolvimento da Igreja)
-MARITAIN, Jacques. O Camponês do Garona. (Crítica ao progressismo católico)
-MESSORI, Vittorio. Cruzando o limiar da esperança. (Entrevista teológica com João Paulo II)
-JOÃO PAULO II. Redemptor Hominis. Vaticano. (Base do magistério pós-conciliar)
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